A Hora #105 - Lula dá um gás, Flávio mente pra sobreviver, fuzis explodem
Nesta edição do A Hora, José Roberto de Toledo fala sobre Flávio Bolsonaro, Lula e o programa Gás do Povo, e recebe Samira Bueno para discutir os dados da violência no Brasil.
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- Violência contra a mulherAumento de feminicídios · Tentativas de feminicídio · Ameaças e perseguição · Machismo e misoginia
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- Violência FiccáriaAumento de maus-tratos · Violência física · Abandono de incapaz · Pandemia de COVID-19
Opa, eu sou José Roberto de Toledo e esta é A Hora, podcast sobre notícias aqui no UOL. Toda semana a gente conversa sobre os principais assuntos do noticiário. Como vocês já puderam perceber, eu tô sozinho aqui hoje porque a Thaís Bilenck está desfrutando de merecidas férias em algum lugar distante, mas é só por uma semana. Na semana que vem a gente inverte, eu e ela volta. E daqui a duas semanas tudo volta ao normal, pode ficar tranquilo.
Então vamos lá para escalada, como a gente diz aqui no jargão. Lula dá um gás no eleitorado feminino, mas um Bolsonaro mente para embaixadores. Brasil mais seguro, para quem, cara pálida? A hora e a vez do fuzil universal. E na hora extra deste sábado Menos roubos, mais estelionatos. Quer entender o que aconteceu essa semana? Chegou a hora. Muito bem, a gente tá às vésperas das convenções partidárias que vão oficializar os candidatos a presidente, a governador, a senador, a deputado, etc., mas elas ainda não aconteceram.
E vocês vão poder explorar isso com a Thaís Bilenck no episódio da semana que vem. Antes mesmo, porém, de se tornarem candidatos oficialmente, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro adotaram uma estratégia de tentar consolidar o eleitorado que teoricamente eles já têm. Ou seja, estão preferindo garantir o voto daqueles que simpatizam com eles do que conquistar um eleitor novo, pelo menos nesse começo de campanha. Isso a gente observa facilmente pelas declarações e principalmente pelos atos dos candidatos.
Eu vou pegar um caso específico para mostrar como essa tarefa de consolidação e mobilização do eleitorado que já é teoricamente cativo é muito mais fácil para quem é o incumbente, para usar uma palavra que não existe em português, mas enfim, para quem tem, tá sentado na cadeira, quem tem o poder, quem tem a caneta, do que para quem está na oposição. Vamos pegar o caso do eleitorado feminino. Como a gente sabe, a maioria do eleitorado é composta de mulheres e tem uma diferença muito grande de intenção de voto entre mulheres e homens.
Segundo o Datafolha de junho, vai sair um novo nessa sexta-feira à noite, então vou estar um pouco desatualizado, mas a regra geral não muda. No Datafolha de junho, a diferença do Lula para o Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno era de 15 pontos entre as mulheres, ou seja, 15 pontos a mais de intenção de voto de eleitoras do sexo feminino em comparação às eleitoras que declaravam voto no Flávio. No eleitorado geral, a vantagem do Lula era de apenas 4 pontos.
Então vocês veem que O grande pepino para o Flávio Bolsonaro são as mulheres e ele tá aí desesperado às vésperas da convenção do PL caçando uma vice do sexo feminino, mas tá difícil, né, porque muitas estão rejeitando o convite. Vamos ver então o que que o Lula fez para tentar cativar, consolidar e mobilizar esse eleitorado do sexo feminino. Não é declaração, tem pouco a ver com apenas campanhas de marketing e muito mais com as ações que quem tá na cadeira tem o poder de fazer.
Eu tô me referindo a um programa específico chamado Gás do Povo. Eu fiz uma pesquisa e levantei alguns dados que mostram como esse programa é um programa acima de tudo para consolidar o eleitorado feminino. Vou explicar por quê. Até agora o governo já entregou 20 milhões de vale-gás, ou seja, 20 milhões de vales que a pessoa, os beneficiários, podem ir numa distribuidora de gás e trocar por uma recarga do seu botijão. Não significa que foram 20 milhões de consumidores diferentes, o programa começou em março, pode ter sido até alguém, né, fez a recarga mais de uma vez, mas O alvo desse programa são pessoas pobres, com renda inferior a 2 salários mínimos, e 90%, 9 em cada 10 das pessoas beneficiadas com direito a esse Vale Gás são mulheres.
O programa aparentemente é um sucesso, e eu estou me baseando não apenas nos dados declarados, seja pelo governo, seja pelo Sindigás, que é o sindicato das empresas distribuidoras, Mas principalmente por um embrólio involuntário que acabou acontecendo, né? Incrivelmente, a importação do vasilhame, né, dos botijões em si vazios da China, aumentaram quase 20 vezes no primeiro semestre desse ano por causa do aumento desse pico de demanda gerado pelo programa Gás do Povo.
Segundo as distribuidoras, não há botijão suficiente, pelo menos imediatamente, para atender esse pico de demanda. Os fabricantes de botijão nacionais estão até reclamando, tem uma kizumba entre eles ali, entre distribuidores e fabricantes. Mas o que importa aqui para gente é que essa falta de botijão, essa importação aí 20 vezes maior, mais de 500 mil botijões já vieram da China esse primeiro semestre, mostra que o programa Tá dando certo.
E por que que eu digo que ele é um programa voltado para o eleitorado feminino? Não é só porque 90% dos alvos são mulheres. Quando a gente olha os dados da PNAD, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios feita pelo IBGE, a gente vê que há incríveis 10 milhões de lares no Brasil, domicílios onde moram famílias, com o que a gente pode chamar de cozinha flex. O que é uma cozinha flex? É uma cozinha que tem fogão a gás, mas tem também um fogareiro ou um fogão a lenha.
Por que isso acontece? Porque o botijão é caro. Na média nacional, é R$114 o custo de uma recarga do botijão. Em algumas cidades, é mais de R$140, dependendo da distância. E isso, obviamente, é um problema para quem é pobre. O que acaba acontecendo? Uma parcela, como eu tô dizendo, bastante significativa, 10 milhões de lares, acabam recorrendo a uma mistura. Sei lá, faz o café da manhã lá de madrugada, esquenta o café com gás porque precisa de agilidade, rapidez para poder ir logo para o trabalho, e mas chega na hora do almoço tem que ficar catando graveto, resto de madeira, pedaço de carvão para fazer o almoço, porque não dá para gastar o gás, né?
Tem que poupar o gás para poder usar no outro dia de manhã. Então, do ponto de vista de quem usa, especialmente das mulheres, porque elas são 90% do alvo desse programa, é uma perda de tempo terrível você ter que ficar, você, os seus filhos ou netos, terem que ficar catando lenha para queimar, para fazer o almoço, para fazer o jantar. Então, poder usar gás poupa muito tempo da vida dessas pessoas, permite cozer os alimentos com muito mais rapidez, porque o fogo vindo do gás vai ser mais eficiente, e também evita a poluição caseira.
Porque, né, quando você faz cozinha, especialmente se é um fogareiro, se não tem chaminé, que a maioria dos casos você vai ter, tá inalando uma fumaça tóxica ali, a chamada poluição caseira. Então é um programa esse daí que eu tava, do Vale do Gás do Povo, que ele vai diretamente tentar cativar o voto dessa eleitora do sexo feminino pobre que provavelmente já votava no Lula ou tem intenção de votar no Lula. É mais, muito mais chance de ela ser simpatizante do Lula do que do Flávio.
Mas quando você cria uma condicionante que é a continuidade de um programa que te beneficia, a reeleição do presidente, esse eleitor ou essa eleitora que tá sendo cativada tem muito mais chance, primeiro, de transformar a intenção em voto de fato, ou seja, de sair de casa e ir lá votar no dia da eleição, e muito menor a chance dela trocar de candidato até o dia 4 de outubro. Então essa estratégia de consolidação e mobilização do eleitorado cativo, ela pode parecer assim pregar para convertido, né?
Mas é, a ciência política mostra, a coisa mais inteligente que você tem a fazer, especialmente numa eleição como é o caso dessa eleição presidencial brasileira, que tá como as anteriores muito dividida, muito rachada, né? Parte dos eleitores já tem um candidato preferencial, e mais do que isso, tem um candidato que não votaria de jeito nenhum, né? As taxas de rejeição tanto do Flávio quanto do Lula são maiores do que as suas taxas de intenção de voto.
Quando esse cenário está estabelecido dessa maneira, é muito mais, aspas, barato você consolidar quem já demonstra intenção em votar em você do que tentar mudar o voto de um adversário. Aí você vai dizer, mas isso não garante a eleição. De fato, isso não garante a eleição. Mas você vai deixar para buscar o voto daqueles 10 ou 15% de eleitores indefinidos ou volúveis, ou que não estão pensando em eleição, na véspera da eleição, justamente por causa disso.
Porque a gente usa esse termo volúvel, indefinido, mas eles não expressam realmente a realidade dessas pessoas que não têm candidato. Essas pessoas têm outras preocupações muito mais importantes na vida e por isso não definiram seu voto agora, nem vão definir seu voto agora. Elas só vão deixar para fazer isso na véspera da eleição ou no dia da eleição. Então é uma perda de tempo e de energia e de recurso você ficar tentando caçar esse eleitor agora.
E muito mais eficiente— isso aí tem uma ampla literatura na ciência política, o César Zucco tem um paper de 2013, por exemplo, mostrando os efeitos de curto prazo dessas políticas de de transferência de renda, políticas sociais para consolidar o eleitorado, do que você ou ficar buscando o voto do adversário ou ficar tentando correr atrás desse eleitor que só vai definir o voto na reta final da eleição mesmo. Então, nesse momento pré-campanha ou de oficialização das campanhas que a gente vai viver nas próximas semanas, duas semanas no máximo, nem chega a isso, é esse momento de tentar consolidar aquele que já vota ou que já tem intenção de votar num determinado candidato.
Isso não vale só para o Lula e para o Flávio Bolsonaro. Você pode ver a campanha que o Fernando Haddad tá fazendo em São Paulo. Ele tá privilegiando os eleitores também do sexo feminino, que aqueles que já têm mais predisposição a votar nele, né? Vai muito evento em ambiente universitário, onde ele tem mais chance de cativar o público. Enfim, é normal e é esperado que você gaste munição, energia, energia e tempo para ir atrás desse eleitor cativo no começo da campanha e deixa o eleitor mais indefinido para reta final da eleição.
Já o Flávio Bolsonaro tá tentando fazer a mesma coisa, só que em vez de atos, como ele não tem a caneta, com declarações. Mas esse é o assunto do próximo bloco. Bom, Flávio Bolsonaro fez jus ao sobrenome. Convocou embaixadores estrangeiros para uma conversa, como o pai já tinha feito na eleição de 2018, e assim como o pai, mentiu para eles. Disse que as urnas eletrônicas usadas no Brasil são feitas por uma pessoa, por uma empresa venezuelana, enfim, um monte de inverdades, falsidades, e isso gerou obviamente uma grande comoção uma reação contrária.
Mas por que que o Flávio fez isso correndo risco até de ser multado pela Justiça Eleitoral? Ele fez isso porque esse tipo de discurso agrada o eleitorado raiz bolsonarista. É a mesma tática do Lula, guardadas as devidas proporções, né? Em vez de ir atrás de um eleitor com o qual ele tá brigando, que é o eleitorado feminino, ele tá tentando consolidar o eleitorado que acredita que as urnas eletrônicas brasileiras são fraudadas e que a justiça eleitoral é parcial e blá blá blá blá blá blá blá.
Qual que é a eficácia disso nesse momento? A se ver, né? É um caso que gera muita discussão, gera exposição nas mídias sociais, gera reportagens, gera— as pessoas falam do Flávio. Como eu sempre digo aqui, a tática Maluf é uma das poucas verdades universais em qualquer eleição. Falem mal, mas falem de mim. Não tem nada pior para um candidato do que ele ser ignorado pela mídia e pelas redes sociais. Tá aí o Zema, que não nos deixa mentir, né?
Ninguém fala do Zema, o cara tá lá embaixo nas pesquisas de intenção de voto. Menor proporção, a mesma coisa acontece com o Caiado. Então, o Flávio, mesmo quando o noticiário é negativo, mesmo quando ele provoca um fato que pode gerar consequências ruins para ele, ele tá conseguindo colocar o nome dele em evidência, porque Se não for isso, ele vai ficar em evidência pelo quê, né? Quais são as grandes propostas do Flávio que vão comover o eleitorado a ponto dele ganhar manchetes e isso mobilizar a opinião pública nas redes antissociais?
Ele faz isso, a meu ver, propositalmente, visando esse eleitorado mais radical. E daí vem uma onda de considerações, de opiniões e análises dizendo, mas o Flávio precisa do eleitorado de centro, do eleitorado moderado, ele não está fazendo o papel que a Faria Lima espera que ele faça, veja como ele não tá conseguindo o apoio dos outros partidos de direita. Tudo isso é verdade, mas o Flávio tá lutando pela sobrevivência na mão para boca.
Dia a dia, para não correr o risco de o eleitorado raiz dele começar a cogitar abandoná-lo. Então esse tipo de discurso que parece irracional, parece uma mera estupidez, ele pode ser parcialmente estúpido pelo conteúdo, mas como estratégia ele faz sentido, porque o objetivo é consolidar justamente esse eleitorado que, se ele perder, ele tá liquidado, né? Agora, quais as consequências disso? Esse assunto foi objeto de uma representação feita por um advogado junto à Justiça Eleitoral.
Então vai caber ao Tribunal Superior Eleitoral decidir se vai punir ou não o Flávio por colocar em dúvida a honestidade do sistema eleitoral brasileiro e das urnas eletrônicas. E quem vai comandar esse processo? Cássio, com K, o ministro do Supremo Tribunal Federal que está presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que foi nomeado pelo pai do Flávio, pelo Jair. E o Cássio, com K, vamos lembrar, quando o pai, o Jair Bolsonaro, mentiu para os embaixadores estrangeiros lá em 2022 sobre as urnas, ele não quis punir o Jair.
Ele foi voto vencido e não votou a favor da punição do Jair Bolsonaro nesse assunto. Então é de se esperar que ele mantenha a sua linha, que ele não vote por punir o Flávio por essa declaração. Mas e aí, isso significa que o tribunal vai calar e consentir com essa mentira? Vai engolir esse ataque às urnas eletrônicas? Difícil prever. E se jornalista erra previsão até para o passado, não vou me atrever a fazer uma previsão para o futuro.
Mas eu conversei com o meu consultor, o Alexandre Rolo, né, que vocês já estão acostumados, que eu cito sempre aqui no programa, que é um advogado especializado na justiça eleitoral. Ele diz, olha, Acho que talvez o ministro colega, também foi indicado pelo Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal, que também está no Tribunal Superior Eleitoral, que é o André Mendonça, deve acompanhar o voto do Cássio Nunes Marques. Mas os advogados, aqueles membros do tribunal que são representantes da classe dos advogados, devem votar pela punição.
É uma multa de R$30 mil que o Flávio receberia. Não é grande coisa, mas é simbólico e mostra a posição do tribunal. E aí a incógnita serão os representantes do STJ, Superior Tribunal de Justiça, que fazem parte do TSE também. Ou seja, vale a frase, o xiste, né? Bunda de criança, não se sabe o que sai. Tampouco das decisões dos nossos magistrados. Vamos ter que esperar. De qualquer jeito, vai ser muito muito simbólico se o tribunal engolir essa mentira e fazer de conta que nada aconteceu.
É um mau presságio sobre a condução que o Cássio Conká terá desse pleito, dessa eleição à frente do Tribunal Superior Eleitoral. Agora vamos sair de Brasília e ir para os estados para ver como é que tá a situação do Flávio, porque em Brasília ele tá— hoje eu tô gravando numa quinta-feira, No sábado tem convenção do PL, ou seja, nós estamos a menos de 48 horas da oficialização da candidatura do Flávio e até agora ele não tem um candidato a vice-presidente ou uma candidata a vice-presidente.
Tem várias cogitações, algumas do PL, outras do PP, do Partido Progressista, mas o PP já deu sinais de que não quer fechar coligação com o PL. Eu não vou ficar aqui especulando porque Quando vocês ouvirem, talvez essas decisões já estejam tomadas. Mas isso mostra, primeiro, a fragilidade das articulações políticas do Flávio, a incapacidade dele de fazer esse tipo de articulação. Como no mercado da política e dos partidos, o descrédito em relação às chances do Flávio são maiores aqui do que nas pesquisas eleitorais, né?
Tá mais ou menos como aquele Polimarket, aquele mercado de apostas sobre as eleições, né, que tem aposta sobre tudo, inclusive sobre as eleições eleições brasileiras e que o Lula tem mais de 60% de chances de vitória. Me parece que a classe política tá um pouco nesse tom, o que eu acho meio precipitado, porque se analisa todas as pesquisas, como eu disse, vai sair um Datafolha nessa sexta-feira à noite que pode me desmentir, mas não acho que vai acontecer.
O cenário que a gente tem é de estabilidade, tem uma pequena liderança do Lula, maior nas simulações de primeiro turno, maior na intenção de voto espontânea, e bem apertada na simulação do segundo turno, que como eu sempre digo não vale nada essa altura do campeonato. Mas ele também tem uma rejeição menor, mas pouco menor do que a do Flávio. Indica uma chance maior de vitória do Lula, mas não muito maior. Tudo indica que essa vai ser uma eleição muito apertada, que todo esse descrédito que os partidos, a Faria Lima, os investidores estrangeiros e seja lá quem for estão demonstrando em relação à candidatura do Flávio, talvez seja um pouco precipitado.
Mas enfim, o que interessa é qual que é o reflexo disso na política. Vamos pegar o maior colégio eleitoral do Brasil, que é o Estado de São Paulo. Aqui vai ser uma eleição praticamente de um turno só, porque você só tem dois candidatos fortes: o atual governador Tarcísio de Freitas, candidato pelo Republicanos, candidato à reeleição, e o Fernando Haddad do PT, que é o candidato da oposição. Fora isso, só tem microcandidato que, a não ser que haja uma revolução na política no Brasil, devem ter uma votação muito pouco expressiva, a ponto de permitir que o vencedor entre o Tarcísio e o Haddad consiga se eleger eventualmente até já no primeiro turno.
Todas as pesquisas mostram favoritismo grande para o Tarcísio. Mas vamos esquecer, o Haddad teve o melhor desempenho de um candidato do PT a governador na eleição de 2022 aqui em São Paulo, né? Bateu o recorde. E se ele conseguir repetir isso esse ano, já tá muito bom, especialmente para o Lula, que vai ter um palanque forte aqui. O Flávio vai pegar carona na candidatura do Tarcísio, mas você vê, o Tarcísio é aquele aliado que não pode, ao contrário do Flávio, não pode ficar mirando só no eleitorado ideológico radical do bolsonarismo.
Ele tem que fazer de conta que ele é um moderado. Então, quando indagado, por exemplo, sobre essa declaração mentirosa do Flávio sobre as urnas eletrônicas, ele falou que confia nas urnas, né? Agora vamos para o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, que é Minas Gerais. Lá a situação se inverteu. Até algumas semanas atrás parecia que o Lula tinha o principal problema em Minas Gerais, porque que ele não tinha candidato. O candidato que ele queria não queria ser candidato.
Ficou enrolando, enrolando, tentando ver se conseguia convencer o Pacheco a ser candidato. Não conseguiu e acabou optando pelo Patrus Ananias, deputado federal pelo PT, um veterano da política que, incrivelmente, para minha surpresa até, devo reconhecer, conversando com outros parlamentares da aliança do PT, do entorno do PT e do próprio PT, e outros candidatos lá em Minas Gerais estão se mostrando muito mais satisfeitos, ou pelo menos aliviados, com a definição da candidatura do Patrus.
Porque fala, bom, agora tem um nome, agora tem um norte, a gente sabe para onde a gente vai. O Patrus tem um perfil muito mais moderado, ele pode ser trabalhado como um candidato moderado que pode atrair um eleitor que não é eleitor petista, que não é eleitor de esquerda, pode ser um eleitor de centro. Vamos ver as primeiras pesquisas que ainda não saíram com o Patrus para ver se ele de fato vai conseguir incorporar esse papel.
E o Flávio Bolsonaro, por incrível que pareça e por incompetência, tá numa situação pior que a do Lula, porque ele não tem um candidato ainda definido em Minas Gerais. A gente tem nas pesquisas o senador Cleitinho disparado na frente, em primeiro lugar. Só que o Cleitinho diz que não definiu se é candidato ou se não é, e claramente ele tá empurrando essa decisão, vai tentar fazer essa, tomar essa decisão se vai se candidatar ou não depois da convenção do PL de Minas Gerais, o partido do Flávio, porque ele não quer ser o candidato do Flávio.
Claramente ele tá fugindo dessa pecha de ser o candidato do Flávio Bolsonaro em Minas Gerais.
Por quê?
Porque ele tem um eleitorado muito mais amplo que o Flávio. Isso pode atrapalhar o Cleitinho. Então ele tá adiando o máximo que pode essa decisão. E daí o PL de Minas, que ia fazer convenção agora, adiou também para o limite, data limite, para ver se o Cleitinho se definia antes. Então tá um empurrando para o outro para ver quem vai se definir primeiro. Se o Cleitinho for candidato, ele é o franco favorito. O candidato do Zema, né, o candidato da situação, tá muito lá embaixo nas pesquisas, tem muito poucas.
Mateus Simões, né, tem muito pouca chance. E vamos ver o Patrusco, que ainda não foi medido. Tem um candidato, tem outros candidatos ali, tem uma dúvida se o Kalil, ex-prefeito de Belo Horizonte, vai ser candidato ou não. Ele aparece um pouco melhor nas pesquisas, mas bem atrás do Cleitinho, mas também há dúvida. Enfim, tá uma situação de indefinição, mas pelo menos o Lula já garantiu um palanque e, como eu disse, os seus aliados em Minas estão aliviados com essa escolha.
Já o Flávio Bolsonaro não sabe se vai de Cleitinho ou se vai ter que lançar um candidato próprio do PL. Que se lançar vai ser talvez o Medioli, que é um outro veterano da política. São candidatos muito pouco populares que vão ajudar muito pouco o Flávio, caso ele não possa subir no palanque do Cleitinho. Tudo isso para dizer o seguinte: nesse momento de consolidação do eleitorado, como eu disse lá no começo, que já demonstra a intenção de votar nos principais candidatos, né, cada um com o seu, o Lula saiu na frente e o Flávio tá correndo atrás com grande dificuldade.
Bom, e no próximo bloco a gente vai conversar com uma convidada especialíssima, a Samira Bueno. A Thaís Bilencki não está entre nós, mas temos uma convidada especialíssima que vai me ajudar a fechar o programa, que é a Samira Bueno. Muito bem-vinda de volta. Ao A Hora, Samira Bueno.
Ei, Toledo! Salve, salve, Toledo, para cumprir a função da Thaís. Muito obrigado, obrigada pelo convite, sempre bom estar aqui.
A Samira tá aqui por vários motivos. Primeiro, porque ela acabou de divulgar o anuário, 20º anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, do qual ela é diretora executiva, não é isso? E que tem notícia, e ela vai nos ajudar, né, Thaís? Você vai ouvir o ato falho, você vê. Ô Samira, você vai nos ajudar a entender porque as reportagens, os títulos das reportagens que saíram hoje, quinta-feira, quando foi divulgado o anuário, são: diminuiu a violência no Brasil.
Ou não sei se dá para exagerar e falar: aumentou a segurança. Mas por que que, que que aconteceu? Que que, qual que foi a novidade? Que é tão difícil você ter uma novidade para o bem nesse assunto, né?
É, eu acho que, vamos lá, vamos começar, tô lendo, falando do copo meio cheio, né? E o copo meio cheio, enfim, a gente mostra no anuário que a gente teve uma redução no ano passado de 8% nas mortes violentas intencionais, né? O que que são essas mortes violentas? É um conceito que agrega os homicídios dolosos, os latrocínios, as lesões corporais seguidas de morte, os feminicídios e as mortes violentas em decorrência da atuação da polícia.
Só para explicar então, quer dizer, o fórum usa a tipificação criminal, né, o que tá no Código Penal, para— não é uma classificação, é diferente da classificação, por exemplo, da Saúde, que trata de outra maneira. Aí vocês estão pegando então, repetindo: homicídio doloso, latrocínio, que é o roubo seguido de morte, lesão corporal seguida de morte, tá? Quer dizer que é um cara começou a bater no outro e uma briga que acabou resultando na morte, na morte de alguém. O cara não planejou matar.
Exato. A morte em decorrência da intervenção da polícia e os feminicídios. Então esse é um conceito que agrega todos esses tipos penais, né?
Só lembrando, feminicídio é o assassinato de mulheres cometido em geral por alguém com quem ela tinha uma relação pessoal.
Isso, não exclusivamente, né? A legislação brasileira trata o feminicídio como uma morte que pode decorrer de uma relação afetiva, mas de modo geral ela envolve também o menosprezo à condição de mulher, né? Então a gente tá falando da misoginia, do machismo, é um crime de ódio. Então no agregado, quando a gente olha todos esses tipos penais, a gente tem uma redução de 8% nos assassinatos no Brasil se a gente puder usar um termo que tente englobar, dar conta de todos esses conceitos, né, que vamos chamar de assassinato, tá, do Código Penal.
Isso eu não me recordo de uma queda de 8% de um ano para outro, pelo menos no passado recente.
Pois é, é uma queda muito pronunciada, é de 8% no último ano e de mais de 30% desde 2012.
É uma tendência, é uma tendência.
Acho que é importante que se diga, né, a gente em 2012 vinha de um crescente na violência letal, ela chegou ao auge em em 2017. Em 2017, o Brasil registrou o maior número de assassinatos da história, com 64 mil mortes violentas. E esse número vem caindo, né? Começou a cair em 2018, tem ali um leve refluxo em 2020, os números crescem um pouquinho, voltam a cair. No ano passado, a gente teve 40.775 mortes violentas ou assassinatos, que são, digamos assim, 28 mil vidas que foram poupadas em relação ao pico de 2017.
Exato. Então para falar do copo meio cheio, essa é a boa notícia. A gente tá falando de vidas que foram preservadas e que, enfim, acho que o que a gente precisa destacar disso é que, embora essa seja uma boa notícia, é um quadro muito desigual ainda no Brasil, tá? Então a gente tem num extremo estados como Santa Catarina, São Paulo e Distrito Federal, que tem taxas de mortalidade inferiores a 10 por grupo de 100 mil habitantes.
Inferior a 10 é uma taxa europeia, né?
Isso, a gente pode considerar, tá exagerando, porque nenhuma taxa europeia, se você for pensar, Portugal, Espanha, é uma taxa de 2%, e a gente tem uma taxa de 8%, 9%, né? Então assim, não é exatamente uma taxa europeia, mas se a gente for considerar que mesmo com toda essa redução, Estados Unidos, por exemplo, em alguns contextos sim. Acho que os Estados Unidos é um outro país que tem um contexto muito desigual, que você tem locais em que a taxa chega a 0%, 1, e você tem locais em que a taxa ultrapassa 40 mortes.
A taxa brasileira hoje tá em 19 mortes por grupo de 100 mil habitantes, né, para ter uma ideia. Então uma taxa de perto de 8, em Santa Catarina, em São Paulo, né, 9 no Distrito Federal, é menos da metade. Só que a gente também tem contextos em que a taxa ultrapassa 40 mortes por grupo de 100 mil.
Ainda tem estados com 40?
Sim, que é o Amapá, que é o estado mais violento do país, pelo sexto ano seguido. A gente tem a Bahia, que não está em 40, mas tá bem elevado, tá em 36, né, por grupo de 100 mil habitantes. E de modo geral, se a gente tivesse que fazer uma divisão, eu diria que hoje a região Nordeste é a que mais preocupa, porque tem as maiores taxas de violência letal, seguida da Norte. E a gente tem as menores taxas no Sul e Sudeste. Então, do ponto de vista dessa evolução histórica que a gente tava falando, os lugares que primeiro foram mais violentos, especialmente os estados do Sudeste, né, se a gente for pensar os anos 90, eu tava lá, né?
Não precisava dizer isso, entrega um pouco a idade. Exato. Na verdade, eu tava desde os 80, mas enfim, quem tá contando. Nos 90, as reportagens que eu, particularmente, fiz muitas mostrando, por exemplo, um bairro aqui de São Paulo, Jardim Ângela, com taxa superior a 100 assassinatos por 100 mil habitantes.
Quer dizer, isso entrega um pouco a idade. Exato. Na verdade, eu tava desde os 80, mas enfim, quem tá contando. Nos 90, as reportagens que eu, particularmente, fiz muitas mostrando, por exemplo, um bairro aqui de São Paulo, Jardim Ângela, com taxa superior a 100 assassinatos por 100 mil habitantes. Quer dizer, isso em 1996, o Jardim Ângela foi considerado o lugar mais violento do mundo. São Paulo tinha em 99 mais de 12 mil assassinatos, hoje são menos de 4 mil.
O estado, isso, o estado. Então, especialmente São Paulo, Rio de Janeiro, mas também Minas Gerais e outros estados do Sudeste, tinha uma violência mais pronunciada nos anos 90, começaram a reduzir antes, e essa violência chegou depois no Norte, no Nordeste.
Isso tem a ver com o crime organizado? Porque coincidência ou não, nesse período você tem primeiro uma guerra entre facções, ou a inexistência de facções organizadas, Depois vem as facções, elas têm uma guerra para ver quem consolida poder, e daí você tem uma consolidação. Em São Paulo, PCC é monopólio. No Rio de Janeiro, Comando Vermelho, se não é monopólio, tá caminhando para isso. Essa Pax das facções pode ser responsabilizada, mesmo que em parte, por essa redução?
Certamente. Eu acho que quando— talvez São Paulo seja o estado que mais nos ajuda a pensar essa Pax, essa ideia de de um monopólio propriamente dito, né? Então acho que se a gente tiver que resumir rapidamente o que que a gente pode atribuir essa redução da violência letal, tem 3 explicações que a gente precisa necessariamente mobilizar. Uma é política pública, né? A gente tem de fato políticas, o Brasil foi desenvolvendo tecnologia, importante que se diga isso, né?
Porque quando a gente fala de violência parece que tudo é terra arrasada, mas a gente desenvolveu nos últimos 30 anos uma tecnologia e a gente sabe que funciona para reduzir violência letal, aumentar o esclarecimento de homicídios, fortalecendo o trabalho da Polícia Civil, prender homicidas com tumazes, focar programas de prevenção nessa população que é mais vulnerável, que são jovens pretos periféricos. Então a gente tem política pública que foi desenvolvida, a gente tem uma mudança brutal na demografia do país, ou seja, a população envelheceu, você tem menos jovens, e os jovens são as principais vítimas e os principais autores dos crimes.
Exato. Então você tem menos jovem na população, você necessariamente vai ter ter menos homicídios, né? A gente tem vários estudos que mostram, né, qual o percentual que o Brasil vai ter de redução. Se o Brasil não fizesse absolutamente nada, já teria uma redução significativa dos homicídios até 2030, baseado só na mudança da composição demográfica. Mas isso também é muito desigual, né? Porque essa mudança, ela tá acontecendo de forma acelerada no Sul, no Sudeste, em partes do Centro-Oeste, mas o Norte e o Nordeste ainda não se beneficiam dela.
O Norte principalmente.
Exato. E a gente tem a questão da facção, que no caso de São Paulo é um monopólio. Há mais de 30 anos.
Então, política pública, demografia e monopólio faccional.
Exato, você só tem um grupo, você não vai rivalizar com ninguém. Então você diminui o conflito e a violência.
Perfeito. Por que o Nordeste e o Norte ainda tem essas taxas tão altas de homicídio?
Bom, eu diria que essa dinâmica criminal que se relaciona a facções, né, e a própria lógica do tráfico de drogas e desses novos corredores logísticos que foram se formando, chegaram chegam, né, muito depois no Norte e no Nordeste, né. A partir dos anos 2000, a gente começa a falar de uma certa interiorização da violência por conta de novas rotas que vão sendo forjadas. Mas na última década, a gente tem uma transformação muito expressiva, né, em grande medida porque a gente tem ali entre 2016 e 2017 um desarranjo entre dois grandes grupos, que é o Comando Vermelho e o PCC.
Eles rompem um pacto de não agressão que eles tinham ali. Isso tem a ver lá com a morte do Rafá, né, o Rei da Fronteira, ali no Paraguai. E com esse rompimento dessas facções, o Comando Vermelho principalmente passa a buscar novas formas de fazer a droga circular, novas formas de entrada, especialmente da cocaína, no Brasil. E ele inaugura a Rota dos Solimões ali na região norte. Então isso faz com que, né, aí o Nordeste já vinha sendo bastante explorado, mas isso cria novos corredores logísticos.
Então quando a gente olha para distribuição da violência no Brasil hoje e olha especificamente para essas que são as mais violentas hoje, elas normalmente situam-se nesses corredores logísticos que são muito estratégicos para o tráfico, né, para o transporte da droga.
Você pode dar alguns exemplos dessas cidades?
Posso.
A gente tem Maranguape pelo segundo ano consecutivo na liderança. Isso é uma cidade da região metropolitana de Fortaleza, no Ceará, que atingiu a impressionante taxa de 100 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes.
Taxa de guerra, né?
Exato. A gente tá falando que Maranguape acumula uma taxa que é 5 vezes superior a média nacional. Muito preocupante, um enorme crescimento. A taxa de Maranguape no ano passado era de 70%, quando a gente divulgou o anuário, para o grupo de 100 mil. Agora cresceu muito para 100%. Exato. Então é a cidade mais violenta.
E é uma disputa entre facções?
A gente tem hoje no Ceará, né, na verdade mais ou menos tínhamos, né, o cenário que a gente analisa no anuário ainda dá conta de uma disputa bastante sangrenta entre grupos. Lá eles têm Comando Vermelho, GDE, Massa. Esse ano a violência começou a cair bastante no estado, e em certa medida, infelizmente, porque o Comando Vermelho tá conquistando um monopólio. Então é isso também, né? Acho que essa contradição que a gente falava antes, às vezes a redução da violência ela tem a ver com o fato de que um grupo passa a se consolidar como é o controlador daquele território.
Significa que o crime organizado tá mais forte ainda. Depois de Maranguape vem quem?
A gente tem é o Nápoles na Bahia, com uma taxa de 85 mortes por 100 mil. Maracanãú no Ceará, uma taxa de 80. Quarto lugar, Porto Seguro na Bahia, destino turístico. Exato, destino turístico que um monte de escola leva alunos, né, para as formaturas. É a quarta cidade mais violenta do país e a primeira se a gente for considerar só o indicador de letalidade da polícia. Então a cidade que a polícia mais matou no ano passado foi Porto Seguro.
Em quinto lugar, Simões Filho, na Bahia. Ou seja, 3 cidades baianas e 2 cearenses, uma concentração grande.
Agora, se a gente considerar os estados em que caíram as mortes violentas intencionais, quantos caíram e quantos subiram?
Caiu em 20 estados e subiu em 7 unidades da federação, com Rio Grande do Norte liderando. Rio Grande do Norte teve um crescimento de quase 20% das mortes violentas no ano passado, organizado também, também Tudo bem. E aí, de novo, infelizmente, normalmente esses choques, quando a gente fala de uma redução muito abrupta, né, ou de um crescimento muito expressivo de um ano para outro, normalmente isso tem relação com dinâmicas associadas às disputas de facção.
Então, por um período você tem uma certa acomodação das disputas desses grupos e o conflito cessa, mas quando as facções resolvem entrar em guerra, é muito difícil para as forças de segurança e para política pública conseguir essas mortes.
Rio de Janeiro subiu, cresceu, subiu, caiu, subiu, subiu.
Rio de Janeiro subiu, teve um crescimento de 2,5% das mortes violentas intencionais no ano passado, em grande medida por conta da Operação Contenção, né, que foi aquele massacre. Mataram 122 pessoas, são 117 civis e 5 policiais, né. Então a operação em que resultou maior número de civis mortos pelas forças de segurança e também tem o maior número de policiais assassinados.
Impressionante. Quer dizer então que a política de atirar na cabecinha faz aumentar e não diminuir a violência, a violência para todos os lados, né? Para os dois lados, tanto para policiais quanto—
Exato, exato.
Agora vamos falar um pouquinho sobre o copo vazio, mas tem outro dado que a gente vai tratar especificamente sobre ele no A Hora Extra, então, deste sábado. Já convido você que tá nos ouvindo a fazer um serão, né, e ouvir o programa no sábado, que é a redução dos roubos. Vamos tratar disso lá. Então, as boas notícias foram queda dessa letalidade geral das mortes violentas intencionais, queda dos roubos, mas teve um monte de notícia ruim, de coisas que aumentaram. O que que você destacaria no copo meio vazio?
Eu diria que essa violência que a gente tava falando, né, essa redução da violência letal ela não é para todo mundo, né? Então a gente falou mais agora inicialmente dessa dinâmica das facções, mas tem outros grupos que estão muito vulneráveis à violência. Aí eu destaco aqui as mortes de mulheres, né? Então a gente teve por mais um ano um recorde de feminicídios no Brasil.
Quer dizer, enquanto as outras mortes violentas intencionais caem, as mortes de mulheres por serem mulheres aumentam.
Pois é, a gente teve 1.571 feminicídios, né, mulheres de feminicídio no ano passado. Mas eu queria agregar esse dado com um outro, que é o da tentativa de feminicídio, que a gente tende a falar menos sobre isso, né? Então feminicídios cresceram 4%. É importante que se diga, é um crescimento muito acima da média. Então o Brasil vem registrando crescimento contínuo desse indicador, mas ele ficava em torno de 1,5%, algo muito mais baixo, mais do que o dobro.
Ano passado foi mais do que o dobro. E aí o que que acontece? A gente teve um crescimento de quase 6% das tentativas de feminicídio. Feminicídio, com 4.189 mulheres que quase morreram, escaparam por pouco. Então, e aí, para quem trabalha com isso e mais ou menos sabe o que que significa ser uma vítima de uma tentativa de feminicídio, a gente tá falando de lesões muito graves. Então a polícia ela só chega a registrar isso como uma tentativa de feminicídio normalmente com essa mulher com ferimentos que normalmente você olha, você fala, como é possível que essa mulher tenha indivíduo, né?
Então esse crescimento, né? E assim, quando a gente soma as 4.189 com as 1.571, a gente tá falando, né, de quase 7 mil mulheres, 6.800 mulheres, né, que ou perderam suas vidas ou quase perderam suas vidas em casos que poderiam ser evitados, né? Acho que isso é importante que se diga. Você tava comentando que na guerra de facção é muito difícil, é muito desafiador para polícia conseguir impedir essas mortes, né, quando as facções resolvem que elas vão conflitar entre si.
Dependendo da sua opção ideológica, você diga que se matem, né?
É, ainda tem mais essa. A gente teria que pensar o trabalho da polícia, né, fazendo essa gestão da segurança, da ordem, e tentando evitar.
E por que você disse que seriam evitáveis as mortes de mulheres?
Porque quando a gente fala do assassinato, né, do feminicídio, do assassinato de uma mulher por ser mulher, a gente tá falando de um crime que decorre de uma relação, né, estabelecida previamente. Então normalmente ela tem uma relação íntima com o agressor. Então é o parceiro, é o ex-parceiro, e é algo que muitas vezes leva anos numa escalada de violência.
É uma morte anunciada, é uma morte anunciada.
Então a gente até fez nessa edição do anuário uma espécie de funil para tentar mostrar o que que isso significa, né? Então a gente mostrou, por exemplo, que para cada feminicídio a gente tem 500 ameaças registradas.
Ameaças, isso quer dizer um parceiro, ex-parceiro, enfim, alguém, um homem em geral, né?
Vai falar assim: eu vou te matar, se você me largar, eu vou te matar.
Não é uma ameaça, vou bater, não, vou matar.
Eu vou te matar, ou eu vou te matar e vou me matar, ou eu vou matar os seus filhos, né? Que normalmente é isso que muitas vezes o agressor evoca para fazer com que essa mulher, por exemplo, desista do divórcio. Porque é comum que a mulher comece a sofrer violência, ela tenta sair da relação, e aí no momento que ela, né, tá ali um pouco mais encorajada Aí vem a ameaça.
Ameaça já é um estágio avançado, muito mais próximo do crime. Quantas ameaças para cada?
500 ameaças para cada feminicídio, 182 agressões físicas para cada feminicídio. A gente tem 84 descumprimentos de medida protetiva para cada feminicídio, né? Então 78 registros de stalking, que é o crime de perseguição, que é um fator preditivo para o feminicídio. Então normalmente essa mulher tá tentando se separar, ele fica perseguindo ela. E assim, eu tô falando isso de relações íntimas estabelecidas. Mas a gente também tem histórico, né?
A gente tem um caso recente de uma garota que começou a ser perseguida por um cara que frequentava academia dela, e ela enfim não tava interessada, ela não quis sair com ele, e ele invadiu a casa dela e desferiu uma série de golpes com faca. Ela, né, ela sofreu uma tentativa de feminicídio, ficou com o rosto todo lesionado simplesmente porque ela se recusou a sair com ele. Então normalmente essa é a dinâmica que a gente tem no feminicídio no Brasil, Quer dizer, a violência contra a mulher em geral tá aumentando, ou seja, todos os estágios, né, que dessa morte, todos os indicadores que a gente monitora relacionados à violência no âmbito doméstico cresceram.
E tem alguma explicação para isso?
Então, cresceram as mortes de mulheres e cresceram todas as formas de agressão a crianças. Então eu vou usar esse pacote para tentar explicar o que que tá acontecendo, né.
Então, em geral, essa violência contra criança também é em casa.
Isso, a gente tá falando de violências que têm muito a ver com que seriam instrumentos pedagógicos de correição. Então os maus-tratos, por exemplo, né, você deixa o seu filho ali ajoelhado no milho para ele aprender. Exato, você vai bater, né. Então essa coisa de uma agressão física severa para corrigir uma certa conduta. Então maior parte das vítimas ali tem especialmente de 5 a 9 anos quando a gente tá falando dos maus-tratos.
Maus-tratos, para você ter uma ideia, crescem 106% no Brasil de 2021 para 5, em apenas 4 anos dobrou. E crescem também os casos de, né, de agressão física propriamente dita, da lesão corporal, do abandono de capaz.
E os acusados ou os autores são em geral homens ou tem uma divisão grande com mulheres da violência contra criança?
Do que a gente consegue mapear hoje, são maioria homens, embora a gente também, claro, quando a gente fala de maus-tratos, a gente também identifique mulheres entre as Isso normalmente acontece no âmbito familiar, né? E as duas formas de violência, a violência doméstica contra mulheres e contra crianças, cresceu muito pós-pandemia de COVID-19. E aí a gente tem tentado, né, mapear um pouco quais são os fatores que têm impulsionado mais um lado e para o outro, né?
No caso das crianças, a gente percebe um certo reconhecimento social em relação a essa violência, porque a criança ela não vai buscar ajuda, ela não vai numa delegacia. Uma criança de 6 anos ela não sai de casa para ir denunciar o pai ou a mãe, né? Então se essas denúncias estão chegando na polícia, e a gente tá falando de registro policial, significa que a escola, que outros parentes, que redes de proteção de algum modo estão mais atentas, estão denunciando.
Pode ser um aumento só da notificação ou pode ser um aumento do fenômeno também?
O que tudo indica é um aumento do fenômeno também, porque quando a gente olha os dados de atendimentos no sistema de saúde, eles também crescem.
Entendi.
Então a gente tá falando de mais crianças que chegam lesionadas com violência física no sistema de saúde.
Você já explicou O porquê que a violência fora de casa diminuiu e por que que dentro ela aumenta? Existe alguma hipótese em geral cometida por homens?
Exato. A gente tem trabalhado com algumas explicações que superam a discussão sobre, né, o fato da gente não ter financeiramente recursos orçamentários suficientes para políticas para esses públicos, né? São temas que são ignorados do ponto de vista da implementação de política pública.
É aquela visão ainda de que se acontece dentro de casa não é problema do Estado.
Exato. Época eleitoral, todo mundo quer dizer que se preocupa muito com as mulheres, né? O que não falta é proposição legislativa no Congresso para enfrentar isso, mas o orçamento ele não aumenta. A gente não tem recursos, né, humanos para fazer essas políticas chegarem especificamente para as mulheres. A gente tem se preocupado muito com o crescimento desses grupos misóginos, machistas, e dessa machosfera que, né, funciona, opera na internet sem nenhum tipo de regulação.
Esses discursos de ódio que vão sendo disseminados 24 horas por dia, 7 dias por semana, são contagiosos e não ficam só no blá blá blá, chegam às vias de fato.
Porque a gente tá falando, não é à toa que as marcas, se você for pensar o marketing, né, paga milhões para o influenciador, uma Virgínia, por exemplo, fazer propaganda para uma marca qualquer, porque ela influencia comportamentos, certo? Então por isso que a gente chama de influenciador. Agora, e quando a gente tem influenciadores que são os influenciadores do mal, os influenciadores que estão dizendo que a mulher tem que se subordinar ao homem a qualquer custo, que uma mulher tem que ser punida.
E aí eu tô falando isso assim, né, especificamente sobre o contexto brasileiro, mas é um discurso de ódio e de misoginia, né, em relação à mulher, que nos Estados Unidos o debate é tirar o voto, né. Os Estados Unidos hoje estão debatendo se a mulher deveria votar.
Bom, temos um representante, um neto da ditadura, dizendo a mesma coisa sobre as brasileiras, né.
Pois é, a coisa ainda não pegou muito muito no Brasil, mas eu acho que é uma questão de tempo. Eles estão tentando importar.
Só para lembrar, quem falou isso foi o Neto do Figueiredo, que estava junto com Flávio Bolsonaro ao lado de Trump quando ele foi visitar a Casa Branca.
Ou seja, né, mulheres como cidadãs de segunda classe, né, rebaixando direitos que foram adquiridos. Então tem uma reação muito, né, uma reação muito violenta a esses direitos das mulheres rolando. Mas tem uma outra coisa que eu queria trazer aqui para nossa discussão, Toledo, que a gente ainda não tem pesquisas no Brasil associando isso, mas tem várias nos Estados Unidos, na Europa, que que mostram como a regulamentação desses jogos de aposta fixa, as bets, tem conexão com o aumento da violência doméstica. E aí isso se aplica tanto a mulheres quanto a crianças.
Pera aí, pera aí, que essa daí é uma grande novidade. As bets podem ter uma correlação entre o aumento do jogo online, principalmente nessas apostas esportivas, com aumento da violência dentro de casa?
Exato. A gente tem, por exemplo, nos Estados Unidos, estudos que mostram cresce 10 pontos.
Não é pouco, não é 10%, é 10 pontos percentuais. Exato. E isso porque vem de conflitos, aumenta os conflitos, porque quem joga é o homem, quem joga é o homem, o homem perde.
E aí ele chega em casa, falta dinheiro em casa, e aí os conflitos se instalam, né? Se a gente for pensar o contexto que a gente tem hoje, ele ficou frustrado porque ele perdeu, e aí às vezes ele fica muito frustrado. Aí o mecanismo causal é um pouco que a gente já falou, por exemplo, sobre futebol e violência doméstica, né?
A gente tem um estudo, perdeu o time, exato.
A gente tem um estudo que mostra quando perde o time da casa naquela cidade, você tem aumento dos registros de violência doméstica. Cara chega, né, tomou todas, exato, chega alcoolizado, tomou todas, o time dele perdeu, aí ele chega, esposa vai reclamar que ele chegou tarde, que ele chegou bêbado, aí ele vai lá e bate na esposa. Então assim, isso é um clássico, infelizmente, né?
E a Beth tá criando um novo clássico.
O problema é que a Beth esse clássico, porque além da frustração de ter perdido, isso compromete a renda da família, né? O jogo de futebol, ele fica pistola que ele, que o time dele perdeu, mas isso, isso não muda.
Não temos dados sobre isso no Brasil, mas já tem estudos estrangeiros mostrando essa relação causal.
Exato. Então acho que o nosso desafio agora é começar também a investigar isso. A gente tem agora os dados, né, nos últimos anos, Banco Central mostrando endividamento das famílias em decorrência né, da perda de dinheiro nesses jogos de apostas. A gente acaba de sair de uma Copa do Mundo, a gente não tem muita noção do tamanho do problema, mas, né, assim, Copa do Mundo, todos que estavam transmitindo os jogos estavam anunciando bets. Então é muito provável que tenha aumentado o canal de apostas.
Agora, Samira, a gente infelizmente já tá consumindo o nosso tempo aqui, embora voltaremos numa hora extra, mas eu não não queria que a gente terminasse sem falar sobre um aumento que é sempre preocupante, que é da letalidade policial. Ou seja, se a violência diminuiu, diminuiu para mim, né, branco, homem e tal. Agora, se é mulher, se é preto, se é pobre, essa daí provavelmente aumentou.
Exato. E na verdade, no ano passado a gente teve o maior número de toda a série histórica de pessoas mortas em decorrência de intervenções da polícia. Foram mais de 6.600 mortes, 18 pessoas mortas por dia. 18.
A polícia mata 18 pessoas, 18 brasileiros por dia.
Sim, essa é a nossa estatística, essa é a nossa estatística cruel do que a gente consegue mapear, né? Porque a gente sabe que tem vários estados que não registram isso da forma mais adequada. Isso é um crescimento muito expressivo, né, de 5,4% em apenas um ano.
Só uma dúvida, porque alguém vai fazer essa associação: ah, caiu a letalidade, caiu a morte, os assassinatos, e aumentou a letalidade social. Quer dizer, se a polícia matar mais, diminui os assassinatos? Isso é verdade, por exemplo, nos estados que a letalidade é muito alta, tipo Bahia, Rio de Janeiro?
Não, muito pelo contrário, né? A gente tem um crescimento da violência. O fato é que quando a polícia mata mais, ela também tá produzindo essa lógica da vendeta, né, e criando esses canais para vingança. Embora a gente tenha muitos políticos que gostem de capitalizar isso, dizendo que uma polícia mais eficiente é uma polícia que vai lá e aperta o gatilho, que produz muita morte. Se a gente for olhar hoje os estados mais violentos do país, Amapá e Bahia são os estados também que a polícia mais mata, entende, né?
Então acho que essa é a primeira coisa de se dizer, né, que é o contrário do que olhar o primeiro número sugere. Exato. Então uma polícia que mata muito, uma polícia que fica mais exposta, né, corre mais risco também de ser mais vítima vítima, mas que principalmente quando a gente olha para os estados mais violentos do país são aqueles em que a polícia mais mata. Entendi. Ponto. Então assim, isso já tem muitos anos que a gente tem delineado esse cenário.
Qual é o perfil da vítima dos policiais?
Jovens do sexo masculino, né, pretos e pardos e periféricos. Então a gente tá falando de um perfil, né, e especialmente jovens negros. Então a chance de um jovem negro morrer é 3 vezes e meia maior do que um jovem branco, por exemplo, morto pela polícia. Exato, morto pela polícia. Então é uma morte, ela tem cor, ela tem sepe, essa morte. E uma coisa que a gente alerta na publicação, Toledo, é que também do risco de se olhar, né, para essa violência da polícia como se fosse algo, acho que enfim, tropa de elite acabou criando nessa, essa ideia de que o Capitão Nascimento ele era violento, mas ele era o cara que tava do lado da lei.
Mas na prática, o que a gente tem visto também ao longo dos últimos anos no Brasil é é que quanto mais violenta é uma polícia, mais corrupta também ela é. E existe uma associação muito forte, porque isso vira, ainda mais com a difusão do crime organizado, essa lógica da violência policial, né, do direito de matar, dessa possibilidade de utilizar isso como um instrumento, vira algo muito valioso no mercado, é um ativo. Você cria redes de proteção.
A própria organização criminosa acaba cooptando parte da polícia para fazer o serviço sujo em seu nome.
Então é a polícia que começa a a combater um único grupo criminoso em detrimento do outro. Então, né, ah, vamos enfrentar o Comando Vermelho, mas as outras facções a gente não faz operação em território de outra facção. É vazamento de informações de operação para garantir que esses suspeitos eles vão escapar, eles vão escapar, né. Acho que o caso do Gritsba talvez seja o mais evidente, né, dessa morte por policiais encomendado por policiais.
Exato, ele é morto por policiais, mas veja, ele era um delator, ele lavava dinheiro para acontecer. Ele é acusado de homicídio e ele começa a ser achacado pela Polícia Civil. Aí ele resolve delatar, ele vira delator do Ministério Público e contrata uma escolta de policiais militares. E os próprios policiais militares envolvidos na escolta dele estão envolvidos na sua execução.
Ou seja, é o principal caminho para você destruir o sistema de segurança, né?
Então eu acho que isso ilustra muito bem como a violência da polícia violência e a corrupção, e como essa violência pode ser utilizada como um instrumento mercadológico mesmo, né?
Agora, diante desse quadro que tem um pedaço do copo cheio, mas eu diria que é minoritário depois dessa nossa conversa, e um grande pedaço do copo vazio, as políticas públicas em vigor e anunciadas por candidatos à presidência fazem frente a esse quadro?
Olha, Toledo, vamos olhar só para dois candidatos. Então a gente tem o Lula, que na verdade ele ainda não tem um plano de governo, mas vamos assumir que o que ele tá, que ele tá fazendo hoje no governo, exato, que ele, que ele continue fazendo isso e que isso seja atuado. E o Flávio Bolsonaro. No caso do Lula, eu acho que tem uma política muito importante que foi implementada logo no início da gestão dele, que segue sendo, que é uma política de controle de armas, né, retomar uma política de controle de armas.
Sobre esse assunto falaremos no A Hora e a Vez e Samira vai continuar aqui para me ajudar.
Então, esse é um tema muito importante. Então, a gente vem de uma gestão anterior, né? A gestão do Bolsonaro flexibilizou todas as nossas normas e possibilitou, né, o acesso a um armamento longo, armamento pesado. E uma retomada da política de controle de armas foi algo muito importante que Lula 3 fez. Lula 3 anunciou no início desse ano um pacto de enfrentamento aos feminicídios que envolvia o STF, né, envolvia todos os poderes.
Do ponto de vista discursivo, isso é muito bonito e muito importante. Não vimos isso ainda se traduzir em política pública, em prática. E é algo que foi anunciado no último ano, né, em março do último ano de governo. Então também não sabemos se vai dar tempo de implementar qualquer coisa em relação a isso. Em relação à letalidade da polícia, então eu tô olhando para esses temas que a gente falou aqui. Se tem um partido que não tem muita muita, não pode falar muita coisa sobre isso, é justamente o PT, né?
Porque o PT governa a Bahia há 20 anos e é a polícia que mais mata em números absolutos. São mais de 500 mortes por ano, né? 25% de todos os assassinatos provocados pelas forças de segurança acontecem na Bahia.
E tem uma cidade lá em que a polícia matou mais do que os bandidos, né?
Tem algumas, algumas, tem algumas. Então, Porto Seguro é, né, metade das mortes em Porto Seguro foi a própria polícia que, que Então, o que mostra também que a questão, essa questão em relação à letalidade provocada pelas forças de segurança não é um problema só da direita, né?
Não é partidário, não é partidário, é suprapartidário.
A esquerda também tem o mesmo problema. Então eu diria que tem coisas importantes, mas é muita coisa que o governo federal vem fazendo. Eu acho que tem uma estratégia de enfrentamento ao crime organizado que foi colocada em prática ainda na gestão Lewandowski, que continua financeiramente, envolver a Receita Federal junto com a Polícia Federal. Exato, a FICO, né, da Polícia Federal. Então assim, o atual ministro Wellington, né, deu continuidade, tem uma estratégia de enfrentamento aos roubos de celular que também vem sendo implementada.
Então acho que tem coisas importantes, mas tem muitos limites também. E o candidato da oposição, o candidato da oposição, o Flávio Bolsonaro, ele também, né, ele deve lançar nos próximos dias o programa propriamente dito, mas ele, né, tem um PowerPoint circulando aí que ele lançou com que tudo indica, o Moro e o Derrite são os autores desse plano de segurança pública. E é um plano muito parecido com que o pai dele já propunha quando foi candidato, que é curioso inclusive, porque são coisas que o pai dele já prometia e não fez, ou não deu certo, ou ele não fez.
E agora ele tá, eles estão colocando de novo, né, tipo castração química para autores de violência sexual. Ele propõe, por exemplo, a criação de 5 presídios federais para supostamente dar conta do déficit que os estados têm. Mas isso faz muito sentido porque hoje sobra vaga nos presídios federais, né? O Brasil já tem 5 unidades dos presídios federais, sobra vaga, sobra vaga porque os presídios federais eles são de segurança máxima. Então eles são destinados às lideranças do crime, não é para qualquer preso.
E não adianta você colocar muita gente junta porque, né, daí eles vão se organizar a partir do próprio presídio, como já acontece nos presídios estaduais.
E você não vai colocar um cara que roubou celular no presídio federal. Ele vai para um presídio comum, você vai colocar uma liderança do crime. Então assim, dentre as propostas que hoje, né, que foram colocadas, tem uma proposta de transformar o que é o Muralha Paulista em São Paulo, que é um programa de câmeras, de inteligência artificial, de monitoramento, em um programa nacional.
Esse negócio das câmeras, eu toda vez que eu me deparo com elas, todo dia, como todo mundo aqui em São Paulo, né, eu pergunto quem tá olhando, porque a câmera tá lá, mas Mas assim, tem um assalto lá na frente do meu prédio, tem 3 câmeras lá, mas não acontece nada com aquelas câmeras, né?
Mas para mim, o ponto mais curioso, para além do a gente não sabe muito bem quem tá monitorando e como tá monitorando, é um fetiche com as Forças Armadas. Então é colocar as Forças Armadas em toda a fronteira.
Quem fala isso não tem noção do tamanho da fronteira do Brasil, né? É, não sabe como é que é. A gente visitou lá a tríplice fronteira, ele não consegue nem estar lá. Tem um destacamento do Exército, os cara tão lá pintando guia. Brasília, né?
Exato. Nem num pedacinho ali que envolve 3, 4 cidades eles conseguem colocar o exército para fechar a fronteira.
Nem dentro da cidade, né? Mas enfim. Bom, Samira, infelizmente a gente já estourou muito o nosso tempo aqui. Se dependesse de mim, a gente ficava aqui mais uma hora falando, mas a gente volta na hora extra. Muito obrigado, mas fica aí que você vai me ajudar no próximo Na Hora e à Vez, que é a hora e à vez da universalização do uso de fuzis no Brasil. A hora e a vez do fuzil universal. A hora e a vez do fuzil universal. Eu tô falando isso porque o Instituto Sou da Paz fez um levantamento público sobre as apreensões de armas pelas forças de segurança no Brasil no ano passado, em 2025, e E esse estudo revelou, entre muitas coisas interessantes, uma tendência de mudança do perfil do arsenal do crime.
Por que que eu digo isso? Porque você tem uma queda no volume total de armas apreendidas de 2%, 110 mil para 108 mil, e ao mesmo tempo um aumento muito significativo da apreensão de pistolas automáticas automáticas, que são diferentes dos revólveres, né, o famoso 38. As pistolas automáticas são armas semiautomáticas que podem disparar vários projéteis sequencialmente com muito mais rapidez. Um aumento de 36% das apreensões das pistolas.
E o mais chocante de tudo, um aumento de 165% das apreensões de fuzis são armas longas com um potencial de dano muito maior do que as armas curtas, ou seja, do que os revólveres e as pistolas, também com capacidade de disparar vários tiros em sequência e que provoca um estrago muito maior do que um revólver, por exemplo, né? Então, o que o levantamento do Sodapá mostra é que não é um fenômeno localizado. É famoso no Rio de Janeiro o uso de fuzis por criminosos, né?
Eu tenho um episódio que eu posso contar. Quando eu morava lá, tava participando de uma gravação de um podcast ali no Alto da Gávea, e quando eu tava saindo do local, ouvi uma sequência de estampidos. Aí eu perguntei para o segurança: fogos de artifício? Daí ele parou assim, ficou ouvindo os estampidos, falou: não, AR-15. Ele não só reconhecia que era um fuzil, mas a marca do fuzil pelo estampido. Então, no Rio de Janeiro, o uso de fuzis é tradicional pelo crime.
Mas o que o relatório do Soldapaz mostra é que essas apreensões cresceram de fuzis em 25 das 27 unidades da federação. Houve uma carioquização do uso de fuzis, ou seja, ele se expandiu se universalizou para todos os estados brasileiros. Todos os estados tiveram apreensão de fuzis. E assim, os aumentos não são pequenos. No Maranhão, o aumento foi de 229%, no Tocantins 162%, em São Paulo 111%, na Paraíba 106%. Quer dizer, é no Brasil inteiro praticamente, né?
E São Paulo, no caso das pistolas, passou de 2.891 para 6.112, ou seja, 33% de todas as armas recolhidas pela polícia paulista no ano passado eram pistolas. Qual que é a diferença de você apreender uma pistola, aprender um revólver? Uma pistola, em geral, quando o cara atira, não dá um tiro só, dá 1, 2, 3 tiros, porque basta manter o dedo no gatilho que ela continua disparando, né? Não tem aquela coisa do cão que precisa voltar.
É um— isso faz com que o alvo receba muito mais E portanto a chance de matar a pessoa, de causar um dano com sequelas permanentes, também é muito maior, né? Esse fato em si já seria preocupante, mas tem uma coincidência que eu vou até pedir ajuda da Samira para criar o contexto, que é o seguinte: isso, esse fenômeno que não aconteceu de um ano para o outro, ele vem acontecendo ao longo dos últimos anos, mas se acentuou em da mudança do arsenal para armas de maior poder ofensivo, como esses fuzis e as pistolas, ocorre coincidentemente no mesmo período em que o governo Bolsonaro facilita o acesso justamente a esse tipo de arma.
Os CACs, né, os caçadores, atiradores e colecionadores, tiveram o acesso a essas armas mais poderosas muito facilitado. Os limites de quantidade de arma que você podia ter desse tipo também também foram aumentados, foram liberados esses calibres que antigamente só podiam ser usados pelas forças de segurança. E fato inédito, se permitiu o registro de fuzil semiautomático por algumas categorias. Não é isso, Samira?
Nós democratizamos o acesso ao fuzil, olha só.
E aí o fuzil acaba chegando na mão dos criminosos. Tem um dado na pesquisa que, assim, é bom dizer que a esse levantamento, e aí o pessoal do Solda Paz faz questão de dizer, não dá para falar em causalidade. Ou seja, não dá para dizer que foi a liberalização, né, dos fuzis e das armas semiautomáticas que causou essa expansão do uso desse tipo de arma pelo crime e, portanto, das apreensões. A gente não tem como provar isso estatisticamente, mas não acredito em coincidências.
Pelo que ela sai, ela sai, né? Justamente obviamente, quando se aumenta o acesso, facilita o acesso, há uma explosão das apreensões, obviamente de armas que supostamente seriam ilegais, né? Isso não é coincidência, né?
Juntou a fome com a vontade de comer, né, Toledo? Porque se a gente for pensar, a partir de 2019 começam os primeiros decretos, é uma série de decretos e normas que vão permitir, né, enfim, cada vez mais flexibilizar as regras do controle de armas no Brasil, né, do Estatuto do Desarmamento. E entre elas então essa possibilidade de você comprar um armamento, armamentos que eram restritos, é como é o caso dos fuzis. No momento em que isso passa a ser vendido, né, dentro, para qualquer civil, você tem um aumento da oferta e o preço desses fuzis reduzem também.
Então acho que tem esse outro elemento, né, fica mais barato para o criminoso comprar, fica muito mais barato, porque antes ele tinha que comprar isso na ilegalidade, no mercado paralelo. Brasil Paralelo. E aí de repente ele pode ter um certificado de CAC e comprar dezenas de armas, entre elas fuzis, com valor muito menor, né, ou a munição também com um valor muito menor. E tudo isso acontece em meio a um processo em que a gente, né, já discutiu bastante, de difusão da criminalidade organizada, especialmente do Comando Vermelho.
E você falava do seu exemplo no Rio de Janeiro, de quando você tá saindo num evento e o cara sabe exatamente qual que é o fuzil, qual que é o tipo de armamento que produz aquele barulho. O Comando Vermelho é uma facção que é conhecida por impor uma lógica de controle territorial armado. Que isso significa na prática? Que quando o Comando Vermelho chega numa cidade, num bairro, e passa a controlar aquele território, ele impõe o seu poder a partir da quantidade de armamento de que ele dispõe, né?
E com essa profusão de territórios dominados pelo Comando Vermelho que a gente vem acompanhando, é evidente que o armamento que eles mais gostam é um fuzil.
Porque isso é importante, acho que, dizer. O relatório até fala, né, que dessa coincidência, quer dizer, as mesmas categorias que mais se expandiram legalmente, ou seja, que mais CACs, mais registros novos, que é pistola 9mm e fuzil 5,56 ou 7,62, são justamente as que tiveram ganhando espaço nas apreensões criminais. Quer dizer, é uma relação direta entre as duas coisas, embora a gente não prove a causalidade, a correlação tá muito forte, explícita.
Agora, tem um outro fator que é o seguinte, eu tava ouvindo você falar, você só pode, o criminoso só pode usar fuzil ou numa situação de domínio de cidade, que é uma exceção, são poucos casos, né, ou em que ele domina o território e pode ostentar aquela arma. Até uma maneira de garantir que aquela área está, mostrar que aquela área tá sob seu domínio. Quer dizer, o fato de você ter uma expansão em praticamente todos os estados e um aumento mais de dobrar significa que provavelmente o crime organizado está dominando cada vez maior número de territórios, né?
Infelizmente. E é isso que a gente vem mostrando em vários levantamentos do fórum, né? A gente no final do ano mostrou um sobre especificamente sobre Amazônia, duplicou o número de cidades em que o Comando Vermelho dominava seus territórios. E isso vem acontecendo em âmbito nacional e com, né, um outro elemento que é o Terceiro Comando Puro, que é uma outra facção oriunda do Rio de Janeiro, que obedece essa mesma lógica de atuação do Comando Vermelho, de domínio territorial armado, que também hoje já tem presença em vários estados.
Então, por muito tempo a gente falou de PCC e Vermelho, como esses dois grandes grupos que estavam presentes nacionalmente. Mas agora a gente também tem o terceiro comando-puro meio que correndo por fora e conquistando territórios, impondo essa mesma lógica.
E para terminar, quer dizer, esse relatório aqui eu realmente recomendo também, junto com o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Eu recomendo a leitura desse documento do Sodapaz porque ele detalha, explica muito bem, contextualiza essa situação. Mas ele fala uma outra coisa que eu acho que vale a pena a gente falar antes de terminar aqui. Que é isso estimula, e os números estão provando, que existe uma corrida armamentista entre a polícia e os grupos criminosos, né?
Porque daí a polícia fala, não, eu, se os criminosos têm fuzil, eu preciso ter fuzil para fazer frente num embate contra eles. Daí o outro criminoso que não usava fuzil, usava revólver, fala, não, eu preciso ter uma arma mais poderosa para fazer frente à polícia. E aí uma coisa vai levando outra. Tem vários também estudos mostrando como o aumento desse tipo de arma aumenta o número de mortes, porque elas provocam ferimentos piores e deixa muito mais sequela, né?
O cara, as pessoas que sobrevivem, sobrevivem com sequelas graves porque tomaram mais de um tiro. E tiros que tenham a força, a energia que vem de um disparo de fuzil é 3 vezes maior do que a de uma pistola, e sei lá quantas vezes maior do que com revólver. Ou seja, a tragédia está disseminada, os meios estão dados, e há candidato que ainda defende a expansão do número de armas. Essa foi a hora e a vez do fuzil universal.
Michele Bolsonaro contrariou a trajetória convencional de uma ex-primeira-dama. Desde que Jair Bolsonaro deixou a presidência, ela não sai do noticiário.
Se o Bolsonaro Se ela não tivesse perdido a eleição, ela não seria presidente do PL Mulher.
Michele tem se tornado uma das figuras mais influentes da política brasileira, mas também uma das mais difíceis de acessar. Boa parte do que o público sabe sobre sua trajetória vem da própria versão que ela escolheu contar.
Nós não passamos fome, mas nós passamos dificuldade.
Mas o que existe para além dessa narrativa? Eu decidi que era hora de mergulhar na história de de Michele.
Os filhos não consideram a madrasta como família.
Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou, e eu não tinha feito nada contra ele.
Descobri como Michele de Paula Fimo Reinaldo se tornou Michele Bolsonaro. Este é Michele, um podcast original UOL Prime, disponível no UOL, no YouTube do UOL Prime e em todas as plataformas de podcast.
Obviamente eu não vou fazer a Horácia, né, o torneio de frases aqui na ausência da Thaís Bilenk, embora ela esteja ganhando por larga margem esse torneio. Preferia até esquecer, né, mas tá 4 a 0 para Thaís e a Horácia tem 2. Eu tô perdendo para as duas, na verdade. Felizmente, então, essa semana não tem. Eu vou direto para os recados. E a Luísa escreveu lá no YouTube: cara, eu adoro esse Brama. Essa análise da Thaís sobre o uso das emendas pelo Valdemar para virar composição partidária para o PL nos municípios é perfeita e ao mesmo tempo um tapa na nossa cara.
A gente precisa se mobilizar enquanto sociedade civil e acabar com essa patifaria, começando com o nosso voto em outubro. O Norberto também no YouTube: vai ver o Cássio Concakis homenagear a Hora que tem a Horácia com a Tá se referindo à proposta do Cássio de medir a acurácia das pesquisas de opinião. E o Valdeco escreveu no nosso grupo de Spotify: ao invés de selo de acurácia, vocês podiam criar o selo Horácia. Parabéns pelo programa.
Deus me livre. E a Paty no Zap: jamais pediria para tirar selfie com Thaís e Toledo, porque da última vez em que vi um famoso, no caso Alcione, fiquei em transe sem reagir, estilo fato, sem expressar reações de tanta emoção. Pode pedir que a gente tira foto e fica com a foto. E a Jussara escreveu no Zap: muito bom programa de hoje, sempre mantendo informações e comentários precisos, esclarecedores. Amo, parabéns, Thaís e Toledo.
Muito obrigado, Jussara. Até o próximo episódio, ou melhor, até daqui 2 episódios, porque no próximo será só a Thaís.
Tchau!
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