O Milicianismo Moral nas Eleições
O que o crime organizado, o medo desorganizado, a moral miliciana e uma crise matrimonial tem a ver com a campanha bolsonarista.
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O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções
Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra
Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo
Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez
Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_
Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha
Na sonoplastia, Felipe Crocco
Na Edição de Cortes, Julia Leite
Nas Redes Sociais Gabi Biga
Na gestão de comunidade, Marcela Brandes
Identidade visual, Pedro Inoue
- Plano Brasil Sem IntocaveisPlano Treva · Bukele · Redução da maioridade penal · Castração química · Encarceramento em massa · Narcoterrorismo
- Medo da violência no BrasilCrime desorganizado vs. organizado · Golpe pela internet · Assalto à mão armada · Violência sexual · Eficácia da punição vs. certeza da punição
- Corrupção e narcotráfico na políticaAssociação com regimes de esquerda · Vídeo de IA de Flávio Bolsonaro · PT e PCC · Sérgio Moro
- O poder da confissão e da linguagemMoralidade e prosperidade · Superação pessoal · Gramática do mérito individual · Bruno Guimarães · Copa do Mundo
- Candidatura Flávio BolsonaroSuposto vídeo de festa · Michele Bolsonaro · Festa do Astronauta · Fernanda Bolsonaro · Estratégia de campanha
- Debate sobre castração químicaTratamento hormonal inibidor de testosterona · Prevenção de reincidência de estupro · Patologização do estupro · Associação com crueldade e sadismo
- Flávio Bolsonaro e VorcaroConversão e testemunho · Papel da esposa como fiança moral · Masculinidade brasileira · Perdão familiar
Olá, boa noite, bom dia, boa tarde para você que nos assiste. Eu sou Alessandra Delfino e vou receber aqui para o Calma Urgente dessa semana o meu querido amigo Bruno Torturra. Hoje estamos sem Gregório.
Oi, amiga!
Gregório está de férias. Oi, Bruno, tudo bem?
Nossa, que apresentação sucinta, seca e direta!
Eu não fui feita para isso, eu tenho outro papel.
Você fala: ah tá, está começando mais um Calma Urgente, dia 13 de julho de 2026, uma segunda-feira.
Eu falei, Bruno, você abre, estamos sem Gregório, você abre. Ele falou, não, hoje eu tô muito gago, você faça isso e depois não vai criticar a minha apresentação.
Não tô criticando, tô dando um note.
Um note. Então tá, então foi, olá, querido ouvinte, querido espectador do Calma Urgente, hoje é segunda-feira, dia 13 de julho, e está começando mais um Calma Urgente. Ficou bom assim? Ficou mais influ?
Tá maravilhoso, perfeito.
Obrigada. Bom, hoje a gente tem um tema, alguns temas, né, Bruno? A gente tem muita coisa para falar. Como o Gregório não estava, a gente tomou liberdade de ser ainda mais caótico do que a gente costuma ser. Porque sim, gente, eu levo a fama de ser pessoa disciplinadora, mas a verdade é que o Gregório, ele coloca um pouco de ordem no caos mesmo do Bruno, que se fosse por nós, a gente fazia associações livres.
Jura? Eu não reparei.
Em geral, ele fala muito.
Não, gente, mas é que eu acho que o medo do caos dele faz com que nós nos organizemos.
É isso, ele fica com medo do caos e a gente fala, não, vamos ser um pouco mais tranquilo. E aí hoje a gente não tá tranquilo, a gente tá caótico. A gente quer falar de Flávio, esse assunto animado. A gente quer falar do bilhete, do É Verdade Esse Bilhete aos brasileiros. A gente quer falar de plano de segurança, se é que você pode chamar isso disso, do próprio Flávio. A gente quer falar de Copa mais, porque eu fui privada dessa oportunidade.
Você quer falar de Copa?
Ainda estamos na Copa. E a gente também quer falar do tal vídeo que talvez exista, talvez não exista, do Flávio fazendo loucuras, da crise no casamento, da nova Bolsonaro, cara das mulheres bolsonaras na política. É isso, tem muito assunto, tem muito assunto, mas a gente promete que vai fazer sentido de alguma maneira. Tem, o Bruno falou assim para mim antes da gravação, tem uma costura Então a gente vai confiar nele. Bruno, começa aí a costurar. Por onde que você quer começar? Costure, costure à vontade, meu amigo.
Eu acho que tem uma costura teológica, mas a gente chega nela no final. Mas é tipo, especialmente acho, entre o suposto vídeo do suposto rumor do suposto negócio, mas que parece que é tão quente que os jornalistas investigativos estão escrevendo sobre isso, os colunistas estão tratando disso, que já é uma crise dentro da pré-campanha do Flávio Bolsonaro.
Que suposto vídeo é esse? Do que que a gente tá falando? Então, de que jornalistas a gente tá falando?
Não digo que tudo começou, mas tudo veio mais à tona com o infame vídeo que a Michele Bolsonaro fez algumas semanas já, em que ela insinua algumas coisas ali, que teria material, que teriam coisas comprometedoras e tudo mais. E logo os profissionais do rumor de Brasília já começaram a falar que isso pode, que isso teria a ver com um vídeo de uma das festas do Forcaro, chamada Festa do Astronauta, e que já vazou algum material disso em que não só a velha ostentação machista e adulta e tudo mais, mas com um mau gosto clássico daquela turma toda, que são garotas e modelos, trabalhadoras do sexo e tudo mais, que estariam usando capacetes de astronauta com roupas mínimas ou então peladas.
Mas aí os homens levantam o capacete e escolhem a sua parceira. E aí corria-se a informação de que poderia aparecer um vídeo do Flávio nessa festa. E agora nova informação também, home do UOL e colunistas escrevendo disso, é que o Flávio garantiu ao PL que esse vídeo não existe. Mas outros rumores dizem que uma outra festa classificada como suruba, ele poderia estar em algum material, alguma coisa que viria à tona, e que isso teria sido há alguns anos antes, acho que uns 4 ou 5 anos antes, uma crise grande no próprio casamento dele, no casamento do Flávio com a Fernanda Bolsonaro, que é a pré-candidata a primeira-dama.
Então isso estaria mexendo não só na campanha deles, mas eles já estão com uma estratégia traçada para qual seria a comunicação e de que maneira que ele explicaria isso para que se tornasse não um prejuízo, mas inclusive uma melhora na imagem dele perante o público. Isso é uma das pautas que a gente tem na nossa mão hoje. E a outra é esse plano de segurança, que eu acho que é estranhamente uma pauta que passou um pouco despercebida.
Porque apesar dela não ser um plano de verdade, eu acho que foi o movimento político mais importante que o Flávio fez desde que a pré-campanha dele começou, né? Que foi um posicionamento claro de que tipo de pauta, que tipo de discurso, que tipo de slogan, que tipo de afeto ele vai acionar na sociedade e quais os aliados dele. E aí eu acho, não fazendo a costura já, mas eu acho que as duas coisas têm uma uma cosmologia única assim, tem um posicionamento, é consistente, eu acho, com quem ele é e com a biografia dele e com o tipo de eleitor que ele precisa reestimular e reorganizar para ser o Bolsonaro 2.0 que ele, que ele tá fingindo ser.
É curioso, né, porque a gente percebe nessa estratégia, de essa estratégia defensiva, quase que preventiva, em relação a críticas a ele, em que a mulher dele começa a ganhar um papel preponderante, a gente percebe que ele tá claramente querendo dialogar com o eleitorado feminino, justamente esse eleitorado feminino de média, baixa renda, que a Michele Bolsonaro acessa de forma muito direta e que pode ter sido afastado da figura do Flávio depois do vídeo.
Então toda a tentativa, e o que a gente sabe pelas reportagens, é que a mulher do Flávio já tá, né, recebendo media training, que a ideia é que ela apareça cada vez mais na campanha e que ele se posicione muito como um bom marido, como um pai de menina, né? Tem uma tentativa de posicioná-lo como um cara mais afável do que o pai dele e mais palatável para esse eleitorado feminino. E aí a preocupação é que se vier à tona as causas dessa crise que ele próprio diz que houve no casamento, e ela também, né, dizem que eles passaram por um período difícil há uns 4 anos atrás, a gente não sabe muito bem por quê, mas especula-se que se as causas dessa crise vierem à tona, que isso poderia manchar essa imagem de homem honrado, de marido legal, etc., que ele tá tentando construir.
Então eles já estão como estratégia preventiva de dizer que ele hoje é um homem novo, que ele renasceu. E aí a frase específica dele, que eu acho que é interessante, ele fala— deixa eu achar aqui as aspas dele para a gente não citar errado— ele fala assim, olha, ele tá com a mulher dele do lado e ele diz: ela sabe o homem transformado que ela tem hoje.
Transformado é a palavra.
Um homem que é convertido, um homem que respeita muito mais a família, as filhas. Então essa é a aspa dele, né? Ele tá basicamente se posicionando. É muito essa, essa fala que ele faz com a mulher dele do lado é muito interessante, porque ele fala dele na terceira pessoa muito, e ele fica dizendo que ela é a melhor pessoa para dizer como ele está convertido. Mas ela não fala nada, é ele que fica botando palavra na boca dela. Então ele falou, não, a minha mulher é a melhor pessoa para atestar que eu sou um cara muito legal.
Ela sabe que eu sou muito maravilhoso, mas ela própria não diz isso, tá? Só deixando claro, pelo menos não nesse evento. Nesse evento quem fala é ele, e ele diz isso, que hoje ele é um homem transformado, ele é um homem convertido, ele é um homem que respeita mais a família e as filhas. E aí essa estratégia de se posicionar assim, ela dialoga com um certo eleitorado. E tem uma outra estratégia acontecendo na paralela, que é feita para dialogar com o eleitorado com outro perfil.
Que é um eleitorado mais masculino, mais punitivista, que tá preocupado, que quer ver no Flávio justamente uma versão mano dura do Jair, né? Assim, ou pelo menos tão mano dura quanto o próprio Jair queria ser. Então a ideia é um xerife, alguém que vai ser um homem forte, etc. E aí, para esse eleitorado, ele lançou essa plataforma de segurança pública, que é na verdade uma apresentação de slides um pouco mal escrita, Não tem grandes aprofundamentos, mas tem uma série de propostas, poderia se dizer, né?
Não são exatamente propostas, mas slogans para a segurança pública. Ele chama de Brasil Sem Medo.
Eu acho que é muito mais um plano de comunicação eleitoral e de propostas de um frame que ele tá querendo investir e representar, uma aposta que ele tem feito, do que um plano. Claramente não é um plano, não tem nenhuma solidez. E por tudo que se sabe sobre segurança pública, não tem um especialista, a pessoa que entende do assunto, que acha que isso vai ser positivo ou viável para segurança pública brasileira. Mas eu acho que tem várias coisas aí que não é só também de campanha.
Mas aí a parte que mais me preocupa, que tem um alinhamento nesse plano de segurança com o vocabulário e com a tática que eles estão desenhando com os Estados Unidos.
Exatamente. Vamos, eu quero que a gente detalhe um pouco esses slogans, Bruno, que a gente fale um pouco deles, que acho que é importante para quem não tá acompanhando isso de perto. Mas eu só queria deixar para quem tá nos ouvindo essa contradição plantada, né, que por um lado, quando ele faz um evento claramente olhando para o público feminino para tentar se recuperar, né, dos desgastes que ele tem tido junto a esse público, com a mulher dele do lado, ele vai se posicionar como um cara convertido, um cara que mudou, que que já teve uma fase difícil, mas hoje é um cara muito diferente.
E no lançamento do Brasil Sem Medo, que é essa plataforma de segurança pública, ele vai falar coisas como: infelizmente, prisão não é lugar de ressocializar ninguém, prisão é lugar de punição. Então, uma visão aonde não existe redenção possível, né? Não, é a ideia de que a redenção, ela não existe, ela não tá colocada nem como uma possibilidade, nem para uma minoria. A ideia de ressocialização é completamente apartada desse plano de segurança pública.
Então existe uma coisa de dois pesos e duas medidas muito colocada, né? A ele é dada a possibilidade de renascer, aos outros nunca. Que é bem interessante, e a gente vai falar um pouco mais disso.
E eu acho que isso é, isso é o centro do que eu acho que é a consistência bolsonarista, que ela é calcada na inconsistência hipócrita de que tem dois campos na sociedade. Um campo que pode errar, mas ele é intrinsecamente bom. E o outro que, mesmo quando não faz nada errado, é intrinsecamente mau. E aí, se faz algo errado, ele tem que ir para o inferno. O inferno na terra mesmo, que é o que ele tá prometendo construir. É uma das coisas que ele usa até nesse não plano dele, mas já tá vocalizado, é o Bukele.
O presidente violentíssimo e muito perigoso de El Salvador, que se tornou um ídolo para extrema-direita mundial. Ele já tá falando que ele quer ter um approach parecido com o Bukele na segurança pública brasileira, que é aumentar em 500 mil vagas de presídio e ia construir mais não sei quantos presídios federais, que ele tá chamando de Plano Treva. Então, já para dizer exatamente do que se trata, quer dizer, é um inferno mesmo, um lugar que não tem redenção possível, um lugar que não se espera ressocialização.
Não tá aqui para pagar pecado, mas tá aqui para ser para toda a eternidade, digamos assim, né?
Então, só para a gente não ficar só no abstrato, Bruno, eu queria ler os 12, as 12, eu não quero chamar ela de medidas, mas as 12, os 12 slogans ou as 12 propostas muito superficiais que ele tá fazendo nesse Só no Brasil Sem Medo, que inclui essa do Plano Treva, né, que é a construção de 5 novos presídios federais. Posso ler as outras só para a gente poder se calcar nelas para falar um pouquinho? Então a gente tem enquadrar o CV e o PCC como narcoterroristas, reduzir a maioridade penal para 16 anos, criar um sistema nacional de fronteiras que não se sabe muito bem o que seria, construir os tais dos novos 5 presídios, é castração química para condenados por estupro e abuso de crianças, Monitoramento com tornozeleira, endurecimento de penas para feminicídio, reforço da fiscalização em portos, especificamente em relação ao tráfico de cocaína, dobrar os investimentos federais em segurança.
Não sabe muito bem para quê nem como, né? Ter um sistema nacional integrado de reconhecimento facial, vetar a progressão de regime para crimes hediondos, endurecer a pena para roubo, furto e recepção de celular.
Especificamente.
Então assim, quando a gente lê isso, né, se a gente for olhar, é redução da maioridade penal, é mais presídio, é endurecer a pena para roubo, é castração química. Tem muito mais a ver com você endurecer a punição do que com você de fato aumentar a capacidade do Estado de coibir crimes ou de elucidar crimes. Então é um plano essencialmente punitivista, né? Na verdade, eu diria que não tem nada que que efetivamente aumente a capacidade do Estado de coibir ou de elucidar crimes, a não ser ao aumento do investimento, que se fosse inteiramente dedicado a esse tipo de atividade, né, polícia científica, capacidade de elucidação, poderia ter esse resultado.
Mas dado que ele também tá propondo a construção de mais presídios, penas mais longas, e que isso tudo traz custo, é o mais razoável seria supor que um aumento do investimento ele seria inteiramente na verdade usado para É sustentar esse endurecimento do aspecto penal, punitivo, né? Das punições serem mais longas, serem piores, de você poder ter mais gente encarcerada. Isso é o cerne da questão. E aí tem uma coisa que é— a gente não precisa entrar no detalhe de cada uma dessas propostas porque elas são tão absurdas que não faz muito sentido.
Mas uma coisa que eu acho que é importante que a gente deixe quem tá nos ouvindo com— você que tá aí em casa com isso na cabeça, que é o seguinte: Se tem uma coisa que a gente sabe sobre a questão do endurecimento das penas e do resultado que o endurecimento das penas traz, é que o que dissuade crime em geral, e muitas pesquisas corroboram isso, eu posso citar algumas, não é o tamanho da pena, é a possibilidade de ser pego. Então, dentro dessa discussão, em inglês a gente usa um termo chamado deterrence, né?
Existe toda uma questão que é: deterrence funciona? E o que isso quer dizer, né? Você saber que se você cometer um crime, você pode ser pego e punido, Isso muda a sua propensão a cometer crimes? E a resposta é que sim. Você saber que você vai ser pego, de fato, coíbe crime, né?
Exato.
Então, a certeza da punição, ela é importante. Ela é uma ferramenta importante. O tamanho da pena ou o nível de terror que a cadeia te inspira, se ela é uma cadeia terrível ou não, ou... Não. Não tem um efeito dissuasivo importante. Hoje, o Brasil é um país aonde as cadeias já são terríveis, já são lugares absolutamente infernais. A gente tem um encarceramento gigante, ou seja, a gente prende muita gente efetivamente, a gente prende muita gente inocente também, a gente tem uma quantidade muito grande de presos provisórios, né, que são pessoas que ainda não tiveram suas sentenças transitadas em julgado, estão ali aguardando o julgamento.
E ainda assim a gente tem muito crime, a gente tem um problema muito sério de homicídios. O que a gente não tem é uma boa taxa de elucidação. Então hoje a enorme maioria dos homicídios, por exemplo, no Brasil nunca vai ser elucidada. A gente nunca vai saber quem cometeu esse crime. Isso é um problema. Esse é um problema muito maior do que o tamanho da pena, ou se a cadeia é péssima ou só semi-péssima, sabe, para pessoa que ali está dentro do presídio.
Então, o plano do Flávio, que a gente pode falar sobre ele de uma maneira muito genérica e ampla, é que ele é um plano que foca em endurecimento da pena, mas ele não tem nada de concreto que possa contribuir para um aumento da elucidação. Ou seja, Os criminosos vão continuar achando que eles não vão ser pegos. Os poucos que forem pegos eventualmente vão ter talvez uma pena endurecida ou tá numa cadeia que faz parte do sistema treva e vai ser uma treva.
Mas isso realmente não é o que traz segurança para população. Então ele é um plano ruim nesse sentido, né? Ele não entrega nada além de populismo eleitoral.
É, eu sou mais trágico que isso assim. Eu acho que tem algumas coisas aí importantes de serem ditas. Uma que eu acho que além dos 12 pontos, que acho que a gente não vai, não vai deixar os 12 pontos, mas tem um ou dois que eu acho que vale a pena a gente falar, porque eles dizem respeito a coisas diferentes, que já são maiores do que méritos, slogan de campanha, eu acho. Mas o importante que a gente não falou, que eu acho que é o centro de onde ele vai direcionar a campanha dele, e acho uma decisão perigosa porque ela talvez seja efetiva, é plano Brasil Sem Medo.
É o nome dos 12 pontos e é a capa. E eu acho que é essa expressão que ele vai levar até o final, que ele vai tentar se associar, vai pôr o rosto dele nisso e tá usando fiadores com algum poder político junto com isso, especialmente o Sérgio Moro, que tava junto com o Flávio vendendo esse projeto. Então assim, medo Eu acho exatamente o tipo de afeto que ele reconhece que é uma coisa grande na nossa sociedade. E olha que dado interessante, que é onde eu acho que ele consegue fazer um cálculo sendo quem ele é. 30% do país disse que a principal preocupação na hora de ir para urna no ano é segurança pública. 19%, que é um número bem menor, diz que é corrupção. 19%, e 16% problemas sociais, que é uma coisa extremamente vaga.
Mas quer dizer, muito claramente o principal ponto de um eleitorado que não é majoritário, mas é, mas é o maior número disso aí, é segurança pública. E eu acho que essa segurança pública que as pessoas elas se referem, eu acho que o plano dele é um bom plano, entre grandes aspas, porque a relação das pessoas com segurança pública também é muito vaga e desinformada. As pessoas têm muito mais uma relação de medo em relação à segurança pública do que de análise.
O grosso da população brasileira se sente amedrontada e não se sente preocupada com a questão da segurança pública, da violência policial, de como é que investiga, do número de homicídios que são ou não elucidados. Elas querem não se sentir com medo quando saem de casa, quando entram no carro, quando ficam no ponto de ônibus, quando andam no metrô e por aí vai. Quando os filhos ficam sozinhos em casa ou vão sair sozinhos e vai ter, sei lá, um agora narcoterrorista para ameaçar a pureza deles.
Então quando ele fala que ele tá falando sobre o medo, e aqui que eu acho que o Flávio é um personagem perigosíssimo para encarnar isso, porque Apesar dele nunca ter sido condenado, e a gente não pode afirmar categoricamente, há muitas investigações, há uma galáxia de denúncias, evidências anedóticas, encontros pessoais, fotos da relação dos caras, homenagens prestadas na Legge, na Legge, e visitas na cadeia, e o Queiroz Que é a relação do Flávio com a galáxia miliciana carioca, com as milícias cariocas.
E eu sempre achei a acusação de miliciano em cima do Flávio quase um tiro no pé de quando a esquerda fazia isso assim abertamente. Porque eu acho que pra quem pensa sobre segurança pública, a milícia é apenas uma facção criminosa. É mais um dos atores que estão disputando território, dinheiro, compra de não sei o quê, e fuzil e tudo mais. Mas a experiência que eu tenho conversando com as pessoas que vivem às vezes nas áreas de milícias ou que vivem longe das áreas de milícias, como são os paulistanos, que entendem isso a partir do medo e não a partir da análise, que é esse cálculo de que Ela é corrupta, ela até comete crime, mas ela me protege do tipo de criminoso que me dá medo.
Não do tipo de criminoso que toma o meu dinheiro ou a gato-net ou vai me ameaçar se eu sair da linha dessa regra, mas vai me proteger hoje do narcoterrorista. Do criminoso negro, do favelado, desse outro externo que é lido no plano de segurança dele e no senso comum racista brasileiro como irrecuperável, como o portador do mal no coração, não do cometimento de algum crime. E o que a milícia representa nesse imaginário brasileiro é, são as pessoas que erram, eles fazem coisa errada.
Mas no fim das contas eles estão me protegendo mais do que me ameaçando. Eles estão reduzindo o medo que eu sinto em troca de uma corrupção, no fim das contas, que eu acho que algumas pessoas mais entendem isso. Então o Flávio, ele não é simplesmente um velho político do discurso que a gente conhece, do Paulo Maluf, por exemplo, que era corrupto. Ninguém tira isso dele, mas o Paulo Maluf não era envolvido com máfia de crime organizado.
Ele superfaturava ponte, fazia aquelas coisas dele, mas ele oferecia segurança pública violenta. É rota na rua, o bandido bom é bandido morto, e por aí vai. E vários desses, o Fleury fez isso. O Flávio não é um desses caras. O Flávio, no imaginário público brasileiro, e as imagens que ele tem divulgado de IA provam isso, É ele com uma metranca na mão, com estética de guerra mesmo assim, que é o que a milícia representa na cabeça de muitas pessoas, o que o bolsonarismo representa na cabeça de muitas pessoas, que é: eles não são puros, mas eles estão do meu lado, eles vão cometer o crime que é necessário que seja cometido para esses caras, para eu não sentir medo mais.
E aí que eu acho que tem uma associação entre essa questão da mulher dele e disso, porque com a mulher ele se prova um cara transformado, que tem uma fiança moral em casa, que ele comete erros mas tem um bom coração. Mas o erro dele também responde uma masculinidade hipócrita, é brasileira, porque o erro dele é o quê? Putaria, possivelmente. Não é uma coisa que queima o filme na sociedade brasileira como se fosse um— como se ele tivesse cometido algum outro crime.
Então ele se fia como esse cara que tem um bom coração, capaz de fazer esse trabalho sujo. Então acho que é uma ressignificação do Flávio é miliciano muito perigosa.
Nossa, Bruno, completamente. É como se ao invés de tentar afastar a peixa de miliciano, eles tentassem apenas fazer com que o significado de ser miliciano fosse, no fundo, positivo. Claro que eles nunca vão afirmar o Flávio é miliciano, mas a associação simbólica ela passa a ser mais positiva do que negativa, né?
E aí, afeto responde, entendeu? Assim, tipo, o medo. Eu me lembro, desculpa te interromper, mas é o que vai resumir para mim assim. Uma vez eu conversei com uma mulher, uma trabalhadora carioca, trabalhava em um restaurante, e ela me viu falando sobre segurança pública, não sei o quê, fez algum comentário. E eu perguntei, mas na sua, mas no bairro que você mora é muito perigoso? Era de tiroteio, alguma coisa? Falou, não, lá é muito tranquilo, lá é área de milícia.
Eu falei, mas é muito tranquilo lá? Ela falou, não, se você faz alguma coisa errada, o pessoal te mata, mas é tranquilo. Então ela não tinha medo, ela falou que era tranquilo lá. Mas tem um terror instalado de fundo, que acho que é isso que ele Que ele tá tentando barganhar.
É, quando a gente olha os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, né, eles lançaram um relatório chamado Medo do Crime e Eleições 2026, que vale muito a pena ler. E a gente tem mais de 96% dos brasileiros que têm medo de sofrer pelo menos algum tipo de crime. Então esse já é um dado importante, né? A gente tem uma população que está quase 100% dela amedrontada, o que não é pouca coisa, é uma coisa muito grave mesmo. E a gente não deveria viver assim, não é normal viver assim, não é normal viver com medo.
Mas quando a gente vai olhar, viver com medo, não é irracional, é razoável. Mas quando a gente vai olhar os tipos de crime que mais dão medo nas pessoas, acho que esse é um dado muito importante para a gente internalizar, sobretudo no campo mais progressista. Os crimes são, em ordem, tá? O que mais dá medo hoje, que é curioso, é golpe pela internet ou celular. Então é golpe do Pix. Quase coladinho no golpe do Pix, a gente tem assalto à mão armada.
Logo depois, ser morto durante um assalto. Logo depois, ter o celular roubado ou furtado. Ser assaltado na rua e bala perdida. E aí, entre mulheres, a gente tem o medo de violência sexual, que chega a mais de 82%, tá? Então a gente tem os tipos de crime, eles não são— repare, tem homicídio, mas é ser morto durante um assalto. Quando a gente dá os dados de homicídio no Brasil, que de fato são muito altos, a gente ignora que uma boa parte desses homicídios na verdade são mortes em confronto com a polícia, polícia, ou são mortes em confronto entre organizações criminosas armadas que estão se disputando território ou mercados, que é diferente de ser morto durante um assalto.
Então tem um tanto que é, quando a gente pensa no crime organizado e a gente fica dizendo, não, grande problema do Brasil é o crime organizado, isso é verdade, mas o que dá medo na população não é tanto o crime organizado, é o crime desorganizado. O que dá medo na população é o assaltante na rua armado, meio cachorro louco, que pode te matar por um celular, que pode te matar como um amigo nosso foi assassinado durante a pandemia a facadas por um celular no Rio de Janeiro, pai de família.
Esse é o medo, é você tá voltando para casa de noite e não voltar para casa, ou você tá no ônibus e ter o seu celular levado por uma pessoa Y que você não tá pagando em mil prestações, aquilo é seu instrumento de trabalho e você fica na merda. Essa é, esse é o medo. E no caso das mulheres, violência sexual é um grande medo. É não tanto por ser, claro que tem uma prevalência, mas o Brasil, enfim, tem aí, os dados são interessantes sobre violência sexual especificamente, a gente pode falar deles, mas tem também o medo, ele também passa por uma, pela antecipação de um trauma, né?
E você antecipar esse como um trauma muito profundo que você não quer viver sua vida, ansiedade em cima desse trauma. Exatamente. Então não é um estresse pós-traumático, é uma espécie de estresse pré-traumático. E que a gente vive em estresse pré-traumático no Brasil, sempre achando que a gente tá à beira de sofrer um grande trauma. E isso, de novo, isso não é irracional, isso tem fundo de verdade. A gente tá numa sociedade profundamente violenta.
Só que muito do nosso discurso, justamente, de desmantelamento do crime, e a linha, inclusive— aí eu tô falando da linha discursiva, não tô falando da linha de política pública que o próprio governo Lula tem adotado, tem sido em relação ao desmantelamento do crime organizado. Então o que o governo Lula tem dito, por exemplo, é: não, a gente tá desmantelando a Faria Lima, a gente tá desmantelando a, digamos, o arcabouço financeiro que sustenta o crime organizado no Brasil, as fintechs, a maneira como eles lavam dinheiro.
E tudo isso é legal, e as pessoas certamente olham e falam: maneiro. Mas não é disso que as pessoas têm medo. As pessoas não estão com medo da pessoa lavando dinheiro na Faria Lima, elas estão com medo de serem assassinadas durante um assalto. E essa conexão entre o risco de eu ser assassinado durante um assalto e a lavagem de dinheiro na Faria Lima, ela não é óbvia de se fazer. A gente tá falando de coisas muito diferentes. Então, quando o Flávio vem com uma plataforma em que ali a primeira coisa é, ai, narcoterroristas, tal, que aí é crime organizado mesmo, mas que é muito mais pelo nome, chamamos de terroristas como se isso fosse fazer uma grande diferença, mas de resto o que ele tá falando é O cara que poderia te assaltar, ou que poderia te matar num assalto, ou que poderia te estuprar, esse cara eu vou pegar ele e eu vou torturar ele depois que ele fizer isso.
É, vou mandar ele para o campo de concentração, eu vou castrar quimicamente, eu nunca mais vou deixar sair, não vai ter progressão de pena. E o que ele tá comunicando quando ele disse são duas coisas. Ele tá comunicando, por um lado, que você vai ter vingança se você for vítima de um crime, E ele deixa implícito que a presença da possibilidade dessa vingança vai deter esse criminoso de cometer esse crime. E é isso que não é verdade, isso não se sustenta nos dados, porque a enorme maioria das pessoas no Brasil, dos criminosos no Brasil, nunca são encontrados.
Não é que eles não são punidos, ou adequadamente punidos, ou punidos pelo tempo suficiente, eles não são encontrados, né? O senso comum no Brasil é de que a polícia prende e o juiz solta. Mas isso não é verdade. Em dois terços dos assassinatos, ninguém sequer chega no Ministério Público. Não tem quem soltar porque não tem quem prender. Não existe esse assassino preso que está sendo solto aos borbotões. Isso é uma, é uma imagem completamente dissociada da realidade.
Mas eu tô trazendo isso porque eu acho que no nosso campo, que preza por uma racionalidade e por dados, e que quer trazer uma abordagem talvez mais científica para segurança pública, a gente fala muito de desmantelar as redes de criminosos, o crime organizado, etc. E nesse esse sentido, a milícia, como você mesmo falou, né, Bruno, ela é igual ao CV, ao PCC, ela é uma grande rede de criminalidade. Mas o que a milícia promete, e aliás, para quem mora em territórios ocupados por tráfico, o tráfico também promete em alguma medida, é: eu vou dominar esse território como um território que tá a serviço da minha organização criminosa, né?
Então ele vai ser aonde eu vou operar minha organização criminosa, mas em troca disso, esse crime do cachorro louco esse crime do te assaltaram na rua e te mataram, ele não vai mais acontecer.
É, você perde o medo.
Então você perdeu o seu medo.
É só andar na linha.
Agora, por outro lado, você tá vivendo numa ditadura. Se você desagradar ao dono desse território, não tem devido processo legal, julgamento, direito à defesa. Você pode ser executado sumariamente. Mas você tá ali com uma espécie de regime absolutista que te promete que o crime desorganizado ele não vai mais acontecer. O crime organizado vai.
O que também é uma mentira, porque então isso é importante da gente dizer aqui. Não é que a gente tá defendendo pura e simplesmente o Estado de Direito, a democracia, o livre processo legal. É que assim, a milícia oferece isso e o tráfico também oferece de algum jeito uma certa paz territorial desse, uma paz territorial desse crime de varejo. Mas o que se esquece, que não, que que o pessoal prefere não ver, no fim das contas, é que as milícias e a polícia miliciana, que essa é a grande diferença que faz das milícias, na minha opinião, mais perigosas do que o narcotráfico não estatal, é porque ela tá vinculada ao Estado.
Ela tem uma impunidade mais atávica e muito mais perigosa. Mas o fato é que eles também traficam. Drogas, armas, também são receptadores de celular roubado. Eles também funcionam recebendo o arrego de pessoas que são pegas. E mais importante, no fim do processo todo esse, eles corrompem a própria estrutura policial, que não vai conseguir combater o crime do varejo. E por aí vai. Então assim, é um problema. A gente não tá nem dando de barato que o argumento deles é honesto.
Por mais autoritário e violento que seja, nem isso é. Mas eu vou discordar de você só de um ponto, não sei se você terminou.
Não, não, vai lá, pode falar.
Que é o seguinte, eu não acho que o fato do Flávio Bolsonaro e do Sérgio Moro e desses caras todos começarem a usar narcoterrorismo, eu não acho que é um termo vago, que ele tá tentando criar uma coisa grande, uma coisa perigosa. Eu acho Eu acho não, tenho certeza que a reclassificação do traficante para narcoterrorista era um projeto muito bem pensado e muito bem feito, e hoje já muito difundido, de associar os regimes de esquerda do continente com essas organizações.
Isso tá sendo feito de maneira violenta e muito perigosa, já foi feito na Venezuela. Está se ensaiando fazer isso em Cuba. Acusaram o Gustavo Petro de ser isso e possivelmente teve algum peso na derrota do grupo político dele lá na Colômbia. E já foi a ação não só que o Donald Trump decretou que duas organizações brasileiras são narcoterroristas, mas supostamente com uma demanda falsa que seja do próprio Flávio e do grupo do Flávio, do próprio Tarcísio pedindo isso, do Sérgio Ouro falando isso publicamente.
E aí a questão mais importante: já existe um rumor completamente infundado, fake news mesmo, de muito tempo, de que o PT tá assim com o PCC, de que o PT é sócio do PCC, de que o PCC orienta voto no PT e tudo mais, ao ponto de candidatos terem sido punidos quando disseram isso em outras situações. Nada se comprova, na verdade, mas isso já é uma percepção pública dessa associação. Mas agora o Flávio tem feito ela de maneira nada sutil nesses discursos dele.
Uma naquele vídeo de IA que ele tá metralhando, são 3 barcos. Um é do CV, outro é do PCC, e um que foge é do PT.
Dá só mais um pouquinho de detalhe do vídeo, Bruno, para quem não tiver assistido.
É um vídeo de IA que o Flávio Bolsonaro soltou, fez e tudo mais, em que ele Ele tá dentro de um helicóptero com trajes militares, com uma metralhadora, indo combater barcos no Mar do Crime. Então assim, tem uma lancha que tá escrito CV, uma lancha escrito PCC, e a outra lancha que foge é a do PT. Isso responde totalmente às operações militares que o Trump tá fazendo na América Central. De tiroteio em lanchas, que diz ele são de traficantes, mas nem provas eles conseguem obter de que de fato eram, estão matando gente no meio do mar.
Então o Flávio fazendo isso para combater o nosso suposto narcoterrorismo. O Lula, por boas razões racionais e políticas de soberania e tudo mais, rejeita essa classificação que os Estados Unidos fazem. Então É uma jogada de mestre semântica que eles fazem, porque eles obrigam o Lula a não concordar que eles são narcoterroristas. Então parece que ele tá defendendo. E acho que o grande golpe, aí sim, para essas eleições é não só associar o PT e a esquerda como fraco no combate ao crime, que são os direitos humanos, o pessoal que solta, mas agora a insinuação que ele tem feito publicamente, que eles são possivelmente cúmplices.
Cúmplices, que ou eles são fracos e incompetentes ou eles são cúmplices, que é uma acusação que não se fazia dessa forma. Então narcoterrorista, na minha cabeça, não é só o novo traficante. Ele politiza essa ideia e ele associa claramente a um campo semântico, estético, que infelizmente já tá consolidado. E aí nessa associação que talvez ele consiga fazer do PT representa o PCC e o Flávio é milícia, sem falar que é, mas é como o brasileiro vê ele, entendeu?
A escolha popular vai ficar entre essas duas opções, meio que já que a paz e uma política de segurança pública racional, ela não é de fato uma opção e não responde ao pânico que a sociedade sente. Então eu só queria colocar que narcoterrorismo é uma das coisas que a gente vai ter que mais enfrentar, não só porque quando eu falei isso, Bruno, só para esclarecer, eu não tô discordando de você, eu concordo 100% com análise.
Eu só sinto que o que aquela proposta tá fazendo ali nesse plano de 12 propostas ou de 12 slogans é algo que não tem tanto a ver com endereçar de fato o medo da população. Justamente tá ali por outras razões, mas não é parte dessa plataforma de segurança segurança pública da mesma maneira. Eu concordo. Ali por outra, por outra razão. Aonde ele quer endereçar o medo é falando de presídio de segurança máxima, de castração química.
Aliás, podemos falar de castração química 2 segundos, que eu acho que é muito interessante o tema da castração química. Você sabe o que que é castração química?
Tecnicamente não.
É um tratamento hormonal que inibe a produção de testosterona em homens e é usado inclusive numa perspectiva meio medicalizante e médica para tratar homens que se consideram pedófilos, que têm desejo sexual por crianças, e que eles próprios são transtornados por esse desejo sexual e pedem esse tipo de tratamento. Então, e muito claro, assim, uma coisa importante de se saber sobre a castração química é que se você para de tomar o tal tratamento, a produção de testosterona ela volta a níveis normais dentro de pouco tempo, e a libido, o impulso sexual, ele volta também a existir.
Então eu acho o tema da castração química culturalmente, do ponto de vista da comunicação mesmo, muito fascinante, porque ele realmente não é assim, realmente não é uma solução para nada. Em tese, esse estuprador que seria sujeito a um tratamento de castração química, ele já estaria preso, porque ele teria que ser já condenado por estupro, e a pena por estupro no Brasil é prisão. Então essa pessoa estaria presa, condenada na cadeia, tomando um tratamento que em tese tá sendo pago com dinheiro do contribuinte para diminuir a sua produção de testosterona.
Talvez até contribua para cadeia ser um lugar mais humano, menos testosterona na cadeia.
Mas não dá ideia.
Mas o fato é que não é algo que de fato— eu acho que a ideia que eles querem de alguma maneira associar, associação livre que eles querem criar na cabeça da pessoa que lê castração química É, por um lado, a palavra castração, ela é muito forte. Não é à toa que eles não usam assim, tratamento hormonal. Não é isso que eles falam, né?
Bloqueio de hormônios sexuais.
É, eles falam de castração porque castração, a associação que as pessoas têm à palavra castração é de castração física. E é isso que de alguma forma remete a uma vingança draconiana do tipo, condenado por estupro vai ser capado.
Capado, vai ser capado. É basicamente essa ideia aqui.
É essa associação que se quer criar. E por um outro lado, existe uma ideia um pouco preventiva, né? Como se o que parte do princípio de que o problema do estuprador, que o estuprador, que a pessoa que foi lá e estuprou uma outra pessoa, ela está fazendo isso por causa de testosterona, entendeu? Por causa do impulso sexual, que não é o problema, não é a questão que tá colocada. Mas não faz nenhum sentido, dado que essa pessoa já estaria presa.
Então a prevenção de um outro estupro, pelo menos um outro estupro fora da cadeia, ela não tá colocada. Como algo necessário, dado que essa pessoa já tá fora de contato com a sociedade. Então é exatamente o tipo de coisa que funciona completamente como slogan, mas que não se sustenta nem assim. Se você assumir as premissas de que seria uma boa maneira de você evitar reincidência, que isso faria algum sentido, assim, é uma loucura completa.
É realmente só para despertar uma associação vaga de esse cara vai fazer alguma coisa para combater estupro. Mas não tem uma palavra sobre, né, sobre como que você previne estupro, que é uma coisa muito importante de se discutir na sociedade. Porque é isso, no final das contas também, uma vez que o estupro aconteceu, não é a castração química do cara que eventualmente, porventura, foi pego, já está preso, que faz alguma diferença na vida dessa mulher que foi vítima de estupro, ou dessa criança, ou dessa pessoa.
É o estupro não acontecer, certo? E isso ele não fala, não existe essa colocação. Mas é um tema, é um temaço, né? A direita ama esse termo de castração química. Eu não consigo entender de onde vem o fascínio.
Eu acho que tem a ver, obviamente, com o fato de que a gente tá num ambiente em que o químico dá uma limpada no que o cara queria de fato é pedir e que legalmente não é possível, que é castrar o cara, que é ele arrancar as bolas e fazer ele virar sexualmente inviável, dele não ser mais capaz de ter uma ereção, o que não é funcional do ponto de vista penal, como você disse. Quer dizer, para você pegar esse cara, você já pegou, ele já tá preso, né?
Então assim, já não, já teoricamente o Estado deveria garantir que ele não estupra ninguém de qualquer forma nunca mais, e vai ser isso aí. Mas a gente não tem essa possibilidade. A gente não tá nesse mundo de tortura, que é um mundo que muita gente gostaria de retornar. Mas já que não tem previsão e ninguém não vai pegar bem falar isso, o químico põe esse caráter científico em uma ação brutal. Acho que outra coisa que o Vitor disse aqui, até nos nossos bastidores, e que eu vou concordar muito, que é você traz um termo do mundo animal.
Então você responde a essa ideia de que essas pessoas elas são sub-humanas. De que você tá tratando uma pessoa que não tá no nosso, no nosso nível. Então nós aqui, vamos falar, é inclusive os abusadores sexuais desse campo político de direita, não sei o quê, eles podem errar, eles renascem e tudo mais, mas os animais têm que ser castrados, né? É isso, eu acho. Mas outra que eu acho que não é que eu acho que é o Brasil sem medo, eu acho que o slogan dele, ele não é honesto, porque na verdade o que eu acho que essa política extremamente violenta deles oferece é: vamos dar o medo para o outro lado.
Então assim, um Brasil sem medo é impossível. Então quem vai ter medo vão ser eles e não a gente mais. Então a gente vai impor um regime de terror mais forte para o outro lado, que é campo de concentração, castração, entendeu? Execução sumária e por aí vai. Né, que é tipo assim, vamos devolver o medo que a gente sente, que não se resolve com racionalidade, consciência, com investigação, com dados. Então a gente recalca ele e se torna crueldade, se torna sadismo.
E que eu acho que é uma perversão clássica. E castração química é um termo, de novo, que você colocou, eles têm uma fascinação. Então é muito mais uma resposta que ele tá dando quase a um pré-meme que esses caras têm, que vem desde o Datena, de jornais vespertinos, de um diálogo é comum muito desinformado, que nem eu sabia que eu, na minha cabeça, que nunca fui me informar muito disso mesmo, que nunca me interessei, eu imaginava que era meio irreversível, que era uma coisa que você fazia que dava uma castrada.
Então não é castração, é tipo um inibidor hormonal, basicamente, né? Nem esse nome é muito merecido. E como você disse, eu só conhecia isso por conta de um documentário que eu vi sobre pedófilos, em que os pedófilos queriam isso para eles para poder ser solto da cadeia, para não poder ser uma ameaça mais. Então essa ideia de que tem um mal interno, de que alguma coisa precisa ser feita, e é muito contraditório, né?
Porque ao mesmo tempo que eles têm uma visão que é da não redenção, da não possibilidade de ressocialização, para os criminosos. E aí o estuprador, ele ocupa nesse panteão de criminosos imaginados e, né, fictícios e reais, ele ocupa um lugar de especial desprezo da sociedade, por boas razões. Mas ao mesmo tempo que tem essa ideia de que não existe redenção possível, por outro lado, quando você introduz a ideia de um tratamento hormonal, de alguma forma você tá patologizando o estupro, como se ele fosse resultado de uma, uma, o cara é, o cara não consegue se controlar, entende?
Como se fosse resultado de uma quase que uma doença. E não violência, exercício de poder, subjugação do corpo feminino, enfim, milhões de outras coisas que estão colocadas, né? E também a gente sabe que estupro no Brasil, na enorme maioria dos casos, é cometido por pessoas que a mulher conhece. Então é realmente uma tabuização.
Também muito pouco investigado, muito pouco punido.
Muito pouco investigado, pouquíssimo punido. Então tem uma contradição inerente aí, que é ou você acha que essa pessoa não existe redenção possível, e portanto ela tem uma culpa que ela nunca poderia ser expiada, ou você acha que essa pessoa é uma pessoa doente, que tem que ser tratada com remédio. Mas eles não estão preocupados em resolver essa contradição, não é sobre isso, é sobre o que o termo evoca, é sobre o imaginário e os afetos que de alguma forma ele gatilha, né?
E esse é o gatilho que ele gera. É isso, vamos tratar que nem bicho, vamos fazer uma coisa, uma coisa sádica ou violenta, quando na verdade nem é muito violento. Castração química, o termo castração É violento em si, mas o tratamento hormonal em si, ao qual eles se referem, não, não especialmente. Na verdade, é que ninguém nem vai saber do que se trata.
Não é sobre isso.
Não é sobre isso.
E é o que a gente falou, é o que eu acredito. Ele é muito mais um plano de discurso, é muito mais uma proposta emocional para essas eleições do que um plano de segurança pública. Imagina, né? Que a gente, aliás, a gente teve vários e não teve nenhum assim. São muito vagos, muito difíceis de serem implementados. Mas eu concordo muito, é isso aí. E novamente vem essa questão essencial que eles têm. Quando você falou de patologizar, me lembrou de uma outra coisa que eu acho que dialoga com essa coisa do narcoterrorista, da esquerda não tem redenção possível.
E eles têm, na hora que a mulher fala que tá aqui, tá tudo bem, que é quando eles consideram ser de esquerda uma patologia, né? O esquerdopata ainda é um termo não só utilizado, mas a ideia de que quem adere aos ideais de esquerda ou se considera socialista ou compra isso, tem algo errado com a cabeça da pessoa. Que é meio parecido com a abordagem que eles estão colocando com estuprador, né? Tem algo errado com o hormônio, com a cabeça, é meio patologizado a ideologia que eles estão tentando combater.
Então é nesse lugar que o nosso campo ele é irressociabilizável de algum jeito, né? Ele precisa ser extirpado porque tem algo errado intrinsecamente com você se manifestar politicamente dessa forma, que é associação que eles fazem com narcoterrorismo. Defensor de bandido e com alguém que é intrinsecamente corrupto. O Lula, por exemplo, eles nem acusam Lula de mais nada objetivamente.
Não, ele só fala que ele é corrupto.
Ele é o corrupto. Não tem nenhum recibo, nenhuma denúncia, nenhuma investigação de fato em cima dele. E o Flávio Bolsonaro, que é o cara do Forcaro, do celular do Forcaro, né? E do Queiroz, gente.
E da rachadinha.
E da rachadinha, e da loja da Copenhagen, e da mansão de R$6 milhões não justificada, e do Jair e de todo o resto. Esse é o cara que, tipo, nos apresenta um plano anticrime. É o cara que agora é transformado porque ele é um pai de menina.
Ele é um pai de menina e ele foi convertido, e ele foi convertido, que é, né, o tema que a gente também quer chegar, e vamos chegar lá. Antes da gente passar para o tema da conversão, que eu acho que é muito importante nessa mitologia que tá sendo criada, eu queria só contrastar a série de slogans do Flávio Bolsonaro com o programa do governo federal que foi lançado agora em maio. É o programa de segurança do governo federal, que se chama Brasil Contra o Crime Organizado, e que é um programa bastante sério. Tem um aporte financeiro bastante consequente, de mais de R$11 bilhões.
Feito em parceria com os estados.
E se organiza em alguns eixos, né? Asfixia financeira e patrimonial das organizações criminosas, dá mais segurança pro sistema prisional, porque a gente sabe que hoje a enorme maioria das organizações criminosas no Brasil, elas operam a partir da prisão também, e é um campo, né, de recrutamento, de organização e de articulação das organizações criminosas. O combate ao tráfico de armas e a qualificação justamente da investigação de homicídio.
Então é um plano bastante sério, mas é isso, do ponto de vista comunicacional ele peca muito, inclusive pelo título. É exatamente isso que eu disse antes, né? A ideia de Brasil contra o crime organizado, ela não responde de fato ao medo da população. Brasil sem medo é um título mil vezes melhor do que Brasil contra o crime organizado, porque o medo das pessoas não é do crime organizado, gente. O medo das pessoas não é disso. Se a gente não internalizar essa informação, a gente não entende do que que a gente tá tratando.
Eu, mas é exatamente isso. Eu mesmo, que não sou uma pessoa que vive com medo e tal, mas eu tenho medo. Eu, eu tô entre os 99% de pessoas que tem medo, que tem medo. Eu não me pauto por esse medo, ele não organiza minha vida. Eu não fico colocando tranca em tudo e câmera e blindar carro, mas assim, eu fico preocupado quando eu tô na fila da Tiradentes com meu filhinho no banco de trás. De novo, eu não tenho medo do PCC. Eu quero que o PCC acabe.
Eu acho um problema gigante no país. Eu acho lamentável essa situação. Eu acho terrível, assim. É uma doença.
Mas não é com isso que você— não é essa sua paranoia diária. A sua paranoia diária é outra coisa. É, o meu tio foi assassinado num assalto quando eu era bem pequena. Que é um trauma pra uma família que eu não desejo pra família nenhuma. Eu vi a minha avó conviver com essa dor pro resto da vida dela e nunca mais vai embora. Esse é o medo. O medo é seu filho de 22 anos, sei lá a idade, ele era novinho assim, sair de casa para o primeiro emprego com a moto que ele pagou em prestação.
Porque minha avó, a família do meu pai foi uma família humilde. Esse era o primeiro emprego do meu tio. A minha avó criou os 3 filhos sozinha, viúva, difícil. E aí ele sai lá com a sua moto e não volta, entendeu? E atiram nas costas e ele morre por uma moto. Esse é o medo. E esse medo, ele organiza— Você falou que ele não organiza a sua vida, né, Bruno? Mas ele organiza a vida de muita gente porque ele tá presente assim. E um crime desses que acontece em uma família, matou uma pessoa, vai aparecer nas estatísticas como mais um homicídio, mas são 20 pessoas que vão ter a sua história pautada por esse crime, entende?
É a minha avó, meu pai, os netos, os sobrinhos, é infinito, é um ciclo que não se encerra. Então se a gente não entender que isso precisa ser combatido e que isso precisa de política pública, evidentemente, que até hoje a gente não conseguiu acertar, né? Acho que já foram 9 planos de governo desde o Fernando Henrique só para segurança pública. É uma loucura e a gente não consegue acertar. E ao mesmo tempo que também a comunicação sobre isso ela precisa ser menos técnica e mais humana, porque É, não, a política pública tem que ser técnica, mas a comunicação sobre ela precisa ser humana, ela precisa ser emotiva.
Porque falar de medo de assassinato, de assalto, de perder o patrimônio que você suou para conquistar, ou de perder um filho ou um pai, é falar de emoção, é falar do Cadu, nosso amigo, que deixou uma criança de 2 anos. É coisa que mexe com, né, com as emoções das pessoas. E acho que a gente como campo não encara, e a gente vai perdendo espaço por causa disso. Enfim, vamos passar para o próximo tópico, por favor, Bruno.
Puxado, eu sei, é puxado. Eu lembro, eu sei, é isso.
Mas vamos lá, vamos falar agora de renascido, do renascimento de Flávio, que aparentemente teve uma crise no casamento, mas agora é um homem convertido, é um homem bom. É homem que valoriza a esposa e as filhas, não é, meu amor?
É um homem recuperado, né?
Um homem recuperado, ressocializado, por assim dizer.
É muito legal que eles passam o recibo meio que antes, né? Meio que eles estão reconhecendo que tem uma, que tem um B.O. E os caras assim, puta que pariu, o que que eu faço, né? Então assim, é tipo, está no passado. Eu não fiz nada, mas qualquer coisa que eu tenha feito já foi superada dentro do meu casamento. Né, qualquer pecado que eu tenha cometido. E aí eu acho que, tipo, não sei nem por onde começar de novo. Eu acho que é uma linguagem e é um posicionamento muito perfeito, não digo para avançar o eleitorado dele, mas para recuperar o eleitorado que ele perde, que ele perdeu em relação ao pai.
Quer dizer, se ele mantiver, ele precisa de 100% dos votos bolsonaristas para se viabilizar. Ele não pode perder voto bolsonarista. E o pai dele ganhou a primeira eleição dele, perdeu por muito pouco a segunda eleição. Dá para dizer, eu afirmo isso, que se não fosse a pandemia, ele tava reeleito, né, com uma votação mais expressiva do que teve na primeira eleição. Então assim, ele precisa recuperar isso. E aí ele vai numa coisa muito atávica, que é o bolsonarismo, ele é a justificativa É moral da própria hipocrisia do eleitor.
O eleitor não tá buscando consistência moral nos Bolsonaros, ele tá procurando o tipo de inconsistência que lhe dá autorização para se perdoar nas suas próprias hipocrisias, violências, inconsistências, machismos, racismo, racismos e tudo mais. Eles precisam projetar algo de si nos Bolsonaros para os Bolsonaros serem assim, para ele se sentir bem vendo Bolsonaro sendo quem ele é. Então assim, os crimes passados do Bolsonaro, os machismos, os racismos, as coisas que ele falava, de algum jeito a maneira como ele lidava com isso publicamente tem um quê de pornográfico, que a pessoa meio que goza junto com a hipocrisia sendo lavada em público assim.
Eu acho que essa projeção bastante masculina, em algum lugar assim, o Flávio ele atualiza, porque o Jair mesmo não me parece mais possível, o velho Bolsonaro, porque ele nem, ele nem se fingiu muito de renascido, ele se manteve meio chato.
Ele fez lá um batismo, um batismo meio mal, é, exatamente.
E o Flávio ele responde a essa moral que eu, a gente já algumas vezes aqui eu volto nesse ponto porque eu acho que é uma coisa muito importante para entender o nosso país hoje, que é de uma moral neopentecostal. Mesmo que ela não seja religiosa do altar, que ele não tenha ele descendo no Rio Jordão ajoelhado na frente do Malafaia, ela responde a uma versão teológica que o Brasil aderiu muito nos últimos 20 anos, que é a ideia de que o mal né, de que Deus, essas coisas, ele tá lá para te blindar do mal.
Ele não tá lá para fazer você se reavaliar o tempo todo. Ele tá lá para zerar a sua vida e te colocar em um campo onde o mal está fora, está no passado, onde você renasce, onde você não se reavalia de maneira constante, onde a sua teologia Ela não é uma forma de análise de melhora constante, ela é de antes e depois, né? E o que o Flávio tá falando é meio que isso. E usar a mulher como a base disso não só responde a uma necessidade eleitoral, mas ele terceiriza o perdão para uma testemunha.
A ideia de testemunho, a ideia de uma pessoa que vai confirmar que o que ele disse é verdadeiro, né?
E do papel dessa mulher, né, que é uma mulher que é colocada no papel da mulher que vai levando ele para um caminho da honradez. Então ela não tem exatamente um protagonismo. O que a Michelle tá tentando fazer, isso não pode, né, que assumir um protagonismo político, mas ela é uma espécie de portal, sabe? E que dá acesso a um outro caminho para ele. Eu acho muito, realmente muito, muito simbólica a maneira como ele estabelece a relação com ela nesse evento em que ele fala que ele é um homem convertido, né?
O fato dele botar as palavras na boca dela é— e ele diz: ela é quem poderia me julgar. Que também é uma maneira de dizer: você não pode me julgar, quem pode me julgar é ela. E ela já me absolveu.
Se tá tudo bem com ela, e quem é você para falar que você não vota em mim se ela continua casada comigo? E se ela continua casada comigo é porque ela sabe que eu no fundo, no fundo, sou uma pessoa boa.
Exatamente.
Que essa ideia de que existe uma essência pura e que os erros podem acontecer, mas que ele está do lado do bem, basicamente.
Basicamente.
E que é onde eu acho que se espelha na segurança pública, sem querer voltar, não tô voltando no tema. Mas exatamente isso, é tipo assim, tem o mal lá fora, tem o que não é possível de ser redimido, e tem o nosso campo que é intrinsecamente positivo, que ele foi, que ele, que ele— e aí é muito louco porque o Flávio faz essa, ele põe um prazo e uma reconversão que você pode projetar inclusive os crimes comuns dele do passado. Você pode falar, mas essa relação que eu tinha com o Akerós, com Adriano, com esse pessoal, isso aí faz mais de 4 anos.
Minha filha não tinha nascido ainda, eu não era um pai de menina ainda. E que responde muito a esse tipo de macho brasileiro também. Então é isso, ele dá para mulher uma autoridade e a moral para responder à sua fraqueza no eleitorado feminino, que a Michelle acabou de dar uma piorada, digamos assim. Então ele entrega para a mulher agência moral, ela que me tira desse lugar, ela é a força que não me faz com que eu caia no mundo e tudo mais, e ela me perdoa.
Mas no fim das contas ele se comunica muito com um homem, brasileiro é também que tipo comete esse tipo de coisa sem se considerar hipócrita, sem que, sabe? Eu acho uma junção muito perfeita para o reposicionamento de gênero do Flávio Bolsonaro nessa situação que a gente tá passando.
O reposicionamento de gênero, cuidado falar isso, que é isso que vai dar processo, que ele não vai entender muito bem o que você tá gêneros, não é nenhum dele.
Tipo, na nossa guerra de gêneros brasileira, na nossa, nosso caldo voto feminino em voto masculino, eu acho que ele fez um movimento terrivelmente bem feito, até terrivelmente evangélico, terrivelmente evangélico e terrivelmente tático, que pode funcionar muito bem. E olha só, a gente tá 1 hora e 10 aqui, quase 1 hora e 5, A gente falou do Evorcaro uma vez. Quer dizer, ele vai deslocando do verdadeiro escândalo, diga-se de passagem, muito mais recente do que os 4 anos e a crise do casamento renascido dele, né? Que é o financiamento do filme, Dark Horse, Telefonema ano passado.
Pois é, bem recentes, isso aí bem depois do—
isso aí a Fernanda não tem nada para falar. Não, isso aí não é um pouco mais complicado para Fernanda.
Tem uma coisa que eu acho que é interessante sobre isso que você tá falando, da cultura neopentecostal, né? Eu queria falar de um aspecto da cultura neopentecostal que é o aspecto secular dessa cultura. Então, menos do que acontece nas igrejas, em quem de fato é religioso e é devoto e frequenta, mas como quando você tem uma mudança tão grande demográfica no Brasil mesmo, né, de um aumento tão grande do neopentecostalismo neopentecostalismo, nos números, etc., é inevitável que isso também transborde para fora do segmento religioso e que você tenha uma cultura que é secular, que não é especialmente espiritualizada ou religiosa, mas que pega emprestado elementos do neopentecostalismo.
E vice-versa também, né? O neopentecostalismo, ele cresce porque ele também tá respondendo ao momento de mundo, momento do capitalismo brasileiro, momento, né, de que você precisava de uma base teológica a serviço de um outro projeto de país. Então também é conveniente, mas as duas coisas acontecem em paralelo, né? E aí tem algumas, alguns elementos aí que eu acho interessante. O neopentecostalismo, ele continua sendo hoje um fenômeno majoritariamente feminino, né?
Se você for olhar para os fiéis, se você for olhar para quem de fato frequenta as igrejas, é claro que você também tem homens, você tem famílias inteiras e tal, mas você tem mais mulheres do que homens, você tem mais mulheres negras do que qualquer outro grupo demográfico. Então essa é a cara ainda, né, dos fiéis. Mas a expressão pública dessa fé, a expressão mais midiática da fé, eu sinto que ela tá mudando. E é uma mudança sutil, mas primeiro que ela tá ficando muito mais rica.
Você tem muito mais esse segmento de influenciadores, influenciadoras, né? A gente já falou aqui da Virgínia, que diz que é evangélica. Então e que atribui a Deus a própria prosperidade dela e diz que isso é sinal inclusive de que ela é abençoada e portanto essencialmente boa. Então é um pouco a mesma coisa que você tava, né, comentando, né, Bruno? É quase como se a riqueza fosse um atestado de moralidade, porque como que alguém que não é essencialmente bom seria tão abençoado a ponto de ser tão rico?
É uma, é um paradoxo interessante. Então muda, muda o aspecto de classe na expressão midiática, muda, e também o aspecto de gênero. Você começa a ter muito mais homens falando da fé em geral nesses termos, é, ou de uma recuperação de uma masculinidade mais tradicional que é associada à fé e a Bíblia, etc., coisa meio, né, de masculinidade mais, sei lá, mais tradicional ou mais retrógrada, é, ou então falando no seu aspecto mais secular de superação, que como a gente tem uma cultura no campo masculino que é muito calcada na competição e a competitividade é um valor muito colocado, né, na educação de meninos e de homens, etc., e o mercado de trabalho cada vez mais terrivelmente competitivo, e a ideia de que você tem que, né, matar um leão por dia para prover para sua família, é muito difícil operar nesses termos.
A superação, ela se torna um aspecto muito importante da construção até de uma autoestima, de uma presença no mundo, e acho que sobretudo para homens. E isso é emprestado do neopentecostalismo sem necessariamente precisar passar por uma religiosidade de fato, né? Em alguns casos passa, mas em outros não. E aí que eu queria chegar na Copa do Mundo.
Haha, eu sabia que você tava indo para Copa do Mundo.
Ó, ó, por quê, Bruno? Vocês comentaram a Copa, mas vocês não falaram do post do Bruno Guimarães. Eu não sei se ele postou depois.
Acho que eu não sabia desse post, até porque quem me mandou esse post foi A senhora, eu não tinha visto ele antes.
Eu mesma. Eu quero ler o post do Bruno Guimarães pós-pênalti perdido, porque eu acho que ele tem a ver com esse tema, tá? Eu vou ler, eu lerei. Vou lá. Eliminado nas oitavas de final é duro, é sofrido, dói muito, mas será mais um obstáculo para superar. Eu já passei por tanta coisa que só eu sei. Tenho a certeza de que, por pior que eu esteja me sentindo agora, tudo vai passar. O mais louco de tudo isso foi chegar em casa após o dia mais triste da minha vida e a primeira coisa que meus filhos falaram quando acordei foi: papai, vamos jogar bola?
E aqui eu entendi que independentemente de dias ruins ou bons, o futebol será sempre meu grande amor. Assumo a minha responsabilidade como sempre fiz e não é agora que seria diferente. Triste demais pela forma como terminou, mas com a certeza de que Deus sabe de tudo. Te dei glória na vitória e te darei glória na derrota. Obrigado pela oportunidade, Jesus. O sonho não acabou, ele segue vivo no meu coração e no de milhares de apaixonados pelo nosso país.
Tempo agora de refletir, recuperar as minhas forças junto da minha família e voltar ainda mais forte. E vocês vão notar que na minha leitura eu enfatizei o meu, minha, eu, porque o que eu acho mais louco e chocante desse post não é o Jesus ali no meio, que tem um Jesus, tem um Deus, tem uma religiosidade de fato, Isso foi comentado à beça e teve muito comentário sobre a mudança no perfil religioso dos jogadores de futebol de uma forma geral, né?
Evidente.
Mas o que mais me chama atenção nisso aqui não é tanto Jesus e o Deus, é o meu, o minha, o eu, é o protagonismo dele. Não tem time, não tem time, não tem país, entendeu? No final ele fala assim, ah, milhares de apaixonados pelo nosso país, mas ele não tá fazendo— a primeira frase dele você poderia imaginar que ele tá se endereçando à nação, Eliminado nas oitavas de final é duro, é sofrido, dói muito. Como se ele tivesse falando assim: a gente, eu sei que tá doendo para vocês, torcedores, mas juntos superaremos isso.
Daqui a 4 anos tem de novo. Não é, ele não tá falando para o Brasil, ele tá falando dele. Eliminado no singular. E não é o Brasil eliminado, é ele eliminado. Eliminado nas oitavas de final. Eu já passei por tanta coisa, tenho certeza que só eu sei. Por pior que eu esteja me sentindo agora, tudo vai passar. Aí ele fala de chegar em casa, gente, desculpa, foda-se você chegando em casa e falando com a sua família. Ninguém tá nem aí para isso.
Não é sobre o seu sofrimento e como você está se sentindo mal e como você está chateado. É um país inteiro de pessoas decepcionadas, entende? A ideia de que você tá representando uma nação se perde completamente.
E eu quero que ela foi reconhecida, que uma coisa é o país tendo que te desculpar, que sei lá, difícil mesmo, mas e as desculpas para o Vini Júnior, para Não existe, não existe time, não existe pessoal, não existe técnico, né?
Assim, nada, nada além dele de Deus. É de um narcisismo, é de um narcisismo tão absoluto e tão absurdo. E ao mesmo tempo, é isso que é curioso, ele consegue ser ao mesmo tempo hipernarcisista nesse post e não ter consciência da própria importância do que ele tá fazendo.
Claro, é um narcisismo pequeno, pequeno.
Ele é um narcisismo apequinado. Ele é um negócio assim, eu, eu, eu, os meus filhos, a minha casa, a minha paixão, a minha trajetória, a minha carreira, só eu sei. E ao mesmo tempo ele não entende que ele tá ali com 200 milhões de pessoas coladas naquilo, vivendo aquilo, que isso tem uma relação documentada, constatada, com a autoestima de um país inteiro.
É muito direto, mas isso é muito, muito neopentecostal, independente de que se ele é católico, se ele não é, que eu não sei, mas independe disso, porque assim, que nem a Virgínia Vejinha, que a Vejinha luta aqui nos corrigindo, que ela é católica.
Ah, mas eu achei que ela fosse, mas a estética, né, o pentecostal completamente.
Pouco importa, porque tipo, vai ter macumbeiro que respeita essa lógica porque ela não é da igreja, ela é secular, ela é cultural, ela é uma outra coisa, tem uma teologia que explica isso. Mas o Bruno Guimarães tem uma coisa que E você falou bem, que é o narcisismo pequeno, que é que eu vejo muito disso por aí, que uma das coisas que mais me angustia, que é ver as pessoas escrevendo no carro delas que foi um presente de Deus. E independe qual é o carro, às vezes pode ser um Corsa 94 fodido ou pode ser um Mercedes, mas você fala assim O criador das galáxias, do universo, da vida, de todas as espécies, o ômega total assim, o que ele reservou para você foi um automóvel, cara?
Foi esse Corsa? Foi essa Mercedes que você paga o seguro? Nunca foi sorte, sempre foi Deus. E você vai ver a conquista que a pessoa tá falando que Deus, o criador da matéria e dos animais, dos êons geológicos, ele me deu um relógio.
Isso aqui, mas o que a pessoa quer dizer quando ela diz que nunca foi sorte, sempre foi Deus, no fundo é isso, é que aquele bem material ele é sinal de bênção e portanto ele significa superioridade moral. Se fosse sorte, ou se fosse até trabalho, você poderia falar não, foi trabalho, foi dureza, foi investimento, foi poupança, poderia ser diretamente associado a um valor moral positivo. Mas o trabalho, ele ainda é uma coisa que você faz.
E o que você quer dizer é que você é eleito, você é escolhido, você é intrinsecamente bom. Exatamente o que a gente tava falando sobre o Flávio Bolsonaro. Você é bom, você pode errar porque você é bom, você é bom.
Não, tipo, Deus te assinalou, né, te dando esse curso, te dando esse curso 94, ou ou sem juízo de valor, ou a Mercedes blindada, ou o Porsche. O ponto não é esse, é que assim, tendo em vista que foi Deus que deu para você, é o narcisismo minimalista. Assim, é tipo assim, é isso.
Eu li, eu li esse post do Bruno Guimarães e eu fiquei assim, gente, o homem não consegue, ele consegue ao mesmo tempo achar que tudo isso é sobre ele, tudo que está acontecendo aqui é sobre ele, é sobre se ele ficou chateado, se ele ficou decepcionado, se ele tá de dor de cotovelo, E ao mesmo tempo ele também não consegue entender que ele de fato está numa posição de responsabilidade gigantesca. É uma loucura. É uma loucura completa.
Ele tem um lugar cósmico mesmo que ele não consegue ver. Tem, tem. É épico. É isso que eu tô falando. É épico que ele não consegue ver.
Você disputar um pênalti numa Copa do Mundo num país apaixonado por futebol é você estar num lugar realmente épico. Você é um personagem épico.
Mas olha que louco, até hoje as pessoas que nasceram em 1994, mesmo ano do Corsa, Elas sabem que o Zico perdeu o pênalti em 82. Elas sabem disso, cara. Eu quase não lembro que foi o Bruno Guimarães que perdeu esse pênalti, exatamente porque está se perdendo a dimensão mitológica da seleção brasileira, do significado do futebol, meio por conta desses apequenamentos psíquicos e teológicos mesmo. E quer ver um outro indício disso muito forte?
Você falando desse post dele, me veio na cabeça Meio que é voltando a minha metacrítica à Casé TV, que é, eles, eu não aguento mais eles repetindo 5 vezes por minuto que é a Copa dos Protagonistas, a Copa dos Protagonistas. Cala a boca!
Uma que assim mudou o nome dos caras, é a Copa do Mundo, é a Copa do Mundo.
Não, tipo assim, craque, craque existe, O Mbappé não é protagonista, ele é um craque, ele é um dos gênios dessa Copa. Igual toda Copa tem gênios, essa tá particularmente boa, tem grandes jogadores mesmo em campo nessa Copa, mas é protagonistas. E aí na hora que um zagueiro se mete a fazer um lançamento lá na frente porque tá desesperado e o gol sai, a Copa dos protagonistas de novo, o zagueiro é protagonista, ele escolheu ser protagonista.
E tipo, fora da preguiça, da falta de criatividade de fazer análises melhores, mas ela responde esse momento cultural que a gente tá falando, que é uma necessidade do aspecto secular do neopentecostalismo.
Exatamente isso, não tem nada a ver com religiosidade a Copa dos Protagonistas, mas a ideia de protagonismo, ou a Virgínia ser católica, mas a estética neopentecostal toda, todo o formato, amigo.
Não, mas não é sobre você, mas não é faz isso é sobre você, é sobre você, é sobre a sua vida individual.
E aí eu acho que vale a gente lembrar, eu citei aqui outro dia um artigo da Laura Carvalho, do Guilherme Klein, que tá muito, muito bom, que se chama Paradoxos do Lulismo: A Desconexão entre Resultados Macroeconômicos e Percepção sobre Economia. Eu sei que esse título não parece tão animado, mas é muito bom.
Leiam depois que o Brasil Sem Medo, precisamos de uma coisa nessa, Brasil Ingrato, tipo, precisava estar escrito assim.
Eu leio esse título, fico assim salivando. Eu sei que não é meio Brasil ingrato, é meio Brasil ingrato, exatamente. Mas basicamente eles falam de várias coisas, né? Não vou falar de tudo, mas tem um fenômeno que é muito consolidado na literatura econômica, que é quando a inflação aumenta, né, as pessoas tendem a atribuir isso ao governo, a atuação do governo. Quando a renda aumenta, as pessoas tendem a atribuir isso a mérito próprio.
Então é muito difícil você compensar aumento de preço com aumento de renda como governo, né? Porque você poderia dizer, não, veja bem, os preços aumentaram, mas a renda média aumentou também, então você teve um ganho real, por exemplo, né, no poder de consumo das famílias. Que não é necessariamente o caso no Brasil, mas muitas vezes é. Ou existe uma— e a maneira que você tem também de tentar compensar aumento de preço é você tentar ter mais liquidez na mão das pessoas.
É. E no entanto, não se converte em popularidade para o governo, porque as pessoas continuam botando a culpa no governo em relação aos preços. Mas a o ganho de renda é mérito delas. E aí tem vários fatores que os autores atribuem a esse fenômeno, mas eu queria aqui trazer o aspecto religioso. Eu não tenho nenhuma pesquisa para corroborar a minha tese, mas eu tenho certeza que contribui, porque é uma visão de prosperidade pessoal do nunca foi sorte, sempre foi Deus, nunca foi governo, sempre foi Deus, nunca foi a seleção brasileira ou o é só Jesus na causa.
E aí você atribui a uma força que é muito dissociada do governo. No entanto, as adversidades vêm do mundo, porque as adversidades são as coisas que você precisa superar, e você supera com ajuda de Deus. Então é uma— acho que tem desdobramentos também para bem para além da Copa do Mundo, mas é isso. Complicado.
Que bucha!
É nesse caldo que estamos. Tudo culpa do Bruno Guimarães, claramente. Ele que tem que resolver tudo sozinho, ele e Jesus.
E olha, você tá de parabéns porque a gente passou a última meia hora falando mal da teologia e da cosmologia neopentecostal sem você defender uma vez o catolicismo publicamente.
Você só deixando em cima, você deixa ali como eu quero defender o catolicismo, como assim mético, entendeu? Gosto de festa junina, é isso. O aspecto secular do catolicismo, vamos convir que é muito mais divertido. Nos deu as festas juninas, as canjicas, tá bom, né? Tá melhor, tá melhor.
É que eu realmente passei uma década da minha vida meio na escola século 20 psicanalítica, de falar assim, a culpa católica, a pior coisa que tem, de projetar uma neurose, criar E eu tô assim no mundo que eu tô assim, volta a vergonha, volta o pudor, volta a culpa católica, volta, volta, volta. A gente tá precisando de culpa, joga uma capa de culpa no mundo e gratina, porque a gente tá precisando urgentemente, cara.
Obrigada, Bruno, viu?
Não tô defendendo a Igreja Católica, mas o que eu tenho em mim ainda, que hoje em dia eu falo assim, a gente precisa disso de maneira secular, que acho que é onde a boa psicanálise e outras maneiras de fazer, e maneiras de filosofia mesmo, filosofias abordagens cumprem esse papel de que você— ninguém renasce aqui e ninguém é intrinsecamente mau nem intrinsecamente bom, mas é um processo doloroso de análise, de confissão, de auto-observação, de metaconsciência, de que você deveria muito mais oferecer do que pedir, de que Deus não te dá bênçãos individuais, né, de que as coisas em linha geral são medidas mais pelo altruísmo do que pelo sucesso individual, né.
E é muito louco como há muito pouco tempo essas ideias de ostentação e de luxo e de beleza física e de performance e tudo mais eram literalmente associadas a coisas diabólicas, né, era como o diabo se expressava literalmente. Né? E houve essa inversão, exatamente, e é terceirizando o mal exatamente para as camadas mais pobres e com menos sorte na sociedade. Porque lamento informar, sempre foi azar e sempre foi sorte quando você tem algum destino que não lhe diz respeito mesmo assim, né?
Que é o CEP onde você nasce, a raça, o poder aquisitivo da sua família, a escola que você estudou, E enfim, e as corrupções da sua história política que não foram devidamente punidas e investigadas.
Então é sempre importante. Eu queria só fazer uma ressalva porque eu sei que a análise da fé dos jogadores e da espiritualidade dos jogadores foi uma coisa que foi feita, né, no Twitter, no Instagram, nas redes, nas últimas semanas desde a derrota. E eu acho que essa tese, do jeito que viralizou, ela tem um tanto de bobagem reacionária também, tá? Tem um pouco de intolerância também. Eu não acho que Eu não acho que ninguém perca, ninguém perde pênalti por ser evangélico, não é isso que eu tô dizendo.
Ah não, pelo amor de Deus!
Evidentemente não é essa. O que interessa aqui não é a fé dos jogadores, né, mas é que a gramática do mérito individual, da recompensa divina, isso virou o idioma oficial do Brasil, né, no vestiário da Copa do Mundo, no culto e na urna. E esse idioma em que o coletivo não tem sujeito indivíduo, em que só o indivíduo tem sujeito e que, portanto, o governo só pode aparecer como culpado, nunca como autor, em que não existe nem prestação de contas para coletividade e nem passar juntos pelas adversidades.
A superação de obstáculos, ela é uma trajetória pessoal sempre. O Bruno Guimarães não tá falando assim: Brasil, vamos passar por isso juntos. Eu estou, eu tô, me desculpa. Ele fala assim: eu assumo a responsabilidade. Mas nenhum momento ele de fato assume responsabilidade. Ele nunca fala assim: Desculpa, fiz merda. Vamos junto, a gente vai conseguir. Eu sinto muito para você, criança de 7 anos, que ela vê. Eu supere isso e que a gente possa superar, e que eu possa estar à altura, e que eu tenho outra chance de contribuir, né?
Se me derem essa chance, se vocês, esse país me der essa chance, que não foi Jesus, caramba, foi o Brasil. Pelo menos o técnico, sei lá, agradece a outra coisa. Mas em todo caso, essa gramática, ela, ela é, ela é um problema, e ela é um problema político, porque ela esvazia coletividade de significado político. E ao fazê-lo, tudo passa ou pela superação pessoal ou pela punição dos indivíduos, ou é a castração química do estuprador.
É como se não houvesse coletivo, portanto não existe política pública e não existe método de você coletivamente inibir o crime, porque você não vai inibir o crime, você tem que simplesmente punir o criminoso, porque o criminoso ele é criminoso por uma questão também de trajetória pessoal. Quase como se aquilo não fosse inibível, no máximo é punível.
Punível. E tem uma outra relação com o Flávio nessa, que é a redenção dele, que aliás aparentemente é de 6 horas depois, vem aonde? No seio familiar. São os filhos que acordam ele para jogar bola.
É isso.
Ele não escutou alguma coisa na TV, não foi o povo, não foi uma criança na rua que viu ele e deu um abraço e falou, eu tô contigo. Não, foram os filhos dele em casa que perdoaram ele. Então tá tudo perdoado. Então, se meus filhos me perdoaram, quem é você para não perdoar, para falar que eu perdi esse pênalti, a culpa é minha?
E com esse comentário, acho que podemos encerrar a edição de hoje do Calma Urgente. Bruno, tô encerrando Perfeito, tô fazendo jus ao lugar aqui, tá?
Só que você não puxou dica, livro, Clube do Livro do Calma Urgente.
Gente, o Clube de Cultura do Calma Urgente está agora a ponto de começar o seu segundo semestre. A gente tá lendo o livro Livre, que tá até aqui na minha mão, da Leia e Ipe. Esse livro aqui a gente tá lendo agora em julho e a gente vai começar as discussões do livro no início de agosto. Então se você ainda não entrou no segundo semestre do clube, essa é a sua chance de entrar. Antes da gente começar os próximos encontros. É só entrar em calmourgente.com e se inscrever.
Tá sendo muito legal. E aí eu vou fazer a minha, a minha dica de hoje. Na verdade, não é nem de um livro, nem de um filme, nem nada assim, mas é do Bond, bond.org, que acabou de lançar uma plataforma muito legal de cursos e, enfim, aulas sobre ativismo, sobre mudança de mundo, sobre como fazer essa mudança acontecer. E o primeiro curso que foi lançado pela plataforma é com o Krenak e tem esse título que eu achei a cara do Bruno, que é Encarar o Fim de Mundos com Coragem e Rebeldia.
Então, na verdade, é um curso do Krenak, mas que poderia ser do Krenak com o Bruno. E tá muito legal mesmo, tem um monte de gente legal dando curso. Eu gravei um curso do quê? Mas só sobre ativismo e sobre redes, tá lá. Como aguentar o Bruno e o Gregório há mais de 10 anos? Poderia ser também, não seria ruim, com muito Jesus na causa.
Ia ter duas pessoas inscritas, a Laila e a Gi.
É isso. Não, ela não precisa de curso para isso, elas são mestres, doutorandas. Vai lá, Bruno.
Não, eu quero recomendar um livro que a Alessandra já recomendou dentro daquelas dicas que a gente é sempre criticado porque a gente lê livro em inglês e acaba recomendando eles, mas acabou de sair em português pela editora Rocco. Eu ainda não recebi, mas quero recomendar O Império da IA, Empire of AI, da Karen Hall, que é uma jornalista, fez um livraço grande, mas muito bem feito, muito aprofundado não só de dados, investigação e tudo mais, mas o tipo de reflexão que ela é capaz de produzir.
Ela me lembra muito a tradição da Naomi Klein, esse tipo de grande visão de um problema econômico e tecnológico. E felizmente vai ser publicado agora. É até, não sei se a gente tem condição, mas é um livro que eu tentaria até puxar em algum momento para o nosso clube de cultura, se a gente ainda tiver espaço para manejo. Saiu pela Editora Império da IA, da Karen Hao.
É o livro que eu recomendo. É um livraço. Ok, agora sim, né, Bruno? A gente pode encerrar. Obrigada para quem nos escuta. E semana que vem tem mais com Gregório de volta.
Beijo, turma!
Beijo, gente! Tchau, Bruno! Amém, amém! O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção temos Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Toni Costa. Na pesquisa e roteiro, Luiza Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes.
Na identidade visual, Pedro Inoue. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.