Episódios de Calma Urgente

Mimimichelle. Bolsonaros e o Pós-Jair

29 de junho de 20261h33min
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O que o vídeo da Michelle revela sobre a disputa de poder pelo comando do bolsonarismo. E o que Michelle ainda pode representar nas eleições.

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O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo

Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez

Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_

Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Na Edição de Cortes, Julia Leite

Nas Redes Sociais Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Identidade visual, Pedro Inoue

Consultoria de Comunicação, Luna Costa

Participantes neste episódio3
A

Alessandra Orofino

Host
B

Bruno Torturra

HostJornalista
G

Gregório Duvivier

HostComediante
Assuntos7
  • Conflitos internos no bolsonarismoRacha interno no PL · Papel de Michelle Bolsonaro · Papel de Flávio Bolsonaro · Papel de Jair Bolsonaro · Ciro Gomes · PL Ceará
  • Posicionamento de Michelle BolsonaroPotencial eleitoral de Michelle Bolsonaro · Comparação com Serena Joy (O Conto da Aya) · Disputa pelo espólio de Jair Bolsonaro · Michelle Bolsonaro · Flávio Bolsonaro · Tarcísio de Freitas
  • Bastidores do vídeo 'Isso é Papo de Hyundai'Timing do lançamento do vídeo · Estética e simbolismo do vídeo · Declaração de guerra ou não apoio · Michelle Bolsonaro · Flávio Bolsonaro
  • BolsonarismoDesafios para a esquerda em enfrentar Michelle · Reorganização da direita em torno de Michelle · Fragilidades da candidatura de Michelle · Michelle Bolsonaro · Flávio Bolsonaro · Jair Bolsonaro
  • Feminismo CristãoSolidariedade de Maria do Rosário · Instrumentalização da misoginia por Michelle Bolsonaro · Misoginia no bolsonarismo · Michelle Bolsonaro · Maria do Rosário
  • Análise da live de Paulo FigueiredoCríticas de Paulo Figueiredo a Michelle Bolsonaro · Masculinismo e misoginia na fala de Figueiredo · Desqualificação de Jair Bolsonaro · Paulo Figueiredo · Michelle Bolsonaro · Jair Bolsonaro
  • Pauta Conservadora e Direitos das MulheresAnálise da personagem Serena Joy · Contradições da mulher conservadora midiática · Adaptação televisiva de O Conto da Aya · O Conto da Aya (livro) · Margaret Atwood · Serena Joy
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GDGregório Duvivier

Olá, queridos ouvintes e espectadores do Calma Urgente! Aqui é Gregório Duvivier e a gente antecipou a nossa gravação. Sim, a gente está gravando hoje no domingo por causa do jogo do Brasil. Então esse vídeo foi gravado ontem, você que está assistindo aí hoje na segunda-feira. Eu estou aqui no sul do país, mais precisamente em Gravataí, onde fiz peça ontem. Hoje à noite vou para Caxias do Sul. Então eu queria chamar aqui meus amigos, cada um num lugar do Brasil, minha amiga Alessandra Orofino, do Rio de Janeiro, e Bruno Torturra, da Mantiqueira.

?Voz B

Da Mantiqueira, salve, Greg!

GDGregório Duvivier

Olá, tudo bem com vocês, gente?

AOAlessandra Orofino

Bom dia, bom domingo!

?Voz B

Bom domingo!

GDGregório Duvivier

Bom dia, pois é, estamos gravando no domingo por causa da seleção brasileira, que amanhã a gente vai assistir.

AOAlessandra Orofino

Espero que valha a pena.

GDGregório Duvivier

Espero que valha a pena.

?Voz B

Quando esse programa for ao ar, nós já estaremos eliminados pelo Japão, ou se der zebra, encaminhados para a oitava de final, né? Que eu espero zebra. Eu tô esperando que a gente vá para as oitavas numa zebra épica contra o Japão. Vou torcer por isso. Nada é impossível.

GDGregório Duvivier

Nada é impossível.

AOAlessandra Orofino

E esse é o otimismo com o qual convivemos todos os dias, caros espectadores.

?Voz B

Eu não pareço otimista? Eu não pareço otimista? Eu tô achando que vai acontecer.

GDGregório Duvivier

Eu também tô torcendo pelo improvável, Bruno. Eu voltei a acreditar. Eu tô com raiva da seleção brasileira por isso, por ela me fazer acreditar.

?Voz B

O Chico Barney que fez essa análise genial, ele acabou o jogo, ele falou: o pior aconteceu, nós estamos com esperança, a gente gostou da seleção, é a pior coisa que podia ter acontecido.

GDGregório Duvivier

Exatamente, Bruno, é o pior que pode acontecer. Eu concordo com o Chico Barney, a gente tá acreditando. E toda vez que a gente acreditou nos últimos 24 anos, a gente se ferrou. Então eu queria torcer pela zebra mesmo, torcer pelo inesperado. Olha que triste, né? Que o melhor não vença.

AOAlessandra Orofino

É isso que a gente tem que torcer.

GDGregório Duvivier

Que se vencer, desculpa, gente, é a França e Argentina. É complicado, complexo. Mas enfim, a gente vai falar do tema da semana, que é outro, que aliás, mas tem um pouco a ver com Copa.

AOAlessandra Orofino

Eu não vou me aventurar a tentar defender a seleção brasileira numa hora dessas. Eu acho que a gente tem outros assuntos.

?Voz B

Não faça isso publicamente, porque no privado você me ligou para falar: "Essa seleção não tem a menor chance. A Escócia não jogou nada." Alessandra me ligando para falar de futebol, tá?

AOAlessandra Orofino

Cara, a que ponto nós chegamos?

GDGregório Duvivier

A que ponto nós chegamos? O fato é que durante o jogo Brasil-Escócia, em que o Brasil estava goleando a Escócia, por algum motivo que até hoje eu não entendi, Michelle Bolsonaro resolveu lançar um vídeo contra o Flávio. Quer dizer, os motivos para ela lançar esse vídeo são muitos, a gente vai falar de todos eles aqui. Obviamente, Michelle tem todos os motivos do mundo para odiar o Flávio, tanto ou mais do que você, espectador.

O mistério para mim é por que ela escolheu lançar esse vídeo na hora do Jogo do Brasil. Ah, mas foi impulsivo. Não foi, é um vídeo editado. Provavelmente é um vídeo que, inclusive fontes dizem que ele foi gravado alguns dias antes de ser lançado. Por que escolher, de todos os horários possíveis, a hora do Jogo do Brasil? É algo que me escapa, porque todo mundo que entende minimamente de internet, um pouco, sabe que a internet ela é meio monotemática.

Se você quer afundar um assunto para sempre, você lança ele no— não vou nem falar de Jogo do Brasil, tá? Você lança nele uma final de Big Brother, uma coisa assim. O Jogo do Brasil é a maior— é o maior evento que há no Brasil. É maior do que eleições, é mais do que, sei lá, é o maior monotema do Brasil, é a Copa do Mundo. Você sabe disso, espectador. A gente mesmo, nós que não somos os maiores boleiros do mundo, não estamos gravando vídeo porque a gente quer estar focado na segunda-feira no jogo do Brasil.

Então estava todo mundo assistindo ao jogo. E isso daí, não vou dizer que morreu o assunto, que é uma bomba tão grande que Michel lançou, que o fato é que não morreu. Não dá para dizer que o vídeo morreu, não deu em nada, mas certamente teria dado em muito mais coisas se fosse lançado em qualquer outro horário no dia seguinte. No dia anterior, na manhã do dia do jogo, qualquer horário, não exatamente no jogo. Era mais um jogo que o Brasil tava goleando, tava todo mundo com clima de 'é, finalmente Brasil chegou, ele veio, estamos iludidos de novo'.

Então essa é a minha primeira dúvida em relação ao vídeo da Michelle. Mas fora isso, ele estava tipo delicioso de assistir. Ele, pelo menos para mim, foi assim um regozijo, porque o que a gente vê ali, me diz se vocês concordam comigo, É uma mulher percebendo-se minoria dentro do patriarcado e entendendo que ela foi enganada, de que o PL Mulher afinal era uma piada. Aquilo que ela veio, o projeto da vida dela, que é o PL Mulher, que é botar candidaturas femininas de direita assim, placar.

Ela vem fazendo esse trabalho no Brasil inteiro. Unindo várias candidaturas femininas e tal de extrema-direita, é o projeto ao qual ela vem se dedicando exclusivamente, assim, totalmente, é para os homens que mandam no partido uma, assim, é irrelevante, é ridículo. Ou seja, ela descobriu a misoginia ao seu lado, né? Isso daí tem algo de muito flagrante, do tipo: olha, jura que o pele mulher então é uma piada? Sério? Que a extrema-direita odeia mulheres, mas tem um lado também bonito de ver o Flávio tomando a maior porrada talvez da sua campanha.

Eu acho que eu dei maior do que a Dark Horse. Não sei se vocês concordam. É algo realmente muito vergonhoso por um motivo: porque o voto que ele mais precisa é o voto feminino. Todo mundo sabe disso. Não precisa fazer uma campanha muito complexa pra dizer que é o voto que tá mais em disputa. A gente já falou disso aqui, a Alessandra vai saber falar melhor, é claro, mas a Michele era a grande aliada, talvez até a única aliada dele, na busca por esse voto.

Era não, deveria ser. E ele não fez nada por esse voto. Inclusive me lembro o pai dele em relação à vacina, tantas coisas, o método do Flávio, porque assim, era só ter respondido, era só ter mandado uma mensagem, um coraçãozinho, obrigado, Michelle, estamos juntos, é qualquer coisa. Era só ter, era muito fácil ele ter mantido a Michelle ali ao seu lado, eu acredito, sabe? E ele, pelo jeito, pelo que ela narra, pelo menos ele não fez o menor esforço E ter uma relação minimamente cordial com a madrasta, que além de madrasta é também, assim, talvez o maior nome da direita, inclusive é a maior presidenciável, é a melhor presidenciável da direita, sempre foi a Michelle, qualquer campanha diz, qualquer pesquisa diz, a Michelle é fortíssima.

Então ainda teria esse motivo pra ele, não diria puxar o saco, mas pelo menos manter uma relação cordial com ela. E ele é burro o bastante pra maltratá-la, pra humilhá-la, pra dizer que ela não entende de política, enfim. É claro que ela vem, então que bonito ver essa vingança, que bonito ver eles se batendo. Mas eu não sei o que mais chamou a atenção de vocês. Pra mim tem também uma questão que é o seguinte: a estética que ela escolheu.

Não é um vídeo desabafo. Até acho que ele iria melhor na internet se ele fosse um desabafo. Porque a internet ela gosta mais de vídeos que parecem espontâneos, né? Então se ela gravasse um vídeo falando "não aguento mais" e tal, sem corte, eu acho que até iria melhor. Mas não, tem corte, tem edição. Tem efeitos no vídeo, no meio. Tem um enquadramento, tem uma luz, tem uma escolha de símbolos, inclusive todos eles dizem algo. Tem aquele simbolozinho que pra mim antigamente era o headbang, é o símbolo do... não, do mano cornuta, é a mão chifruda, que é o símbolo do rock and roll do Black Sabbath, né, do Johnny Dio.

Pra mim sempre foi esse símbolo da... e também antes disso era o símbolo tradicionalmente associado ao demônio ou ao mau olhado, coisa assim, mas que foi ser ressignificado pela comunidade surda que significa É "eu te amo" em libras. Então isso aqui é um símbolo universal de libras que ela botou ali, que é um "eu te amo". Não, ela não virou metalheira, tá? Pra você que não conhece libras, ela não virou nem metalheira, nem satanista, menos ainda.

Ela só tá falando "eu te amo" em libras para o mundo inteiro entender. E tem também, claro, um símbolo de Israel ali, obviamente, que é meio contraditório com "eu te amo", mas bora lá.

?Voz B

Eu te amo, mas um grupo bem específico de pessoas, né?

GDGregório Duvivier

Exatamente. 'Eu te amo, desde que você não seja palestino, desde que você não seja antisionista' ou alguma coisa do tipo. Tá lá um Israelzão. Ou Flávio, exatamente. E claro, a caneta BIC, que eu adorei esse detalhe, que ela tá o tempo todo com uma caneta BIC ali, que era o símbolo do Bolsonaro. Sempre falava: 'Eu tenho a caneta na mão, a minha caneta BIC.' Depois ele trocou para a Compactor, enfim, foda-se. Talvez inclusive ela esteja com uma Compactor, não sei.

O fato é que ela tá com uma caneta esferográfica, que era o grande símbolo fálico do Bolsonaro, que diz muito, aliás, sobre o seu pinto. Desculpem por essa piada. Gente, a coisa caiu muito.

?Voz B

Um pinto azul, Greg? É meio isso que você tá falando?

GDGregório Duvivier

Não, eu tava pensando mais como ele é um objeto fálico péssimo, né? Mas ele sempre brandia a caneta azul. E o fato é que todos os símbolos estão lá, os símbolos estão muito bem escolhidos, né? Ela tá com uma camisa que remete a trechos da Bíblia, aos Gálatas. Se não me engano. São várias palavras que estão nesses trechos da Bíblia, então, que às vezes remetem a versículos. Então, tá tudo lá, um vídeo muito bem pensado nessa daí, que me parece ser uma declaração de guerra.

Ela diz que é apenas uma declaração de não apoio, mas eu acho que vai muito além disso. E eu queria— bom, vamos começar, falei pra caramba de como é que começou isso. E uma das coisas que mais me alegra é o fato de que tudo começou, em certa medida, com quem? Ciro Gomes. Sim, Ciro Gomes. Será? O homem não serve para nada. Você pode estar pensando isso: o Ciro Gomes não serve para nada, nunca ganha nada, Ciro Gomes nunca ajudou a esquerda, Ciro Gomes nunca— mentira, tá aí ele ajudando outra vez.

Se tem um racha na campanha Bolsonaro, graças a ele, tá? Assim, porque André Fernandes lá, ele se aliou a bolsonaristas no Ceará, ela ficou puta com essa aliança, com toda razão, porque realmente ele tava falando que o marido era um genocida ontem. Marido dela, e ela não tem o pragmatismo, muitas aspas, do filho. Por pragmatismo eu quero dizer a safadeza mesmo, a liquidez moral do filho. E ela falou assim: não, isso daí eu não compro.

E a partir daí parece que começou um racha mais público. Foi a primeira vez, quer dizer, acho que o racha sempre existiu, tá? Dizem que no governo esse racha já era muito claro, todo mundo sabia que ela odiava os filhos e vice-versa, sobretudo Carlos Bolsonaro. Mas ao que parece, agora o racha, ele, o racha apareceu graças ao Ciro, ele apareceu no Ceará, tô certo? Como é que começou isso, Alessandra? Sabe dizer?

AOAlessandra Orofino

Nossa, Greg, você passou, você passou por muita coisa. A gente vai ter que voltar em vários dos temas. Você falou do timing, você falou dos símbolos, que eu tenho outra interpretação de alguns desses símbolos. Enfim, acho que a gente vai ter que voltar em várias coisas que você já colocou. Mas para ficar—

?Voz B

Defendeu ela, que também é uma coisa polêmica.

AOAlessandra Orofino

Tem muita coisa aí para a gente falar. Vamos, vamos por partes. Mas falando da questão do Ceará, Você já resumiu um pouquinho, né? A gente tem de um lado, dentro do PL cearense, então a gente tá falando de uma discussão que tá se dando dentro do partido, né, dentro do partido do PL no Ceará. E de um lado você tem o André Fernandes, que defende aliança com Ciro Gomes e trabalha para emplacar a candidatura do pai dele, que é um deputado estadual e pastor, o Alcides Fernandes, que tá querendo se candidatar ao Senado, né?

E do outro lado tem esse grupo que é ligado a Michele Bolsonaro e que articula o apoio ao Girão no governo e a deputada Priscila Costa no Senado. Essa é a Priscila, a qual depois a gente vai falar, já já o Paulo Figueiredo vai se referir na live que ele fez depois do vídeo da Michelle, mas a gente vai chegar lá. Então a Michelle, ela tá já há bastante tempo tentando intervir essencialmente nessa decisão de como que o PL vai se comportar em relação a essas candidaturas lá no Ceará.

É, a questão é que cada um deles vai dizer que o Jair tem uma postura diferente em relação a essa disputa, né? Então, no vídeo que a Michelle faz, ela diz que o Flávio e o resto do partido não estariam honrando a determinação do Jair Bolsonaro. Ela qualifica esse apoio ao André Fernandes e, portanto, ao Ciro como um ato de traição contra o Jair Bolsonaro. E o Flávio obviamente defende uma posição diferente. O fato é que o Ciro já, e aí das poucas coisas que o Ciro foi bastante certeiro, ele já classificou o entorno do Bolsonaro como, abre aspas, um bando de imbecis, picaretas da rachadinha, ladrões e corruptos.

E falou, né, falou que o Bolsonaro sem dúvida tentou dar golpe, falou que enfim, então Existe um longo histórico do Ciro se referindo ao Bolsonaro, especificamente ao Jair e ao entorno dessa forma e nesses termos. Então a Michelle, ela tem muita munição para dizer: esse cara não pode fazer aliança com a gente. Então, e até ano passado o PL dizia que não havia afinidade com o Ciro, o Rogério Marinho várias vezes fez declarações anti-Ciro, então Tem um histórico do PL falar: "A gente não vai se aliar ao Ciro", e depois existe uma virada e essa busca por uma aliança com o Ciro.

O que é difícil pra uma pessoa com perfil político como a Michele, porque a Michele se ancora muito mais numa postura de pureza ideológica do que de capacidade de formar alianças, entende? De fato, na família, O Flávio, ele é esse cara que já tá na política há muito tempo, que já tá no Senado, que cria pontes com diferentes campos. Então ele tenta encarnar essa, digamos, esse personagem do, como ele mesmo fala, do Bolsonaro vacinado, né?

E a Michele não. A Michele, ela tá muito mais numa perspectiva de "eu encarno a pureza ideológica do bolsonarismo". E o vídeo, de alguma forma, marca esse racha publicamente nesses termos, que são termos muito favoráveis à Michele. Eles são os impuros, os que estão dispostos a firmar alianças com aqueles que nos odeiam e que não merecem o nosso apoio. E eu sou a pessoa que está tendo uma coerência não só com o bolsonarismo, mas segundo ela, com o próprio Jair.

Vou passar para o Bruno, mas um elemento que você destacou, Greg, que acho que tem a ver com isso é o fato do vídeo ter sido planejado, né? De ter sido claramente planejado, editado com lettering, não é um vídeo de desabafo, como você disse, né? E eu sinto que tem a ver com isso, com essa atribuição que a Michelle faz implicitamente de, digamos, de apoio do Jair pra esse vídeo. Em alguma medida, ela nunca fala assim: "Meu marido sabe que eu estou gravando esse vídeo, foi ele que pediu." Ela não diz isso.

Mas ela fala que Flávio e companhia e o PL no Ceará estariam traindo o Jair. E ela faz um vídeo que justamente por não ser um vídeo desabafo necessariamente requer, ou teria requerido tempo, dedicação, equipe na casa, gente filmando. E o Jair tá lá, né, ele tá em casa. Então é muito pouco convincente a ideia de que ele não teria sabido que o vídeo estava sendo produzido. Coisa que se ela tivesse feito um vídeo de celular sentada no banheiro, ficaria muito mais com cara de "estou fazendo aqui isso escondida, sem meu marido saber".

Ela sentada num escritório, com um cenário, né. Aquilo foi filmado por uma equipe, claramente. Tá sonorizado, tem teleprompter. Aquilo não é uma estrutura que seria razoável de se imaginar que ela conseguiu montar dentro da própria casa sem que o Jair soubesse. Então acho também que ela tá comunicando, ela tá comunicando que aquilo foi preparado de propósito, porque ela precisa, mesmo que ela não possa afirmar, ela precisa que o espectador acredite de alguma forma que aquilo foi feito com, no mínimo, a conivência do Jair. Vai lá, Bruno.

?Voz B

Totalmente. Eu acho que não só do Jair, acho que tem esse ponto com toda certeza, Mas algo que ela tá demonstrando de muitas maneiras nesse vídeo, que ela tem grupo político, ela tem equipe, ela tem força, ela tá representando algo maior do que si mesma. E é nesse ponto que eu acho que vocês estão sendo— eu não tô falando que vocês achem isso, mas vocês falaram de uma maneira que acho que é muito generosa com a pureza da Michelle, para usar uma expressão que a Alessandra utilizou, meio que como se ela fosse ideológica que não suporta a incoerência de ter um crítico do seu marido e dos filhos na sua chapa.

Eu acho que ela muito provavelmente, ela estaria bem confortável com o Ciro no campo se o Ciro tivesse apoiando os candidatos dela. E acho que isso é uma coisa assim, ela não tá fazendo isso porque ela descobriu misoginia no PL, ó meu Deus do céu, me caiu uma certa ficha aqui. Eu acho que não há dúvida de que a direita e o PL e a família dela extremamente misógina, mas vem de uma misoginia mais doméstica, que antes da misoginia estrutural do é partido tem esse fato objetivo de que a família se odeia, ninguém gosta um do outro, é uma treta absurda, e ela é um pivô absurdo do ódio dos filhos.

Isso é documentado, tem matéria, tem gritaria, tem taca coisa na parede, né? Então o que tá acontecendo é que é uma jogada de poder dela. Ela falando assim: eu tenho um campo meu, eu tenho candidatos e candidatas que eu quero ver é emplacados. E a sensação que eu tenho, que é meio óbvia e que muitos indícios apontam isso, é que o partido tava assim, ia mexendo para isolar ela com o Flávio na cabeça de chapa, que o grupo dela tava perdendo espaço.

E o que ela tá fazendo, e aí eu acho que nem acho que botar na Copa do Mundo tem uma explicação tão assim fria, porque eles todos, eles são atrapalhados, burros, inconsequentes, não sabem o que estão fazendo bem. Mas eu acho que botar na Copa pode ter uma explicação um pouco mais tática mesmo, que é não causar dano máximo, que é tipo dar na canela, mas não dá no joelho. Entendeu? Tipo, olha o que eu sou capaz de fazer. É de risco uma linha no chão, mas ao mesmo tempo reduz o potencial de repercussão disso no curto prazo, sabe?

É de falar assim, eu tô disposta a ir para cima, mas vamos mudar de assunto. Deixa a seleção entrar em campo, deixa a pauta virar, deixa o jornalismo tá totalmente capturado. Ainda assim, o vídeo teve mais de 10 milhões de citações em rede social. É uma coisa muito difícil de conseguir. Não é uma viralização banal de semana em semana. Isso não é o monotema da nossa semana. Isso é nível Big Brother, isso é nível Copa do Mundo, mesmo durante o jogo da Copa do Mundo. O que prova mais uma vez o potencial gigantesco que a Michelle tem, né?

AOAlessandra Orofino

E agora, Bruno, só para— eu não acredito na pureza ideológica da Michelle, mas que essa foi a posição que ela tomou, eu acho que não tem dúvidas. Eu concordo contigo que não é por isso que ela tá fazendo o vídeo, mas é isso que o vídeo comunica. O vídeo comunica: eles fazem negociatas, aqui não, eu não, eu não coloco.

?Voz B

E acho que a Michele Bolsonaro, que assim, ela tá novamente, ela não tenho dúvida de que ela e o grupo dela é vítima de misoginia, de machismo, especialmente no campo onde ela tá. Isso acontece na própria esquerda, não vai acontecer no partido mais extremista do país com aquela família. Mas o fato é que ela também tá instrumentalizando isso. Eu acho que muitas vezes a esquerda cai numa certa casca de banana nessa história. Vê a Maria do Rosário defendendo a Michelle como vítima de machismo, é muito acreditar que o que a Michelle tá falando é verdadeiro, entendeu?

De que a Michelle tá sendo sincera quando ela fala isso. E tipo assim, é óbvio que ela tá sendo vítima de machismo, mas Desculpa dizer isso assim, não é o momento de colocá-la numa posição tipo moralmente é superior ou de vítima. Ela tá nessa situação absolutamente de forma voluntária. Ela não só se casou com o Bolsonaro, ela fica e ela usa o sobrenome para se fazer senadora e presidente. Então assim, aqui não tem vítima.

AOAlessandra Orofino

Mas eu discordo da sua avaliação taticamente. Eu acho que a Maria do Rosário fez bem. É, eu acho que tem um tanto também, né, da mesma maneira que ela tá sinalizando uma certa pureza ideológica no vídeo, tem um tanto que é também o movimento feminista aproveitar esse momento pra sinalizar, não pra Michelle, ninguém espera que a Michelle vá amanhã falar a verdade, Maria do Rosário se solidarizou comigo, vou me declarar feminista.

Mas eu acho que pra algumas mulheres de direita que sofrem também com machismo, porque toda mulher sofre com machismo, independentemente de onde ela tá no espectro ideológico, Essa é uma oportunidade pra falar: "Olha, existe um espaço aqui que é acolhedor com você." E independentemente, justamente, de onde é que você tá agora, entende? É um momento de possibilidade de diagonalismo. E acho que a Maria do Rosário intuitivamente entendeu isso como um momento de possibilidade de diagonalismo, o que eu não acho ruim e acho esperto, na verdade.

E logo a Maria do Rosário, né? Só pra gente lembrar que foi a pessoa que foi objeto daquela declaração nojenta do Jair Bolsonaro dizendo que ela não mereceria ser estuprada, né? Então a gente não tá falando de qualquer feminista. Então mostra uma grandeza.

?Voz B

Ela é odiada pela direita, ela é odiada pela direita. Mas o meu ponto, que, e novamente, você pode estar certa, não tô falando com uma convicção absurda, mas eu me bate mal, tá? Talvez porque não seja mulher mesmo, tem essa questão. Mas outra que eu acho que é, que é o problema que eu tenho com a fala do Greg no começo, com a sua, que não é acham isso, mas da maneira como a gente tá desenhando o episódio, a Michelle sai por cima.

É, você mesmo disse nos bastidores falando assim, não, mas quando eu vejo isso eu fico assim, vai, é, Michelle, eu tipo assim, não, não, não, para, para, tipo, capota a Michelle junto com Flávio, para de elevar essa mulher a um tipo de, entendeu, a situação de vítima, entendeu? É útil para o nosso campo, mas o que ela tá tentando colocar no país é uma teocracia radical, gente, calma.

GDGregório Duvivier

Eu acho, eu concordo totalmente. Talvez não tenha ficado claro mesmo quando eu falei no começo, parecia que eu tava comprando a narrativa da Michelle e não é o caso. Eu acho que inclusive ela é muito mais inteligente do que os filhos. Isso é bom deixar claro. Isso, o que ela fez é muito inteligente. A única coisa que podia ser melhor é isso, foi a hora que foi lançado. Acho que ela podia causar um estrago ainda maior, podia enterrar o Flávio se ela quisesse, e ela optou por não enterrá-lo, o que também pode ser esperto.

Porque se ela quiser viabilizar, enfim, a própria candidatura, ela não pode enterrar ele completamente. Talvez ela precise dele. O fato é que ela é muito— o que eu achei, ela é muito inteligente politicamente. Não só porque ela sabe que ela tem uma viabilidade muito maior do que o Flávio. Não só como ela deve ter percebido que o próprio Flávio tá meio inviável, desde o Dark Horse é impossível para ele. Ele é um cara que tá— ele é meio um navio afundando.

É muito complicado pro Flávio decolar, eu acredito, pelo menos. E ela percebeu isso. Ela percebeu que precisa disputar o voto feminino. Não me espantaria que ela tivesse o aval do Valdemar. Eu acho que ela tem, do Valdemar. E do Jair, com certeza. Ou... O Jair é complicado dizer, tá? Porque ele é tão fraco mesmo que é perfeitamente possível que ele não saiba direito o que tá acontecendo de verdade. Porque ele é uma liderança tão ruim, isso eu quero dizer, ele é tão uma não liderança que ele não— isso é muito ruim, sobretudo para ele.

Eu acho que quem mais perde para mim é ele, porque mostra o quanto que ninguém ao redor dele concorda, quanto ele não é uma liderança para mim. O que prova para mim desse coisa, Michele, é que ele não controla, ele não lidera nem as pessoas mais próximas dele. Tem um vídeo contra o filho dele feito na própria casa dele, e por sua vez a mulher dele tava sendo humilhada dentro da própria casa dele também. Pelo filho e tudo isso vem a público, ele não conseguir controlar, abafar isso, é uma vergonha do ponto de vista político.

Prova que ele não manda nada nem na própria casa, sabe? Então eu acho que quem mais perde pra mim é o próprio Jair. E eu acho que ela sai gigante sim, Bruno. E quando eu digo, não é vai Michelle, pelo amor de Deus, eu acho um pesadelo. Eu acho ela pior do que o Flávio, no sentido que eu acho ela mais inteligente mesmo que o Flávio. Acho ela mais capaz, mais hábil e mais, sabe o que é curioso? Mais pragmática. Que isso que ela fez é pragmatismo.

Ela fez um cálculo ali. O Flávio que tá se dizendo pragmático, ele tá— o Flávio tá negociando um Senado no Ceará em troca. Foda-se o Senado do— sim, pensando na presidência, né? Eu acho que ela tem muito mais chance. A verdade é que Flávio tá jogando para perder, eu acho. Ele tá jogando para ter um senador aqui, outro ali. Ele não tá pensando no global, na história global. Se tivesse pensando, ele estaria com a Michelle do lado dela, abraçado, a família brasileira.

Ele tá rifando a Michelle por um senador? Tem a ver com machismo? Tem a ver com uma burrice política gigantesca. E eu acho que ela tá pensando de verdade na narrativa grande, no grande quadro, pra não usar um anglicismo. Então eu acho que ela é muito pragmática mesmo. E ela tá fazendo essa costura muito melhor do que o Flávio. Não sei se você concorda também, Ale.

AOAlessandra Orofino

Eu concordo. Eu acho que tem muitas coisas aí, né? Primeiro assim, só pra encerrar em relação à coisa da Maria do Rosário, porque eu acho que é sintomático de como o campo e o movimento feminista se comportaram nesse episódio, eu entendo que o feminismo impõe um princípio universal de solidariedade que obriga uma solidariedade com a Michelle, mesmo sabendo que ela nunca exerceu essa solidariedade com ninguém. Então, quando a Maria do Rosário usa esse gesto dela própria de exercer essa solidariedade pra cobrar uma coerência da Michelle, ela tá tomando uma posição que eu acho que é sofisticada, eu acho que é inteligente, mas enfim, a gente não precisa se alongar sobre isso.

Sobre as posições respectivas de Michelle e Flávio, é tudo muito especulativo, né? O que a gente sabe, algumas coisas. Primeiro é que essa situação do Jair como alguém que pode ser desconsiderado, ou cuja opinião não é mais tão válida, ela é meio importante pra Michelle. Porque o fato é que a última declaração que temos do Jair, a última vez em que a gente pode dizer que a gente sabia o que ele queria, Foi quando Flávio foi designado como herdeiro político nesse ciclo.

Então, quanto mais a população entender ou acreditar que o Jair, na verdade, tá meio maluco, melhor pra alguém como a Michelle, que precisa se viabilizar, apesar da última declaração ter sido essa. Ao mesmo tempo, ela também não pode ser vista como uma traidora do Jair. Então, se ela tivesse feito a mesma coisa, o mesmo vídeo, com ele preso, ou com ele preso, digo, né, preso no presídio, não em casa, ou com ele morto, isso teria sido interpretado de uma forma completamente diferente.

O que inclusive talvez ajude a explicar um pouco do timing, assim, né? A gente não sabe se não havia uma possibilidade do Jair ser colocado de volta no presídio rapidamente, tinha toda a discussão lá sobre a coisa da arma que foi encontrada na casa, enfim. Mas o fato é que ela escolhe fazer isso quando ele tá em casa. Então ela tá ao mesmo tempo comunicando, não tem como ele não saber, mas ao mesmo tempo também forçando o outro lado, forçando o campo que é aliado do Flávio, do Eduardo, a reconhecer que não tem como ele não saber.

E portanto, a única resposta possível para esse campo é dizer que ele na verdade não sabe mais o que ele acha, que foi exatamente o que aconteceu. Paulo Figueiredo, né, que é grande aliado do Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, na live que ele faz na sequência, ele diz, abre aspas: o ponto é o seguinte, o ex-presidente Bolsonaro é uma das pessoas mais erráticas que eu conheço. Presidente Bolsonaro pode dizer uma coisa para você hoje, chega uma pessoa depois, ele vai convencer ele amanhã e ele vai decidir o oposto do que ele havia decidido hoje.

Então assim, no fundo, esse grande herói do povo brasileiro, que até ontem era um homem forte, capaz de liderar uma nação incrível, que todos esses homens bolsonaristas tratavam como uma grande figura, de repente está sendo tratado por esses mesmos homens bolsonaristas como um velhinho gaga. E isso é bom pra Michele, ele ser meio que um velhinho gaga. Porque aí ela ganha algumas coisas com isso, é isso, ela ganha a possibilidade de ir um pouco contra a vontade dele sem necessariamente traí-lo, porque seria diferente se ele tivesse sendo capaz de articular uma vontade de forma muito pública.

Mas ela também ganha um papel que é valioso, que é dessa mulher que cuida dele, que tá ali pra ele nesse momento de fragilidade dele. E esse é um personagem que ela vem construindo já há bastante tempo, né. Tem um episódio que eu acho recente da Michelle, que eu acho bastante relevante, que ela recentemente foi falar de como ela cuida dele, de como tem sido difícil cuidar dele em casa, né. "Ó, dá trabalho, ele tá doente, ela tem que dar banho, tem que botar o pijama." Ela fala do pijama, gente.

Assim, é muito velhinha a Gaga, a descrição. E ela vai e fala que ela tá com muito medo de que quando ela for mais velha, ela não vai ter um companheiro pra fazer isso por ela. Olha só a loucura! E aí, pouco tempo depois... E aí, pouco tempo depois, a imprensa começa a falar sobre a presença de uma empregada na casa. Que evidentemente, ela não tá sozinha cuidando do Bolsonaro. E não só ela tem uma empregada há muito tempo que evidentemente tá ali também.

O que não quer dizer que ela não esteja também participando dessa rotina de cuidados. Mas tem uma outra mulher que ela estrategicamente ignora ou invisibiliza. Mas essa empregada foi paga com dinheiro público durante muito tempo, né. Primeiro com verba de gabinete. E depois com dinheiro do fundo partidário do PL. Então tem esse detalhe delicioso na história. Mas o personagem que ela tá construindo é esse personagem da mulher devota.

Cuidadora desse homem frágil, que está frágil, que já foi um grande homem, mas agora tá frágil. Se ele é pragmático ou não, eu não sei, eu tenho dúvidas assim. Eu sinto, na verdade, que o que o Flávio tava tentando fazer ali no Ceará é um pouco um laboratório para o resto do Brasil, assim, essa ideia de que o bolsonarismo, ele pode, se dá certo aliança no Ceará, de alguma forma eles Eles criam uma possibilidade de fazer com que o bolsonarismo ele tenha no espectro nacional um arco de alianças que é mais direita hard, mas nos estados muito mais impureza ideológica e capacidade de forjar alianças com aliados improváveis.

?Voz B

Isso para um político com perfil do Flávio, que é um cara da negociata, é isso que é o Senado, o cara do Senado, que é o objetivo final dele.

AOAlessandra Orofino

É bom, é o tipo de movimento político que ele gostaria que o bolsonarismo fosse, eu acho, sabe? Que é muito diferente da aposta que a Michele vai fazer. De novo, não por pureza de fato, mas por acreditar que pra alguém com um perfil dela, que é justamente um perfil muito mais teocrático, muito mais, né, ela... A força da Michele nunca vai ser negociada. Ninguém vai olhar pra ela e falar: "Não, essa mulher tem que vir candidata porque ela vai ser capaz de fazer palanque, ela vai fazer as alianças certas nos estados, ela vai construir e costurar." Não é isso.

Ela pode vir porque ela vem com um... Com um tipo de movimento de pureza ideológica muito ancorado religiosamente, evidentemente, que é capaz de arrebatar as massas e que é capaz, especificamente no contexto dessa eleição, de disputar o voto feminino, que como a gente falou é o voto que está em disputa. A gente pode falar disso já já, que tem vários dados interessantes aí sobre voto feminino. Então eu sinto que é mais uma disputa, para além da disputa atual de quem vai se candidatar, quem não vai, qual vai ser a chapa, é realmente uma disputa pela visão de futuro do movimento o movimento bolsonarista.

O que que ele vai se tornar? Ele vai se tornar uma espécie de movimento mais frouxo ideologicamente, que mantém uma postura nacionalmente coerente, mas que nos estados abre espaço para várias negociações improváveis? Ou ele vai seguir sendo um movimento mais antissistêmico, semirrevolucionário, que joga fora a possibilidade de construção de alianças pragmáticas nos estados em prol de uma visão talvez mais arrebatadora nacionalmente?

GDGregório Duvivier

Eu concordo também, mas só fazer um adendo, que assim, eu acho que ela é muito esperta no seu pragmatismo em relação ao discurso anti-establishment, que ela percebe, eu acho que muito melhor do que o Flávio, de que talvez uma veia central do bolsonarismo é um discurso antissistêmico, entende? Que o Flávio não consegue ter, porque o Flávio ele é o sistema. O Flávio faz uma aposta no bolsonarismo se sistematizar, no sentido de entrar pro sistema e virar o establishment.

Ele é um bolsonarista do centrão. O bolsonarismo é muito aliado ao centrão, mas o Flávio é o centrão. E a Michele, que é também, ela também sabe fingir que não é, coisa que o Flávio não sabe. E é por isso que eu acho que ela tem um superpoder. Ela tem esse superpoder que o Bolsonaro tem. Com muito poucas pessoas, que é um superpoder de ser ao mesmo tempo corrupto e anticorrupção, entendeu? Ser ao mesmo tempo sistema e antissistema, conseguir jogar os dois.

Então, pro Valdemar Costa Neto, Valdemar sabe que a Michelle é do sistema. E essa é a prova de que ela é pragmática, gente, que ela é malandra. Ela tá com Valdemar Costa Neto, entendeu? Ela não sabe do Valdemar? Ela acha que o Valdemar é uma freira? Pelo amor de Deus. Então, o maior aliado dela é a maior raposa do galinheiro, assim. Sujeito que não vou citar aqui pra não ser processado, mas você acha rapidamente na internet seu histórico de pau de galinheiro.

AOAlessandra Orofino

Aparenta ser. Muitos dizem que ele é a maior raposa do galinheiro.

GDGregório Duvivier

Então.

AOAlessandra Orofino

Tudo indica que.

GDGregório Duvivier

Exatamente. Pra não ser acusado aqui, pra não cometer raposafobia. Mas o fato é que ele tá lá, sujeito sujíssimo, e ela tá lá abraçada nele. Mas ao mesmo tempo ela tem a aura, pra usar um termo jovem, a aura do antissistema. Ela não é de lá, ela caiu ali por acaso, ela é uma dona de casa, ela tá ali, caiu. Então ela tem aquela impressão de que é muito importante na política, de que o poder caiu no colo dela, de que ela nem queria, mas de repente ela vai ser obrigada a lutar contra o mal, sabe?

Que é muito bolsonarista isso. É o martírio também, a ideia de que ela tá lá sofrendo, atravessando uma via cruz e tal, ao lado do marido. Ela tem muito mais aura bolsonarista do que o filho. Ela tem esse DNA supostamente antissistema que o filho jamais vai ter, né, Bruno?

?Voz B

É totalmente isso, que assim, a impressão que dá, acho que é muito óbvio isso, né? A gente tá vendo uma luta por um espólio de um homem vivo, né? De um homem morto vivo, né? Que assim, tipo, qual é a pessoa que vai ficar com a herança do sobrenome Bolsonaro e o que ele representa para massa e não para o establishment mesmo. Eu concordo muito com essa avaliação, que assim, o que o Flávio tá tentando fazer é que o bolsonarismo vire uma máquina política muito parecida com que foi o PMDB, sabe, há 15 anos atrás.

Assim, tipo, aliança, palanque, tempo de TV, qual político que vai apertar a mão de quem. E por isso que o Ciro Gomes fez todo sentido nesse cenário. O petismo também faz esse jogo. É, não é à toa que o Lula fica fazendo essas cortes imensas para um monte de gente que ele não tem afinidade. É orgânica, é a política brasileira, é o que as pessoas não gostam. E o que o Jair tinha, exatamente isso, ele tinha essa combinação trágica para o nosso caso, mas que para ele foi muito providencial, que ele tinha um apoio de certa parte significativa do sistema político brasileiro.

Mas o que ele tomou de assalto mesmo Foi poder popular, foi voto. Foi tipo, ele criou um imaginário, ele tinha esse imaginário, ele capturou uma coisa que já existia na sociedade, que era mais à direita do que os tucanos queriam admitir, e foi lá e ganhou a eleição. O que a Michele tem é isso, ela tem apelo popular, que é uma coisa que o Flávio nunca vai ter. Não tô falando só porque o Flávio representa uma coisa ruim, as pessoas veem isso nele, isso é verdade, mas ele não tem carisma, não tem credibilidade.

Eu não acho que o Flávio sozinho vai ser capaz de arrastar o Senado, entendeu? E a Michele é muito mais capaz de fazer isso. É isso que o Valdemar vê nela. É isso que ela sabe que ela tem, porque ela tá vendo os números de pesquisa. Por isso que ela tem uma bancada dela e ela fala isso claramente. É por isso que eu acho que ela instrumentaliza a questão de misoginia, que é verdade, mas ela instrumentaliza para falar: olha, não estão me dando esse espaço mínimo dos meus nomes que eu pedi e tudo mais.

É, mas eu concordo muito. É que vocês falam tanta coisa que eu já me perdi um pouco, mas ótimas coisas, tá? Não tô criticando, é que— mas aí tem uma outra questão aí que eu ia chegar mesmo, que é o espólio do homem morto, do homem quase morto, que eles estão tentando colocar é para as eleições. E tem esse outro fato que a gente precisa falar aqui, que não, possivelmente não é tão certo assim, que o Flávio vai se viabilizar como candidato até o prazo é limite, né?

A gente não sabe o que vem por aí, não sabe se os números dele vão continuar assim e mantendo, é viáveis. Hoje não parece tão viáveis como eles pareciam há 2 meses atrás, né? E acho que nesse recado que a Michele dá também, ela tá deixando bem claro que ela é a única Bolsonaro meio que pronta para assumir a pole position. O primeiro lugar na chapa. Isso eu acho que é um subtexto também muito importante, que não é só uma jogada de poder interna do PL, mas é mexer uma peça para ela tá pronta para avançar.

Tipo, é caso, o que é muito provável, ou que tem, eu sei de nada, mas é muito possível, digamos assim, que algo mais comprometedor venha vir à tona nos próximos meses. E a Michelle enseja isso, ela fala que sabe de mais coisa do que ela tá falando. E esse é o meu ponto, ela sai de transparente, ela sai de honesta, ela sai de a pessoa que tá abrindo o jogo, que tá falando dos bastidores. Mas a gente sabe que isso é uma mentira, porque se ela fosse abrir o jogo mesmo, ela falava qual era o prato que tacaram na parede, ele me chamou daquilo, daquilo outro, entendeu?

'Eu sei dos outros B.O.s dele.' Mas ela deixa isso insinuado, né? E esse é o ponto, né? A gente, por incrível que pareça, a gente não tem certeza se o Flávio vai até o fim dessa eleição ou até meio de agosto, que é o caso limite.

AOAlessandra Orofino

Não é nada incrível, na verdade, né? Desde o anúncio da candidatura do Flávio, que de novo a gente tem até ali meio de agosto, né, para oficialização dos nomes, já havia essa essa possibilidade de que, na verdade, a indicação do Flávio seria, no fundo, uma estratégia de colocar o nome da família em primeiro plano, manter essa influência, continuar deixando o eleitorado organizado em volta do sobrenome Bolsonaro, ao mesmo tempo que isso seria usado como uma forma de pressionar o Tarcísio a não abandonar a pauta da anistia.

Então a gente tem que lembrar que até muito recentemente o Tarcísio era visto como candidato mais possível e mais forte e mais provável. Mas claro que a Anistia era grande pedra no sapato do Tarcísio, tanto que ele tentou, né, dar urgência para Anistia. Ele tentou tirar a Anistia da frente já algumas vezes para que isso não fosse a grande pauta eleitoral e não dominasse o período eleitoral. Como ele não conseguiu fazer isso, isso segue sendo a preocupação número 1, sobretudo do Jair Bolsonaro.

Então colocar o Flávio ali também pode ter sido uma forma de, no fundo, ocupar essa cadeira e falar: "Tarsílio, você não vem aqui não. A gente já ocupou, o eleitorado já tá mobilizado em volta do nome, e se você quiser ocupar essa cadeira, você vai precisar segurar a pauta da anistia até o final." E aí fazer isso com o Flávio, não com a Michelle, faz muito sentido, porque a Michelle Tem muito mais um perfil de eventualmente ser vice do Tarcísio do que o Flávio, que não faria isso e que acrescentaria pouco nessa posição.

A Michele acrescentaria muito se ela viesse como vice do Tarcísio. Então essa construção de uma chapa Tarcísio-Michele foi durante muito tempo uma construção absolutamente plausível e ela segue sendo. Então hoje a gente está na verdade com o jogo aberto. Pode ser que o Flávio fique, pode ser, e aí na verdade pode ser que a Michele use justamente essa Esse poder que ela tá, né, trazendo para si e afirmando que ela tem para disputar a vice, não para ela, mas para uma candidata dela na chapa do Flávio.

Isso é possível. A outra possibilidade é que o Flávio caia e venha a Michele de candidata. Isso não é descartável como possibilidade.

?Voz B

Mas acho que o ponto é exatamente esse. Eu acho que a Michele vê que, tipo, ela não tá fazendo tudo isso para ser vice. Ela tá fazendo isso para ser liderança protagonista de um movimento de direita religioso pós é Jair. Ela é a Bolsonaro.

AOAlessandra Orofino

Ela é a Bolsonaro. Mas você entende que essa é uma tentativa para esse ciclo eleitoral? Ela tá disputando 26 ou 30?

?Voz B

Eu acho que ela tá disputando o que for mais viável para ela. Eu acho que ela não tá deixando claro que ela quer a candidatura, mas o que ela tá deixando muito claro é Eu tô no banco da frente, pessoal. Se eu for senadora, esse aqui é meu palanque. Se você quiser que eu não detone a sua candidatura, eu quero espaço no partido, eu quero a minha bancada no Senado, eu tô falando diretamente sem a mediação com a minha base, eu tô pautando a imprensa sem pedir a licença.

E é isso que ela tá querendo, ela quer poder mesmo. E isso ela tem condição muito de pegar, independente se ela for ou não a candidata ou a presidenta. Mas uma senadora é muito difícil que ela não vire no mínimo, e uma senadora possivelmente mais influente com o povo do que o próprio Flávio jamais foi, apesar dele ser poderoso no Senado. E acho que essa jogada de poder que ela tá falando, e ela como vice, desculpa, é um cargo muito mais decorativo do que ela pode ser como senadora ou como fazedora de uma outra bancada.

E aí eu acho que essa é a jogada dela, me parece. E eu acho que ela é inteligente o suficiente para ter esse cálculo, coisa que o Flávio não me parece tanto.

AOAlessandra Orofino

É, eu acho que ela considerou seriamente vir como vice. Então depende, né? Você pode ter um cargo muito decorativo— alguns meses atrás— você pode ter um cargo muito decorativo como vice, ou você pode ser a razão pela qual o Tarcísio conseguiu se viabilizar. Se ela vira a afiar o da balança no eleitorado, isso coloca ela numa posição diferente. De qualquer forma, não é mais possível agora. O que ainda é possível agora é que ela venha candidata, isso sim, e eventualmente com o apoio do Tarcísio, né, ainda que não necessariamente na chapa, porque ela construiu essa boa vontade com Tarcísio lá atrás.

Então eu sinto que tem um campo político grande dentro do bolsonarismo que prefere a Michele candidata. Por várias razões, e que sempre preferiu, né? Claro, a melhor coisa para direita, não, não, nem direita não bolsonarista, porque a direita hoje é quase toda bolsonarista explicitamente, mas para direita que não tem o sobrenome, seria o Flávio perder. Essa seria a melhor coisa, com certeza, porque o Flávio ganhar é o Flávio de alguma maneira manter a hegemonia do sobrenome Bolsonaro sobre a própria direita durante mais 4 anos, eventualmente mais tempo do que isso, o que não é bom para essa direita que não tem um sobrenome.

Então a briga interessa a esse campo de qualquer forma, isso sem nenhuma dúvida. A Michelle também, é melhor para ela que o Flávio venha e perca do que ele ganhar, porque ela vai ter sempre uma diferença com eles, ela não vai ser aceita por esses filhos, ela não vai conseguir cavar espaço ali. Então isso deixaria ela simplesmente ela tá ferrada. Exatamente. Então pode ter sido só uma manobra de desgaste mesmo, mas aí o timing ali logo antes do jogo, etc., fica realmente mais difícil de entender.

Ou pode ser uma manobra, como você também já levantou, né, Bruno, de mostrar que ela pode criar danos sem criar o dano máximo, e aí tá negociando alguma coisa nos bastidores. Ou pode ser simplesmente incerteza diante da possibilidade de mais sujeira vir à tona em relação ao Flávio. A Michelle tem uma relação muito próxima com André Mendonça, que está sentada em cima de alguns dos casos mais polêmicos e com maior possibilidade de criação de dano político do Brasil.

?Voz B

Tem isso também.

AOAlessandra Orofino

Inclusive o caso Meister. Ela pode saber de alguma coisa, já prever que isso vai vir a público e ela precisar se distanciar do Flávio o suficiente antes dessas novas informações virem a público para ela poder manter a sua própria integridade, pureza, né, ou imagem de pureza política. Ela cria essa distância, mas ela não cria essa distância de uma maneira que seja irremediável. Flávio. Então ela faz de um jeito em que ela ainda consegue voltar atrás e construir uma possibilidade de reconciliação publicamente, sem perder, né, sem perder a cara dela publicamente, a partir desse vídeo.

Mas se vem coisas terríveis em relação ao Flávio, ela já criou distância, independentemente dela vir candidata ou não, né. Essa distância é importante nesse sentido, porque pode ser que o Flávio vire um ativo tóxico.

?Voz B

É bom que você pôs o André Mendonça nessa, porque ele também vai ter uma escolha difícil agora pela frente, se ele vai ser o juiz bolsonarista ou terrivelmente evangélico, porque agora vão ser duas opções diferentes diante do caso master. E a Michelle é essa pessoa, ela é terrivelmente evangélica, e o Flávio é o bolsonarista do escândalo, né? Ele é o cara do—

AOAlessandra Orofino

Mas você tem alguma dúvida de qual que é a aliança primordial para o André Mendonça?

?Voz B

Não, não tem. E isso vai ser uma outra questão delicada também na opinião pública, que vai ter grande parte do nosso campo falando: vai, André Mendonça, e por aí vai, como a gente fez com a Luciana de Moraes e tudo mais, caso ele seja um juiz de fato competente no caso e faça isso. E novamente, ele não é só um cara da Michelle, próximo dela por conta da afinidade religiosa. Ele é muito próximo, aí sim, bem mais próximo da Damares, que é a outra general do campo da Michele Bolsonaro, é outra operadora no campo da defesa da mulher de extrema-direita, da pessoa que se coloca, olha, vítima na hora que isso é conveniente, né, para ganhar mais espaço e poder ter poder popular, que não é poder de máquina. Exatamente.

GDGregório Duvivier

Aliás, queria falar disso, porque eu acho que tem um racha no bolsonarismo que esse vídeo suscita, que prova que ele não é armado, como algumas pessoas subentenderam. Algumas pessoas ficaram dizendo: gente, vocês vão cair nessa, eles deram uma briguinha encenada e tal. E eu tenho certeza que não é, por mil motivos. Porque primeiro, acho que eles não têm esse tipo de inteligência, esse tipo de estratégia mesmo.

?Voz B

Você tava falando como se fosse um jogo armado entre ela e o Flávio, um sabia que o outro ia fazer porque seria bom para a família que isso fosse feito, né?

GDGregório Duvivier

É essa família, daqui a pouco eles vão aparecer juntos, tá meio circulando. E daqui a pouco eles vão aparecer juntos. Eu acho que tem, de modo geral, uma tendência da esquerda a supervalorizar a inteligência da extrema-direita, sabe? De achar que tudo é pensado. E acho que tem muito caos mesmo. E acho que isso daí é a prova da falta de liderança, falta de estratégia, falta de caos deles. E pra mim, uma das provas disso são as repercussões.

Você teve um racha mesmo que foi muito grande, que foi bem diagonal, assim. Eu digo, ele atravessou todos os espectros do bolsonarismo, esse racha. Teve gente, por exemplo, Malafaia tá do lado do Flávio, provando que ele talvez seja mais bolsonarista do que— ele é mais do Centrão do que terrivelmente evangélico, né, o Malafaia. Já outro, Paulo Figueiredo, aliás, fez um vídeo que eu fui obrigado a ver num domingo, que eu queria que a gente citasse para não gastar mais sobre essa live.

?Voz B

É uma das coisas mais indigestas que você pode ver na sua vida.

AOAlessandra Orofino

Descreve, Greg.

GDGregório Duvivier

Para quem não sabe, Paulo Figueiredo é népo-neto de ditador, aliás, o pior ditador da pior ditadura, assim, uma tristeza daquele O ditador mais fraco, pior, ele tem orgulho de portar esse nome, que é o do Figueiredo. E o Paulo Figueiredo, se você não conhece, que sorte a tua, que é um népo-neto deslumbrado com os Estados Unidos, que vive de tentar boicotar o Brasil lá e de fazer vídeos, velho. Na verdade, não é nem uma profissão, acho que ele é um podcaster, um streamer, sei lá, passa o dia inteiro na frente de uma tela falando merda.

E ele falou, fez um vídeo desancando a Michelle, que eles chamam de Michelle Firmo. Ele chama ela do nome de solteiro, que é uma clara estratégia dizer assim, ela não é Bolsonaro. Sim, ele que é, né? Ele que é casado com Bolsonaro, ele que dá problema, ele quer ser, ele quer uma pessoa que tá lá, porque ele tem um sobrenome de ditador de sangue mesmo, né?

?Voz B

Ele tem o Figueiredo de sangue.

GDGregório Duvivier

No fundo é isso que ela tá dizendo, Michele. O poder é hereditário, tá? O poder, Michele. "Você não tem no seu sangue um ditador como eu." Então é isso que ele tá dizendo basicamente assim: "Você é hell, você é bastarda, você é Michelle Firmus." Chama ela do nome de solteiro e fala assim horrores. É um discurso masculinista, sabe, completamente, no qual diz que a mulher é— ele fala uma coisa muito louca. Eu quero que Alessandro fale um pouco mais, Bruno também.

Eu não vou saber citar exatamente, mas o que ele diz basicamente é que é um erro essa política de ter 30% de candidaturas mulheres, que foi isso que deu na Michelle achar que ela— 30%, 30%, porque as mulheres ganham.

?Voz B

E ele fala porque as mulheres não têm uma propensão tão natural à política, é uma coisa assim de personalidade, elas não têm o traço de personalidade que os homens têm de serem mais interessados em política.

GDGregório Duvivier

Olha isso! E aí ele diz que não se justifica nem um terço E ele chama a Michelle de comunista porque ele diz que se preocupar com mulheres na política é comunismo. Que é o melhor, maior elogio ao comunismo que eu já vi. Assim, ele tá imediatamente jogando população brasileira, né, quase inteira no comunismo. Obrigado inclusive por lembrar que o comunismo é isso também, né. Ele fez um serviço, eu acho, ao PCBR. Agradecer mesmo a todos esse serviço dele.

Mas eu queria sentir, o que que vocês sentiram do Paulo assim ouvindo Além de Áshko?

?Voz B

Eu posso só fazer um comentário rápido e passo para a Alessandra, que tem uma análise mais, porque ela viu o vídeo inteiro. Me parece, eu não tenho, eu realmente não tenho muito estômago mais para ver esses casos, eu já vi tanto que eu tenho uma certa stress pós, é traumático. Mas eu, ele, quando ele usou o termo, o nome Michelle Firmo, que é o nome de solteiro dela, nome de solteira dela. Ela, acho que não foi nesse vídeo, reagindo ao vídeo atual que ela fez, mas eles usam esse nome para se referir a ela.

Então isso diz uma outra coisa: eles batem nela publicamente há muito tempo, e a gente que não percebe, que a gente não consome esse conteúdo e não repercute tanto. Então ela devolveu publicamente algo que tem sido feito publicamente e é contra ela há mais tempo. Então essa guerra anti-Michelle pública ela tem acontecido, não é só uma briga interna deles lá. Isso é um ponto. Outra que me parece bem óbvio, porque houve outros tipos de insinuações bem insinuadas, é que quando eles usam sobrenome de dela antigo, eles estão falando uma, que ela não é uma Bolsonaro, Bolsonaro de verdade, mas eles estão tentando jogar no ar os rumores que muita gente fala do passado da Michelle Bolsonaro.

Então não é só o nome de solteira, é o nome do passado dela, que acho que aí são rumores que falam, não sei o quê. E que na direita anti-Michelle eles são falados mais abertamente do que na própria esquerda, que tem pudores para falar isso, né. Então eu acho que isso também é algo extremamente agressivo que ele tem, que ele tem feito. E sendo ou não rumor, faz parte desse caldo extremamente machista e misógino que ele vai, que ele vai destilando até para bem além da própria Michelle.

GDGregório Duvivier

Alessandra, o que que você sentiu?

AOAlessandra Orofino

Nossa, eu senti vontade de vomitar. Mas isso, sentir aquilo que eu falei para o Bruno antes, né, que ele já citou aqui para vocês, que é: não foi o vídeo da Michelle que me fez falar vai, Michelle. Mas o que eu acho perigoso da live do Paulo Figueiredo é que eu assistindo a live do Paulo Paulo Figueiredo, eu falei: "Vai, Michele!" Não, obviamente, não a sério, né? Tem um tanto ali que é evidente que eu sei muito bem quem é Michele e a visão que ela tem pro país.

E essa visão, como a gente já falou, profundamente teocrática da política e por aí vai. Mas diante da nojeira que é o Paulo Figueiredo, e a gente tem que lembrar que o Paulo Figueiredo é muito próximo do Eduardo, então desse campo, nepo, mais nepo baby, boyzinho do bolsonarismo, que é um campo específico, e trampista, dá vontade de dar um beijo na boca da Michelle, entendeu? E isso é um perigo enorme, é porque, porque de alguma forma isso sim é um perigo, tá?

Não a solidariedade da Maria do Rosário. Acho que tem uma solidariedade que é taticamente, além dela ser coerente, e acho que ela é importante por coerência política mesmo, é, eu acho que ela é taticamente relevante. Aonde eu vejo mais perigo é que a Michelle, ela tá muito mais inteligente do que esses caras, o que faz com que ela seja eleitoralmente muito mais perigosa do que esses caras. Eles são muito burros. A live do Paulo Figueiredo é burra, além de tudo.

O que mais me preocupou é que ele é muito burro. Gostaria que ele fosse um pouco mais inteligente para que a disputa dentro do bolsonarismo fosse um pouco mais razoável e impossível, mas eles são muito burros. Então, do jeito que eles estão se posicionando, não tem disputa. Michelle vai mandar nessa história rápido, não porque ela é a mais poderosa, a mais importante, a mais maravilhosa, mas porque do outro lado ela tá lidando de novo com um monte de menino, moleque, que só tem alguma coisa na vida, alguma relevância, por causa de um papai ou de um vovô, de um bisavô, sem nenhuma noção do que tá fazendo.

Paulo Figueiredo consegue nessa live, olha só o que ele consegue fazer. Ele consegue, como eu falei antes, né, dizer que o Jair Bolsonaro tá gaga, o que é péssimo para eles. De novo, vamos só relembrar, a última diretiva pública que a gente teve do Jair era em relação à candidatura do Flávio. Então dizer que ele tá gaga não ajuda o campo dele. Mas ele vai, diz que o Jair Bolsonaro tá gaga e que ele não fala mais coisa com coisa.

Ele não diz com essas palavras, né, mas basicamente é isso que ele insinua ao dizer que ele tá errático, que ele diz uma coisa hoje "Ah, mas ele diz outra coisa amanhã." Então ele vai, de alguma forma, diminuindo a importância do único símbolo relevante que eles ainda têm e da pessoa que é o grande fiador de importância pro Eduardo e pro Flávio. Porque Eduardo e Flávio são filhos do Jair Bolsonaro, é isso que eles são, eles não são outra coisa, entende?

Então é de uma burrice tática gigante. Depois de dizer que o Jair Bolsonaro tá gaga, essencialmente, né, ele vai falar que se importar com a presença de mulheres na política é coisa de esquerdista, é coisa de comunista, e como você mesmo apontou, Greg, é muito mais interessante pra esquerda do que não dizer isso. Em vez de abraçar essa pauta e falar: "Não, a gente também acredita na importância das mulheres na política, mas veja bem, a Michelle tá errada por essas e essas razões." Ele joga toda a pauta de representatividade feminina na política no colo da esquerda, o que muito obrigada, então, ótimo.

Eu não acredito que seja. De verdade, não acredito que seja. Eu acho que tem mulheres de direita interessadas nessa pauta também, como o episódio inclusive demonstra. Mas ele faz questão de dizer que isso não é verdade. Então é burro também nesse sentido, até porque as mulheres continuam votando e elas serão o voto mais determinante desse ciclo eleitoral. Então ele afasta o eleitorado feminino do candidato que ele pretende defender.

É de uma idiotice assim completa, uma burrice absoluta. Depois ela vai falar da Michelle nos piores termos possíveis. E de um jeito que é infantilizante com ele e com os candidatos que ele quer apoiar. Então quando ele fala que a Madrasta Má, que ela está atualizando as definições, Madrasta Má de um bando de marmanjo de 40 e tantos anos e 20 anos de política. Isso não diz mal dela, isso diz mal deles, entende? Eles ficam com cara de neném de fralda.

?Voz B

Exatamente. Ele, e assim, e é muito burro, porque quando ele usa o sobrenome antigo dela, ele expõe os filhos de nepo babies, que a única coisa que tem é o sobrenome, que eles não têm nenhuma responsabilidade disso. E tipo, ela, pessoa que tá conquistando o nome Bolsonaro no trabalho e na escola, então assim, ela é mais meritocrática de ser uma Bolsonaro do que o merda do foragido do Eduardo Bolsonaro, que fica lá também é um foragido, é igual a gente, presão emitida.

E o Alan dos Santos, que a gente mal lembra que esse sujeito existe, o Alan dos Santos, que além de foragido também chama ela de Michelle Firmo, o sobrenome de solteira dela. Então assim, essa turma, e aí sim, ele só não faz mais nada.

AOAlessandra Orofino

Ele fala de calcinha, Bruno, ele fala de calcinha, ele fala de pentelho, ele chama ela de tchutchuca e de tigrona. Ele é misógino de novo num nível em que a misoginia fica tão patente que ela deixa de ser algo que só o movimento feminista à esquerda consegue identificar. E passa a ser algo que qualquer mulher consegue identificar, até homem, independentemente da sua formação política. Até homem machista consegue identificar.

?Voz B

Que não tá no extremo deles vai falar: opa, pera aí, né? Eu também tenho filha. Aquele argumento bem machista básico assim, né?

AOAlessandra Orofino

Tipo, se eu não achasse ele tão burro, mas tão burro, eu acharia que ele tá fazendo de propósito para construir a candidatura da Michelle. Falaram: que que ela deu para ele? Quer que eu conto que ela pagou por essa live? Porque é presente para ela. E para encerrar, ele começa, é um bingo de erros, entende? É um negócio assim inacreditável.

?Voz B

Ele sim fez um react, ele não fez um vídeo pensado como o da Michelle, no roteirizou, não tem equipe, ele tá falando sozinho. Isso mostra duas coisas: uma, que esses caras estão muito mais na podcast fera de red pill é político do que de estrategistas e pessoas com plano de poder, totalmente autoiludidos pelo universo que eles mesmos criaram. Porque eu acho que só não causa mais dano, Alessandra, porque eu acho que não tem mulher ouvindo isso.

Acho que é só um monte de homem louco de direita que já meio que compra essa ideia de que as mulheres são, tem uma índole diferente e tudo mais. Mas o que prova mesmo, mais uma vez, que tá sendo um tema recorrente nosso hoje, que é, olha como Jair é um bosta, cara, que o aliado dele, o cara que fica defendendo a anistia, soltura, associação dele com o Donald Trump, fala isso da mulher do cara. Da atual mulher dele. E o Jair não passa a mão no telefone e fala assim: senhor, tipo, cala a boca, cara.

Ele não cala a boca. Então assim, o Jair é o espectador mais passivo, mais banana, mais homem assim pós-beta que pode existir nessa situação toda, né? E é isso que ela é. Ela é a representante legal do homem inválido, que acho que é isso que ela virou.

AOAlessandra Orofino

Como eu falei, né, ele ser visto como um banana, ele ser visto como um homem passivo e sem nenhuma capacidade de liderança É bom pra Michelle!

?Voz B

É bom pra Michelle!

AOAlessandra Orofino

Então, é isso que eu tô dizendo, assim. O Paulo Figueiredo, ele consegue, na sua tentativa de detonar a Michelle, de criticá-la, de usar esse episódio pra colocar ela num lugar da mulher vingativa, bem aquela coisa bem clichê, né, da mulher vingativa e ambiciosa, etc. Ele, na verdade, faz um puta de um serviço pra ela. É um presente pra ela. Então, pra mim, mais do que o vídeo dela, a reação do outro lado ao vídeo dela É muito maravilhosa pra ela.

Inclusive a declaração do Flávio. A declaração do Flávio é muito ruim. Ele abre a declaração dizendo: "Nunca ofendi mulher nenhuma." Depois ele fala: "Mas se ofendi, eu peço desculpas." É um negócio fraco, mal construído. Todos eles mostraram que eles são muito ruins. E isso sim cria um perigo. Porque a Michelle, diante deles, ela fica, ela cresce enormemente. Ela cresce enormemente. Eles perderam uma excelente oportunidade de ficar calados.

GDGregório Duvivier

Perderam. Inclusive a Michele, acho que vale para a gente desmistificar um pouco essa aura que ela pode ter ganhado entre as feministas, que ela é uma feminista recém-chegada, mas temos que abraçá-la assim, feminista de direita. Talvez ela até seja, mas o fato é que a própria cota dos 30% ela sempre foi contra, tá? Luiza Miguez nos lembrou disso, que ela foi a primeira a dizer: queremos erradicar a cota dos 30%, queremos a mulher na política pelo seu potencial. "Como quem diz assim, isso é esmola." E ela disse isso em 23.

?Voz B

Ela não disse isso em 19, depois mudou de opinião. Ela disse isso depois da derrota do seu marido, já fundando o Pele Mulher. E é isso que eu falo, ela tipo instrumentaliza esse machismo que de fato existe e do qual ela também é representante.

GDGregório Duvivier

Não te irrita que as pessoas não são obrigadas a darem o braço a torcer? Sabe, as pessoas estão perguntando pra Michelle: "Michelle, eu sei, você mudou de ideia, eu queria entender por quê?" 'Vamos falar sobre isso?' As pessoas tinham que pedir desculpas. Não tem problema mudar de ideia, mas pedir desculpas, entende? Quando mudam de ideia. Mas isso nunca acontece. Tava vendo o velho da van que falou que ia falir, que ia sei lá o quê.

Nunca abriu tanta loja nos últimos 4 anos, ganhou dinheiro pra caralho com Lula. Fez um drama de que ele ia ter que sair do Brasil, que ele ia falir, de que o Brasil ia quebrar, de que ele mesmo, entende? E você não vê a pessoa falando: 'Gente, eu errei, desculpem-me, me equivoquei,' né? Você não vê, é uma má-fé gigantesca. Isso, a Michelle, é a mesma coisa. Entendeu? Custa nada ela dizer isso. Porra, eu queria isso pelo menos dela.

Mas enfim, só pra gente também não cair nessa lábia da Michelle, porque ela é bem malandra também. Tudo ali é muito pensado.

AOAlessandra Orofino

A comparação que tá circulando nas redes é com a personagem da Serena Joy, né, no conto da Aya. Que é uma personagem fascinante. Então assim, esse papel que a Michelle de alguma forma tá representando agora, ele é um papel conhecido dentro do movimento feminista. Isso não é novo, né? Que é a mulher conservadora e que vai construindo uma importância política nesse lugar da ajudadora de um homem forte, da mulher que tem uma espécie de submissão saudável a um marido ou a um homem forte, mas que em algum momento começa a disputar o legado político desse homem.

E é uma super contradição no seio desses movimentos de mulheres conservadoras muito mediatizadas, que vai desde as mulheres que estão na política até as tradwives do Instagram, entende? Que passam a vida fazendo uma performance de submissão e de "eu vivo como uma mulher do século 19 e eu tenho 5 mil filhos, todos eles paridos na minha sala de estar com a câmera ligada e eu faço bolos e queijos e iogurte natural". Mas, na verdade, as mais bem-sucedidas são donas de impérios midiáticos, o que evidentemente as coloca numa posição de poder.

Elas têm equipes, muitas vezes estão ganhando muito mais do que seus maridos, então... Ou, sei lá, a Erika Kirk depois da morte do Charlie Kirk, né, que vai e assume a chefia da organização que ele construiu. É claro, depois de perder o marido violentamente. Mas o fato é que ela não vai se colocar num pano de fundo e abrir espaço pra que outros homens dentro da da organização, liderem aquela instituição. E aí, como é que você concilia essa projeção de uma imagem desejável de submissão com a realidade do seu protagonismo na sua própria vida e da sua independência financeira e da sua capacidade de organizar uma empresa, né, que é o que elas fazem?

Então, é a contradição mais velha que existe dentro do movimento conservador, né, de mulheres conservadoras, porque não é novo, é muito comum que movimentos que pregam uma submissão feminina tenham que ter porta-vozes femininas. É muito difícil você de fato conseguir impor às mulheres um papel de submissão e de eterna subordinação aos homens sem que você tenha um discurso positivo para as mulheres dentro desse papel, sem que você de alguma maneira tente convencê-las de que isso na verdade é bom para elas.

Então isso sempre foi o caso, segue sendo o caso, é o caso da Michelle. Esses são os momentos em que essa contradição fica mais evidente. Eu acho a comparação com a Serena Joy, que talvez algum de vocês possa lembrar quem é Serena Joy, muito certeira nesse sentido. E a Serena Joy tá ali como um arquétipo dessa mulher no conto da Aya. Quer falar, Bruno, de quem é Serena Joy?

?Voz B

Então, ela é talvez o segundo protagonista, né? A principal é a própria Aya do Handmaid's Tale, que acho que a maioria das pessoas viu a série, mas o livro em português é O Conto de Aya, clássico da Margaret Atwood. E a Serena Joy é a mulher do, como é que é o nome do comandante, do comando, que poderia ser um capitão, né, digamos. E ela, antes do golpe militar, antes deles tomarem o poder, os Estados Unidos virarem uma ditadura, ela é um instrumento muito fundamental para ganhar popularidade, para legitimar a construção de um patriarcado autoritário, militarizado, que muda as regras reprodutivas do país.

Ela é a face pública, ela é a intelectual, ela é a pessoa que explica para a sociedade, mas basicamente para as mulheres, que são as que mais vão ter que se submeter a esse novo regime, que isso é necessário, que isso é o moral a ser feito. Conflito de que são as feministas e a esquerda que estão deturpando e acabando com a sociedade. O golpe é dado, imediatamente ela é relegada a ficar dentro de casa, submetendo à violência a própria Aya, que vai ter que ter o filho dela e do marido dela, né, já que eles não conseguem se reproduzir.

Aí começa um conflito novo, que ela sente falta de ter o protagonismo que ela tinha antes. Ela sente falta de uma sociedade livre onde ela podia simplesmente falar. E tem um episódio aí, não é do próprio livro, mas acho que é da série depois, da temporada, em que quando ela vai tentar ter mais poder, avançar dentro do sistema político e flexibilizar algumas regras, eles arrancam o dedo dela, eles mutilam ela com a autorização do próprio marido.

E acho que de algum jeito a Michele Bolsonaro, até certo ponto, ela é muito parecida com a Serena Joy, porque ela legitima um projeto ditatorial, de submissão feminina, de teocracia mesmo, para um público feminino que já é alinhado teologicamente com ela. E agora o que me parece metaforicamente é que estavam tentando arrancar um dedo dela ali no partido, e ela falou: "Não, não, não, não, não, não, eu vou arrancar o seu, Flávio, é você que vai ficar sem o dedo." E ela falou: "E eu posso arrancar a sua mão." Então acho que tem Então tem uma certa não continuidade aí da tal metáfora. Mas essa é a Serena Joy.

AOAlessandra Orofino

É, a diferença crucial da Serena Joy com a Michelle é que do outro lado da Serena Joy, né, o comandante, todos os homens que dominam Gilead, né, que é essa distopia imaginada pela Margaret Atwood, eles são muito mais inteligentes do que os homens que estão do outro lado da Michelle. Então é uma— muito violentos, evidentemente, terríveis, mas é igualmente violentos, igualmente terríveis, mas mais inteligentes. Então acho que o perigo da Michelle é que ela tá nadando de braçada num oceano em que realmente ela tá cercada de gente de muita, muito má qualidade, né?

Assim, os seus opositores dentro do campo que ela tá tentando dominar tem muito má qualidade. E sobretudo esses filhos, que eu fico muito impressionada.

GDGregório Duvivier

Muito, muito, muito. Ali é uma— e é curioso que eles também se odeiam. Eu achei que a luta fosse mais fratricida, mas pelo jeito não, foi todos eles unidos contra a mulher. Que aliás é um problema que a Michelle vai ter, não é? Se ela realmente quiser seguir assim, protagonizar a candidatura, ela vai enfrentar a misoginia gigante do próprio eleitor, que só vai votar nela se ela for considerada um braço do Jair.

?Voz B

E eu acho exatamente esse é o risco dela se viabilizar como candidata com esse jogo que ela tá fazendo, porque ela ganha muitas mulheres, que vai ser necessário, mas ela perde uma base extremamente misógina do próprio bolsonarismo, que não vai engolir muito bem ela ter feito isso com os homens Bolsonaro, de ter engolido eles com argumento feminino, com PL Mulher, botando. Então também tem um preço que ela pode pagar lá na frente gente, porque ela não sei se ela esquece, mas talvez ela não tenha a dimensão, é real o quanto que a misoginia é um dos pilares do eleitorado do morto-vivo Jair.

GDGregório Duvivier

E a estratégia do Paulo, que eu acho que deve ser do Flávio também, é muito ridícula, porque para combater esse vídeo, que o que o Paulo disse é basicamente que ela é uma madrasta. Madrasta. Esse é o título do vídeo: Michele atualiza as definições de madrasta. Ou seja, na metáfora dele, o Flávio, ele é uma Branca de Neve, ele é uma princesa pura que tá sofrendo com essa madrasta, com perdão do trocadilho, mas que põe ele no lugar muito indefeso, muito adolescente.

Quem, quem reclama de madrasta é criança, gente. Adulto não tem madrasta, é adulto, vai criar tua vida. 'Ah, meu madrasto é má, foda-se.' Então assim, bota em lugar muito infantil, é muito triste isso.

?Voz B

Vai pra terapia, né? Parece ser sair da chape, vai se tratar, vai começar.

AOAlessandra Orofino

Agora, gente, uma questão que talvez vale a gente, né, falar um pouquinho é o que que acontece se de fato se confirmar uma mudança de candidatura, né? Se o Flávio não fica. Aliás, vale lembrar que o garotinho Ratinho, ex-governador do Rio de Janeiro e ex-radialista, tem um programa, um podcast. Ele é um podcaster, que nem a gente, o Fábio e o Paulo Figueiredo. A gente tá todo mundo aqui, ó, tamo junto.

GDGregório Duvivier

É o que sou, mesmo.

AOAlessandra Orofino

Ele tem um podcast que pode ser interpretado como uma paródia cômica, mas na qual ele faz algumas previsões políticas, às vezes acertadas. E ele tem falado há muito tempo que nem Flávio nem Lula serão candidatos, né? Essa é a previsão de Garotinho. Já mesmo, nem o Lula, nem Flávio, nem Lula. É, quem vem? Não, acho que ele, na verdade, a previsão do Garotinho é que o Flávio não ia se viabilizar, que ia ter um outro candidato, ou Tarcísio ou Michele, e que o Lula, ao perceber que não teria como ganhar, você também se retiraria da corrida porque não ia querer encerrar a carreira política com uma derrota para uma dessas Eu não concordo com essa análise necessariamente, não é isso que eu tô dizendo, mas é isso, né?

É só relembrando que essa ideia de que talvez o Flávio não fique, ela já foi aventada por muita gente. E se isso acontecer, e se de fato a Michelle vier, qual que é a embocadura possível para uma resistência a essa candidatura, né? Como então, como que isso muda o cenário eleitoral potencialmente? E como que isso muda a postura da própria esquerda dentro desse novo possível cenário eleitoral. Alguma intuição da parte de vocês, da esquerda? É, o que que a gente faz com uma Michelle candidata, Bruno?

GDGregório Duvivier

Nossa, pensar, eu acho muito mais perigoso, muito mais perigoso, é mais difícil.

?Voz B

É mais difícil bater nela assim, porque todos os argumentos reais para se bater nela tem muito mais, tem muito mais respaldo no imaginário público, né? Que é a coisa teocrática, que é a coisa religiosa, o falso moralismo e tudo mais, que são coisas extremamente populares no país. Inclusive o falso moralismo é bem mais complicado, é bem mais complicado. Mas ao mesmo tempo, acho que o maior desafio não vai ser o nosso, saber vai ser da direita.

É como é que eles se reorganizam para defender a candidatura da Michele Bolsonaro? E quais cálculos eles vão ter que fazer para se unificar? Acho que esse desafio vai ser colossal para os caras. O que que o Flávio faz? Que que o Paulo Figueiredo faz?

GDGregório Duvivier

O que que o Ciro faz?

?Voz B

O que que o Ciro faz? E eu acho que ela ganha e perde voto, e eles ganham e perdem força também, de um certo jeito, e bagunça o campo deles mais do que o nosso campo. O nosso campo vai se bagunçar na comunicação. Isso não tem dúvida, que aí Dark Horse, não sei o quê, essas coisas todas, tipo, tem que zerar o jogo e ir para outro esquema. Aí tem os, tem a Micheque, tem todas as velhas coisas, mas que é que é meio exumar escândalo de outra natureza. A gente tá falando aí de 5 dígitos, a gente não tá falando de 9 dígitos, né?

AOAlessandra Orofino

Pois é, a gente vai perder o Gregório, que eu sei que tá aí, ó, coitado, com uma peça atrás da outra, mal tem tempo para gente. Mas Greg, quer dar seus 2 centavos antes de ir do que a gente faz com uma Michele candidata?

GDGregório Duvivier

Cara, não queria nem entrar nesse papo porque vai ser muito difícil de rolar. Não, não, obviamente a gente não desiste, mas realmente o Flávio é muito mais fácil de combater porque ele é muito obviamente encalacrado. Eu também acho que a Michele seja, mas é muito mais difícil, acho que, provar. Não tem esse batom na cueca tão claro. E mais, ela tem essa narrativa do mártir, narrativa do Bolsonaro que é perfeita, que acho Eu acho que ela cresce muito, ela tem essa aura do martírio, mas é muito mais difícil bater nela, com certeza, porque é isso, vai dizer que ela é teocrática e a população talvez seja um pouco também.

É difícil dizer que é bandido, que é o que dá para dizer para o Flávio, para o Flávio tranquilamente, e a Michelle não. Então realmente eu acho ela uma candidata muito mais forte. O fato de ela não ter sido aventada candidata só prova a misoginia gigante do campo bolsonarista e a falta de pragmatismo mesmo. É a prova de que eles são muito mais misóginos do que pragmáticos ou políticos, do que espertos, malandros mesmo. Que obviamente ela era candidata mais forte, muito mais forte inclusive que o Tarcísio, tá?

Pra mim ela é candidata mais forte disparada. Esse vídeo deixa muito claro como ela inclusive é boa de câmera, ela é boa, ela é midiática, ela é clara, ela é uma pessoa, uma boa oradora. É triste, mas essa é a verdade. Ela é a melhor candidata disparado do campo bolsonarista. E eu acho que ela cresce muito ainda com esse vídeo. Mas de fato ela cresce, mas ao mesmo tempo ela é incompatível com o projeto bolsonarista do centrão roots, ela é incompatível com o apoio André Fernandes, ela é incompatível com o Ciro.

Obviamente o Ciro deve estar, meu irmão, ia dizer arrancando os cabelos, mas não, não os tem mais. Então ele deve estar batendo a cabeça na parede, deve estar, porque para ele é muito tristonho isso, porque obviamente ele foi, ele comprou briga com a pessoa errada, entendeu? Ela é gigante e ele se fudeu, com certeza. Ele pode estar se elegendo, eu não digo que ele não vai se eleger não, mas no Ceará deve estar um quebra-pau porque ele foi a fonte disso, né?

E acho que isso vai acontecer em todas as alianças que o Flávio fez. Se ela emerge como a liderança, todas as alianças que o Flávio tentou fazer, eu acho que elas caem, elas caducam. Mesmo o Rio, mesmo a Santa Catarina, na qual vamos lembrar que eles botaram o Carlos só para tirar a Carol Detone, que também é uma candidata mulher. E aí faz o quê em Santa Catarina? O Flávio também se fode junto. O Carlos também se fode junto. Perdão.

Enfim, eu acho que isso implode bastante a base deles. Então vai ser complicado para gente, mas tô com o Bruno, vai ser muito mais complicado para eles. Dito isso, gente, eu tenho que ir correndo que eu tenho peça. Beijo, até mais.

AOAlessandra Orofino

Seguindo nessa linha, Bruno, eu concordo com essa análise última aí do Greg, né, de que a maior dificuldade de uma mudança de candidatura a essa altura seria que isso não muda só a chapa para presidencial, mas sacode e desestabiliza todas as alianças regionais e estaduais. E que na verdade o jogo então vai ter que focar muito nisso, né? Então, em tornar essa instabilidade uma fragilidade grande para campanha dela, o que é perfeitamente possível, porque justamente aí que ela não tem a mesma experiência mesmo do Flávio e do grupo que tá próximo do Flávio.

Mas eu acho que a gente vai estar numa sinuca de bico. Se ela vier, porque atacar ela pessoalmente é difícil. Dá para focar na inexperiência dela, mas esse é um argumento que não colou nem no próprio Bolsonaro em 2018, e é difícil que cole agora. Inexperiência virou muito mais, né, na cabeça de um certo eleitorado, muito mais ativo político do que passivo político.

?Voz B

Outsider.

AOAlessandra Orofino

Você reforça o ponto. Existe, claro, o projeto teocrático, que acho que para muitas pessoas, inclusive alguns, sobretudo por uma certa elite que vota no Bolsonaro segurando o nariz, mas vota, isso se torna uma preocupação, mas é um público muito pequeno numericamente, eu acho que teria isso como uma grande preocupação, e é um território muito minado porque isso pode muito rapidamente ser usado também contra a própria esquerda, para a esquerda ser vista como anti-religião, né?

Então, acho que a gente vai acabar ficando reduzido a uma ideia de omissão seletiva, assim, né, que é um pouco justamente a senha que a Maria do Rosário dá ao se solidarizar com a Michelle, que é, no fundo, mostrar como ela foi, como ela é indistinguível do projeto bolsonarista, e ela é oportunista nesse sentido, né, ela nunca falou nada quando o bolsonarismo atacou outras mulheres, jornalistas, artistas, deputadas, etc. E aí ela vai usar justamente esse argumento pra se distinguir e pra evidenciar a maneira como ela tá sendo tratada pelo movimento.

Essa omissão seletiva, essa incoerência que começa a cheirar a oportunismo, eu acho que ela é interessante de se explorar politicamente. E ela é real, é um problema real da figura, né? É um pouco difícil. Não é uma candidata fácil de derrotar. E os números mostram isso, né? Ela fica, ela performa pior do que o Flávio no primeiro turno, na maioria das pesquisas que foram feitas ainda com o nome dela, mas ela performa melhor do que ele no segundo.

?Voz B

Sim, eu acho bem complicado. Eu acho uma candidata bem difícil de bater de maneira simples assim. Vai ter que ser uma campanha muito dinâmica, muito viva, muito semana a semana e tudo mais. Eu só acho que tem umas outras fragilidades que não dependem do nosso campo reagir ou explicar isso, mas que eu acho que, por exemplo, não é que a direita a direita bolsonarista foi burra de não ter indicado a Michele Bolsonaro. Não acho que esse é o ponto.

Eu acho que chega um ponto que para o Centrão, para um certo tipo de político, é melhor perder com o Lula lá e um Congresso totalmente capturado e um parlamentarismo que já estabeleceram funcionando de um jeito profissional do que botar uma pessoa que eles não têm diálogo, que não tem controle, que vai enfiar um monte de pessoas de fora, de igreja, não sei o quê, que mesmo a direita não vai gostar de lidar é organicamente. Nesse sentido, é muito mais fácil para os profissionais do Centrão lidarem com o Haddad, com Lula, com Jax Wagner, como bem sabemos, do que com o grupo que a Michelle vai ser capaz de dominar e meter não só no Planalto, mas em todas as outras áreas.

Vai indicar ministro do Supremo, tem uma série de outras coisas que eu acho que a direita não quer ela presidente na sua máquina de verdade. E eu acho que outro campo que ela perde com mais veemência do que o próprio Jair, que é um apoio de uma elite econômica que não é numérica, mas é muito poderosa do ponto de vista de a formação de consenso e de opinião pública, que são as elites econômicas do país. Que de novo, eu acho que teriam muito mais nariz tapado para Michele do que para o Flávio, que tá tentando fingir que ele representa o que o Paulo Guedes representava, né?

Que foi a maneira como— Então resta saber uma coisa que não tá muito claro, que a Michele nunca se apresentou com uma visão de país, né? Ela sempre se apresentou com uma visão teológica, com uma pessoa, com uma moral específica que vai dialogar com um tipo de mulher brasileira. Esse é o ponto.

AOAlessandra Orofino

Agora, você lembra daquela entrevista Entrevista, Bruno, que o Jair Bolsonaro deu, acho que para a Folha, em que ele fala que se a Michelle viesse candidata e fosse presidente, ele seria Casa Civil, e no fundo quem mandaria seria ele.

?Voz B

Eu lembro disso, é verdade, você lembrou bem. Então isso eu acho que é o ponto de pegar contra. Eu ia falar isso agora de outro jeito, mas bom que você trouxe o exemplo que eu ia falar. Eu acho que vai restar para campanha do Lula botar o Jair como protagonista.

AOAlessandra Orofino

Exatamente. E falar: na verdade, quem vai mandar é ele, ele mesmo disse isso, não vou me agarrar a coisa nenhuma.

?Voz B

Esse homem preso, safado, corrupto vai ser o presidente da República.

AOAlessandra Orofino

O verdadeiro presidente.

?Voz B

O que vai ter acusações de misoginia, como você disse.

AOAlessandra Orofino

Agora, se ele morre logo antes, fica mais difícil. Ele não pode morrer. Não, até outubro.

?Voz B

E esse foi o nosso programa mais especulativo da história.

AOAlessandra Orofino

E olha que a gente especula, a gente adora uma diletância, e dessa vez a gente não parou de especular. Mas é isso, a conclusão desse programa é: mantenham esse homem vivo, segura o Flávio. Não, segura o Flávio e segura o Jair vivo. Ele não pode morrer agora, entendeu? Morre em janeiro, mas não morre agora. Má hora de morrer. Quem é esse médico?

?Voz B

O único jeito dele não morrer é manter ele em casa, que ele fica ótimo, aí para de soluçar, ele fica alustrando a alma dele.

AOAlessandra Orofino

Bem que eu não sei, eu não tenho essa frieza toda.

?Voz B

Eu quero ele em cana, não quero ele— eu quero, eu queria que Bolsonaro tivesse uma longa vida preso, eu queria mesmo. Eu queria que ele cumprisse os 27 anos e 3 meses dele em regime fechado, mas eu sei que isso não é viável.

AOAlessandra Orofino

Então é muito pouco provável.

?Voz B

Dadas as opções, eu eu prefiro não me manifestar. É nos autos. Espero que isso não fique em ata, gravado. Depois você me liga, eu digo o que que eu acho.

AOAlessandra Orofino

Tá bom. E aí, quem quiser saber o que o Bruno realmente acha, a gente tá abrindo aqui o— como é que é— o proibidão do calmo urgente, apenas para assinantes. Não, mentira. Opiniões sinceras serão dadas.

?Voz B

Assina um termo de sigilo absoluto, vocês serão processados caso vocês vazem algum pedaço. Aí a gente diz o que a gente realmente acha.

AOAlessandra Orofino

O que a gente realmente acha desse assunto. Não, a gente é perigosamente sincero, inclusive na nossa ignorância, ao vivo mesmo. É um ato de... Eu poderia dizer que é um ato de coragem, mas acho que é um pouco glorioso. Eu acho que é mais um ato de completa irresponsabilidade. É mais isso. Ok, queridos, vamos encerrar. Bruno, você tem alguma indicação de leitura?

?Voz B

Sem filtros. Sem filtros. Filtro, dica de leitura, putz, não tô lendo as mesmas coisas da semana passada, eu não sei, eu recomendei um filme. O que que você indica?

AOAlessandra Orofino

Gente, eu indico que vocês leiam O Conto da Aya. O Conto da Aya está muito atual e claro tem adaptação que foi feita, né, pela Hulu para televisão, então tem uma série com 6 temporadas. Eu pessoalmente amo o livro e não consegui assistir a série assim, assistir uma cena ou outra, uma coisa outra, porque eu acho a série... eu não gosto da linguagem da série, assim, eu acho que existe uma fetichização da tortura feminina ali um pouco exagerada, que realmente me incomoda a ponto de eu não conseguir ver.

Então não é uma obra que eu consegui... que me pega, assim. E logo de cara, assim, muito rapidamente eu falo: "Não, não vou ficar vendo Mulher". E continua, depois eu fui ver alguns episódios da temporada da quarta, da quinta, da sexta temporada pra tentar identificar algumas cenas específicas, por questões mais de pesquisa sobre cultura pop do que de realmente tentar acompanhar. E eles não saem dessa chave. É um negócio que pra mim, não.

Mas o livro é um livraço. Um livraço. A Margaret Atwood, aliás, é toda maravilhosa. Então, se você, como eu, não conseguiu se conectar com a série por essa razão ou por outras razões, ainda assim eu indico o livro, não desisto do livro. E ele está extremamente atual e é extremamente relevante para a conversa que a gente teve hoje. Vai lá, Bruno.

?Voz B

Não, totalmente. O conto de Aya é literatura básica para os nossos tempos. Desde que o Trump se elegeu e tudo mais, não sei o quê, meio que voltou, né, assim, como símbolo mesmo, do mesmo jeito que 1984 foi o ano que as distopias— a gente já falou disso, né— que as distopias se tornaram parte do nosso noticiário Aya. E esse livro, eu acho que— eu não acho, talvez ele seja o melhor livro dela, porque ele é muito perfeito, é muito conciso, ele é direto, ele é seco assim, ele é muito bem feito.

Não gosto muito da sequência que ela escreveu anos depois, Os Testamentos. E o livro é muito mais criativo, muito mais inteligente do que a série, porque o livro é uma— ele tem uma inteligência narrativa diferente. Ele é uma carta de confissão dessa Aya que foi encontrada muitos anos depois Então só tem um ponto de vista, é confessional. Então ele não tem aquela coisa que a série dá, que é uma observação de vários ângulos que mostram coisas que a Aya não tinha como ver.

Ele é simplesmente o relato da mulher vitimizada por essa situação. Eu concordo muito com o Tigo, e tem uma coisa meio snuff de uma violência que não é para ser exibida dessa maneira e que no livro funciona bem, porque enfim É só escrito. Mas a minha dica...

AOAlessandra Orofino

E é a subjetividade dela o tempo todo, né? Tem uma coisa na maneira como você relata a violência contra a mulher, aliás, violência de uma forma geral, é muito diferente quando você assume um olhar de fora e quando você tá dentro da subjetividade ou do perpetrador ou da vítima, né? Do perpetrador isso pode ser muito perigoso, mas tem uma maneira de fazer que, enfim, mas sobretudo quando você tá na subjetividade da pessoa que tá sofrendo violência, ainda assim é duro pra quem lê ou pra quem vê, mas você de alguma forma evita a fetichização. Você evita a pornografia.

?Voz B

É muito pornográfico.

AOAlessandra Orofino

Eu acho a série muito pornográfica.

?Voz B

E tem essa questão que pra mim vai além, porque tem cineastas, especialmente filmes, longa-metragem, que conseguem colocar essa violência extrema e tal, e que às vezes, não digo que fetichizam, mas andam num lugar muito perigoso, como o Lars von Trier, o Gaspar Noé, antes dos filmes que ele fazia antes e tudo mais. Mas eu acho que o grande demérito da série é que ele faz isso ser, além de pornográfico, pop. E eu acho que se for para você fazer esse tipo de violência, o seu filme precisa ser um filme para um consumo muito concentrado, é muito calcado mais em debate do que grandes audiências e a lógica de audiovisual de série, de retenção de atenção, de ver até o último capítulo, de renovar temporada.

Aí eu acho que é trabalho para o Lars von Trier mesmo, entendeu? Para o Gus Van Sant, para esses caras que sabem fazer isso. E aí é polêmico, ninguém vai ter concordância, mas não tá dentro da lógica industrial pop, que eu acho que essa série peca muito e nunca É deixar de estar trilha, estética, boas atuações. Mas a minha dica da semana é: assinem o Clube de Cultura do Como Urgente para o segundo semestre. Estamos com as inscrições reabertas.

A gente abre só duas vezes ao ano, no começo do ano, que você pode pegar o ano inteiro, e agora se você quiser pegar os últimos meses e fazer parte da nossa comunidade. É a única maneira como esse programa se financia, sustenta nossa equipe, nossa produção, os nossos eventos presenciais e o nosso clube. Então a gente tá— pode entrar em calmogente.com, é por tempo limitado, e você entra na nossa turma de agosto já, que é quando o clube recomeça.

Teremos um breve recesso em 3 semanas do mês de julho. E para dar um exemplo, na quarta-feira que vem, só para assinantes, eu vou entrevistar ao vivo por Zoom, com a participação da nossa comunidade, a Pauline Torte, autora dos Imortais, livro que estamos lendo juntos no último mês. Livraço, independente se você tá ou não no nosso clube, tem sido uma dica recorrente nossa para você ler esse livro. Acho que fundamental da literatura brasileira contemporânea.

E vou ter o prazer finalmente de conversar com a Pauline quarta-feira, 8:30 da noite. Exclusivamente para membros e membras do clube de cultura do Calma Urgente, calmagente.com.

AOAlessandra Orofino

É isso, pessoal. Então com isso a gente encerra esse papo de domingo, esse papo sem compromisso no domingo de manhã, e a gente se vê semana que vem.

?Voz B

Até breve, beijo, valeu, tchau, Bru!

AOAlessandra Orofino

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção temos Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Leo Toni Costa. Na pesquisa e roteiro, Luísa Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Crocco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, em espanhol, Pedro e Noe, e uma consultoria de comunicação por Luna Costa.