A Hora #106 - O teatro dos Bolsonaro, o tango de Lula e a plateia de indecisos
Nesta edição do A Hora, Thais Bilenky recebe a cientista política Camila Rocha e fala sobre a pesquisa Ipsos/Ipec que trata da confiança do brasileiro nas instituições, a convenção partidária do PL que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro, a indefinição em Minas Gerais e mais.
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- Apoio de Ciro Gomes a Flávio BolsonaroVídeo de inteligência artificial de Bolsonaro · Javier Milei · Crise diplomática Brasil-Argentina · Uso de deepfake na campanha · Posse de Cássio Nunes Marques no TSE · João Barradas · Bolsonaro
- Contexto político de Minas GeraisSenador Cleitinho · João Barradas · Mateus Simões · Romeu e Romeu · Eduardo Cunha · Eleições estaduais
- Voto VolátilVoto por contraste · Desconfiança em Flávio Bolsonaro · Lula e a percepção de estabilidade · STF e Democracia · Idade de Lula · Caso do sicário
- Percepção pública e confiança institucionalÍndice de Confiança Social · Sistema eleitoral · Segurança Pública e Governo Federal · Presidente da República · Pesquisa Ipsos/Ipec
- Mercado de Trabalho BrasileiroExportação de commodities · Empregos de baixa qualidade · Políticas sociais universais · Pé de Meia
Salve, salve! Eu sou Thaís Bilenck e essa é A Hora, o podcast de notícias aqui do UOL. Toda semana a gente bate um papo sobre os principais assuntos do noticiário. Eita, cadê o Toledo? Toledo tá de férias, ninguém pode acusar a gente de estelionato. Isso foi muito bem avisado, eu saí semana passada e essa vez é dele descansar um pouquinho, mas semana que vem a gente volta ao batente. Mas eu não estarei sozinha, eu tenho a participação luxuosa de uma cientista política que ajudou a examinar os assuntos do noticiário dessa semana e da política nacional, que é a Camila Rocha.
Então tem muita coisa boa, vamos ao que interessa. O papel de coadjuvante de Flávio Bolsonaro. Luto e traições em Minas Gerais. Os sinais de alerta para Lula. A hora e a vez do voto frágil e sem paixão dos indecisos. E na hora extra desse sábado, a desconfiança dentro de casa. Quer entender o que aconteceu essa semana? Chegou a hora! No final de semana passado, sábado, houve a convenção do PL para formalizar a candidatura do Flávio Bolsonaro.
E está se falando dessa convenção até hoje que estamos gravando aqui na quinta-feira, mas não sobre o Flávio. Ele foi coadjuvante da própria convenção. O que que aconteceu lá que tá rendendo até agora? E por que que isso é importante de tratar num podcast uma semana depois? Aconteceu que primeiro ele fez um grande teste da Justiça Eleitoral nesse ano ao exibir um vídeo do pai dele feito por inteligência artificial simulando o ex-presidente Bolsonaro declarando apoio ao Flávio Bolsonaro.
Isso tá causando uma uma grande discussão jurídica sobre os limites do uso de inteligência artificial na campanha. E mais do que isso, tá testando os limites de até onde vai Cássio Nunes Marques na presidência do TSE em relação ao Flávio Bolsonaro. Então é uma discussão bastante relevante do que teremos nos próximos meses de campanha. E além dessa questão, tem a participação do Milei, Javier Milei, presidente da Argentina, que voou para São Paulo para subir no palanque do Flávio Bolsonaro.
E saiu insultando o Lula, presidente Lula, e o ministro Alexandre de Moraes do Supremo. Sobre o Lula, ele chamou de ladrão e presidiário, e o Alexandre de Moraes chamou de lixo careca por não ter permitido que ele visitasse o Bolsonaro na prisão domiciliar. Isso deflagrou uma crise diplomática entre Brasil e Argentina. O Lula vem tentando evitar responder, chegou a dizer quem é esse cara, e a diplomacia brasileira convocou tanto o embaixador do Brasil na Argentina quanto o embaixador argentino no Brasil para conversas para restabelecer as relações diplomáticas.
O objetivo sempre foi não deixar essa crise escalar, dada a importância da Argentina para o Brasil, seja do ponto de vista comercial, seja do ponto de vista regional. Enfim, é nosso vizinho e um país muito ligado ao Brasil historicamente. O Celso Amorim, né, que foi chanceler e é assessor de assuntos internacionais do Lula, disse que é a maior crise desde a redemocratização. O ministro da Fazenda ainda chamou o Milei de palhaço, Dario Durigan, e o Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral, chamou ele de caricatura patética e puxa-saco do Donald Trump.
O Milei vem fazendo inúmeras postagens, provocações e ataques e críticas ao governo Lula nessa tentativa de regionalizar a influência dele na América Latina, com uma relação estreita com os Estados Unidos, no momento em que a China entra com muita força na balança comercial do Brasil e da China, né? A China passou a Argentina entre os maiores destinos de exportação do Brasil, e na Argentina a mesma coisa. Está aí intrincada uma grande mudança nas relações bilaterais e regionais desses países.
Então a Convenção do Flávio ficou praticamente— o Flávio nesta convenção ficou quase esquecido. Em relação ao vídeo do Bolsonaro especificamente, o Alexandre de Moraes, por ser relator do processo que levou à prisão do Bolsonaro, questionou a defesa se ele havia autorizado a fabricação desse vídeo de inteligência artificial ou não, porque disse o Moraes já nessa primeira decisão que se tivesse autorizado, ele estaria descumprindo novamente as decisões da justiça que impedem o Bolsonaro de se comunicar, seja por qualquer via, redes sociais, através de interlocutores.
Então isso poderia levá-lo de volta ao regime fechado na cadeia. E se não tivesse sido autorizado por ele, se a campanha do Flávio tivesse feito esse vídeo ele estaria incorrendo no uso de deepfake, que é essa tecnologia da inteligência artificial que cria conteúdos inexistentes. E o deepfake foi proibido pela legislação. Então, de qualquer forma, a campanha poderia ser responsabilizada. Ao mesmo tempo, a oposição entrou com uma ação na Justiça Eleitoral, no TSE, contra o vídeo do Flávio Bolsonaro com o pai inventado por inteligência artificial.
E essa relatoria caiu por sorteio com o Cássio Nunes Marques, presidente do TSE, que está relatando quase todos os casos mais importantes que chegaram à Justiça Eleitoral até aqui. Então ele pode tomar uma decisão monocrática, individual, ou o caso pode acabar indo para o plenário e aí saberemos o entendimento mais amplo do TSE. O fato é que deepfake e inteligência artificial é o grande desafio dessa eleição, porque os candidatos vão usar à torto e à direita e a Justiça Eleitoral vai navegar pela primeira vez esses mares e precisa ter parâmetros mínimos do que que pode e do que que não pode.
Então esse teste feito pela campanha, se esse tipo de produção— o argumento do Cássio Nunes Marques inicialmente foi que o vídeo não prejudicava adversários, oponentes, não prejudicava ninguém, só visava beneficiar o próprio. Ao que chegou-se a dizer do outro lado que era propaganda antecipada, que não se podia ainda fazer. Então até onde o Cássio Nunes Marques, enquanto presidente do TSE, vai permitir conteúdos assim que estão numa zona cinzenta, que para alguns não tem nada de cinzenta?
Então o Marlon Monroe, jurista, por exemplo, diz que é absolutamente vedado pela legislação um tipo de conteúdo como esse. É um indicativo da postura, né, do TSE na eleição e também de quão aberto ele vai estar a esse tipo de testagem, né, da campanha do Flávio Bolsonaro durante as eleições. E sobre o palco da convenção, também se tem algum tipo de respaldo? Porque o Flávio Bolsonaro chegou a esse momento sem Alianças formais com nenhum partido, sem um nome a vice para subir no palco com ele.
Então o que ele fez? E com o desgaste acumulado da crise com a Michele Bolsonaro e a rejeição do eleitorado feminino a ele, então ele montou um teatro no palco da convenção que estava da seguinte forma disposto: ao lado dele, cercado por somente mulheres. Então ele tava acompanhado da esposa Fernanda, que fez um discurso lido tentando conectar com as mulheres, fazendo um discurso de mulher para mulher. Colocou um monte de outras mulheres mulheres, nem todas elas conhecidas, às vezes uma deputada do Amazonas com pouca visibilidade nacional.
Tava até a filha do Magno Malta, o senador que já saiu da cena bolsonarista há bastante tempo. A filha dele tava lá e ao seu lado estava Daniela Marques. A Daniela Marques foi presidente da Caixa Econômica Federal no governo do pai, Bolsonaro, e era braço direito do Paulo Guedes no Ministério da Economia durante todo o mandato. Ela se filiou ao Partido Republicanos e agora tá sendo cotada para ser a vice do Flávio Bolsonaro. A campanha gostaria de fechar essa aliança por ter uma mulher na chapa para tentar atenuar a rejeição e também para atrair o Republicanos e ter pelo menos um partido coligado.
No entanto, a direção nacional do Republicanos alegou que não foi informada da filiação da Daniela Marques e que não tem nenhuma tratativa avançada em relação ao apoio formal na campanha. Essa semana, esse episódio teve teve um desenrolar em Minas Gerais que é tão importante que a gente vai fazer um bloco só sobre isso, e muda um pouco a posição do Republicanos nessa parada. Fato é que ainda não tem nenhum anúncio formal colocado, e o Flávio Bolsonaro tentou de novo fazer outro teste, além do teste da Justiça Eleitoral, testar Daniela Marques como um nome para subir no palanque com ele.
Depois do vídeo do Bolsonaro fake, né, o vídeo de inteligência artificial, ele diz, ah, eu preciso de um momentinho aqui para me recuperar. Dani, fala umas coisas enquanto eu me recupero. Tentando ser espontâneo, não sei se com sucesso, ele coloca ela para falar. Ela fez um discurso voltado às mulheres, falou da condição dela de mãe, mas diz que as mulheres não são frágeis, não precisam de assistencialismo. Enfim, ela tentou testar, ensaiar um discurso para uma mulher numa chapa do Flávio Bolsonaro.
E a Michele Bolsonaro, que aceitou os pedidos de desculpas dele dias antes, não topou ir para convenção. Então ele fez toda essa cena para substituir ou compensar a ausência dela, Michele, numa situação política que ficou um pouco mal parada. O nome que tá aí sendo levantado, caso a aliança com republicanos não se formalize, é o da Priscila Costa, que é vereadora em Fortaleza pelo PL, principal aliada da Michele Bolsonaro no PL Mulher quando ele existia, tá como deputada federal, assumiu uma suplência, e seria o nome da Michele na chapa.
Ainda não temos a posição do Flávio Bolsonaro sobre essa possibilidade, mas existe um movimento para tentar viabilizá-la. Seria aí uma mudança de cena, mais uma mudança de cena. Então teremos a convenção do Lula no domingo agora. Várias outras convenções aconteceram ao longo dessa semana formalizando os quadros. O Flávio Bolsonaro tem até o dia 15 de agosto para inscrever a chapa com o nome de vice formalmente. O prazo de convenções é até dia 5 de agosto, mas ele ainda teria 10 dias depois disso para formalizar a chapa completa.
Tá uma corrida ainda para tentar viabilizar alianças, o que nos leva, Minas Minas Gerais, onde o ex-governador Romeu Zema, que se lançou candidato a presidente, está atrás nas pesquisas no próprio estado dele. O Lula e o Flávio Bolsonaro empatados tecnicamente na Quest que saiu essa semana. O Zema lá atrás, e o Zema também sem candidata ou candidato a vice. A chapa que tá sendo formalizada e já teve até convenção do Alckmin formalmente vice do Lula, é essa, é a do governo.
E as outras ainda estão sofrendo um quadro de indefinição. Minas Gerais essa semana teve muito fortes emoções. Então vamos para terras mineiras entender o que que tá acontecendo por lá, se é que isso é possível. Não foi só o Flávio Bolsonaro que fez vídeo de inteligência artificial essa semana. O Cleitinho, senador pelo Republicanos de Minas Gerais, publicou um vídeo em que ele encontra o pai dele e o irmão caçula que acabou de morrer no mês de julho.
E eles estimulam, incentivam que ele siga em frente em nome de Minas Gerais, num abraço que foi entendido aí como um sinal do Cleitinho de que ele estaria disposto sim a ser candidato a governador do estado de Minas Gerais. Essa definição dele tá se arrastando há meses já, e quando ele faz essa sinalização, a resposta do partido do Republicanos, do presidente nacional Marcos Pereira, a resposta foi: tarde demais, agora a gente já partiu para a próxima, a gente precisava da sua, pelo menos da sua convicção, e não deu para esperar.
O Cleitinho alega que como ele perdeu o irmão, ele tava, tá de luto e tava sem cabeça para formalizar a candidatura, mas que ele tá disposto e que ele vai seguir em frente. O Marcos Pereira, no meio tempo, porém, se aproximou de uma outra articulação, e aí começa a grande tragédia grega que se passou em Minas Gerais essa semana. O Marcelo Aro é um político que já está há bastante tempo em atuação em Minas, mas ainda com pouca visibilidade nacional.
Mas no estado ele tem sido bastante presente. Ele foi secretário de governo do Zema durante o mandato. O Zema saiu para disputar a presidência e assumiu o Mateus Simões que é o atual governador, que se filiou ao PSD e tinha um acordo com o Aro dele sair candidato pelo Partido Progressista a senador na chapa. Então ia sair o Carlos Viana, que também foi para o PSD junto com o Mateus Simões, e o Marcelo Aro. E ainda tinha algumas outras composições para fazer.
Essa era a chapa. E o Mateus Simões não avançando nas pesquisas de intenções de votos. No meio da indefinição, o bolsonarismo tava querendo subir no palanque do Cleitinho, que o Cleitinho tá disparado na frente nas pesquisas. E o Cleitinho naquela de não sabe se vai. O Marcelo Haro passou a negociar com o PL do Flávio Bolsonaro, com o Republicanos do Cleitinho e com União Brasil, com o qual o PP é federado, e anuncia no dia seguinte a esse vídeo do Cleitinho, e que o Republicanos diz tarde demais, sinto muito, anuncia que sairá ele candidato a governador com uma articulação com esses partidos que confirmam a proximidade com o Marcelo Haro.
Então ele era um aliado que decide trair à luz do dia o Matheus Simões e isolá-lo, porque agora ele ficou sem partido para coligar. E o Marcelo Aro chega com bastante tempo de televisão e bastante musculatura política, com apoio de muitas prefeituras, vereadores, prefeitos, cabos eleitorais. Esse é o argumento usado agora, inclusive pelo Republicanos, do Marcos Pereira, e também pelos outros partidos, do PL, a dizer que tarde demais, Cleitinho, agora não dá, porque eles já estão encaminhados.
Inclusive, a expectativa é que o nome que seria vice, é um ex-prefeito de Minas que seria o vice do Cleitinho, do Republicanos, seja o vice do Marcelo Haro nessa nova chapa que vai vir com a força da máquina, apesar dele ter saído. E hoje o Matheus Simões e o Marcelo Haro se encontraram, é um encontro bomba no estado, na política mineira, e vai exonerar aí mais de 500 cargos ligados ao Marcelo Aro no governo de Minas. Então é um rompimento total e isso balança tudo nesse estado que é central e decisivo nas eleições nacionais.
É o segundo maior colégio eleitoral do país e é onde os presidentes que venceram as eleições venceram também, né? Então até aqui, desde a redemocratização, quem vence em Minas acabou levando no país a eleição geral. Mas independentemente disso, o fato é que Minas tem um eleitorado muito diverso e heterogêneo e Piauí é o mais próximo do que se tem do Brasil, com votos de direita, votos de esquerda, votos indecisos a serem disputados.
Então é uma eleição muito importante. E essa jogada dessa semana mudou muito o cenário, porque você tem um Marcelo Haro lá atrás nas pesquisas, embolado junto com ele o Matheus Simões, atual governador, o Gabriel Azevedo, que é um quadro do MDB. Eles eram todos do mesmo grupo político, esses três, mais o Alexandre Kalil do PDT, ex-prefeito de Belo Horizonte, que rompeu com o Lula, tinha rompido com a Aécio, depois rompeu com o Lula e sai candidato agora também por conta própria.
Eles eram os 4 de um mesmo grupo e foram rompendo entre si ao longo dos anos. Então eles estão todos embolados. E você tem a campanha do Patrus Ananias, deputado federal do Partido dos Trabalhadores, que vai sair também. Quem faz a campanha, o marqueteiro da campanha do Patrus Ananias, é o Vitor Colares, que é um marqueteiro que era ligado a essas outras pessoas. Ele foi marqueteiro do Kalil, ele era próximo do Gabriel Azevedo naquilo que se conheceu lá atrás como Turma do Chapéu, que era um grupo de jovens políticos próximos ao Aécio Neves, no tempo do governo do Aécio Neves.
Basicamente é uma grande cisão de um grupo que tá agora se enfrentando nessa eleição. Eu conversei com gente de todas as chapas praticamente, e o cenário que dá para tirar disso é que essa musculatura com que aparece o Marcelo Haro de repente, né, tendo feito uma negociação durante semanas para atrair esses partidos, e aparece com tudo muito amarrado ao trair publicamente o ex-aliado, tende a levá-lo para segundo turno. As pessoas estão vendo a candidatura dele mais competitiva do que a do Matheus Simões, que já não estava empolgando nas pesquisas, e agora sem aliança tem um tempo de TV somente correspondente ao do PSD, do partido dele.
O Zema não vai servir como um grande cabo eleitoral, pelo menos no que indica-se até aqui, porque ele tá em terceiro lugar nas pesquisas, ele como candidato a presidente. Então, Matheus Simões, o governador, tá um pouco limitado, pelo menos na fotografia dessa semana. E aí você tem uma disputa aí de um segundo turno também do Gabriel Azevedo, do MDB, que é um quadro que foi presidente da Câmara Municipal. Ele é relativamente conhecido em Belo Horizonte e tem o Patrulha Ananias.
O PT, Partido dos Trabalhadores, tem uma rejeição altíssima em Minas Gerais. Desde o Fernando Pimentel, o partido nunca conseguiu se recompor. Por isso a insistência na Marília Campos, que era a prefeita de Contagem, que vai sair candidata ao Senado. Ela é um nome que conseguiu estourar de popularidade, tendo uma estratégia muito própria, né, de escapar do antipetismo mais visceral que tem em Belo Horizonte e no estado de modo geral.
Então o Lula queria que ela fosse a candidata, ela não topou, ela vai ser candidata ao Senado na chapa do Patrus Ananias. O Patrus é um quadro muito antigo, histórico do PT, foi ministro de desenvolvimento social na implementação do Bolsa Família, ele é um quadro importante no partido, foi prefeito de Belo Horizonte nos anos 90 e Ele tá esse tempo todo na política, agora como deputado federal, mas ele é desconhecido, sobretudo do público mais jovem.
Então ele vai ter que enfrentar, ele vai ter que se reapresentar, né, para o eleitorado e tentar contornar o antipetismo numa eleição que tava se desenhando para uma eleição de um candidato, né, o Cleitinho é uma figura que você não pode enquadrar como bolsonarista, porque ele vota, consegue votar com o governo e com o bolsonarismo, a oposição, sem se indispor muito com nenhum grupo de eleitorado. E é um cara que consegue se comunicar, ele tava atingindo um voto popular com sucesso, né?
Então é uma eleição que basicamente foi zerada essa semana para começar de novo. O Cleitinho disse que vai insistir, que vai tentar, mas isso foi lido com algum ceticismo no mundo político mineiro, como alguém que quer dizer: bom, eu não desisti, eu não fugi da briga, né? Eles que não estão me dando lugar, espaço, estão dizendo que é tarde demais. Porque é difícil o Republicanos, o partido dele, voltar atrás depois de ter dito que não dava mais tempo do Cleitinho sair candidato.
Quem é a figura importante que surge aí sem aparecer? É o Eduardo Cunha. O Eduardo Cunha quer sair candidato a deputado federal pelo Republicanos de Minas Gerais. Ele é muito ligado ao Marcelo Haro, o candidato. Quando ambos eram deputados e o Cunha ascendeu à presidência da Câmara, o Marcelo Haro era um dos aliados da tropa de choque. Eles são muito ligados. E o Eduardo Cunha tem uma relação em Brasília, um trânsito, essa articulação em nome do Marcelo Haro passou por Brasília, que é onde o Eduardo Cunha tem muita influência e consegue negociar.
O próprio Matheus Simões, o governador, deu uma entrevista nessa quinta-feira falando que isso era coisa do Republicanos do Eduardo Cunha, não do Republicanos do Cleitinho, né? Então você tem aí o Eduardo Cunha, que como a Polícia Federal revelou, distribuiu muita emenda para municípios mineiros e prefeitos mesmo sem ter mandato, né? Esse mesmo Eduardo Cunha tá no grupo que articulou essa mudança de cena total na campanha de Minas Gerais.
Isso pode ter muito impacto nacional, porque 1 milhão, 2 milhões, 3 milhões de votos para um lado ou para o outro pode mudar a cena toda. Então os próximos dias e semanas ainda vão ser quentes em Minas. A gente vai continuar acompanhando, mas agora temos coisas especiais Temos uma participação especialíssima agora na hora. Eu tenho alegria agora de anunciar que eu vou contar com a Camila Rocha, que é cientista política, pesquisadora no Cebrap, que é um dos mais importantes centros de pesquisa brasileira para entender o cenário político estrutural do país. Obrigada por ter vindo, Camila, que bom!
Obrigada a vocês, Thaís, pelo convite.
A gente recebeu do Monroi Axios, o instituto de pesquisa, a pesquisa do Índice de Confiança Social desse ano. É uma pesquisa muito importante, muito já longeva. Então a série histórica começa em 2009, o que é importante porque anualmente eles medem a confiança das pessoas nas outras pessoas, nos grupos sociais e nas instituições, e tira uma média disso, que é o que eles chamam de Índice de Confiança Social. A gente vai olhar para várias camadas dessa pesquisa, mas nesse primeiro momento é importante entender ver o que que tá na grande câmera.
O índice de confiança social tá estável relativamente em relação ao ano passado. O índice é de 55 em 2026, tava em 56 em 2025, 60 em 2024. Teve uma queda de 2024 para cá, mas comparado a 2022 ele teve só uma oscilação dentro da margem, que é 57 para 55. Esse é o índice que faz a média em relação à confiança nas pessoas e grupos sociais e nas instituições. E a gente vai olhar bastante para confiança nas pessoas na Hora Extra, que a Camila vai fazer junto comigo.
Então já fica o convite para vocês voltarem ao ar ao programa no sábado, quando sai a Hora Extra, porque tem uma análise sobre as relações interpessoais que acabam afetando muito a vida coletiva do país e, portanto, da política. Isso a gente vai fazer nesse outro momento. Mas nesse primeiro momento aqui é importante ver o que que aconteceu com as instituições. Então, a Márcia Cavallari é a diretora do Ipsos, com quem eu conversei, e ela faz o seguinte disclaimer assim: o Lula tá num limite de cenário em relação à confiança das pessoas.
Porque quando a confiança nas instituições está abaixo da média de 50 pontos— é uma pontuação que vai de 0 a 10, baseada no grau de confiança em cada um dos quesitos pesquisados— quando tá abaixo de 50, e quanto mais baixo, for o índice de confiança, mais risco a democracia corre. Basta dizer que em 2018 ele atingiu o menor patamar da série histórica, que foi 44. Então a gente tá 10 pontos acima disso do que estávamos em 2018.
Foi o ano da eleição do Bolsonaro, porque segundo a Márcia Cavallari faz essa conexão, quando as pessoas estão muito desconfiadas e desconfortáveis com as instituições, a tendência é que elas votem em alguém que mude tudo, né, num outsider, em alguma solução fora da mesa. E isso não é o que tá dado para essa eleição. 2022 estávamos em 56, agora estamos em 54. Então você tá num cenário que já foi pior, já foi melhor, ele tá no limite.
Nas palavras da Márcia, estão no limite. Algumas instituições chamam bastante atenção nesse indicador. Então olha isso, Camila, eu vou querer sua interpretação. As eleições, a confiança no sistema eleitoral e nas eleições, que voltaram a ser questionadas agora de novo pelo Flávio, pelo Eduardo Bolsonaro, depois da campanha toda do pai deles, né, contra o sistema eleitoral, voltaram a ficar abaixo da média. Então a confiança das pessoas no sistema eleitoral está em 48, ano passado tava em 50, em 2024 em 54, e em 2022, ano da eleição do Lula para o terceiro mandato, tava em 59.
Despencou 11 pontos desde então. Isso é um sinal de alerta importante. Por outro lado, a confiança no governo federal eleitoral caiu, mas caiu um pouco menos. Então, e só lembrando, em 2018 a confiança das pessoas no sistema eleitoral era em 33%, tava muito baixo. As pessoas votaram no Bolsonaro, a maioria das pessoas votou no Bolsonaro naquele ano. A gente tá, não estamos em 33, estamos em 48, mas é um sinal de alerta. A confiança das pessoas no governo federal está em 46%.
Em 2018 estava em 25 e pulou para 50 em 2019. Então a eleição do Bolsonaro deu uma guinada na confiança da população, só que desde então ela tá caindo. Depois até chegou a subir em 2023, depois que o Lula assume vai para 52, e vem caindo desde então um pouquinho, um pouquinho, tá em 46 agora. E a confiança no presidente da República está agora em 42, também abaixo da média de 50. Estava em 41 quando o Lula se elegeu e era o Bolsonaro presidente, subiu para 50 quando o Lula assume, mas agora já tá em 42.
E para manter essa comparação, a confiança no presidente da República em 2018, ano em que o Michel Temer era presidente e o Bolsonaro se elegeu, chegou a 13 pontos, que eu acho que é o menor indicador de todos os indicadores dessa pesquisa. Então a gente tem um cenário que tá colocado que mostra as dificuldades que o Lula tem perante um eleitorado, e o eleitorado são vários, é disso que a gente vai falar aqui. Aqui de um eleitorado, boa parte dele desconfiado, né, das instituições e daquilo que o governo representa em várias esferas, mas não tá num cenário de descrédito total a ponto de mudar tudo, virar a mesa e mudar as regras do jogo, né.
E Camila, você faz parte de alguns grupos de pesquisa que acompanham, né, fazem pesquisas qualitativas com exatamente eleitores que mudam de posição em vários assuntos, que são aquelas pesquisas que a gente fala de grupos focais, que vocês escutam demoradamente os eleitores para entender as motivações delas pensarem assim ou assado, né? Como que você coloca essas informações nessa perspectiva do eleitor, da pessoa pensando, o que que ela sente em relação ao governo e ao Lula?
Não, é muito interessante ter essas informações assim ao longo do tempo, né? Porque você vê que são variações muito bruscas de queda, né, e aumento de confiança, e que tem muito a ver realmente com essas flutuações políticas. Assim, do ponto de vista dos eleitores, hoje eu diria que assim, as pessoas, depois de terem experimentado o que foi o governo Bolsonaro, maior parte das pessoas, e às vezes até inclusive incluindo pessoas que ainda querem, né, a continuidade da família do Bolsonaro no poder, mas a maioria dos eleitores brasileiros hoje seguia muito mais mais por estabilidade e por segurança.
Então, ainda que as pessoas eventualmente queiram mudança, é como você disse, assim, acho que não é mais essa transformação radical. Isso você vai encontrar nos extremos, assim, né? Mas a maioria quer realmente uma proteção. Até porque, se a gente for pensar que a gente passou anos, né, com a pandemia, e muita gente teve perdas importantes, né, não só econômicas, né, mas de várias ordens durante esses anos. Então hoje as pessoas estão muito mais prezando a própria, a própria segurança e uma sensação de estabilidade.
Então é isso, ainda que possa vir, né, tem um desejo de mudança importante, mas é sempre uma mudança controlada, né, não uma coisa de vamos explodir tudo.
E por que que o Lula, o que que falta para ele mostrar para esses eleitores que eventualmente já votaram nele, podem, não estão decididos, enfim, a gente vai falar dos indecisos mesmo daqui a pouco, mas o que falta para o Lula convencer as pessoas de que ele significa essa proteção e estabilidade?
Então, eu acho que tem algumas coisas que as pessoas falam que estão relacionadas à própria personalidade dele, a conduta dele como presidente. Então, as pessoas em geral, isso inclusive de novo abrange até eleitores que não necessariamente simpatizam com Lula, mas que olhando, bom, ele é o nosso presidente, a gente espera que ele tenha uma postura de estadista, seja um homem sério que faça com que o Brasil seja respeitado lá fora, mas necessariamente se alterar, né, ou vamos dizer assim, parecer muito agressivo.
Então, por exemplo, as pessoas frisam muito essa ideia de que, olha, o Lula ele tem que representar o país e ele tem que proteger os brasileiros e o interesse dos brasileiros. E isso passa inclusive por proteger essa segurança material, né, que as pessoas desejam ter. Então assim, qualquer sinal de instabilidade, por exemplo, relacionada— às vezes as pessoas falam, ah, é porque Lula de repente fez uma bravata, um um comentário que não caiu legal, né, ou foi brincalhão demais, ou tudo que saia muito desse personagem, né, dessa figura estadista que as pessoas buscam, é visto com um certo, assim, receio.
E tem também uma certa fadiga, né, para usar uma palavra que você usou quando a gente conversou antes do programa, em relação às bandeiras dele, né. Elas não causam o impacto que elas já causaram, então as pessoas também estão um pouco sem ter a que se agarrar para eventualmente votar a favor do governo. É isso?
Exatamente. Assim, a maior parte do eleitorado no Brasil, até a gente lembrando sempre que, né, a maior parte dos eleitores no Brasil são pessoas mais pobres, né, vem com bons olhos as políticas sociais do governo. Agora, o ponto é que assim, o que sempre a maioria das pessoas fala para gente é assim, olha, o PT já ficou muito tempo no poder e a gente sente que, vamos dizer assim, as maiores mudanças foram feitas no passado. Passado e não hoje, né?
Então as pessoas sentem falta assim de alguma coisa que seja realmente que mude, né, a vida das pessoas de uma forma mais enfática, né? Por isso que vem esse desejo de mudança, mas uma mudança com estabilidade, né? As pessoas sempre têm medo de perder o que elas têm, o que elas conquistaram e tal. Então também tem um medo aí.
Agora, e o Pé de Meia, por exemplo, que foi um programa deste terceiro mandato, não surtiu esse esse efeito?
Não surte esse efeito, porque uma coisa que as pessoas falam muito para gente, Thaís, eu ouço muito, é uma demanda, na verdade, de mais do que programas, mas de mudanças no Brasil, de políticas que sejam universais. Então, sempre que a gente vai falar, né, sobre essas políticas focalizadas, tipo Bolsa Família, tipo Pé de Meia, as pessoas acham importante, mas elas acham que é pouco assim. E sempre fica essa coisa, isso eu sempre ouço assim, ah, por que que o meu filho não tem direito, né?
E o filho da vizinha tem. Por que que o meu filho que vai bem na escola tem direito e o outro que não estuda tanto tem? Fica sempre essa coisa do cobertor curto assim.
Quem que é esse eleitor que você tá falando? É alguém de classe D, E, C? Do que que é que a gente tá falando?
São eleitores que é a maior parte dos eleitores no Brasil, que são de faixa C, D de renda, né? Então são pessoas que assim, vamos dizer, tem desde gente que vai, não depende depende dos benefícios sociais, né, para sobreviver. Até pessoas que realmente dependem, mas a gente sempre tem que lembrar que as pessoas ficam oscilando, né. Então tem um momento na vida que você consegue não depender, mas logo depois você é demitido, acontece, ou você é um autônomo e baixa suas vendas, alguma coisa assim, aí você precisa recorrer.
Então as pessoas ficam nessa oscilação. A maior parte dos brasileiros vive assim, homens e mulheres, e no Homens e mulheres, assim, geralmente a gente, quando a gente faz pesquisa, essas pesquisas a gente faz no Brasil inteiro, né? São, é, e mas mesmo, mesmo os eleitores do Lula que estão meio desanimados, a gente pega muito esse sentimento também assim. Então geralmente a gente faz pesquisa nas grandes capitais, mas eventualmente em cidades do interior também, tá?
O Flávio, ele oferece essa sensação de proteção com mudança para esse Então, Flávio, na verdade, começou quando ele se lançou, né, candidato, ele começou como uma incógnita.
Então, quando a gente, né, começou a conversar com as pessoas sobre isso, as pessoas falavam para a gente, olha, a gente não conhece muito Flávio, então a gente vai ver agora, né, como que ele vai se mostrar nos próximos meses, a gente vai poder fazer uma imagem dele, fazer uma escolha. E aí é interessante porque assim, ao mesmo tempo E aí eu tô, agora sim eu tô falando desses eleitores que, né, não são necessariamente nem Lula nem Bolsonaro, que estão indecisos.
As pessoas olhavam para o Flávio e viam uma personalidade que era diferente da personalidade do pai. Então falava assim, bom, que a gente consegue perceber que ele parece menos agressivo, né, mais sério, mais comedido, né, não fala palavrão, esse tipo de coisa. Então na personalidade eram indícios para as pessoas de uma espécie de moderação, né, pelo menos no que tange a personalidade. Agora, sobre o que as políticas dele, isso é uma incógnita até hoje, assim.
Eventualmente eleitores que aí sim acompanham mais, que, né, querem votar na família Bolsonaro, vão trazer eventualmente coisas relacionadas à segurança, né, alguma coisa assim. Mas ainda assim, muito de forma muito enevoada, assim, muito. Você diria que as pessoas ainda estão muito pouco engajadas e quase despolitizadas assim em relação Eu acho que para além das pessoas estarem, vamos dizer assim, um pouco ainda prestando menos atenção, né, no cenário político, nesse sentido de, bom, a gente ainda não começou de fato, né, a campanha eleitoral, mas candidatos tão pouco ofereceu exatamente propostas que é porque se você for pesquisar as propostas do Flávio, também não vai achar muita coisa mesmo, né.
Nessa conversa com a Márcia Cavallari, analisando agora especificamente a situação do Lula, é interessante porque ela fez uma relação entre a confiança no presidente Lula em pesquisa feita pela Ipsos em junho e cruzou os dados com a confiança na presidência da República medidos pelo Índice de Confiança Social, e eles estão muito em linha. E aí ela fez, Camila, um levantamento interessante comparando os índices de cada presidente desde o Fernando Henrique.
Então ela era diretora do Ibope em 98, e naquele ano eles mediram a avaliação do governo Fernando Henrique em junho. Eu vou falar só os dados de junho, que foi o ano que ele disputou a reeleição. Ele tinha 32 de ótimo e bom, 22 de ruim e péssimo. Portanto, ele tinha um saldo de 10 pontos positivos, com uma intenção de voto de 36%, e se elegeu. Depois, o Lula em 2006, em junho, tinha um saldo de 16 pontos positivos, uma intenção de voto de 48%, e se reelegeu.
A Dilma em 2014 tinha um saldo negativo de 2 pontos, uma intenção de voto de 38%, e se reelegeu. O Bolsonaro tinha um saldo negativo de 24 pontos entre bom e ótimo e ruim e péssimo, e uma intenção de voto de 32%, e perdeu para o Lula naquela diferença mínima. Como tá o Lula em junho na medida do Ipsos? Ele tá com, tava em junho com um saldo negativo de 6 pontos e uma intenção de voto que variou entre os institutos de 36 a 40%.
Então é uma, olhando especificamente para esses indicadores, é uma interrogação. Ele tá com saldo negativo de 6, a Dilma tinha um de 2, mas não é algo como do Bolsonaro de 20 e tantos, né? Ele tá com uma intenção de voto razoável para esse momento, que permitiu a reeleição de vários outros dos incumbentes. Mesmo ele só perde para ele próprio em 2006, que ele tinha 48% de intenção de voto em junho. Mas ele tá aí numa situação bem limite mesmo, né?
E pelo visto ele tem que conseguir falar com essas pessoas que vão ser aquelas que podem entrar para o barco dele ou pular para o outro barco, com exatamente essas coisas. E você tava me contando também que uma coisa que aí é mais específico dos homens, né, que eles falam até de termos mais profundos da economia, mais estruturais.
Exatamente, Thaís. Assim, o que a gente ouve é que por um lado, né, se as mulheres focam muito, né, nessas questões da saúde, da educação, né, do posto de saúde, da creche, né, que estão assim mais do cotidiano, os homens tendem a falar com Claro, uma tendência, né, não é sempre, mas tendem a falar de questões, vamos dizer assim, entre aspas, mais estruturais, né. Então vão falar assim, olha, e essa é uma fala que eu comecei a ouvir muito desde o começo do ano, assim, ah, o Brasil não tem bons empregos porque hoje a gente se tornou um exportador de commodities, né.
Então, e aí eles vão falar, e muitos, inclusive muitas pessoas estão em regiões de exploração, né, ou de minérios ou de petróleo, acontece muito isso. Mas mesmo quando não estão, tem essa percepção de que, acho, principalmente não só de quem é mais velho assim, mas quem trabalha assim, vamos dizer, com alguma coisa relacionada a isso, de que o país tá ficando para trás, sabe? E de que não tem— as coisas podiam ser mais tecnológicas, as coisas podiam ser mais avançadas, né?
Tem essa sensação de que o Brasil é isso, tá ficando para trás assim, que tem um potencial muito grande, mas que não tá conseguindo atingir. Então Então a gente começou a ouvir muito essa fala assim de, olha, a gente tá virando de novo exportador de matéria-prima, isso é muito ruim porque a gente, né, vê que não tem bons empregos. Vai procurar emprego, até tem, mas são empregos ruins que pagam pouco, que tem, né, assim, não são empregos pra vida, né, vamos dizer.
Você fica um ano, fica dois, depois sai, vai, né. Então a gente, ah, o caixa do supermercado, não sei o quê e tal, mas não uma coisa que você tá agregando valor, né.
Ajuda a explicar porque que pleno emprego no Brasil não tá causando necessariamente intenção de voto, né?
Exatamente.
Muito bom. Bom, vamos continuar nesse assunto e falar da hora e a vez do voto sem paixão, né? Sem paixão e voto frágil. A hora e a vez do voto frágil e sem paixão dos indecisos. Você acompanha, como você tava contando, desde o início do ano eleitores que não decidiram ainda e como eles reagem a cada episódio semanalmente São pesquisas semanais com grupos de eleitores indecisos.
Isso, exatamente, Thaís. É uma pesquisa, na verdade, que ela é feita pelo Instituto Democracia em Xeque, né? E aí é legal dizer para quem tá ouvindo que essas pesquisas são todas públicas. Então quem quiser acessar é só ir no site do Democracia em Xeque e estão lá todos os relatórios, né, aberto para todo mundo ver. Então assim, é um grupo de pesquisadores, né, que vem fazendo essas pesquisas, coordenado pelo professor Esther Solano.
E uma coisa bem interessante é que assim, é legal a gente acompanhar porque são sempre os mesmos perfis, né, de pessoas que são entrevistados. Então a gente entrevista pessoas que votaram no Bolsonaro em 2018, depois votaram no Lula em 2022, e que agora realmente estão em dúvida entre votar no Lula e votar no Flávio Bolsonaro.
Esse é o perfil que vocês estão acompanhando?
Esse é o perfil que a gente tá acompanhando. Essas pessoas são geralmente, a gente pega, né, São Paulo, Rio de Janeiro, nas capitais, né, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e eventualmente Salvador, principalmente na região metropolitana, que que é, vamos dizer, né, são os estados em que os presidenciáveis gastam mais tempo, né, nesses estados durante a campanha.
São os mais populosos e onde tem mais voto para ser conquistado, né?
Exatamente. E onde eventualmente, né, uma virada pode fazer muita diferença, assim.
O que que tá na cabeça dessas pessoas, assim? Vamos pegar o noticiário dessa semana, né, que foi, já tem, já tem um relatório dessa semana. Então, a reconciliação Flávio e Michele Por exemplo, Flávio Bolsonaro e Michele Bolsonaro, ele pede desculpa, ela aceita, mas não vai na convenção. Como é que eles perceberam esse movimento?
Pois é, isso é bem interessante porque assim, isso dividiu mulheres e homens, né? As mulheres perceberam que essa, vamos dizer, uma tentativa de reaproximação, de reconciliação, né, entre o Flávio e a Michele, como positiva, porque elas pensam assim, ai, que bom, né, família tentando se reunir de alguma forma, né, nessa coisa as pessoas eventualmente brigam, mas depois voltam. Então elas viram isso como uma coisa mais positiva.
Agora os homens já olharam para isso como, ah, isso é um cálculo político, isso é estratégia, isso aí para aparecer, é uma coisa meio, meio falsa assim, meio forjada assim, sabe? Acho que embarcaram tanto nessa coisa, a família, história.
Em relação ao Lula, como que a gente vem de uma tentativa de negociação? Porque acho que A questão com o Milei e a Argentina não foi medida ainda porque aconteceu depois da pesquisa, né? Então, em relação ao Lula, vocês mediram primeiro a disposição dele em relação ao tarifaço.
Isso mesmo. Aí foi bem interessante porque teve uma convergência maior entre homens e mulheres, que é o seguinte, né? Como eu tava dizendo sobre segurança, nesse desejo que as pessoas têm de segurança material, a primeira coisa que as pessoas pensam é: bom, esse tarifaço pode afetar a minha vida, pode deixar as coisas mais caras, né? Eu posso ter alguma perda, alguma coisa nesse sentido. Então tem uma demanda desses eleitores de que o Lula realmente negocie até o fim, né, e de que não tem uma postura assim, vamos dizer assim, muito de afrontar o Trump, né.
Não, mas assim, da gente manter a nossa respeitabilidade, vamos dizer assim, né. Então a gente tem nossa soberania, não baixamos a cabeça, mas a gente vai negociar e não tem que ser assim, tem que se irritar, não tem que ser agressivo nem nada, porque o Trump é muito poderoso e pode realmente causar alguma—
E o Lula deu resposta exatamente a isso na quarta-feira. Ele falou, eles têm a maior, maior exército do mundo, armas de guerra, a gente não quer briga, eles vão vir com ódio, a gente vem com amor. Ele deu um Lulês aí, mas ele tava respondendo a isso assim, ninguém quer uma guerra com a maior potência do mundo. Ao mesmo tempo, vocês me diram o que que a idade dele desperta nesses eleitores.
Sim, eu acho que aí também teve uma convergência, as pessoas não são Não tenho uma desconfiança necessariamente de que o Lula pode ter algum tipo de senilidade por conta da idade ou que tá cansado. Acho que não, acho que passa muito mais do que as pessoas falam pra gente. É que, por exemplo, isso dele ter falado que talvez não participe dos debates, né, ou participe de poucos debates, isso pra algumas pessoas é lido como uma espécie de insegurança, porque de repente ele pode se descontrolar, ficar irritado, falar alguma coisa que não deveria ter falado.
Então as pessoas veem muito, acho que menos pela idade em si, mas talvez mais por, talvez assim, ah, porque ele já é muito experiente, ele talvez tenha já cansado de determinadas dinâmicas. Mas aí também é ruim para população, porque elas falam, não, a gente quer ter acesso aos debates, né, a gente quer ver assim. Então se ele não participar, vai ser ruim.
Já o Flávio Bolsonaro, que veio questionar as urnas, sugerir que a Venezuela tem uma ingerência sobre o processo eleitoral do Brasil, como que esses indecisos leram essa fala dele.
É, isso pode ser realmente um tiro no pé assim, porque não só obviamente porque do ponto de vista factual isso é muito ruim para democracia brasileira, certo? Mas entre esses eleitores isso traz uma percepção de que ele tá, vamos dizer, tentando ressuscitar o pai com todo o discurso contra as urnas e tal, e é percebido de forma muito negativa. Então as pessoas ficam assustadas, Ficam, teve gente até que falou, nossa, será que vai querer dar um golpe ou alguma coisa assim?
É visto realmente de uma forma muito negativa, inclusive porque assim, Thaís, ao longo do tempo, né, que a gente veio acompanhando, as pessoas sempre olhavam para o Flávio e falavam assim, ah, ele pode ser diferente do pai, né, porque ele não é o pai. Só que quando ele faz esse movimento, ele vai no sentido oposto, ele fala, não, eu sou realmente como meu pai, eu tô fazendo as mesmas coisas, tô tendo o mesmo comportamento. Então, por mais que eu não fale palavrão, pavrão, na prática eu tô sem tão radical quanto.
É, e aí aquilo que inicialmente ele despertou, que foi nessas pessoas entenderem que ele tem um comportamento mais moderado, mais suave, quando ele fala assim, tanto faz, né? Se ele é suave ou não, ele tá dando uma declaração que bota em xeque, para usar o nome do instituto, a democracia.
Exato. E ainda eu acho importante dizer que uma minoria desses eleitores indecisos, que quando vem ele falando disso, a gente tava falando desconfiança, né? Cria uma desconfiança. Então, ainda que as pessoas falem, bom, não necessariamente acreditam no que o Flávio tá falando sobre as urnas, mas cria uma desconfiança do tipo, ai, será, será que não vai ter algum tipo de interferência? Será que essas urnas— e isso é muito ruim, aquela pulga atrás da orelha, né? Exatamente.
É a desconfiança, é o que mede a pesquisa do Índice de Confiança Social. Acho que é tentar pôr em números, em régua, né? E que que vocês chamam de voto relacional em estado puro? Qual que é essa inclinação de voto que aparece aqui nessa semana? Mas que apareceu em todas as outras, né?
Sim, isso na verdade é uma, vamos dizer assim, é uma tendência mais de longo prazo que a gente observa entre esses eleitores. A gente tá pegando esses eleitores que realmente estão muito indecisos, mas isso eu diria dá até para a gente pensar para um eleitorado mais amplo ainda, que são pessoas que escolhem quem vão votar por contraste. Então você sempre, a primeira coisa que você coloca assim é falar, você não fala assim, nossa, eu quero muito votar no Lula porque tal coisa.
Não, você primeiro pensa por que que eu não devo votar no Flávio, por exemplo, por que que eu não devo votar no Lula, para depois pensar em coisas positivas do candidato que você vai votar. Então você sempre tá fazendo esse jogo de comparação entre um e outro e acaba sendo, as pessoas estão muito desengajadas, né, muito desanimadas assim.
Então você votar numa pessoa porque você desconfia da outra, você acha que a outra é ruim, é uma coisa, não é paixão por um lado, é um voto sem paixão, né, é um voto de exclusão que em geral que se faz no segundo turno, mas que já tá agora, né? Já vai se colocar. E ele depende também muito das notícias, dos acontecimentos daqueles dias, né? Como as pessoas reagem a determinada coisa pode indicar que ela pode ir para um lado ou para o outro, porque ela realmente não tá decidida e não tá convencida por nenhum deles.
Exatamente. Acho que é importante a gente destacar a fragilidade dessas oscilações que a gente observa. Então assim, uma pessoa pode estar mais inclinada para Lula numa semana ou num mês e depois começar a mudar de opinião a depender do noticiário, dependendo do que sair na mídia. Então é isso, por exemplo, né, vem uma notícia, né, a gente tava falando da Michelle junto com o Flávio, aí, né, isso, essas mulheres, ah, então de repente pode ser que ele realmente seja uma pessoa diferente. Aí depois vem a notícia das urnas, aí a pessoa falou, não, peraí.
Ou vem a foto, uma coisa que a gente examinou também, aquela foto que ele saiu com um sicário, né, que que era o capanga do Daniel Vorcaro, que morreu na cadeia, que era acionado pelo Daniel Vorcaro para intimidar jornalista, ex-marido de namorada, enfim.
Isso, esse foi um caso, por exemplo, muito interessante, porque também as pessoas ficaram amedrontadas de pensar assim, puxa, então além de ter provavelmente praticado corrupção, ele tem ligações muito mais perigosas, talvez com milícia, com— e aí isso é uma coisa que surge espontaneamente, as pessoas ligavam com o caso dele, sabe? Então são fatos que trazem lembranças, trazem sentimentos específicos. Então você vê, oscila.
Isso cai mais mal do que o caso Master em si, financiamento do filme do pai?
Ah, eu diria que sim, eu diria que sim, porque enfim, é triste falar isso, mas muitas vezes quando a gente vai falar com os eleitores sobre casos de corrupção, as pessoas têm assim um, ah, fala assim, olha, todos esses políticos, a maioria deles é corrupto mesmo, a gente não espera muito, né? Então assim, é meio que é quase como se você vê, o caso Master, é assim, a gente não esperava algo também muito diferente, sabe? Então é quase como mais do mesmo assim, ainda que eventualmente alguém pode falar, bom, sei lá, pelo menos o Lula não tava envolvido, então isso joga um pouquinho mais para o Lula, mas não é algo que faça uma diferença gritante.
Agora o caso do sicário é diferente porque é um tipo de crime que é associado com violência mesmo, né?
Então isso aí começa a pegar para as pessoas, desperta elas não uma certa anestesia em relação a mais um escândalo de corrupção, desperta nelas um medo de quem é essa pessoa que vai assumir o controle do Brasil.
Exatamente. Até pensando que é uma pessoa que diz colocar a segurança, né, em primeiro lugar como pauta principal. Quer dizer, tá associado, ou, né, parece estar associado com uma pessoa, né, desse tipo.
Então os outros candidatos não são nem testados, né?
A gente eventualmente, quando entrevista eleitores, né, de Goiás, o Caiado aparece bastante com mais força, força, mas é mais isso assim, porque como a gente pega eleitores de 30 a 50 anos, por exemplo, né, Renan Santos aparece mais entre jovens, então acaba nem pegando.
Então, para você, vamos fazer uma leitura mais macro aqui só para encerrar, para concluir. Esse voto indeciso que tudo indica vai definir eleição, vocês estão medindo exatamente aquele eleitor que é quem vai dar o voto de Minerva juntos, todos. O que que ele espera daqui para frente assim?
Qual que é o grande ponto Olha, o grande ponto deles, eu diria que é essa, essa, né, como eu disse no começo, essa necessidade de mudança. Todos eles falam muito em mudança, mas ao mesmo tempo com a manutenção de uma estabilidade, né, de uma segurança, de proteção. Então, por exemplo, quando eles, as características positivas que eles veem no Lula tem muito a ver com essa ideia de proteção, e com Flávio, positivo tem a ver com a mudança.
Só que no caso do Lula, essa proteção vem com cansaço de uma coisa que tá sempre igual e não muda e tal. E do Flávio com a desconfiança. Então é isso, por exemplo, a questão das urnas, puxa, a questão do sicário, já olha, né? Ou essa briga com a Michele, né? Uma coisa que fica. Então tem uma desconfiança bem grande assim de, bom, quem que é esse Flávio, né? O que que vai acontecer se a gente colocar ele na presidência?
Muito interessante, Camila, que bom. A gente vai continuar, vou voltar a fazer propaganda da Hora Extra porque a Camila tem uma pesquisa interessantíssima sobre bets e mulheres, a relação das mulheres com as apostas e consequências disso. E a gente tem muito dado da pesquisa de confiança social que vai ajudar a esclarecer vários fenômenos sociais que estão, e políticos, do momento. Mas por esses dois blocos, muito obrigada.
Obrigada, Thaís.
Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do noticiário. Se o Bolsonaro não tivesse perdido a eleição, ela não seria presidente do PL Michel tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu contar.
Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade.
Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de Michel.
Os filhos não consideram a madrasta como família. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou, e eu não tinha feito nada contra ele.
Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime, disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas as plataformas de podcast.
Essa semana não temos horário grácia, tá? Eu não vou fazer isso com o Toledo, né? Claro. Então a gente vai direto para os recaditos. O Vinícius Paes no YouTube tá pedindo para eu cantar, né, Vinícius? Eu vou cantar. Novo sem a moeda, tá? E sem o Toledo sou eu assim sem você. Caminhão sem diesel, Dark Horse em casa, caveira. É, eu sou eu assim sem você. Amei! Tamo junto, Vinícius! Manda mais que eu canto. Patrícia no Zap: Horácio avisa que a Samira é uma querida.
Eu concordo, querida e competente. Essa daí é boa, viu? Ficou fera o programa da semana passada. Maria Luísa no YouTube: é sempre muito bom ter as análises sobre a questão de segurança pública da Samira Bueno na hora. O feminicídio é um problema social e de segurança pública que todos os brasileiros e brasileiras devem combater. Falou e disse. Gustavo Solano no Spotify: parabéns pelo trabalho. Essas informações do mapa da violência do Brasil, principalmente em relação com os feminicídios.
É isso que precisa ser discutido e compartilhado com os brasileiros. Seguiremos nessa, Gustavo. E o Mateus no Spotify: edição de colecionador, ótima apuração e reflexão sobre a política do gás e a popularidade do governo. Nem preciso dizer que ouvir Samira Bueno é sempre muito interessante. Todos de acordo, gente. Antônio no YouTube: beleza, também estarei de férias por 2 semanas, compreendo, e desejo boas férias a vocês, merecem muito com tanta coisa para apurar, comentar e resumir.
Todos merecemos, Antônio, mas já recuperado, de volta e animados para essa loucura que vem por aí. Até semana que vem, com Toledo, com tudo. Beijo!
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