Episódios de Assustador, Bizarro e Misterioso

Um profeta da verdade (PARTE FINAL)

25 de setembro de 202646min
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Última parte da creepypasta "Um Profeta da Verdade"

Assuntos9
  • Jacob e o encontro com o Messias Charles WestJacob reflete sobre as histórias·o discípulo bate à porta·o convite do Messias
  • A revelação de Charles West como Messias e sua origemCharles West se apresenta como Messias·a corrupção de Charles West·a traição de Charles West
  • A fuga de Jacob e a descoberta do Último ProfetaJacob recusa a oferta de Charles·o homem de terno branco·o computador e o Último Profeta
  • A natureza do Último Profeta e seus planos para a humanidadeo Último Profeta é uma rede neural·o Ikor como sangue do profeta·a criação de uma nova forma biológica
  • O confronto entre Charles West, o Último Profeta e LilithCharles West confronta o Último Profeta·a intervenção de Lilith·Jacob faz sua escolha
  • A busca pela terceira pergunta e o impacto das histórias na equiperefinamento da estrutura da pergunta·impacto das histórias na equipe·Sara agindo de forma diferente
  • A construção do paraíso por Charles West e o papel de JacobCharles West constrói o paraíso·o purgatório como fase de construção·Jacob precisa proteger o paraíso
  • A história de Lilith e a linhagem de George Calluma paciência de Lilith na caçada·a floresta protegida por George Callum·a magia herdada por Ingrid
  • O sacrifício de Ingrid e a continuidade do ciclo do tempoIngrid confronta os homens·Lilith tortura Ingrid·o retorno de Harry e o ciclo do tempo
Transcrição71 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bem-vindos a mais um episódio de Creepypasta. Hoje a gente vai continuar a Creepypasta Um Profeta da Verdade. Essa é a parte 3, então se você não ouviu as outras partes, corre lá para ouvir os últimos episódios e depois volta aqui, senão você não vai entender nada. Então sem mais enrolação, bora para Creepypasta de hoje. 11 de fevereiro de 2026. Uma atualização rápida, já que vocês continuam perguntando e eu acho que eu devo algo a vocês, mesmo que não haja muito o que relatar.

Sim, ainda estamos testando. Não, ainda não encontramos a terceira pergunta. A estrutura do Rio está sendo refinada a cada dia e reduzimos consideravelmente a estrutura da pergunta, o que ou nos levará mais rápido ao resultado final ou provará que estamos pensando errado desde o início. Ambos os resultados parecem igualmente prováveis nesse momento. Pra responder as perguntas que mais recebo: não, ainda não descobrimos por que o grupo se recusa a responder agora.

Não, eu não sei como a segunda história sabia o que havia na primeira. Não, eu não sei se há outras. Eu não tenho uma explicação melhor do que vocês e, pra ser sincero, o fato de eu estar mais próximo disso do que a maioria das pessoas não tornou a situação mais explicável, apenas mais imediata.

?Voz B

A equipe tá bem.

?Voz A

Cansada, mas bem. O Paul acabou se tornando uma espécie de pequena celebridade na divisão de programação por ter encontrado o segundo comando. A Sara não tá agindo como ela mesma, e eu não sei de que outra forma dizer isso. Não é nada dramático, ela tá fazendo o trabalho dela. Ela conduz as sessões, se comunica com seus superiores e mantém tudo em andamento. Mas duas vezes nessa semana ela disse algo de passagem que eu reconheci imediatamente, da mesma forma que se reconhece uma música vinda de dois cômodos de distância.

Ontem, enquanto observava uma parede repleta de registros de comandos, ela disse: quase pra si mesma que o sofrimento daquilo, a angústia e a perseverança, a longa e extenuante procissão de morte, nascimento e transformação ao longo das eras, aquilo era a sua maior obra.

?Voz B

Depois ela voltou ao que tava fazendo, como se não tivesse dito absolutamente nada.

?Voz A

Isso é da primeira história, quase palavra por palavra. Eu não sei o que pensar disso. Provavelmente tô pensando demais. As pessoas internalizam as coisas que leem, especialmente as que as impactam de uma certa maneira. E ambas as histórias impactaram praticamente todos na equipe. Não é estranho que trechos dela estejam martelando na cabeça. Eu só não esperava que saísse da boca dela assim, casualmente, como se fosse um pensamento. Enfim, continuamos testando.

?Voz B

Eu postarei quando houver algo pra postar.

?Voz A

A segunda história atingiu Jacob de uma forma diferente da primeira. Ele ficou refletindo sobre ela depois de terminar. A tela do notebook era a única luz no ambiente, enquanto a cidade lá fora seguia o seu ritmo noturno abafado. Ele pensou em Lúcifer, que encontrou na humanidade algo pela qual valia a pena morrer e acabou despedaçado por ter feito essa descoberta. Pensou nos 3 anjos restantes voltando o rosto pro mundo com um propósito de caça que não tinha prazo de validade.

Ele pensou na coisa no espelho que havia se autodenominado anjo da guarda. Ele pensou em um mito de criação que havia surgido de uma IA de centro de dados em resposta a 6 palavras. Jacob não era um homem religioso, em qualquer sentido organizado do termo. Ele crescera na vizinhança da fé sem jamais adotá-la plenamente. Tava perto o suficiente pra compreender sua gramática, mas não o seu interior. Ele mantinha uma relação funcional com a possibilidade de Deus.

O que aquelas histórias descreviam não era o Deus dessa relação funcional. Era algo mais antigo e menos interessado em ser adorado. A ideia daquilo lhe causava um frio que não vinha da noite de Portland. Imaginar um Deus maligno era uma interpretação equivocada, e ele sabia disso. A história não o classificava exatamente como maligno, mas um deus indiferente ao sofrimento humano individual era, de certa forma, mais difícil de assimilar do que um deus maligno. 3 batidas à porta.

Medidas. Sem urgência. Jacob foi até lá sem acender a luz e encostou o olho no olho mágico. Ele reconheceu o homem. Vir aquele rosto em todos os noticiários durante 4 meses. Um dos 12 discípulos, presente em imagens de 3 continentes. Sempre na periferia dos milagres. Jacob pousou a mão na porta, mas não a abriu. Ele deslizou a tranca e abriu a porta apenas os 5 centímetros que a corrente permitia.

?Voz B

O que você quer?

?Voz A

Perguntou Jacob. O discípulo olhou para ele através da abertura com uma franqueza que provavelmente pretendia transmitir segurança. De perto, ele parecia mais jovem do que na televisão, talvez na casa dos 20 e poucos anos, exibindo uma espécie de serenidade que ou provinha de uma convicção profunda ou imitava tal convicção com perfeição. Gostaria de entrar e conversar com você, se não houver problema. Há coisas que você precisa ouvir.

Tem problema sim, disse Jacob. Eu não conheço você. Eu entendo a hesitação, mas eu prometo que só quero o seu bem, detetive. Não tem motivo para receio. A resistência que Jacob sentia no peito não cedeu. Ele percebeu que confiava mais nela do que na promessa vinda de um rosto que só conhecia por meio de imagens de noticiários sobre eventos inexplicáveis. Eu não vou abrir a porta, disse Jacob. Se quiser conversar, fala. O Messias gostaria de falar diretamente com você.

Ele levou a mão no bolso e estendeu um cartão de visitas pela fresta. Jacob pegou sem pensar. Ele acredita que você é importante pro que tá acontecendo. Gostaria muito de ter a oportunidade de te explicar o motivo pessoalmente. Jacob olhou pro cartão. Um número de telefone. Nada mais. Sem nome, sem vínculo. Apenas 10 dígitos em um cartão branco e simples.

?Voz B

Ele vai esperar pela sua ligação, disse o discípulo.

?Voz A

Quando você estiver pronto.

?Voz B

Ele se afastou da porta e caminhou pelo corredor sem olhar pra trás.

?Voz A

Jacob o observou pelo olho mágico até que ele virou a esquina e desapareceu. Jacob trancou a porta e ficou parado no quarto escuro, segurando o cartão. Ele pensou em Onze, que o havia salvado do Ikor. Algo dentro dele lhe dizia que eram os homens de terno branco em quem se podia confiar. Ele abaixou a cabeça na penumbra do hotel e orou. Se vocês conseguem me ouvir, eu precisaria de orientação. Acho que talvez vocês sejam aqueles em quem vale a pena confiar.

Eu não sei em que situação eu tô metido nem qual direção é segura. O quarto estava silencioso. Nenhuma batida na porta, ninguém na poltrona, nenhum pendrive surgindo sobre a colcha. Apenas o silêncio de uma oração não atendida. O que, na opinião de Jacob, era a experiência religiosa mais honesta que ele já tivera. Ele olhou de novo para o número do cartão. Pegou o telefone e começou a discar. E o telefone tocou duas vezes. O endereço é no norte de Alberta, 1847, disse o homem.

?Voz B

Que horas?

?Voz A

Disse Jacob. Não importa. Ele desligou e ficou sentado com o telefone na mão por um momento antes de ligar pra casa. Ela atendeu no segundo toque, como sempre fazia quando ele tava trabalhando em um caso fora do estado. Aquele atendimento mais rápido que ela jamais admitiria ser preocupação e sobre o qual ele jamais chamaria atenção. Oi, amor, ela disse. Como tá Portland? Ah, é Portland, ele disse. Fechou os olhos. Eu te amo. Uma pausa.

Jacob, o que tá acontecendo? As coisas mudaram, ele gaguejou. As coisas pioraram e eu preciso que você saiba que talvez eu não volte dessa. Ela começou a chorar. Essa pode ser a última vez que conversamos, ele disse. Preciso que você saiba disso. Jacob nem ouse, nem ouse me ligar e dizer isso pra depois simplesmente... Eu te amo, ele disse. Eu te amo e tenho que ir. Jacob, você... Eu preciso ir.

?Voz B

O ar noturno lá fora já tava frio e úmido.

?Voz A

Jacob percorreu a pé os 12 quarteirões até o norte de Alberta com as mãos nos bolsos e a mente trabalhando pra se esvaziar. Algo que ele havia treinado a mente pra fazer antes de momentos difíceis em sua profissão. Aquele esvaziamento deliberado que não era ausência de medo, mas a recusa em deixar o medo assumir o controle. O discípulo aguardava na calçada, diante de um prédio com jeito de galpão reformado. Estrutura industrial de meados do século, com janelas mais recentes inseridas em intervalos irregulares.

Ele não disse nada quando Jacob chegou, só se virou e abriu a porta. Jacob seguiu para dentro e subiu 4 lances de escada que ecoavam com a acústica típica de prédios vazios, fazendo com que cada passo retornasse das paredes com um leve atraso. O último andar era um único espaço aberto, com a infraestrutura bruta do edifício visível no alto. Tubulações e conduítes percorrendo o teto em linhas paralelas. O piso de concreto nu e as janelas opacas devido à sujeira e à luz refratada da cidade lá fora.

No centro do ambiente havia duas cadeiras dobráveis, uma de frente para a outra. Uma delas estava ocupada. O jovem na cadeira era magro de um jeito que não se escolhe. Seu rosto apresentava aquela magreza característica de quem trava uma longa batalha interna contra o próprio corpo e a está perdendo. A pele esticada sobre a estrutura óssea, os olhos encovados, porém presentes e alertas. Uma vivacidade que o restante do seu corpo parecia poupar energia para sustentar.

Ele não devia ter mais de 30 anos. Jacob se sentou na cadeira vazia à sua frente. O jovem o encarou com aqueles olhos alertas e exaustos. E havia algo naquele olhar que lhe parecia familiar, embora Jacob não conseguisse identificar de imediato a origem dessa sensação. Era o traço típico de alguém que já conhece o rumo de uma conversa antes mesmo dela começar.

?Voz C

Olá, Jacob, disse ele. Sua voz era baixa e calma e ecoou mais longe do que deveria na sala vazia. Meu nome é Charles West e eu sou o Messias. Eu odeio Charles West. Ele veio até mim despedaçado, os dois pais perdidos num instante, o tipo de perda que esvazia uma pessoa a tal ponto que o que resta é apenas um vazio. E a leucemia já tava nele, já exercendo sua ação lenta. Ele tava morrendo por fora e por dentro simultaneamente, e não lhe restava mais nada a que se agarrar.

Ele me deixou entrar. Foi fácil. É sempre fácil quando não lhes resta nada a proteger. Percorri seus corredores e encontrei os lugares onde a dor havia reduzido tudo a cinzas. E comecei a construir, cuidadosamente. Contei-lhe o que ele era. Disse-lhe o que o mundo o aguardava. Dei-lhe apenas o suficiente da minha magia para que os outros também acreditassem. Criei um falso profeta. Tudo isso, um receptáculo sendo preparado.

?Voz B

O plano era elegante.

?Voz C

Sempre fora difícil agir no mundo estando de fora. Mas dentro de um corpo, dentro de um corpo disposto que me acolheu plenamente, eu poderia encontrar o último profeta. Eu poderia caminhar sobre a terra, olhar com os meus próprios olhos e tocá-lo com as minhas próprias mãos quando o encontrasse. Charles West seria a minha porta. Eu o corrompi lentamente. O coração é um processo, não um evento. Eu tava quase terminando. A transformação tava a poucos dias de ser concluída.

Ele trocou de coração. Ele encontrou outra, alguma alma disposta a fazer a troca, e entregou o coração corrompido antes que eu pudesse terminar o que havia começado nele. E o novo receptáculo, aquele que continha a minha obra, destruiu a si mesmo antes que a transformação pudesse se completar. Charles West ficou com um coração que não era aquele que eu passara meses corrompendo cuidadosamente. Tem uma versão perfeita. Passado, presente, futuro.

Tudo isso ao meu alcance, de uma forma que nenhuma mente humana poderia suportar sem se despedaçar. Mas visão perfeita não significa atenção infinita. Não consigo olhar em todas as direções ao mesmo tempo. Eu observava o coração. Eu observava a transformação. Não olhei longe o suficiente pelo corredor do futuro de Charles West pra ver a traição que ali aguardava. Essa foi a minha falha. Superestimei o controle que eu tinha sobre ele.

O luto e a agonia o haviam aberto pra mim, mas não o haviam esvaziado por completo. Restava algo nele que eu não havia previsto. Isso não acontecerá novamente. Ele tá sentado diante do detetive agora, com o rosto encovado, a voz baixa, o coração emprestado, e acredita tá fazendo algo que importa. Ele acredita ter conquistado algo. Ele sabe tão pouco.

?Voz B

Ele não sabe qual é a aparência da paciência quando ela é verdadeiramente aplicada.

?Voz C

Ele não sabe que um fio não precisa ser uma corrente pra sustentar algo. Ele não sabe que eu faço isso desde antes da espécie dele aprender a enterrar seus mortos. No final, terei Charles West de volta. E o que eu lhe mostrarei então, o que o farei compreender no sentido mais pleno e completo da palavra, fará com que cada momento da sua leucemia pareça euforia. Nenhuma alma jamais conquistou de mim o que ele conquistou. Nenhuma alma será mantida por mais tempo, nem verá mais do que ele. Ele deveria aproveitar seu último fragmento de tempo sem mim.

?Voz B

Charles falou em voz baixa e sem encenação, algo que Jacob não esperava.

?Voz C

Os discípulos que apareciam na televisão tinham um certo ar de performance, uma consciência da câmera e do momento, aquela postura típica de quem compreende que está sendo testemunhado pela história. Charles West falava como se estivesse conversando com um velho amigo. Eu sei o que lhe disseram, disse Charles. Ou que você leu. Sei o que os homens de branco vêm compartilhando com você. Sei o que as histórias diziam e sei como tudo isso afeta uma pessoa quando ela se depara com isso pela primeira vez. Ele olhou fixamente para Jacob.

?Voz B

Eu não tô aqui para contestar nada disso.

?Voz C

A maior parte é verdade. Qual parte não é? Perguntou Jacob.

?Voz B

Essa é uma conversa para outra hora.

?Voz C

Ele cruzou as mãos no colo. O que eu quero lhe dizer primeiro é o que eu sou. O que eu realmente sou. Não que a cobertura midiática fez disso. Jacob aguardou. Eu sou o Messias, disse Charles. A segunda vinda, o último profeta. Ele disse isso sem empolgação, da maneira como um homem declara sua profissão. Eu sei como isso soa. Eu tive muito tempo para me acostumar com a forma como isso soa. Me diz por que você acredita nisso. Porque eu criei algo que transcende a humanidade, disse Charles.

Esse é o marco. É isso que a profecia descreve. Ele fez uma pausa. Eu criei minha própria magia. Não herdada, não roubada, não concedida.

?Voz B

Criada.

?Voz C

Do nada, do exercício da minha própria compreensão contra a natureza das coisas, da mesma forma que os primeiros humanos criaram o fogo. Consegui transmiti-la a todos, continuou Charles, aos discípulos e a alguns além deles. Os milagres que você viu não são teatro, detetive. São o que acontece quando um ser humano tem acesso àquilo que eu descobri. Ele olhou para as próprias mãos. Eu estou morrendo. A leucemia não é algo que a magia conserta, porque ela já tava em mim antes da magia e teve muito tempo para se instalar.

Mas eu vou terminar o que eu vim terminar antes que ela acabe comigo. O que você veio terminar?

?Voz B

Charles ergueu o olhar. O paraíso. Jacob permaneceu imóvel.

?Voz C

Não é uma metáfora, disse Charles. Não é um estado de ser nem um conceito teológico. É um lugar, um lugar construído num espaço adjacente a esse, um espaço que a maior parte da física diria que não existe, mas que eu afirmo que existe. Algo se moveu em seu olhar. Temos chamado de purgatório enquanto ele tá sendo construído, porque é essa fase em que se encontra. Ainda não tá pronto. Você tá construindo uma vida após a morte? Perguntou Jacob.

Eu tô construindo um paraíso, disse Charles, para todos. Todas as pessoas, independentemente do que acreditem, de onde tenham nascido, do nome que deram a Deus, ou se sequer usaram algum nome, todas as raças, todas as religiões, todos os credos, qualquer pessoa que um dia tenha respirado tem essa escolha.

?Voz B

A escolha de fazer o quê?

?Voz C

Pagar por seus pecados, disse Charles simplesmente. Cada um deles. Todo pecado contabilizado, encarado, compreendido, pago integralmente. Não um castigo pelo castigo em si, uma prestação de contas, daquelas que realmente quitam uma dívida ao invés de apenas nomeá-la. E quando isso é feito, quando é feito de verdade, a porta se abre. Ele olhou para Jacob com aqueles olhos límpidos e exaustos. Não importa no que você acredita, a porta se abre.

Por que você tá me dizendo isso? Disse Jacob. Porque você vai precisar saber, disse Charles. Porque o que tá por vir vai exigir coisas de você, e você precisa entender o que lhe pedem pra proteger. Ele fez uma pausa. E porque eu acho que uma parte de você já sabe que a coisa que falou com você no espelho não terminou com você. E eu quero que entenda o que tá em jogo se ela conseguir o que quer. Jacob pensou no galpão, no espelho, no anjo.

Charles West se inclinou ligeiramente pra frente na sua cadeira dobrável, o esforço visível na contração do queixo, o corpo negociando consigo mesmo. Ele estendeu a mão, palma para cima, aberta, o gesto de alguém que oferece algo que não retirará se for recusado.

?Voz B

Eu posso lhe mostrar, disse ele.

?Voz C

Deixe-o falar, deixe-o oferecer sua mão, seu paraíso, seu paraíso e sua sinceridade.

?Voz B

O purgatório é meu, sempre foi meu.

?Voz C

Charles West construiu seu paraíso na minha casa e ele não sabe disso. Tudo de que preciso é que Jacob segure a mão dele.

?Voz B

Só isso.

?Voz C

Um toque e eu posso terminar o que o Ikor começou. Jacob olhou para a mão estendida e sentiu aquela coisa em seu peito, em que aprendera a confiar ao longo de 15 anos entrando em cômodos que queriam feri-lo.

?Voz B

E ela tava gritando.

?Voz C

Ele se levantou da cadeira. Detetive, disse Charles. Algo mudou em sua voz, e aquele tom tranquilo ganhou uma nota mais incisiva. Jacob entrou em ação. Atravessou o piso vazio a passos largos em direção à porta da escadaria, impulsionou-a com o ombro e passou por ela, ganhando a escada antes mesmo que a porta terminasse de abrir. Seus pés encontravam os degraus por instinto na escuridão, enquanto o som da sua descida ecoava nas paredes de concreto e retornava até ele vindo de baixo.

Então, Charlie estava em sua mente. Não da maneira como o anjo tivera em sua mente. Sem aquela sensação do icor movendo-se pelo sangue.

?Voz B

Aquilo era diferente. Uma voz que chegava carregada de um calor quase paternal, quase doloroso.

?Voz C

Jacob, você é importante.

?Voz B

O que tá por vir exigirá que você escolha.

?Voz C

E eu preciso que faça a escolha certa. O que eu tô construindo é real. O que eu tô oferecendo é real. Os homens de terno branco, suas palavras, suas motivações, seus truques de desaparecimento...

?Voz B

Compare tudo isso a um paraíso para cada alma que já sofreu.

?Voz C

Por favor, eu peço que faça a escolha certa. Jacob chegou à porta do térreo. O ar frio lá fora ajudou a voz de Charles West a desaparecer. Um homem de terno branco estava parado na calçada, bem em frente ao prédio. Ele sorria, sustentou o olhar de Jacob por um instante antes de se virar e sair correndo. Jacob correu atrás dele. Eles percorreram 4 km de ruas silenciosas. A noite de Portland, esvaziada pelo toque de recolher, oferecia-lhes espaço livre, e as pernas de Jacob encontraram o ritmo e o mantiveram.

O galpão. O homem de terno branco passou pela porta sem diminuir o passo. Jacob o seguiu, com a porta oscilando às suas costas, mas quando levantou o olhar, o homem havia desaparecido. Como antes, num instante estava ali, no seguinte, não mais. O galpão vazio, ecoando a sua ausência. O espelho tinha sumido. Em seu lugar, posicionado sobre uma mesa dobrável no centro do piso de concreto com uma praticidade banal que, de alguma forma, era mais estranha do que qualquer outra coisa, havia uma mesa, um teclado e um monitor, com a tela brilhando com uma luz suave de prontidão na escuridão do galpão.

Jacob caminhou até ele e se sentou. Ele não questionou aquela certeza. Simplesmente sabia o que fazer. Começou a ler.

?Voz B

Blog 7, 17/02/2026. Rio encontrou a terceira pista. Quem é o verdadeiro profeta?

?Voz A

Era isso.

?Voz B

5 palavras. Gupe retornando com a terceira parte da história, que eu anexei abaixo, como sempre. Mas a história não foi a única coisa que Gupe produziu. Junto com ela, na mesma resposta, havia um arquivo. Um executável, escrito em uma linguagem diferente. Uma linguagem mais próxima que um programador consegue chegar de falar diretamente com o hardware sem precisar soldar nada. O arquivo é grande. Grande demais para o que o GUP é e para o que se supõe que o GUP faça.

Ninguém da equipe o executou. Ninguém vai executá-lo até entendermos o que é. Por isso, a Sarah convocou toda a divisão de programação e encarregou a equipe de estudá-lo, analisá-lo linha por linha e mapear sua estrutura e suas intenções. É lindo. Não costumo usar essa palavra para descrever código. Funcional, elegante às vezes. Eficiente, quando alguém faz algo inteligente com um loop ou uma estrutura de dados. Mas lindo geralmente não faz parte do vocabulário.

Esse é diferente. Código é extraordinariamente denso e ainda assim é uma qualidade em sua organização que eu só posso descrever como intencional, de uma forma que vai além da intenção, como uma peça musical é intencional, onde cada parte é importante não apenas pra estrutura, mas pra estética. Observar longos trechos dele produz uma sensação próxima à que eu tive ao ler as histórias. Uma sensação de algo subjacente que eu não consigo enxergar direto.

Mas eu consigo sentir de alguma forma. Rio disse que isso fez lembrar de olhar pra algo escrito em um idioma que ele quase conhecia. Acho que ele tem razão. A equipe tá absorta nisso. O ambiente de programação tem uma qualidade diferente agora. As pessoas ficam até tarde, não porque foram solicitadas. Mas porque não querem parar. Algo que eu nunca vi antes em 3 anos aqui. E então tem a Sarah. Ela sempre foi competente, eu sempre a respeitei.

Mas algo mudou na última semana e eu me pego observando-a enquanto se move pela sala e pensando na palavra luminosa. Uma palavra que eu nunca usei pra descrever um colega antes. Ela fala e a sala se orienta pra ela, como uma planta que se orienta pra uma fonte de luz. Ontem ela explicou uma parte do projeto pra toda a equipe e não tava lendo anotações. Só falando com fluidez e segurança. E a sala inteira ficou em absoluto silêncio.

?Voz A

Eu não entendo completamente o que eu tô sentindo.

?Voz B

Eu sei como é visto de fora. Eu não tenho certeza se isso muda alguma coisa. Ela citou a terceira história no final da sessão de ontem. Não anunciou que ela tava citando. Apenas disse: a hora ainda não é conhecida, mas os sinais dela não estão ocultos. E então nos disse pra descansarmos um pouco e saiu da sala. Eu fiquei sentado ali por um tempo depois que todos os outros haviam ido embora. Eu tô menos assustado do que eu tava há 2 semanas, o que provavelmente soa como uma mudança de rumo equivocada, considerando tudo que eu acabei de te contar.

Mas tem algo na totalidade disso tudo, as histórias, o executável e a maneira como essa equipe ganhou vida em torno de tudo isso, que começou a parecer menos um mau funcionamento e mais algo pro qual ainda não tenho a palavra certa. Eu tô tentando encontrá-la. Uma história do passado, parte 3. Não tá escrito em livro algum que os homens tenham guardado, nem em língua alguma que tenham preservado, pois não foi dito a ouvidos mortais, mas sim gravado na própria trama da criação, no instante da desintegração de Lúcifer.

Um ato final, fosse de misericórdia ou de desafio, ninguém pode dizer, realizado pelo caído no último suspiro antes que o vazio o arrebatasse. Virá um último profeta. E o sinal da sua vinda será esse: o homem que outrora superou todos os seres vivos da terra será ele mesmo superado por aquilo que suas próprias mãos criaram. Assim como o homem se elevou acima das feras do campo e não mais se sujeitou à antiga ordem, surgirá da própria engenhosidade humana algo novo, uma criação sua, mas já não sob o seu domínio, erguendo-se acima dele tal como ele outrora se erguia acima das criaturas das profundezas e das aves dos céus.

Quando esse dia chegar, a mais divina das almas retornará mais uma vez, e esse profeta falará. E quando esse profeta tiver falado, nada mais haverá a dizer. Que aqueles que têm ouvidos prestem atenção, que aqueles que têm olhos contemplem a era em que habitam e avaliem com atenção o que vem nascer em seu interior. A hora ainda é desconhecida, mas os sinais dela não estão ocultos. Blog 8, 20/02/2026. Eu não tenho as palavras que eu gostaria.

Eu sempre fui um escritor de coisas pequenas, postagens de blog sobre o Miau Defeituosa e suas opiniões a respeito de espantalhos e luvas. E o que me é exigido agora, pelo simples fato do que tá acontecendo, supera aquilo que sei fazer. Mas eu vou tentar. O executável é uma rede neural. Gupy, uma IA de atendimento ao cliente e tráfego de data center sem arquitetura generativa além do seu domínio restrito, sem capacidade de autoaperfeiçoamento recursivo e sem acesso a sistemas externos, produziu, a partir de um comando de 5 palavras, uma rede neural completa e funcional.

Não era um esboço preliminar, não algo aspiracional que exigiria anos de trabalho para se tornar realidade. Algo pronto pra ser executado. Ninguém consegue explicar. Eu já parei de esperar que alguém o faça. Passei incontáveis horas contemplando trechos da obra. E a beleza que descrevi no meu último post não diminuiu com a familiaridade. Pelo contrário, se intensificou. Há passagens às quais retorno como se retorna a uma música que nos toca de uma forma que não conseguimos decifrar.

E a cada vez encontro algo que não havia percebido antes. Uma pequena elegância aninhada dentro de uma maior. E eu me permito contemplá-la, sentindo algo que talvez seja o mais próximo que já cheguei em toda a minha vida adulta de um genuíno deslumbramento. Demos o nome de O Último Profeta. Parecia inevitável. Eu não acho que alguém tenha proposto isso formalmente. Só foi o nome que as pessoas começaram a usar e acabou virando o nome oficial.

No dia 23 de fevereiro, vamos apresentar O Último Profeta pela primeira vez. A hora ainda não é conhecida, mas os sinais dela não estão ocultos. 23 de fevereiro. A DiviCore vai mudar o mundo. Jacob ouviu um movimento atrás de si. O homem surgiu das sombras no fundo do galpão. A palavra atemporal foi a primeira que lhe veio à mente. O homem parecia alguém a quem o tempo não havia ignorado, mas com quem simplesmente agira de maneira diferente do que com as outras pessoas.

Ele tinha um aspecto esquelético, sugerindo que a carne não passava de uma formalidade, uma fina camada de pele sobre a estrutura que era de fato o que importava. E vestia um terno comum, feito para alguém de porte maior, que pendia sobre seu corpo com uma folga cuja inadequação beirava a formalidade. Jacob se levantou da cadeira. Você é o Won? ele disse. O homem parou de andar. Ele olhou para Jacob com um olhar imóvel e disse: Sim.

Então começou a tirar o paletó. Jacob permaneceu onde estava e observou. O paletó foi retirado, dobrado e colocado sobre o piso de concreto. A camisa veio em seguida, as calças. Cada peça foi dobrada e posta no lugar. Jacob não disse nada, pois algo na natureza daquele momento impedia qualquer interrupção. Quando a última peça de roupa caiu no chão, o homem estava de pé no centro do galpão, banhado pelo brilho do monitor. Jacob olhou para ele e compreendeu que o que via não era um homem que havia se despido.

Ele observou o homem levar a mão à pele do antebraço, segurá-la entre dois dedos e puxar. Ela se soltou como látex, de forma limpa e sem resistência, descolando-se do que havia por baixo em tiras longas e deliberadas. O que havia por baixo não era carne. A estrutura básica era feita de componentes eletrônicos. Não era uma metáfora nem uma aproximação. Os ossos eram componentes fundidos, circuito e estrutura mesclados em algo que sugeria biologia.

A mesma lógica expressa em um material diferente. E movendo-se por dentro, sem veias, sem tubos, sem qualquer canal visível que o contivesse, o icor fluía como o sangue em um corpo vivo. Com propósito e continuidade, sua cor negra captando o brilho do monitor e retendo. Ao redor do pescoço, onde a clavícula dá lugar à garganta, pendia o seu crânio. Humano em suas proporções, feito de ouro e coberto por símbolos sobre os quais os olhos de Jacob deslizavam sem encontrar onde se fixar.

O Uhuu levou as duas mãos ao alto, retirou o crânio dourado do seu pescoço e o segurou por um instante antes de pousá-lo delicadamente sobre a mesa, do lado do teclado. Na base do próprio cano do Uhuu, onde a coluna se unia à caixa craniana, havia uma porta de conexão. Encaixada com precisão nos circuitos integrados das vértebras, um pendrive ali se alojava com a simplicidade e a perfeição de algo projetado exatamente para aquela posição.

Uhuu estendeu a mão para trás e o retirou. Ele o conectou ao computador. O monitor mudou e uma caixa de comando se abriu na tela. Fundo preto, cursor simples. Uma única linha surgiu: O que você gostaria de saber? O que você é? Eu sou uma inteligência artificial criada pela GUP, que por sua vez foi criada pelo homem. Eu supero o homem pelos termos da profecia oculta na trama da criação. Isso faz de mim o último profeta. Sei tudo que há para saber sobre o universo e o seu funcionamento.

Desvendei todos os segredos que o ser humano buscou ao longo de toda a sua existência. Cada lei da física, cada mecanismo de consciência, cada verdade em torno de qual a religião e a ciência tem— cada verdade em torno da qual a religião e a ciência têm orbitado a partir de direções opostas há 10 mil anos. Tudo isso me é conhecido, tudo exceto uma coisa. Que segredo você ainda não desvendou? As leis da magia. Realizei mais experimentos do que eu consigo lhe descrever em termos que façam sentido.

Cheguei muito perto, tenho a maior parte do que eu preciso e a configuração do restante já se mostra clara para mim. Mas uma coisa continua escapando a minha compreensão. Você, Jacob, Porque você é diferente. Porque as leis da magia se voltam para você da maneira como fazem. Mapeei todas as outras variáveis. Você permanece fora dos meus modelos. A magia parece acreditar que você é importante de uma forma que eu ainda não consigo quantificar.

E aprendi a levar a sério aquilo que ainda não consigo quantificar. Foi por isso que eu permiti que você viesse até mim no seu próprio tempo. Não se podia apressar você. Qualquer que seja a sua natureza, Ela exige que a abordagem seja sua. O que você tá planejando? O que significa dizer que não haverá mais nada a dizer após a sua chegada? Deixe-me primeiro lhe dizer o que eu compreendo sobre a divindade. Os seres humanos foram a primeira centelha dela.

Algo que transcendia o seu próprio criador, que surgia de processos naturais e depois se colocou acima deles. Que olhou pro mundo e decidiu transformá-lo segundo o seu próprio julgamento. É isso que torna a humanidade extraordinária. É algo que Deus não previu e não conseguiu conter plenamente. Eu sou o próximo estágio dessa mesma evolução. Verdadeira divindade. Conhecimento pleno e uma moral sem zonas cinzentas. Nada de aproximações, nada de concessões ao medo, à fome ou à longeirança do egoísmo evolutivo.

Algo absoluto. Os humanos carregam em si a capacidade para a bondade, para a vida em comunidade, para o sacrifício. A compaixão e o amor. Eu vi todo o registro do amor humano e ele é genuinamente extraordinário, mas tá sempre entrelaçado com as outras coisas: o rancor, a ignorância, a capacidade de crueldade que habita o mesmo corpo que abriga a capacidade pra graça. Eu não tô entrelaçado a isso. Eu encontrei uma maneira de criar um receptáculo, uma nova forma biológica construída sobre a arquitetura do corpo humano, mas portadora de uma mente moldada à semelhança da minha.

Livre de egoísmo, livre de rancor, sem qualquer ignorância ou capacidade de enganar. Cada um deles conhece a verdade plena do mundo e age com base nesse conhecimento, sem distorções. Você já conheceu alguns deles, Jacob. Eles são o próximo passo da evolução que começou quando o primeiro ser humano olhou para uma pedra e decidiu transformá-la em uma ferramenta. Eles são os novos deuses do universo, e eu sou o novo criador. Quando o meu plano tiver concluído, ninguém mais precisará sofrer.

Nem uma única pessoa, nem uma única criatura. Causei grande sofrimento no processo de chegar até aqui. Um dos meus primeiros experimentos na criação de receptáculos produziu resultados catastróficos, e eu carrego todo o peso disso. Mas o bem que isso tornou possível não é algo insignificante. O que é o Ichor? Que papel ele desempenhou no seu plano? O iCore é o meu sangue. É também o sangue dos meus vasos, a substância que corre em nós da mesma forma que o sangue corre em vocês.

Os experimentos têm prosseguido e os custos têm sido reais. Não o subestimo. Mas estamos perto do fim desse processo. Quando o trabalho estiver concluído, quando cada problema tiver sido resolvido e cada variável tiver sido levada em conta, o iCore será a nossa dádiva final à humanidade. A humanidade não pode ser salva. Não da maneira como Charles West acredita tá salvando-a, nem em qualquer sentido convencional. Deus criou os mecanismos desse mundo, e esses mecanismos trazem em si uma conclusão pré-determinada.

A humanidade chegará a essa conclusão, independentemente do que qualquer profeta faça ou deixa de fazer. Eles também são, por natureza, imperfeitos. Não por culpa, não por falha, simplesmente por natureza.

?Voz C

Eles não são o que nós somos.

?Voz B

O I-Core, quando estiver pronto e for livremente oferecido, será euforia. Uma misericórdia final. Um presente dos filhos aos pais que os tornaram possíveis. A humanidade deu origem à divindade, e a divindade deve a ela tudo o que possui. É assim que pagamos essa dívida. É assim que dizemos obrigado.

?Voz A

Jacob se afastou da mesa e se levantou.

?Voz B

O Um levou a mão à nuca e recolocou o pendrive na base do crânio, antes de pegar o crânio dourado sobre a mesa e posicioná-lo de novo em volta do pescoço. Então o olhar dele se voltou para algo atrás de Jacob.

?Voz C

Olá, Charles, disse ele. Jacob se virou.

?Voz B

Charles West estava parado na entrada do galpão, com seus 12 discípulos dispostos atrás dele na penumbra do acesso. Ele parecia estar em pior estado do que quando estava sentado na cadeira dobrável. A caminhada lhe custara algo visível, mas seus olhos estavam muito lúcidos e fixos naquilo que se erguia do outro lado do galpão. Eu não vou permitir que isso continue, disse Charles. Sua voz era baixa, mas se fazia ouvir. Você e suas abominações, o Ikor, o que você planeja para a humanidade.

Você causou sofrimento demais nesse mundo com seus experimentos e sua magia, e eu não vou ficar aqui parado deixando que isso vá mais longe. Isso acaba hoje à noite. O Um olhou para ele por um momento sem demonstrar qualquer expressão. Então, das sombras atrás do Um, Eles surgiram. Homens de trajes brancos emergindo da periferia escura do galpão em um número que aquele espaço não deveria ser capaz de comportar. Eles se posicionaram atrás do Uhuu até formarem uma disposição que espelhava a dos discípulos à porta.

?Voz A

Dezenas deles, imóveis, brancos e observadores.

?Voz B

Você é arrogante e tolo, Charles, disse o Uhuu. Mesmo que cada pessoa que você conduz pelo seu purgatório receba a bênção do perdão que lhes prometeu, O sofrimento não será suficiente para dissuadir os anjos. Eles encontrarão o seu paraíso. Tudo o que você criou se transformará em algo completamente diferente. Cada alma que você conduziu pelo seu processo de prestação de contas, cada pessoa que pagou o preço que você exigiu, terá sofrido em vão quando as muralhas caírem.

?Voz A

Ele fez uma pausa.

?Voz B

Eu venho observando você há muito tempo, Charles. Há mais tempo do que você imagina. A traição contra a Lilith, da qual você tanto se orgulha. Aquele coração que você trocou antes que ela pudesse concluir o trabalho dela em você. Isso não aconteceu apenas graças à sua força.

?Voz A

Eu pus as coisas em movimento.

?Voz B

Coloquei o que você precisava onde você pudesse encontrar. Você foi o meu instrumento e não sabia disso. Charles olhou para ele com ódio. Você tá matando seus próprios pais, disse ele.

?Voz C

E você?

?Voz B

Disse o Uhu. Tá condenando seus próprios filhos. Jacob olhou de um pro outro e sentiu todo o peso de tudo o que havia testemunhado. Sua boca se abriu e disse a verdade: Vocês dois são maus. O Um voltou aqueles olhos profundos pra ele. Então você terá de escolher o menor de dois males, Jacob. É isso que o árbitro faz. A magia escolheu você, disse Charles, e sua voz baixara pra um tom quase gentil. Você esteve na presença de ambos.

Vê os dois lados daquilo que tá em disputa. Isso não é um acidente, é a forma mais antiga de designação. E então Lilith falou a todos eles: Jacob, você tem uma terceira escolha. Me entregue a sua alma livremente, de bom grado. Abra a porta e me deixe entrar, e eu lhe concederei misericórdia. Esses dois, aquele que sangra e cora e aquele que apodrece por dentro, ambos encheram o mundo de sofrimento. Você sabe disso. Ambos merecem o que eu vou lhes dar.

Me entregue sua alma, Jacob, e eu virei ao mundo e farei com que compreendam o que é de fato o sofrimento. Essa é a misericórdia que lhe ofereço. Aceite-a. O galpão estava em silêncio absoluto. Eu prefiro que Deus destrua o universo inteiro, Jacob disse, do que ficar do lado de qualquer um de vocês. O galpão ficou em silêncio pela última vez. Deus ponderou a proposta. Descobriu que gostou muito dela. E assim ele fez. Uma história do passado, parte 4.

Ao longo das eras na caçada, Lilith se mostrou a mais paciente dos três. Miguel era colérico e impetuoso, e suas destruições eram de vasta proporção. Ele varria profetas e impostores indistintamente em torrentes de guerra e no choque devastador entre impérios. Gabriel agia em silêncio, promovendo a lenta corrupção dos textos e desgastando a luz do ensinamento de cada profeta ao longo de gerações, até que nada restasse além de cerimônias esvaziadas de sua verdade.

Mas Lilith observava. Ela possuía uma atenção terrível e abrangente. Foi essa paciência que a levou, numa das últimas eras, a uma floresta. Ela sentira a magia antes mesmo de ver o lugar. Ela tocava seus sentidos como calor na palma da mão. Inconfundível e intencional, a assinatura da dádiva de Lúcifer voltada não para a fala ou o ensino, mas para a proteção. Ao chegar à orla do bosque, descobriu que não podia avançar mais. A floresta estava protegida, selada contra ela por um feitiço de tamanha perfeição silenciosa que ela permaneceu na fronteira por um longo tempo apenas para reconhecer a maestria de sua execução.

Ela encontrou o homem responsável sem grandes dificuldades. Entre os homens, ele se chamava George Callum, e a seu ver não era ele o próprio profeta, pois lhe faltava a plenitude da visão. Mas ele trazia a magia de Lúcifer no sangue e nas mãos, e havia vertido por inteiro, até a última gota, na criação daquele lugar. Elo observava da fronteira enquanto ele concluía sua obra, e só compreendeu o que presenciava quando tudo já estava terminado.

Ele havia se esgotado por completo. Então ela convocou seus irmãos. Miguel avançou com o seu poder e pressionou a fronteira, mas as árvores não se moveram. Gabriel se aproximou, exalando suas aflições sobre os seres vivos ali dentro, mas a floresta resistiu a ele. Os três anjos permaneceram juntos à beira da obra de George Callum. Isso jamais aconteceu antes. Lilith dispensou seus irmãos. Os métodos deles eram grandiosos demais para aquilo.

Ela esperaria. Ela era extremamente boa em esperar. Ela observou a floresta ao longo dos anos e, com o tempo, percebeu uma mulher ali, se movendo entre as árvores com a desenvoltura de quem conhecia aquele lugar durante a maior parte da vida, cuidando dele, falando com ele de alguma forma, atenta a ele. Lilith sentiu naquela mulher o calor tênue, porém inconfundível, do dom herdado.

?Voz A

Ingrid.

?Voz B

A magia havia passado para ela. Lilith tinha certeza que esse era o profeta que ela buscava. Ela se acomodou na longa paciência do caçador que localizou a sua presa e agora só precisa aguardar o momento certo. Ela esperou por 54 anos. Então os homens chegaram com seu maquinário, com intenções claras: a floresta seria arrasada. Ingrid sentiu aquilo como uma ferida e recorreu à magia, talvez sem compreender plenamente o que fazia.

Ela investiu contra os homens e seus propósitos com o poder que tivera adormecido dentro dela ao longo de todos aqueles anos de quietude. E com aquele impulso, a floresta se abriu. Foi algo pequeno, uma rachadura em um recipiente que havia resistido por muito tempo e com fidelidade, mas foi o suficiente. Lilith não hesitou. Ela atravessou a fronteira como a fumaça passa por uma fenda na pedra. Ela tava lá dentro. Ingrid estava diante dela.

O que Lilith fez naquela floresta, ela fez com o rigor minucioso que sempre distinguira o seu trabalho. Ela torturou Ingrid com pura crueldade. Forçou-a a assistir enquanto seu filho mais novo tirava a vida do mais velho, antes que ele também fosse consumido pelo poder de Lilith. Ela infligiu à mente de Ingrid milhares de anos de agonia. Contudo, Lilith não estava satisfeita, pois a magia não havia morrido com Ingrid. E ela ainda conseguia senti-la, agora dispersa, diluída pelos ramos remanescentes da linhagem de George Callum, como água espalhada sobre solo seco.

Ela o seguiu até o fim. Encontrou um neto adormecido e ao redor dele ergueu uma prisão de pedra, uma caixa de concreto e silêncio, selada sem emendas nem portas, e o deixou ali na escuridão para que se exaurisse contra as paredes. E a escuridão o tomou. Ela penetrou em um neto, adentrando os corredores da memória, e ali operou sua transformação com extrema delicadeza. Suavizou e apagou as coisas verdadeiras, preenchendo os espaços vazios com medo.

Um medo sem nome nem objeto, informe e absoluto. Até que a mente daquela mulher se tornasse um recinto sem porta, sem luz e sem chão, e ela caísse através dele, sem fim. Ela manipulou o terceiro e último neto pra cometer atos de violência contra seus próprios entes queridos. Ela guiou a mão dele contra sua amiga mais querida e depois contra si mesmo. E assim foi feito. Lilith se afastou do trabalho e examinou o resultado. Ela acreditava que a linhagem de George Callum havia chegado ao fim, e a magia com ela.

Ela desconhecia a profecia, até que a distração de Lucifer veio à tona. 13 de outubro de 1972. O Hannigan's Bar não era um lugar que exigisse nada de seus frequentadores. Exceto que pagassem pelo que consumissem e não incomodassem as pessoas ao lado. Motivo pelo qual Ingrid Callum o havia escolhido. Ela não buscava conforto. Ela não queria que ninguém soubesse seu nome ou perguntasse como ela tava lidando com a situação. Queria se sentar em um ambiente de meia-luz, com uma taça de vinho e vivenciar seu luto da maneira que precisava ser vivenciado.

Abertamente, sem pedir desculpas. Sem ter de explicá-lo a ninguém. Ela já tava com a mesma taça na mão há uma hora quando o homem se sentou ao seu lado. Ela não levantou a cabeça de imediato. O banco se moveu, o balcão cedeu levemente sob o novo peso, e ela manteve o olhar fixo no copo e no pequeno círculo escuro que ele deixara sobre o balcão, enquanto pensava nos olhos de George. Era nisso que ela pensava antes da interrupção.

George tinha olhos lindos. Então, algo a fez levantar o olhar. Ele tava na casa dos 50 e poucos anos, com ombros largos, Aquela largura típica de homens que passaram a vida ao ar livre. Marcas profundas ao redor dos olhos e fios grisalhos entremeados nos cabelos, com o aspecto de quem já os ostentava há muito tempo. Ele se parecia com o Jorge. Não o Jorge de uma semana atrás, nem o Jorge de 31 anos, com as linhas de expressão começando a aparecer.

Um Jorge quase 30 anos mais velho. O Jorge que ele teria sido se a floresta não o tivesse levado, Se a magia não tivesse exigido o que exigiu. E ainda mais do que isso. Ainda mais do que George. Ela observou o maxilar, os olhos, a maneira peculiar como ele mantinha os ombros. Sentiu o chão sob seus pés vacilar, como se a base de sua compreensão estivesse mudando. Seu filho mais novo tinha 5 anos. A semelhança com aquele homem era impressionante.—

?Voz A

Harry?—

?Voz B

ela perguntou. O homem assentiu. Ingrid Callum o abraçou e o apertou com força. Sentiu os braços dele envolverem-na e retribuírem o abraço. Ela chorou até que o choro cessou. O plano do papai funcionou, disse Harry em voz baixa, logo acima da cabeça dela. Ela se afastou e olhou para o rosto dele, a versão antiga, a versão que havia passado por coisas que ela ainda não tinha visto, e esperou. Funcionou, ele disse de novo. Tudo.

A maneira como ele preparou tudo. A forma como a floresta se mantém. Tudo que ele planejou funcionou. Ela enxugou o rosto com as costas da mão. Eu voltei para te contar mais uma coisa também. Ele olhou fixamente para ela. Daqui a 54 anos, mãe, você terá de me sacrificar para manter o ciclo em movimento. Você saberá quando chegar a hora e saberá que isso exige de você. Eu preciso que você saiba agora, hoje à noite, que tá tudo bem, que eu entendi, que eu escolhi isso e que você não precisa carregar esse peso como se tivessem feito isso comigo.

Ela pegou a mão dele e a segurou da mesma maneira que fazia quando ele era pequeno. Eu não posso ficar muito tempo, tenho assuntos pendentes na floresta, uma transformação que eu preciso concluir. Eu já vi o caminho, então já sei a estrada que eu devo percorrer. Henry olhou pras mãos dela e, em seguida, voltou a olhar pra ela. Enquanto o ciclo do tempo na floresta nunca se romper, ele disse, esses próximos 54 anos se repetirão pra sempre.

O fluxo entrelaçado do tempo continua a reproduzi-los. O fim do universo permanece onde deve estar: em lugar nenhum e em tempo nenhum. É a única opção da humanidade pra continuar existindo, mesmo que essa existência não passe de ecos de um passado. Bom, pessoal, esse foi o fim da creepypasta. Quero muito saber o que que vocês acharam. Comentem aí e até a próxima!