Episódios de Assustador, Bizarro e Misterioso

Creepypasta: Ubloo parte 2

08 de julho de 202643min
0:00 / 43:12

Tradução e narração completa da creepypasta Ubloo, disponível em https://www.reddit.com/r/nosleep/comments/33ac4z/ubloo/

Participantes neste episódio2
S

Speaker A

Narrador
S

Speaker B

NarradorJornalista
Assuntos6
  • Tradução do livro da tribo BinumaEli · Dayala Buumba · Vodu · Maldição
  • Obra de Roberto BolañoUblu · Pesadelos recorrentes · Suicídio
  • Narração de CreepypastaAndrew Jennings · Senhora Jennings · Violência policial · Morte de Andrew
  • Luisa Sonza e PolêmicaUblu · Microsonos · Alucinações
  • Táticas de sequestro e roubo de criançasAndréia · Masked assailant · Violência
  • Investigação encoberta em casa de repousoRobert A. Jennings · Escola antiga · Banco da Louisiana
Transcrição111 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, bem-vindos a mais um episódio de Creepypasta. No episódio de hoje a gente vai continuar a Creepypasta que a gente começou no episódio da semana passada. Para quem não ouviu o episódio da semana passada, é um episódio que tem 3 Creepypastas e a última é a que a gente vai continuar hoje. Então se você não ouviu, volta lá para ouvir o comecinho e essa parte aqui vai ser bem longa, tá?

?Voz B

Antes de começar essa Creepypasta, quero deixar um alerta de gatilho para vocês. Tem alguns temas bem teríveis, inclusive pessoas tirando a própria vida, tem violência. Então se você é sensível a esse tipo de conteúdo, eu recomendo que você não ouça esse episódio.

?Voz A

Então sem mais enrolação, bora continuar a creepypasta do Ublu. É o meu filho! Não, por favor, Deus, não! Eu disse para recuar, sua vagabunda desgraçada! O policial golpeou a boca da senhora Jennings o cacetete, produzindo um estalo nauseante. Ouvi o grito dela com o impacto e vi seus dentes voarem da boca para o asfalto, tilintando aos pés dos policiais armados. Todos eles a golpeavam agora. Derrubaram-na, deixando-a apoiada nas mãos e nos joelhos, e se revezavam golpeando as costas dela com violência.

Ela ainda implorava que não levassem seu filho, mas eles não ouviam. Eles riam, riam de um jeito doentio e maníaco que me revirava o estômago. Então, a equipe de socorro surgiu do prédio, trazendo o Andrew em uma maca. Eles o desceram as escadas de forma desajeitada. O braço dele escapou debaixo do lençol branco quando ele quicou no primeiro degrau. Observei o corpo sem vida dele sacudindo a maca até que ele caiu de mau jeito e despencou completamente.

O lençol branco voou com o vento, revelando o cadáver. Ah, claro, fica à vontade, seu viciado de merda. Tira uma soneca enquanto a gente tenta fazer o nosso trabalho. Ao dizer a última palavra, o socorrista chutou o estômago do corpo do Andrew. Eu vi o corpo dele se contorcer e dobrar com o impacto. O outro socorrista também entrou na ação. Ambos chutavam e pisoteavam o cadáver inerte de Andrew. Tentei gritar, tentei berrar pra que parassem, mas embora eu sentisse as minhas cordas vocais vibrarem no meu peito, nenhum som saía.

Observei um dos socorristas pegar uma pedra pesada de um canteiro próximo e levá-la até onde o corpo do Andrew tava caído. O outro socorrista o virou de barriga pra cima e eu soltei o grito mais alto que ninguém jamais ouviria ao ver a pedra despencar sobre o rosto do Andrew. Ouvi um estalo profundo e soube que o crânio dele tinha rachado. A cabeça dele rolou pro lado e ficou voltada diretamente pra mim, ensanguentada e esmagada.

Então eu vi os olhos dele se abrirem, aqueles grandes olhos verdes cercados pelo branco injetado de sangue. O fim é o começo, doutor. Disse ele pra mim, com a mandíbula quase solta. O fim é o começo. E então ouvi dizer aquilo, suave, porém alto. Pequeno, porém imponente. Afiado como uma faca, porém fluido como a água. Ublu! Me levantei de um salto na cama, ofegante e coberto de suor. Tentei freneticamente a roupa de cama ao meu lado na escuridão até a minha mão agarrar a lanterna.

Liguei-a e apontei o feixe de luz pelo quarto. Movendo rapidamente de um canto a outro em busca de algo, qualquer coisa. Mas não tinha nada ali. Nada, exceto as pilhas de caixas espalhadas pelo meu quarto de hotel. Acendi a luminária de cabeceira e conferi a hora. 4:12 da manhã. 3 horas de sono teriam de bastar. Abri a gaveta da mesa de cabeceira e peguei o frasco de comprimidos. Tava pela metade. Eu precisaria pedir uma nova receita em breve.

O que vinha bem a calhar, já que parecia estar na hora de mudar de novo. Abri o frasco e joguei 2 comprimidos na boca. Peguei o copo de água que eu tinha deixado ali e bebi até a metade. Eu precisava começar a fazer as malas agora se quisesse ganhar tempo para encontrar um novo hotel. Me levantei e alonguei as pernas e as costas. Agora que eu tô praticamente à base de remédios e quase sem dormir, eu sinto meu corpo desmoronando.

Caminhei até a cômoda e abri a garrafa de gin da noite anterior. Dei um gole longo e fiz uma careta com o gosto. Nunca fui muito fã de gin, mas é a bebida que deixa menos cheiro no hálito. Quando eu me virei pra começar a arrumar as coisas, eu vi o meu reflexo no espelho e congelei. Meus olhos estavam fundos, com olheiras escuras e pesadas, e tão injetados de sangue que pareciam quase vermelhos. Meu cabelo tava todo arrepiado, em tufos escuros e desgrenhados.

Uma sombra de barba cobriria as minhas maçãs do rosto e o pescoço, fazendo com que a minha barba antes bem cuidada, parecesse agora totalmente largada. Jesus, falei fazendo uma pausa, como diabos eu cheguei a esse ponto? 6 semanas antes. O funeral de Andrew Jennings passou e eu não compareci. Uma parte de mim diz que foi porque eu simplesmente não suportaria encontrar a senhora Jennings. Outra parte diz que foi porque eu morro de medo do próprio Andrew.

Na semana que antecedeu o funeral, eu mal conseguia me concentrar no trabalho. Eu não parava de pensar no que eu ouvira naquela noite, antes de adormecer. Depois de mais de uma semana, atribuí tudo à bebida e à minha imaginação, que me pregaram uma peça. Além disso, eu nem tava dormindo quando aconteceu, então não poderia ter sido um sonho. Decidi ir ver a senhora Jennings pra encerrar aquele assunto de vez. O escritório dela não ficava longe do meu, o que é curioso pra alguém que é dona de metade dos condomínios do condado de Middlesex.

E achei que merecia uma folga depois de tudo que eu passei. Era um dia fresco de primavera quando eu fui visitar a senhora Jennings. Eu tava nervoso, muito nervoso. Na faculdade de medicina, antes de grandes apresentações, eu costumava aliviar a tensão tomando uma ou duas doses pra relaxar. Fiz o mesmo naquela manhã, mas eu acho que eu deveria ter comido algo mais reforçado no café da manhã, porque quando eu saí do carro em frente ao prédio comercial dela, a minha cabeça já tava girando.

No saguão havia uma recepcionista jovem e simpática. Perguntei onde eu poderia encontrar a senhora Jennings e ela me indicou, muito educadamente, a sala 1, no terceiro andar. Entrei no elevador com outro homem e subimos juntos. Enquanto esperávamos, ouvi-o fungar o ar duas vezes e, em seguida, me lançar um olhar de soslaio. Merda, ele devia estar sentindo o cheiro da bebida. Ao descer no terceiro andar, eu encontrei um bebedouro e bebi alguns goles.

Tirei outro chiclete do bolso e mastiguei por um minuto antes de bater à porta da senhora Jennings. A porta se abriu e nossos olhares se cruzaram. Quase instantaneamente, eu vi os olhos dela se encherem de lágrimas. Ah, Doutorá, ela disse sem demonstrar surpresa. Por favor, entra. Ela deu um passo para o lado e me deixou entrar na sala. Notei imediatamente que ela tava empacotando suas coisas. A sala tava praticamente vazia, exceto por alguns papéis e seu computador.

Vai se mudar, é? Comentei com meio sorriso. Tentando deixar o clima mais leve. Sim, ela respondeu, desviando o olhar de mim para observar a sala enquanto falava. Encontrei alguém que vai comprar tudo que é meu. Normalmente seria muita coisa, mas eu fiz um ótimo preço. Vou viajar e conhecer a Europa, como Robert e eu sempre quisemos. Puxa, isso parece incrível, eu disse, com entusiasmo talvez exagerado. Percebi a tristeza tomando conta da senhora Jennings e continuei, mudando de assunto.

Senhora Jennings, eu sinto muito mesmo pelo que aconteceu com o Andrew. Ele era um rapaz muito inteligente. Aquilo a fez cair no choro. Ele era, ela soluçou. E eu quero lhe agradecer, doutor. Naquele dia, quando ele saiu do seu consultório, ele me ligou e disse que se sentia melhor do que em anos. Obrigado por me proporcionar aquele único momento de ter o meu filho de volta antes de perdê-lo pra sempre. Ela começou a chorar. Olhei ao redor do escritório, nervoso, e os meus olhos pousaram em uma fotografia da senhora Jennings quando jovem, ao lado de um homem alto, de ombros largos e sorriso aberto.

Aberto e de um Andrew jovem e bonito. Ao lado dele tava sentado um golden retriever.

?Voz B

Devia ser o Buster.

?Voz A

Lembrei do sonho que o Andrew tinha me contado sobre o cachorro e eu estremeci. Me aproximei da fotografia e a tirei da caixa. Esse deve ser o Robert, não? Eu perguntei. Ela ergueu o olhar, interrompendo soluços, e viu a foto nas minhas mãos. Ah, sim, ela respondeu, se aproximando. Aquele ali é o meu Robert. Meu Deus, como ele era bonito! E claro, ali estão o Andrew e o cachorro dele, o Buster. Um arrepio percorreu a minha espinha quando ela disse o nome dele.

Algo me dizia que a senhora Jennings sabia muito pouco, ou talvez nada, sobre os sonhos que o filho tava tendo. Olhei para a caixa de onde tinha tirado a foto e vi uma proposta de compra de um imóvel. Eu tava prestes a desviar o olhar quando algo me chamou atenção. Senhora Jennings? Eu disse, sem tirar os olhos do papel: Por favor, querido, me chama de Glória. Já não me sinto muito como uma senhora. Glória, eu achava que todas as propriedades que a senhora possuía ficavam em Massachusetts? Ela piscou para mim, surpresa com uma pergunta tão fora de contexto.

?Voz B

Bem, sim, querido, é verdade, respondeu ela, observando meu rosto. É só que eu não pude deixar de notar essa proposta aqui de um imóvel na Louisiana. Ela pareceu confusa por um instante, até que a lembrança lhe veio à mente. Ah, sim, era um imóvel que o Robert estava analisando. Ele simplesmente adorava aquela casa na Louisiana. Pra ser sincera, eu nem sei bem como ele descobriu aquele lugar.

?Voz A

Na verdade, quando ele começou a viajar pra lá a cada 15 dias, eu tinha quase certeza de que ele estava tendo um caso.

?Voz B

Mas quando eu perguntei se eu podia ir com ele, ele não fez a menor objeção. Ela pegou a proposta e folheou as páginas até encontrar uma foto, que me entregou. A casa era enorme e antiga, com grandes colunas emoldurando a fachada e uma cerca com portão preto cercando o terreno. As janelas estavam escuras demais para se ver o interior, mas a construção parecia ter dois andares e era tão larga que mal cabia na foto. Parecia um pouco mal conservada, mas eu conseguia entender por que o Robert se interessara por ela. A casa tinha potencial para ficar absolutamente linda.

?Voz A

Depois de examinar a foto por algum tempo, eu finalmente falei: E essa casa...

?Voz B

Eu comecei: A senhora também vai vendê-la? Ora não, nós não somos os donos, doutor, ela disse, parecendo magoada com aquelas palavras. O Robert faleceu antes que pudéssemos terminar a papelada.

?Voz A

Uma pena também, porque o lugar era adorável.

?Voz B

Eu não sei por quê, mas o meu coração apertou um pouco com isso. Mas o Robert visitava o local com frequência, pouco antes de morrer? Eu perguntei. Sim, ele visitava, respondeu Glória.

?Voz A

O engraçado é que o Robert era conhecido por fechar negócios imobiliários rápido.

?Voz B

Às vezes rápido demais, ela disse, soltando uma risadinha.

?Voz A

Era como se ele tivesse medo de finalmente concretizar a compra. Ela me observou, examinando atentamente a fotografia da casa.

?Voz B

Você parece interessado, doutor, ela disse, com a risadinha voltando. Tá pensando em se mudar também?

?Voz A

Ou em entrar no ramo imobiliário?

?Voz B

Talvez, eu respondi, deixando a frase no ar. Olha, quer saber? Aquela caixa inteira tá cheia de informações que o Robert guardou sobre a casa, misturada com outros papéis.

?Voz A

Eu ia triturar tudo isso, então se você tiver interesse, fica à vontade pra pegar o que quiser.

?Voz B

Eu levei um tempo pra assimilar o que ela tinha acabado de dizer. Claro, sim, eu consegui falar.

?Voz A

Parece ótimo, Glória. Obrigado.

?Voz B

Peguei a caixa e comecei a caminhar lentamente em direção à porta.

?Voz A

Me fala uma coisa, só por curiosidade, eu comecei. Quem era o antigo proprietário da casa? Bom, não tinha dono. Não tava em uso quando a visitamos, ela disse. Tecnicamente, pertence ao Banco da Louisiana. Antes disso, era uma escola. Uma escola, hein? Eu perguntei.

?Voz B

Sim.

?Voz A

Se o que a mulher que nos mostrou a propriedade nos disse for verdade, foi a primeira escola exclusivamente pra negros em todo o estado. Fiquei parado ali por um minuto, pensando em como tudo aquilo era bizarro. Por que o Robert estava querendo comprar uma escola velha e decadente na Louisiana?

?Voz B

Por que essa especificamente?

?Voz A

E por que ele não fechava o negócio? Quando eu me virei para sair, eu ouvi a senhora Janice me chamar por trás.

?Voz B

Ah, doutor, ela disse, só mais uma coisa.

?Voz A

Sim?

?Voz B

Eu não vou perguntar por quê, embora eu ache que eu sei, mas se o senhor vai beber, que seja gin. Eu fiquei surpreso.

?Voz A

Como assim?

?Voz B

Gin, querido, ela disse. É mais difícil sentir o cheiro em alguém. Era o que o Robert costumava fazer.

?Voz A

Saí daquele escritório me sentindo deslocado, como se tudo o que acabara de acontecer fosse um sonho. Dirigi direto pra casa e comecei imediatamente a vasculhar a papelada do Robert.

?Voz B

A tarefa foi difícil no início. Eu não tinha muita experiência em identificar documentos imobiliários, então eu não sabia bem o que estava vendo a princípio, mas depois de cerca de uma hora eu peguei o jeito. Espalhei a papelada sobre a mesa da sala de jantar.

?Voz A

Em uma pilha, coloquei todas as informações sobre a casa.

?Voz B

Descobri que a propriedade havia pertencido a uma família extremamente rica no início do século 19.

?Voz A

Na verdade, eles foram uma das primeiras famílias a se mudar para a Louisiana depois que o território foi adquirido dos franceses. Não consegui encontrar a data exata em que o local foi transformado em escola, mas parecia que o banco só assumiu a propriedade na década de 60. Me recostei na cadeira e cocei a cabeça. Olhei para as outras duas pilhas que havia separado. Uma continha tudo o que o Robert tinha escrito ou usado que não dizia respeito àquela casa, e a outra era apenas sucata.

Fui até a pilha de sucata e comecei a guardar os papéis de volta na caixa, um por um. Na metade da pilha, encontrei uma pasta parda, de aparência gasta. Abri o fecho e tirei os papéis de dentro dela. Folhei as primeiras páginas. Eram mais contratos de aluguel de imóveis em Massachusetts. Eu estava prestes a jogá-los na caixa quando notei uma sequência de números no canto de uma página. 12-14-21. Peguei o papel e o examinei. Era um contrato de locação de um apartamento tipo estúdio em Cambridge.

?Voz B

Ao analisar melhor o documento, eu percebi que havia um canhoto de cheque grampeado no verso. O cheque era no valor de 180 mil, nominal a Cambridge Realty Trust Company.

?Voz A

Ele havia pago por aquele imóvel no seu próprio nome durante 10 anos.

?Voz B

Achei isso estranho.

?Voz A

Por que um dos maiores proprietários de apartamentos do estado alugaria um imóvel de outra pessoa?

?Voz B

Coloquei o envelope sobre a mesa e ouvi um tilintar. Peguei o envelope de novo e o virei de cabeça para baixo.

?Voz A

Senti algo deslizar pelo envelope até cair na minha mão e, quando eu olhei, encontrei uma chave com a inscrição Unidade E335.

?Voz B

Voltei a olhar para o contrato de locação e, de fato, o endereço do imóvel era 375 Broadway Street, Unidade E335, Cambridge, Massachusetts. Fiquei paralisado por meio segundo e em seguida procurei freneticamente pelo meu casaco.

?Voz A

Eu não saberia dizer porque eu senti um impulso tão forte de ir ver aquele lugar naquele momento, mas tudo parecia anormal demais para ser ignorado. Meus instintos me diziam para ir até lá e eu decidi confiar neles. Cheguei no apartamento bem rápido e subi as escadas apressado.

?Voz B

A porta da entrada estava trancada, então experimentei a chave. Ela encaixou perfeitamente na fechadura e girou com facilidade. Senti um frio na barriga.

?Voz A

Entrei no saguão e encontrei a escadaria.

?Voz B

Subi as escadas de 2 em 2 degraus até chegar no 3º andar. Abri a porta e, de fato, bem à minha frente estava a unidade E335.

?Voz A

Tive a sensação de que o tempo tinha parado. Fiquei ali parado encarando aquela porta. De manhã eu tava bêbado, tentando encontrar um desfecho.

?Voz B

E agora aqui tô eu, revirando as coisas de um homem morto e refazendo seu passado.

?Voz A

Por quem eu tô fazendo isso? Por mim? Pelo Robert?

?Voz B

Pelo Andrew? Afastei esses pensamentos.

?Voz A

É minha folga, eu ponderei. Eu tô apenas matando tempo brincando de detetive.

?Voz B

Me aproximei da porta, inseri a chave na fechadura e girei a maçaneta.

?Voz A

A porta se abriu para dentro, revelando um ambiente amplo.

?Voz B

Encontrei o interruptor e acendi a luz.

?Voz A

O local era um típico apartamento do tipo estúdio. Cozinha compacta e banheiro integrado em um espaço amplo e arejado.

?Voz B

Mas não havia móveis.

?Voz A

O ambiente estava completamente vazio, com as paredes nuas, exceto pelo centro do cômodo, onde um cofre estava pousado no chão, virado para mim. Me aproximei lentamente do cofre e encostei a mão nele. O metal estava frio.

?Voz B

Tentei movê-lo, mas era incrivelmente pesado. As paredes do cofre deviam ser grossas.

?Voz A

Fiquei ali parado, observando e refletindo sobre a estranheza de toda aquela situação. Então me ajoelhei, sem muita esperança de que funcionasse, e digitei 3 números: 12421. Ouvi o clique do mecanismo interno e meu coração falhou uma batida. Lentamente abri a porta e espiei o interior. Havia 2 livros no fundo do cofre. Peguei o primeiro e li a capa: O diário pessoal de Robert A. Jennings.

?Voz B

Minhas mãos tremiam.

?Voz A

Tirei o outro livro de trás do diário do Robert e o examinei. O texto tava em uma língua estranha que eu nunca tinha visto antes. Abri a capa e encontrei um pedaço de papel dobrado. Peguei o papel, desdobrei-o e senti um frio na barriga. Era uma cópia quase idêntica do desenho que Andrew tinha feito para mim naquele dia no meu escritório, em preto e branco, ali parado, encarando o âmago do meu ser, tava aquele monstro terrível.

?Voz B

Uglu.

?Voz A

Eu não sei o que eu fiz primeiro, se eu fechei o livro ou se eu me levantei para ir embora. Não sei por quê, mas eu não consegui mais ficar naquele cômodo. Eu não deveria ter encontrado aquelas coisas.

?Voz B

Com os livros nos braços, saí correndo do apartamento sem nem sequer fechar a porta atrás de mim. Corri direto para o carro, joguei os livros no banco do passageiro e dirigi direto para casa. Ao chegar, peguei os livros novamente e entrei correndo, olhando pra trás o tempo todo.

?Voz A

Entrei, bati a porta com força, corri até a mesa da sala de jantar e joguei os livros sobre ela. Imediatamente comecei a folhear aquele livro escrito em uma língua estranha.

?Voz B

Era incrivelmente antigo e cheio de ilustrações.

?Voz A

Já tava na metade quando eu parei em uma página com um desenho que lembrava um úbulo mal esboçado. Vasculhei o restante do livro freneticamente, mas não consegui entender patavina daquele idioma. Então deixei de lado. Em seguida, peguei o diário de Robert e o abri na primeira página. Meu nome é Robert A. Jennings e no último ano eu tenho sido atormentado em meus sonhos por encontros paranormais com um monstro que chamo de Ublu.

Sei como isso deve soar, mas tudo o que eu escrevo aqui deve ser levado com a máxima seriedade, pois eu temo não estar aqui por muito mais tempo.

?Voz B

Eu não conseguia acreditar no que eu via.

?Voz A

Aquilo tinha de ser um sonho. Algum tipo de sonho maldito.

?Voz B

Folhei as páginas seguintes e vi relatos de sonhos absolutamente horríveis que o Robert tivera.

?Voz A

Sonhos em que ele tava no chão e via o filho pular de um prédio de 6 andares apenas pra se espatifar na calçada bem diante dele, repetidas vezes. Sonhos em que flagrava a esposa o traindo com os vizinhos. O filho filmava tudo e então eles se voltavam contra Robert e o espancavam até ele perder os sentidos, enquanto a esposa ria. Sonhos em que seus pais eram queimados vivos enquanto os bombeiros riam e abusavam sexualmente de sua esposa.

Coisas terríveis. Como aquele homem viveu tanto tempo carregando um fardo desses, eu jamais saberei. Folhei rapidamente as páginas até que não restasse nada além de branco. Parei ao chegar ao final e percebi que o Robert tinha morrido antes de conseguir preencher aquele diário. Lentamente, voltei as páginas até encontrar a última em que ele havia escrito. Ao ler as palavras, eu deixei o livro cair, como se estivesse em brasa, e eu recuei alguns passos, encarando-o no chão.

O estrago estava feito. Aquelas palavras horríveis ficaram gravadas na minha mente. O fim é o começo. Andei de um lado para o outro no cômodo por um bom tempo, refletindo profundamente sobre tudo o que tinha acontecido. Foi então que eu ouvi um barulho na cozinha. Entrei para investigar e senti uma dor cegante na parte de trás da cabeça.

?Voz B

Caí de cara no chão. Senti como se a minha cabeça tivesse partido ao meio.

?Voz A

Olha só, querida, ele tá em casa, eu ouvi uma voz conhecida dizer. Vi um par de botas pretas se aproximar do meu rosto e me dar um chute leve na testa. Acorda, doutor! Do chão eu conseguia ver o par de botas. Do outro lado da cozinha eu vi outro homem, todo de preto e usando uma máscara de esqui. Apontando uma arma para a cabeça de uma garota. Por favor, doutora, me ajuda, por favor! Eu reconhecia aquela voz de algum lugar, mas de onde?

?Voz B

Cala a porra da boca, sua vadia!

?Voz A

Ele não pode te ajudar! Eu ouvi o outro homem dizer enquanto golpeava a lateral da cabeça da garota com a coronha da pistola. Ela começou a chorar. Minha visão focou e então eu percebi quem ela era. Era a Andréia, minha recepcionista. Andréia! Eu gritei, mas logo em seguida eu levei um chute no estômago do meu agressor.

?Voz B

Não ouviu meu parceiro?

?Voz A

Ele disse, parado sobre mim enquanto eu me contorcia de dor. Você não pode porra nenhuma ajudá-la. Ele deu um passo para trás e pisou com força. Eu senti a bota pesada dele esmagar minha rótula e uma dor explosiva percorrer a minha perna. Gritei alto e agarrei minhas pernas, mas ao fazer isso O homem apenas me chutou de novo.

?Voz B

E a segunda vez doeu ainda mais.—

?Voz A

Por favor, doutora! Por favor, ajuda! Eles disseram que vão me matar! Andréia implorou do fundo da cozinha.— Vadia!

?Voz B

Eu disse pra calar a porra da boca! Eu ouvi o baque da pistola atingindo Andréia novamente e ouvi seus soluços.—

?Voz A

Isso mesmo, bonequinha, disse o primeiro homem. A gente vai te matar. Mas antes vamos te machucar. E depois vamos nos divertir um pouco. Não, por favor, parem! Eu olhei pra cima bem a tempo de ver o clarão do disparo e ouvir o grito de Andréia. Então, quase como se emergisse de todo aquele barulho de gritos e tiros, ouvi aquilo no fundo da minha mente: Ublô! Acordei na escuridão total e percebi que eu tava gritando. Minha garganta doía e a minha camisa tava encharcada de suor.

?Voz B

Comecei a entrar em pânico.

?Voz A

Percebi que tava sentado à mesa de jantar e corri pro interruptor. Acendi a luz, mas não tinha nada ali. Nenhum barulho, ninguém na cozinha, nada. De repente, tudo me veio à memória. Como eu pude esquecer que tinha adormecido?

?Voz B

Depois de ver aquelas palavras no diário de Robert, eu me sentei e decidi revisar os contratos de aluguel, que estavam todos espalhados à minha frente.

?Voz A

Eu devo ter adormecido fazendo isso, mas como eu não me lembrava de ter me sentado pra fazer tal coisa?

?Voz B

Então eu me lembrei da conversa com o Andrew, de como o Ublu percebeu que poderia assustá-lo mais com um sonho ocorrido durante um microsono do que com um sonho comum. De como a capacidade de pegá-lo desprevenido era mais eficaz.

?Voz A

Fiquei tão absorto nessa teoria que eu nem percebi que tava acontecendo, mas quando eu me dei conta, eu senti um forte enjoo. Aquilo não podia estar acontecendo. Não podia. Nem era real. Isso não é real.

?Voz B

Tentei expulsar o pensamento da cabeça, mas não consegui.

?Voz A

Simplesmente não consegui. Úbulo tá controlando os meus sonhos agora. Vomitei no chão da sala de jantar. Tudo aquilo tava acontecendo rápido demais. Olhei ao redor do ambiente frenético.

?Voz B

Preciso fazer as malas.

?Voz A

Preciso sair daqui. Talvez se eu correr, ele tenha de me perseguir. Vale a pena tentar.

?Voz B

Corri de volta pro quarto e comecei a juntar as minhas coisas.

?Voz A

Fui até a minha pasta e tirei de lá um bloco de receituário. Eu certamente precisaria daquilo. Comecei a arrumar as coisas num frenesi.

?Voz B

Antes mesmo de perceber que eu não sabia pra onde estava indo.

?Voz A

Mas então caiu a ficha. Louisiana. Eu vou voar pra Louisiana. Arrumei a maior parte das minhas coisas com essa ideia em mente, mas comecei a me sentir enjoado só de pensar nisso.

?Voz B

Não conseguia me convencer de que iria pra aquele lugar pra continuar o trabalho de Robert.

?Voz A

Ainda não conseguia. Não sabia o suficiente. Eu vou de carro.

?Voz B

Vou me hospedar em hotéis pelo caminho e pesquisar. Ler o diário de Robert, descobrir o que diz aquele outro livro, Pesquisar sobre aquela casa que Robert queria comprar.

?Voz A

Eu tinha trabalho demais para simplesmente voar para a Louisiana.

?Voz B

Eu precisava aprender, precisava estudar tudo o que Robert escreveu e sabia se quisesse ter alguma chance de me livrar de Uhu. 6 semanas depois. Puxei minha mala atrás de mim enquanto me aproximava do caixa. Vai nos deixar tão cedo, senhor Abian? Perguntou a moça. Sim, desculpa, mas eu preciso voltar para a estrada agora. Respondi com um sorriso. Foi um prazer tê-lo conosco. Sempre me sinto mais segura trabalhando aqui quando o médico fica hospedado conosco.

Ela retribuiu o sorriso. Me despedi e fui em direção à porta. Olhei pro relógio. 7:01. Perfeito. Vou estar no Mississippi à noite. Aí eu vou poder encontrar um lugar pra ficar e, com sorte, encontrar o Eli, se ele estiver disposto a ficar acordado até tão tarde. Comecei a desviar o olhar do relógio. Será ótimo finalmente saber o que aquele livro diz. Num instante sumiu, mas eu sabia o que tinha visto. Eu vi, eu vi bem antes de desaparecer atrás da esquina do prédio.

Me encarava de trás da esquina, uma cabeça grisalha com pele brilhante, dois olhos negros e vazios. Na base da cabeça, um focinho comprido balançava e chicoteava junto com a cabeça enquanto ele a recolhia.

?Voz A

Fiquei ali paralisada.

?Voz B

Paralisado com a mochila na mão. Fiquei parado esperando. Esperei para acordar, mas não acordei. Observei as linhas brancas no meio da rodovia desaparecerem uma a uma sob o capô do meu carro enquanto eu acelerava pela estrada. Se eu as encarasse por tempo suficiente, elas acabavam se fundindo em uma única linha branca e borrada em meio a um mar de asfalto. Então eu despertava do meu transe e elas voltavam a se separar. Estendi a mão pro banco do passageiro e peguei minha garrafa de gin.

É triste ver como eu fiquei bom em abrir a tampa com uma mão só, enquanto a outra permanecia no volante. Dei um gole grande e terminei a garrafa. Depois, joguei-a pela janela do motorista e ouvi o vidro se estilhaçar com um som satisfatório. Deve ter sido um microsono, eu repetia pra mim mesmo. Não sei se tava finalmente perdendo a cabeça ou se já tinha bebido demais antes mesmo do meio-dia e tava apenas divagando. Mas precisava racionalizar de alguma forma o fato de ter visto o Uhuu e de não tê-lo ouvido depois.

No fim das contas, atribuí tudo a alucinações causadas pela falta de sono e prometi a mim mesmo que tentaria dormir pelo menos 5 horas naquela noite. Nas últimas semanas, eu tenho dormido apenas umas 4 horas por noite, ou o tempo que eu consigo suportar aqueles pesadelos aterrorizantes. Olhei pelo retrovisor para a caixa que guardava os pertences de Robert Jennings. Finalmente havia chegado o dia em que eu descobriria o significado daquele livro.

Nem sei dizer por quanto tempo comparei aquela escrita com amostras do meu laptop. Só descobri do que se tratava graças a uma sorte enorme e inesperada. Eu tava sentada no bar de um hotel na Pensilvânia quando um homem se aproximou e sentou do meu lado. Trocamos algumas palavras no início, mas eu acho que a minha aparência desleixada acabou o intimidando um pouco. Bebemos em silêncio por alguns minutos até que ele quebrou o silêncio abruptamente.

Você consegue ler essa merda? Ele perguntou sem a menor delicadeza. Infelizmente não, eu suspirei. Na verdade, pra ser sincero, eu tô apenas tentando descobrir que língua é essa. Ah, ele olhou pra cerveja e começou a cutucar o rótulo. Importa se eu der uma olhada? Claro, mas toma muito cuidado com ele. Eu deslizei o livro cuidadosamente na direção dele. Ele abriu a capa e folheou as primeiras páginas. Olha só, ele começou. Isso parece algum tipo de escrita africana.

Meus ouvidos se aguçaram ao ouvir aquilo. Africana? Eu perguntei, cheio de esperança. É, eu trabalhava como segurança no Museu de História Nacional, lá em Nova York. Eu juro que eu vi umas coisas exatamente assim por lá. Eu nem me dei ao trabalho de agradecer o homem. Peguei o livro das mãos dele e corri pro meu quarto de hotel pra começar a trabalhar. Devo ter escrito quase 500 emails naquela noite, anexando uma pequena amostra daquela escrita.

Pra todos os professores de história africana, curadores de museus e tradutores de línguas africanas cujos endereços eu conseguia encontrar. Foi assim que eu conheci o Eli. Eli era um professor aposentado de história africana que morava no Mississippi. A resposta que ele enviou por email demonstrava, ao mesmo tempo, surpresa e entusiasmo. Ele me contou que aquela escrita pertencia a uma língua quase extinta, a qual ele aprendera a traduzir enquanto trabalhava com documentos pra um professor durante seu doutorado.

Eu disse que pagaria qualquer quantia se ele me ajudasse a traduzir aquele livro, desde que eu o entregasse pessoalmente em suas mãos e ele o lesse diretamente pra mim. Eu não podia correr o risco de perder o livro pelo correio. Além disso, a cidade ficava bem no caminho pra casa, na Louisiana. Eu havia terminado de ler o diário do Robert umas 2 semanas antes. Ele escrevia sobre sonhos, sobre como aquele fardo era difícil de carregar e como isso estava afetando sua vida em família.

Robert foi bater à porta de um de seus inquilinos depois de ficar semanas sem notícias dele. Ou sem receber o aluguel. Ele entrou e o encontrou ali, na banheira, com os pulsos cortados. Pelo que constava, um par de calças jeans velhas estava jogado no chão do banheiro e em um dos bolsos o Robert encontrou uma foto da casa na Louisiana, com o endereço rabiscado às pressas no verso. Achei curioso, no entanto, que ele não mencionasse onde havia encontrado o outro livro.

Robert também formulou teorias sobre o que exatamente o Ubu estava tentando fazer. Ele parecia acreditar que se tratava de algum espírito vingativo que se alimentava de nossos pesadelos ou do nosso medo. Pra dizer a verdade, o diário dele não era muito útil. Era apenas um registro de tudo o que ele havia passado nos 3 anos em que lidou com essa maldição. Eu saí dos meus devaneios bem a tempo de ouvi-lo gritar. Houve um baque surdo e então um estrondo enorme quando meu para-brisa se estilhaçou, formando uma teia de rachaduras pra dentro.

Eu desviei por instinto e perdi o controle do carro. O veículo saiu da rodovia e desceu o barranco, arremessando a mulher de cima do capô e fazendo vendo seu corpo ser jogado violentamente pela paisagem até ser detido por uma árvore. Eu ouvi o estalo seco da coluna dela se partindo devido ao impacto. Meu carro finalmente deslizou até parar, e então eu a vi.

?Voz A

Meu Deus, Mary!

?Voz B

Um idoso corria agora pelo barranco em direção ao local onde a mulher tava caída. Mary, querida, por favor! Ele se ajoelhou e aninhou a cabeça dela nos braços. As pernas dela estavam retorcidas em ângulos agonizantes. Ele se virou e olhou pra mim. Eu ainda tava em choque, com os nós nos dedos brancos de tanto apertar o volante. Só depois de um breve instante pra recuperar o fôlego é que eu me dei conta da gravidade do que acabara de acontecer.

Se afastem, eu sou médico! Eu gritei, abrindo a porta e correndo até a metade do caminho em direção ao homem. Ela tá morta, seu idiota! Você a matou! O velho soluçava, com o rosto enterrado no cabelo da esposa. Eu parei no meio do caminho entre o meu carro e a árvore. Os dois deveriam ter mais de 70 anos. Um pouco mais adiante na estrada, eu notei um carro parado no acostamento. Devem ter sofrido uma pane ou um pneu furado. Ela provavelmente estava tentando sinalizar pra mim, ou talvez estivesse apenas parada muito perto da pista.

Eu sinto muito, eu gaguejei com a voz embargada. Eu não tava prestando atenção. Você tava bêbado pra caralho, seu idiota! Ele retrucou. Um bêbado igualzinho ao seu velho. Foi isso que matou ele, que matou sua mãe também. Eu fiquei atônito com aquilo. Não, isso não é verdade. É sim. O velho levou a mão às costas e sacou um revólver. Olha o que você fez, garoto. A culpa é toda sua. E dito isso, ele engatilhou o revólver, colocou na boca, e eu vi seus miolos explodirem pela parte de trás da cabeça em uma explosão de cores.

Fiquei ali em choque ouvindo o silêncio absoluto que se seguiu. Cocei a nuca e fiquei olhando pro homem e a mulher. Como diabos eu vou sair dessa? Cocei a nuca de novo. Que momento estranho pra ela tá coçando assim. Então eu senti o meu cabelo se arrepiar. Eu me virei bruscamente, surpreso e assustado. E lá tava ele. Sua longa tromba recuava em direção à cabeça e a língua longa, preta e pontiaguda pendia preguiçosamente da ponta dela.

Ele me encarava com aqueles olhos negros, profundos e horríveis. Tão negros que eu conseguia ver o meu reflexo neles. O reflexo de mim mesmo, parado ali, paralisado de medo. Ele se erguia lentamente sobre as patas e descia de volta, quase com elegância. Inclinou a cabeça pro lado, apenas um pouquinho, e sem qualquer outro movimento, eu ouvi: Uhuu! Eu acordei ofegante, respirando um ar quente e viciado. O mundo voltou a ganhar forma aos poucos enquanto eu assimilava o ambiente.

Então tudo me veio à mente de uma só vez. Eu havia parado em um posto de descanso nos arredores da cidade pra fazer xixi e tomar um café. Devia ter pegado no sono dentro do carro. Merda! Eu bati com força a mão no volante. Eu já devia ter tido pelo menos uns 50 sonhos com aquela coisa. E mesmo assim, de alguma forma, ela ainda conseguia me pegar de surpresa. Estendi a mão pro console central e peguei um frasco de remédio. Joguei dois comprimidos na boca e os engoli à força com um gole de gin.

Fiquei ali sentado por um instante, com a cabeça apoiada no volante, tentando afastar aqueles pensamentos. Depois girei a chave, liguei o carro e saí do estacionamento do posto. Levei mais ou menos meia hora pra chegar onde o Eli morava. Pelo aspecto, a casa dele era grande e antiga.

?Voz A

A entrada da garagem era muito mais longa do que eu tava acostumado.

?Voz B

O terreno ao redor da casa se estendia por uma distância que parecia infinita. Acho que a vida na cidade fez com que um lugar assim me parecesse algo antinatural. Estacionei o carro em frente à casa dele. Ele saiu e acenou.

?Voz A

Ele tava me esperando.

?Voz B

Eu havia ligado quando faltavam apenas uns 2 minutos pra chegar. Ele tinha mais ou menos a minha altura, mas era bem mais velho, já na casa dos 60 e muitos anos. Tinha uma cabeleira branca e um kavanyaki branco combinando. Sua pele era enrugada e ele usava óculos de meia arma apoiados no nariz. Ele acendeu um cigarro enquanto eu saía do carro e esticava as pernas. Boa tarde, doutor, ele disse na varanda da frente. Eu devo dizer que eu tô muito ansioso por esse seu livro.

Não se encontra muita coisa que já não tenha sido descoberta, e se eu tiver a chance de traduzir alguma descoberta nova... Bom, acho que ficaríamos quites. Ele falava com um sotaque carregado do Mississippi, mas era compreensível. Ele me examinou por alguns segundos e depois falou de novo. Nossa, o senhor tá com uma cara péssima, doutor. Viagem longa? Ele perguntou com um tom sincero. Só uma noite difícil. Eu não pude deixar de sorrir com aquilo.

Abri a porta traseira do carro e tirei o livro da caixa. Fechei a porta e, intrigado, examinei a capa uma última vez enquanto caminhava até ele. Aqui tá ele, eu disse, entregando o livro. Ele pegou o livro nas mãos e ajeitou os óculos para ver melhor. Ele apertou os olhos para enxergar a capa sob a luz do sol por cerca de 3 segundos. Até que eu vi seus olhos arregalarem e sua boca se abrir levemente. Doutor, ele disse com gravidade, onde você encontrou isso?

Um amigo me deu, eu menti, mas só pela metade. Por quê? Como se chama? Ele se virou e ficou me encarando por um longo tempo. Eu quase conseguia ver as engrenagens da sua mente girando enquanto ele começava a entender por que eu parecia tão abatido. É um texto religioso, ele começou com a voz trêmula. Escrito por um feiticeiro da tribo Binuma. Feiticeiro? Eu perguntei, curioso. Tipo vudu? Sim, doutor. Ele se virou pra olhar pra mim enquanto falava.

Mas não um vudu qualquer. A tribo Binuma, e mais especificamente esse feiticeiro, é citado no folclore africano como uma das mais implacáveis da história. Ficamos ali parados juntos na escadaria da entrada. Apenas o som do vento nos fazia companhia. Bom, doutor, começou o Eli, vamos entrar e verificar se isso não é falso antes da gente tirar conclusões precipitadas. Entramos juntos e o Eli me levou ao seu escritório. Ele começou a examinar o livro, o texto, o papel, tudo.

Enquanto fazia isso, ele me punha para correr de um lado para o outro realizando várias tarefas: pegar amostras nos arquivos, pesquisar na internet textos que ele não tinha, buscar chá gelado na geladeira. Depois de umas 2 horas, Ele finalmente se recostou na cadeira e se virou para olhar para mim. Meu Deus do céu! Nossa, doutor, isso é sério mesmo? Eu fiquei muito feliz em ouvir isso. Para falar a verdade, eu nem tinha considerado a possibilidade de que essa mensagem fosse falsa.

E agora que eu estava a poucos minutos de obter respostas sobre o Ublu, sobre como detê-lo ou matá-lo, eu finalmente senti um alívio. Então, vou te dizer uma coisa, começou o Eli. Eu consegui um quarto de hóspedes lá em cima. Se você não tiver outro lugar pra ficar, pode se hospedar aqui comigo e a gente pode traduzir esse livro em, sei lá, 3 dias? Meu estômago deu um nó. Desculpa, Eli, mas isso é muito tempo. Ele olhou pra mim de novo.

Eu preciso estar de volta à estrada antes do pôr do sol. Ele pareceu surpreso, e com razão. Puxa, garoto, você parece que não dorme há dias. Com certeza você pode tirar uma noite de folga da estrada. Desculpa, mas eu tô ficando sem tempo. Eu me levantei e caminhei até onde o Eli tinha o livro. Posso? Claro, doutor. Afinal, ele é seu. Folhei as páginas até encontrar o capítulo que eu precisava. Não mais, Eli, eu disse, me aproximando do texto que precisava ler.

Assim que eu for embora, ele vai ser seu. Faça o que quiser com ele. Finalmente parei na página de que precisava. Uma imagem rudimentar de Úbulos, cercada por texto, olhava para mim. Por favor, é esse o texto que eu preciso, eu disse antes que ele pudesse perguntar qualquer coisa. Ele abaixou o olhar para a página e leu em silêncio por alguns minutos. Enquanto lia, eu pude perceber que ele estava compreendendo. Quando finalmente terminou, ele se virou para mim com os olhos grandes e tristes.

Quanto tempo? ele perguntou. Cerca de 2 meses, eu respondi, com o coração apertado por finalmente poder contar a alguém que entenderia. Meu Deus, ele disse, deixando a frase morrer no ar, e então acrescentou: Só um instante, doutor. Ele se levantou, foi até a cozinha e voltou com uma bandeja. Nela havia dois copos cheios de gelo e uma garrafa do que parecia ser whisky. Eu ri e, por um breve segundo, eu me senti humano de novo.

Ele serviu um copo para mim e outro para ele e bebemos juntos em silêncio. Então agora você entende porque eu não posso ficar, eu disse finalmente. Entendo, doutor. Agora é melhor você se sentar para ouvir isso, porque é uma história bem longa. Eu me sentei do lado de Eli e me preparei, com o coração acelerado pelo que viria a seguir. Essa criatura, essa coisa, se chama Dayala Buumba. Dayala Buumba? Eu perguntei, curioso, achando estranho que essas pessoas não tivessem escolhido o mesmo nome que o Robert e o Andrew.

Sim, Significa aquele que mostra. Um arrepio percorreu a minha espinha enquanto ele continuava. Diz aqui que esse feiticeiro era muito poderoso e que seu povo estava sendo perseguido pelo deserto por um clã rival. Ao invés de os caçar em batalha, o clã enviou seus melhores guerreiros ao acampamento à noite e os massacrou enquanto dormiam. O feiticeiro estava ausente, rezando aos deuses para que o seu povo escapasse, mas os deuses o haviam abandonado por usar vudu para derrotar seus inimigos e suas preces não foram atendidas.

Quando retornou ao acampamento, encontrou toda a sua tribo massacrada em suas camas, incluindo sua esposa, que estava grávida. O feiticeiro foi tomado pela dor e pelo ódio e recorreu ao seu vudu mais poderoso para se vingar do clã rival e abandonar os deuses que lhes viraram as costas. Ele reuniu tudo o que era útil e que havia sido deixado para trás após o ataque: presas de elefante, peles de cobra, ossos de animais e qualquer coisa que possuísse propriedades significativas.

Empilhou tudo isso junto aos corpos dos membros de sua tribo que haviam tombado e queimou tudo, entoando uma maldição. Uma maldição destinada ao clã rival, pra invocar um espírito que atormentasse o sono deles da mesma forma que eles haviam atormentado o sono da sua tribo. Ele parou e ergueu o olhar pra mim. Quer que eu continue, doutor? Eu tomei um gole do meu uísque e assenti. Em questão de dias, todos no clã rival passaram a ter pesadelos horríveis e não conseguiam dormir.

Sonhavam que eram atacados por outras tribos e viam suas mulheres e crianças sendo abusadas e escravizadas. Viam plantações em chamas e secas intermináveis. Não demorou muito para que os membros do clã se voltassem uns contra os outros ou tirassem a própria vida, até que não restasse ninguém. Mas algo estava errado. Quando o feiticeiro soube que o clã havia sido destruído, ele comemorou, mas continuou ouvindo relatos de pessoas sendo atormentadas por Aquele Que Mostra.

Ele percebeu que a besta que havia criado não podia ser detida, pois tinha um apetite insaciável pelo desespero. Uma a uma, as pessoas eram afligidas pelo espírito, e quando morriam, ele passava para outra, e assim por diante. Ele parou, ergueu o olhar e fixou os olhos em mim. E então, conseguiram detê-lo? Eu perguntei. Não diz, disse o Eli em meio à sua tristeza. Diz que as tribos começaram a banir qualquer um que contraísse o espírito mortal, pois era impossível combatê-lo.

Deixando o espírito pra ser contraído por outra tribo. Senti um frio enorme na barriga. É isso então. Não tem escapatória pra mim. Eu vou ter que lidar com o Ubu enquanto eu viver. Ou pelo pouco tempo que me restar de vida. Agora eu entendo porque o Andrew e o Robert tiraram a própria vida. Meus olhos começaram a marejar e o Eli me serviu com outra dose de uísque. Eu vou entender se quiser pegar a estrada de novo, doutor. Eu vou continuar traduzindo e eu vou ligar pra você se eu encontrar algo que ajude.

Virei o uísque de uma só vez e limpei os olhos na manga da camisa. Obrigado, eu disse, forçando a voz. Me avisa, eu mesmo saio. Me levantei antes que ele pudesse me impedir e fui em direção à porta da frente. Antes que eu chegasse ao carro, o Eli apareceu na porta e me chamou. Doutor, aonde exatamente você vai, se não se importa que eu pergunte? Seguir os passos de um homem morto, eu respondi, que levam a algum lugar na Louisiana.

Ele olhou fixamente pra mim e seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Bom, eu desejo tudo de bom, doutor. Não consigo imaginar as coisas que você viu e eu não vou fingir que eu consigo, mas que Deus o abençoe por lutar. Assenti com a cabeça e abri a porta do carro, mas parei e olhei pro Eli. Dayala Buumba? É muito melhor do que o nome que eu tava dando. Como você tava chamando, doutor? Parei por um segundo e pensei em como o nome que eu tinha dado a ele era bobo.

Ublu, eu disse com meio sorriso. Ublu? Ele me olhou confuso. É, é o que sempre me dizem no final de um sonho. Significa alguma coisa? Ele olhou para mim com um olhar que eu jamais vou esquecer, um olhar que eu sei que ele nunca dirigirá a outro homem em toda a sua vida, e disse: Sim, doutor, ublu é abreviação de ubu alu. O vento soprava suavemente entre nós e a grama balançava sob a luz crepuscular enquanto eu aguardava o que provavelmente seria Seria a última coisa que eu ouviria dele.

Significa acordar. Bom, pessoal, essa foi mais uma parte da creepypasta. Semana que vem a gente continua. Quero muito saber o que que vocês estão achando, então comentem aí.

?Voz A

E até a próxima!