Episódios de Calma Urgente

Revelando um Programa. Mudando o Assunto pra não Mudar de Assunto

15 de setembro de 20261h26min
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O Calma Urgente apresenta o Revelando, uma nova série de reportagens sobre histórias que marcaram o país e impactam o Brasil até hoje, contadas de um jeito que você nunca viu. 

No primeiro episódio do Revelando, mergulhamos sobre uma ideia tão atual mas que revela algo mais profundo: quem decide quem pode ou não ter filhos? Desdobramos a história da Eugenia no Brasil, passando por os casos de esterilização forçadas, e como essa ideologia está presente até hoje nos discursos presentes na internet.

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O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções 

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Direção, Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez

Na Supervisão de Produção, Gustavo Rosa de Moura 

Na Produção Executiva, Carolina Forattini Igreja 

Na Coordenação de Produção, Sabrina Macedo

Na Captação, Edição e Mixagem, Amanda Carvalho e Vitor Bernardes

Na Edição de Cortes, Marina Cartum e Amanda Carvalho

Ilustração e Design, Anna Brandão

Na Coordenação de Pós-Produção, Marcelo Daros

Nas Redes Sociais, Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Na gestão de parcerias, Leo Tone Costa

Estratégia de Divulgação, Luna Costa

Identidade visual, Pedro Inoue

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Participantes neste episódio2
A

Alessandra Orofino

Host
B

Bruno Torturra

HostJornalista
Assuntos6
  • Lançamento do programa Revelando e sua proposta jornalísticaRevelando·Calma Urgente·Peri Produções·Conteúdo jornalístico
  • Ameaça da presidência de Flávio Bolsonaro e a necessidade de mudar o foco da campanhaFlávio Bolsonaro·Lula·Donald Trump·Crise climática·Inteligência artificial
  • O projeto eugênico bolsonarista e a esterilização de mulheres pobres no BrasilEugenia·Controle de natalidade·Bolsonaro·Mulheres pobres·Ditadura militar
  • Impacto da crise do STF na pauta eleitoral e na campanhaSTF·Alexandre de Moraes·André Mendonça·Banco Master·Eleições 2026
  • O perfil dos eleitores indecisos e a comunicação estratégica para alcançá-losEleitores indecisos·Mulheres de baixa renda·Anti-polarização·Flávio Bolsonaro
  • A identidade política do eleitor e a dificuldade de mudar votosIdentidade política·Polarização·Flávio Bolsonaro·Lula
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BTBruno Torturra

Salve, salve, eleitoras, eleitores ansiosas e ansiosos do Brasil! Aqui é Bruno Torturra começando mais um Calma Urgente. Hoje, dia 14 de setembro de 2026, o ano da graça. Estamos ao vivo, ao vivaço, são 8:32 e chamo aqui Alessandra Orofino, hoje em outro fuso, em outro hemisfério, direto do México. Alessandra Orofino. E estamos entrando pontualmente porque, porque Gregório não está. É isso, Gregório hoje ele não poderá nos fazer companhia.

Mas já avisando, porque é um mês extraordinário e uma semana extraordinária em um mês extraordinário. Amanhã, terça-feira, dia 15, também nós teremos calma para comentar um dia potencialmente, eu não digo decisivo, mas um dia fulcral para o escândalo do STF. Então amanhã, terça, entraremos ao vivo também, dessa vez com Gregório Duvivier no nosso trio, que hoje é uma dupla. E hoje também vai ser um programa extraordinário. Porque além de fazer alguns comentários, falar sobre a campanha, sobre o cenário que vem se cristalizando e piorando ao mesmo tempo, a gente vai fazer um anúncio, um anúncio muito interessante de um novo programa, de um novo produto jornalístico em que o Calma e a nossa turma é coprodutora.

Estamos juntos e a Alessandra vai explicar melhor isso. Mas por enquanto, e aí, Alessandra, como estão as coisas?

AOAlessandra Orofino

Como estão as coisas? A nossa análise do que tá acontecendo se relaciona inclusive com esse outro projeto. Mas como estamos?

BTBruno Torturra

Que se chama Revelando.

AOAlessandra Orofino

Por isso nós vamos revelar o Revelando. A gente vai chegar lá. E eu acho que tem, a gente tem recebido muito da nossa comunidade, das pessoas que acompanham o Calma, de você que tá ouvindo a gente, essa demanda por mais conteúdo, né? As pessoas muito desesperadas por ter coisas para compartilhar, coisas para mandar para o amigo, para o vizinho. E a gente não tá falando aqui de peça de campanha porque não é o nosso papel, mas a gente entende que a nossa contribuição nesse momento também é trazer conteúdo jornalístico, mas que fale dos assuntos que a gente entende que precisam ser discutidos nesse momento e que não necessariamente capturam as manchetes.

Então a própria linha editorial do Calma Urgente, na sua incepção, né, a maneira como a gente criou esse podcast, a razão pela qual a gente criou foi também para falar não só com calma dos temas urgentes, mas com urgência daqueles temas que talvez a gente tenha calma demais com eles. Ou seja, eles não estão justamente capturando atenção porque eles não parecem urgentes, mas eles precisam ser tratados com urgência. E acho que o Revelando tá bem nessa segunda categoria, né?

A gente tá ali, tá fugindo, ou não exatamente fugindo, mas a gente não tá se deixando pautar pelo que tá na manchete do dia, mas a gente tá falando de temas mais amplos. A gente vai falar do projeto já já, mas agora para voltar para o nosso assunto, eu acho que o grande assunto dessa semana é justamente como essa captura da atenção ela é perigosa, né? A gente passou as últimas duas semanas basicamente só falando de STF e da crise no STF, do Alexandre de Moraes, do André Mendonça e do Banco Master.

E é claro que esse é um assunto importante, central. E é claro que é muito difícil também não comentar o que tá na nossa frente, porque aponta para uma crise realmente profunda envolvendo um poder que teve um papel muito fundamental no primeiro, né, no primeiro mandato do Bolsonaro, no único mandato do Bolsonaro, e que agora se vê envolto nessa crise gigante. Então é normal, acho que isso mexa não só com o país, mas com o nosso campo especificamente, o campo democrático, o campo progressista lato sensu.

Que se apoiou muito no STF, inclusive com uma força que evitou em grande medida que um golpe fosse dado no país e que depois, especificamente a figura do Alexandre de Moraes, que virou uma figura profundamente polarizante no país. Então tudo isso é natural, mas o que a gente tem sentido é que essa captura da atenção ela é muito nociva para o debate eleitoral de fato e para os debates que precisam acontecer no período eleitoral.

Ela é nociva para a qualidade do debate eleitoral, independente da posição que cada um ocupa. Acho que qualquer um preocupado com a qualidade do debate eleitoral deveria estar preocupado com o fato dele estar nesse momento capturado por uma crise que não tem exatamente a ver com presidência, tem a ver com outra coisa. Mas para quem tá especificamente preocupado com a eleição do Flávio Bolsonaro, eu acho que isso é duplamente grave, ruim.

Porque a sensação que dá é que enquanto o debate estiver aí, o Flávio vai nadar de braçada. Não é um espaço aonde o campo anti-Flávio tenha muito, tenha muito como crescer. E é claro que, né, tirar o sigilo do caso Dark Horse, botar mais luz nas maracutaias, né, do próprio Flávio, no fato dele tá pedindo dinheiro para forcar, tudo que a gente já sabe, Não é ruim, mas esse desgaste, o desgaste do Dark Horse, ele já aconteceu, ele aconteceu meses atrás.

Inclusive foi estratégico da parte deles fazer com que esse desgaste acontecesse meses atrás. Eu não acho que isso foi arbitrário, né? Isso foi pensado porque sabia-se que isso ia vir à tona mais cedo ou mais tarde. Então melhor que fosse mais cedo do que mais tarde em relação ao calendário eleitoral. Então tudo indica que isso foi algo que foi pensado, de caso pensado. E aí agora a gente tá basicamente relitigando uma coisa que já, que já causou o desgaste que ela podia causar.

O que não quer dizer que seja página virada, como Flávio insiste em afirmar. Não é e não deveria ser, mas na cabeça do eleitor é. E é isso, né? E o que tem de novo, de novidade agora na cabeça do eleitor, é o Alexandre de Moraes. Que é associado ao lulismo também na cabeça do eleitor, por razões que enfim são injustas, mas que existem.

BTBruno Torturra

Eu concordo completamente. Eu, eu sinto essa captura na nossa pauta. Os Calmas Urgentes mais vistos da história foram os das últimas semanas em que a gente se aprofunda no caso STF. Mas eu acho que ele não foi exatamente por conta do escândalo do STF que a gente foi mais visto e a gente repercutiu mais. Exatamente pela nossa angústia de como isso impacta negativamente para o campo democrático. E eu concordo completamente. Eu acho que achar que a relação do Flávio com o Avorcaro, se mais pessoas entenderem isso, vai ser a bala, a bala de prata, é um engano gigantesco, né?

Porque há muito pouco tempo o Flávio e o Avorcaro eram Não digo mais próximos, mas era o único escândalo na mesa, né? Hoje ele tá muito mais diluído. E acho que a única saída para o Flávio derreter um pouco é algo que não está com espaço nessa campanha. E é chocante que não esteja com espaço. Metade por conta do escândalo do STF, e a fome jornalística que isso implica. Não é uma crítica à imprensa, porque a imprensa vai onde tem sangue, e é lá que o sangue tá.

Mas a outra parte que eu acho que a gente não tá conseguindo conversar, claro, tem economia da atenção, tem a nossa própria libido em cima disso, mas a campanha do presidente Lula não tá conseguindo fazer uma coisa que eu considero assim a única coisa que tem para ser feita, que é fazer o país tangibilizar o que significaria uma presidência Flávio Bolsonaro. E eu acho que isso não tá acontecendo nas conversas que eu tenho anedoticamente, mas no ambiente de comentários me parece que as pessoas não estão conseguindo imaginar a política econômica sobre o Flávio Bolsonaro.

O meio ambiente sob o Flávio Bolsonaro, a relação dele com o crime que ele sempre teve, alegadamente relações muito suspeitas com milícia, relações muito suspeitas com outros tipos de crime que não o vorcaram, como que isso impactaria numa presidência, como que a relação dele de submissão absoluta ao Donald Trump implicaria numa eventual presidência, mas o que não é pouca coisa, a memória do que foram os 4 anos Bolsonaro, né, que são indissociáveis do Flávio, que ele é o representante não só familiar, mas o representante do mesmíssimo projeto que hoje entraria em campo muito mais organizado e muito mais empoderado para colocar em campo o que eles desenharam anos atrás.

Então eu acho que de algum jeito para essa eleição ser ganha, e hoje é um dia muito duro para falar isso porque o Flávio passou numericamente o Lula no segundo turno com 2 pontos na Quest, que é uma pesquisa séria, eu acho que o único jeito dessa eleição ser ganha é a gente mudar de assunto, é a gente deixar o STF se resolver E a energia da militância é não tentar desatar o nó do Alexandre de Moraes e do Fachin e do Mendonça e desses nomes que a maioria das pessoas na população não conseguem entender e nem tem paciência para entender qual a trama exatamente disso, mas é a gente conseguir falar de educação, saúde, segurança pública e a corrupção mesmo.

Sobre outros termos, em outra pauta. E acho que a campanha do Lula não tem conseguido pautar isso, e a sociedade mesmo não tem conseguido pautar isso por fora desse grande escândalo que tomou o noticiário.

AOAlessandra Orofino

E tem algumas, algumas coisas aqui, Bruno, só para a gente também não entrar em contradição com o que a gente falou no último programa, né? A gente acha que foi muito positivo o Lula pedir a quebra do sigilo do caso Master. Era a única coisa que tinha para fazer. Ainda achamos que ele podia ter feito isso de maneira mais incisiva, né, e mais para cima, mostrar uma indignação no fígado, que acho que falta essa energia na própria figura do Lula nesse momento.

Mas era coisa a ser feita, era pedir transparência, era pedir clareza, era pedir luz. Tá corretíssimo, e é importante que essa luz se dê. Isso é diferente de considerar que luz sobre esse caso sozinha vai resolver a eleição. Pedir luz sobre esse caso era o movimento lá no xadrez maluco que tá apresentado para o Lula nesse momento, que não tá nada simples para ele, era o movimento mais óbvio, né, na nossa análise e na análise de muita gente.

E ele de fato fez isso, o que prova que provavelmente muitas outras pessoas, né, que estão próximas dele, muito mais próximas do que nós mesmos, também achavam que esse era o movimento correto. Então isso, que bom, mas isso não vai resolver essa eleição. E aí tem uma coisa que a gente vem dizendo desde o início da campanha, que finalmente a gente parece tá vendo indícios dentro da campanha de que isso tá sendo cristalizado dentro da campanha também, que é posicionar essa campanha como um grande referendo sobre a santidade do Lula não vai ser uma estratégia ganhadora.

A gente precisa que essa campanha seja uma campanha centrada na memória terrível dos anos Bolsonaro, porque foi isso que fez a gente ganhar em 22. As pessoas estavam exaustas, daqueles anos terríveis que a gente viveu. Então é muito necessário que a gente recupere essa memória agora. É uma espécie de TBT do Jair, assim, é lembrar de como foi ruim. Então isso é uma coisa. E aí um ponto só para não deixar passar batido: quando eu falei antes que foi de caso pensado, que o caso do Dark Horse veio à tona cedo, eu não tô dizendo que isso foi uma estratégia do Intercept, tá?

Que aliás tem feito um trabalho fundamental. Longe disso. O Intercept tem sido incrível mesmo. E, gente, apoia o jornalismo independente, a Agência Pública, o Intercept, o Calma Urgente, os podcasts que estão fazendo análise de forma independente. A gente tem muitos exemplos, né, de gente trabalhando tanto do ponto de vista, né, redações que trabalham mais com apuração mesmo, que é o caso do Intercept, que é o caso da Pública, até jornalismo de contexto, gente que tá fazendo análise.

E que bom que que esses veículos existem. Não é isso que eu tô dizendo. O que eu tô dizendo é que qualquer jornalista que basicamente vem à tona, né, vem a público com uma apuração baseada em vazamento, receber esse vazamento de algum lugar. E parte do problema que a gente tá vivendo nos últimos anos realmente no Brasil é que esses vazamentos, como o próprio Lula falou, tem acontecido de maneira seletiva e estratégica. Uma vez que um vazamento ocorre, o jornalista não pode não dar.

Você tem uma informação de interesse público E é evidente que a informação sobre o Dark Horse era de interesse público, ela precisava vir à tona no momento em que ela veio à tona, porque foi o momento em que o vazamento ocorreu. Mas a gente precisa saber, ainda assim, que existe uma estratégia por trás desses vazamentos. E ignorá-los não é uma opção, fingir que eles não aconteceram não é uma opção, e nem é justo exigir isso da imprensa.

Mas nós, como público, como audiência e como campo, precisamos ser espertos em relação à maneira como a gente se relaciona com esses vazamentos, entendendo que se eles estão acontecendo dessa forma e nesse esse ritmo é porque isso interessa a alguém, inclusive às vezes ao nosso próprio campo, mas alguém interessa, né?

BTBruno Torturra

Eu concordo sobre isso, não tenho a menor dúvida. Agora, só uma leve divergência em relação a— eu acho que o governo Bolsonaro tem que ser lembrado, mas eu não acho que a lembrança do governo Bolsonaro é o ovo de Colombo. Aqui. Eu acho que ela dá lastro para uma coisa muito importante, mas que eu acho que é a projeção do futuro imediato. Não é que eles não merecem uma outra chance. Lembra como a pandemia foi horrível e tudo mais?

Infelizmente, a nossa memória como povo é muito curta. As pessoas costumam ser julgadas pelos que elas estão muito mais pelo presente do que pelo do que pelo passado. E o Jair não é o candidato, é o Flávio. Flávio tem uma outra, um outro lugar na cabeça das pessoas por algum motivo. Mas eu acho que o que falta mesmo, e acho que a campanha do Lula também não conseguiu fazer isso nem em relação ao próprio Lula, que é fazer um desenho dos próximos anos.

Qual é a agenda dos próximos 4 anos? O que que tá em jogo? Qual é o cenário que tá desenhado nos próximos 4 anos, que é muito distinto do cenário de 2018 a 2022. No cenário de 2018 a 2022, vamos dizer aqui, a gente veio na esteira de uma Lava Jato avassaladora, o Lula tava preso, ninguém tinha, tava no começo da onda de extrema-direita no mundo, rede social ainda era uma relativa novidade na maneira como influenciava em eleições.

Hoje esse cenário tá muito consolidado. Em 2018 ninguém podia imaginar que tinha uma pandemia que viria em 2020. O Bolsonaro tinha um Paulo Guedes que era uma merda de fiador, mas era o fiador dele, né? Assim, era um cenário bastante distinto do cenário de hoje em dia. Hoje a gente tem um cenário de um futuro muito distópico e muito tenso e muito consequente desenhado imediatamente no nosso horizonte. Para quem tá mais ligado nas notícias, para quem tá mais informado de coisas mais tecnológicas, né, a gente tá falando de que os próximos 4 anos vão enfrentar um avanço avassalador de inteligência artificial, um avanço avassalador de hipervigilância, de uma nova configuração tecnológica, de uma nova oligarquia tecnológica que vai se consolidar aceradamente e vai depender de muita regulação e muito exercício de soberania para a gente não ser atropelado.

A gente vai enfrentar um El Niño que não é só o El Niño, é aceleração da mudança climática. E os 4 anos, esse sim, ainda mais decisivos para o destino da transição energética brasileira, para o uso dos nossos recursos minerais, seja de terras raras ou de ou de combustíveis fósseis, para ver o que que a gente faz. E um cenário de ameaça de soberania com o Donald Trump imperialista. Então eu acho que tem um, de novo eu vou insistir nesse ponto, que é o único que eu tenho hoje, o desenho da presidência Flávio Bolsonaro, eu acho que ele se traduz relativamente fácil em um tipo de pesadelo para a maioria das pessoas no país.

Eu, eu, eu sinto isso até com gente de esquerda que não vai votar no Flávio, que vota no Lula, com certeza, mas que não chegou a visualizar a presidência Flávio Bolsonaro. E quando a gente fala disso, eu vejo reações nos nossos comentários muito interessantes, nosso Instagram, que é assim: não, não, não, não, não, vai dar Lula, eu não consigo nem imaginar. Então tem uma certa, um certo já ganhou que não é nem triunfalismo, É um tipo de autodefesa psíquica. Eu não estou preparado para imaginar isso.

AOAlessandra Orofino

Mas parte, e você tem toda razão, Bruno, parte do que a gente vai precisar fazer agora para lidar com essas pessoas, né, os famosos indecisos, que não são exatamente indecisos, a gente vai falar um pouquinho mais sobre eles e na verdade elas já já, é tangibilizar esse cenário. Quando eu falo de falar da memória é porque a gente precisa ancorar esse cenário na memória que a gente tem, né. A gente viveu uma presidência do Bolsonaro muito particular, porque ele lidou com um tipo de emergência mundial que não acontece toda hora, que foi a pandemia.

E ele lidou da pior maneira possível. Então, quando a gente pensa nos desafios dos próximos 4 anos, que vão ser gigantes, mesmo sem uma pandemia, mas a gente esperamos que não tenhamos outra pandemia nos próximos 4 anos, mas a gente tem a aceleração da mudança climática, a gente tem IA, a gente tem muita guerra, a gente tem um mundo cada vez mais violento e mais instável. E acho que isso é uma coisa que tá todo mundo sentindo, né?

As notícias se acumulando, é lembrar que a gente vai ter uma versão pior do Jair no poder se o Flávio ganhar, encarando tudo isso. E eu insisto que é pior, tem isso também, né? O Flávio, ele de alguma forma consegue se apresentar como uma alternativa mais moderada ou mais tranquila ou menos estúpida. Ele é mais estúpido. O Flávio, ele é muito pior, porque o Flávio, ele é ao mesmo tempo, ele tem a mesma o mesmo compromisso com atraso, né, a mesma, o mesmo reacionarismo burro, a mesma estupidez pequena, os mesmos instintos autoritários, uma ligação ainda mais documentada, vastamente documentada, com o crime organizado e com a milícia.

Mas para além disso tudo, ele é um nepo baby. O Jair, pelo menos tem uma coisa que ninguém pode tirar do Jair, é que ele construiu o império político dele. Ele não veio de um império político, ele não vem de uma dinastia política, ele se construiu. Não exatamente como um outsider, porque ele tava na política há muito tempo quando ele foi eleito, mas como alguém que efetivamente não tava dentro de uma máquina partidária, no controle dessa máquina. Ele construiu uma persona política sozinho.

BTBruno Torturra

É um self-made merda, né?

AOAlessandra Orofino

Ele é um self-made merda. O Flávio, ele é um merda que nem foi self-made.

BTBruno Torturra

Entende? Ele é um nepofeses.

AOAlessandra Orofino

Ele é um nepo. E isso é muito central para a identidade política dele. Ele tem todos os vícios do pai e ele não tem nem assim nenhuma capacidade própria. Ele é fraco. Inclusive, parte da tensão com o Flávio, acho que na nossa mensagem, na maneira como a gente fala com os indecisos, a gente precisa lembrar disso, é que não é só que ele— quando a gente fala que ele tem ligações documentadas, de novo, ele nunca foi condenado por ligações com a milícia, mas ele tava lá, né, condecorando Policial preso por homicídio, enquanto o cara estava preso.

Essa pessoa, né? Essas são as ligações documentadas. Quando a gente diz que ele tem essas ligações, fica parecendo que ele era o que a gente tá alegando, que ele era o grande chefe do crime. Ele não tem nem essa capacidade, gente. O que a gente tem de documentação do Flávio é pequeno e é sempre numa posição vassala. Ele é o cara que dá a medalha para o miliciano. Ele é sempre o puxa-saco de alguém, ele é sempre, ele é sempre, ele tá sempre prostrado nos pés de alguém.

A fraqueza é o que o define. Até eu sinto que chamá-lo de miliciano é para além do fato de que não existe uma condenação e que não é possível fazer isso no ambiente de campanha eleitoral, pelo menos não oficialmente. É quase um, é quase um elogio no caso dele, entende? Porque o coloca numa posição de homem forte, de fortão, de de chefe, de liderança. Ele nunca foi liderança de nada. Ele é um, ele é um bobo da corte sempre. Ele tá sempre na corte de alguém.

A corte do pai, é a corte do Adriano da Nóbrega, é a corte do Trump, entende? É a corte do Forcaro. É essa criatura, entendeu? É o eu tô contigo sempre, é o cara que se humilha diante de alguém mais poderoso do que ele absolutamente todas as vezes. É isso, Flávio. E é evidente que um governo Flávio vai ser um governo de humilhação para o Brasil. Tem uma, falando nessa história da submissão, Bruno, tem um problema, né, outra armadilha do momento em que estamos é que quando a gente fala de submissão aos Estados Unidos, tem uma parte do país que vê isso de forma positiva, né.

Tem um vídeo que circulou bastante que acho que a gente pode colocar aqui depois que é uma animação com IA ilustrando como seria uma espécie de invasão americana nos Estados Unidos. E isso foi produzido não pelo nosso lado, mas pelo lado do Flávio. É visto como uma coisa positiva, né? Então é o Trump chegando em Brasília, mandando míssil na Praça dos Três Poderes. Só que tem uma chave muito importante para a leitura desse imaginário e por que que isso é visto de maneira positiva.

Logo no início do vídeo, que eles mostram uma espécie de um repórter assim anunciando, e o que ele anuncia é que o Brasil vai fazer parte dos Estados Unidos. E eu realmente sinto que isso povoa o imaginário não só da direita brasileira, mas de um certo senso comum do Brasil, que dominação dos Estados Unidos é em alguma medida uma espécie de incorporação, é fazer parte de. E a gente precisa lembrar para as pessoas que o Trump não está procurando expandir as fronteiras do seu país.

Aliás, ele é alguém que procura tornar o país mais insular, né, menos permeável a outros. O que ele tá procurando é colônia, o que ele tá procurando é lugares para dominar, ele tá procurando fazer em outros países o que ele já tá fazendo na Venezuela. Quer chegar e dizer: me dá aí seu petróleo. Ele anunciou, como a gente já falou aqui no Calma, recentemente, que o petróleo da Venezuela ia ser dado para os Estados Unidos como um presente para o povo americano.

Então, se o desejo, se o desejo, um tributo, se o desejo das pessoas, e sobretudo desse cidadão médio brasileiro que sonha com a Disney, que sonha com dólar, que quer ascender, o tipo de ascensão social que tá povoando o imaginário popular no Brasil, uma ascensão social para uma classe média americana. As pessoas, quando sonham com uma ascensão, elas sonham com uma ascensão que não é uma ascensão à brasileira, ela é uma ascensão à americana, é uma ideia de pertencimento a uma classe média americana.

Essa não é a pauta do Donald Trump, e a gente precisa lembrar isso. Ou a gente constrói um projeto de mobilidade social, de inclusão social, de ascensão social, de prosperidade no Brasil brasileiro, Ou aí que não tem ascensão social possível mesmo, porque o tipo de relação que o Trump tá querendo estabelecer com esses países é de colônia, e é, portanto, de subserviência não só do país, mas da população desse país, que precisa permanecer na miséria, com a exceção de uma pequena elite dominante, que é exatamente a posição que os Bolsonaro tão tentando ocupar nesse projeto, é de elite dominante.

Mas com exceção dessa pequena elite que serve de capo, né, que serve de capitão do mato pra essa para esse projeto de dominação americano, o resto da população precisa permanecer miserável. Essa é a lógica de uma colônia de extração, né, que já foi a lógica que dominou, enfim, boa parte da nossa região durante muito tempo, mas que é a lógica agora que o Trump quer restabelecer com os Estados Unidos no centro. Então não se trata de se tornar americano.

E acho que a gente na esquerda, a gente dá de barato É que se você falar para as pessoas que os Estados Unidos estão querendo dominar, que isso basta para gerar algum tipo de medo, e não gera medo, gera desejo. A gente precisa saber disso e lembrar que a questão aqui não é integrar os Estados Unidos, a questão aqui é virar escravo dos Estados Unidos.

BTBruno Torturra

Eu concordo. Eu, eu, eu tenho um sentimento que eu já falei muito disso na época, na época do boletim, mas que eu acho que a gente tem que levar em consideração especialmente de novo sob a sombra de um novo Bolsonaro ganhar a presidência, que o Brasil é um país autoxenófobo, né? É um sentimento muito peculiar brasileiro que às vezes é traduzido como complexo de vira-lata, mas às vezes eu acho que é um pouco mais, um pouco pior, um pouco mais profundo do que autodepreciação.

Ele tem alguma coisa no patriotismo brasileiro bolsonarista que é uma, que na verdade é uma exaltação patriótica de um tipo de inferioridade, de um tipo de ódio a si mesmo que tá querendo ser suplantado exatamente na submissão. Não é de hoje que as manifestações do bolsonarismo tem a bandeira dos Estados Unidos e de Israel junto, porque é o desejo do Brasil ser associado com esse tipo de imagem que se faz desse lugar. Não é à toa que Santa Catarina, que é um estado com uma particularidade na sua colonização e na sua ideologia e na maneira como a direita se estabeleceu lá, que muita gente nem se considera brasileira lá, que eles têm preconceito com brasileiros, né?

E acho que tem muito isso. Eu me lembro de ver muitas frases nessas manifestações de extrema-direita que eu costumava ir quando elas começaram, que era muito interessante, que era assim: eu não quero mudar de país, eu quero viver em outro Brasil. Era uma das coisas que se falava, né, que é a transformação total do significado brasileiro mesmo. Mas o que eu acho disso, Alessandra? Eu acho que quem já tem essa coisa de querer ser dominado pelos Estados Unidos é quase que um voto perdido, tá?

AOAlessandra Orofino

Eu acho que eu discordo, eu discordo.

BTBruno Torturra

Onde eu vou chegar? Rapidamente, mas eu concordo com você que falar Estados Unidos, Estados Unidos, não sei o quê, não é, não é o ideal. Mas eu acho que o Trump é diferente dos Estados Unidos. O foco eu acho que precisa ser muito mais colocado na gangue trumpista do que nos Estados Unidos lato sensu. Porque a ideia de que os Estados Unidos são uma força imperial colonizadora negativa racista que impôs ditaduras militares não só no nosso continente, mas em muitos outros, que, que isso é uma coisa muito interessante, é um dado muito seco, que é o seguinte: depois da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos ajudou a acabar com com a extrema-direita autoritária na Europa, particularmente.

Depois disso, todas as ditaduras de direita do mundo, todas tiveram apoio dos Estados Unidos. Mas isso não é algo fácil de se comunicar, não é algo fácil de comunicar em 3 semanas, não é assim que a gente ganha uma eleição. Mas eu quero acreditar preciso acreditar para achar que essa eleição pode ser ganha, que a maioria do Brasil rechaçaria uma ditadura Trump no Brasil, rechaçaria o que o Pete Hegseth representa, rechaçaria o que os Estados Unidos fez no Irã, rechaçaria o que os Estados Unidos, do jeito que os Estados Unidos fez na Venezuela, por exemplo.

Então eu acho que tem uma diferença na maneira como a gente vai ter que falar disso. Que não é o imperialismo norte-americano que tá de olho no Brasil, é a gangue do Epstein, entendeu? É tipo assim, os mafiosos americanos que estão roubando os Estados Unidos e querem roubar o Brasil também, sabe? É uma virada narrativa que eu acho que é o que tem capacidade de mexer nesse medo.

AOAlessandra Orofino

Eu concordo que essa gangue, esses personagens são fundamentais. Inclusive, um dos episódios do Revelando, projeto do qual a gente vai falar para vocês já já, vai justamente falar desses personagens. E a gente tem muito pouco trabalho hoje jornalístico sistematizando quem eles são e o que eles querem, qual o projeto deles para o Brasil. Mas eu discordo do seu ponto de que esse voto é um voto perdido. Aliás, eu espero que não seja, porque eu acho que esse desejo subjacente, inconsciente, de pertencer à classe média americana, ele é muito, muito extenso.

Ele não é— ele, claro, a pessoa que tá literalmente colocando bandeira dos Estados Unidos em passeata, essa tá perdida. Aliás, a que tá em passeata, né? Não se trata disso. Passeata pró-Bolsonaro a essa altura. Não é disso que eu tô falando, mas essa ideia de que no fundo a inspiração ela é essa, ela é construída culturalmente, ela tá em Hollywood, ela tá em tudo que as pessoas consumiram de produtos de entretenimento desde que elas nasceram, ela é muito, muito popular.

E acho realmente que a gente precisa desconstruir o projeto, não desconstruir essa ideia. Isso a gente não vai fazer em 3 semanas. Essa ideia a gente talvez tem que desconstruir, mas numa, numa, num ritmo diferente, num horizonte diferente. Agora, nessas 3 semanas, eu acho que o que dá para a gente reforçar, e a gente tá aqui, gente, falando com vocês que estão como nós desesperados e preocupados, como que a gente vai pautar essa conversa com esses indecisos?

Já já a gente vai falar dos indecisos, né? Mas em relação à soberania, isso é reforçar a ideia de que existe sim um risco para soberania do Brasil, mas que, como o Bruno falou, né, ela parte, esse risco ele parte de um grupo muito específico de pessoas muito ruins, não necessariamente de um país apenas, mas de um grupo, né, específico de pessoas. Mas para além disso, o projeto ele não é de incorporação, ele é de dominação, e isso é muito, muito diferente de uma incorporação.

Acho que parte do nosso campo não vê diferença porque também não desejaria uma incorporação. Mas a gente precisa entender que a incorporação é desejável para muita gente. Então, acho que essa distinção importa. E aí tem uma outra coisa que a gente tem visto na nossa análise de redes. A gente faz um tracking aqui na Peri e no Calma, um tracking constante de social listening mesmo, de ver o que está surgindo nas redes, como é que as pessoas estão respondendo, o que gera mais atração, o que gera menos atração, o que gera mais comentário, mais engajamento.

Uma resposta que a gente vê surgindo de forma bastante frequente é uma comparação entre Estados Unidos e China, né? Isso assim como resposta do lado de lá a essa ameaça à soberania brasileira. Quer dizer, ah, mas se é para ser colônia de alguém, prefiro ser colônia dos Estados Unidos do que ser colônia da China. Então também é importante dialogar com essa questão, com esse medo, e lembrar que de fato assim não se tratam de projetos comparáveis, né?

Não existe hoje um projeto como é o projeto do Donald Trump, tão bem, tão explícito, pornográfico até, aquilo que a gente disse, né? O Trump, ele já faz vídeo e publica falando de doutrina Monroe, falando de dominação das Américas. Não existe um projeto equivalente na China. E aí, para além de todas as questões que o nosso campo tem com a China, que eu acho que hoje é um campo bastante dividido em relação à China, tem gente que tem uma sinofilia muito presente, tem gente que não gosta, e a gente pode ter esse debate, mas em relação a como a gente se posiciona e dialoga com os indecisos e o lado de lá em relação especificamente à China, eu acho que é bom lembrar que a China tem um monte de defeitos, é um governo, né, para todos os efeitos autoritário, com muitos, muitos problemas, mas não é um país que tem, pelo menos à la americana, uma lógica de dominação como é a lógica de dominação dos Estados Unidos para o continente americano.

O que não quer dizer que a China não deva ser tratada com cautela, que a gente não tenha que ficar preocupado com alguns movimentos, Mas a China não se comporta da maneira como os Estados Unidos se comportam. E a relação da administração do Lula com a China não é comparável com a relação do Bolsonaro com os Estados Unidos, né? O Bolsonaro foi para Orlando quando ele perdeu a eleição. Era a central do golpe, da tentativa de golpe que aconteceu no Brasil, ela era nos Estados Unidos.

Ela segue lá, ela segue sendo na Flórida. Não existe, não existe Eduardo Bolsonaro, equivalente do Eduardo Bolsonaro exilado na China do nosso lado, entende? Não tem ninguém ali literalmente fazendo lobby pró-dominação, pró-subserviência.

BTBruno Torturra

Tem uma imagem bem simples de se entender. Na hora em que o Lula tava na iminência de ser preso, que a sentença ia sair, boa parte das pessoas, boa parte dos apoiadores do Lula achava que eles tinham que, que ele tinha que fugir. Que ele tinha que ir para algum país para não ser preso injustamente, que seria uma atitude correta. Todo mundo falava: vai para embaixada do Uruguai, vai para embaixada, né, da Argentina, que na época tinha um governo mais democrático.

Ninguém cogitou a China. Agora vocês imaginem o Lula não só fugindo, coisa que ele não fez, mas fugindo para China. A conversa ia ser completamente diferente hoje.

AOAlessandra Orofino

Exatamente.

BTBruno Torturra

E esse é o maior momento.

AOAlessandra Orofino

Bolsonaro nunca se refugiou na China. Bolsonaro se refugiou nos Estados Unidos. Não tem comparação.

BTBruno Torturra

Todas as vezes que o Lula foi para China, todas as vezes foi como chefe de Estado para ter reunião bilateral de 2 dias. O Bolsonaro ia para ficar foragido na casa de um lutador de MMA em Orlando. Fugindo da cadeia do golpe que tentou dar aqui. É esse nível de comparação.

AOAlessandra Orofino

E a gente tá trazendo isso, gente, porque a gente tá vendo esse argumento se desenhando do outro lado, tá? Não quer dizer que a gente concorde com ele, evidentemente, mas a comparação entre esses dois, como se fossem dois projetos, né, de colonização equivalentes, ela tá se desenhando. Ela é a resposta que tá vindo do outro lado, porque o outro lado entendeu que ameaça a soberania do Brasil é catalisadora, é um assunto catalisador nessa eleição, é de fato algo que as pessoas estão temendo porque elas estão olhando para o Donald Trump e vendo um maníaco.

Não é muito difícil de ter essa leitura, ela é muito intuitiva. Então a gente sabe que a gente tá acertando porque está gerando reação do outro lado. A reação do outro lado está se organizando em torno dessa falácia, desse medo da China. Então a gente tem que estar pronto para responder, tá? É por isso que a gente tá trazendo isso para cá. Falando em responder, Bruno, vamos falar um pouquinho de quem são esses indecisos, do que que a gente sabe sobre eles? Pois não, acho que pode valer a pena, tá?

BTBruno Torturra

Então vamos lá, isso é uma coisa importante de falar, né? Não, acho que você pode elaborar, que você tá com a mão mais à mão. Não, que assim, a gente tá com uma situação no segundo turno especificamente extremamente cristalizada, extremamente estável, mas piorando lentamente para o Lula. Hoje a gente viu não só o Flávio Bolsonaro passar numericamente o Lula no segundo turno, ainda é um empate técnico, mas um empate técnico muito desvantajoso porque ele tá no da margem de erro para cima, no caso do Flávio Bolsonaro.

Mas houve também uma outra mudança importante da gente ver no segundo turno, que é todos os outros candidatos, à exceção do Zema, também empatam tecnicamente com o Lula, o que não era realidade algumas pesquisas atrás. Então o Lula, ele tá empatando ou tá perdendo numericamente para Augusto Cury, Renan Santos e para o Caiado, o que mostra que o fenômeno não é simplesmente Flávio Bolsonaro ganhando popularidade, é a rejeição do Lula, ou a perspectiva do Lula vencer tem se tornado algo mais repudiado pela população como um todo.

E a possibilidade dessas pessoas mudarem voto, especialmente do lado à direita, tem sido praticamente nula. A gente não vê isso acontecer. Esses votos estão, como a gente tem falado, tão muito calcificados. Aonde tem, tem um número expressivo, muito significativo, que é onde tem espaço para ganhar eleição e subir número e mudar a história dessa eleição, nas pessoas indecisas, que são poucas, e nos brancos, nulos e que não pretendem votar.

Que é uma margem significativa dessas nossas eleições. E Alessandra agora vai falar um pouco mais de como esses números estão se dando por dentro.

AOAlessandra Orofino

É, vamos lá. Primeiro assim, quando a gente diz que a crise do STF não vai ser suficiente, ou na verdade não é nem que ela não será suficiente, não, ela não vai ser favorável a uma mudança dessa tendência, a gente tem primeiro que reconhecer que a tendência que a gente tá vivendo nesse momento no cenário eleitoral é de crescimento do Flávio. A gente tá vendo isso acontecer semana após semana. A pesquisa de hoje da Quest, ela vai, ela vai consolidar isso, né?

Mas, e outras pesquisas que foram divulgadas hoje não apontam para o mesmo lugar ainda, mas tudo indica que em algum momento vão apontar, provavelmente em breve. Então a gente tá vendo um acirramento, né? A gente tá vendo um fechar dessa diferença entre esses dois candidatos. E evidentemente também, à medida que a campanha avança e que o primeiro turno fica mais perto, você tem menos gente que ainda tá indecisa em relação ao seu voto.

Mas a gente tem historicamente no Brasil uma grande parte da população que decide voto realmente em cima da hora e que eventualmente até muda de ideia em cima da hora. Então a gente não pode nem ignorar a tendência e nem achar que ela é irreversível, no sentido de que a gente ainda tá— para quem é muito politizado, muito envolvido politicamente, parece que a gente tá assim já no no olho do furacão. Mas para uma boa parte da população, a campanha nem começou, gente. As pessoas vão pensar nisso tudo em cima da hora.

BTBruno Torturra

Não começaram nem a pensar nisso.

AOAlessandra Orofino

É. E quando isso acontecer, quando essa mudança, essa consolidação mais massiva de fato ocorrer, vai ser bem mais difícil da gente ter qualquer tipo de ação coletiva que possa interferir nisso, né? Mas em relação ao STF, o que é interessante é que a AQUAEST perguntou nessa pesquisa que foi divulgada pelo Grupo Globo eles ouviram um pouco mais de 2.000 eleitores e eles perguntaram diretamente o efeito da crise do Supremo na escolha para presidente, tá?

Então eles fizeram essa pergunta para o eleitorado e o resultado foi interessante. 67% diziam que a crise não influencia em nada o voto, ou seja, não quer dizer que eles não achem que a crise é relevante, mas o voto que eles já tinham antes vai continuar sendo o voto que eles têm e não é essa crise que vai influenciá-los, né, de um lado ou de outro. 22% dizem que não só ela não influencia como ela reforça a escolha que eles já tinham satisfeito, e só 7% dizem que eles cogitam mudar de candidato por causa dela.

Agora, não quero menosprezar esse 7%, 7% é coisa para caramba, sobretudo numa eleição que vai ser acirrada. Então existe um movimento ali acontecendo, mas é muito provável que esses 7% estejam hiperdimensionados, no sentido de que quando você pergunta— o que é surpreendente dessa pergunta é que você perguntar para alguém, tem um monte de informação nova relevante envolvendo a Corte Suprema do país sendo divulgada, tem sigilo sendo tirado de casos que envolvem diretamente um dos candidatos a presidente, né, na pessoa física, porque a gente tem que lembrar disso, né, o candidato a presidente que aparece de viva voz pedindo dinheiro para o sujeito mais encalacrado da República, chefe da maior fraude financeira do país, da história do Brasil, é o Flávio.

Não tem nada equivalente envolvendo o Lula. Então você perguntar para as pessoas, isso aqui te faz repensar seu voto? Te faz de alguma forma informar sua escolha? E você ter só 7% das pessoas que estão abertas a afirmar numa pesquisa que elas estão considerando repensar o voto delas à luz das informações novas é pouco e provavelmente hiperdimensionado, porque a tendência seria as pessoas dizerem sim, claro, eu sou uma pessoa bem informada, eu vou ler, eu vou me informar, eu quero mais informação antes de votar.

O que é surpreendente, enorme maioria da população falando não interessa o que virá. E uma outra coisa também não é sobre o que já foi divulgado, é sobre essa crise. Que ainda está no seu início, ainda tem muita coisa a ser divulgada. No fundo, que as pessoas estão dizendo é: eu estou assim, com uma mão em cada orelha, eu não vou ouvir, eu não quero saber. É isso que o eleitorado tá dizendo para a Quaes. É muito estranho, né, Bruno? O que que você acha disso?

BTBruno Torturra

Eu não me surpreendo com o volume. 7% é significativo, mas é muito pouco. E vamos lembrar, não é que 7% estão inclinados a mudar o voto que era do Flávio. Não pode ser 7%, que metade disso, ou maior parte disso, vai desistir do Lula porque faz uma relação torta com o Moraes, que representa o antibolsonarismo. Lula é antibolsonaro, Moraes é também. Então fica tudo pelas mesmas. Então assim, não dá para saber o efeito que isso causa.

E eu entendo um pouco isso de um ponto de vista de identidade política que foi muito radicalizada. Eu não digo nem polarizada, que é uma palavra que eu não gosto mesmo de definir, mas o que tá acontecendo no país há tanto tempo, mas a identidade política. Eu acho que o que essa campanha tem mostrado é o aprofundamento, talvez a radicalização de um processo que vem de mais tempo, que é as pessoas não estão ponderando o seu voto.

Elas não estão fazendo escolhas baseadas nas campanhas, nos projetos e nos debates que não estão nem acontecendo, porque os candidatos principais não aparecem, né? Não teve Lula e Flávio, Bolsonaro. E é capaz que essa eleição acabe sem ter Lula e Flávio conversando publicamente. Em parte é horrível, e em parte é um sintoma de uma coisa que tá sendo, que tá sendo aferida em tempo real: não importa mais. Eu fiz esse experimento com os amigos no final de semana.

Todo mundo meio chocado com Flávio. Como é que as pessoas, como é que as pessoas ainda votam no Flávio? E eu fiz um experimento que todo mundo pode fazer na própria cabeça. Imaginem vocês se o telefonema fosse do Lula para o Evorcara, fosse o Lula pedindo dinheiro para o Evorcara para fazer o filme dele. Vocês iam votar no Flávio? Você, Alessandra, ia falar: puta que pariu, eu vou votar no Flávio, vou votar no Zema, vou votar no Caiado?

Não. Na pior das hipóteses, a gente ia tipo assim vomitar, ficar puto, magoado, vociferar na rede social, não acreditar, dar a eleição como perdida. E a contragosto, atravessado, votar no Lula. Porque a nossa conta é: eu não imagino um mundo viável para a minha sanidade mental em que o Flávio é presidente. Então a gente estaria disposto a abdicar de uma série de linhas para— porque a gente não tem nem opção. Não é que tem o o Boulos, a Marina Silva, entendeu?

Outras pessoas se candidatando que a gente fala, puta, foda-se o Lula, eu vou de, eu vou de Ciro Gomes, que não tá em cartaz, entendeu? A gente tá cercado, a gente não tem opção, a gente só tem a extrema-direita do outro lado. Nem a direita, a extrema-direita do outro lado. Não tem um Alckmin do outro lado para ponderar o voto. E a gente tem que entender que para um público considerável do país, possivelmente 49% do país, O Lula é essa figura.

O Lula é o inadmissível. Eu acho que é um mundo fictício, é um mundo que não se justifica. O Lula não é uma ameaça existencial ao nosso país. Mas independentemente disso, é como essas pessoas estão vendo a situação identitariamente. O Lula para elas é, para muitas delas, para um número enorme delas, o Lula é um tipo de diabo. Como para gente o Flávio é um tipo de ameaça existencial para o nosso país. Então não me surpreende que escândalos de corrupção não mexam tanto no voto.

Por isso que, na minha opinião, o ambiente de escândalo é favorável ao Flávio sob vários aspectos, porque o escândalo para o Flávio Flávio é um item que acompanha na caixa, ele tipo acompanha pilhas, tipo assim, acompanha escândalo. O Flávio, o Flávio aparece na vida pública nacional em escândalos. Ele não aparece como uma, como um projeto de lei que ele apresentou ou como alguma coisa. Ele aparece como um candidato que fez cocô na calça no debate E depois ele aparece totalmente encalacrado com escândalos de corrupção, de crime organizado, de coisas inaceitáveis, e como népo baby do pior presidente da história do nosso país.

Então por isso que eu insisto, se a gente vier em mais uma eleição, porque já teve eleição da Lava Jato, eleição do Mensalão, a eleição, aí essa vai ser eleição da pandemia, a eleição do Banco Master, a gente tá fodido, a gente tá fodido. Então, de novo, temos que mudar de assunto. Última frase: temos que mudar de assunto. A gente precisa ter algum jeito de fazer com que aqueles 4%, 5% que ainda estão desidentificados com essa situação façam uma avaliação em relação ao Flávio presidente, não em relação ao Flávio personagem, ao Flávio presidente.

Porque me parece que a escolha de fazer um plebiscito em torno do Lula É uma escolha errada. A gente tem que fazer um plebiscito em relação ao Flávio, e isso não está sendo feito.

AOAlessandra Orofino

Isso acho que agora parece que está começando a ser feito mais pela campanha. Vamos, e é uma coisa que a gente tá acompanhando com entusiasmo. Tomara que aconteça mesmo. Então, falando mais sobre os indecisos, né, então a gente falou um pouquinho do STF, quem é que fala que mudaria de ideia por causa disso ou não. E como a gente disse, a gente acha que tá super representado, na verdade. Agora, quem tá de fato ainda indeciso, ou não é bem indeciso, que as pesquisas medem, são pessoas que dizem que a decisão delas não tá tomada ainda, ela ainda pode mudar de ideia.

É um pouco diferente de estar indeciso, porque isso inclui inclusive uma parte do eleitorado que diz, ah, não, se a eleição fosse hoje, eu votaria dessa forma, mas até lá eu ainda posso mudar de ideia, né? E essa fatia nos interessa muito. Essa fatia, ela representava mais ou menos 30% do eleitorado em março, e agora ela é mais ou menos 17%, tá? Então é evidente que vai, você vai diminuindo a quantidade de pessoas que dizem que não podem mudar de ideia à medida que a eleição progride.

Essa fonte é a pesquisa do BTG Nexus. Esses eleitores, bom, majoritariamente são mulheres, quase 60% de mulheres, tá? Então mais do que a média do eleitorado. E como a gente já falou aqui cerca de metade ganha entre 2 e 5 salários mínimos. Então a gente tá falando numa, né, de um eleitorado que tem um perfil muito prevalente, que é mulheres de baixa renda, baixa média renda, e que são uma parte importante do eleitorado, é que a gente sabia já há bastante tempo que provavelmente decidiria essa eleição, né?

Esse é o diagnóstico que todas as campanhas fizeram, há muito tempo, que a gente fez aqui no Calma Urgente, que vocês já ouviram a gente falar, vocês já me ouviram falar dessa mulher. E para falar com essa mulher, a gente precisa abandonar a linguagem agressiva. Então, quando a gente diz de lembrar da crueldade do governo Bolsonaro, de como aquilo foi terrível para o país, imaginar esse governo Flávio, de como ele será terrível, isso é fundamental.

Mas é importante que a gente faça isso sem descambar para as palavras de ordem típicas do nosso campo, entende? O misogínio racista, fascista, porque não vai funcionar. Esse também existe uma grande, uma grande concordância entre esse perfil de mulheres de média e baixa renda que estão indecisas e um outro perfil que já foi bastante estudado por quem estuda, né, esse tipo de demografia, que é o perfil justamente do eleitor meio antipolarização, que tá cansado da briga, que tá cansado da confusão, que tá cansado de todo mundo se engalfinhando, que não quer mais saber disso e que precisa tocar a vida, que tem conta para pagar, que tem filho para criar, que tem coisa para fazer, que não tem paciência para um ambiente político que ele é cansativo, que ele é profundamente desgastante.

Então, para conversar com essa mulher, a gente não pode aumentar o desgaste, a gente não pode ser a fonte do desgaste. Inclusive, eu sinto que parte do trunfo do Flávio é que, comparado ao pai, ele representa, pelo menos esteticamente, espiritualmente, uma baixada de tom. A maneira como Flávio inclusive se comportou na sabatina, né, da Globo foi esperta nesse sentido, né? Ele foi sabatinado depois do Lula e ele tentou justamente jogar para o Lula a pecha do agressivo.

BTBruno Torturra

Sim, ele conseguiu.

AOAlessandra Orofino

E ele conseguiu. É injusto, tá? Nada disso é sobre justiça, nada disso é sobre, ai, porque a Globo deveria ter se comportado de outra maneira. A gente já falou aqui sobre as sabatinas da Globo e a gente concorda com a análise que foi feita de forma muito ampla no campo mais progressista de que houve um foco absolutamente desmedido no caso do Lulinha, como inclusive muito mais, né, muito mais foco dado a isso do que depois o foco que foi dado ao caso Boccaro na sabatina do Flávio.

Então assim, a gente não tá entrando no mérito de por que isso, como isso, mas o fato é que o dispositivo que o Flávio usa, que ele usa de forma consistente, é de se posicionar como o Bolsonaro calmo, e a pessoa calma, a pessoa ponderada. E isso a gente precisa entender que é estratégico, mas não adianta o candidato fazer isso, porque as pessoas não votam só em relação àquilo que elas reconhecem no candidato, elas votam em relação àquilo que elas reconhecem nos eleitores desse candidato, em como esses eleitores se comportam, em como eles se comunicam.

E aí a gente tem um grande trunfo, que é o eleitor mais apaixonado Flávio Bolsonaro é o mesmíssimo eleitor que era apaixonado pelo pai dele, que não é calmo, que é agressivo, que é insuportável. Isso é bom para gente, porque deixa ele ser insuportável, mas a gente não pode ser insuportável do lado de cá com essa eleitora indecisa.

BTBruno Torturra

É aí que eu me preocupo um pouco, Alessandra, porque eu até concordo que existe um— não é que eu concordo, evidentemente, né, que existe uma toxicidade fortíssima no militante bolsonarista digital. Existe uma agressividade, tem uma agressividade, não sei o quê. Eu não sinto que essa agressividade do eleitor bolsonarista tá tão visível, tão patente quanto tava nas eleições em que o Jair era o presidente. Até porque o Flávio não desperta a paixão que o Jair representava.

O Jair era um líder verdadeiro do subsolo emocional das pessoas. Ele tinha raiva, ele xingava o Bonner, ele falava palavrão, ele destratava o jornalista, e ele inspirava isso nas suas pessoas. Eu acho que ainda tem uma agressividade na militância bolsonarista, mas eu sinto que a militância progressista, a militância petista aguerrida mesmo digitalmente, não porque ela é violenta ou porque ela é agressiva, porque ela fala palavrão ou porque ela xinga, mas eu acho que ela imprime um tipo de linguagem, um tipo de devoção, um tipo de agressividade de um outro lugar que também é muito feio e muito chato de quem é desidentificado de ver.

Eu acho que existe pouco cuidado tático na maneira como a militância se comunica política performaticamente na internet nos últimos tempos.

AOAlessandra Orofino

Eu acho mesmo, eu acho que isso existe.

BTBruno Torturra

E só para encerrar a questão do voto, do voto feminino, que eu acho que é uma das coisas que a direita tá acertando mais do que, pelo menos nas campanhas, tá? Por exemplo, eu tenho visto a campanha do Flávio, campanha de rádio especialmente, que eu tenho escutado muito dirigindo aqui. A campanha do Flávio tem feito uma coisa muito interessante. Eles estão tentando mudar de assunto e de um jeito muito esperto. Ele tá falando assim: o Lula fica me acusando de tudo, de um monte de coisa, porque ele, porque ele não tem mais o que falar.

Ele tá me acusando de coisas porque tá todo mundo endividado e ele não sabe explicar por quê, entendeu? Então ele tá tentando puxar para pauta do endividamento, do sufoco das pessoas, de que a vida tá cara e que tá difícil e de que o escândalo é uma cortina de fumaça para o fracasso do governo Lula. E esse spot de rádio, eu te digo, é quase o único spot de rádio que o Flávio tem colocado no ar nos últimos 5 dias, entendeu? É tipo assim, é quase a nossa estratégia.

Eu falo assim, muda de assunto assunto e fala de economia nos seus próprios termos.

AOAlessandra Orofino

É, quando a gente fala de mudar de assunto, eu acho que é importante é que a gente não fale só necessariamente de economia, tá? Economia importa muito para essa eleitora indecisa. O que eu sinto, gente, é o seguinte: a gente tá se deixando pautar o tempo inteiro, o que é totalmente normal. É muito, a gente deixa pautar e a gente trabalha com pauta. A gente, eu digo a gente aqui do Calma Urgente, mas a gente precisa lembrar que existem, que dominar a pauta é dominar o resultado.

É, a gente vai inclusive no Clube de Cultura do Calma agora nesse mês de outubro ler um livro chamado Não Pense Num Elefante. E a intuição desse livro, é um livro de um estrategista político, a intuição do livro é útil para essa conversa que a gente tá tendo. E a intuição é a seguinte: se eu falo para você não pense num elefante, no que que você pensa? Então não adianta negar, você falar eu não sou ladrão, eu não sou um assassino, eu não sou— é que você já está aceitando o tema, você já está aceitando o termo, ainda que seja para negá-lo.

Então a gente precisa parar de falar de elefantes, a gente precisa parar, mesmo que seja para dizer que as pessoas não deveriam pensar no elefante. E a gente precisa falar daquilo que nos interessa, a gente precisa colocar outros elefantes nessa sala e deixar o Flávio lidar com esses elefantes. Tem um ambiente midiático hoje, e a pauta que tá se impondo, ela é uma pauta não só ruim para o campo progressista, mas ela é uma pauta pobre para discussão política, né?

Então, falando agora de novo do projeto que a gente queria revelar para vocês, a gente no Revelando resolveu fazer uma vez por semana uma videoreportagem de meia hora, mas com vários cortes mais curtinhos que vão ser disponibilizados tanto no canal do Revelando no YouTube quanto nas redes sociais, é sobre algum tema de especial relevância pública. Não é peça de campanha, não é construído dessa maneira, não esperem isso do projeto.

Mas são temas, né, de relevância para o debate público, mas que a gente sente que justamente nesse momento em que as pessoas estão se preparando para votar, em que a discussão política tá pegando fogo e vai pegar cada vez mais fogo à medida que a campanha progredir, são temas que deveriam estar no nosso léxico, circulando, né, e pautando em alguma medida opinião pública, e que não estão, mas que são parte muito central em alguma medida da conversa, né, ou pelo menos da escolha que a gente vai ter que fazer agora em outubro.

Então a gente vai fazer um primeiro episódio sobre eugenia no Brasil, e tem esse nome, né, que para alguns eleitores ou para alguns cidadãos pode ser complicado, mas a gente tá fazendo com uma linguagem muito popular, muito acessível, muito explicativa. E aí tá aí um tema que a gente esquece. A gente esquece que o projeto bolsonarista há muito tempo, desde que o Jair despontou na cena pública, ele é um projeto de controle de natalidade.

Ele é um projeto eugênico, controle de natalidade das pessoas mais pobres da população negra do Brasil. Isso sempre foi explícito. O Bolsonaro, ele fez, não só ele, mas a Rogéria, o Carlos. A gente tem o caso, por exemplo, do Carlos Bolsonaro sugerir publicamente que para ter Bolsa Família as mulheres precisassem passar por laqueadura forçada, só para, enfim, forçada para ter o Bolsa Família. Se você não fosse castrada para ter acesso, se você não fosse esterilizada, você não ia poder ter Bolsa Família.

Agora você imagina Essa mulher que tá indecisa, essa mulher que não sabe em quem ela vai votar, eu não tenho como dizer para ela em quem votar, e não é papel do revelando dizer para ela em quem votar. Mas eu quero que ela vote sabendo disso, sabendo que tem essa família há muitos anos no Brasil publicamente promovendo um projeto que é de esterilização das mulheres mais pobres, que é favorável à esterilização das mulheres mais pobres.

Isso é explícito. Isso tá nos discursos, está documentado. E isso se apoia inclusive num projeto que foi extremamente, aliás, assustadoramente popular durante a ditadura militar, que aliás é um número que nem eu nem o Bruno conhecíamos, mas que a pesquisa do Revelando trouxe à tona para gente, que é que no final da ditadura, ali no final dos anos 80, início dos anos 90, a gente tinha alguns estados brasileiros, justamente os estados mais negros do Brasil, Maranhão, por exemplo, tinha 80% das mulheres em idade reprodutiva vida esterilizadas. 80% investimento massivo, aliás, com dinheiro dos Estados Unidos, para eventualmente, essencialmente, empurrar laqueadura para essas mulheres porque eram mulheres pobres e negras.

Era esse o projeto. Então a gente tá fazendo um episódio que vai ser nosso episódio de estreia amanhã só sobre isso. Esse tema tá colocado? Ele não tá colocado, mas a gente precisa falar desse assunto. Esse é um assunto relevante, de relevância pública, e de especial relevância pública quando a gente, você, quando a gente tem um projeto político se reapresentando, querendo a presidência, que é o projeto político que vem há 30 anos falando de esterilização de mulher pobre.

BTBruno Torturra

Então isso explica a diferença, tá?

AOAlessandra Orofino

Isso para dar um exemplo para vocês. A gente vai fazer um episódio que vai falar do escândalo do Banco Master, mas vai falar especificamente de um aspecto desse escândalo que tá recebendo estranhamente pouca cobertura midiática, que é a relação de profunda amizade, camaradagem há décadas entre os Vorcaro e a família do Daniel Vorcaro, pai, o avô, e a família Valadão e a Igreja Batista da Lagoinha. E essa extrema hipocrisia desses homens que se apresentam publicamente como grandes cristãos, defensores da moral e da família, e que estão depois, né, não só fraudando meio país, mas também indo no Madame Satã, com uma festa com novinhas, indo no Madame Satã, 120 mulheres por 20 homens.

BTBruno Torturra

É uma das coisas que isso, porque essa hipocrisia ela precisa estar pautada.

AOAlessandra Orofino

E ela precisa estar pautada para essa eleitora indecisa também, que é quem tá tomando sua decisão agora. E tudo que a gente quer é que essa pessoa tome a decisão com informação de qualidade sobre esses temas também, né, e outros temas de relevância pública. Desculpa, Bruno, vai lá.

BTBruno Torturra

Não, é isso aí, é isso. É um esforço jornalístico da Peri Produções em parceria com o Calma Urgente. A gente tá envolvido nisso, estamos falando com outros canais para ajudar na veiculação disso.

AOAlessandra Orofino

Novamente, o ICL vai divulgar a Mídia Ninja vai divulgar, tem uma grande união de canais de mídia independente para que esse, esse produto encontre seu público. E a gente precisa de vocês que estão ouvindo a gente, porque não é um produto pensado necessariamente para o público que assiste o Calma, por exemplo. Ele tá sendo, ele é um projeto do Calma, de nós pessoas físicas, eu, Gregório, Bruno, e as pessoas que fazem esse programa aqui que vocês assistem.

Mas ele é um projeto pensado para um público diferente do nosso. Com uma linguagem diferente.

BTBruno Torturra

É para atingir mais gente do que— ele é para atingir um público que não é o público junkie de política, é para atingir um público que não é o público que acompanha streaming, live, que pensa nisso o dia inteiro, que tem a identidade política, digamos, obsessivamente engajada nesse negócio. E é de algum jeito para atingir um público que, não digo que tá órfão, mas um público que tá um pouco náufrago com o colapso do jornalismo como, como o balizador da conversa pública.

Eu, como jornalista, sinto muito isso, que a gente vive numa sociedade radicalmente midiática, pós-jornalística, em que o jornalismo tem se tornado infelizmente um gênero periférico de informação. E eu não tô falando isso para defender a minha categoria ou arvorar o jornalismo como o grande árbitro. Longe disso. Eu acho que houve um benefício imenso na democratização não só de vozes, mas de formatos diferentes, de maneira diferente de oferecer, de oferecer contexto.

Mas tem uma coisa no Revelando que eu gosto muito, que é um rigor jornalístico muito forte, um formato mais popular, uma maneira de atingir mais gente que tá acostumada com uma linguagem televisiva mais didática e mais linear. E apesar dele não ser um programa analítico, que é o que cansa muitas, muitas pessoas, ele faz uma coisa que eu acho que é a fronteira mais importante que o jornalismo precisa se engajar nos próximos tempos, que ele é um jornalismo de muito contexto.

AOAlessandra Orofino

Contexto.

BTBruno Torturra

Ele põe fatos que existem, que são apuráveis, que são aferíveis, mas eles põem dentro de uma história que conta uma história um pouco mais ampla do que o fato em si, que é exatamente a maneira como a gente tá tentando contar a história do Banco Master, tentando falar sobre controle de natalidade, que no fundo é uma história de opressão feminina, mas sob uma ótica e sobre termos e sobre uma história muito diferente da do feminismo liberal, do feminismo branco, né, que é uma história de opressão feminina das mulheres pobres brasileiras e muitas outras histórias, né.

Então, e aí falando um pouco mais, é o primeiro passo que a gente imagina do Calma em 27 e se tornando um veículo com outros programas, outros produtos para além do Calma Urgente.

AOAlessandra Orofino

Então, o que a gente pede para vocês, a gente vai passar o teaser do Revelando aqui para vocês verem, mas a gente pede ajuda de vocês, vocês que nos ouvem, que gostam do Calma e que estão preocupados com o ambiente de informação, sobretudo nesse momento em que a gente precisa tomar uma decisão tão consequente para o futuro do país. A gente não ter certas histórias na agenda pública sendo contadas e sendo ouvidas é muito preocupante.

Então, o que a gente pede que vocês façam é é seguir o Revelando no YouTube e nas redes sociais, né? No Instagram é @revelando.brasil, no YouTube é, deixa eu ver aqui, no YouTube, no YouTube a gente vai colocar aqui na descrição, mas é @revelando_br. E a gente vai colocar os links na descrição, tanto nesse programa aqui no YouTube quanto no Spotify. Então você que nos assiste, entra lá. A gente vai lançar o primeiro episódio amanhã meio-dia e meia em parceria com ICL, com Mídia Ninja.

Então vai ter uma collab com esses outros canais, mas a gente sabe que são canais que chegam justamente no público muito mais progressista. E a gente precisa que esses, que esses episódios e que esses cortes e que esses produtos cheguem justamente nesse público de mulheres de média e baixa renda, as pessoas que ainda não têm muita certeza de como elas vão votar nessa eleição. De novo, não porque isso seja uma peça de campanha para persuadi-las, não é isso que é, mas porque se elas estão indecisas, é especialmente importante que elas tenham informação.

E o tipo de informação que elas precisam ter agora não é mais uma matérias sobre como o Mendonça mandou uma mensagem para o Alexandre, que mandou uma mensagem para o povo, que ninguém nem tá mais ouvindo essa história. Sobretudo esse público não tá ouvindo essa história. Mas a gente acredita realmente que se a gente for, a gente tem algumas semanas até o segundo turno, né? E depois disso, inclusive, essa tarefa vai continuar, o Revelando vai continuar após a eleição.

Não é um projeto pensado para eleição, projeto pensado para esse momento de Brasil. Mas é fundamental que nesse período especialmente a gente a gente vá colocando essas histórias que são relevantes, que deveriam estar pautando a nossa decisão na praça pública. E para que essas histórias tenham visibilidade, a gente precisa de gente compartilhando, a gente precisa de gente mandando para os amigos, e sobretudo para pessoas com esse perfil, essas mulheres na sua vida, né?

Então mapeia elas e vem com a gente tentar divulgar isso. A gente tá fazendo isso, né, como um esforço cívico mesmo, e a gente conta com vocês. A gente nunca pede, né, no Calma, nem para gente mesma, a gente precisa divulgarem, ativarem sininho e seguirem nada, porque não é muito a nossa, nosso perfil. Mas a gente acredita que nesse momento vai ser importante. A gente selecionou histórias muito boas, são histórias muito interessantes, fascinantes muitas delas.

Vamos começar com esse episódio sobre eugenia. Eugenia é um assunto que eu e o Bruno achamos que é absolutamente, inclusive, chave de leitura para entender esse movimento da extrema-direita no mundo todo. É um projeto eugênico antes de qualquer outra coisa.

BTBruno Torturra

Eu acho isso.

AOAlessandra Orofino

E a gente vai continuar falando de eugenia aqui no Calma também, né, no futuro. Futuro. Mas depois a gente vai falar de Márcia da Lagoinha, a gente vai falar da PEC das Domésticas e de todo o trabalho que, né, da luta histórica das trabalhadoras domésticas no Brasil por direitos, e quem ficou do lado delas e quem ficou contra elas ao longo de tanto tempo. Então tem muitas histórias aqui fundamentais para a gente contar, então sendo contadas acho que de uma forma bastante acessível. A gente conta com vocês. Posso mostrar, Bruno, o teaser?

BTBruno Torturra

Só uma coisa, cada, que é importante falar, cada Revelando tem um apresentador ou uma apresentadora diferente. E a gente tá procurando gente famosa para contar essas histórias, e pessoas famosas que têm alguma relação ou têm alguma autoridade ou têm um papel muito pessoal interessante de ser colocado. Então o primeiro é com a Samara Filippo sobre eugenia e controle. Mas vai ter o— a Alessandra sabe melhor que eu a lista, mas cada episódio, cada episódio vai ser uma personalidade diferente que vai, que tem uma relação com esse tema ou que de alguma forma fala com uma emoção particular sobre esse tema.

Então vocês vão ver a Samara, mas ela não será a apresentadora de todos os Revelando.

AOAlessandra Orofino

Inclusive, se você for uma pessoa com um grande público que quer participar quer apresentar um Revelando com a gente, pode me mandar mensagem. Vocês sabem como chegar na gente. Vamos ver o teaser e a gente volta depois do teaser para falar um pouquinho mais sobre o programa de amanhã, sobre o dia de amanhã, que vai ser um dia tão importante, como que a gente vai, né, passar por ele juntos, e as próximas semanas aí da campanha.

Bota para a gente o teaser, por favor, Amanda. Você sabia que nesse momento tem gente trabalhando para impedir certas pessoas de terem Esse vídeo vai ser incômodo.

BTBruno Torturra

Mulher que foi submetida a laqueadura sem o consentimento da paciente.

AOAlessandra Orofino

Não fomos consultadas.

BTBruno Torturra

Aí ele tirou o nosso sonho, que era ter mais um filho.

AOAlessandra Orofino

Coisas que pareciam inofensivas, que eram só videozinhos de internet, viram armas de uma força muito maior. Essas mulheres não acordaram todas um dia e decidiram que nunca mais queriam sequer a opção de ter filhos. Isso é projeto. Se você quer saber mais, está pronto para enxergar a realidade de outro jeito, assista o episódio completo do Revelando, disponível gratuitamente. Confira no site revelando.com. Aí, essa é a linguagem, gente, que é uma linguagem, como eu falei, né, muito diferente da que a gente adota no próprio Calma, mas que a gente entende que a gente precisa falar uma língua que chegue num público mais amplo.

Então a gente conta com ajuda de vocês. E aí, Bruno, vamos falar um pouquinho do dia de amanhã. Como a gente falou, a gente volta amanhã às 8:30 num plantão. Fiquem de olho, porque como é plantão, o horário pode mudar dependendo da sessão lá no STF. E a gente passou hoje o dia todo falando que não adianta ficar só focado em Supremo, que isso não é o que vai nos ajudar nesse momento. Mas no entanto, a gente vai ter um dia realmente muito, muito decisivo amanhã, né, em que muita em que muita informação vai vir à tona, em que vai ter treta.

Então a gente tá pronto para entrar no ar, mas eu queria falar um pouquinho sobre justamente essa, essa forma de processar informação. O que que a gente pode esperar de amanhã, não só da sessão, mas da gente mesmo, da maneira como a gente consome esse tipo de informação? Bruno, você tem alguma, alguma dica para o nosso público para dar?

BTBruno Torturra

Dica do quê, Alessandra? Desculpa, eu perdi.

AOAlessandra Orofino

De como, primeiro, de como manter a sanidade mental Ah, você quer que eu diga como manter a sanidade mental? Sim, Bruno, você é minha referência de sanidade mental.

BTBruno Torturra

A Laila, minha esposa, deve estar cascando o bico uma hora dessa, deve estar assim: gente, não vou nem falar como é que a minha sanidade mental tá. Eu tô dormindo mal para cacete, tô tendo pesadelo, tô rangendo dente, tô tendo suadeira, tô pensando em tomar remédio porque não tô nada bem psicologicamente em relação a tudo que tá acontecendo. Para mim não é, não sou, eu não sou um jornalista porque eu sou uma pessoa neutra, muito pelo contrário, né?

Assim, a gente, eu não consigo levar essas coisas para um lado objetivo, eu levo muito para o lado pessoal, né? A minha dica de sanidade, digamos assim, de manter o equilíbrio equilíbrio é fazer alguma coisa. É que foi uma coisa que aconteceu assim, eu me senti muito mal quando o Bolsonaro perdeu, muitíssimo mal. Durante os 4 anos que ele foi presidente também. Mas uma coisa, eu punha a cabeça no travesseiro todos os dias, eu tava fazendo o que era possível ao meu alcance.

Não foi por mim, meio que não foi pela minha omissão que esses caras me ajudaram, nem pelo meu silêncio, nem pela minha diligência em me articular, em atender os telefones, em fazer o que dá, em fazer o que tá ao meu alcance. Cada um tem suas capacidades, tem seus talentos, tem suas limitações, tem suas plataformas grandes, pequenas, médias. Todo mundo tem as suas famílias. A única recomendação que eu tenho numa situação emergencial dessa é: não entre em negação, não entre em Não fica fazendo— e eu entendo, muita gente aqui nos nossos comentários tá assim também: vocês são muito pessimistas, é Lula tetra.

Não é o seu otimismo que vai ganhar essa eleição, é o seu otimismo muito aplicado que vai aumentar as chances da gente ganhar essa eleição. Então a minha dica é: usa o medo, usa raiva, usa angústia, angústia para fazer alguma coisa. Eleição, com todos os benefícios e as conquistas que a democracia deu, ela tem grandes problemas e grandes desvantagens. Uma delas é, uma delas é a situação de risco que a gente tá colocado. E tem um calendário, então o tipo de coisa que não dá para adiar muito mais.

E de novo, ao contrário do que os nossos haters falavam, falavam, o Lula não vai ganhar essa eleição sozinho, não vai ganhar essa eleição sozinho, sem todo tipo de envolvimento, sem participação, sem participação de todo mundo. E digo mais, a revelia da campanha é fazendo a revelia da campanha, que honestamente eu digo aqui como eleitor, pessoa que tá aqui desesperada, vocês sabem disso, estamos fazendo plantão, estamos trabalhando mais do que nunca.

Eu não sou chapa branca, não trabalho para campanha do PT. A campanha não tá boa, não tá boa. O site que foi colocado no ar com uma tentativa tardia de desenho de um programa de governo que não tava apresentado para a sociedade brasileira, tinha um programa, né, mas ele comunicado de uma maneira acessível, não tava comunicado, não tava detalhado, não tava, não tava materializado na campanha. Não era fácil dizer para as pessoas, ninguém, nem eu sabia o que que o Lula tá prometendo para as pessoas fora derrotar o Flávio, né?

Tá muito ruim, o site não funciona, não tá bem comunicado. Espero que a campanha melhore, espero que tenham tempo. Mas tá na nossa mão fazer isso.

AOAlessandra Orofino

E tem uma superficialidade, né, Bruno? É isso, a Plano Brasil Contra as Bets, para evitar que as famílias brasileiras, seu dinheiro fique capturado. Qual é o plano contra as bets? É proibir as bets? Porque Plano Brasil Contra as Bets é uma marca de um programa que ninguém sabe qual o conteúdo desse programa. E assim, a gente não vai se alongar nas críticas porque a gente já criticou muito a campanha. E acho que o que a gente está sentindo não é só a gente que tá sentindo, né?

E acho que até dentro da campanha tem gente sentindo, a campanha tá tá atravessando claramente uma dificuldade interna evidente, evidenciada no que vem a público. É isso, né? Foram impressos 700 mil flyers com o site errado. É esse nível de maluquice que a gente tá vivendo. É uma pena, é uma lástima. Mas o que tá em jogo aqui não é uma, uma, um concurso para saber quem é que tá fazendo a melhor campanha. Votar no Lula não é premiar uma campanha ruim, ruim ou mal planejada ou mal executada, é evitar que o Flávio Bolsonaro seja presidente do Brasil.

E acho que é exatamente aí que a gente precisa ir, não só na nossa conversa entre a gente, mas na nossa conversa com quem ainda não decidiu seu voto, com quem tá à nossa volta, né? Que esse é o projeto, esse é o projeto que tá colocado, é o projeto do pai dele executado por alguém mais fraco e mais desprezível do que o próprio pai. É um projeto que quando ele veio quando ele de fato chegou no governo, quando ele pôde mostrar o que ele era, ele se traduziu como crueldade, abandono, deboche com os mais vulneráveis, deboche com quem tava doente, com centenas de milhares de mortes desnecessárias, né?

É exatamente milhares de mortes desnecessárias, fogo na Amazônia, né? Um projeto, e é um projeto que abandona os mais fracos. E acho que isso inclusive é é uma chave muito importante para dialogar com essa mulher de média a baixa renda que tá indecisa. Porque o perfil dessa mulher, gente, é de cuidadora, porque é o perfil da mulher brasileira de média a baixa renda. É alguém que muitas vezes trabalha com cuidado, é babá, é doméstica, ou, e cuida de gente em casa, que se desdobra nos cuidados em tantas dimensões da vida, e que passa a vida cuidando da vulnerabilidade de alguém.

De um bebê, de uma criança, de uma pessoa mais velha. E acho que é profundamente revoltante para essa mulher, para essa pessoa, entender que alguém no poder, com a caneta na mão, com a possibilidade de fazer a diferença na vida do brasileiro e da brasileira, vai abandonar, debochar, que justamente dos mais vulneráveis, né? Nessa pandemia, os mais vulneráveis eram os idosos. Na próxima, podem ser os Essa, essa é a característica fundamental desse clã, é de novo a cota com os vulneráveis.

BTBruno Torturra

E é novamente eugenia, de novo. Eu sei que é um termo chato, não é, né? O Revelando não vai para esse lado especificamente, mas a chave eugênica A chave ideológica de crueldade, de extermínio e de deixa os mais fracos morrerem literalmente, ou é deixa os indígenas serem avassalados pela força do agronegócio e os mais fracos não merecem. Então isso é o que define o projeto bolsonarista, o projeto trumpista, o projeto nazista, o projeto é racista na raiz da expressão política dele.

AOAlessandra Orofino

Antes, eu tenho histórico de atleta.

BTBruno Torturra

Antes da gente entender, antes da gente entender direita e esquerda como expressões de visões econômicas, de como que a riqueza tem que ser gerada e distribuída, eu acho que tem um gérmen ali, especialmente da extrema-direita, que ele precede a visão econômica racionalista. Mas é uma visão essencialista sobre o que fazer com os demais, o que fazer com quem é considerado fraco.

AOAlessandra Orofino

E essa fraqueza é a pessoa com deficiência, é a pessoa mais velha que não tem um histórico de atleta, é a criança, e sobre a criança com deficiência, é a pessoa, é o QI baixo, que aliás, essa obsessão também é o bolsonarista falando de QI baixo, é irônico. Homem em si, mas é uma ideia de si como o super-homem forte e dos outros como os fracos que podem, portanto, ser eliminados. E é nesse contexto que existe um ódio especial à mulher mais pobre, que é justamente essa mulher que vai decidir essa eleição.

Mas é um ódio misturado com controle, porque é essa mulher que ao mesmo tempo carrega, né, e cuida de tantas dessas vulnerabilidades, mas é também, em última instância, através dela que a sociedade se reproduz, que o mundo se faz. Essa obsessão com controlar o corpo feminino, né? É uma direita extremamente anti-legalização do aborto, mas que ao mesmo tempo você tem no programa que a gente vai lançar amanhã, né, no primeiro episódio do Revelando, você tem o Bolsonaro falando no Congresso em pílula abortiva na China com admiração, porque é controle de natalidade.

O que ele quer não é opção para mulher, não é liberdade ou capacidade de de justamente planejar o que fazer com seu corpo. É controle. E controle passa pelas duas pontas. É isso que é paradoxal. Passa com não dar uma opção para uma mulher que queira fazer um aborto e ao mesmo tempo gostar da ideia de obrigar essa mulher a se esterilizar para ter Bolsa Família, entende? São as duas coisas ao mesmo tempo, porque não tem nada a ver com vida ou com bebês.

BTBruno Torturra

Que prova que não tem nada a ver com bebê, nada a ver com isso.

AOAlessandra Orofino

Então essa é, esse é o projeto. E a gente tem que lembrar, a gente tem que lembrar nós mesmos que esse é o projeto. Esse é o projeto que tá em jogo, esse é o projeto que tá sendo implementado. O Elon Musk é eugenista declaradamente, explicitamente, pornograficamente. Eles são obcecados com uma coisa de gênero, genética, de se reproduzir. O Epstein tinha um fetiche de engravidar, isso a gente também fala, 20 mulheres ao mesmo tempo com barriga de aluguel lá na fazenda dele para ficar se reproduzindo a sua, o seu grande, a sua grande, seu grande código genético iluminado.

Isso é o Jeffrey Epstein, é isso que— então vamos só lembrar disso e ajudar os outros a lembrarem disso. Gente, amanhã meio-dia e meia a gente lança o primeiro episódio, por favor se inscrevam e fiquem com a gente. Amanhã tem mais Calma Urgente por aqui.

BTBruno Torturra

Obrigada, gente, intenso hoje. É isso aí, gente, amanhã terça-feira infelizmente não vamos mudar de assunto, vamos ser obrigados a falar sobre o que aconteceu durante a tarde STF, mas sempre tentando puxar a perspectiva para fora do escândalo insular.

AOAlessandra Orofino

É isso.

BTBruno Torturra

Alguma dica hoje, Alessandra, de livro? Já estamos com a musiquinha no ar, né?

AOAlessandra Orofino

Só trabalho. Eu nesse momento só trabalho e tento cuidar das minhas filhas, que tá difícil, entendeu? A única coisa que eu tô fazendo é isso. Mas em breve tudo vai se acalmar, eu espero. Um beijo.

BTBruno Torturra

Amanhã, povo de Deus.

AOAlessandra Orofino

Tchau, tchau! O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção temos Carolina Foratini Greja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Toni Costa. Na pesquisa e roteiro, Luísa Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoue. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.

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