Creepypasta: O Jogo das 11 Milhas (FINAL)
Parte 2 e final da creepypasta 11 mile game!
Lily
Alex
Neville
- O Jogo das 11 MilhasRegras do jogo · Perigos e consequências · A busca por Alex · A natureza da estrada · A ilusão do desejo realizado
- experiência de jogoArrependimento e aprendizado · A importância de não explorar o desconhecido · Perda e aceitação
- O filme ObsessãoDesejos e suas consequências · A natureza da obsessão
- Presença maternaSuplementos para gestantes · Acompanhamento da maternidade
- RPG de VárzeaEnergia e jogo · Colaboração com Ana Castelli e Pedro Sampaio
Bem-vindos a mais um episódio de Creepypasta. No episódio de hoje, a gente vai continuar a Creepypasta da semana passada, que eu falei pra vocês que a gente ia fazer em duas partes. A primeira foi mais curtinha na semana passada, e hoje a gente vai finalizar ela. Ainda é a Creepypasta do Jogo das 11 Milhas. Então, se você ainda não ouviu começar essa Creepypasta, corre lá pra ver o episódio anterior, e depois segue aqui, senão vocês não vão entender nada. Então, sem mais enrolação, bora pra Creepypasta de hoje.
Meu desejo é parar de achar que existe um jeito certo de ser mãe. A gente entende que cada gestação é única e que cada fase pede cuidados diferentes. Por isso, Nestlé Materna desenvolveu uma linha completa de suplementos pra acompanhar você em toda a jornada da maternidade. Desde o apoio à fertilidade pra mulheres que estão planejando a gestação, até linhas exclusivas com vitaminas e minerais pra cuidados na gestação e no perpério. Nestlé Materna, com você, do seu jeito.
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Eu consegui. Eu ganhei. Mas queria nunca ter jogado esse jogo idiota. Não quero pensar nisso nunca mais. Acho que você vai entender o porquê. Algumas coisas não devem ser testadas ou exploradas. E às vezes, quando você perde algo, é melhor que permaneça perdido. Eu te amo, Alex.
Deixei meu carro parar. Eu tava no local combinado que o Neville tinha enviado. Eu ainda não saberia dizer pra onde ele me mandou. Algum lugar no interior que eu nunca tinha visto. Desde o meu último post, eu li muitos dos comentários e me aprofundei nas regras desse jogo. Muitas coisas se contradizem, mas as partes das regras que parecem nunca mudar são as que dizem respeito a manter os olhos fechados e ignorar os sons. Olhei pro banco do passageiro e pra pilha de suprimentos que eu tinha preparado. Um cardigan grosso de tricô. Dizem que vai fazer frio, né?
um caderno com as regras, uma caixa grande de comida e garrafas térmicas grandes de água. Eu também tinha uma garrafa térmica de chá, que é minha fiel companheira. Pensei em quebrar os espelhos do carro, mas depois de analisar bem a situação, eu percebi que não era a melhor ideia. Deixei um bilhete no meu camarim. Como minha irmã tá cuidando da casa, vai ser o primeiro lugar que ela vai vasculhar. Deixei as instruções bem claras.
O Neville mandou mensagem. Que bom que eu gosto de contar histórias. Como assim? Eu respondi.
Você quebrou uma regra, mas acho que é uma postagem divertida. Não é uma gafe tão grande assim. Onde fica a estrada? Eu respondi. Você já estudou esse jogo. Sabe como funciona. Continue dirigindo. Outra coisa. Você quebrou uma regra ao contar para as pessoas. Então, que tal eu adicionar uma? Eu senti o meu maxilar começar a tremer. Minhas palmas pareciam que eu tinha acabado de cravar em um cacto. Eu ia fazer isso.
Você quer ver o Alex? Quer? Eu respondi, qual é a sua regra? Eu te dei seu telefone. Então, eu vou te fazer companhia. Se eu ligar, você atende. Eu até prometo não ligar quando você não deve me ouvir. Mas lembre-se disso. Eu só vou ligar se puder.
Agora começa a dirigir. Eu fiz o que mandaram e comecei a dirigir. O resto não vai ser tão coerente e me desculpem, eu tentei. Eu não consigo descrever o quanto eu tentei. Encontrando a estrada. Continuei dirigindo, deixando o carro ir devagar. A última coisa que eu queria era ficar sem gasolina e congelar. Você vai saber quando encontrar a estrada. Você vai saber.
Continuei dirigindo em linha reta, mantendo os olhos na estrada à frente, mas eu sabia que ainda não era a minha estrada. Dois minutos viraram dez, depois vinte, e então eu senti. Era como se o sangue estivesse saindo pelas minhas pernas. Eu senti um vazio dentro de mim. Eu tive que me controlar para não levar a mão ao estômago. Era como se todas as minhas entranhas tivessem caído e eu precisasse empurrá-las de volta, mas eu me contive, e foi como se por causa dessa contenção eu tivesse sido recompensada.
As laterais da estrada, que antes eram escuras, estavam repletas dos girassóis mais lindos que eu já tinha visto. Tudo era um amarelo tão brilhante que eu poderia jurar que era uma manhã quente de verão. Eu podia sentir o calor no meu estômago, no meu coração. Eu estava radiante. Então eu vi enquanto eles morriam. Vi cada pétala murchar.
Não havia mais ouro. A escuridão tomou conta de novo e as laterais da estrada pareciam não importar mais. Eu mantive o olhar fixo à frente, no centro. Eu sabia o que queria. Queria Alex. Queria o seguro, vivo e de volta. Marco 1. Dirija. Tudo o que você precisa fazer é dirigir. Mantenha os vidros fechados, desligue o rádio e prepare-se para a queda de temperatura. Estendi a mão para pegar o meu cardigan e o enrolei em volta do corpo. Do brilho dourado que se extinguiu, brotou prata. Nossa!
Eles não estavam brincando sobre aquela coisa das estrelas. Por um instante, eu senti uma onda de admiração. Eram tão lindas, as coisas mais lindas que eu já tinha visto. Um baque. Meu coração disparou, meus instintos entraram em ação enquanto eu assumi o controle do volante. Eu tinha batido em alguma coisa, tinha saído da pista, mas não completamente.
Eu recuperei o controle. Tava tudo bem. Eu tava bem. Eu tava com frio. Muito frio. Meu celular tocou e eu apertei atender e depois o viva-voz. Ainda bem que eu tinha um suporte no console. Falar no viva-voz nessa estrada provavelmente era a melhor opção. Era uma ligação do Neville. Porque, é claro, era. Você é divertida. A voz era como um chiado estático. Como isso era possível? Lily, você tá me ouvindo? Apertei a mandíbula com tanta força que meus dentes doeram. Apertei a mandíbula com tanta força que eu tenho.
O que me torna tão interessante? Giraçóis. Água gelada. Eu estava em água gelada. Olhei para baixo. Meus pés estavam cobertos de água e ela estava subindo rapidamente. Mantive os olhos na estrada. Eu não podia me dar o luxo de desviar o olhar. Logo, eu não teria mais essa opção. A voz do Neville era uma risadinha, mas não era distorcida. Era a risada de uma criança. Soava como a da minha irmã quando éramos crianças.
Meus joelhos. A água chegava aos meus joelhos. Meus dedos estavam dormentes, gelados o suficiente para queimar. Você tem um desejo por amor, um desejo por Alex? Previsível. Ele suspirou. Mas pelo menos não eram rosas, porra. O som estático da água escorrendo voltou. A água estava na altura do meu estômago. Estava tão gelada. Gostou do seu primeiro quilômetro? A voz agora era provocativa.
Esqueci de mencionar. O tempo não é bem o que parece. A ligação caiu e eu tava seca. Completamente seca. Marco 2. Eu tinha percorrido um quilômetro, sabia. Eu sabia. Mas tinha passado uma hora. Uma hora inteira. Não é o que parece. Eu dei um gole no meu cantil. O chá ainda tava quente e queimou a minha garganta.
Deixei o calor ficar por um momento antes de engolir, mas logo voltei a sentir o frio. Pelo canto do olho, eu sabia que havia árvores de cada lado, formando um túnel que levava sabe-se lá onde, mas tentei ao máximo não prestar atenção. Meu carro deu um solavanco. O asfalto se fundiu perfeitamente com a estrada de terra. Tava ficando irregular.
Continue respirando, mantenha a calma, faltam nove. Giraçóis. Minha mão tremeu. Vire-se. Sinta-se dourada. Tava quente lá. Eles morreram. Eu levei alguns segundos pra perceber que era minha própria voz.
Mordi o lábio. Eu não queria falar. Algo no fundo dos meus ossos gritava pra eu calar a boca. Não importava que os girassóis estivessem mortos. Eu nunca fui dourada. Marco 3. Os solavancos na estrada estavam mais fortes agora. A cada poucos metros, meu carro inteiro tremia. Mas não importava. Esse seria um quilômetro longo, assim como o próximo. Eu simplesmente sabia. Seria mais longo. Essa não era uma estrada normal, mas eu já sabia disso.
Nem tudo é o que parece. Assim que alguém diz pra não olhar, é praticamente tudo que você quer fazer, certo? Manter a cabeça inclinada pra frente era doloroso. Então eu pude ver. Um fio vermelho. Tava apertando cada vez mais em volta da minha nuca, cortando a minha carne. Eu sentia que engasgava. Eu conseguia ver sem olhar.
Não precisava me olhar no espelho. Eu sabia que o fio estava lá. Eu sabia que os meus ossos estavam começando a estourar através da minha pele. Eu sentia os estalos. Eu estava estourando. Se eu conseguisse me contorcer direitinho, eu conseguiria arrancar a corda. Mas só de pensar nisso, minha boca se abriu em espanto. Metal. Sangue tem um cheiro inegável, não é?
Tava escorrendo em quantidades que deviam ser litros da minha boca. O gosto de ferrugem impregnado nos meus dentes. Alex, você precisa pegar o Alex. Não havia mais árvores lá fora. Eu tossi. Meu parabrisa tava vermelho. Pelo menos eu não conseguia ver as sombras. Não conseguia vê-las correndo em direção ao capô do meu carro.
Eu não conseguia ver nada. Não importa se a estrada voltasse a ser dourada, eu pensei. Tudo está vermelho. Um vermelho paralisante. Meu telefone tocou de novo, mas ao invés do meu toque horrível de sempre, era uma sirene de nevoeiro. A corda arrebentou. Meu parabrisa estava limpo e eu engasguei.
Parecia que vidro estava arranhando a minha garganta, mas eu conseguia respirar. Meu rosto estava molhado. Eu soluçava. Era um soluço gutural. Eu gritava um som inaudível. Eu sentia como se o meu rosto fosse rachar. Era como ondas.
Eu estava desmoronando. Eu ia bater o carro. O telefone tocou e eu atendi enquanto tentava recuperar o controle do carro. Eu não podia continuar errando. Eu tinha que continuar. Você entendeu, Liu? Uma masoquista. Respire fundo e aproveite o silêncio. A ligação caiu de novo e eu respirei fundo repetidas vezes. Dei socos no painel com a mão esquerda várias e várias vezes até ouvir alguma coisa.
Não! Eu bati no teto do carro. Minha mão estava toda machucada, mas não importava. Eu não estou ouvindo. Eu não estou ouvindo. Continue gritando. Continue. Abafe o barulho. Bem-vindo ao quilômetro 4. Marco 4. Parecia que o céu da minha boca ia rachar enquanto eu cantava mais alto do que nunca.
Siga em frente, meu filho desviado, pois haverá paz quando você terminar. Tem certeza? Descanse sua cabeça cansada. As vozes continuaram. Não eram humanas. Não importa o quão convincente pareçam, não são humanas. As palavras saíam gaguejantes, como se estivessem tentando romper uma antiga transmissão de rádio. Você vai conseguir sexo de volta assim?
Não chore mais. Vamos lá, Lily, você consegue fazer melhor. Eu bati com a cabeça no volante antes de gritar outra frase. Assim que me levei acima do barulho da confusão. Garota estúpida. É, ela vem. E então, nada. Eu gritei alto, rindo histericamente.
Um momento de pânico e Kansas salvou o dia. Continuei dirigindo direto para o próximo quilômetro. Estava ficando cada vez mais curto, mas isso era um jogo. A clareira seria o olho do furacão. Marco 5
Um olhar pela janela. Não havia árvores. Agora haveria uma clareira e uma lua. Uma lua enorme e brilhante sobre mim, que eu não conseguia encarar. Arranque seus olhos. Balancei a cabeça e tentei me livrar desse pensamento. Eu estava perto. Eu ia conseguir passar por isso. Algumas regras diziam que a clareira teria um lago. Às vezes à direita e às vezes à esquerda. Eu não podia atravessá-lo. Isso era importante. Eu só precisava continuar dirigindo em linha reta e ignorar a lua. Quando a lua bate no seu olho...
Eu tava rindo de novo, quase me dobrando de alegria. Eu não precisava olhar pra lua pra saber que ela tava lá. Eu tava na clareira agora. Parecia infinita. Uma vasta estrada que parecia neve, iluminada pelos raios lunares que vinham de cima. A lua tava lá. Eu não me importava. Eu não precisava da lua. Eu precisava de Alex. Então, tudo ficou dourado. Tudo ao meu redor brilhava em um tom dourado. Ha! Eu zombei. Você tá me zoando.
Mas eu quase podia sentir o fio se enrolando novamente em volta do meu pescoço, dessa vez puxando para baixo a partir da base do meu crânio, como se tentasse me fazer levantar a cabeça bruscamente. Eu sabia o que o fio queria. Eu sabia o que esse jogo estúpido queria, mas eu não ia dar a mínima atenção. Eu tomei outro gole de chá. Ainda estava quente. A noite brilhava e eu podia sentir que estava me desmoronando.
Minha mente estava se partindo, mas não importava. Se eu tiver que enlouquecer para chegar até você, Alex, eu enlouquecerei. Eu farei isso. Então eu vi. Não era a lua. Não eram as sombras, mas um homem pescando no lago. Ele estava usando o casaco do Alex. Não é ele. Continue dirigindo.
As estrelas começaram a brilhar e eu observei seus reflexos saltarem no lago. Eu estava chegando perto, no quilômetro 6. Quase na metade do caminho. Continuei dirigindo. Olhando para trás, eu gostaria de ter jogado aquela maldita coisa no lago. É tudo que eu consigo me lembrar por enquanto. Amanhã será a versão final de tudo. Mas digo a vocês agora. Eu acho que eu nunca saí dessa estrada. Me prometa que você nunca vai jogar. Aprenda com esses erros.
Eu quero agradecer a todos pelo apoio nessa jornada. Obrigada por lerem minhas tentativas desastradas de contar histórias e eu peço desculpas por essa, esse final. Foi difícil escrever isso de forma coerente e a minha dislexia incapacitante e o cansaço não ajudaram muito. Mas eu espero, meu Deus, eu espero que vocês possam aprender com isso.
Isso não é um jogo. Nunca joguem esse jogo. Não importa quem esteja em jogo, não importa o que esteja acontecendo, não importa quem tenha partido. Não é o que parece. Marco 6. As estrelas começaram a se apagar e logo a lua não derramava mais sua luz insaciável. Tava escuro e eu me senti confortável. As árvores pareciam crescer diante dos meus olhos, troncos tão altos que eu não conseguia imaginar sua altura.
Seus faróis começarão a piscar. Seu rádio vai ligar. As regras se repetiam sem parar, mas ainda assim estava escuro e silencioso. Será que Neville estava me dando uma folga? Ou era hora de me arrepender? Hora de ir embora? Hora de enlouquecer? Eu deixei a minha mente vagar. Se havia silêncio, escuridão e calor, eu ia aproveitar. Olhei a hora no meu celular e vi que estava dirigindo há quase oito horas.
Impossível, mas essa estrada nunca ia acabar. Eu sabia disso. A temperatura subiu, ficou insuportavelmente alta, mas eu mantive meu cardigan bem enrolado em volta do corpo. Eu não ia me enganar. De repente, na noite sufocantemente escura, meus faróis começaram a piscar.
Mas não foi por isso que meu coração disparou. O rádio estava ligado. Eu senti formigamento por todo o corpo. Continuei dirigindo e imaginei jogar o meu carro contra uma árvore próxima para acabar com tudo. Não importava o que acontecesse, eu sabia que tinha que seguir em frente. Tinha que chegar até Alex.
Ele tá te esperando, Lily. Não vai demorar muito. Meus nós nos dedos pareciam estar se rasgando. Continuei andando, mas a estrada tava ficando cada vez mais estreita. O calor tava insuportável. O suor escorria por todo o meu corpo. Meu cabelo grudava no meu rosto. Levei a mão pra afastá-lo, mas a retirei bruscamente. Meu cabelo se mexia, invadindo as minhas narinas. Ele amava a ideia de você, Lily, mas nunca te amou de verdade. Meu cabelo começou a se emaranhar atrás dos meus olhos.
Eu podia sentir cada fio arranhando as minhas pálpebras. Era como se mãos pequenas, mais cruéis, estivessem me apunhalando, se enterrando cada vez mais fundo nos meus olhos. Eu as via, pequenas linhas na minha visão, obscurecendo a jornada à minha frente. Está tudo na sua cabeça. Tudo isso está na sua cabeça. A voz era abafada e feminina, então percebi que era minha. Foi aí que o zumbido começou.
Mantive uma mão no volante e estendi a outra. Um fio de cabelo solto estava saindo do meu tímpano. A pressão começou a aumentar. Era como se alguém estivesse enchendo um balão dentro de cada um dos meus ouvidos. Lily, você acha que consegue continuar? Cantar outra música? Os balões pareciam maiores agora. E eu sentia como se pregos estivessem perfurando meu crânio.
Mas eu ia ver. Não, eu não ia ver ninguém no próximo quilômetro. Eu não via ninguém de verdade nessa estrada, a cada quilômetro, em nenhum ponto. Um toque agudo enrompeu pelo rádio e, de repente, era a voz de Neville que eu ouvia. Cada letra parecia se bilar para mim. Ah, Lily, você é realmente tão previsível. A sensação mudou sobre a minha pele e na minha cabeça. Agora estava se movendo, puxando partes do meu interior em direções que eu nem imaginava serem possíveis.
Espirrei, sentindo algo se desprender e cair no meu colo. Monstros de oito patas, é? Cada músculo do meu corpo se tensionou. Cada célula do meu ser queria pisar no freio bruscamente, porque eu estava errada. Não eram cabelos nas minhas orelhas. Eram aranhas, atrás dos meus olhos, no meu nariz e saindo das minhas orelhas. Eu tinha aranhas malditas se enterrando dentro de mim. Não tem jeito de ganhar. Nenhuma chance.
Marco 7. Desliguei o rádio pra você. A voz vinha de trás de mim, alta e alegre. Eu ainda conseguia sentir as aranhas subindo nos meus braços, deslizando pelo suor que cobria minha pele. Não se vire. Senti uma mão fria pousar no meu ombro por trás. Era quase reconfortante ter um alívio do calor. Num momento de êxtase insano, eu quase deixei minha cabeça cair pra trás, mas eu me contive. Mais seis quilômetros. Mais seis quilômetros até que esse jogo infernal terminasse.
Você acha que poderíamos parar? Eu tô me sentindo um pouco mal aqui atrás. A mão apertou e eu senti unhas compridas e lascadas cravando em mim. Não me escute. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto e eu senti a mão descendo do meu ombro até o meu peito. Começou a me pressionar, abrindo caminho até arrancar minha pele.
Senti a dor eletrizar o meu corpo. Amor? Um desejo bobo. Uma decisão estúpida. Eu podia sentir sua respiração agora. As bordas do lábio rachados contra a minha orelha enquanto gritava. Não é real. Não é humano. Então eu senti o aperto. Meu coração parecia massinha de modelar sendo esmagada contra o chão. Sua mão estava no meu peito. Estava se agarrando com todas as forças. Consigo sentir o gosto da perda.
Meu corpo quase convulsionava, mas mantive as mãos no volante, ofegando e chorando enquanto o que quer que tivesse atrás de mim passava a língua sobre o meu lóbulo da orelha. E então um barulho. O barulho foi o som mais arrepiante que eu já tinha ouvido, alto e orgulhosamente grotesco. Olhei para baixo, na direção da origem do barulho, meu peito.
E vi a mão misteriosa arrancar o meu coração. Só que não era meu coração. Era um aglomerado de aranhas, todas emaranhadas, com pernas se debatendo sem rumo. Olhei para trás, para a estrada, e vomitei no volante, nas minhas mãos e em parte do para-brisa.
Então eu ouvi mais vozes, gritando e se sobrepondo umas às outras. Eles gritaram obseridades, imploraram para que eu desse meia volta, disseram coisas sobre mim que eu nem sabia que odiava. E então meu carro começou a diminuir a velocidade. A mão sumiu, meus faróis piscaram preguiçosamente e o carro ficou em silêncio. Nunca mais eu vou ouvir um silêncio como esse, eu pensei.
Marco 8. Alex estava parado na beira da estrada, com a mão estendida para mim e um sorriso torto. Continuei dirigindo e o Alex desapareceu e reapareceu. Não importava para onde eu olhasse, ele estava lá, dominando completamente cada canto da estrada. Eu não conseguia fechar os olhos. Seja lá o que tivesse me possuído durante o jogo, não permitia. Foram horas. Um ciclo infinito de Alex sem se mover, sem mudar, até por volta da terceira hora.
Alex ainda estava lá, mas agora chorava enquanto gesticulava com os braços para que eu encostasse. Ele mudou de novo na quarta hora. Estava angustiado agora. Seu rosto parecia torturado e estava coberto de sangue. Seu olho pendia da órbita por filamentos, escorrendo uma gosma preta. Ele agora tinha uma placa com o número 4 escrito em sangue. Eu ouvia me chamando. Hora após hora, eu ouvia me chamar e hora após hora eu tinha que me impedir de me jogar do meu carro em movimento.
Depois do que parecia um dia inteiro dirigindo e ouvindo a voz do Alex, algo dentro de mim morreu. Minha mente entrou em curto circuito. Minha própria alma simplesmente parou. O jogo tinha levado o último resquício de mim.
Meus ossos doíam de alívio. Não importava o que acontecesse a seguir, eu sabia que o jogo não podia mais me machucar, porque nada importava. Nada importava, porra. Então, assim como eu, meu carro também morreu de repente. Marco 9. Fechei os olhos com força e senti o carro engasgar enquanto eu ligava de novo.
Senti o carro disparar para frente quase instantaneamente. Pare o carro, era a voz do Alex. Continuei dirigindo. Lily, por favor, para o carro. Para o carro e saia daqui agora, não é o que parece. Outra lágrima escorreu pelo meu rosto. Lily, para, meu Deus. Lily, você vai me atropelar. Ele gritava entre soluços.
Ele implorava, mas eu não conseguia ouvi-lo. Seu corpo se chocou contra o meu parabrisas e eu ouvi cada osso estalar. Não é o que parece. Não é real, não é real, não é real. Eu consegui imaginar o corpo dele na minha cabeça, retorcido e ensanguentado na estrada. Continuei dirigindo, deixando-o sozinho no frio. Ninguém pra encontrá-lo, ninguém pra ajudá-lo.
Não é real, não é real, não é real, não é real, não é real. Ele tá morto, Lily. Dessa vez, a voz de Neville não era zombeteira nem cruel. Mesmo com o chiado estático de sempre, era calma, quase gentil. Não importa o que aconteça, Lily, ele tá morto. Ele já tava morto muito antes de você jogar esse joguinho estúpido. Seu Alex não vai voltar pra você.
O carro tremeu ao passar por um buraco. Mordi a parte interna da minha bochecha. Senti uma mão pousar delicadamente no meu joelho. O desejo dele nunca foi você. A mão me deu o que eu imaginei ser um aperto reconfortante. Mas ao invés disso, fez o meu corpo estremecer.
Lili, ele nunca te quis. Ele nem passou do quarto quilômetro. Ele não passa de uma sombra na estrada. Marco 10. Abri os olhos e olhei para o lado do passageiro. Não havia ninguém lá. Eu estava sozinha. A estrada à frente estava vazia, mas eu sabia que eles tinham voltado. As sombras.
Elas caminhavam do lado do meu carro. Eu não estava com medo. Elas não queriam me machucar. Estavam me guiando para casa, garantindo que eu chegasse ao quilômetro 11. O jogo estava chegando ao fim e eu sentia como se a estrada tivesse se cansado de mim. Não reagi quando senti algo começar a chutar violentamente o meu assento.
Eu sabia que acabaria logo. Não importava. Nada importava. Meu telefone tocou e eu atendi. Eu era mecânica agora. Um robô quase inoperante. A voz de Neville era baixa e pela primeira vez suava humana. Agora você consegue, garota. É isso aí. Espero que aproveite seu prêmio. Obrigada pela ligação. Neville suspirou antes de falar comigo de novo. Lily, a menos que você esteja em pânico, isso não é mais tão divertido. Adeus, Neville. Eu desliguei e continuei dirigindo.
Eu estava limpa e seca. Fisicamente, não havia efeitos duradouros e eu senti um sorriso fraco se espalhar pelo meu rosto enquanto eu dirigia para o último quilômetro. Marco 11. O carro chacoalhou, toda a energia se espaiu, mas o carro continuou em movimento. Os semáforos apareceram e fechei os olhos. Eu sabia que o sinal ia ficar vermelho. Senti o cheiro da fumaça antes de sentir o fogo. As chamas lambiam o meu corpo, mas não havia dor. O cansaço me atingiu como uma onda e o meu corpo ficou mole.
Acabou. O carro ia continuar andando. Se eu morresse, pelo menos estaria com Alex. As vozes voltaram, mas não eram cruéis como antes. Eram de celebração, de parabéns. Ouvi a voz de Neville em meio à confusão das outras, alta e clara. Não é o que parece. Ainda não consigo descrever a estranha calma que a viagem de carro trouxe.
Eu estava de volta ao início da estrada, olhos bem abertos, sabendo que algo estava errado. Eu tinha sobrevivido à estrada. Eu estava de volta ao meu mundo, à minha realidade. Fechei os olhos mais uma vez, com tanta força que eu senti uma dor aguda na testa. Eu imaginei o Alex. Imaginei caindo em seus braços. Imaginei-o feliz, sorrindo e vivo. Imaginei-o me olhando com adoração. O resto da noite foi um borrão. Cheguei em casa e encontrei minha irmã desmaiada na minha cama de hóspedes. Olhei a hora no celular e sorri ao ver.
11 horas. Por alguns segundos, eu senti o meu cérebro tentando processar a jornada que eu havia feito, que definitivamente durou, ou pelo menos pareceu durar dias. Mas então o cansaço me dominou. Beijei a testa da minha irmã e me aconcheguei na cama ao lado dela. Abra-se em forte, beijando-a de novo, dessa vez no topo da cabeça. Eu estava em casa. Eu estava segura. Acordei com o toque estridente do meu telefone. A voz da minha irmã estava sussurrada enquanto ela falava.
Lily, me desculpa por ter sido chamada para o trabalho tão cedo. Eu não queria te acordar, mas percebi que se eu não acordasse, você provavelmente ficaria muito confusa. Me sentei e estiquei os braços. Minhas articulações estalaram agradavelmente em resposta. Como assim? Bom, ontem à noite o Alex estava batendo na porta feito louco. Alex? Eu pulei da cama, meu cachorro me seguiu. É, o carro dele quebrou no caminho de volta para casa e ele disse que você era o lugar mais perto. Eu disse para ele ficar na sua cama.
Não sei porque ele não usou a chave dele. Enfim, eu preciso ir. Te amo. A ligação caiu quando a minha irmã correu para voltar para o trabalho. Claro que ela o deixou entrar. Ela não sabia que ele estava desaparecido. Alex estava vivo. Parei na porta do meu quarto e ouvi o Alex encolhido na minha cama, coberto por várias cobertas. Alex! Ele se levantou num pulo, seus olhos encontrando os meus.
Lily! Ele agarrou o peito e caiu de volta na cama. Você me matou de susto. Desculpa por aparecer assim do nada. Você não acreditaria nos últimos dias. Mas antes que ele pudesse terminar a frase, eu me joguei em cima dele. Solo sem seu peito. Meu corpo inteiro se contraía contra o dele. Ele acariciou as minhas costas e tentou me acalmar como pôde.
Alex ligou para a família e os amigos. Disse que eles estavam enganados, que ele tinha ido acampar em meio à natureza e feito besteira. Eu observei e ri com eles, pedi desculpas e andar pela minha casa enquanto falava, despreocupadamente. Assim que terminou de explicar, se sentou do meu lado, segurando a minha mão com firmeza. Você jogou o jogo? Minha voz estava baixa e trêmula. Alex ergueu uma sobrancelha. Eu realmente não sei do que você está falando, amor.
Sua voz era doce demais, mas seu rosto... Meu coração afundou porque finalmente o vi. Como eu pude não ter percebido? Na testa do Alex, havia um número 4 com um risco no meio, quase imperceptível. Continuei a encará-lo, estudando seu rosto atentamente, e vi o que parecia ser uma cicatriz antiga, logo abaixo do olho. Alex nunca tinha tido uma cicatriz.
Então ele me beijou na boca e eu retribuí o beijo. Por um instante, aquele brilho dourado da estrada me envolveu de novo. Mas então, quando ele interrompeu nosso beijo com um sorriso, eu me senti como um dos gerações que eu vi morrer. Eu vou preparar um banho de espuma para você. Você parece cansada. Ele se afastou, piscando para mim enquanto ia embora. O prêmio.
A questão é que esse não é o Alex. O homem que tá deitado do meu lado, roncando, não é o Alex. Ele se parece com ele, a voz é parecida, e caramba, ele até imita a risada. Mas não é o Alex. O Alex que eu procurava nunca me amou. Tivemos um breve momento no carro dele, quente e suado. Mas quando conversamos sobre isso, descobrimos que significava coisas diferentes pra cada um de nós.
Ele estava sozinho e bem, eu estava lá, disposta. Ele arrumou uma namorada e começou a me deixar para trás. Ele me afastou quando eu admiti bêbada no início do novo relacionamento dele, que eu estava apaixonada por ele. Nunca vou saber por que ele fez isso.
Nunca mais falarei com ele. Alex tá morto. Eu consegui o que queria. Um Alex que me ama. Mas não é o que parece. Eu não consigo viver assim. Adeus, pessoal. Eu tenho um novo caminho a seguir. Bom, gente, esse foi o fim da Creepypasta. Eu achei bem interessante, porque realmente, né, você joga o jogo pra você conseguir uma recompensa, uma coisa que você realmente quer. Então, se você chegar até o final, cumprindo todas as regras, em teoria, é pra você conseguir o que você pediu. E, no caso, ela pediu pra ter o Alex de volta e...
Enfim, cria ele amando ela, mas mostra pra gente que não é realmente o desejo realizado, né? É uma forma meio doida que a Estrada entregou o que ela queria. E isso me lembrou muito o filme Obsessão. Inclusive, vocês não assistiram, parece público, né? Mas não é. Me impressionou bastante, eu gostei bastante do filme. E também tem um pouco essa vibe, sabe? De você pedir uma coisa que você realmente quer, só que isso envolve uma outra pessoa. E aí, o que você quer realmente se depende de outra pessoa?
Não é natural. E mostra muito mais a obsessão do cara. Do que da menina obcecada por ele nesse filme. E eu não vou dar mais. Nenhuma informação para não ser spoilers. Quero muito saber se vocês já assistiram o filme. Se não vão assistir. Porque está muito legal. Quero saber o que vocês acharam da creepypasta também. E até a próxima.
Nescau
Nestlé Materna
Linha completa de suplementos para maternidade