Nome que ficou
Mônica Cunha
- Violências na EscravidãoExpectativa pela chegada de um bebê · Violência e perda · Indiferença do Estado · Corrupção e desvio de verbas · A pergunta sobre o futuro
- Sonhos e Aspiracoes PessoaisEsforço para melhorar de condição · O sonho do neto Mateus · Execução do casal
- Preparação e Estratégias de SobrevivênciaDesafios da favela · Falta de dignidade e abandono · A vida de quem paga impostos
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A fala era assertiva, a voz de uma mulher simples que, mesmo sem diploma algum, conhece profundamente o que é sobreviver em uma capital. Ela sabe o que é a favela, o que são os desafios reais e, acima de tudo, o que é a falta absoluta de dignidade imposta pelo abandono.
Aquela senhora vivia naquele instante o horror puro. Experimentava na própria pele a indiferença de um estado de direito que se torna cego quando se trata da vida de quem paga impostos para sustentar a engrenagem de uma política suja de gananciosos vorazes. Para os que decidem, elas são apenas números, não é?
Não leiam as notícias que nos chegam todos os dias. Não sentem o corte da navalha da insegurança que sangra quem está na ponta. Havia um cotidiano ali. A mãe que fazia marmitas ao lado da filha. Ela formada em biomedicina.
O calor do amor misturado ao do forno e fogão. O esforço para melhorar de condição, para permitir-se sonhar. E havia um sonho a caminho. Era o neto, o menino que já tinha um nome sagrado, Mateus.
A família descobriu o sexo da criança de um jeito brutal. O bebê, já quase formado, foi alvejado no útero da mãe. Mateus levou um tiro antes de respirar. O pai, um gerente de logística, foi confundido. Todos foram massacrados pela arma da indiferença, pela falta de cuidado e por essa corrupção que desvia o dinheiro do seu destino humano para valas obscuras.
Em um momento de dor lancinante, aquela avó gritava que não conseguia entender. E como entender? Como aceitar que um casal prestes a celebrar a vida seja executado dentro da loja onde escolhia os enfeites para o chá revelação? Ela não aceita em todas as conjugações e tempos verbais possíveis. E não deve aceitar mesmo, não. Mas a pergunta que fica sufocada em nossas gargantas é como se levante? Obrigado.
E nós? Por quanto tempo mais permitiremos que gente inocente seja dizimada, enquanto a sociedade e os que deveriam olhar para ela fingem que este é um país normal? Eu sou Mônica Cunha, no Crônica com Mônica.
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