Episódios de Assustador, Bizarro e Misterioso

Creepypasta: Ubloo (pt 4)

04 de agosto de 202644min
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Narração e tradução completa da creepypasta Ubloo, disponível em https://www.creepypasta.com/ubloo/

Assuntos6
  • Impacto familiar e trauma· SociedadeDanny · Afogamento · Reanimação · Mary
  • Lidar com a insónia· SaudeUbloo · Monstro do sono · Monaya Guthrie · Acordar a vítima
  • Prisões e Tortura· SociedadeUbloo (Creepypasta) · Interrogatório com lavadora de alta pressão · Dani Olmo · Jeff
  • O Diário de Thomas AbianThomas Abian · Eli Jacobs · Tradução de texto antigo · Feiticeiro antigo e espírito vingativo
  • Pesquisa Policial sobre Thomas AbianThomas Abian · Diário de Anthony com confissão · Investigação policial · Autópsia
  • Reviravolta na investigaçãoMonaya Guthrie · Ubloo · Diário de Anthony com confissão
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Bem-vindos a mais um episódio de Creepypasta! Hoje, finalmente, a gente vai continuar a Creepypasta do Uhuu. E eu tô muito checada com o quanto vocês gostaram dessa Creepypasta. Teve gente me mandando email com a continuação, teve gente comentando no vídeo do canal pra eu continuar, perguntando se eu vou continuar ou não vou. Então, finalmente, consegui trazer aqui pra vocês. Pra vocês terem noção, essa aqui é a parte 5. Ainda tem a parte 6 e a parte 7.

Então vamos ver o quanto a gente consegue avançar nesse episódio. Mas caso a gente não consiga terminar aqui, no próximo episódio com certeza vai ser o final dela. Então, pra quem ainda não ouviu as outras partes É só voltar alguns episódios, que tá tudo marcadinho de parte 1, parte 2, parte 3. E ouçam tudo antes de vocês chegarem aqui, senão vocês não vão entender nada. Então, sem mais enrolação, bora continuar a creepypasta.

Minha franja grudava na pequena faixa de testa acima da venda, formando mechas emaranhadas. Principalmente por causa do suor, mas também pela sujeira e pela imundície de viver nesse buraco de merda imundo durante o último mês e meio. Levantei o quadril, saindo da posição de joelhos pra evitar câimbra nas coxas, e balancei levemente de um lado pro outro, sentindo uma tontura pelo movimento brusco e pela súbita onda de sangue. Se não nos derem comida antes de nos movermos de novo, eu acho que eu não vou sobreviver à viagem.

Meus joelhos deram um estalo quando eu me sentei de novo. Através da porta de madeira rachada, eu consegui ouvir os gritos em meio às batidas rítmicas. O que era hoje? Cabo de vassoura? Um taco de críquete? Seja o que fosse, o som indicava algo relativamente leve. Sempre achei estranho como objetos mais leves tendiam a doer mais quando você era atingido por eles. Os sons das pancadas cessaram e eu ouvi algumas palavras sussurradas com raiva.

Ouvi um farfalhar, um rangido e então o som de pés sendo arrastados. A porta se abriu de um só golpe, com um estrondo, e eu ouvi o baque surdo no meio do recinto, onde haviam jogado o Mitch. Os guardas trocaram algumas palavras em árabe e em seguida eu senti arrancarem a venda dos meus olhos. A luz do mundo, apesar de estarmos naquela cabana de barro imunda, ofuscou a minha visão. Eles me puseram de pé à força enquanto o ambiente ganhava nitidez.

Aquele não era um rosto a que eu tivesse acostumado. Era alguém novo. Ele tava parado à minha frente, vestindo roupas limpas e com a barba bem aparada e cuidada. Mantivemos o contato visual por um momento. E então ele sorriu, revelando a falta de alguns dentes. Vamos guardar o melhor pra você, disse ele, com um forte sotaque árabe. Dito isso, me arrastaram pro outro cômodo. E eu ouvi a porta bater atrás de mim. Me jogaram no chão, bem no meio da sala.

Eu virei de lado e olhei ao redor. O intérprete me observava do canto, com um ar de frustração. Os dois que me trouxeram e o sujeito novo estavam parados perto da porta, apenas me encarando. O sujeito novo disse algumas palavras em árabe que eu já conhecia muito bem. Eles se aproximaram, colocaram as mãos sobre as minhas axilas e me levantaram até a cadeira. O primeiro se posicionou atrás dela, pra firmá-la. Enquanto o segundo manobrava lentamente pra ficar à minha frente.

Uma dança que eu conhecia muito bem. Olhei pro seu rosto sem nunca desviar o olhar. Ele parecia especialmente zangado hoje. O novato gritou uma palavra rápida em árabe que poderia muito bem ter soado como um sino em um ringue de boxe. E o cara furioso partiu pra cima dele. Ele me deu dois socos fortes bem no estômago que me tiraram o fôlego e me fizeram curvar. Como os americanos planejam tomar a cidade? Quando eles vão atacar?, perguntou o tradutor.

Respondi com um silêncio solene. O lado esquerdo da minha cabeça explodiu quando eu levei um tapa forte com a carne da palma da mão aberta na minha orelha. O zumbido veio imediatamente. De quais esconderijos eles sabem? Onde acham que estamos escondidos? Silêncio de novo. E então, um golpe violento na minha caixa torácica, seguido por um outro soco rápido na têmpora que reduziu a minha visão a um túnel estreito. Isso continuou por alguns minutos.

O interrogatório incessante e repetitivo, a surra, a respiração ofegante e a luta pra permanecer consciente. Mesmo assim, de alguma forma, eu ainda me preocupava com o cara novo. Quando o sujeito furioso ficou sem fôlego, eu ouvi algumas palavras em árabe vindas de um canto da sala. Minha cabeça pendia sobre o peito, latejando descontroladamente. Eu ouvi a porta se abrir. Ótimo, tinha acabado. Mas então eu ouvi passos atrás da minha cadeira, enquanto aquele que me segurava caminhava pro outro cômodo.

Sem ele pra me sustentar, eu desabei no chão, ofegante. Abri os olhos bem a tempo de vê-los arrastando o Dani pra dentro. Desamarraram suas mãos e o empurraram pra uma poltrona onde o tradutor costumava se sentar. Em seguida, prenderam suas mãos aos braços da poltrona e seus tornozelos às pernas do móvel. Quando terminaram, saíram em direção à sala de estar e desapareceram de vista. Eu olhei para Dani, que observava o ambiente e todos os presentes, antes de voltar o olhar para mim.

Durante todo esse tempo, o sujeito novo permaneceu em silêncio, encostado na parede, torcendo a ponta da barba. Ouvi passos retornando da sala de estar, acompanhados pelo tilintar de vidro. Primeiro veio o sujeito que costumava segurar minha cadeira. Ele colocou uma mesinha do meu lado e em seguida veio o homem que me batia, trazendo uma garrafa grande de água, tão gelada que já começava a suar, e um prato com pão e carne de cordeiro.

A carne também tava fria, mas eu já senti o cheiro dela chegar até onde eu tava no chão, indefeso. Depois, os dois homens caminharam até um armário e abriram a porta. Eu ouvi eles arrastando algo pra fora, mas eu não conseguia ver o que era da posição em que eu tava. Ouvi os movimentos e eles mexendo naquilo, seguidos por mais movimentos que eu não conseguia enxergar, pelo som de algo pesado sendo deixado cair no chão. Por fim, eles vieram até onde eu tava e me levantaram de volta pra cadeira.

Levantei a cabeça do ombro e forcei os olhos a se abrirem. Lá tava Denny, olhando diretamente pra mim. O olhar dele então desceu pra mesa do meu lado, assim como o meu. A jarra de água e o prato com pão e carne estavam tão próximos que eu quase conseguia sentir o gosto. Eu sabia que ele também conseguia. E então, pelo canto do olho, eu vi o que os dois guardas estiveram montando durante todo aquele tempo. Encostado na parede da sala tinha um gerador.

Um cabo saía dele em direção a uma máquina preta grande, que tinha uma mangueira longa e algo parecido com uma lança de lavagem acoplado à extremidade. Fiquei olhando praquilo, intrigado. Então, um dos guardas caminhou até o gerador e puxou a corda da partida. O motor ganhou vida. Engasgando e soltando engasgos enquanto queimava as primeiras gotas de combustível. Eu vi a mangueira saindo da máquina preta e indo pra fora da sala.

E horrorizado, a ficha caiu. Era uma lavadora de alta pressão. O sujeito novo se aproximou lentamente e pegou a extremidade preta da mangueira, de onde saía o jato de água. Ele a trouxe consigo enquanto se abaixava pra olhar diretamente nos meus olhos. Ele disse algo em árabe que eu não consegui entender, com um sorriso de escárnio. Olhei preocupado pro tradutor, que também parecia assustado. Ele diz: Ou você bebe, ou ele bebe.

O homem novo caminhou lentamente de volta pra onde Dene tava sentado, se virou e olhou pra mim com aquele mesmo sorriso, posicionou a ponta da lavadora de alta pressão a poucos centímetros da panturrilha exposta de Dene e apertou o gatilho. O cheiro de água morna e uma explosão de gritos preencheram o ambiente. Eu fiquei sentado, observando horrorizado enquanto a força violenta da água arrancava a carne da perna dele aos poucos.

Uma poça de lama e sangue se acumulava sob o pé dele e respingava na outra perna. Após uns 5 segundos, a água parou e os gritos de Dillian ecoaram pelas paredes sem qualquer impedimento, penetrando nos meus ossos. O novato acenou para os guardas, que se abaixaram atrás de mim e cortaram as amarras dos meus pulsos. Levei as mãos à frente do corpo e esfreguei onde as cordas haviam cortado a minha pele, deixando-a exposta. O novato me encarou com um sorriso cheio de dentes.

Ele disse só uma palavra. O tradutor se virou para mim. Ele disse: beba. Olhei para a água e depois para ele. Ele sorriu. Lentamente estendi a mão em direção à água. Ele então gritou algo em árabe que me assustou e fez a minha mão recuar. Ele disse que a cada gole você deve responder a uma das minhas perguntas. Olhei para o tradutor, que agora também sorria. Agora eu entendi o jogo. E se eu beber e não responder? Eu perguntei.

Houve uma rápida troca de palavras em árabe e em seguida uma resposta imediata. Então ele também responde, disse o tradutor, acenando com a cabeça pra Dani, cujo grito havia se transformado em gemidos, a cabeça baixa, olhando pro que restava da sua perna. Meu estômago revirou e eu senti o meu peito se apertar como uma cobra se enrolando. Voltei a olhar pro homem que segurava a lavadora de alta pressão, implorando com o olhar pra que não me obrigasse a fazer aquilo.

Ele retribuiu o sorriso, mas a expressão logo se transformou em uma carranca furiosa. Ele posicionou a ponta do equipamento contra uma das mãos de Dani, que tava amarrada, e apertou o gatilho. O ambiente foi imediatamente tomado, mais uma vez, pela umidade, pelos gritos e pelo cheiro de ferimentos recentes. Tentei me levantar, mas os dois guardas atrás de mim me empurraram de volta pra baixo e me seguraram pelos ombros. Dani sacudiu o tronco violentamente, tentando se afastar da dor.

Seu dedo se contraía como as patas de uma aranha ferida. Depois do que pareceu uma eternidade, a água parou e eu vi o que restava da mão dele. Uma massa de carne dilacerada e ossos brancos e pálidos. Denny chorava agora, com o corpo inerte. Cala a boca! O homem gritou comigo. Eu comecei a chorar também. Denny, eles vão matar você! Eu solucei. Ele ofegava e soluçava, mas não conseguia articular nenhuma palavra. Ficamos ali sentados no quarto, chorando, a poucos metros de distância, mas em mundos completamente diferentes.

Eu não consigo. Eu não posso ficar aqui parado enquanto eles matam você. O sujeito novo tava sorrindo de novo. Ele se abaixava lentamente pra ficar na altura dos nossos olhos, saboreando tudo aquilo. Fizemos um acordo, Jeff, ele disse entre soluços. Sabíamos que chegaria a esse ponto. Não estávamos com medo. Nós não sabemos por que eles, por que aquela casa. Mas agora eu tô com medo, Dani. Eu respondi entre soluços ao compreender o que ele dizia.

Eu não consigo fazer isso. Não consigo. Dani ergueu a cabeça o suficiente para olhar nos meus olhos por uma fração de segundo. Faça. Fechei os olhos com força enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu soluçava incontrolavelmente. Levantei o braço esquerdo e golpeei a superfície da mesa com as costas da mão, arremessando o prato de comida e a garrafa de vidro contra a parede do chão onde se estilhaçaram. Ficamos ali sentados soluçando.

Havia gritos em árabe, mas eu não conseguia ouvi-los. Levantei o olhar e lancei um último olhar para o meu melhor amigo enquanto um dos guardas tirava um facão reluzente do cinto. Eu não sei dizer qual deles lhe entregou a arma. Eu não me importava. Ele levantou a lavadora de alta pressão do chão com raiva e, ao invés dela, empunhou o facão com as duas mãos. Continuou apontando para mim e gritando em árabe, mas eu não tava ouvindo.

Eu tava preocupado demais, absorvendo cada detalhe que me restava com o meu amigo. Um dos guardas se aproximou e agarrou o Dani pelos cabelos, puxando a sua cabeça pra baixo até deixá-lo curvado. Aquele homem não sorria mais, tava furioso. Gritava comigo em árabe e agitava o facão pra cima e pra baixo como um louco. Ele se posicionou do lado de Dani pra garantir um golpe certeiro, se virou, me olhou nos olhos e gritou de novo, erguendo o facão acima da cabeça.

Não, por favor, pare! Eu gritei naquele quarto infernal e mal iluminado. O facão desceu veloz, num brilho intenso de metal e reflexos. Atingiu a nuca de Dani. E então, tudo explodiu de uma só vez. Uhuu! Eu me senti gritando antes mesmo de acordar. Enquanto a realidade voltava a se materializar, eu senti o meu peito vibrar e tremer enquanto eu me debatia, impulsionando o corpo pra cima até ficar sentado. Meu grito deu lugar ao zumbido monótono do ar-condicionado, enquanto eu permanecia ali, aspirando o ar frio e escuro.

Eu tava suado e ofegante. Um arrepio percorreu a minha espinha à medida que o ar abafado do pesadelo era substituído pela realidade fresca e seca. A luz do outro lado do quarto acendeu com um estalo. E as formas na escuridão se tornaram reconhecíveis. Você tá bem? Disse Mary, de forma tímida. Você tava se debatendo. É, é, eu tô bem, eu consegui dizer entre uma respiração e outra. Só um pesadelo. Houve um longo silêncio entre nós enquanto eu tentava recuperar o fôlego.

A caixa? Ela perguntou, assustada. Eu me deixei cair pra trás sobre o travesseiro e coloquei os braços acima da cabeça. A caixa, eu respondi. Ela se deitou de novo e se aconchegou em mim, apoiando a cabeça no meu peito. Desci um dos meus braços suados e a abracei, coçando a nuca dela. Ela começou a chorar baixinho. Calma, calma, eu tô bem, eu tô aqui, assegurei a ela, levantando a cabeça para olhá-la nos olhos. Foi só um pesadelo.

Ficamos ali deitados em silêncio por um breve momento. Ela tava parando de chorar enquanto eu repassava o sonho na cabeça. O que foi que ele disse bem na hora em que tudo acabou? Ubla? Ublu? Eu havia aprendido um pouco de árabe, mas não me lembrava de jamais ter ouvido aquilo. Afastei o pensamento. Naquele instante, a porta rangeu nas dobradiças ao ser empurrada gentilmente, abrindo-se apenas uma fresta. Minha esposa se virou de volta pro travesseiro enquanto eu me sentava e colocava os pés no chão.

Me levantei e caminhei lentamente até a porta, onde eu me agachei. Desculpa, amigão. Acordei você? Ele assentiu pra mim no corredor, com metade do rosto enterrado no cachorro de pelúcia, um labrador preto, ao qual ele quase certamente já tava grande demais pra continuar tão apegado. Desculpa te acordar, amigão. Papai só teve um pesadelo, é só isso. Ele assentiu de novo e baixou o olhar para o chão, preocupado e sem jeito. Eu suspirei.

Que tal você vir aqui me fazer companhia? Eu não quero que a mamãe saiba que eu fiquei com medo. Eu não sou corajoso como você, eu disse pela fresta da porta. Os olhos dele brilharam. Claro, papai. Abri a porta e ele entrou devagar e sonolento. Fechei a porta atrás dele. Peguei-o no colo e o levei pra cama, onde o deitei entre eu e Mary. Ela sorriu pra mim enquanto eu lhe entregava um travesseiro e me virava pra apagar a luz. No escuro, o meu filho se virou e colocou a mão sobre a minha.

Eu te amo, papai, ele disse, sonhador, através da pelúcia do seu bichinho de pelúcia. Eu sorri. Eu também te amo, Danny. Telefones tocavam enquanto as pessoas circulavam pela delegacia, ainda meio sonolentas. Eu dei o primeiro gole no café preto e fiz careta ao sentir o gosto de líquido velho e queimado. Ei, Bill, belo trabalho com o café hoje, cara, eu disse em tom de sarcasmo ao passar pela mesa dele. Valeu, Jeff, ele respondeu animado, sem entender o que eu queria dizer.

Joguei a pasta sobre a mesa e mexi no mouse até a tela do computador voltar à vida. Lá, me encarando de volta, tava o rosto de Thomas Abian. Eu dei um gole longo no café e revisei o arquivo mais uma vez. Morador de Stoneham, Massachusetts. Psiquiatra em exercício e, se o que a recepcionista me disse for verdade, um psiquiatra caríssimo pra completar. Um dia ele simplesmente larga tudo, desaparece do mapa e vai parar em Talson, Louisiana, com o carro abarrotado de tralha, comprimidos e garrafas de bebida vazias, e uma arma na boca dentro da casa mal-assombrada da cidade.

Balanceia a cabeça. O noticiário local vai fazer a festa com isso. As vans já estão começando a rondar o local como abutres. Ainda bem que conseguimos tirar o corpo de lá antes que qualquer um deles chegasse. Ei, Jeff! Eu ouvi isso logo antes da pasta bater na mesa do meu lado. Levantei o olhar e vi o Reg, o nosso chefe. O laudo da autópsia do seu corpo chegou. Ótimo, valeu, chefe! Eu disse enquanto ele se afastava, bebendo seu café.

Eu gostava do Reg. Ele era um sujeito prático, um veterano militar como eu. Embora, é claro, ele fosse bem mais velho. Abri o laudo da autópsia e comecei a analisar as informações. Morte por ferimento de bala fatal. Isso era óbvio. O ângulo indicava um disparo auto-infligido. Não havia suspeita de crime. O relatório continuava. E então um detalhe me chamou a atenção. O cadáver apresentava sinais de colapso cardiovascular agudo associado à privação extrema de sono, além de lesão hepática aguda intermitente.

Sugerindo abuso repentino de álcool. Aquilo era curioso. A falta de sono dava pra explicar por causa do remédio. Caramba, o cara tinha entre 10 a 15 garrafas vazias só no carro. E quanto à bebida, eu já imaginava, já que parecia que ele tinha bebido o estoque inteiro de uma destilaria de gin no caminho até aqui. Mas repentino? Me recostei na cadeira e esfreguei a barba por fazer no queixo. Por que um médico rico e bem-sucedido largaria tudo de repente se entregaria a bebida e aos comprimidos e fugiria para a Louisiana.

Simplesmente não fazia sentido. Continuei esfregando o queixo e então me inclinei em direção ao telefone da mesa. Abri o Google e pesquisei hotéis na região, começando pelos mais próximos da antiga escola e expandindo a busca para mais longe. No quarto hotel, localizado nos arredores de Towson, eu encontrei o que procurava. O trajeto de carro foi curto e agradável. Como era relativamente cedo, não tinha trânsito e eu consegui ouvir o final do programa de esportes no rádio que eu costumava acompanhar durante as patrulhas.

Estacionei o carro bem em frente ao saguão do hotel e entrei. Uma das vantagens de ser policial é nunca precisar caminhar muito pelos estacionamentos. O saguão do hotel me recebeu com uma lufada de ar-condicionado gelado. Me aproximei da recepcionista discreta que estava acompanhando um casal de idosos até seus quartos com um mensageiro. Quando ela me viu chegando, ela sorriu e seus olhos brilharam em um tom de azul intenso. Olá, senhora, eu comecei.

Eu sou o policial Jeff Danvers, da Polícia de Towson. Acredito que conversamos por telefone? Sim, policial, ela respondeu com outro sorriso sedutor. A gente tava te esperando. Ela digitou freneticamente no teclado por alguns segundos e então pegou um cartão-chave da gaveta ao lado, olhou pra tela e digitou os números do verso do cartão no computador. Aqui está, ela disse, deslizando o cartão pela mesa do hotel. Quarto 359, na esquina do prédio.

Retribuí o sorriso e peguei o cartão. Comecei a me virar, mas parei. 359 é um quarto de esquina? Eu perguntei. Bem, sim, senhor policial. Fiquei parado, pensando por alguns segundos. O quarto bem na escada de incêndio, certo? Ela ficou um pouco surpresa, como qualquer um ficaria. Sim, é isso mesmo. Que interessante. Enquanto eu me afastava, eu ouvi ela falando atrás de mim. Policial! Ela gritou. Eu me virei e a vi me encarando.

É verdade que ele... Ela levou o dedo à garganta e fez um gesto de corte. Minha mente foi invadida por imagens nebulosas de facões. Isso é confidencial, querida, eu disse no tom mais calmo que eu consegui e entrei no elevador aberto. Houve um sinal sonoro quando as portas se abriram. Um tapete vermelho estampado, combinando com o do saguão, revestiu o chão do corredor. Havia duas placas bem em frente ao elevador aberto: 301/325, e uma seta apontando para a esquerda. 325/360, e uma seta apontando para a direita.

Coloquei a cabeça para fora e olhei para os dois lados. Não tinha ninguém por perto. Comecei a longa caminhada pelo corredor em direção à sala 359. Corredores me davam arrepios. É um fato que eu não consigo mais negar. Eu não sei se isso vem de ter assistido Iluminado com a minha mãe nas férias de inverno quando eu era criança. Mas se eu tivesse que apostar, eu diria que aquilo foi decisivo. Acho que acima de tudo é a sensação de que só existe uma direção a seguir se você estiver sendo perseguido em um deles.

Uma única escolha, nenhuma outra opção. Quando eu me dei conta, eu já tava diante do quarto 359. Respirei fundo, inseri o cartão na fechadura eletrônica. Vi a luz verde acender e empurrei a porta pra abrir. O cheiro de gin velho era imediato e avassalador. As cortinas estavam fechadas, embora a cama parecesse perfeitamente arrumada. Acendi a luz e vi que o quarto estava repleto de garrafas de gin vazias. Entre elas havia algumas caixas com documentos.

Seriam casos que ele levava consigo nas viagens? Dando de ombros, caminhei pelo quarto enquanto calçava um par de luvas de borracha brancas. Tirando as garrafas, o lugar tava relativamente bem conservado. Havia uma pequena pilha de roupas limpas e bem dobradas perto da janela, além de um jogo de chaves reserva e um par de sapatos novos. Abri as persianas e vi que davam direto pra escada de incêndio. Minhas suspeitas se confirmaram.

Alguém tava atrás daquele sujeito. Ele tinha planejado sua rota de fuga com antecedência e teve a presença de espírito de deixá-la ali ao sair, pro caso de esquecer de prepará-la de novo quando voltasse. É preciso admirar a tamanha preparação. Imagino que ele tenha feito por merecer cada centavo do seu salário com essa cabeça que ele tinha. Abri a cômoda e vi que tava vazia. Os cabides no armário estavam desocupados e não tinha nada no carpete, a não ser garrafas de gin vazias e um frasco de comprimidos vazio.

Caminhei até a escrivaninha e comecei a abrir as gavetas. A primeira tava vazia. Senti algo rolar quando eu puxei a segunda e eu vi que tava cheia de balas soltas e comprimidos. Peguei uma das balas e a examinei. Magnum .357, compatível com a arma utilizada. Coloquei a bala de volta no lugar e abri a gaveta de cima. O conteúdo dela fez os meus olhos se arregalarem. Lenta e cuidadosamente, tirei o caderno da gaveta. Segurei-o nas mãos e o examinei por alguns segundos, só pra ter certeza de que era real.

Era um caderno azul de espiral, com algo rabiscado às pressas na capa. Ouvi o assoalho ranger do lado de fora do cômodo. Me virei bruscamente e vi algo parado na porta. Ao sair do transe em que eu tava, eu percebi que era um homem. Ele vestia calças sociais marrons e sapatos marrons engraxados. Usava suspensórios sobre uma camisa branca de botões que combinava com o seu cabelo e seu cavanhaque. Vi os óculos apoiados na metade do nariz, sobre a pele de tom marrom escuro, e notei que se tratava de um homem negro bem mais velho, com pés de galinhas profundos.

Ficamos ali parados. Encarando um ao outro. Então ele abaixou o olhar pro que segurava e eu fiz o mesmo. Na capa do caderno que eu tinha nas mãos, lia-se: O Diário de Thomas Abian. Ao longo do meu tempo na polícia, eu escoltei vários criminosos, desde autores de pequenos furtos e bêbados até um suspeito de tentativa de homicídio. O que eu aprendi é que existem, na verdade, apenas dois tipos de pessoas: aquelas que ficam quietas no banco de trás da viatura e aquelas que fazem barulho.

Se você faz barulho no banco de trás da viatura, é praticamente o mesmo que assinar uma confissão. Temos um ditado da corporação: só cachorro culpado late. E isso é mais verdadeiro do que se imagina. Mas aqueles que ficam quietos são uma história completamente diferente. Na maioria das vezes são inocentes, mas às vezes, apenas às vezes, são as pessoas mais perigosas de todas. Lancei um olhar furtivo pelo retrovisor e vi o idoso sentado ali, com as mãos cruzadas sobre o colo, Observando as casas pela janela lateral enquanto seguíamos pra delegacia.

Ele havia vindo pacificamente, quase de bom grado. Não que eu esperasse resistência. Mas eu não conseguia me livrar da sensação de que havia algo estranho naquela primeira interação. Depois daquele silêncio inicial e desconfortável entre nós, ele perguntou se eu era a pessoa encarregada de investigar a morte daquele sujeito, o Abian. Confirmei que sim e perguntei se ele conhecia o homem. Ele disse que só o havia encontrado brevemente, mas que mantinham contato desde então.

Depois disso, eu perguntei se ele gostaria de ir à delegacia para responder algumas perguntas. Ele concordou e aqui estamos nós. Mas o jeito como ele olhou para aquele diário e como seus olhos se arregalaram ao ver a minha placa de identificação— Balancei a cabeça. Eu sei que eu devo estar imaginando coisas. Talvez seja por causa da noite de sono horrível que eu tive, mas eu senti que os meus instintos não estavam tão afiados quanto de costume.

Por fim, chegamos à delegacia. Levei-o além da recepção, passando pelas baías que exalavam um leve cheiro de café queimado do Bill, até uma sala de interrogatório onde a gente poderia conversar conversar em particular. Se você pudesse se sentar aqui. Eu puxei uma cadeira para ele de um lado da mesa enquanto me movia para o outro. Muito obrigado, senhor, ele disse enquanto se sentava, soltando um pequeno suspiro ao se acomodar nos últimos centímetros da cadeira.

Ele deve ser mais velho do que aparenta. Me sentei do outro lado da mesa e coloquei o diário à minha direita. Peguei uma caneta e o meu bloco de notas e abri uma página em branco. Certo, vamos começar com seu nome e algo para confirmá-lo, é claro. Carteira de motorista, se tiver uma. Claro, ele disse enquanto levava a mão ao bolso de trás para pegar a carteira. Meu nome é Eli Jacobs. Ele tirou a carteira de motorista e a deslizou pela mesa até mim.

Comecei a copiar as informações no meu bloco de notas. Ótimo, obrigado. E esse é o seu endereço atual? Sim, senhor, sim, é. Olhei para ele enquanto anotava o endereço. Mississippi? Você tá bem longe de casa, parceiro. Sim, senhor, eu tenho uma casinha de campo bem legal lá. Eu tô aposentado agora, mas eu era professor de história africana. Depois de todos aqueles invernos longos e frios e verões barulhentos na cidade, eu decidi que eu queria estar em um lugar quente e tranquilo.

Bom, foi no Mississippi que eu escolhi. Então, eu disse, batendo a ponta da caneta no bloco de papel e deslizando a carteira de habilitação de volta pra ele, não dá pra ficar batendo papo assim pra sempre, né? Não dá mesmo. Ele disse, se ajeitando pra guardar a carteira, sem demonstrar nenhuma emoção no rosto. Eu senti um arrepio subir pela minha nuca. Vamos começar do começo. Como você conheceu o Thomas Abian? O velho tirou o chapéu e o colocou sobre a mesa, passando a mão pelo cavanhaque branco.

Em seguida, ajeitou os óculos na ponta do nariz, cruzou as mãos sobre a mesa e se inclinou pra frente. Eu fiz o mesmo. Um dia, eu recebi um email completamente do nada. Era de um cara que disse ter um livro antigo. Escrito em uma língua quase morta, que precisava ser traduzido. Bom, como eu sou sempre curiosa, eu respondi e pedi que ele me enviasse uma amostra do texto. Você conseguiu traduzi-lo? Eu perguntei. Olha, foi o dia de sorte dele, porque eu sou talvez uma das 4 ou 5 pessoas que eu conheço que ainda conseguem fazer isso.

Veja bem, a escrita africana antiga era próxima dos hieróglifos. Não exatamente igual, mas semelhante. Usava uma combinação de símbolos pra substantivos, mas escrevia palavras por extenso pra diálogos e praticamente todo o resto. Pra um olhar destreinado, é quase impossível distinguir o que é um substantivo de um caractere em uma palavra. E isso também torna a criação de um dicionário um grande incômodo que, francamente, 4 ou 5 pessoas, a segunda mais jovem das quais você tá falando agora, aliás, simplesmente não têm tempo nem recurso pra terminar.

Isso é impressionante. Finalmente eu respondi, depois da sua longa resposta. Aprendi espanhol no ensino médio, mas eu já esqueci quase tudo. Aprendi um pouco de árabe enquanto tava no exterior. Mas até isso tá começando a enferrujar. Tempo e prática, essa é a chave pra fluência, ele disse. Na primeira, você claramente leva vantagem. Dei uma risada e me recostei, batendo a caneta de novo. Então, vamos avançar na história. Esse tal de Abian, você disse a ele que conseguia traduzir o material.

E depois? Ele continuou me contando como o Abian tava dirigindo de Massachusetts pra Towson e podia fazer uma parada no Mississippi. Disse que o sujeito tava com uma aparência deplorável quando finalmente chegou à casa dele. Contou que o livro que Aben trouxera era incrivelmente antigo e valioso, mas ele não quis dar detalhes sobre como tinha conseguido. Pelo visto, queria apenas que uma pequena parte do texto fosse traduzida.

Assim que o trabalho terminou, ele foi embora abruptamente, deixando o livro com Eli. Então eu fiz a pergunta óbvia: o que dizia o texto? A parte que ele queria traduzir. Eli olhou pra mim e soltou um suspiro profundo enquanto se recostava na cadeira. Ele segurou o chapéu que tava sobre a mesa e o girou suavemente na superfície lisa de alumínio. Antes de te contar isso, eu preciso que você me prometa que não vai usar o que eu disser contra mim.

Eu ergui as sobrancelhas. Bom, isso é difícil de dizer, eu respondi. Eu não posso prometer que eu não vou guardar rancor. Mas, por outro lado, não estávamos gravando essa conversinha. Ele esboçou um sorriso discreto. Confia em mim, policial. Ninguém vai acreditar em você mesmo. Eu detesto a expressão meu sangue gelou, mas caramba, é a única maneira de descrever como eu me senti depois do que ele disse. Recuperei a compostura e larguei a caneta.

Desembucha, eu disse. Thomas Abian queria saber sobre um feiticeiro muito antigo e muito poderoso. Um que viveu há milhares de anos, disse ele sem desviar o olhar, sem sequer piscar. Esse curandeiro realizou um ritual e invocou um espírito incrivelmente furioso e vingativo, que infectou os sonhos da vítima, a impede de dormir e eventualmente a leva a tirar a própria vida. Franzi um pouco a testa. E aí, acreditou em tudo isso? Ele me olhou diretamente nos olhos.

Sim. E você? Ele fez uma pausa, fechou os olhos e soltou um pequeno suspiro. Sim. Eu me recostei na cadeira. E deixa eu adivinhar, o motivo desse cara, o Waybion, tá com essa cara de acabado é porque ele não tá dormindo, porque tá sendo atacado por esse monstro do sono. Ele assentiu. Puts, eu disse, fechando meu bloco de notas. Podia estar lá na perícia examinando os pertences desse cara, mas aqui tô eu, perdendo meu tempo conversando com um lunático.

Eu me afastei da mesa e me levantei. Me virei e olhei o relógio na parede. 4:30. Perfeito. Não tem como eu conseguir vasculhar todas as coisas desse cara antes da hora de... Uhuu! Meus pensamentos pararam abruptamente. Me virei e vi ele ali, ainda sentado na cadeira. Com as mãos cruzadas sobre a mesa. O que você acabou de dizer? Ele empurrou os óculos de volta pro nariz. Foi você quem o encontrou, não foi? O primeiro? Aquele com quem eu falei no telefone?

Engoli em seco e assenti. Você já ouviu essa palavra antes, não é? Minha voz sumiu. A interrupção abrupta dos meus pensamentos girou na minha cabeça como um tornado. A caixa, Denny, os interrogadores, aquela palavra... Árabe, certo? O cara disse isso no meu sonho ontem à noite. Não conseguia lembrar o que significava. Finalmente eu consegui dizer. Mas como vou... Não era árabe, ele disse, se levantando. Africano. Koei, especificamente.

Ele caminhou lentamente ao redor da mesa até onde eu tava. Eu sabia que deveria pedir pra ele parar, mas eu tava paralisado de medo. É uma abreviação de Ubu alu, que é uma expressão comum naquela língua. Traduzindo aproximadamente, significa acorde. Balancei a cabeça. Você tá me zoando? Eu sinto muito que você tenha descoberto assim, policial. Dá um passo para trás, eu disse, apertando meu bloco de notas com mais força. O monstro pula de pessoa para pessoa, infectando quem encontrar o corpo da vítima anterior primeiro.

Eu tô te avisando, para! O paciente do Dr. Abian foi infectado e ele o encontrou morto no seu apartamento, que encontrou o pai pouco depois de sua morte, que encontrou um inquilino morto no apartamento da sua propriedade que não pagava o aluguel há alguns meses. Eu percebi que eu tava recuando. Meu calcanhar bateu na parede na sala de interrogatório. Você encontrou o Dr. Abian naquela casa antiga. A casa que ele veio investigar e da qual soube por uma das vítimas anteriores.

Você só ouviu essa palavra em seus sonhos. Não havia como eu saber que você entenderia. Eu sinto muito mesmo por isso, Jeff. Mas o monstro tá lhe dizendo pra acordar. Mas... Eu gaguejei, tentando processar tanta coisa de uma vez. Mas por que me falar para acordar? Desculpa, eu não sei, ele disse, desviando o olhar para o chão. Thomas tinha uma teoria. Veja bem, na África antiga, quem sofresse algum mal recebia alguém para acordá-lo caso começasse a se debater durante o sono.

Essas pessoas sacudiam a vítima e gritavam Uhuu para acordá-la, para que ela soubesse que tava apenas sonhando. Thomas acreditava que o espírito captava isso e ainda diz até hoje. Mas por quê? Se ele só tem poderes em nossos sonhos, por que nos acordar? Essa é a parte que ele nunca conseguiu entender. Eli suspirou. Houve uma longa pausa entre nós enquanto Eli assimilava tudo. E agora? Eu finalmente disse. Bom, eu trouxe esse livro comigo.

Se me permite, eu gostaria de me retirar e lê-lo mais algumas vezes. Talvez eu tenha perdido alguma coisa. Enquanto isso, você deveria dar uma olhada no diário de Aben. É provável que ele tenha feito anotações detalhadas sobre toda a aprovação e... Não, eu interrompi. Ele parou de falar abruptamente. Quer dizer, o que acontece comigo? Ele se abaixou e pegou o chapéu, colocou de volta na cabeça, ajeitou um pouco a aba e empurrou os óculos de volta para o nariz.

Tente não dormir. Já eram quase 8 horas da noite, ou talvez 9, e eu tinha perdido a noção do tempo, para ser sincero. A contragosto, eu deixei ele voltar para o hotel. Afinal, eu não tinha nada para cobrar dele e não podia mantê-lo aqui mesmo se quisesse. Trocamos números de telefone e ele disse que me ligaria se soubesse de alguma coisa e que eu deveria fazer o mesmo ou se tivesse alguma dúvida. As páginas do diário de Thomas estavam rígidas devido à tinta que nelas tinha impregnado.

Virei as páginas uma a uma com cuidado, lendo lentamente para garantir que absorvia tudo. O homem pode ter perdido o juízo no final, mas era meticuloso, isso eu tenho que admitir. Seu diário confirmava tudo que o Eli tinha me contado, porém com mais detalhes. Ele até registrava seus horários de sono, quanto tempo dormia e quanto tempo sentia que passava sonhando, tentando encontrar uma conexão entre ambos para ver se conseguia otimizar o tempo de sono e sonhar o mínimo possível.

Era tudo muito impressionante, mas parece que ele continuava tendo problemas com microsonos, momentos em que não percebia que tava dormindo até acordar. O Uplo aprendeu uma maneira de entrelaçar sonhos na minha vida de forma imperceptível para não despertar mais minhas minhas suspeitas. Ele entende que o meu medo é muito maior quando eu não percebo que adormeci. O remédio pode até me manter acordada por longos períodos, mas sem o SonoRem eu continuarei sofrendo microsonos.

Eu me sinto como um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Ou eu cedo e durmo, o que a essa altura provavelmente levaria mais de 24 horas, ou eu continuo insistindo, conseguindo dormir apenas o pouco que for seguro. Tudo Tão terrivelmente deprimente. Havia longos parágrafos de teorias que haviam sido riscadas. Anotações nas margens explicando por que ele as havia refutado. Finalmente, cheguei ao fim e senti um arrepio ao ler.

Cheguei à escola. 2:31 da manhã. Nenhum sinal de atividade do lado de fora. Provavelmente não terei mais do que meia hora pra procurar. Relatarei minhas descobertas mais tarde. Fechei o caderno, coloquei-o sobre a mesa e tomei um gole de café. Digerindo tudo. Jeff! Meu coração quase explodiu. Puta merda, Bill, eu quase derramei todo esse café na minha camisa. Você não deveria chegar de surpresa nas pessoas assim. Eu pensei que você sempre dissesse que eu era gordo demais pra ser sorrateiro, ele disse com um sorriso irônico.

Franzi a testa e olhei pra ele. Droga, ele tava certo. Me pegou dessa vez. As evidências contra o seu cara voltaram. Tão lá embaixo, no armário, se você quiser dar uma olhada. Meus olhos se arregalaram. Eu vou fazer isso agora mesmo. Quem tem as chaves? Bill me jogou as chaves e começou a caminhar lentamente, vitorioso, de volta para sua mesa. Levantei e praticamente corri para a sala de evidências. Me atrapalhei um pouco com as chaves, mas finalmente consegui abrir a porta.

A caixa de Eiben estava numa prateleira inferior. Me agachei, a peguei e a levei para a mesa. Havia uma bolsa de lona pesada, cheia de ferramentas para arrombamento, uma carteira, um frasco de comprimidos pela metade e o revólver ensanguentado. Comecei a examinar tudo, tentando encontrar algum sentido naquilo. Os comprimidos que ele usava pra ficar acordado, ele tinha escrito sobre eles em seu diário. As ferramentas de arrombamento serviram pra entrar na igreja.

Isso fazia sentido. O revólver devia ser pra proteção, embora não pareça ter lhe servido muito. Continuei revirando a bolsa até que a minha mão tocou em algo que parecia quebradiço. Parei, segurei o objeto com cuidado e o tirei de dentro da bolsa. Era um pedaço de papel dobrado e com aparência de ser muito antigo. Desdobrei o papel e li em voz alta. Perguntei como você dorme à noite. Agora eu tenho a minha resposta. Monaya Guthrie.

Minha cabeça começou a girar. Abian mencionou em seu diário que ele tinha lhe contado que o monstro tava parado. Longos períodos de tempo sem mortes registradas por causa dele. Mas de alguma forma ele sempre conseguia retornar, sem explicação. Eu li o bilhete mais uma vez. Monaya Guthrie. Eu disse, balançando a cabeça. Quem diabos é essa pessoa e por que a Abian tinha esse bilhete? Nesse instante, o meu telefone tocou. Tirei-o do bolso e vi a foto da minha esposa me encarando, a mesma que eu usava como identificador de chamadas.

Atendi. Oi, amor, tudo bem? Jeff! Jeff, você precisa voltar pra casa! Ela gritou freneticamente. O quê? Tá tudo bem? É o Danny! Ele tava na banheira e... e... e... a cortina do chuveiro caiu em cima dele e ele se enrolou! Ele ficou submerso e não tá respirando. Meu coração tava batendo tão forte que o meu corpo inteiro tremia. Amor, liga pra polícia. Eu tô indo pra casa agora mesmo. Começa os procedimentos de primeiros socorros.

Saí correndo da sala de provas e disparei pelo corredor até a entrada principal, ainda com o telefone no ouvido. Ela tava chorando histericamente. Eu não sei como! Duas respirações e 30 compressões, tá me ouvindo? Incline a cabeça dele pra trás enquanto respira. Eu vou desligar agora mesmo pra ligar pra polícia pra que você possa fazer isso. Você precisa. Ela ainda soluçava. Jeff, por favor, faça isso. Desliguei o telefone e imediatamente liguei pra polícia.

Nessa altura eu já tava no meu carro e pulei pro banco do motorista. Acionei as luzes e a sirene e arranquei do estacionamento, acelerando fundo em direção à casa. Qual a sua emergência? Eu gritei meu endereço ao telefone. Ou pelo menos acho que gritei, não sei. Eu tava desviando dos outros carros no trânsito. Não tá respirando, 7 anos de idade, tragam alguém, tão fazendo procedimento de primeiros socorros, pode confirmar? Sim, senhora, eu vou enviar uma ambulância imediatamente.

Joguei o celular no banco do passageiro sem me dar o trabalho de desligar. O motor rugiu enquanto a minha velocidade subia pra quase 160 km/h no trecho de estrada aberta que dava acesso à minha rua. Fiz a curva e senti o carro quase perder a aderência ao asfalto. Parei bruscamente em frente à casa, com os pneus cantando, e corri pra porta, entrando de supetão na sala de estar. Mary! Eu gritei. Jeff! Jeff, aqui! Corri pelo corredor até o nosso quarto.

Mary tava sentada, recostada na cama. Seus olhos estavam vermelhos e a maquiagem escorria pelo rosto. Ela tava em frangalhos, apertando uma garrafa de bebida com tanta força que os nós dos dedos estavam ficando brancos. Mary, o que houve? Onde tá o Dani? Eu perguntei, confusa e em pânico. Ele... Ela soluçou. Eu não consegui, Jeff. Eu não consegui. Ela ergueu o braço e apontou pro quarto do outro lado do corredor. Me virei e corri pra dentro do quarto.

Mary não tocava em uma gota de álcool desde que Danny nascera. Será que ela tava bêbada? Ou aquilo começara porque ela não suportou ter de fazer eu cair de joelhos? Ali, deitado de costas no chão, tava o meu filho Danny. Seus lábios tinham um tom azul pálido e a cor ia subindo do seu corpo. Não, não, não, não, não! Me arrastei até perto dele e tentei ouvir sua respiração. Nada. Inclinei a cabeça dele pra trás e soprei duas vezes profundamente em sua boca.

Depois, comecei as compressões, contando-as mentalmente enquanto ouvia os soluços de Mary vindos do outro quarto. Fiz isso durante o que pareceu uma eternidade. Alô? Ambulância? Finalmente ouvi alguém dizer isso vindo do corredor. Aqui, rápido! Dois homens jovens, que não deviam ter mais de 30 anos, entraram no quarto. Um carregava uma máscara de oxigênio e o outro o que parecia ser uma maleta plástica grande. Levantei e me recuei enquanto eles começavam o trabalho.

Choque indicado, carregando, anunciou o aparelho. O primeiro homem continua bombeando oxigênio. Pronto pro choque, se afastem, gritou o homem. Ouviu-se um zumbido seguido de um baque seco. O corpo de Danny deu um solavanco, se erguendo e caindo de volta no chão. Nada. Choque indicado, pronto pro choque. Se afastem. Outro zumbido e outro baque, mas nada. Foi então que eu ouvi outra pessoa vindo às pressas pelo corredor. Jeff? Aqui dentro!

Eu gritei. Bill entrou correndo no recinto, ofegante. Jeff, meu Deus, eu sinto muito. Eu vim o mais rápido que eu pude assim que eu ouvi no rádio. Eu não tava prestando atenção. Meus olhos estavam fixos no Dani. Choque recomendado. Pronto pro choque. Se afastem. Um zumbido, um baque e depois nada. Ou o que parecia ser nada. Então eu notei que os batimentos cardíacos estavam sendo registrados. Meu Deus! Apontei pro aparelho. Por que ele não dizia nada?

Eles precisam levantá-lo e colocá-lo na parte de trás da... Choque recomendado. Pronto pro choque. Não, o que você tá fazendo? Eu avancei em direção ao homem, mas eu fui contido. Olhei pra baixo, em pânico, e vi os braços de Bill em volta da minha cintura. Não, você não pode, me solta! Olhei pra baixo horrorizado enquanto os olhos de Danny se abriram brevemente. Ele olhou ao redor da sala em pânico e então encontrou os meus. O som do choque ecoou pela sala e os olhos do Danny reviravam, revelando apenas a parte branca por baixo.

Antes de se fecharem de novo. Não, o que você fez? Eu lutei contra o aperto de Bill pra me libertar, mas eu não consegui. Olhei horrorizado enquanto o monitor cardíaco voltava a zerar. Choque recomendado, pronto pro choque. Agora subia fumaça das pás que estavam grudadas na pele de Danny. Parem, vocês estão queimando ele! Dessa vez, eles nem se deram ao trabalho de gritar pra que todos se afastassem. A fumaça subia mais densa agora.

Por favor, parem, eu imploro! Bem nessa hora, os olhos de Denis se abriram de novo, tremulando. Eles encontraram os meus em meio à fumaça e ao caos que tomava conta do quarto. Eu já conseguia sentir o cheiro de pele queimada, e aquilo me dava um enjoo tão forte que eu quase tinha ânsia de vômito. A fumaça subia, escura e densa, formando nuvens junto ao teto do quarto. Sob a máscara de oxigênio, eu vi os lábios dele se moverem, mas não consegui ouvi-lo.

Embora não precisasse ouvir pra saber o que ele tinha dito. Papai? Ele articulou sem som. O corpo de Dennis explodiu. O quarto ficou repleto de sangue e pedaços de ossos e pele. Tudo aquilo cobriu o chão e respingou nas paredes e no teto. Fiquei ali, paralisado pelo choque e pelo horror, incapaz de me mover ou falar. Choque indicado. Pronto pro choque. Uhu! Minha cabeça se ergueu bruscamente da mesa e a luz refletida nas paredes brancas quase me cegou.

Meu telefone tava tocando. Olhei ao redor da sala atordoado, suando frio e em pânico, com o coração disparado. Finalmente, o telefone parou de tocar e eu recuperei o fôlego. Olhei pra mesa. Eu tinha adormecido no depósito de provas. Minha cabeça caiu entre as mãos e eu soltei um longo suspiro. Então eu percebi o que tinha acontecido e procurei freneticamente pelo meu telefone. Me virei e tirei do bolso do meu casaco, no encosto da cadeira.

Uma chamada perdida. Mary. Senti um frio na barriga. Peguei o telefone e liguei pra ela de novo. Alô? Mary, tá tudo bem? Sim? Ela parecia confusa. Me recostei na cadeira, aliviado. Tudo bem, tudo bem, consegui dizer. Jeff, já é quase 1 da manhã. Achei que você fosse trabalhar só até às 10. Olhei pro meu relógio. Ela tinha razão. Há quanto tempo eu tinha dormido? É, desculpa, eu acabei dormindo na mesa. Eu ri. Muito bom, Jeff. Eu consegui ouvir o sorriso dela pelo telefone.

Que bom que você tá usando o dinheiro dos meus impostos pra um bom propósito. Eu ri de novo. Você sabe o que é esse trabalho. Eu disse, sorrindo também. Eu sei, eu sei. Ela respondeu. E então imitou minha voz de forma exagerada. De certa forma, o dinheiro dos seus impostos tá me pagando pra sair de casa todos os dias. Nós dois rimos. Já chego em casa, meu bem. Não me espera acordada. Tá bom, te amo. Desliguei o telefone e o guardei no bolso.

Guardei as provas do caso Wayburn de forma organizada e os coloquei de volta na prateleira. Tinha apenas uma equipe reduzida no escritório. Fiquei ali parado por um instante. Depois, me virei e voltei pra minha mesa. Me sentei, movi o mouse e a tela brilhou suavemente ao despertar. Abri o nosso banco de dados e digitei o nome. Monaya Guthrie. O sistema encontrou um registro e eu abri a ficha dela. Passei os olhos pelo conteúdo, parei, peguei o telefone mais uma vez e disquei um número.

O telefone tocou duas vezes antes de alguém atender. É o Jeff. Eu descobri pra onde o Eben tá indo agora. Ele tá atrás de uma mulher chamada Monaya Guthrie. Eu vou pra lá amanhã, se você quiser vir. Houve uma pausa. Claro, eu vou estar pronto às 7, respondeu ele. Ótimo, eu disse, então fiz uma pausa. Boa noite. Você também. Ele disse, então o meu telefone ficou em silêncio. Bom, pessoal, essa foi mais uma parte da Creepypasta.

A gente vai ter a parte final na semana que vem. Espero que vocês estejam gostando. Comentem aí o que vocês acharam e até a próxima.

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