ARYANE MARCIANO - MULTI ARTISTA - Arte NAMESA PODCAST - ep.116
Multi-artista diretamente do Morro Doce Aryane vem contar sobre sua carreira na musica e como ela fez 5 residencias artisticas e de que maneira isto a ajudou em seu carreira e vida.Veja o trabalho da artista nas redes:
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- Música 'Foda-se' e Violência de GêneroTCC na USP · Assédio e medo · Machismo · Empoderamento feminino
- Vivências e Residências CriativasHistória da África · História da África · Eleições na Hungria · Zona Lã · Etno Global
- Trajetória artística de FaíscaInício nas artes visuais · Formação na USP · Movimento estudantil negro · Diversidade na universidade
- Trabalho social e comunitárioRodadas Brasileirão · Prevenção ao álcool · A Casa da Garra · Educação artística
- Indústria MusicalMúsica autoral · Produção independente · Negociações em Moçambique · EP Risco
Seja bem-vindo a mais um episódio do seu podcast de arte, Arte na Mesa, todo domingo falando com artistas. E hoje, Ariane, obrigado por aceitar o convite.
Muito prazer, muito obrigada pelo convite.
Tô feliz de estar aqui hoje, diretamente do Morro Doce. Diretamente do Morro Doce, maravilha! Vou começar te presenteando com uma meia, que é a Gnarly. Foi essa aqui que você escolheu? Ela escolheu antes.
Ai, muito obrigada! Inverno, vou estar como? Eu adoro meia, é um presente ótimo.
Vou deixar aqui o cupom para galera. Comprar sua Gnarly, entra lá no site, tá aqui na descrição. Gnarly, as minhas mais mocadas, qualidade incrível. Vamos junto! Eu vou agradecer também a Skate Até Morrer, que patrocina o podcast. Provavelmente agora você tá vendo aí a loja, fica lá na Galeria do Rock. Se você tá procurando skate montado, truque, roda, shape, rolamento, parafuso, tênis, Lá tem tudo. Galeria do Rock, são 3 lojas, só chegar.
Cupom aqui também, fala que você viu o cupom no Arte na Mesa que você ganha o desconto do cupom. Vamos falar de arte, né? Multiartista, sim! Caraca, mas não é todo dia que vem um multiartista aqui, velho. Muito legal, cantora, poetisa, Atriz, artista visual, e você falou instrumentista, né? Sim. Instrumentista. Vamos ficar falando até amanhã aqui.
Também acabo trabalhando com educação também.
E tem o lance da educação, né? Meu, sensacional. O que que veio antes de tudo?
Eu comecei com as artes visuais, né? Sou formada em artes visuais pela USP, fiz licenciatura. Então acho que eu comecei pelo desenho, pela pintura, foi meu lugar de partida.
Você falou uma coisa que eu achei muito legal, você foi a 4ª mulher negra a se formar no curso de artes visuais da USP.
Sim, isso foi um professor que falou, né, um professor que tava lá há muitos anos, desde o início, e era um curso de 35 anos, né, e eu entrei em 2014. Então foi todo esse tempo sem gente negra. Acho que uma das coisas que eu mais me orgulho na vida foi de tipo ter entrado e ter feito parte do movimento preto lá dentro, que a gente conquistou cotas na USP, né? Foi a minha geração que pressionou.
Você entrou por cota?
Não, na minha época ainda não tinha.
Não tinha, mas vocês conquistaram isso.
Foi legal. E é, todas as universidades do Brasil já tinham, mas a USP era bem retrógrada, né? E aí eu participei de movimento preto lá dentro e a gente O quanto é importante isso para—
você acha que isso é importante? Você acha que surtiu algum efeito para dentro da comunidade de onde você veio?
Sim, sim. Acho que eu tinha esse choque diário todo dia que eu ia para lá, né, que era 2 horas para chegar até a universidade. E eu moro numa quebradinha que é aqui o Morro Doce. Acho que teve 2 anos seguidos a gente foi o bairro com que as pessoas mais morrem cedo em São Paulo, né? Então a gente não tem centros culturais, não tem saúde. É, vivemos mal. E aí chegar lá todo dia e lidar com a elite de São Paulo, assim, sabe? Com pessoas que tiveram tudo do bom e do melhor desde cedo, foram para as melhores escolas, fizeram intercâmbio no ensino médio, sabe?
Então eu tinha uma raiva, era uma raiva, e era injusto. E acho que não só Para minha comunidade ganha, para as comunidades periféricas também. Eu acho que a universidade muda quando tem diversidade lá dentro, né? Porque aí começa a questionar também de, ô, será que a gente— isso era um debate que eu tinha muito com os meus professores, como a universidade era ilegal, que ela não ensinava coisas da história africana, da história da arte afro-brasileira, né?
Não tinha isso.
Não, era só Europa na veia assim. Itália, França.
E aí você parte para África, é uma pluralidade absurda de arte, é uma— acho que é tão vasto quanto a própria Europa, né?
É um outro mundo, é um outro universo. Por isso que eu também quis fazer o intercâmbio para Moçambique.
Caramba, você fez? Não, vamos falar dos intercâmbios, mas Uma coisa que para mim é muito significativo, que uma mulher negra, né, fora ser negra, mulher se formando num lugar que deveria ser para população da grande massa e acaba sendo para elite, né, que é público, né.
Na entrada da USP tem uma escultura que era o primeiro reitor, e aí ele tá assim E embaixo de cada mão tem um pé de cana-de-açúcar e outro pé de café. Representa a elite do café que lucrou em cima do processo escravizatório, né?
Sim, total.
Foram essas elites que se mantiveram no poder e por isso que foi tão difícil acessar, sabe? E acho que hoje a universidade tem, ah, tem outras pessoas lá dentro, eu já fui visitar, foi ver e dá um alívio de ver que bom que tá um pouco mais democrático.
E lá dentro o processo foi tranquilo para você?
Não, nem um pouco. Acho que eu tretava muito com os professores de frente. E também eu assumi um lugar político, né? Isso foi bom também, que eu criei um quilombo lá dentro com os poucos pretinhos que tinha. A gente se encontrava onde um cursaria, a gente criou um coletivo, Opa Negra, Uma pá negra. Isso. E a gente fazia a Semana aos Preta, que era decidido de, já que não tem preto aqui dentro, então a gente vai fazer uma semana que a gente vai convidar artistas pretos, vamos discutir, vamos colaborar então com o nosso conhecimento, né?
E aí acho que foi frutífero para todo mundo, tanto nós mesmos quanto para a própria universidade também.
Que legal.
E E é isso, eu sinto que a universidade cresceu com a nossa presença também.
Por que que você decidiu? Você fez 5 residências artísticas, não tem nada a ver com intercâmbio?
Um foi um intercâmbio e uma residência foi pra Moçambique.
Quanto tempo você ficou lá?
Fiquei 10 meses lá. Sempre foi um sonho meu de infância ir pra fazer um intercâmbio, acho que desde que eu era adolescentinha era uma coisa que eu imaginava.
E você vai lá fazer o quê? Conta pra galera, porque, né?
Sim, o intercâmbio é quando você vai para algum outro país para estudar ou estudar e trabalhar. Então você fica um tempo e vivencia aquela cultura, né? Vivencia às vezes outro idioma. Em Moçambique eu fui por conta de um projeto que chama Tuku Pamoja, que foi junto com o Jongo Dito Ribeiro de Campinas. E aí eles mandaram artistas periféricos para trocar, para representar o Jongo, que é uma cultura afro-brasileira que eu também represento.
E aí eu fui lá ter aula de percussão, de dança, fiquei 10 meses trocando. Aí eu dava aula para crianças também de ciranda, de culturas afro-brasileiras, e foi uma experiência muito rica assim.
Como que é lá? Conta para a gente. Infraestrutura?
Sim, acho que a gente tem uma visão do que que é o continente africano, que é o que chega para gente, né, desse lugar da miséria, da extrema pobreza. E realmente Moçambique acho que é o 5º país mais pobre do mundo, ao mesmo tempo que não tem o que a gente tem aqui dessa desigualdade social, sabe? Que uma classe aqui, outra ali, é um pouco mais normal. E como eles tiveram um processo de independência que teve muita, muito inspirado no socialismo, teve reforma agrária.
Então todo mundo tem casa com quintal grande assim, né? Tipo Pra gente, o que que é miséria? Todo mundo tem que pagar aluguel sempre pra ficar num cubículo e tal.
Cada vez menor.
É. E lá todo mundo tem casa, tem seu quintalzinho, planta sua hortinha.
Que legal.
E coisa sem agrotóxico. Eu comi muito bem assim. A comida era boa e verdadeira assim.
Que espetáculo. Sim. Legal.
Inclusive, eles zoam muito o nosso frango brasileiro.
Por quê?
Tem um vídeo ótimo que fizeram de uma charge da que teve o frango brasileiro que tentou importar para lá e eles começaram a zoada, que não tem, que a gente come frango com hormônio, né?
Muito hormônio.
Que tem água quando a gente cozinha e frango de verdade não tem.
Não tem.
Eu descobri isso lá. E também foi uma experiência muito boa estar num lugar de gente preta, né? Estar num lugar que é a base da nossa civilização humana, né? Toda a humanidade partiu do do continente africano. Aí eu fui para África do Sul também, já passei.
África do Sul já tem uma estrutura um pouco melhor.
Sim, é mais parecido com São Paulo. Eu fui para Joanesburgo e aí é mais megalópole, muito turístico.
Talvez até melhor que São Paulo, a parte central assim, digamos.
É tão perigoso igual assim, todo mundo falava fica alerta, não dá bobeira, tal. Mas acho que eu fui muito bem acolhida. Na época eu tinha dread, então todo mundo gostava do meu dread e Fui para casa do Mandela, foi rolezinho assim, foi muito bacana, muito significativo para você, né? Sim, sim. E também eu fiz o lançamento do meu primeiro EP lá.
Ah, foi lá?
Foi lá.
Porque como que era o nome do seu primeiro EP?
Como que era?
Risco.
Eu produzi aqui, mas aí eu fui aprovada nesse projeto e aí eu tava lá. Aí eu falei, ah, vou aproveitar e fazer o nosso evento internacional, né?
Tem a ver com aquela música que você— pera aí, deixa eu contextualizar pra galera. Eu conheci a Ariane num evento lá no Morro Doce cantando, né? Então eu já escutei o som dela. Tem a ver com aquela música que você cantou sobre questão de feminicídio? Não, Risco, o nome? Não, nada a ver.
Acho que o nome Risco vem desse rolê de ser artista independente. Que para mim é sempre um risco de, ah, eu vou tentar, vou me arriscar, não sei onde vai dar, mas tô me jogando no mundo. E também, como eu sou artista visual, acho que é um jeito de eu riscar minha presença no mundo, sabe? Como se fosse um grande desenho.
Porque aquela música que você cantou, como que era o nome? É música de autoria sua, né?
Ah, eu sou da música autoral, tô tentando lembrar qual você tá falando. Tem o Foda-se.
É, foi essa daí.
Ah, o Foda-se eu lancei ainda, foi a minha primeira música, foi o TCC da USP.
Que legal!
E foi muito prazeroso ter o TCC chamado Foda-se.
Depois manda, você tem no YouTube?
Tem.
Depois manda que eu vou pôr aqui para vocês assistirem. Ah, teve um videoclipe? Como que foi o EP Risco? Quantas músicas?
O EP Risco tem 4 músicas. E ele foi produzido durante a pandemia. Na verdade, eu queria fazer um álbum, né, desde o começo. Mas artista independente, você vai juntando lá, não consegui, tentei editais, não consegui. Aí eu falei, vou lançar por conta própria. Juntei meu dinheirinho trabalhando com outras coisas, alguns cachês. E aí eu fiz uma parceria com o Gago, que é um produtor, músico que toca comigo também, da viola. E aí a gente produziu durante a pandemia, acho que foram uns 2 anos assim de produção.
É porque nem sempre tava ali e tal, aí vai. E aí teve meu intercâmbio no meio. Aí na verdade eu só fui terminar o EP em Moçambique, ainda gravei coisa lá, assim, tava gravando áudio, gravando foto.
Você gravou algum clipe lá, imagem para o clipe?
Mano, se eu te falar que eu gravei um clipe, mas não rolou. Que isso também é muito sobre ser mulher, que a gente tava trocando essa ideia, né? Eu gravei todo um clipe com artistas que eu conheci lá, a gente fez uma parceria e pá, só que eu nunca recebi o material porque depois eu fui entender que o cara só tava querendo me pegar. E aí não fiquei com ele e não sabia que ia perder o material por conta disso, que eu nunca tive acesso.
Vacilão, hein, mano?
Vacilão, fiquei muito puta.
Para não falar que ele é um babaca, né? Então você acabou lançando em Joanesburgo o risco? Em Moçambique. Como que foi lançar lá assim?
Foi muito legal, foi muito legal, porque acho que aqui em São Paulo a gente tem um outro rolê de tentar ir pela mídia alternativa, aí pelos amigos, e tentar se vendendo, né? Mas lá existe uma A indústria da comunicação, ela é mais fechadinha, ela é mais próxima. Então eu consegui ter acesso aos canais de televisão. E aí, em algum momento, eu fiquei famosa em Moçambique. Aí eu apareci em 5 programas de televisão e aí cantava e falava, ah, vou lançar, não sei o quê.
E aí eu fiz o lançamento propriamente dito no Centro de Cultura Brasil-Moçambique lá.
Que maneiríssimo!
E foi muito legal, encontrava as pessoas na rua e lá eles adoram cultura brasileira, né? E aí as pessoas, sim, e aí vinham me cumprimentar, eu falava, abraçava e cantava música. Já fui muito bem acolhida. Isso me dava até vergonha de ver como, tipo, conheciam tanto da nossa cultura e a gente conhece tão pouco da cultura deles também.
Talvez eles conheçam mais da nossa do que muita gente que tá aqui, né?
Sim, sim. As novelas brasileiras lá são um fenômeno. E adoram música sertaneja. E principalmente, um lado que não é tão legal são as igrejas evangélicas, que tem um poder gigante, né? Lá é mesmo Reino de Deus ou Edir Macedo, é um império lá. Tanto que eles têm umas leis que só pode, que o pastor tem que ser brasileiro para pregar. É, e aí é ruim porque demoniza a própria cultura da galera também, sabe? Eles vão se afastando das coisas tradicionais. Internacionais. É um novo, uma nova colonização, né?
Que loucura! Você fez 5 residências artísticas.
Sim.
Me conta sobre elas aí.
Primeiro, acho que queria falar sobre esse mundo das residências, que é um negócio que nós como artistas periféricos independentes, a gente não tem contato com esse rolê, né?
Descobri outro dia que alguém falou aqui no podcast, nem sabia que existia, cara. Uma loucura!
Pra artistas visuais é um pouco mais comum assim, mas é... O que que é uma residência artística? A gente sabe que é difícil trampar com arte no cotidiano, né? Trampando com outras coisas e tal, você vai achando o meio do caminho. A residência artística normalmente é um processo criativo que você tá afastado do mundo. Às vezes você vai pra algum lugar que tem mentores, alguns eles te pagam uma bolsa pra você produzir, alguns você paga pra fazer a mentoria.
E tem vários tipos, né? A primeira residência que eu fiz foi com o chamado Zona Lã, que era com mulheres da América Latina. E aí foi lá em BH. E aí eu fui lá para BH, a gente ficou 3 semanas numa casa compondo juntas, cantando.
Que animal!
Foi muito legal, fizemos uma tatuagem juntas.
Sério?
É, foi muito intenso. E depois a gente até fez uma turnê no Peru também. E aí as outras residências que eu fiz foi aqui em São Paulo para artistas afro-brasileiros. E aí era mais voltado de um pouco mais misturado de várias áreas. E aí eu fiz uma residência em Moçambique também, essa na Hungria, que era a mesma, o rolê, que é um bagulho que eu tô tentando falar para todo mundo, que foi um bagulho tão legal, que chama Etno Global. É como se fosse um acampamento para músicos, que esse que eu fiz durou 10 dias.
Isso é um projeto, é Tino Global.
Isso. E aí são músicos da música tradicional, e aí cada músico leva um pouco da sua cultura, do seu país, e a gente vai aprendendo a música de cada um dos países. Então imagina, 20 pessoas de 20 países diferentes e cada um vai aprendendo as outras. Então eu ensinei o samba para o pessoal, ensinei o jongo, e aí eu aprendi músicas moçambicanas, da Zambésia. E essa última que eu fui, foi para Hungria, né? Então aí tive contato com a galera do leste europeu, que é uma brisa. Foi uma grande loucura.
Na Hungria também, pelo Etno Global?
Sim. E aí eles dão uma bolsa. Isso que é importante de falar, você artista independente que toca, eles dão uma bolsa que garante passagem, estadia, Então eu não paguei nada para ir para lá e só fui, fui recebida. Você faz essas aulas com o pessoal, faz show, faz parcerias, né, fiz amigos.
Quanto tempo você ficou na Hungria?
Fiquei só 10 dias, mas foi um negócio muito massa. Tanto que acabei de receber um amigo norueguês que eu conheci lá e a gente ficou amigo, ele veio. Se eu quiser ir pra agora, e eu tenho casa na Hungria, casa na Noruega, fiz amizades também.
Pô, tu na Noruega deve ser incrível, né?
Eu acho que é uma brisa. E aí o que eu acho legal é como o mundo vai se expandindo, né? Que nem esse amigo norueguês que veio, eu botei ele pra dar aula pras crianças do Morro Doce. Eu falei, ah, você tá vindo aqui? Então ensina uma coisa da sua cultura pra galera. E foi antes do jogo Brasil-Noruega.
Mentira, sério? E ele ensinou o quê?
Ele ensinou uma dança norueguesa. Que é muito específico, que ninguém nunca tinha conhecido. Parece um pouco quadrilha pra gente, sabe? E a galera pirou muito, né? As crianças. Imagina se você fosse, tivesse 10 anos e viesse um gringo dar uma aula pra você direto do país dele. E acho que foi um desejo meu de— eu tive tantas oportunidades legais com a arte, com a música, me levou pra tantos lugares do mundo e conhecer pessoas que eu tenho Ah, eu tenho essa vontade de devolver também para minha comunidade.
Que nem o rolê que eu falei da turnê que eu fiz para o Peru, conheci uma amiga lá, aí essa amiga do Peru veio para o Morro Doce também, eu falei, não, vai dar uma aula de dança afro-peruana para molecada.
Caraca, e tem afro-peruana?
Sim, ela deu uma aula para o pessoal e aí acho que eu fico nessa articulação também.
Os peruanos têm a questão dos povos originários, né? Mas tem colonização lá também afro, né? América do Sul toda, né?
Acho que o Brasil foi o que mais recebeu gente preta, né? Então os outros países têm menor quantidade, mas também tem, né? Tem.
É, que legal, cara. De todos os intercâmbios que você fez, das residências, qual foi a mais importante para você?
Acho que Moçambique mesmo. Que eu fiz esse étnico que eu falei, eu conheci lá em Moçambique. E aí eu aprendi brincadeiras também, né? Como eu trabalho com crianças, então eu criei uma oficina de brincadeiras moçambicanas a partir dessa residência que eu fiz lá. E para mim foi muito massa. Fiz parceria com um amigo DJ, aí a gente fez um som que lançou depois. Então são pontos que a gente vai construindo, né?
Sensacional. Você acha que— eu tô pensando aqui assim, você não trabalha só com arte. Não trabalho só com arte. Você acha que o seu trabalho de arte você leva para dentro do seu trabalho?
Com certeza, com certeza. E é o que eu mais gosto de fazer, porque enfim, é difícil ser artista e receber salário, né? Então eu tenho trampo que me mantém uma estabilidade.
Você quer falar pra galera o que você faz?
Sim, sim. No momento eu tô trabalhando numa ONG, é um projeto que chama Na Real Brasil. A gente trabalha com não consumo de bebidas alcoólicas pra adolescentes. Então visito escolas, troco ideia com jovens. Não só escolas, a gente já foi pra todas as fundações casa de São Paulo, pra ONGs, e é muito bom trocar uma ideia profunda sobre um negócio que eu não troquei quando eu tinha essa idade, né? E por exemplo, com os moleques da Fundação Casa, ninguém nunca teve— alguém veio falar sobre como o álcool é a principal doença, é a principal droga que a gente consome, que mais tem acesso.
Principal.
E também acaba sendo a mais perigosa porque ela é mais naturalizada, né? E aí quando eu fui lá, eu lembro muito de um adolescente que falou, nossa, que da hora, tia, que você veio. Porque aqui só vem Testemunha de Jeová e a gente tá cansado.
E é uma outra linguagem que vocês usam.
Sim, é, tem que se adaptar. Acho que como eu circulo muitos espaços, eu acho que eu acabo aprendendo a tentar articular, conversar com adolescente é uma coisa, uma criança outra coisa. E aí você me perguntou de como eu coloco minha arte no meio de tudo isso. Às vezes eu falo pra galera, já me apresento, ah, eu sou artista, eu faço umas rimas, eu canto, tá, não sei o quê. Aí eles já ficam todos assanhadinhos, né?
Aproxima mais também, né?
E aí eu falo, se vocês se comportarem, eu canto no final.
Que legal!
E aí é meu momento, quando eu canto para uma sala de aula, eu fico muito feliz.
Puts, que legal!
E também é um lugar de entrar a arte onde é possível, né? E também é uma forma de educar públicos, né? Acho que Um artista periférico também ele acaba sendo educador porque ele tem que educar um público, né, gente? É uma galera que não tá acostumada às vezes a ouvir poesia, a ouvir uma rima, né? Tem medo, acha que é coisa do demônio e tal.
Então você falou do sarau Maria Sem-vergonha, me conta um pouquinho desse sarau. Como que foi importante para você, para sua formação artística, esse sarau?
Bora! Acho que minha carreira como cantora começou a partir desse sarau, foi lá por 2016, e acho que eu tava começando a circular por esses espaços de poesia, e a gente via que não tinha muitas mulheres no microfone cantando, ou quando falavam eram coisas que não eram delas, né? Declamando uma poesia de outro cara, né? Então acho que a gente quis se estimular, que nem o quilombo que eu fiz lá na USP, acho que foi uma junção de minas de tipo, bora se fortalecer.
E aí era um coletivo de mulheres periféricas, tava lá em Pirituba, na Zona Leste, e a gente fazia esse festival de mulheres periféricas assim, dando esse protagonismo de Homens aqui também são bem-vindos, mas a gente quer ouvir mulheres, a gente quer. E acho que isso me fortaleceu muito, como— porque eu sempre fui muito tímida, né?
Não parece.
Eu era uma criança assim que falava para dentro, assim, e brigavam comigo de falar para fora e tal. E acho que espaços como esse me fortaleceram para tipo, não, tudo bem, e é importante você falar um foda-se, é importante você falar sobre violência de gênero. Acho que as minhas primeiras músicas foram muito nesse sentido, assim, como um grito de uma indignação muito grande que precisa ser colocada, sabe?
E aí você criou a banda, que na verdade é você e a banda.
Sim, nesse meio tempo ainda entrei em outras bandas, entrei em outros grupos, até perceber que, putz, acho que eu quero fazer meu Corre solo.
Seu rolê.
Isso.
E você só canta músicas autorais?
Nesse último show que eu tô fazendo, que chama Recanto, eu tô tentando fazer algumas interpretações também.
Tá.
Porque eu também fiz, me formei ano passado na ETEC de Artes. Olha lá, tô vendo.
Isso ela não tinha falado.
Ah, não falei. Eu acho bom estudar, eu acho muito bom.
Sim, claro.
Eu sou nerdinha. E aí eu resolvi fazer um técnico de canto. Ah, para aprimorar, né, um bagulho que eu já tava trabalhando. E acho que me abriu essa porta também de, ah, vamos ver esse lugar da intérprete também. E aí eu comecei a trazer isso no meu show também.
E aí você canta que músicas no show?
Canto Cartola, canto Martinália, canto Milton, que são minhas referências, né.
Só gente fraquinha, né? E como que funciona a estrutura? Você canta sozinha, sozinha com mais alguém, a banda é grande? Como que funciona?
Teve um momento da minha vida que eu percebi que eu precisava ter formas diferentes de apresentar. Que uma coisa você ser artista e outra coisa você trampar com arte e entender que você precisa de um produto, né? Então eu entendi que o show em si era o produto, o show risco. Eu fiz o EP Risco, Show Risco é um produto. E esse show eu posso apresentar no formato de dueto, eu voz e violão, mais um parça. Posso formar num trio com percussão, posso formar com banda toda.
Então depende do lugar que eu vou me apresentar, a estrutura que eu vou ter, eu posso apresentar de formas diferentes. E até é uma forma de eu negociar às vezes com contratante, falar, ó, tem esses formatos aqui, o que você acha que é mais da hora?
E o que que sai mais assim? Tem, você tem essa visão?
Ultimamente eu tenho feito muito com banda e tem sido bem legal assim, que eu gosto de tocar com mais gente, né? Inclusive a gente vai fazer agora um lançamento que vai sair em breve, nessa semana aí, no meu canal do YouTube, que a gente gravou um live show. Fica o convite para vocês assistirem, que acho que foi para tentar trazer um pouco dessa experiência do show ao vivo e com banda. Para uma gravação, tipo um Tiny Desk, né?
Ah, putz, que legal!
Então é uma brisa meio assim.
E vocês vão fazer onde?
A gente gravou no Estúdio Citrus.
Ah, tá, já tá gravado?
Tá gravado. Na verdade foi um prêmio, eu participei de um concurso de bandas e aí a gente foi o quarto premiado e aí o prêmio foi a gravação dessa live. Então esse é o resultado.
Vai sair no seu canal?
Vai sair no meu canal.
Você trabalha bastante o seu canal do YouTube?
Não tanto quanto eu gostaria, mas tem aí algumas coisas.
Suas músicas você lança no YouTube e nas outras plataformas também?
Lanço no YouTube, nas plataformas. Acho que eu não sou influencer, né? Acho que eu vim assumir isso. Gosto muito de postar algumas coisas no Instagram principalmente, mas eu acho complicada essa obrigatoriedade da da postagem, né? Você tem que alimentar e aí tem o algoritmo, né? Que é muito doido. Quando eu comecei a me identificar como artista em 2016 e começar a produzir vídeos com minhas poesias, com as minhas músicas, facilmente eu alcançava um vídeo de 80 mil pessoas assim.
Hoje, para eu chegar nesse público, só impulsionando mesmo assim, porque o algoritmo é contra a gente, né?
Ele quer que você ponha dinheiro.
Sim, isso é frustrante, né? Então acho que eu tenho focado mais no show ao vivo e um pouco menos nessas presenças digitais.
Os shows, você que negocia os shows?
Sim, também sou minha própria produtora.
Você faz mais para outras? Porque ali quando eu te conheci você estava fazendo para uma produtora, né? Você faz mais para produtoras, mais para bares? Como que é essa pegada?
Então na real eu acho que eu nunca toquei em bar assim mesmo. Meu rolê são esses espaços culturais, educativos, contratação de prefeitura, coletivos. Acho que eu tô muito articulada com meu território, que eu sou desse território noroeste, que é Morro Doce, Perus, Anhanguera. Então eu sou uma pessoa que vai nos rolês, eu consumo a cultura dos lugares, e aprendi a me vendendo também, viu? Tenho show, eu tenho negócio, e acaba tendo do quê aí também? É um tem o microfone aberto, o outro tá falando.
Um vai indicando o outro.
Sim, acho que também o trabalho com educação me fortaleceu muito, que são professores principalmente com quem eu tenho acesso que pegam às vezes minha música do Morro Doce. Eu fiz uma música sobre esse bairro e eles mostram para os alunos ou fazem. Teve até uma escola que fez uma exposição sobre essa música assim.
Que legal!
Foi muito legal, acho que foi um dos momentos que eu me senti com sucesso assim. E acho que eu tô nessa ponte também do show educativo. E foi assim que eu acabei fazendo o primeiro show no Sesc também.
Já fez no Sesc?
Sim, o Sesc Consolação.
Que legal!
E aí eu tava tanto como artista educadora oferecendo umas oficinas, e o show ele também tinha uma perspectiva educativa, né? E aí até juntando essa questão territorial Foi muito legal que eu consegui trazer os jovens, veio uma excursão do Morro Doce para o Sesc, sim, um ônibus com tudo, com vários jovens da quebrada para vir assistir, foi muito massa.
Como que é a cultura lá no Morro Doce?
Então é um bagulho de resistência assim, é um bagulho de resistência.
Tem uma galera fazendo, produzindo?
Tem uma galera fazendo, produzindo, com verba, sem verba, Na civirologia, que a gente chama.
Como?
Civirologia. É um termo do nosso mestre Soró. Fazer com o que tem, fazer com gente, né? Ver quem tá perto, vamos juntando os braços e aí vai indo, né? A gente não tem um— nós somos um dos bairros de São Paulo que não tem nenhum equipamento público, né? A gente não tem biblioteca, nem casa de cultura, nem fábrica de cultura.
Acho que o único é o CEL ali, né, que é uma escola.
É, que ainda ele é pequeno para o tamanho do bairro, né?
É enorme, né?
Sim. E aí a gente faz muito eventos nas praças. Uma conquista dos coletivos culturais do bairro foi o Espaço Cultural Morro Doce, que é um espaço que é regido pelas coletividades do bairro, ganhou um fomento de cultura periferia. E aí a gente vai fazendo.
Mas é céu aberto?
Não, não, é uma casinha, um sobradinho. E aí tem aula de capoeira, de dança, de grafite. Foi lá que eu fiz a minha primeira exposição individual.
Me fala dessa sua exposição, o que que você fez?
A minha exposição chama Floresta de Gente, e aí foi em 2025. E aí ela ainda foi para o Jaraguá e para o Lapa-Lapa. No começo desse ano. E foi um convite que fizeram pelo espaço cultural, um coletivo que chama Galeria Suburbana do Morro Doce. Eles estavam convidando artistas periféricos, né? E aí eu juntei todos os trabalhos que eu já tinha, que estavam guardados, estavam engavetados, produzi coisas também para essa exposição. E aí é uma exposição que tenta conectar um pouco a natureza com a gente, assim, floresta de gente.
Então tinha muitos retratos, muitas obras juntando cabelo, meu próprio cabelo, os dreads, pintura junto com a mata mesmo. E aí arte digital, um pouco de instalação também. Foi um experimento pra mim.
Quantas obras, você lembra?
Umas 25.
O maior trampo é instalar, né?
Sim, que é um trampo do caralho.
Eu sei porque eu tô pra montar uma agora, cara.
Ai, mas é puxado, é muito legal assim quando você vê tudo pronto. E aí eu fiz a abertura da exposição, foi um show também porque eu canto. Aí, gente, eu vou tocar na minha exposição.
Ela tem essa facilidade. Ah, vamos fazer abertura do show, eu mesmo canto.
Chamei uns artistas que eu gosto, poeta e tal. E minha família tá sempre junto, né?
Então marcou bastante assim. Eu me emocionei quando você cantou a música lá. Qual que é a história? Conta pra galera da música Foda-se. Eu me emocionei de verdade, me emocionei, porque é uma parada que eu acho que na verdade tinha que ter um movimento de homens trabalhando em cima desse assunto, né? Não das mulheres, né? As mulheres são as que sofrem, né? Eu acho que o dia que tiver um movimento de homens falando sobre feminicídio, falando sobre machismo, aí a gente tá no caminho certo. Por enquanto a gente tá só patinando, né?
Então essa música, ela foi ao mesmo tempo meu TCC do curso de artes e chamava Foda-se, um videoclipe para afugentar o medo. Acho que foi percebendo o quanto eu me sinto fodada às vezes em espaço público, que nós como mulheres, até como criança, né, a menina ela não tá na rua empinando pipa, jogando bola, ela aprende a ficar dentro de casa, ela aprende que a rua é um lugar para se temer, para não estar, ou se tá é para rápido para você chegar em outro lugar, né.
Tanto que a música começa com mais uma noite escura, vou andando pela rua, né. E essa música ela fala sobre os assédios, né, as coisas que a gente escuta, do que para um cara escroto gostosa é só um elogio, para a gente já é uma ameaça do que que esse cara vai fazer comigo, né?
O que vem depois da fala, né?
O que vem depois, ou tô mostrando muito do corpo, o que que— e o nosso corpo vai fechando junto com isso, né? O ombro que nesse trabalho até Conversei com amigas sobre como a gente até se travestia também como forma de defesa, assim, de tipo, às vezes você vai usar um blusão largo, uma roupa que não mostra as suas curvas do corpo para se masculinizar como uma forma de proteção. E nesse trabalho eu comecei a também escrever meus pesadelos, que eu tinha muito pesadelo de que eu tava, um homem me perseguia, que eu tava.
E aí eu percebi também estudando que não era uma experiência pessoal, Que era uma experiência coletiva, principalmente lugares como o nosso, de que mulheres sofrem tantas violências cotidianas, né? E aí quando você chega com toda essa bagagem, no final só tem que falar foda-se, né? Tipo, quem você pensa que é em mexer com mulher? E essa música eu já cantei. Nossa, quando eu cantei em Moçambique, lá é um país também muito machista, né?
E foi uma comoção porque as pessoas também não estão acostumadas a falar tanto palavrão que nem a gente. Então acho que as pessoas ouviam e se empolgavam, era um expurgo coletivo assim de todo mundo falando e cantando junto comigo quando eu ia nos slams, nos saraus, e abraçavam. Até me reconheceu na rua, ah, você é a menina do Foda-se, né? Menina do Foda-se. E inclusive já cantei essa música em casa de acolhimento para mulher, para idosas.
E foi uma música que eu vi que as pessoas se identificavam muito, assim, que é uma coisa que foi muito marcante no meu início de carreira. Foi a primeira música que eu lancei, meu primeiro videoclipe, e que tá presente na minha vida. E teve algum momento que eu precisei largar a mão também, assim. Acho que depois que eu consegui canalizar tudo isso Eu parei de ter os pesadelos, parei de ter tanto medo. Acho que me ajudou a ter força assim, sabe?
Eu tenho umas rapidinhas que eu sempre faço, mas depois eu tenho uma pergunta. Uma viagem que você fez?
Moçambique.
Uma que você sonha em fazer?
Agora eu quero ir para Noruega, ver a aurora boreal, sei lá.
Uma comida?
Puts, eu gosto muito de acarajé.
Acarajé. Uma artista mulher visual?
Rosana Paulino, que foi a primeira que entrou na USP.
Ah, tá.
Fui a quarta, ela foi a primeira.
Caraca. Rosana Paulino, vou até anotar.
Ela é brava, ela é brava.
Rosana Paulino.
Do Piqueri.
Olha. Uma cantora?
Elza Soares.
Elza Soares. E um sonho?
Um sonho? É um sonho que tá perto. Eu gosto de colocar sonho perto para logo realizar. Gravar o primeiro álbum, que eu já fiz um EP. Eu quero gravar um álbum.
Legal. Que que você tem de projeto futuro aí para falar para a gente? Ó, multiartista, cantora, poetisa, atriz, artista visual, instrumentista. Alguma coisa você tá tramando, vai.
Acho que esse do álbum tá perto.
É o do álbum? É.
Escrevi ele nos editais, tô esperando aprovação, tô sentindo que agora vai. Você falou muito. Mas também eu vou, se não rolar edital, eu também vou sem, assim. E que é algo que eu sinto necessidade de gravar, de botar no mundo.
E eu te dou um clipe de presente.
Sério?
Sério. Toca devagar, devagar, devagar.
Ai, caçamba.
Já saiu um clipe de presente aqui que foi pro Ghetto Organizado. Eu te dou um clipe de presente, de coração.
Puta presente pra mim, não vou recusar de forma nenhuma.
Me conta sobre os editais assim, como que você tá lidando com isso?
Eu vou indo pelo volume, eu faço uma lista, eu treinei meu algoritmo das redes sociais pra tipo ele me mostrar as coisas que são boas pra mim. É, aí eu vou copiando os links, vou botando na minha planilha, e aí eu pego um dia para começar a ver, ver os prazos, né? Porque o que a gente mais perde é o prazo, né?
E você que tá escrevendo tudo agora?
Sim, escrevo, tento deixar portfólio atualizado, os materiais renovados. E aí eu vou indo. Eu recebo muito não. Isso é o mais difícil, né? Lidar com a frustração também. Mas às vezes rola um sim, que nem isso da Hungria, né? Foi uma coisa que consegui, da Zona Leste. Então você tem que ir relevando.
Você ouve para escrever?
Algumas coisas. Acho que, por exemplo, se eu tenho um currículo que precisa ter 500 caracteres, aí eu só tipo diminui isso para mim. Mas eu já fui também a, qual que é o nome, parecerista, a pessoa que lê os editais.
Você já fez isso?
Sim, já fiz isso pela Aldir Blanc e Fomento de Periferia também.
Tá, então você leu o projeto que a galera mandou? Que legal!
E foi uma experiência muito legal até para ver coisas que não são tão legais de fazer assim, sabe? Na época ainda não tinha estourado isso do IA nem ChatGPT, faz uns anos.
Você devia ler uns absurdos então.
Lia alguns absurdos e lia umas coisas que não parecia que a pessoa tava conectada com o projeto assim, sabe?
Projeto era de melancia, o cara tava falando de abóbora.
E às vezes vai uma receitinha de bolo igual, né? E acho que quando uma pessoa que você tem que escrever pensando em quem vai ler, né? E uma pessoa que vai ler, provavelmente ela já tá lendo 100 projetos, né? 89. Então acho que é importante tentar deixar uma escrita que pareça um pouco mais com a sua cara, do seu projeto, do que que Você tá querendo. Tô falando isso, mas ainda não consegui aprovar os meus muito, né?
Ah, mas é legal porque você tá dando o outro lado da visão, né? Porque você esteve no outro lado. Isso é muito legal.
E acho que muitas bobeirinhas eu vi passar assim, sabe? Quando, por exemplo, você tentar comprimir um PDF e aí você vai no I Love PDF, comprime para deixar, e aí as pessoas mandam coisa sem link que não dá para clicar, ou com imagem reduzida, coisas pequenas assim, sabe? Ou um projeto que você vê, nossa, esse projeto é maravilhoso, faltava só um pouquinho. É que a questão maior é que deveriam haver políticas públicas suficientes para o tanto de gente que produz, né?
O que rolou agora com o pessoal do teatro, que teve vários projetos aprovados e do nada a prefeitura só desclassificou todo mundo e falou, não, não vai rolar.
Não vai ter a grana.
É. Ou um projeto que demora um ano para sair o resultado, ou você faz um caixa e demora 60 dias.
Eu participei de um que nem vou citar o nome, mas que não saiu até hoje. Então, mano, foi o primeiro assim.
Isso é, isso é meio frustrante, é frustrante, mas eu acho que a raiva tem que ser direcionada assim, tipo, não pode acontecer.
Você acha que é muito burocrático os editais?
É, é sim. E aí o rolê é não deixar a burocracia te vencer, é trabalhar um pouco antes de quando sair. Assim, se você conseguir deixar o seu portfólio pronto antes do que chegou abril, sabe?
Eu quero te fazer uma pergunta que não quero, não é intencional que seja, isso aqui não é um podcast polêmico para cortes. Com toda essa história de fazendas de streaming, de gente que lava dinheiro, a gente sabe da onde, você acredita na música brasileira ainda?
Puts, sim!
Até porque você tá nela, né?
Eu tô, e acho que vem das minhas origens assim, que eu, a minha família é do samba, né? Meu pai é da Zona Verde, filho das escolas de samba, dos cordões carnavalescos, cantava na mesa para gente assim, né? Então acho que eu venho de uma família que a música tava dentro, mesmo sem ser profissional. Então, por amor, e é por parte de quem, da nossa identidade, do que a gente é, do que a gente faz. Acho que eu sou artista e eu produzo isso naturalmente.
É o que vem de mim, é quase como fazer xixi, fazer cocô, fazer uma obra, fazer arte. Eu me apaixono e eu vou fazer uma música para pessoa, vai ter uma poesia. Porque às vezes eu acho assim, falo, cara, mas aí a indústria é um outro negócio.
A gente chegou num ponto da indústria que talvez não tenha mais volta assim.
Ao mesmo tempo que eu acho que quanto mais artificial fica, mais as pessoas ficam com vontade de ter acesso a uma coisa real, diferente, né? De ter algo que te mexa, né? É que nem, sei lá, quando você come muito miojo e nuggets e aí você come uma comida feitinha em casa, uma orgânica, isso é bom, isso eu quero. E aí eu acho que é sobre nutrir também, se nutrir, sobre ter autoestima, sobre ser resistência também para dentro da comunidade, né?
Sim, e se pensar, sei lá, por exemplo, Cartola, que é um desses caras que eu canto no meu show, que só foi conseguir gravar na velhice, né? Don Ivone Lara também.
Já fotografei ela já.
Jura? Caralho, que foda! Porra!
O Paulinho da Viola, o pai do Paulinho da Viola.
Nossa, isso é pra pôr no currículo.
Na época do Pão Music. Eu fiz a cobertura do Paul Music. Então foi nessa época, e aí eu acabei que eu fotografei ela no palco e no camarim, inclusive, que na verdade eu tinha que fotografar camarim, mas eu sempre escapava para fazer palco. Fotografei toda a galera, Gil, Caetano.
E aí eu fiquei imaginando isso hoje, sabe? Imagina uma Dona Ivone Lara tendo que se adaptar ao algoritmo do dia assim, sabe? Spotify. É, eu acho que isso, não sei, para mim música tá num outro lugar ainda, é maior, é o que conecta a gente, faz você sair de casa ver um show, é o que deixa seu dia alegre, é o que faz você conhecer um lugar que você não conhece.
É, tá no lugar daquele lance que eu senti ali quando vocês estavam cantando. Tem um outro cantor que também tocou lá que eu queria entrevistar ele, que ele colocou depois um chapéu de couro. Não vou lembrar o nome, foi muito bom. É isso, deixa seu Instagram para galera te perseguir. Claro, por favor, de forma produtiva, né?
Perseguir de forma produtiva. Eu tô como @arianemarciano, Ariane com @arianimarciano. Também tô no Spotify, no YouTube, no TikTok.
Manda os links para eu pôr aqui na descrição. Vocês vão lá e escuta, galera.
E escutem esse live show que vai sair no meu canal.
Quando vai ser?
Tá para sair essa semana.
Ah, vai sair essa semana? Então já manda o link, porque já, né, logo depois vai ser o domingo agora o seu episódio. Então já era. Eu quero assistir também, você me avisa, hein?
Por favor, é para você escutar na faxina assim, sabe, limpando a casa, bota o som.
Eu falo para a galera, meu, põe para escutar a hora que vai dormir, dorme escutando um sonzinho, põe no repeat.
E eu acho que também é sobre aprender a ouvir coisas novas assim. Eu acho que eu às vezes eu me pego pensando como você resiste a essas fábricas de streaming, a esses negócios que estão sempre Rolando. Para mim, eu tenho que constantemente treinar meu ouvido para ouvir uma coisa que eu não conheço, para me abrir para alguma outra coisa, para experimentar.
E com isso você vai treinando o seu próprio algoritmo para ele te trazer coisas novas. Porque quando você pesquisa algo diferente, ele começa a te trazer coisas diferentes.
E eu acho que é uma forma da gente se nutrir, né?
No YouTube eu faço isso direto. Às vezes começa a aparecer umas coisas, eu começo a pesquisar outras coisas. Aí começa, muda o que aparece, sabe? É muito louco isso. Menina, falamos, falamos, né? Muito obrigado.
Eu que agradeço.
Gratidão profunda por ter aceitado o convite.
Muito obrigada. Meu primeiro podcast, certo? Sentindo que eu perdi o cabaço agora, cara.
O primeiro é o mais, dá um nervosinho, mas é o mais legal.
Eu gostei muito.
Com certeza, a hora que você assistir, você vai falar, puta, podia ter falado isso, podia ter falado aquilo. Aquilo, mas eu sou assim. Depois, o episódio 116, o seu, provavelmente eu vou assistir, falar, podia ter perguntado isso, podia ter perguntado aquilo, mesmo com roteirinho.
Por esse trampo aí não é fácil, né? Mais de 100 podcasts, 116 agora. Você tem que achar alguém para te entrevistar.
Ah, o número 100 foi uma entrevista comigo.
Ah, você se entrevistando?
O Michael Mota da Dois Neguinhos Filmes.
Chique, chique, vou ver.
É, ele me entrevistou e foi esquisito. Hoje eu falo, meu, eu falaria tudo diferente. No 200 eu falo de novo. Meu, obrigado, viu? Para você que ficou até agora, muito obrigado, um beijo, tchau tchau, e até o próximo domingo.
Gnarly
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