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- Saúde Mental e Suicídiodepressão · suicídio · surto psicótico · negligência médica · apoio emocional
- Relações de Amizadeamizade entre Samanta e Jéssica · gratidão · culpa
- Sistema de Saúdefalhas do sistema de saúde · estigmas sobre doenças mentais
Sejam muito bem-vindos ao Até Ok! E o episódio de hoje será dedicado aos apoiadores Micaela Cavalcante, Catarina Vasconcelos, Brenda Ribeiro Leidner, Sunny Scorsone e Mônica Vidal. Com o perdão se eu errei alguma pronúncia. E você, quer o seu nome mencionado aqui e ainda a chance de gravar comigo?
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E a história de hoje é da Samanta, mas se essa história é minha ou se é da sua amiga, vocês nunca vão saber, nem se os lugares ou nomes foram alterados ou não. Antes de começar essa história, eu quero deixar um alerta gatilho de suicídio aqui no início desse episódio. Então ouçam com muito cuidado, ele é um episódio mais forte mesmo e a qualquer sinal de desconforto, vocês pulem esse episódio.
Então, agora sim, recado dado, vem comigo.
A Samanta, quando ela era adolescente, ela tinha um amigo ali na igreja que ela frequentava e frequenta até hoje. A mãe desse amigo se chama Jéssica. E assim, através desse amigo, a Samanta e a Jéssica se conheceram. A Samanta tem hoje 25 anos e a Jéssica 40. Só que a Samanta, ela ficou muito, muito, muito amiga da Jéssica. Porque, gente, a Jéssica não é uma pessoa qualquer.
A Samanta descreveu ela como uma mulher com uma alma muito profunda, que sempre viu o mundo de um jeito diferente. Só que junto com essa profundidade toda, a Jéssica carregava um peso enorme, um desejo de morrer que acompanhava ela desde os 13 anos de idade.
Só que essa vontade não era só um pensamento passageiro. Ao longo da vida, Jéssica tentou se desviver por três vezes, todas de forma muito séria, só que por alguma razão ela nunca conseguiu.
E apesar dessa escuridão que ela vivia, a Jéssica era uma luz na vida da Samanta. Ela exerceu muitos papéis bons, mas teve um que foi fundamental. Pouco tempo atrás, quando a Samanta teve uma depressão gestacional muito grave, foi a Jéssica que segurou na mão dela.
A Samanta me falou que ela deve a vida da filha dela ao apoio que ela recebeu da Jéssica. E por isso ela nunca soltou a mão da Jéssica. Porque a gratidão dela é realmente muito, muito grande. A Jéssica foi muito importante nesse momento difícil.
E não tem escapatória. A gente precisa muito falar sobre a vida da Jéssica. Foi uma vida muito marcada por muitas dificuldades. Ela sofreu muito com a mãe dela desde sempre. E isso fez com que ela tivesse uma adolescência complicada. Depois ela teve relacionamentos muito fracassados. Inclusive um casamento que fracassou.
E esse casamento era com o pai dos três filhos que ela tem. Esse ex-marido, ele foi um grande cretino. Ele prendia a Jéssica em casa, ele deixava ela passar fome, ele até abusava dela. E tudo isso aconteceu até o dia que ela finalmente conseguiu fugir.
A mãe dela é descrita pela Samanta como uma pessoa terrível e a avó também. A avó é um ser humano péssimo, deplorável. Além de todos esses problemas, a Jéssica chegou a comentar com a Samanta que ela acreditava ter sofrido algum tipo de abuso em algum momento da vida, mas ela não tinha uma memória clara sobre isso.
A Samanta me falou que ela sempre percebeu a Jéssica como uma pessoa de personalidade e opiniões muito fortes, quase persuasivas, extremamente inteligente, e por todas essas características dela, sempre foi muito difícil saber quando ela estava bem e quando ela não estava, a menos que você convivesse muito com ela, daí você saberia. Ou seja, gente, tudo isso que eu estou relatando para vocês, é só para vocês saberem que a questão da saúde mental da Jéssica,
Sempre foi uma coisa presente. Uns seis anos atrás, antes delas duas serem super próximas, igual elas eram poucos dias atrás, quando a Samanta tinha 19 anos ainda, a Jéssica teve um surto psicótico. Só que a Samanta só ficou sabendo dos detalhes alguns anos depois. Então não teve nada que ela pôde fazer naquele momento.
No ano passado, a própria Jéssica procurou a Samanta e disse que ela ouvia vozes e que essas vozes davam instruções para ela se matar. E ela pediu ajuda. A Samanta, novinha de tudo, né gente? 19 anos.
pegou na mão da Jéssica, levou ela até o CAPS. E lá, a Jéssica implorou por uma internação três vezes. Só que de uma forma muito absurda, a Jéssica foi tratada com descaso e muita crueldade. A Samanta, que estava presente ali, que estava junto, ela ouviu os profissionais julgarem a Jéssica por não querer viver.
Eles falaram que ela tinha que se tratar, só que eles recusaram a internar ela. E a Jéssica se negou a qualquer tratamento que não fosse a internação. A Samanta, conforme ouvindo a Jéssica, ela passou a suspeitar que além de uma depressão, a Jéssica pudesse ter esquizofrenia. A Jéssica até já tinha comentado alguma coisa sobre isso, só que ela nunca lidou bem com a possibilidade desse diagnóstico de fato.
E muito provavelmente isso aconteceu porque a mãe dela usava o termo esquizofrênica de uma forma pejorativa para humilhar ela quando ela era mais nova, quando ela tinha alguma crise.
Ou seja, ela sempre foi ridicularizada e nunca levada a sério em relação às questões mentais dela. Nem pela família, nem pela igreja e nem pelo próprio sistema de saúde. E depois de ela ser negligenciada por todo mundo, numa tentativa desesperada dela se ajudar, ela chegou a começar a estudar, fazer uma faculdade na área da saúde, acreditando...
que dessa forma ela conseguiria encontrar uma solução para ela mesma. Mas não adiantou muita coisa e ela não conseguiu sustentar essa faculdade. E conforme a amizade delas duas foi ficando mais intensa, a Jéssica começou a se abrir mais e contar mais algumas coisas para a Samanta.
E ela contava, gente, que além dela ouvir vozes que direcionavam ela, ela também se sentia perseguida por um espírito. Essa crença dela vinha de histórias do passado. A avó dela, boatos, que tinha feito coisas muito ruins e erradas na religião.
E que ela sempre dizia que ela entregou a Jéssica para os demônios quando a Jéssica era criança. E isso fez a Jéssica acreditar que por ela ter abandonado a religião também, ela era castigada e que esse espírito perturbava ela, tocava nela e falava com ela.
Ela falou que teve algum momento da vida dela que o espírito queria o corpo dela, só que ela não aceitou. E aí ele também pediu o corpo do marido e de um dos filhos. Mas como ela se negou, o espírito passou a castigar ela. E gente, ela descrevia para a Samanta que esse espírito, ele ficava ali no canto da sala da casa dela.
que depois ele ia assistir televisão na casa do vizinho e aí ele voltava. E o mais estranho é que os dois cachorros e o gato que a Jéssica tinha realmente ficavam latindo e olhando fixamente para aquele canto exato da sala, um lugar que sempre deu medo, inclusive na Samanta, porque é onde a Jéssica dizia que o espírito estava.
Pode ser que isso fosse uma associação da Jéssica ver os bichinhos olhando para aquele canto e associar que tinha o espírito lá? Pode, mas está aí uma coisa que a gente nunca vai saber. Mas agora nós chegamos ao fato recente que trouxe essa história aqui para o podcast.
No domingo de Páscoa desse ano, a Jéssica simplesmente sumiu. Ela mora com o marido e com um dos filhos, e o marido dela deu por falta dela, e se lembrou que viu ela escrevendo alguma coisa em um caderno na noite anterior. E assim que ele deu falta dela, ele foi procurar o caderno, e ele se deparou, gente, com uma carta de despedida. A Samanta...
na Páscoa estava ali ocupada com o almoço, organizando as coisas, ela viu que ela recebeu uma mensagem da Jéssica, agradecendo ela pela amizade. Só que como ela estava ali na função, na lida com o almoço, ela achou que a Jéssica pudesse estar mais emotiva pela Páscoa, talvez, e deixou para responder depois, assim que desse tempo.
Só que logo em seguida, o marido da Jéssica ligou desesperado para a Samanta e contou do sumiço dela. Quando a Samanta soube disso, ela foi responder a Jéssica. E gente, nesse momento, a Jéssica se demonstrou estar brava por saber do sumiço dela. Ela não queria que ninguém tivesse dado falta dela ou espalhado. Só que nesse momento, a Samanta estava desesperada, o marido dela também.
E a Jéssica começou a narrar a própria tentativa de suicídio. Na mensagem, ela dizia que ela estava numa mata com um fio de luz e uma mochila nas costas e que ela queria se enforcar. Só que também com essa descrição, vinham algumas mensagens confusas do tipo
Eu preciso de silêncio. O silêncio é a cura. Ela escrevia isso. E aí, logo depois que ela escreveu essas coisas, ela postou um vídeo do céu no status do WhatsApp dela.
E gente, aquela descrição, tudo aquilo que ela falava, era uma tortura para a Samanta. Porque o pai da Samanta, ele se desviveu quando a Samanta era criança. E para ela foi muito duro ter que lidar com isso. Ela levou muito tempo para conseguir assimilar, entender, lidar e superar.
Então aquela situação ativava muitos gatilhos na Samanta. Só que independente disso, ela não podia ficar parada refletindo sobre os gatilhos dela. Ela precisava agir e ajudar a Jéssica. Então ela mobilizou a polícia, os bombeiros, a igreja, todo mundo que estava ao alcance dela, que pudesse ajudar de alguma forma, ela acionou.
E com as informações que ela tinha, o marido e um dos filhos da Jéssica já estavam no meio da mata ali em pânico procurando por ela. E como toda desgraça é pouca, no meio desse caos, a filhinha de um ano e meio da Samanta começou a passar mal, queimando em febre. A Samanta correu com o marido para uma UPA, que gente era muito distante de tudo, mas era a UPA que estava mais vazia naquele dia.
Porque quando a gente tem uma criança, não é qualquer coisa que a gente leva para o hospital, porque às vezes é uma virose, é uma reação, alguma coisa, e de você sujeitar a criança a um ambiente hospitalar, ela se contamina com outra doença no ar. Então, quando a Samanta soube que aquela UPA estava mais vazia, foi para lá que ela correu. E, gente, foi nesse momento que uma coisa muito curiosa aconteceu.
Hein, antes de continuar essa história, deixa eu falar uma coisa bem rapidinho aqui. Eu queria convidar vocês para serem apoiadores do podcast, porque além de me ajudar muito, vocês também têm algumas vantagens. Olha só, no apoio de 10 reais...
Você tem acesso antecipado às histórias. As histórias vêm sem anúncios, sem cortes, sem edição e com erros de gravação. Comentários sobre os bastidores ali, a vida como ela é. Além disso, você também terá o seu nome citado em algum episódio. E ainda, você pode entrar no nosso grupo exclusivo para apoiadores lá no Telegram. É um grupo muito pequeno e muito íntimo.
Se você quiser apoiar com R$ 15, além de tudo isso que eu acabei de citar, você ainda tem a chance de gravar uma história junto comigo para o quadro com o DrinkeOK. Se fizer sentido para você, é só você entrar no seu navegador e digitar apoia.se barra até aí ok.
Ou clica no link que está aqui na descrição desse episódio. Mas se você não quiser ou não puder me apoiar agora, só de continuar me ouvindo aqui pelo Spotify e me avaliar com 5 estrelas, você já está me ajudando. Pronto, convite feito, vamos voltar para a história.
No exato momento em que a Samanta estava na UPA com a filha dela, ela recebeu uma mensagem da Jéssica dizendo que ela, a Jéssica, tinha sido levada para aquela UPA, aquela UPA que a Samanta estava com a filha, ela foi levada para aquela UPA por alguém que ela não se lembrava quem era, mas que ela tinha fugido de lá. E, gente, o mais chocante.
A Jéssica, na mensagem, descreveu a roupa que a Samanta estava usando. Eu te vi. Você está de blusa vermelha e calça marrom. E a Samanta, naquele momento, ela ficou muito nervosa, porque ela sabia que a Jéssica estava ali. Então foi a chance dela ir tentar resgatar a amiga. Ela deixou a filha com o marido e só saiu correndo.
A Jéssica continuava mandando mensagem, só que agora ela dizia que ela estava escondida e que ela tinha fugido porque o marido queria internar ela e ela não queria ser internada. Ela chegou a dizer... Acho que eu devo matar o meu marido então, né? E aí, gente, foi nesse momento...
que ela começou a narrar de uma forma muito detalhada o que tinha acontecido naquela mata. Ela contou que ela subiu numa árvore, amarrou o fio de luz que ela tinha no pescoço, o outro fio no tronco da árvore e pulou. Só que o fio arrebentou.
Quando arrebentou, ela caiu, machucou a perna e o braço, e agora ela precisava de uma outra estratégia para conseguir morrer, porque ela não queria mais viver. Só que ela não conseguiu pensar em nada. A Samanta, que tinha saído correndo atrás dela, gente, conseguiu encontrar ela.
A Jéssica estava jogada no chão, com um gorro azul, a roupa toda rasgada e o braço enfaixado com uma marca que parecia ser do acesso do soro e também parecia que tinha marca de dedos. Era como se ela tivesse arrancado o soro, alguém tivesse tentado segurar ela e nessa tentativa acabou rasgando a roupa dela. Mas independente disso, nesse momento, ela parecia ter uma outra personalidade.
Quando a Samanta ia se aproximando dela, ela começou a gritar que ela não conhecia a Samanta. E, gente, quanto mais a Samanta tentava conversar, negociar e se aproximar, mais a Jéssica reagia. Chegou um momento que a Jéssica levantou e simplesmente saiu correndo em direção a uma passarela que era muito movimentada.
A Samanta correu atrás dela, implorando para ela parar. Ela falou que estava com a filha doente, que ela não ia conseguir correr muito. Mas, gente, quando a Samanta estava quase alcançando a Jéssica, a Jéssica empurrou a Samanta, a Samanta caiu no asfalto, e ela só ficou observando a Jéssica atravessando aquela avenida movimentada, se enfiando entre os carros, tudo em alta velocidade, de um jeito que é um milagre.
que a Jéssica tenha saído ilesa, que ela não tenha sido atropelada. Quando um dos filhos da Jéssica chegou no local, avisado pela Samanta, a Jéssica começou a tacar pedra em todo mundo para manter eles afastados. O resumo da coisa, gente.
foi que a cena terminou com os bombeiros na passarela, lutando para conter a Jéssica enquanto ela ameaçava se jogar. Os bombeiros, graças a Deus, conseguiram conter ela e convenceram ela de ir para aquela UPA. Só que quando ela chegou na UPA, não sei, não sabemos se é porque ela tentou fugir anteriormente ou o quê.
Mas ali houve um descaso muito grande. Mesmo com todo o histórico dela, os médicos tiraram sarro dela, começaram a se referir a ela como paciente rouba-leito e liberaram ela sem nenhum remédio, sem nenhum tratamento ou encaminhamento. O filho dela chegou a registrar um boletim de ocorrência por negligência. Mas gente, qual foi o resultado de tudo isso?
A Jéssica agora simplesmente odeia a Samanta. A Jéssica bloqueou a Samanta de tudo e acusa ela de ter feito fofoca para a igreja e de ter exposto a Jéssica para todo mundo da igreja.
A Samanta se sente um monstro por ter pedido ajuda e ter exposto a dor da Jéssica, porque no fim das contas essa ajuda não foi eficaz. Ninguém da igreja se mexeu para ir ajudar. Em conversa com o filho dela, a Jéssica dizia que a cabeça e o ouvido dela doíam muito.
E a dedução foi que ela se bateu, bateu na própria cabeça, para talvez tentar calar essas vozes. Depois desse surto, ela parecia estar revivendo traumas de infância e falando coisas desconexas. Ela insistia que ela queria de volta a mochila, sendo que essa mochila estava com ela o tempo todo.
Para aumentar o mistério, gente, quando olharam o extrato do cartão de transporte da Jéssica, eles viram uma coisa muito sem sentido. No dia do sumiço, ela começou 8h45 numa região no extremo sul da cidade. Uma hora e quinze depois, ela estava no centro.
Cinco horas depois, ela estava no extremo norte. Duas horas e meia depois, ela foi parar num bairro nobre e ela terminou a noite num posto de saúde onde ela foi encontrada.
Ninguém sabe o que ela foi fazer em cada ponto, mas teve vezes que ela chegou a passar o cartão duas vezes na mesma catraca, no mesmo terminal. Era como se ou ela estivesse passando o cartão para mais alguém, ou se ela tivesse entrado no terminal, desistido, saído e voltado, entrado de novo. Foi um trajeto bem confuso.
Mas independente disso, o fato é que agora a Samanta se vê numa situação difícil. Ela se sente culpada, mas ela também sente que ela precisa proteger a própria sanidade e até a filha pequena. Tentando ajudar a Jéssica, ela quase foi agredida, ela caiu, a Jéssica poderia ter empurrado ela para a rua. E a pergunta que a Samanta se faz é...
Eu sou um monstro por querer distância? Agora, o que eu faço? Foi muito traumático o que a Samanta viveu. E ela tentou salvar a vida de uma amiga que por muitos anos ali, principalmente no momento mais vulnerável da vida da Samanta, essa amiga foi o alicerce dela. Só que assim, gente, como ajudar quem parece não querer ser salvo? E como não enlouquecer nesse processo? E eu digo uma coisa para vocês.
Eu acho que essa história é um retrato muito doloroso das falhas do nosso sistema de saúde, da estrutura que a gente tem, dos estigmas sobre doenças mentais. Se a mãe dela não tivesse esse estigma, não tivesse falado dela como falou, ela poderia buscar um tratamento de uma forma mais aberta para isso. E também é um retrato do peso que um amigo carrega quando tenta ajudar. Eu acredito fortemente que eu vou ser cancelada.
Mas eu digo uma coisa para vocês. Eu acho que a Samanta tem que se proteger também. O que ela fez não foi errado. Foi o que qualquer pessoa, gente, minimamente responsável faria diante de um risco real de morte. Quando uma pessoa está em surto, ouvindo vozes, tentando se desviver...
Isso não é mais uma questão de privacidade, de proteger e não expor. Isso é um caso de vida ou morte. Isso é uma emergência de saúde. Então, nesse contexto, relacionar a família, bombeiro, polícia, o papa, o papagaio, não é expor a Jéssica. É proteger, tentar zelar a vida da Jéssica.
Até porque se a gente for falar de exposição, quem estava se expondo era a própria Jéssica, estando ali numa passarela, com bombeiros em volta. Vocês sabem, o que a galera mais faz, gente, é tirar foto disso e sair compartilhando em grupos, né? Ah, mas ela não estava exposta de propósito, ela não estava em condições de fazer esse julgamento, mas ela também não pode julgar a Samanta.
que só estava tentando ajudar, né, porque no momento em que ela tomou a decisão de bloquear a Samanta, de excluir a Samanta da vida dela como se o que a Samanta tivesse feito tenha sido errado, ela fez isso quando ela já estava bem, quando ela já estava em casa. E claro, eu sei que a gente está falando de uma pessoa com emocional vulnerável, mas não acho que a Samanta tem que tentar se rastejar para ficar implorando ajuda por uma pessoa que nesse momento não consegue se ajudar.
então não, para mim, no meu ver, a Samanta não é um monstro, só que tem uma coisa, gente, eu já falei, eu vou ser cancelada muito provavelmente aqui, ela não é um monstro, a Samanta, mas ela também não é salvadora, e eu acho que esse é o ponto mais difícil da gente aceitar, porque quando a gente vê uma pessoa numa situação tão vulnerável assim,
É claro que é natural que a gente coloque todo mundo que está em volta, a gente coloque a responsabilidade de que tem que ajudar, tem que ajudar. Só que a Jéssica precisa de uma ajuda especializada, uma ajuda que seja consistente e, o mais importante, contínua. Não é uma crise pontual, ela precisa de uma ajuda contínua. Tem sinais muito fortes de um quadro psiquiátrico muito grave.
eu não domino isso, mas episódios psicóticos, então como não sou eu que não domino, por questões óbvias, não vou falar o que eu penso de diagnóstico nenhum, porque não sou médica, e também é só um recorte aqui que a gente tem de poucos minutos sobre uma vida inteira da Jéssica, que é uma mulher de 40 anos, então não tem como resumir em poucos minutos a vida dela, então também não tem como ninguém que está ouvindo aqui fazer um diagnóstico.
Mas o fato é que, independente disso, existe um limite muito duro aqui, gente. E é muito triste e difícil da gente reconhecer. Mas ninguém consegue tratar ou estabilizar uma pessoa sozinho. Você pode amar o quanto for. Você pode ter a gratidão maior que qualquer coisa no mundo. Você pode ser a pessoa mais leal possível que exista nesse mundo. Você não consegue estabilizar uma pessoa sozinha.
E tem mais um ponto, né? Durante ou depois de um surto, eu acredito que seja comum que a pessoa direcione a raiva dela justamente para quem tentou ajudar. Isso pode vir de uma paranoia, isso pode vir de talvez até uma distorção da realidade, a sensação, a falsa sensação de traição, ou quem sabe até uma vergonha depois do episódio.
Quando a Jéssica agiu no momento que ela não estava com as faculdades mentais em dia. Então pode ser que ela tenha tido vergonha? Pode. Mas a questão é que o ódio que ela demonstra hoje bloqueando a Samanta não é um retrato confiável da realidade, e sim do estado mental temporário dela. Então Samanta também tem que tentar não levar isso para o coração.
Só que eu acho que independente disso, isso não torna a situação menos dolorosa, menos perigosa ou mais fácil de lidar. Porque a gente está aqui falando da Jéssica, uma situação muito difícil e delicada, mas a gente também tem o limite da Samanta. A Samanta fez o que ela tinha que fazer. Ela mobilizou ajuda, ela se colocou num risco físico, ela também teve que reviver traumas difíceis para ela, e ela... Ela...
Parece meio pejorativo, mas assim, ela negligenciou a própria segurança emocional dela, e até física naquele momento, mesmo com a filha ali na UPA queimando em febre. Ela largou a filha dela com o marido, largou com uma pessoa confiável, não largou com qualquer um, mas ela deixou a filha de lado para ir tentar ajudar a Jéssica, né, e ela não conseguiu.
Então, eu acho que ela querer se afastar, que foi o ponto que ela trouxe, para se preservar, é claro que isso não é abandono, gente. Isso é autopreservação. Nesse caso, nesse contexto, é autopreservação. Se fosse para eu falar aqui sobre a função ou papel do marido e dos filhos, caberia duas horas de ladainha falando de cada um deles. Mas falando sobre a posição da Samanta...
sinceramente, gente, é claro que eu me compadeço muito com tudo que a Jéssica passou, não posso falar muita coisa, porque muito embora eu já tenha vivido episódios muito difíceis na minha vida, já tenha tido crises psiquiátricas e ter que ir também para hospitais psiquiátricos, ter que procurar ajuda, de momentos difíceis, eu nunca tentei me desviver, isso nunca foi algo que me ocorreu, então eu também tenho um pouco de dificuldade nesse aspecto, porque eu não estou no lugar da Jéssica.
Mas falando sobre a Samanta, eu acho que a gente tem que considerar que na posição que ela está de querer ajudar a Jéssica, ao mesmo tempo que a Jéssica quer ajuda, quando alguém tenta internar ela, ela foge. E eu acho que é complicado a Samanta se enfiar nesse emaranhado todo, gente, porque infelizmente ela é incapaz de ajudar. E assim, existe uma linha muito tênue entre a gente ajudar alguém e a gente ser engolido pela dor dessa pessoa. E a Samanta está ali na corda bamba.
é aquilo que eu sempre falo para vocês da boia, você pode jogar boia para uma pessoa que está se afogando, mas se a pessoa não quer, ou se ela não consegue segurar a boia, você tem que avaliar o que você tem a perder, antes de você pular para salvar aquela pessoa.
Porque se essa pessoa não quiser ou não conseguir segurar a boia, a chance dos dois morrerem afogados, ela é uma chance grande e real. Então eu acho que a Samanta, ela deve continuar oferecendo uma ajuda, só que de uma forma mais distante, se blindando um pouco mais. Manda mensagem para o marido, né, já que ela está bloqueada. Vê se está tudo sob controle, mas se afasta um pouco.
E mais uma vez, de uma forma bem cancelável, eu vou falar uma coisa para vocês, gente, que todo mundo aqui pode me cancelar, pode achar ruim, pode achar que eu estou sendo egoísta, mas uma coisa, ninguém pode discordar de mim, a vida está corrida para todo mundo.
Está todo mundo lidando com as suas dificuldades, está todo mundo lidando com as suas demandas, com os seus problemas, está todo mundo lidando com os corre, com os paranauê do dia a dia. Não dá para a gente achar que é possível alguém parar a sua vida para cuidar da gente.
Gente, eu até falei com uma amiga minha essa semana, que ela perguntou como é que eu estava. E por aqui, assim como na grande maioria das casas com o bebê, o negócio aqui está insano. Tem diversas coisas acontecendo e tal.
E ela me perguntou como é que eu estava. E eu falei para ela que eu estava sobrevivendo. Como eu disse, os dias andam turbulentos por aqui. E essa amiga me questionou. Cara, o que será que está acontecendo no mundo de hoje? Todas as minhas amigas que eu converso, eu pergunto como é que elas estão, elas me falam que estão sobrevivendo. Eu estou sobrevivendo. Você está sobrevivendo. A gente não tem mais tempo de se ver. A gente não tem tempo de qualidade. A gente não tem lazer. E é isso, gente. Está todo mundo sobrevivendo.
a esse mundo, está todo mundo trabalhando loucamente, depois da pandemia, eu sempre falo, ninguém ficou normal, a galera valoriza muito mais ficar em casa, os momentos de descanso, então assim, está todo mundo no seu corre, está todo mundo lidando com os seus problemas, é complicado, eu sei, mas é muito difícil, quando você está imersa, vivendo um problema, filho doente, você ainda ter que se preocupar com uma amiga, que nesse momento não está conseguindo aceitar ajuda.
Então, de modo geral, eu acho que a Samanta, ela fez o que era certo quando a vida da Jéssica estava em risco, mas eu também acho que a responsabilidade pelo tratamento da Jéssica não é dela. Houve uma falha muito grande no nosso sistema. Só que, gente, isso, a negligência médica, a zombaria dos médicos, não transforma a Samanta.
Na solução que a Jéssica precisa. A gente só tem que lembrar uma coisa aqui, tá? A Samanta é 15 anos mais nova do que a Jéssica. O marido da Jéssica é mais velho do que a Samanta. Ele tem muito mais potencial de lidar com isso. A Samanta, gente, é uma menina jovem de 25 anos. E eu acho que nesse momento a distância pode ser não só necessária, saudável. A Jéssica bloqueou ela porque ela tentou ajudar.
então sei lá, o que mais que não pode acontecer e eu também acho que se houver um espaço no futuro como eu disse, mandar uma mensagem ali para o marido ela pode dar apoio, só que esse apoio precisa vir com limites claros não com uma entrega total porque tem uma coisa que é muito difícil a gente admitir e é muito difícil até para quem já viveu uma situação de uma pessoa depressiva com tendências suicidas na família com tendências認識 com tendências認識 com tendências認識 com tendências com tendências com tendências
Você pode amar alguém profundamente com toda a tua alma e teu coração. E ainda assim não ser capaz de salvar essa pessoa. Então a Samanta tem 25 anos. A Samanta está carregando uma carga muito grande para ela. E o que não pode acontecer com a vida dela também?
né, então eu acho que se a Samanta tentar ocupar esse lugar de tentar salvar a Jéssica eu acho que ela não só vai falhar, como ela também pode se perder no meio do processo você não tem, gente, quando a máscara do avião cai, você coloca em quem primeiro? Em você, porque se você tiver ruim, você não consegue ajudar outra pessoa, pra você conseguir salvar alguém, você tem que estar bem E aí
E a Samanta não vai conseguir ficar bem se ela estiver inserida nesse amaranhado. Então, é isso. Muitas pessoas vão me cancelar, eu tenho certeza. Mas eu quero deixar claro que não é questão de soltar a mão da Jéssica. É uma questão de que se a Samanta mergulhar junto...
uma não vai conseguir ajudar a outra. Alguém sempre tem que ficar forte para conseguir ajudar em momentos de crise. Porque se a Samanta continuar tão envolvida assim em toda essa questão, se a Jéssica tiver um novo surto e uma nova tentativa, a Samanta não vai ter força para reagir, sabe? Então eu acho que ela tem que se afastar um pouco, respirar.
E em alguns momentos a gente tem que ser egoísta, né? Que atire a primeira pedra que nunca foi. Eu acho que a Samanta agiu, ela fez o que estava ao alcance dela. E agora acho que o marido, família, eles têm que ficar amparados. E como eu disse, Samanta é 15 anos mais nova do que a Jéssica, gente. Não tem como Samanta ser responsável por ela, né? Então é isso. Samanta não é um monstro. E eu acho que Samanta tem que dar uma recuada. Demonstra teu apoio, mas recua e se preserva.
Então, é isso. Se você quiser comentar sobre essa história, comente no nosso grupo do Telegram. Lembrando que apoiadores têm um grupo exclusivo e para entrar nesse grupo, o link está lá no mural do Apoia-se. Mande sua história até ok.podcast.gmail.com Me siga no Instagram até ok.podcast e até o próximo episódio. Tchau, tchau!