Maria Botelho Moniz, apresentadora de televisão
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- Reality ShowsFascínio por reality shows · Survivor · Love is Blind · Big Brother · Secret Story · Primeira Companhia
- Programacao TelevisivaEstilo de apresentação · Autoridade e empatia · Gerir a carreira após maternidade · Cristina Ferreira · Cláudio Ramos · Manuel Luís Goucha
- Imagem corporal e padrões de belezaPressão estética na televisão · Comentários negativos sobre o corpo · Publicações em biquíni · Alexandre Pais · Cristina Ferreira · Catarina Furtado · Sónia Araújo
- Fertilidade e GravidezTratamentos de fertilidade · Impacto hormonal no corpo · Recuperação pós-gravidez · Vicente
A mulher, por exemplo, enquanto dona de casa. On ne é pas femme, on le devient.
Dona da Casa, com Catarina Marcos Rodrigues. O que é que faz de nós sermos quem somos? O que é que nos identifica? O que é que conta a nossa história? Será que é a nossa família, o nosso trabalho, os nossos amigos, os nossos valores? É tudo isso e é também as nossas paixões. O que fazemos com o nosso tempo livre e o que nos agarra ao sofá. Os exemplos concretos ajudam a provar esta tese.
Maria Botelho Muniz adora reality shows e os shows preferidos dizem muito sobre ela. Adora o Survivor, um programa que testa as pessoas ao limite para ver se sobrevivem. Ela sobreviveu à dor, à perda, à ausência e às críticas. Delicia-se com o Love is Blind. E também ela encontrou-se com o amor sem estar à espera, surpreendeu-se e lançou-se para o viver.
A mulher que apresentou a temida, rígida e militar primeira companhia é a mesma que tem um acentuado nível de organização e de disciplina e que trabalha bem sob pressão. O Big Brother, o Secret Story e todos os programas e novelas que fez e faz há 21 anos somam histórias, sentimentos, emoções que podem ser contraditórias, tal como na vida. E nada como ver umas séries de crime para adicionar tensão e surpresa.
Sobretudo os reality shows dizem só sabe como é quem lá está. Assim é também com a vida dela. Mas hoje vamos entrar um bocadinho por essa porta que nos vai ser aberta pela própria Maria Botanho Moniz. Bem-vinda ao Dona da Casa. Obrigada. Até faço-lhe parecer a minha vida interessante, não é? Mas é tudo verdade o que está aqui. Foi só aqui cozinhar os ingredientes todos. Bem cozinhadinho. Tu és um bocadinho disto tudo. Obrigada.
O que é que mais te encanta e mais te fascina nestes realities todos? Que tu consomes à vida mente, certo? Consumo, sim. Sou mesmo uma atenta espectadora de todos os tipos de realities. Sou dos melhores aos mais, talvez, duvidosos, será a palavra. Mas fascina-me ver a vida de fora. É quase aquele voyeurismo de como é que estas pessoas reagem nesta situação. E depois...
tento colocar-me naquela situação. Eu diria isto, eu reagiria assim. Eu gostava que falassem comigo desta forma. Como é que eu iria responder a esta pergunta? E gosto desta... E saber que é real, pelo menos os que nós fazemos, as reações são verdadeiras. Há uns que são lá fora, que são um bocadinho fabricados. E que se notam, não é? Também consegues...
perceber se é fabricado ou se é mais real. Alguns notam-se. Mas eu gosto dessa coisa de acreditar que o Calistá é real e que aquilo são as pessoas a reagir às circunstâncias. E isso é fascinante. E é sempre diferente, não é? Ou seja, a mesma situação com pessoas diferentes se agindo de forma diferente. Porque é também aquele lado da...
Quase de psicologia, de quem é que nós somos nesta situação. Eu serei de uma forma, tu serás de outra. Não faz-me melhor ou pior pessoa, é só como eu reajo naquele contexto. Se todos os astros estiverem alinhados de igual forma para nós as duas, as reações serão diferentes. E isso é fascinante como é que a nossa mente e como é que nós reagimos de forma tão dispar uns dos outros.
Já gostas deste tipo de formato já há muitos anos Já desde criança O que é que vias quando eras mais miúda? Lembras-te assim de ver o primeiro Big Brother, por exemplo? Perfeitamente, de ver o primeiro Big Brother O Marco, a Sónia, a Célia, o Telma Susana, o Zé Maria, a Marta E sabes que são adesfadores? Claro que sim, eu adorava ver aquilo E eu acho que foi um Marco tão grande
Marcou aqui uma mudança na televisão. Nunca se tinha feito nada do género. Eles próprios não sabiam bem aquilo que iam. Portanto, tudo aquilo foi uma experiência para toda a gente, para quem produzia, para quem lá estava dentro, e para nós enquanto espectadores. Se eu deveria ter estado a ver com a idade que tinha, talvez não. Já tinha mais de 20 anos, não é? Sim, já lá vão 25. 25. Portanto, quase 26.
Portanto, se calhar eu não deveria estar a ver. Mas nós também nem sabíamos bem a que é que estávamos a assistir. E o conceito base é fascinante. X número de pessoas, não me lembro quantos concorrentes eles eram nessa edição, mas para aí uns 10, fechados dentro de uma casa, sem qualquer contacto com o exterior, a viver. E isso tem algo de mágico. E eu lembro-me de ficar fascinada com aquilo.
E é isso que é interessante, porque muitas vezes ainda se mantém um preconceito sobre os reality shows. De uma parte da população à outra parte que adora. Mas há sempre uma parte, se calhar, mais intelectual. E há uma parte que adora e não admite. Exato. Também há. E porquê? Porquê que será que adora e não admite? Não sei. Eu acho que as pessoas consideram uma televisão menor.
Talvez por algumas polémicas que existem depois nos próprios contextos de jogo ou das dinâmicas entre as pessoas. E então acho que as pessoas não gostam de admitir que acham graça haver pessoas a discutir sobre uma lata de atum. Mas é fascinante. Ou um vocabulário mais básico. Sim, mais agressivo, por vezes, ou um palavreado menos bonito.
Nós sabemos exatamente quem nós seríamos naquela situação? Não. E acho que isso também é uma experiência que, para quem passa por lá, deve ser meio que surreal e incrível ao mesmo tempo. Tu saberes, descobrires-te numa situação de depressão, de saberes que estás a ser observado por um país inteiro, que tudo aquilo que tu dizes vai ser analisado e escrutinado. E prós e contras, tem os fãs e tem os que odeiam.
Acho que há pessoas que não gostam de ou não querem admitir que têm também esse fascínio de observar os outros na lente do lado de fora. E que até gostam de ver para descansar um bocado. Sim. Pode desligar-te um bocado a cabeça.
São eles a acontecer E durante ali uns minutos Não é a tua vida, não é sobre ti É sobre eles O que eles fazem também é orientado por uma apresentadora E tu já fizeste vários O mais recente foi a primeira companhia Mas também já fizeste diários do Big Brother Do Secret Story, etc Tu tens que criar a tua individualidade Enquanto apresentadora também Porque tens os teus valores enquanto Maria Como é que tu defines isso? Quem é que vais ser?
Porque tu podes ser aquela que acicata mais Podes ser aquela que... Eu acho que...
Eu, em particular, não penso muito sobre quem é que vou ser. Eu vou só ser. E acho que eles sentem isso, que as minhas perguntas, as minhas reações, são genuínas, vêm de um sítio de verdadeiro interesse. Porquê é que fez isto? Porquê é que disse aquilo?
Vem de uma curiosidade que é minha E que eles sentem que é a minha curiosidade A falar Agora, tu tens que encontrar Ou pelo menos eu acho que se tem de encontrar Um equilíbrio Entre Ter uma posição Teres uma distância Porque tu és o apresentador do formato E tens que fazer a bola rolar Há tempos para cumprir, há assuntos onde eu tenho de chegar E tenho que impor O ritmo do programa Não
E isso às vezes pede, não digo uma autoridade, mas um... Sim, uma autoridade. Se eu digo, meninos, temos de avançar.
tem de ser uma voz firme e que eles reconheçam alguma autoridade que, ok, a Maria está a mandar avançar, temos de avançar. Mas, ao mesmo tempo, não podes ser tão distante que eles não se sintam confortáveis em partilhar o que lhes vai na cabeça, o que lhes vai no coração, o que lhes vai na alma. E você também tem que sentir que tu não os vais julgar, tu tentas não julgar. Eu acho que é muito o papel de um professor, um bom professor. Um bom professor consegue...
que a sala faça silêncio e que oiça ativamente, mas um bom professor também consegue, que tu peças para falar com ele no fim da aula para desabafar sobre qualquer coisa que nada tem a ver com a lição em questão. E eu acho que é isso, é navegar essa linha de...
Eu não mando nada, mas eu imponho o ritmo. E vocês têm de responder àquilo que vos é perguntado, mas ao mesmo tempo quero desabafar. E tu podes ver comportamentos que tu achas que são... Sermos amigos, um bocadinho. Tu achas que são condenáveis, mas tu tentas... Coisas que tu não farias, por exemplo, que tu vês alguns a fazer. Tu tentas não imprimir esse julgamento nas tuas questões. Nunca.
Sim, eu acho que essa é a chave de tu ganhares a confiança deles, eles sentirem que estão num espaço de total liberdade para dizerem o que estão a sentir e porque é que fizeram o que fizeram. Porque se eu já sentir o julgamento na pergunta que tu me fizeres agora a seguir, eu já não vou responder 100% a minha verdade.
Se eu coloquei a questão dessa forma, é porque eu penso X. E se tu pensas X, eu já não te vou dizer Y. Já te vou dizer Z. Porque eu sei que há um julgamento um bocadinho da tua parte. Ou seja, eu tento que a pergunta seja o mais fechada possível. Nunca começo com... Desculpa, eu nunca começo com não acha que... Mas há muitas pessoas que começam. Como é que tu vês esses estilos mais... São estilos diferentes. Mas tu quando estás a ver, faz-te confusão, não é? Ou não?
Depende da situação. Quando eu digo eu nunca pergunto assim, se calhar já perguntei de alguma maneira. Mas eu tento que não seja com um tom de eu achei isto, você também não achou. Não, é insultou aquela pessoa. Porquê?
Porque ela roubou uma lata de atum. E porquê que a sua reação foi essa? Quase uma terapeuta, um orientador, não é? Não acha que reagiu de forma um pouco agressiva? Já estou a dizer o que é que eu acho. Portanto, e eles aí não se sentem tão confortáveis. Estás a cortar logo o raciocínio, a emoção e a verdade deles. Porque se calhar reagiram daquela forma porque...
Tinham que reagir daquela forma A seu ver Tu tens um estilo bastante sóbrio a apresentar Toda a gente diz, muito empática, etc É a opinião geral, que há sempre outras opiniões Mas em geral esta é a opinião Ainda assim, já ouviste Perconceto de comentários de Estás a fazer reality shows Sim, sim, já Aliás, recebo muitos comentários De Maria, gosto muito de si, mas isto não é programa Para si, gosto muito de si, mas deveria Estar a fazer outra coisa Acho que faz isto muito bem Não, não, não, não
Mas gostava mais de a ver Noutro registro Ou noutro formato Ou noutro horário E eu aceito isso Eu não gosto de café E 90% se calhar Nem de manteiga Manteiga ainda é melhor Manteiga ainda é um exemplo melhor É uma coisa praticamente consensual Toda a gente gosta da sua torrada com manteiga A parada do café Eu detesto
E está tudo bem com isso Mas quando dizem gosto muito sim Mas gostava que a Vissa fazia outro formato É porque? Eu acho que é porque não gostam daquele formato Porque acham que o formato é menor Porque acham que, entre aspas, eu sou demasiado Demasiada areia para aquele caminhão E não é, é só um caminhão Que para mim é muito divertido de conduzir Ou demasiado culta, demasiado erudita É isso também?
Sim, já me disseram isso Aliás, perguntaram-me recentemente Numa entrevista Se eu não achava que Por ter, dizia a entrevistadora Dizia a jornalista, por ter uma cultura Acima da média Não são palavras minhas, dela E por ter uma eloquência Um background de X e Y Se não achava que
não estariam a utilizar as minhas ferramentas no sítio certo, ou se não poderiam colocar essas minhas valências a trabalhar noutro sítio, noutro tipo de programa. Não, não. Porque ali eu também posso ter um momento de...
Cultura geral, sei lá Há um quiz de cultura geral E o concorrente não sabe a resposta E eu sei a resposta E depois brincar com isso Mas você não se lembra na escola Que foi quem escreveu Posso ter esse momento Não preciso estar a apresentar Um programa de grandes entrevistas Para mostrar que sei quem é o Fernando Pessoa
Está tudo certo. Ou para ler em casa o Fernando Pessoa. Ou para dar ali um bocadinho uma liçãozinha de história de Portugal. Não interessa. O contexto é aquele e está tudo certo. Mas quando diziam isso no início, havia uma parte que pensava será que eu devia estar a fazer outra coisa? Não, nunca questionei. Porque eu divirto-me mesmo, Catarina, e as pessoas não acreditam nisto. Mas eu divirto-me mesmo. Eu adoro aquela sensação de...
Eu, entre aspas, eu e uma equipa inteira, vamos meter 20 pessoas dentro de uma casa e tudo pode acontecer. E para ti isso é o mais importante, é o divertimento. É tu divertiste a fazer uma coisa. Divirto-me muito. Divirto-me, aprendo com eles. Acho que as pessoas também aprendem com eles. Acho que eles aprendem uns com os outros.
Aprendem muito com a voz ou com o big, dependendo do formato Aprenderam imenso com o nosso comandante e com os instrutores na primeira companhia Acho que as pessoas também aprenderam em casa Eu aprendi, foi uma lição de cultura militar e geral do início ao fim E eu acho que se pode aprender com estes formatos E a família, diz-te alguma coisa ou não? Porque tu vens de uma família que tem passado de aristocracia portuguesa Tens muitas pessoas, condes, ministros do Estado Novo, etc. na tua família Não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não, não
Muitos militares também. Muitos militares, sim. Ainda há alguém que diz, ai Maria? Não.
Não, porque eu acho que eles também se divertem a ver. A minha irmã e as minhas primas foram à final da primeira companhia. Andavam malucas com a primeira companhia, adoravam aquilo e quiseram ir à final. Acompanham, gostam, se calhar não são espectadores diários de tudo aquilo, mas picam, gostam de saber o que é que está a acontecer, gostam de ver os arranques da gala para ver o que é que eu tenho vestido. Os que acompanham mais de perto, os meus sobrinhos e assim, mais adolescentes.
Gostam de comentar os concorrentes E é só o meu trabalho E eles divertem-se com isso também Há sempre preconceitos, como tu mencionaste Algumas pessoas que tu recebias mensagens Com os formatos, sem dúvida Mas também com outro tema, que é o corpo Mas tu, por estes dias Estás a ser notícia, não sei se já viste Mas por razões positivas Aparentemente positivas É, atrás para as positivas
Tu publicaste uma fotografia em biquíni, normal, no teu Instagram, que foi um facto assinalado por vários meios. Vou-te ler aqui três ou quatro títulos de vários meios de comunicação social. Um é Foto rara, Maria Botelho Muniz mostra o lado mais sexy em biquíni. E a silhueta esculpida chama a atenção. Um outro, cita um comentário que descreveram na publicação, que é Linda estás em forma e depois acrescentam em partilha rara Maria Botelho Muniz em biquíni.
Outro. Maria Botelho Muniz como nunca a viu. O lado mais atrevido. Atrevido? Sim. Eu tenho um quarto. Que é mais sexy do que nunca. Quarto parecia atrevido. Não é quarto de numeração. Não é quarto de numeração. Mais sexy do que nunca. Maria Botelho Muniz pôs em biquíni e gera onda de elogios. Ok.
Houve uma altura, já lá vamos Estamos do 880 É essa a minha pergunta Em que havia críticas ao teu corpo Agora de repente és uma sex symbol Nunca serei uma sex symbol Nem almejo ser Nem pouco mais ou menos esse o meu objetivo Mas agora de repente o teu corpo é novamente notícia Mas por exaltação E agora eu deixo-te esta pergunta Quando é que vai deixar de ser notícia? Estamos em 2026
Já falaram de tudo. Já disseram que eu estava mais gorda. Já disseram que eu estava a emagrecer. Já disseram que eu estava mais mágica. Pelo visto já disseram que eu estava atrevida e sexy. Já disseram tudo, não já? Obrigada, boa noite. Já chega, bora falar de outra coisa. É cansativo. É cansativo, é pequenino, reduz-te. Mesmo que seja um elogio e a culpa é minha, não é... Não.
Volto para trás. A culpa não é minha porque eu publico aquilo que eu quiser, que sou uma mulher empoderada. Mas assim que publiquei pensei, vai ser em torno disto. E não em torno de todo o resto da minha semana que eu publiquei. Aquilo era uma publicação conjunta. Era o carrossel da minha semana.
Eias lá fotografias com o teu filho Sim, o visando com o caracol O visando com os pezinhos dentro de água Uma fotografia minha com o Pedro Numa rara saída à noite de pais Que deixaram o filho entregue Tinha ali um bocadinho de tudo E tinha uma fotografia minha a preto e branco Muito sobriazinha Não era nada escandaloso Sim, em biquíni Fui apanhar solo com o meu filho
E pronto, acho que é um tema que já chega E não fala só de mim E sobretudo, não é sobre mim É sobre todas as outras Publicaste porque gostaste da fotografia? Publicaste, pronto Porque isto está a me dar muito trabalho Voltar ao meu corpo
Está-me a dar muito trabalho. E dá gozo quando tu sentes que está a resultar, estou a ficar com mais músculo. E o corpo está a voltar ao sítio. Eu passei por um processo que toda a gente sabe de fertilização. E é um bocadinho como aos reality shows. Só quem passa é que sabe o que isso é e o impacto que isso tem no corpo das mulheres. E eu já vinha também por algum stress e trauma.
Já vinha com um pesozinho em cima do meu peso normal Como uma compensação, é isso? Sim, das tristezas, tive perdas muito grandes na minha vida E o meu refúgio sempre foi o açúcar E depois o stress não ajuda E depois os tratamentos foram absolutamente caóticos Porque se encha muito, não é?
Incham muito Eles têm de ser induzido Ou pelo menos no meu tratamento Teve de ser induzido a uma menopausa Que é para a estimulação ovárica Acontecer toda De forma igual Ou seja, como tu estimulas os teus ovários Tu só tens um óvulo por mês Em teoria Depois acontecem às vezes dois E daí os gêmeos que não são verdadeiros Mas normalmente o teu corpo Wensa
um óvulo por mês e nesta estimulação tenta-se que os teus ovários produzam mais do que um óvulo quantos mais melhor para depois eles serem retirados e serem fecundados cá fora no laboratório e para isso, para eles não crescerem de forma diferente para não haver uns mais pequeninos uns maiores, uns em ponto de reposado para serem retirados e outros que não podem ser retirados precisam mais de uns dias é feita como uma menopausa, ou seja, um travão a fundo e para vocês, vocês entendem muito interessante
em todo o teu sistema, para depois começares essa estimulação e os vários que surgirem, os vários óvulos que o teu corpo produzir, crescerem todos ao mesmo ritmo para no dia da retirada estarem todos no seu tamanho ideal. Isto de forma muito simplificada e zero científica. Por favor, não me citem.
Nesta explicação que eu vou dizer Mas isto para as pessoas perceberem de forma simples E portanto toda essa estimulação São bombas e bombas e bombas de hormonas Que são injetadas por dentro do teu corpo diariamente E isso causa-te aqui uma confusão no corpo Que na maioria dos casos causa o...
ganhares peso. E eu já vinha com um bocadinho de peso por causa dessas perdas que mencionei e da forma como eu lido com a tristeza. E então o meu corpo reagiu daquela forma também à estimulação para engravidar. E depois engravidei, com tudo o que isso traz. E pronto, e finalmente estou a pôr as hormonas no sítio. Agora que o Vicente está crescido, fui tratar um bocadinho de mim, no sentido de...
fazer análises, ver... Porque querias, não é? Porque eu não sentia que aquele corpo era o meu, porque não era. Porque agora, mais ou menos nesta altura em que estou, sempre foi o meu peso normal. E já não estava com este peso há algum tempo. Então também tive de ir ver que impacto estes tratamentos tiveram e colocar o corpo a funcionar outra vez, de forma normal, por assim dizer, e reequilibrar hormonas.
E pronto, depois voltei a treinar e isto depois é uma bola de neve. Mas isso ser notícia...
Ok, fixe, as pessoas estão atentas ao que está a acontecer. Mas já está bom. Até porque é uma pressão adicional, não é? Estás a partir de lá que estás bem. Agora, estão a falar que estás bem, se por alguma razão... Que vai acontecer, Catarina, disclaimer, pode já fazer as gordas e a notícia. Vai acontecer. Porque eu não aguento ter este peso durante muito tempo. Sim, pode acontecer, por alguma razão. Porque eu sou uma golosa e tudo pode acontecer.
E não estou com presunção nenhuma de não, agora vou ficar ótima e vou ser ótima para sempre.
Não, porque eu conheço-me demasiado bem Porque eu sei que vou jantar à tua casa E eu vou comer a sobremesa E talvez repetir, se ela for deliciosa Vai ser, se a minha casa vai ser Claro que vai E porque se eu sei que Alguma coisa de mais
Alguma coisa relevante na minha vida a acontecer Eu vou celebrar Se for bom, eu vou celebrar com uma mega jantarada E sem culpas Sim, e se for algo de trágico É aí que eu vou buscar Aquele miminho extra Eu conheço-me muito bem Eu não venho para aqui vender O não, agora que é, vou manter Eu conheço-me bem Eu sei que isto para mim será sempre alto e baixo Agora estou fixe, agora estou bem Amanhã logo se vê
Mas durante este tempo todo que tu mencionaste, os tratamentos, a gravidez, etc, o que custa mais é tu olhares para ti e veres esse corpo que tu sentes que não é teu ou custa mais o facto dos outros apontarem isso? Os dois. Eu acho que ninguém é maior crítico do que nós próprios, connosco próprios. Portanto, eu acho que as coisas mais horríveis foram ditas por mim própria, a mim própria, dentro da minha cabeça. Isso não tenho... Tipo o quê?
Estás mal. A sério que chegámos aqui. Que número é este? Nunca vais conseguir voltar para trás. Este é o teu novo normal. Habitua-te. E são vozes que aqui existem e que são pensamentos que se enraizam. E tu, a certa altura, estás a acreditar que esse é um sítio onde vais ficar porque isto agora é quem tu és.
Quando ao mesmo tempo do outro lado No outro ombro Está um anjinho a dizer Não, não, não, não, não, não Isto é temporário, isto não é quem tu és Isto não te pertence, isto é uma coisa temporária É o que tu estás Para um bem maior Para teres finalmente o teu bebê E depois logo se vê E está tudo certo, e se quiseres ficar aqui Também está ótimo Estás saudável Estás feliz Não é?
Mas as pessoas dizem coisas muito feias e dizem coisas muito tristes. Mas eu acho que isso também, e acho que isso se aprende com o tempo, eu acho que nós com os anos de exposição acabamos por aprender a lição de que quem diz estas coisas, isto vem de um sítio de infelicidade dessa própria pessoa.
De espelho E dizem em tom de Quase de brincadeira, não é? De humor Há algumas pessoas, sim Outras pessoas vêm mesmo de um sítio De tristeza Outras vêm de um sítio só de pura maldade Mas
Eu não lido muito bem com esse tipo de documentário. Não tenho a casca grossa que deveria ter. Ao fim de 21 anos de televisão, acho que já devia ter uma carapaça um bocadinho mais dura. Não tenho, porque eu nunca seria capaz de dizer isso a alguém. Mas o que é que estás a lembrar que tu pensas? Isto é de uma monstruosidade brutal. Não te sei colocar as frases tal e qual como foram ditas, mas...
São nojenta. Nojenta porquê? Dando dois prazos atrás porque não viste um 36. Nojenta? Sério? Até tive super cuidado hoje com o meu cabelo. Com aquilo com a t-shirt que escolhi. Estou limpinha. Que palavra é essa? Porca.
Porquê? Não entendo. E não consigo perceber o que é que leva alguém a querer eternizar isso. Porque as palavras ficam lá. Ficam o nome como autora, não é? Sim, e ficam na cabeça de quem as recebe. Mas depois perguntas-me...
As pessoas gostam tanto de ti, os teus comentários são 99% positivos, a elogiar, porque é que te agarras àquilo que é negativo? Porque nós somos assim. Se fores agora chamada ao gabinete do teu chefe e ele estiver a fazer-te uma avaliação e estiver 30 minutos a elogiar-te, e quando tu estiveres a sair da porta, ele disser, mas Catarina, há só aqui uma coisinha que acho que tens que trabalhar e mudar.
Tu vais para casa a pensar nesse último remato final, nesse último reparo, não na meia hora de elogios que ele te fez. Porque nós somos assim, agarramos-nos a essas coisas. Mas o que eu não entendo é o que é que faz alguém querer que isso fique martelado na tua cabeça. Não entendo mesmo.
E isso aceita-se essa questão de ficares a pensar naquele 1% ou tenta-se trabalhar? Ou lá está, depois de 21 anos... Eu tento trabalhar. Há uma pessoa que me dá muito na cabeça, duas pessoas aliás, que são o Manuel Luís Gouchei e o Cláudio Ramos, que de todas as vezes me perguntam, mas porquê que isto te enerva tanto? Tu falas sobre isso com eles. Sim, às vezes comentamos, depois dizem, olha isto que me escreveram, mas porquê que ainda te incomodas com isso? Porquê que ainda lês? Muitas vezes me perguntam, mas ainda lês? Leio.
leio e fica e marca mas pronto, depois vais começando a relativizar mas eu não sou muito boa a relativizar ainda Um momento que foi muito importante para tu aprender a relativizar foi um teste grande de resistência foi um momento em que lá está aqui hoje atualmente é porque estás muito em forma antes era porque não estavas em forma E não estou
De acordo com... O que é estar em forma? Não é isso? Daria todo um outro programa. Não corro 10 minutos. Estou bem a correr, enfim, percebo perfeitamente. Houve um senhor chamado Alexandre Pais, há 3 anos já, já foi há 3 anos, que escreveu um artigo de opinião no Correio da Manhã, com o título A Imagem é Tudo, logo o título já é bastante duvidoso.
Em que fazia vários comentários sobre várias apresentadoras Primeiramente sobre ti, sobre a Cristina Ferreira Sobre a Catarina Furtado e sobre a Sonia Araújo As últimas duas como bons exemplos de quem cuidava da sua imagem Tu e a Cristina Ferreira como exemplos de quem não cuidava da sua imagem A Cristina Ferreira porque tinha, e estou a citar, braços tomados pela flacidez Eu adoro o verbo tomados, não é? A flacidez chegou e invadiu-a Exatamente
Braços tomados pela flacidez. E tu, também estou a citar, mulher simpática mas robusta, com tendência para aumentar-te peso. A Maria devia concentrar-se neste problema e fazer o que ali existe, disciplina e sacrifício. E depois acusa-te mesmo de desrespeito pelo teu público por não cuidares da tua imagem. Na altura isto foi um grande golpe para ti, sobretudo aquilo que se gerou à volta. Eu vou-te ser sincera, é a primeira vez que eu li, enviaram-me, eu li.
E demorou a afetar-me Eu acho que só me começou a afetar Eu só ganhei de facto consciência das palavras Quando comecei a receber mensagens A perguntar se eu estava bem Estão a falar de quê? E depois fui reler Espera lá, isto é mesmo grave E aí caiu uma ficha Se calhar eu já estava habituada Ao comentário negativo E ao reparo sobre o meu corpo
que até eu quase que normalizei aquilo que estava escrito durante uns minutos e depois caiu a ficha. E depois caiu ainda mais profundo. Fui analisar cada vírgula, cada palavra escolhida, cada verbo. Mas eu acho que é nesses momentos que depois se vê a posição, o posicionamento de cada pessoa.
Ainda antes de eu dizer ai, já estava toda uma internet revoltada, já estava toda uma onda de indignação, de carinho em torno do artigo e eu nem precisei dizer grande coisa porque a certa altura já estava tudo dito.
Mas tu mesmo que não queiras reagir, és obrigada a reagir por causa da onda que se gera. Isso também é um pouco injusto, não é? Porque tu se calhar podes querer só ficar no teu canto e não querer... Eu queria. Eu queria muito só ficar no meu canto. Mas acabei por reagir, não por escrito. Mas fui ao programa do Manuel Luís, que me convidou para falar também sobre esse tema.
E eu acho que reagir não foi por mim, mas foi por todas as miúdas que me seguem há muito tempo. Eu tenho um público, uma parte do meu público é um público muito fiel e é um público muito antigo. É um público que cresceu comigo desde o curto circuito. Eram adolescentes quando eu comecei a fazer televisão e agora são mulheres adultas ou jovens adultas.
E que sofrem com estas coisas E que como qualquer mulher Sentem a pressão injusta De se calhar encaixar num qualquer molde E eu senti que tinha que lhes dizer alguma coisa Tinha que lhes dizer que estava tudo bem comigo E tinha que lhes dizer
Olhos nos olhos Que estava tudo bem com elas E com o corpo delas Se fosse esse corpo mais alto, mais baixo, mais gordo Ou mais magro Estava tudo bem E vocês são todas bonitas na mesma Não se agarrem a isto ou àquilo que estão a escrever Sobre alguém com quem vocês se identifiquem E não torna isto sobre vocês Ok, sim, é sobre nós todas Mas deixem-me eu dizer-vos Que está tudo bem Pois estou atacada, no fundo, não é?
Sim, eu e a Cristina Fomos as atacadas Mas depois também é muito bonito ver A posição que a Caterina Furtado tomou Logo de seguida As reações que também as outras apresentadoras Tiveram E caramba Ok, estamos em canais concorrentes uns dos outros Mas estamos todas no mesmo barco E acho que estamos todas a lutar pela mesma coisa
Mas se formos realistas, sabemos que ainda há muitos comentários dentro do meio televisivo sobre a imagem umas das outras. Apesar de hoje já diferentes corpos a aparecer, mas ainda há uma pressão. Há uma pressão, mas eu, pelo menos, neste momento, sinto menos.
E não digo neste momento que voltei ao meu peso, não é isso. Neste momento que se vive de televisão, eu sinto menos essa pressão. Eu senti-me muito mais ao início. Comecei a fazer televisão em 2005 e era um tema. E era um tema na tua cara. Que era o quê? E vejamos que em 2005 eu vestia um 38. E era um tema. Não há roupa. Não há roupa para ela. E depois falam de ti como se tu não estivesse na sala.
Não há roupa para ela Isto vai ser complicado Pois vamos ter que voltar às lojas Ok Mas o meu número existe nas lojas Imagina se não existisse Isto não era dramático Era tema Falava-se E diziam-te Estavas melhor antes Antes quando? Se eu comecei há 10 minutos nisto Como assim? Agora se falam E diziam-te
Pelo menos já não é à minha frente Nós estamos na era das polémicas de redes sociais E que as pessoas sentem que tem que se posicionar Sobretudo, a favor ou contra E que também conseguem capitalizar Um bocadinho a sua base com isso Aqui neste caso que foi muita Muita adesão pública Também houve Diz-me tu, eu sei que tu és uma pessoa muito empática Mas vais-me dizer a verdade Também houve algum aproveitamento Houve Houve Há sempre Eu acho que há sempre Há sempre
E há sempre uma, às vezes, em alguns casos, uma pequenina hipocrisia. Tipo, eu sei o que tu dizias anteontem. E olha este post tão lindo. Mas antes assim, antes o post bonito. Porque, olha, ao menos a mensagem boa...
Passa e chega a mais pessoas. Estás a usar a tua base para, se calhar, chegar a muitas pessoas com aquilo que é o correto. Agora, à porta fechada, nós sabemos que não é bem assim. Mas está tudo certo. A mensagem está muito bonita, está muito bem escrita e ainda bem que chegou a todos os teus.
seguidores, mas acho que em todas estas polémicas, sejam elas sobre peso ou sobre outra coisa qualquer, há sempre uns casos de hipocrisia. Faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço de forma escondida. Mas ainda bem, ainda bem que dizem. Com essas pessoas tu fazes o quê? Sorris? Ah, olha, a melhor lição da minha vida é os pinguins do Madagáscar. É sorrir e acenar.
Sorriria-se, não é? Está tudo bem, está tudo certo Olha, saúde mental, hoje é um tema que se fala muito mais Tu fiz uma tatuagem no pé que diz But where there's a monster, there's a miracle Que é, onde há um monstro há um milagre Quando é que fizeste essa tatuagem? Eu fiz essa tatuagem em direto No curto-circuito Em 2013 14, talvez E era porquê? Porque sim Ah, não podes dizer
Porque sim, porque, olha, foi uma frase que eu li e que me fez muito sentido naquela altura e porque eu acredito nela. Acho que onde há um monstro, desconstruindo aqui o que é o monstro, onde há um monstro, onde há uma tragédia, onde há um trauma, onde há algo de impacto negativo na tua vida.
Há espaço para acontecer um milagre E o milagre és tu Eu achava que tu estava relacionado com aquilo que aconteceu Depois, mas foi anterior Talvez já, olha Mas encaixa Mas nada relacionado com a tua relação Na altura? Não, não, não Nunca te contaram, estamos só aqui as duas
Esta é minha e só minha Sempre, é mesmo só tu, não me contaste a ninguém? Não, esta é de mim para mim Por que não me contaste a ninguém? Eu acho que as pessoas que de facto Me conhecem E a 100% Sabem sobre o que é que é Mas protegem Sim, nunca deram com a língua nos dentes Pronto
Mas vale para qualquer tragédia ou para qualquer trauma. Porque se fores pelo lado de fantasia, um monstro, um monstro fofinho ou não, é um milagre. É uma coisa que não existe. Sim, sim. Portanto, se tu vires um monstro, já estás esperando um milagre. E se um monstro ou uma tragédia acontecer na tua vida, tu podes ser um milagre.
É só fazeres essa escolha E tu foste o teu milagre Numa fase importante da tua vida E gostava de te perguntar Quais são as piores coisas que se diz Sendo que, ponto prévio As pessoas, claro que Dizem sempre as coisas com boa intenção E não querem magoar Mas as piores coisas que se diz A uma miúda mulher de 29 anos Que perdeu o seu namorado de há 10 anos
Eu acho que na altura há coisas que te... Eu não quero dizer que te irritam, mas que... Porquê é que me disseram isto? Mas que com distância... Mas iam dizer o quê? Ah, tão nova. Tão nova.
Porquê que isso é relevante? A tua idade. Ai, estou nova para isto acontecer. Seria melhor se eu tivesse mais 10 anos? Não, a dor é a mesma. Seria melhor se eu fosse... Se tivesse já eu no fim da minha vida e perder uma... Não, não vamos...
Não vamos pôr mais peso na dor só porque eu ainda nem 30 anos tinha. Ou dizerem-te... Não, tu vais te voltar a apaixonar. Calma. Ponto um, não. Porque na tua cabeça não, nunca mais. Não queres. E eu ainda nem fechei isto. Eu ainda estou agora a lidar com pôr a chave à porta e as luzes estarem apagadas. E não estar ninguém à minha espera.
Calma, não me digam Ou não façam previsões Do que é que me vai acontecer de bom Eu não quero saber, agora estou mal Deixem-me estar aqui E fazer isto De forma correta, porque o luto tem uma forma Correta para ser feito Há aqui um
Há aqui uns degraus que têm de ser respeitados. E que se um desses degraus for saltado, eu acredito que a coisa já não vai correr bem mais à frente. Não façam previsões. E isso chateava-me. As nove, ainda tens tempo para casar e ter filhos. Tu ainda vais realizar esses teus sonhos.
Quando na tua cabeça isso deixou de ser uma hipótese, não me venham com essa conversa. Mas claro que agora, passados 12 anos, que nem acredito que passou tanto tempo, as pessoas estão só a tentar dar-te uma esperança, dar-te uma luz, motivar-te a levantar-te da cama todos os dias. Vem de um sítio bom.
E deixa-me dizer a todas as pessoas que nos possam estar a ouvir, digam qualquer coisa. Mesmo que não seja a coisa certa, e mesmo que seja, eu não sei o que dizer.
Mas digam, pelo menos isto, eu não sei o que dizer. Porque o silêncio, por tu não saberes o que dizer, a nós que estamos do lado do luto não cai bem. Ou seja, pessoas que não te contactaram, é isso? Sim, pessoas que não te mandam uma mensagem ou que estão na tua presença e não dizem nada, porque não sabem o que dizer, então preferem não dizer nada. Sentes quase que tens que ser tu dizer alguma coisa quando tu é que estás naquela posição. Sim, não é assim tão pesado.
Está tudo bem. Olhem-me nos olhos e digam-me... Desculpa, eu não sei o que dizer. Mas estou aqui.
E fiquem só em silêncio aqui ao lado. Mas digam qualquer coisa. Porque esse silêncio, para quem está nesse poço tão profundo, não é levado a bem, muitas vezes. E é quase ofensivo. Como assim? Não disseram nada. Silêncio.
Isto acabou de me acontecer e há um silêncio. Digam só, estou aqui. Acho que este é o melhor conselho que eu posso dar a alguém que está ao lado de uma pessoa que está a fazer um luto. Digam só, estou aqui. Sentem-se ao lado, em silêncio, e a pessoa, se quiser, fala. Porque pode haver desconforto do outro lado, mas a pessoa mais desconfortável és tu. Ninguém está mais desconfortável do que aquele que perdeu alguém que ama, não é?
E não há dor mais universal do que essa. Podes não ter passado pelo mesmo, mas toda a gente consegue imaginar o que é. E podes não ter o dom da palavra, não saber bem o que escrever, bem o que dizer, mas escreve só, não sei o que dizer, estou aqui, um beijinho. Está tudo bem.
Claro que não há lutos comparáveis, mas se calhar o luto, como tu dizias, da senhora de 80 anos, será muito diferente do luto da miúda que... Ou seja, já namoravam há 10 anos, não é? Sim. O passo seguinte seria... Tu querias muito casar e ter filhos? Sim, sim, sim. Eu acho que agora, olhando para trás, eu entendo a frase do Tão Nova.
De facto, uma vida inteira pela frente E ainda antes dos 30 já estás a levar com este tsunami E não tens a bagagem de alguém que tem mais idade De alguém que viveu mais Pode dizer que viveu e que fez, não é? Sim, que viveu e que fez Que se calhar já perdeu outras pessoas Fosse um amigo, fosse a mãe ou o pai Ou seja, já foram confrontados com o que é a perda Esta foi a tua primeira grande perda Sim, sim Sim
E incomparável a qualquer outra Que tenha acontecido entretanto Mas Eu entendo agora Porque não é expectável Porque não era natural Não, eu acho que tu
Os teus pais tu esperas Nós já nascemos com um ficheiro Algursa aqui dentro do cérebro Que nos diz Que se tudo correr Com uma natureza Assim dita Eles irão antes de ti Claro que se for uma morte repentina Como foi a morte do meu pai Falei com ele um dia ao telefone E no dia a seguir o meu pai já não existia
Toma-te de surpresa Mas lá está Mas depois esse ficheiro entra em ação Por muito que te tirem o tapete E seja uma notícia que tu não esperas Algum dia iria acontecer Foi cedo demais Foi quando eu não estava à espera Não tive possibilidade de me despedir Certo
Mas havia qualquer coisa aqui dentro, há uma molécula aqui dentro que já te... Tu já nasces preparado, vá, entras para isso. E há outras perdas que não, que nem pensar. E a dor de perder um pai é uma dor mais universal. Na altura, não tinhas...
grupos de apoio para mulheres, viúvas, jovens. Tu não eras casada, mas, ou seja, aqui o meu ponto é, não havia muitas referências, não é? Que tu pudesses pessoas com quem falar, que estivesse a passar pelo mesmo que tu. Eu acho que isso nem me ocorreu, e às pessoas que estavam à minha volta também não, de vamos procurar alguém com quem...
Que tenha passado por isso com quem possas falar e partilhar a experiência, porque nós não sabemos o que isto é. Tu própria também não conhecias ninguém que tivesse passado por aquilo. Mas eu acho que a minha família, a minha mãe em particular, muito rapidamente percebeu que eu tinha de falar com alguém. Não necessariamente num grupo de pessoas, mas eu tinha de ser vista e falar com alguém que fosse especialista.
com uma psicóloga, uma terapeuta que fosse especialista no luto. E isso aconteceu muito rapidamente. Passaram 12 anos, como tu disseste. Entretanto, apaixonaste-te outra vez, tens um filho, a vida seguiu. Ainda assim, o luto e a dor podem aparecer assim do nada. Sim. Porque não é uma jornada linear como nos vendem, que é muito forte e vai diminuindo com o tempo.
Sim, momentos ainda hoje em que essa memória te apareça, os mais inusitados que até te surpreendes a ti própria. Eu acho que o luto surpreende, ou seja, a memória das pessoas surpreende sempre. Eu acho que não há dia que passe...
Que eu não penso nas pessoas Ou que não me surja No pensamento das pessoas que perdi Inclusive ao Salvador Sim, mas pode ser Porque alguma coisa me faz lembrar Uma música Um sítio, o que for Ou porque sim
Porque te cruza na cabeça, porque fez parte da tua vida durante tanto tempo. Foi uma coisa tão importante e tão pesada essa perda, que é normal que o pensamento te ocorra, mas com o tempo...
São memórias boas De um amigo Que às vezes te visita no pensamento Não é mais pesado do que isso E momentos importantes Como o nascimento de um filho Há momentos mais importantes da vida Que aquela pessoa aparece também Porque um dia o plano Vai com essa pessoa
Acho que não tanto. Acho que não tanto. É possível que tenha acontecido, mas não te consigo agora dizer com toda a certeza. No meu caso, acho que para todas as pessoas será diferente, mas no meu caso, não está tanto relacionado com marcos da tua vida. E isso acontece-me com o meu pai.
o nascimento do Vicente, o não estar cá, o meu pai nunca ter conhecido o meu filho, é uma coisa que me mexe aqui dentro de uma forma dura.
Eu estar noiva para casar, o meu pai nunca me vai levar a um altar. Ou nunca me vai levar até ao Pedro, que estará no final de qualquer corredor à minha espera. Isso marca-me mais. Acho que o meu pai, os momentos importantes, a minha cabeça vai ao meu pai mais rapidamente.
E às vezes acontece-te, tu própria, tens memórias, por exemplo, em relação ao teu pai, e não falas disso porque não queres criar desconforto nos outros? Não. Falas sempre? Falo quase sempre. A menos que seja a propósito. Mas normalmente digo, e ao meu pai ia adorar isto.
Ou estar aqui na rádio, não sei o que, o meu pai ia achar isto no máximo. Isso eu verbalizo. Porque isso é uma maneira também de o manter aqui, de o manter vivo, não é? Manter a memória dele connosco. Acho que isso é importante, é importante que os meus sobrinhos, há uns que se lembram menos bem dele, eram muito pequeninos quando ele morreu, que hoje são histórias do avô. Aí eu, olha, o avô, se visse isso agora, ia reagir assim, assim. Ou ia-se rir disso assim, assado. Ou não ia gostar de não sei o quê.
Para eles também saberem quem ele foi, o Vicente sabe perfeitamente, entre aspas, quem é o avô Zé Carlos. Ele vê uma fotografia dele e sabe perfeitamente. Diz o avô Carlos, que é o pai do Pedro, e o avô Zé Carlos.
Acho que lá chegaremos Um dia vai perguntar onde é que ele está Porque é que eu só o vejo aqui nestas molduras E lá chegaremos Mas todas as noites Dizemos boa noite ao avô José Carlos Que está no céu a olhar por nós Ele já diz esta frase Ele vai crescer sabendo Que ele está a algures Que o protege, acredito eu, quero eu acreditar
Mas que é uma figura presente, apesar dele nunca o conhecer, nunca o vai conhecer, mas é uma figura que existe na vida dele. Sobre a morte do Salvador, tu ainda recebes mensagens de pessoas, sobretudo mulheres, não é? Que também perdemos seus namorados. Semanalmente, ainda hoje.
Agora talvez não semanalmente, mensalmente Mas ainda esta semana recebi uma mensagem E pedem-te o que? Ajuda? Conselhos? Ajuda Como é que se ultrapassa uma dor destas O que é que eu fiz Se algum dia Se a felicidade é mesmo Uma coisa que vai chegar
Quem é que me acompanhou? Conselhos, sobretudo. Por que é que tu dás-te conselhos? Terapia. Já. Sentarem-se com alguém que não seja família, que não seja um amigo. E falar, falar, falar, falar, falar. Falar também com amigos e com família. Não guardar nada. E confiar. Confiar que um dia...
vai custar menos. Um dia o acordar vai ser bom. E um dia o primeiro pensamento que te vai chegar à cabeça quando abrires os olhos de manhã já não vai ser esse de que perdeste alguém. Vai ser outra coisa. Vai ser que tens que despachar porque estás atrasado. Ou vai ser porque tens alguém à tua espera. Ou tens que ir trabalhar rápido. Um dia isso muda. Demora muito tempo. No meu caso demorou muito, muito tempo.
Mas acontece e temos que confiar no processo e não saltar a etapa. É absolutamente essencial não saltar a etapa. Tu passaste por estes processos tão difíceis, sobretudo na morte do Salvador, também te fez ter mais empatia quando estás a entrevistar, por exemplo, pessoas que estão a passar por um luto. Sim, sim. Porque tu estiveste durante alguns meses, dois às dez. Sim. Meses? Dois anos. Dois anos, exatamente. Com o Cláudio Ramos e aí entrevistava as pessoas, algumas delas que também estavam a passar por um luto, não é? Todos os dias, sim. Acho que...
Traz-te uma perspectiva completamente diferente e eu acho que me enriqueceu não querendo tornar isto uma coisa positiva, porque não é positivo perder alguém. Não é isso, não estou a glamorizar. Mas acho que me tornou melhor apresentadora, melhor comunicadora, conversadora.
Já há limites de questões que tu não passas Porque sabes que podes tocar em feridas Que tu própria também viveste Ou se quero ir a esse sítio Se calhar tenho uma noção melhor De como lá chegar Ou se calhar sei como é que eu gostaria Que a pergunta fosse formulada Se fosse feita a mim E então vou formulá-la como se estivesse a perguntar A mim própria Não sei muito
Acho que dá-te uma sensibilidade Dá-te um tato na escolha das palavras Na entuação E dá-te sensibilidade Para fazer a cama, como se costuma dizer Para chegar a esse sítio Para fazer essa pergunta Acho que me enriqueceu Porque eu sei o que é estar nesse lugar Tu enquanto consumidora Faste alguma confusão quando essa preocupação Não é tida em conta Em algumas perguntas às vezes
Sem personalizar Eu acho que não é uma questão De não ter em conta É só uma forma diferente Não é tão simpática Não, acho que cada um tem Acho que há pessoas que são mais Mais preto no branco Na sua formulação De
De uma questão Ou de uma frase O que for Muitas pessoas são mais concisas Eu se calhar faço a cama durante muito tempo Eu se calhar faço um parágrafo Antes de chegar à pergunta E para quem está a ver pode ser Então, miada, vá lá, bora
Chega lá ao ponto onde queres ficar Mas para mim é importante Essa cama, essa preparação Esse setup Para aquilo ser recebido De uma certa forma Mas lá está Cada um fala como fala E não há certo nem errado
Maria, nós estamos aqui num programa em que falamos muito sobre as questões da igualdade, das mulheres, etc. E tu passaste aqui por um pesadelo que muitas mulheres passam quando são mães, que é o voltarem ao trabalho e já não terem o lugar que tinham antes. Tu estiveste durante dois anos com o Cláudio, depois estiveste de licença de maternidade durante seis meses, como é normal.
Depois quando voltaste 4 meses A Cristina Ferreira tinha ocupado o teu lugar Para fazer essa substituição E depois quando voltaste Ela continuou no lugar Mesmo havendo uma explicação por parte da direção Não há como não levar isso para o lado pessoal Durante muito pouco tempo Vou-te ser completamente honesta Porque
Eu tenho uma cabeça muito Talvez tenha herdado ou aprendido com o meu pai Tenho uma cabeça muito de negócio também De estrutura De empresa E por muito que Ali durante 5, 7 segundos
Sintas que é uma coisa pessoal Porque o que é que eu fiz de mal É a primeira coisa que te ocorre Lá está, porque vais pelo negativo Eu, a culpa é minha Eu não sou boa, eu não fiz bem Mas dura pouco tempo
Porque é uma empresa, é um negócio. E as peças deste puzzle têm de estar onde melhor servem a estrutura. Tu já eras líder com o Cláudio no 2 às 10, não eras? Antes de esperar a licença.
Mas não dá para comparar o sítio onde eu estava em termos de mediatismo ou de carreira com a Cristina Ferreira. Não dá para comparar. Cada pessoa tem... Isto é uma escadinha. E há pessoas que estão mais em cima na escada do que tu. Trazem mais interesse, trazem mais negócio, trazem mais notícia, trazem mais números, trazem mais audiência, arrastam mais pessoas. O que for que seja o argumento ou o ponto.
Não querendo comparar Mas é tu estares a jogar a bola numa equipa Na mesma posição que o Ronaldo És ponta de lança E o Ronaldo joga na tua equipa Tu vais-te sentar no banco a certa altura Parece-me óbvio E é só isso E eu acho que as pessoas Levaram E eu entendo Que levaram isto também de uma forma muito
Para o lado pessoal, não se faz. Houve uma grande... Muito se escreveu e muito se disse. Sim, uma mãe se despedida. Sim, mas não é sobre isso. Não é sobre isso. Eu não saí daquele sítio porque fui ter um bebê. Eu não saí daquele sítio porque era mãe. Ou porque estava grávida. Não tem nada a ver com isso.
tem a ver com a estrutura de uma empresa e os seus ativos serem colocados onde melhor têm de servir a empresa para a qual trabalham. É só isso. Agora, as pessoas reagem, o público pode estar habituado a uma coisa e não gostar da mudança, há público que pode adorar a mudança porque prefere tal apresentadora a X, mas é só...
Estás que estudar internamente para não ficar a pensar De facto, o que as pessoas vão dizer Será que eu devia estar mais revoltada do que aquilo que estou Mas fazer essa gestão interna também Eu tentei afastar-me um bocado disso Cada pessoa tem a sua reação Cada pessoa tem a sua perspectiva Eu tenho a minha Eu gostava muito de fazer aquele programa Fiquei triste de ter saído, obviamente Acho que toda a gente sabe isso Mas tive que fazer o meu processo De...
de me desligar disso, de já não é esse o meu sítio, este já não é o meu programa, é só um programa que existe e estão lá estas pessoas a fazê-lo e eu agora vou fazer o meu caminho para outro lado. Vou fazer outro caminho. E estou muito feliz, pois isto a vida dá a volta. E estou muito feliz onde estou. E adoro fazer reality e adoro estar só a fazer o reality porque consigo dedicar-me a 100% aos meus concorrentes, ao meu formato.
E nisso entretanto tu também consegues dedicar tempo a outras coisas que não há trabalho. Claro. Isso também é uma forma de tu te manteres sã mentalmente. Sim, sim, sim. No caso tinhas um bebê. Eu tinha um bebê muito pequenino. Portanto há bênçãos que ao início parece que não são bênçãos, que é só uma coisa...
Que é menos boa que te está a acontecer Mas não Foi o tempo que eu tive para estar com o Vicente O Vicente só foi para a escola este ano E é uma escola que é só de manhã Porque eu consigo gerir a minha vida Para estar com ele o máximo tempo possível E isso é incrível O dia a dia vai te mostrando Olha que bom
Poderes ir almoçar com uma amiga. Olha que bom. De estares com o teu bebê ao colo a uma hora que devias entrar para estar a trabalhar. Está tudo bem. Está tudo certo. Maria, para terminarmos, gostava que escolhesses um pensamento, uma ideia que te tenha orientado por estes dias. Sem ajudar a sobreviver. Aqui como survivor que tu adoras. Gostarias de participar, ouvi dizer. Pensamento é uma ideia. Sim. Para quem nos está a ouvir e a ver no YouTube também.
Olha, eu deixo a frase que já escrevi muitas vezes, que é a minha vida deu certo, a vida deu certo. E eu acredito mesmo que a vida de todos, eventualmente, dá certo. E pode não parecer ao dia de hoje, e pode parecer aquele clichê terrível, mas lembrem-se de mim no dia em que der certo.
Ela tinha razão. A vida dá certo. Sempre. Uma frase de Maria Botelho Muniz. Obrigada. Obrigada. Até à próxima. Mas voltamos na próxima semana com mais emoções, histórias e pensamentos. Até lá. Da mulher, por exemplo, enquanto dona de casa. Dona da casa. Com Catarina Marcos Rodrigues.