Episódios de Calma Urgente

Cury, Cansaço e Calcificação

01 de setembro de 20261h24min
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Porque um "psiquiatra" está ganhando pontos na campanha mais consequente e exausta da história.

Obras discutidas:

Literatura de autoajuda e individualismo, de Francisco Rudiger (esgotado; disponível digitalmente no Google Livros: https://books.google.com.br/books?id=94HQy4-tGTQC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false)

Brainwashed, de Sally Satel e Scott O. Lilienfeld

Happycracia, de Edgar Cabanas e Eva Illouz (www.ubueditora.com.br/happycracia.html)

Impasse, de André Singer (www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535944396)

The Story of Birds, de Steve Brusatte

Ascensão e queda dos dinossauros, de Steve Brusatte (www.record.com.br/products/ascensao-e-queda-dos-dinossauros)

Ascensão e reinado dos mamíferos, de Steve Brusatte (www.record.com.br/products/ascensao-e-reinado-dos-mamiferos)

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo

Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez

Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_

Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Na Edição de Cortes, Julia Leite

Nas Redes Sociais Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Identidade visual, Pedro Inoue

Participantes neste episódio3
G

Gregório Duvivier

HostComediante
A

Alessandra Orofino

Co-host
B

Bruno Torturra

Co-hostJornalista
Assuntos5
  • A ascensão surpreendente de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais e suas possíveis causasAugusto Cury·Pablo Marçal·Eleições 2026·Pesquisa BTG·Sabatinas da Globo
  • A influência do marketing digital e a figura do outsider na campanha de Augusto CuryAugusto Cury·Pablo Marçal·Sérgio Lima·Marketing digital·Outsider na política
  • A calcificação do eleitorado brasileiro e a exaustão com a polarização políticaCalcificação do eleitorado·Polarização política·Augusto Cury·Felipe Nunes
  • A percepção da corrupção no Brasil e a dificuldade de comunicação sobre o temaCorrupção·Lei Rouanet·Caixa 2·Daniel Vorcaro·Flávio Bolsonaro
  • A importância da soberania brasileira e a interferência externa em um cenário global de conflitosSoberania nacional·Estados Unidos·Donald Trump·Lula·Guerra mundial
Transcrição123 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
GDGregório Duvivier

Olá, queridos ouvintes e espectadores do nosso Calma Urgente! Hoje é segunda-feira, dia 31 de agosto, e vai começar mais um Calma Urgente. Queria chamar aqui para conversa Bruno Torturra e Alessandra Ourofino. Como é que vocês estão? Tudo bem com vocês?

BTBruno Torturra

Olá, pessoal, boa tarde!

GDGregório Duvivier

Falando com vocês diretamente de Goiânia, e sigo com o meu corte de cabelo ridículo, é para um filme, um personagem. Por isso eu estou de boné. Não, eu não sou um calvo em negação. Esse boné não está querendo esconder uma calvície, mas sim uma coisa pior do que isso, um penteado ridículo. Pronto.

BTBruno Torturra

Por que que você fica tão preocupado em reafirmar para o público que você não é um calvo em negação? Por que que isso é uma coisa tão importante para você?

GDGregório Duvivier

Porque não tem nada pior do que um calvo em negação.

BTBruno Torturra

Não tem nada pior. Eu acho, vamos falar de algumas coisas piores do que um calvo em negação.

GDGregório Duvivier

Não, não, não, é o princípio de todos os males, é a negação. É negação do que se é, da calvície, ou seja, do que for.

BTBruno Torturra

Eu acho que é negação da morte.

GDGregório Duvivier

Então cá estou eu negando a negação, entendeu? Eu estou negando que eu estou em negação.

BTBruno Torturra

Você é o antinegacionista.

GDGregório Duvivier

Sim, muita gente comenta, por isso que eu tô falando. Gregório assumiu o boné, é ambiente fechado, boné, isso é coisa de calvo em negação. Não sou um calvo em negação, viu? Sou um calvo assumido, de fato.

BTBruno Torturra

Estou falando, você é um ator em negação.

GDGregório Duvivier

Olha só, estou realmente ficando calvo, mas eu tô com isso daqui, ó. Eu estou um Renan Santos, você tá com cara de Renan total, cara. Isso sim, eu sou, eu sou um, eu estou negando que eu tô meio Renan Santos, por isso que eu tô com isso daqui, viu? Que tem uma idade que a pessoa não pode mais usar franja assim, o Renan. O Renan, ele é um, ele é uma pessoa de meia-idade em negação, ele quer ainda o voto jovem, então ele deixa uma franja, toca um violão. É a pior coisa que tem, a pior espécie que tem, sabe?

BTBruno Torturra

É o violão também.

AOAlessandra Orofino

É o velho jovem, nunca em público, e não para parecer jovem, toca para parecer velho, na verdade.

GDGregório Duvivier

Então, dito isso, queria falar com vocês de algo assim muito surpreendente que mudou completamente o tema do nosso assunto hoje, não é? Pois é, o tema do nosso assunto, eu tô, eu agora eu tô com um hiperfoco, para usar uma palavra jovem, eu tô com hiperfoco em Augusto Tucuri. Porque do nada, do nada, ele aparece na balada, como diz a canção. Do nada ele aparece como um azarão, ele que é o guru da autoajuda. Eu queria só falar, antes de mais nada, você não sabe quem é Augusto Cury, ele é o candidato a presidente do Avante.

E o Augusto Cury, que tinha, se eu não me engano, 2% na última pesquisa BTG, nessa pesquisa que saiu hoje, BTG, ele está com 11%. Ele subiu de 2 para 11, subiu 9 pontos. Ele multiplicou por 5 suas intenções de voto. E isso depois de uma semana das sabatinas. Semana passada tiveram as sabatinas da Globo, em que os principais candidatos à presidência foram sabatinados, né, foram pressionados, perguntados sobre os assuntos mais diversos, uma forma de geral bastante dura, pelos jornalistas da Globo no Jornal Nacional.

Ou seja, Renata Vasconcelos e César Tralli. E eu acho que ninguém foi especialmente bem nessa sabatina, tá? Eu acho que uns foram um pouco melhor, um pouco pior, mas teve gente que sim foi muito mal. E na minha opinião, quem foi pior foi Augusto Cury, porque o Augusto Cury— olha, o Bernardo Mello Franco acho que resumiu bem, falou assim: Augusto Cury mostrou que já leu Tolstói, mas não leu o próprio programa de governo, porque ele não sabia o que tava escrito no programa de governo dele. Então ele citou Não só Tolstói, ele citou vários. Quem mais que ele citou?

BTBruno Torturra

Martin Luther King, Gandhi, Jesus Cristo. Nas referências, Jesus, ele não só citou como agradeceu primordialmente a Jesus.

GDGregório Duvivier

Então, e foi muito bem. Ou seja, ou ninguém assistiu essa batina e essa batina não faz a menor diferença, ou ao contrário, a ruindade dele lhe emprestou um carisma inédito e as pessoas ficaram com pena. Afinal, as pessoas também não gostam de ler programas de governo. Então as pessoas se identificaram com ele, que não leu o próprio programa de governo, e falaram assim, de repente esse cara é o meu cara, tá aí um presidente que não leu o programa de governo, é, acho que é isso que eu quero.

BTBruno Torturra

Não sei se é isso, mas enfim, eu acho que não é só isso.

AOAlessandra Orofino

Eu acho que a gente não pode esquecer de uma coisa, ele vendeu milhões e milhões de livros no Brasil, ele vende muito livro há muito tempo. Eu acho que parte do que pode ter acontecido no JN é as pessoas falando assim, nossa, ele é candidato? Esse é o Augusto Cury? Aquele livro que eu li, ou que meu tio leu, ou que me deram de presente? Ah, tá, então vou votar nele. Eu acho que em parte pode ser juntar o nome à pessoa, que não depende da performance dele necessariamente na sabatina, que eu também acho que foi péssima.

É só o fato dele existir. E também houve, a gente vai falar disso um pouco mais à frente, uma campanha digital muito forte e uma participação esquisita do próprio Pablo Marçal. Que também explicaria parte desse sucesso.

GDGregório Duvivier

Vocês acreditam nessa teoria? Só explicando para o ouvinte, há quem atribua a subida brusca de Augusto Cury ao Pablo Marçal, que tá, que não pode ser candidato, que tá inelegível, mas que tá operando aí, estaria operando nos bastidores a favor de Augusto Cury. Faz sentido isso, gente? Um coach beneficiou o outro.

AOAlessandra Orofino

Bom, eu acho que eles estão assim, estão pelo menos na mesma prateleira profissional, né? Acho que o Pablo Marçal é uma versão um pouco mais distópica, um pouco mais década de 20 do século 21 do que o Augusto Cury foi assim, quando a autoajuda ainda tinha uma coisa pré-rede social, pré-coach, pré-distopia. Mas acho que eles têm um certo alinhamento. Eu te confesso, pessoalmente eu não Não consigo afirmar o que que tá acontecendo, mas colunistas como o Sakamoto e tudo mais têm apontado coisas que, se forem confirmadas, podem configurar o tipo de violação, tipo de crime, é o tipo de crime eleitoral que deixou o próprio Marçal inelegível. A gente não sabe, isso vai ser investigado muito provavelmente nessa semana.

GDGregório Duvivier

Pois é, eu queria falar um dado curioso sobre Augusto Cury, que eu não sei se vocês lembram como é que ele despontou para grande parte da nação. Ele já vendia muito livro, mas como ele ficou famoso no ano de 2010, vocês lembram disso? Como o guru do Dunga. Dunga, nossa, não lembrava mais.

AOAlessandra Orofino

Foi o Augusto Cury.

GDGregório Duvivier

O Andréi Rastock, que é um ótimo jornalista investigativo do esporte, o Andréi fez uma, fez uma, Andrei, perdão, Andrei fez uma boa matéria sobre isso, lembrando, lembrando desse, dessa fama dele em 2010, porque o Dunga o abraçou e ele viajou com a seleção. Ele dava, ele era meio que um coach da seleção de 2010 e do Dunga. O Dunga repetia, o discurso do Dunga eram só as palavras-chave dele, que eram foco e comprometimento. Ele ficava repetindo foco e comprometimento.

E bom, a despeito do péssimo resultado das eleições de 2010, ele continua famoso, provando que coach não precisa de muito número para para se provar, né? Coach é, ele é auto-realizado, o sucesso do coach, porque ninguém, ele não ficou famoso como um coach fracassado depois do fracasso do Dunga. Dunga sim, mas ele não.

AOAlessandra Orofino

E também da Marina Silva, né? A Marina Silva na mesma época levava ele bem a sério, assim, como um pensador, como uma pessoa. Eu acho que não no nível do Dunga, mas teve uma fase que ele teve esse lugar de autoajuda, semi-respeitado, semi-levado a sério, parecido com que o Elair Ribeiro foi nos anos 90. Eu acho que ele chegou na década de 10 assim como essa figura, e agora acho que ele vem se revelando o sujeito oco e picareta que no fundo ele sempre foi.

GDGregório Duvivier

Olha só, uma coisa que corrobora essa teoria do Sakamoto, de que tem dedo do Marçal, o fato de que nos dados da BTG o Cury é 22%, ele tem 22% de intenções de voto na faixa entre 16 e 24 anos, que é exatamente aquela onde estão muitos dos seguidores do Pablo Marçal. Essa subida dele na juventude apontaria de fato que pode ter tido uma influência do Marçal.

BTBruno Torturra

Gente, olha, eu acho que é muito, é muito cedo para dizer se existe uma influência ou não direta em termos de participação na campanha. Eu queria, Bruno, depois que você trouxesse um pouco esses elementos, o que que se confirmado poderia se configurar crime eleitoral. Pessoalmente, eu acho mais interessante entender esse fenômeno do ponto de vista do que ele significa em relação ao eleitorado, né? Ainda que você possa apontar para determinados, né, determinados métodos de campanha com os quais você concorda mais ou menos, ou para uma estratégia de digital que tem essas ou aquelas características, dificilmente se traduz em intenção de voto de uma forma tão explícita e tão rápida sem que esse candidato esteja respondendo algum anseio real no eleitorado.

E acho que é mais interessante para a gente ter uma compreensão adequada de que anseio é esse, o que que as pessoas estão fazendo quando elas dizem que elas querem votar no Augusto Cury, porque que tanta gente resolveu, né, resolveu que vai votar no Augusto Cury nas últimas duas semanas, o que que aconteceu para além da campanha, né, mas o que que é que ele representa para esse eleitorado do que o resto. Eu sei, assim, alguma proximidade entre o Marçal e o Cury não é teoria da conspiração, tá documentada, né?

O Marçal já disse que o Cury daria um exímio ministro da Educação caso ele próprio ganhasse. O Cury foi entrevistado no canal do Marçal, os dois já fizeram lives juntos. Então existe alguma, alguma relação entre eles, o que em si não é nem ilegal e nem necessariamente fora do comum. Na política, né? Pessoas se relacionam, candidatos se relacionam, existe uma relação entre todos esses candidatos. Se o Marçal tá trabalhando para que o Cury se viabilize ou não, acho que são outros 500.

E se esse trabalho em si seria ilícito ou resultaria em algum tipo de condenação na Justiça Eleitoral, ainda outros 500. Mas eu repito, acho que é muito difícil que isso gere frutos eleitoralmente, sobretudo tão rápido, se isso não tiver alicerçado por uma compreensão adequada do que o eleitorado tá querendo. Então eu acho que a gente tem que olhar para isso também, claro. Mas Bruno, se você quiser trazer os elementos que você acha que poderiam resultar, principalmente é os elementos que o Sakamoto colocou.

AOAlessandra Orofino

Eu novamente não tô 100% a par disso, mas parece que teve uma inundação de vídeo de rede social e disparo de WhatsApp, não só como estética, mas como a estrutura e com contas que faziam parte da mesma rede que fez aquela campanha super viral do próprio é Marçal na prefeitura, para campanha de prefeito de São Paulo há 2 anos. Então tem uma, tem uma não só uma similaridade, mas tem uma estrutura social bastante parecida fora dessa proximidade.

E Relatos de bastidores que vem de várias fontes, aí não é só do Sakamoto, coisas que chegam até a gente aqui por fora, mas são conversas bastante críveis de que o Marçal tem sido compreendido no campo da direita como uma peça para trabalhar especialmente contra o Renan Santos, como uma pessoa que poderia ser o homem-bomba que vai atacar o tipo de dinâmica que o Renan Santos tá basicamente solando na internet hoje. Então não é à toa que o Augusto Cury subiu em todas as demografias, mas ele subiu especialmente num voto jovem desidentificado com a polarização Flávio-Lula, que é onde o Renan tinha uma força muito maior do que o Caiado.

E acho que faz sentido entender o Marçal como esse marqueteiro pirata do Cury, que tem não só a tecnologia, mas a própria estrutura de fazer esse tipo de campanha, que dependendo de como ela é feita, ela configura sim crime eleitoral. Mas os detalhes eu não vou saber te afirmar agora, porque eu não tô por dentro de cada vídeo.

BTBruno Torturra

É, de novo, eu não duvido de crimes eleitorais de quase ninguém. É, eu só acho que existe uma tendência, sobretudo no campo progressista, atribuir qualquer coisa que a gente não entende e que tá sendo feita de forma surpreendente, rápida, bem feita em alguma medida, com alguma competência, e ver alguma coisa de nociva ou de terrível ou de ilegal nisso. E muitas vezes tem mesmo ilegalidade, e o campo, sobretudo do marketing digital, é um campo mal regulado, mal compreendido, com muitas brechas e muitas possibilidades de ilegalidade.

Com isso dito, acho que é muito fácil imediatamente falar, ai, meu Deus, é ilegal, sabe? Acho que a gente tem que ter um esforço de compreensão anterior. E se é para falar de quem tá fazendo a campanha do Cury, não precisa ir até o Marçal, né? Tem uma outra peça-chave que é o marqueteiro do Cury oficial, não é o marqueteiro pirata, que é o Sérgio Lima, que foi o publicitário que fez a campanha do Bolsonaro em 2018, que já tinha muitos desses elementos de disparo em massa, de uso muito esperto, né, do digital.

E teve elementos também criminosos, sem dúvida, ali. Ou enfim, tudo indica que criminosos, para o jurídico não ficar chateado. Mas, né, já denunciados também por outros jornalistas. Tem o trabalho excelente da Patrícia Campos Mello que foi feito a esse respeito. Enfim, tem várias outras apurações que já foram feitas a respeito dessa campanha. E o Sérgio Lima é o publicitário do Cury. E é estranho, porque o Sérgio Lima era publicitário dele no início do ano, aí ele saiu da campanha e foi anunciado como novo publicitário do Zema.

E agora ele voltou, agora não, mas logo antes do início da corrida ele volta para Augusto Cury. Então claramente o Sérgio Lima, ele tava ali meio que sendo, entendendo qual que ia ser o papel dele na construção dessa ideia de uma terceira via, né? E o que parece nos indicar, pelo menos na superfície, que havia uma dúvida sobre qual que era o candidato de terceira via com mais chance de se viabilizar, que em algum momento Houve um entendimento de que seria o Zema e que agora a aposta tá sendo mesmo no Cury e ela tá gerando frutos.

Isso eu acho interessante e não precisa ir muito longe pra descobrir, porque isso é oficial e público.

AOAlessandra Orofino

É, mas eu acho interessante pensar não ele como uma terceira via, porque quando você fala de terceira via, você pelo menos infere que se trata de alguém da política profissional. Eu acho que o que o Augusto Cury pega é esse potencial que tem ficando sempre do outsider. Que o Flávio não consegue encarnar mais como o pai dele encarnou. E acho que mesmo o pai dele em 22 ainda tinha uma coisa outsider pela figura que ele era, que ele representava.

Ele sempre foi esse porco dando coice no chiqueiro, assim. E o Flávio não convence como outsider. Ele é senador, ele tenta falar tipo um político, ele se modera, ele mente como um político mente. Então o Cury, na minha opinião, ele entra muito mais nesse Coringa Marçal que é o cara de fora falando assim, eu vou fazer tudo diferente, eu tô falando aqui de Tolstói, de neurolinguística, de não sei o quê, e eu sou um coach, e esses políticos não prestam, a gente precisa das pessoas mais inteligentes do país do que um caiado que seria a terceira via, ainda que de extrema direita, mas ele é o fora polarização, mas ele é um profissional, como muitas tentativas de terceira via se apresentaram, como foi Ciro Gomes, como foi a Marina Silva. Que eram as terceiras vias reais.

BTBruno Torturra

É outra coisa nesse sentido, realmente é um outsider. Inclusive, eu acho que talvez a especialização do Sérgio Lima, que aliás é o que a gente, que dizem as reportagens, é que foi o Sérgio Lima, o marqueteiro portanto do Cury, que apresentou o Pablo Marçal ao PRTB, né, ao presidente na época do PRTB. Então Sérgio Lima é uma peça muito mais central do que o próprio Marçal nessa história, o que parece, entendeu? E se tem uma coisa que ele tem mostrado que ele sabe fazer, é identificar esse potencial de outsider, que era o papel que o Bolsonaro encarnava em 2018, que foi o papel que o Marçal encarnou na campanha, né, na Prefeitura de São Paulo, e é agora o papel que o Cury tá encarnando nessa eleição.

AOAlessandra Orofino

É o marqueteiro outsider.

BTBruno Torturra

Ele é o marqueteiro dos outsiders.

AOAlessandra Orofino

Faz sentido.

GDGregório Duvivier

Outsider do Avante, né, que é o partido mais do centrão que tem no mundo.

AOAlessandra Orofino

Todo mundo precisa de um partido, né, Greg?

GDGregório Duvivier

Ele é o outsider do centrão. Mas tá crescendo.

BTBruno Torturra

Olha, pessoal, depois que a gente terminou de gravar esse programa, a gente recebeu os resultados de uma pequena perícia que a gente fez aqui interna mesmo, dos dados de crescimento do Augusto Cury nas redes sociais, né, das métricas de digital do Augusto Cury. E aí a gente tem algumas conclusões para dividir com vocês. Uma é que o dado da Globo sobre as buscas por Augusto Cury na Índia, eles têm falado que cresceram 5.000%, que isso seria um indício de algo suspeito, esse dado tá errado.

O Google Trends, ele não mede volume bruto de busca, ele mede um índice. E qualquer termo que sai do zero, ou seja, não tinha busca nenhuma e de repente tem algumas, mesmo que sejam muito poucas, ele aparece com crescimento acima de 5.000%, que é o teto que a ferramenta exibe, tá? Isso não diz nada sobre o volume absoluto. Inclusive, o volume absoluto de buscas por Augusto Cury na Índia tá abaixo do volume absoluto de buscas pelo termo Lula.

Esse mesmo padrão acontece na Bolívia, na Nova Zelândia, em Angola, na Bélgica e vários outros países, provavelmente porque tem alguns poucos brasileiros que moram lá e que jogaram o nome do Augusto Cury no Google, e aí isso dispara dessa forma. Os seguidores do Instagram são reais. Segundo a nossa perícia, só 4,5% são contas suspeitas, o que é totalmente dentro do normal, tá, dos padrões normais. E a base é quase 80% brasileira, o que é também bastante normal.

Não tem uma presença relevante de países muito fora da curva. 77% da base é feminina, o que é um dado interessante. E os comentários de terceiros declarando voto no Cury vêm de perfis reais também, na sua enorme maioria, né? Na maioria são micro influenciadores não associados à política. O único ponto que chama atenção nesses posts é a quantidade meio absurda de likes, são 40 mil, 50 mil, 60 mil. E o Instagram, ele não abre a lista completa de quem curtiu comentários, a gente tá falando dos comentários dos posts, né?

Mas na amostra disponível que a gente olhou, os perfis também são reais. Ou seja, pode ser que exista uma estratégia coordenada, mas não parece ser uma estratégia que faça uso massivo de bots, etc. Então, por enquanto, os dados apontam para um crescimento real sem robô, o que não significa que ele não foi incentivado, mas tudo indica que tem muito de orgânico mesmo nesse crescimento.

GDGregório Duvivier

O que que vocês acharam de modo geral das sabatinas? Queria saber se vocês, o que é que vocês viram e o que é que vocês sentiram. Eu vi, não vi todas, para ser sincero, não vi Renan Santos, não vi Caiado, quer dizer, vi uns cortes assim, mas eu vi quase toda do Lula e quase toda, se eu não me engano, toda do Flávio. Eu tava muito curioso para saber como é que ele ia se sair, e eu acho que ele saiu menos pior do que eu imaginava.

Ele tava muito treinado, Flávio, muito media training na cabeça assim. O que por outro lado é ruim, porque muito artificial também. Tiveram poucos cortes realmente viralizantes. A direita gosta, eu tenho impressão de que o Flávio, o pai Bolsonaro, viralizava e surfava muito, um pouco na truculência dele. Vocês gostavam dessa truculência. E o Flávio, quando perde um pouco a truculência, ele perde também o seu poder viralizante, engajante na base, né?

Então ele pode correr o risco de ficar uma coisa nem lá nem cá, porque eu fiquei vendo e é surreal o quanto ele é ensabuado. Sério, é um cinismo muito louco.

BTBruno Torturra

Muito.

GDGregório Duvivier

Ele não responde nenhuma pergunta, ele repete a mesma frase que ele tá falando há um tempão, ele vai muito, muito, muito diluído, ele é muito diluído mesmo como candidato, Flávio. Ele é capaz de não dizer nada, nada, nada, nada, nada. Então é uma sabatina em que ele conseguiu ficar uma hora sem dizer nada. O que eu acho uma vitória, por um lado, né? Para alguém tão cheio de esqueleto no armário, você ganhar um 0 a 0 ali é uma puta vitória.

E eu acho que o Lula, ao contrário, fez meio que o contrário do Flávio. Lula, que é tradicionalmente, já tá um tempo, mais paz e amor, né? O Lula virou meio essa figura de conciliação, tava bastante puto, como não via um tempo, inclusive em termos de voz. A voz do Lula tava mais rouco, é o que, claro, não é culpa dele, mas acaba suando mais. Ele suou mais puto do que nunca. Também puderam, os primeiros 10 minutos de entrevista foram sobre escândalo de corrupção de Fábio Luiz, de Lulinha, de Marcola, de tudo.

Então uma coisa inclusive, na minha opinião, bastante exagerada. Não é por ser eleitor não, mas sim, são metade quase da entrevista dele foi sobre escândalo de corrupção que não Ele não tem diretamente nada a ver, até não tem nem acusação de que ele tem alguma ligação a esses casos. Então claro, tem que falar, porque um assessor, outro é filho. Mas acho que o tempo gasto nisso foi o mesmo tempo, se eu não me engano, gasto com o Vorcaro, sabe, pro Flávio.

AOAlessandra Orofino

Foi mais tempo com o Lula, eles gastaram menos tempo com o Vorcaro.

GDGregório Duvivier

Aí é foda, aí é foda, porque porra, um dos casos é o próprio Flávio dizendo, estarei contigo para sempre, meu irmão. Pro banqueiro, maior fraude financeira da história do Brasil. Sim, entendeu? Assim, e o outro é um assessor que teria vendido acesso ao Lula, sabe? E o outro é um filho que teria também vendido. São pessoas que estariam ganhando um dinheiro vendendo acesso a ele. Não quer dizer que ele tivesse qualquer— não tem nem acusação de que ele tem alguma participação naquilo.

Então, por mais que seja assim digno de investigação esses casos, é uma loucura comparar isso alvor caro, né?

BTBruno Torturra

Eles não comparam, né? Eles simplesmente tratam com o mesmo peso em relação, até com peso maior no caso, em relação ao tempo que isso consome na entrevista. O que é responsabilidade do jornalista, certamente, em alguma medida responsabilidade também do candidato que responde. Eu acho que teve uma, foi enrolada essa parte da sabatina do Lula, mas é muito, é muito notório de fato o peso que isso teve na maneira como os dois jornalistas se preparavam para sabatina.

Eles tinham não só perguntas, mas várias perguntas depois seguidas insistindo em determinados pontos. E que, de novo, né, eu acho absolutamente de interesse público esse caso, né? E achar que o Lula ia ser sabatinado no Jornal Nacional e que não haveria perguntas sobre esse caso do Lulinha evidentemente é ingenuidade. E é absolutamente legítimo que um jornalista faça essa pergunta, mas houve uma insistência a ponto daquilo consumir basicamente metade da sabatina.

Que é estranha de fato, sobretudo se comparando com o que eles fizeram no caso do Flávio, em que eles também insistiram, a Bem da Verdade, eles não deixaram o Flávio dar uma resposta e encerrar o assunto, mas eles insistiram durante menos tempo. O Flávio também deu respostas mais breves e mais evasivas. O Lula, na verdade, se sai muito melhor, né, porque ele é muito mais categórico ao afirmar que meu filho vai ser investigado, não tem problema, eu não vou trocar delegado, eu não vou ficar intervindo na Polícia Federal.

Ele Ele respondeu, acho que de forma muito correta, mas o fato é que os jornalistas insistem mais do que no caso Boccaro. E no caso Boccaro, sobretudo, o que mais me preocupou das perguntas, da maneira como Flávio respondeu, foi que o Flávio conseguiu repetir muitas vezes uma coisa que é claramente um soundbite, né? Soundbite são aquelas frases que o marqueteiro fica ali praticando com o candidato mil vezes e fala: repete isso, martela isso, não deixa isso passar.

Que é: não tem dinheiro público, é dinheiro privado, era financiamento privado. E ele repete isso muitas vezes, e isso não é questionado pelos jornalistas. Os jornalistas não estão preparados para dialogar com essa afirmação, que é uma afirmação completamente mentirosa, absurda. É, primeiro que qualquer dinheiro que o Vô Caro tivesse para dispor nessa quantidade é, em alguma medida, dinheiro público, uma vez que ele tava Né, que parte das acusações é que ele tava ganhando dinheiro defraudando fundo de previdência, então, e banco público, né.

Então isso é um primeiro ponto. Mas o segundo ponto é que a ideia de que corrupção necessariamente passa por uma troca de dinheiro público ou por passar dinheiro público de um lado para o outro é não entender o que é corrupção. Porque você corrompe um agente público muitas vezes com dinheiro privado.

AOAlessandra Orofino

Claro, a fonte em geral é privada.

BTBruno Torturra

A fonte em geral é privada, exatamente. Porque você tá corrompendo um agente público para que ele aja em seu favor, né.

AOAlessandra Orofino

Ninguém nunca teve essa mesma ideia para falar dos escândalos imensos de Caixa 2. É tudo dinheiro privado, gente.

BTBruno Torturra

É tudo dinheiro privado.

AOAlessandra Orofino

Ninguém pegou dinheiro público fazer Caixa 2 e uma série de outros escândalos, inclusive Mensalão. Então assim, é uma sagacidade tosca que funciona, eu acho, porque em grande medida o Flávio conhece bem o seu próprio público, né, que é mais elástico na maneira como eles estão a fim de perdoar o próprio campo e que não compreendem, na verdade não tem uma ideia minimamente sofisticada do que a corrupção é. O que ele tá falando, tipo, isso é um assunto privado, isso não é um assunto público, isso é entre eu e ele, não é entre eu e o Estado brasileiro, eu não roubei nada.

Mas sobre o Flávio, eu acho que ele foi bem para o público dele, tá? Eu não acho que ele ganhou exatamente muitos votos, acho que a gente tem que falar disso também, de como tem mexido muito pouco nos números. Mas eu acho que a gente tem que lembrar de uma coisa sobre o Flávio que é muito diferente até do pai dele. O Jair, ele só começou a ter que responder publicamente dos escândalos dele e das corrupções e das bandidagens e das relações dele com o crime e tudo mais quando ele já era presidente praticamente.

O Flávio, se tem uma coisa que o Flávio é profissional e ele é experiente, Ele é um político enrolado com história suja há muitos anos. Então o Flávio, ele é bom em responder de maneira evasiva escândalos de lavagem de dinheiro, envolvimento com milícia, o Vorcaro. Então eu acho que apesar dele ter media training, ele teve, na verdade o Flávio ele é muito bom nisso, em enrolar jornalista e as explicações, porque há mais de 10 anos ele tem feito isso na sua vida pública.

Então, Flávio é muito profissional, e acho que os jornalistas da Globo foram especialmente mal com o Flávio. Eu acho mesmo. Eu acho que eles não souberam checar o tanto de mentira que ele falou, e que foi além da questão de grana é privada. E acho que ficou um pouco nessa polarização, é Globo-Flávio, e não uma coisa que eles não conseguiram expor o Flávio nas suas contradições, que não é o que você faz na sua pergunta. É o que você faz na sua réplica.

Eu acho que eles foram muito mal nas suas réplicas em um candidato tão sujo e tão perigoso como Flávio Bolsonaro.

BTBruno Torturra

Concordo, é realmente um despreparo para lidar. E ele já tinha ensaiado o que ele ia dizer, né? O Flávio tá tendo que responder sobre o caso Vó Caro há bastante tempo. Então várias das coisas que ele fala na sabatina, tem um momento que ele fala isso aqui, até tem um ato falho, ele fala, não sei se eu vou citar perfeitamente, mas ele fala isso aqui é um livro fechado, ressignificado, colocado na prateleira e ressignificado. E para falar do caso Meister, né?

Mas essa ideia de página virada, do livro fechado, é o que ele já vem repetindo. E não é uma página virada, né? Ele próprio não fez nenhuma das coisas. É, a Luísa tá trazendo aqui para a gente exatamente as aspas. Foi: esse é um livro que está fechado, ressignificado e na prateleira para quem quiser abrir e ter acesso a hora que quiserem. É uma maluquice a frase. É uma doideira. Mas a ideia de que ele ressignificou o caso eu acho que é muito central, porque o que ele tá fazendo nessa batina é justamente tentar ressignificar, é falar: isso aqui não é um escândalo de interesse público, isso aqui é eu pedindo financiamento privado para um filme privado.

O que evidentemente não é o caso. Primeiro que o escândalo não tá só no dinheiro. Acho que esse também foi o erro do jornalismo da Globo, né, de centrar no dinheiro, no financiamento, e quando na verdade o maior escândalo da conversa do Flávio com o Marçal é o meu irmão, tô contigo sempre. Conversão com o Forcaro. O maior escândalo da conversa do Flávio com o Forcaro é o meu irmão, tô contigo sempre, não existe meia conversa entre a gente.

Porque isso denota um tipo de proximidade, um tipo de apoio que naquelas circunstâncias já era político. A questão ali não é um senador, não é apenas um senador pedir financiamento privado para um banqueiro para um filme sobre o seu pai. Mas é sobretudo no momento em que ele está pedindo esse financiamento privado, ele declarar aliança a essa figura que já tava sob investigação. Porque é isso que deixa muito explícito que existe uma troca de favores.

E você pagar pra ter favor de alguém que tem poder é a definição de corrupção. Sobretudo se o dinheiro é privado. A questão aí realmente não é a origem do dinheiro e nem a quantidade de dinheiro. Seria igualmente escandaloso se fosse R$10 milhões, entende? Não é sobre isso.

AOAlessandra Orofino

Se fosse só o telefonema, já seria escandaloso. Porque eu acho que uma coisa que precisa ficar muito clara é que, além da enorme grana que tem, um monte de grana que o Flávio não conseguiu explicar na vida dele, casa, apartamento, Copenhague e tudo mais, mas o que eu acho que ele conseguiu estar ressignificando, para usar a expressão dele, é a amizade. É a relação com o maior corrupto da fraude financeira brasileira, assim, né?

E eu acho que isso seria uma coisa que abalaria muito mais a credibilidade dele com parte da sua base do que uma questão volumétrica de quanto dinheiro foi ou deixou de ser pro filme. E acho que ele não explicar muito mais o irmãozinho, a coisa dele ser irmãozão do cara ser preso, ele tá solidário com o cara, ele tá próximo dele, tem muitas outras relações e tudo mais, eu acho que isso é o Isso é o centro. E eu acho que a campanha do PT também não tá sabendo fazer isso muito bem, eu acho.

GDGregório Duvivier

É claro, o PT não tá querendo falar de máster, infelizmente.

AOAlessandra Orofino

Olha, no jingle que tá tocando no rádio bastante, não sei se vocês viram isso, não tem um jingle que tá tocando tipo, é o Flávio Bolsonaro, é a família Bolsonaro, não sei o quê. Mas eu, é um jingle que eu achei a ideia razoavelmente boa, que é falar dos escândalos de corrupção e encerra falando no né, falando é do Flávio Bolsonaro, é o Flávio Bolsonaro, mas eles falam tão rápido e fica tão diluído numa música que parece um jingle do Flávio Bolsonaro.

Você não sai entendendo, tipo, quem comprou não sei quantos imóveis, é a família Bolsonaro, a família Bolsonaro. É uma coisa cômica que funcionaria em um sketch, mas não em um jingle.

GDGregório Duvivier

Pois é, é uma citação a um caso que eu imagino seja Osmarzinho. Que é um caso famoso de Alagoas, eu acho, não é? Que viralizou recentemente de novo, volta e meia viraliza, em que um político pagou um caminhão para ficar tocando isso. Quem foi que pagou sei lá o quê, né? Foi o Osmarzinho.

BTBruno Torturra

Quem foi que matou o fazendeiro? Foi o Osmarzinho. É uma coisa bem nesse nível.

AOAlessandra Orofino

Foi, e tá tocando no rádio direto, pelo menos aqui.

GDGregório Duvivier

Ah, é?

AOAlessandra Orofino

Liga o rádio, toca esse jingle.

GDGregório Duvivier

Então eu acho que é uma estratégia mesmo. Eu acho que tem que partir para cima disso. O cara é muito sujo, muito sujo. E é muito louco a gente tá debatendo, tá, tem que lembrar isso, né? Porque é tão óbvio, meu Deus do céu.

BTBruno Torturra

É, mas até nesse jingle que o Bruno tá citando, por exemplo, o jingle diz literalmente no início: quem pediu para o Daniel Vorcaro R$61 milhões para fazer o filme do pai? Gente, a gente tem que parar de dar de barato que era para fazer o filme, para começo de conversa. Não era para fazer o filme do pai. Eu quero dizer, a gente não tem nenhuma razão para acreditar que era para fazer o filme do pai, entende? Nem a perícia da própria produtora foi autorizada a periciar o fundo.

Não é porque a razão declarada que era para fazer o filme do pai que a gente tem que assumir que era para fazer o filme do pai.

AOAlessandra Orofino

Tipo, exatamente, tudo indica que o filme do pai era também um esquema de lavagem de dinheiro.

BTBruno Torturra

Então a gente tem que parar, a gente compra muito uma história. E aí, de fato, se a única coisa que tivesse acontecido aí fosse o Flávio pediu um dinheiro grande para fazer um filme do pai, já seria ruim, já seria estranho, porque o cara é um bandido banqueiro, né, que já tava sendo investigado. Mas seria menos escandaloso. O que é escandaloso aqui é que, um, não era para fazer o filme do pai, ou pelo menos não tem nenhuma razão para a gente acreditar que era para fazer o filme do pai.

Esse dinheiro pode ter sido usado de várias maneiras e a gente não sabe, no fundo, como ele foi usado. E dois, o Flávio não tá simplesmente pedindo dinheiro para um financiador. Essa não é uma relação de por favor financie meu filme. Eu faço filmes, já pedi dinheiro para fazer filme para 500 pessoas, mas eu não sou senadora da República. Eu não tô ligando para um banqueiro investigado na qualidade de senadora da República e futura presidenciável e falando: estou contigo sempre, conta comigo, enquanto eu peço dinheiro.

É essa relação que é, ó: estou contigo sempre desde que você me pague X dinheiros nesse fundo na semana que vem. Foi isso que aconteceu nessa ligação, certo? E é disso que a gente precisa falar. Isso não tá presente na Sabatina e eu acho que também não tá presente na comunicação do PT, nem nesse jingle. O próprio jingle compra contra a ideia de que era para o filme.

GDGregório Duvivier

Total.

AOAlessandra Orofino

E que ele fala, pelo menos não usei a Rouanet.

BTBruno Torturra

Antes tivesse, entendeu? Se esse filme tivesse sido financiado com Rouanet, era muito melhor do que o que tá. Não é isso que aconteceu, né?

AOAlessandra Orofino

Mas o argumento funciona.

GDGregório Duvivier

Mas tem algo muito central aí que vocês já citaram por alto, que é o que que é percebido como corrupção, né? Alguém ganhar um dinheiro honestamente através de um edital pela Lei Rouanet é visto como algo mais problemático por parte da população do que um agente público pedir dinheiro privado para algo privado ou não, né? Isso às vezes beneficia também setores, entre aspas, da esquerda, pelo menos do campo, enfim, progressista, ou chame como quiser, tá?

Porque eu acho que, por exemplo, o caso do Alexandre de Moraes não viralizou, não virou o suficiente, não é usado pelos próprios Bolsonaro, não é tanto usado quanto poderia. O fato do escritório da esposa dele ter ganhado, ou pelo menos ter assinado um contrato de cento e tantos milhões, comprar advogado, porque o que ele diz é o seguinte: ué, é dinheiro privado, é dinheiro privado para uma advogada privada. Então é o mesmo argumento um pouco.

E eu acho muito louco, eu acho que é mesmo uma ideia que as pessoas têm de corrupção como algo que acontece apenas quando um dinheiro público é desviado para pessoas privadas.

AOAlessandra Orofino

Nunca quando um agente público recebe dinheiro privado para, e mesmo, e mesmo a Ruanê que não é desvio, e mesmo a Ruanê que não é desvio, ela é compreendida como algo corrupto porque a pessoa sente que é grana pública, mesmo que legalmente elas se sentem ofendidas do dinheiro público serem, ser utilizado para o benefício de cineastas ou de alguma ideia de alguma coisa assim. Então é uma ideia muito louca, não só do que corrupção é, mas é do que que grana pública é exatamente dinheiro de imposto.

GDGregório Duvivier

Mas as pessoas têm isso de modo geral com o dinheiro, ponto, não é? A Bolsa Família as pessoas encaram como uma forma de corrupção, a extrema-direita, eu digo, como uma compra de voto, algo assim, né? E algo que aliás é uma loucura, porque isso inclusive em termos de dinheiro, quantidade de dinheiro, onde parece para um certo setor da direita isso é também corrupção, compra de voto. Agora, o deputado Flávio pedir R$60 milhões, sabe, para o vocário, isso daí não é tanto enquadrado quanto corrupção, porque isso é um cara público, o dinheiro que ele deu não é público do vocário, embora embora seja, né, no fundo.

BTBruno Torturra

Mas mesmo que fosse inteiramente privado, né, eu acho, gente, que não é só uma não compreensão do que é corrupção. Acho que isso na verdade sinaliza uma incompreensão mais profunda, que é sobre o que que o Estado é, para que que o Estado serve. Então essa ideia de que a coisa, o pior desvio que você pode cometer de finalidade do Estado é pegar uma parte do dinheiro público e usar para uma coisa que não é de interesse público, né?

E evidentemente isso é um desvio muito grave. Mas tá longe de ser o pior desvio. Um juiz, por exemplo, que vende uma sentença, né, que tá recebendo dinheiro privado para proferir uma sentença a favor ou contra alguém, isso é em alguma medida um desvio muito maior, muito mais grave da finalidade do Judiciário, né? Porque você tá deixando de fato de entregar aquilo que o Judiciário precisa entregar, que é a justiça. Ou sei lá, uma, um deputado ou uma deputada que recebem dinheiro às vezes até legalmente, financiamento de campanha, etc., de um empresário, e que passa uma legislação em favor desse empresário, isso é tão ou mais grave do que esse mesmo deputado roubar dinheiro e colocar no bolso.

Porque no fundo ele tá recebendo dinheiro de um agente privado para beneficiar esse agente privado. Mas a gente não entende o Estado. Eu acho que tem uma falta de compreensão inclusive do poder do Estado, do quanto que o aspecto regulatório, as leis, né, a justiça, as políticas públicas, elas criam ganhadores e elas criam perdedores na sociedade. Então, se você quer ser um empresário bem-sucedido, muito do que você faz não é criar uma empresa de sucesso, responder a uma demanda no mercado, é na verdade tentar orientar a regulação, orientar a política pública, orientar o próprio Estado em prol dos seus serviços, né?

O Vaccaro fez muita, ou é acusado de ter feito muitas coisas. Das muitas coisas que ele é acusado de fazer, uma das mais graves, na verdade, das acusações mais graves, é a acusação que pesa sobre o Ciro Nogueira. Que teria tentado emplacar um aumento do teto do FGC, que é o Fundo Garantidor de Crédito, é que teria permitido basicamente que o Voo Caro como se continuasse a vender os títulos podres que ele tava vendendo ali através do Master, com dando uma camada extra de confiança ao consumidor, né, que o consumidor pudesse no fundo investir mais dinheiro com Master, ele tivesse um teto maior segurado pelo FGC.

Se tivesse acontecido, o rombo que o Master já deixou no FGC teria sido muito maior. E isso seria absolutamente escandaloso, independentemente da fonte usada para pagar o Ciro Nogueira, em tese, para fazer isso, sabe? O dinheiro poderia ser inteiramente privado, como provavelmente seria, mas o desvio de função do Estado é muito grave. Só que a gente fala muito pouco do nosso Estado, do que ele é capaz de fazer. A gente não trata, por exemplo, né, que a gente fala, por exemplo, do agro, a gente não trata o Plano Safra, todas as isenções fiscais, todo isso como um benefício que o Estado tá concedendo a um setor, um benefício gigante que no final das contas tem a ver com dinheiro público porque é isenção fiscal.

Se esse benefício tá acontecendo simplesmente por razões estratégicas, o Estado brasileiro, os agentes públicos acreditam piamente, genuinamente que isso é bom para o país, isso é uma coisa. Mas se ele tá acontecendo em troca de dinheiro privado, isso é uma corrupção absoluta. E isso acho que é muito— a gente fala pouco de corrupção e tem a ver do nosso campo à esquerda ter abandonado a pauta corrupção. A gente não fala mais dela, a gente tem medo dela, como a gente já disse aqui, né?

GDGregório Duvivier

E a única maneira que se fala de corrupção nesse país é moralista, é lavajatista, é algo em geral em relação ao que aconteceu no passado. E não fala, não se fala muito de mecanismos de controle, não se debate o que seria, não se fala de outros tipos de corrupção, praticado diariamente. Uma coisa que se fala muito pouco, eu acho, por exemplo, é de porta giratória, é de gente que sai do governo e vai direto para iniciativa privada, em geral para lugares que ele beneficiou enquanto estava no governo.

É um caso clássico no Brasil, é Roberto Campos Neto, saiu do Banco Central para Nubank, um governo, um banco cresceu imensamente durante a sua gestão, cumprindo a quarentena. É muito engraçado que ele entrou no Nubank dia 1º de julho, a quarentena de 6 meses. Ele entrou dia 1º de julho no Nubank, tá, oficialmente. Ou seja, 6 meses assim, ele tava ali na porta do Nubank esperando, olhando o relógio. Então assim, é algo que isso daí não é considerado corrupção.

AOAlessandra Orofino

E ele foi trabalhar, né?

GDGregório Duvivier

Exatamente. Isso daí não é considerado corrupção no Brasil e ninguém, né, nem considera.

AOAlessandra Orofino

A quarentena deveria existir para tipo assim falar de um emprego novo, né? Que o cara que começa 6 meses cravado, quer dizer, ele teve essa entrevista de emprego na Quando, né? Tipo, quando que ele combinou que ia assumir essa vaga? Foi dentro da quarentena.

GDGregório Duvivier

Total, Zé, é um caso clássico de corrupção que a gente não fala. Mas eu queria falar do tema que a gente ia falar antes do Augusto Cury disparar e toca um pouco também nele, que é a ideia de calcificação, que é uma palavra que se falou muito essa semana agora por causa muito do, do, da Quest, não é? Quest, eu não sei se fala Quest ou como é que vocês falam, Quest. E o Felipe Nunes, que é o da Coaeste, trouxe muito essa palavra para o debate, que a ideia de que o que aconteceu no Brasil nos últimos anos é um processo de calcificação do eleitor e da ideologia e dos campos.

Que que significa? Que ele tá muito, muito mais congelado, ou seja, calcificado do que antes. Então a gente tem, o que a gente tem hoje, na verdade, o que é verdade, o que é espantoso no cenário hoje É justamente, não é o fato dele ter mudado drasticamente, é o fato dele não ter mudado. Então foi a estagnação do eleitor que mais choca quando você vê a fotografia da eleição hoje, que ela se parece muito com 22. Não é só que o número parece, é os lugares em que o Lula tava grande ou pequeno se parecem.

Você tem geograficamente, o mapa não mudou muito como mudou tantas vezes ao longo do Brasil, né? Porque É isso. Os lugares em que Lula ganhou em 98, por acaso foram Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, tem nada a ver com lugares que ele ganhou em 2002. Eu só vejo, tem nada a ver com os lugares que ele ganhou em 2006. Então, mesmo quando os números do Lula eram parecidos, o que aconteceu era uma mudança gigantesca em termos de Brasil, de classe social, de quem votava nele, quem deixava de votar.

E o que a gente tem 2022 a 26 é um cenário muito parecido, ou seja, calcificado. Essa é a tese do Felipe Nunes, que é comprovada lá por dados. Ele falou em vários lugares, vocês podem achar. Eu queria saber primeiro se vocês concordam com isso, vocês estão sentindo Isso também, eu acho que o Bruno já falou bem disso, acho, quando fala de redes sociais, né, como o papel das redes sociais na calcificação é enorme. Isso eu não tenho dúvidas.

Eu acho que o Bruno pode falar mais disso, mas quero saber se vocês acham que a subida, se essa mudança no BTG, ressurgimento do Augusto Cury, é no cenário, no jogo, muda um pouco essa ideia de calcificação ou não. Se não é, na realidade só vem reiterá-la. O que que vocês estão sentindo?

AOAlessandra Orofino

Eu acho que a subida do Cury não quebra esse diagnóstico. Na verdade, né? Porque assim, acho que isso é uma coisa que eu imagino que seja um pouco previsível quando você fica numa polarização extrema por muito tempo, porque ela vai se calcificando para lugares além da própria política, do ciclo eleitoral. Eu acho que isso tem a ver com o fato, e aí não é só rede social, mas é hiperconectividade e a hiperpolítica que nasce disso, que é o fato de você tá sempre em campanha.

A sociedade tá meio sempre polarizando, debatendo política, é jogando a corda meio que contra ou a favor os seus próprios candidatos, as suas próprias preferências, e de que maneira que a posição política de voto ou identificação dela, que ela tem com um candidato, ela vai penetrando para áreas muito mais profundas da sua própria identidade. Ela começa a ser um código estético, começa a ter um léxico diferente, começa a ter relações sociais diferentes, e começa a ter essa relação parasocial que você estabelece com o seu próprio campo político 24 horas por dia.

Nas suas redes sociais, mas sobretudo na maneira como você se expressa de maneira hiperconectada, que não é só em rede social, mas a rede social, digamos que é o palco público onde você consegue ler isso com mais clareza. Mas você consegue observar isso muito. Eu acho que um lugar que foi um grande laboratório que a gente conseguia sentir isso antes até da gente ter uma leitura distópica do Facebook, do Twitter, eram as caixas de comentários dos grandes reportagens.

Você via que ali tava se provocando, tava começando um fenômeno muito diferente de autoconstrução de identidade política. E acho que com o tempo isso se calcifica, torna-se quem você é e não quem você escolhe de acordo com o debate político de certo ano, ou de uma avaliação racional, ou ainda que uma avaliação emocional, mas é uma avaliação que supõe que o seu voto tá em jogo. E o que aparentemente a gente tá observando é que o voto não parece mais estar em jogo.

Não à toa, a parte menos calcificada aparentemente, e que consegue ir para um Cury, consegue ir para um Renan, é um voto mais jovem que possivelmente não tá há tanto tempo nessa construção de identidade política como o nosso.

BTBruno Torturra

Pode nem ter votado nela na última eleição.

AOAlessandra Orofino

Ou é o primeiro voto, ela acabou de entrar nesse jogo. Mas para mim, a grande calcificação maior mesmo, não sei se o Felipe Nunes ia concordar comigo, mas é o que as pesquisas mostram no segundo turno, que é o que me preocupa mais, que é o quanto que o Lula permanece absolutamente estável dentro de uma margem de erro, independente de qual candidato vai. Os outros candidatos quase todos têm números muito parecidos, mas o que oscila de verdade é o voto nulo, branco e indeciso, não é o voto do Lula.

Então acho que o que tá calcificado mais do que o voto de direita, que eu acho que é bem calcificado, mas é um voto que rejeita e que vota no Lula. Ele é o centro dessa eleição em termos de calcificação, mais do que o voto que ainda tem um campo de escolha, ainda que mínimo. Por isso que eu acho que o Augusto Cury cresce, porque de todos eles ele é o menos identificável como um cara de direita ou de extrema-direita. Que se você se define como direita, direita, direita, você vai de Bolsonaro porque ele é o calcificador.

Mas se você não se identifica, se você tá fora disso, eu acho que aí tem algum espaço que tá muito difícil para o Lula conseguir pegar para ele.

GDGregório Duvivier

E aí tem algumas operações que a direita que ele tá fazendo. Não sei se a Lê tá vendo, eu quero ver ela, mas algumas operações estão claramente servindo para aumentar a rejeição do Lula. Eu acho que é isso que eles estão focando, a campanha do Flávio, mas não só, Renan e tal. Mas tem uma operação muito bem feita, inclusive, com, como a gente já viu, comprando vários perfis de fofoca, perfis que não são necessariamente políticos e que não param de postar trechos, por exemplo, do Lula em que ele e que podem soar, por exemplo, preconceituosos.

Um que bombou muito, não sei se vocês viram, é o dos garis. O Lula falando que o gari, ele passou por um gari, e aquilo não é uma profissão que em geral a pessoa se orgulha muito. E aí ele vai tentando dar a volta dizendo justamente, e é por isso mesmo como é bonito, era um elogio obviamente à posição, à profissão dos garis. O Lula, enfim, com a trajetória política dele, ele nunca falaria mal de gari, não faz parte do éter, faz parte da opinião dele.

Mas o trecho por acaso escolhido, em que pegam só o setup da história, com perdão da palavra, o começo da história sem a conclusão, faz parecer que ele tá dizendo que é uma profissão de que ninguém, que ninguém se orgulharia. Ele fala essa frase. Isso daí viralizou, tá? Sobretudo, claro, entre trabalhadores em geral, não só garismas, faxinas, limpeza e tal, falando absurdo, quem diria, ele é um homem que veio do povo. Aí você não sabe mais quantas pessoas estão comentando isso, não são robôs, isso aí já não dá mais para saber.

O fato é que os vídeos estão sendo muito vistos. Para eu ser marcado em vários, porque volta e meia eu sou marcado pela extrema-direita, ah, explica isso então, como é que seu líder tá falando isso. Então, para chegar em mim é porque de fato o vídeo viajou muito, e não é IA nesse caso, é só um corte maldoso e bem feito. E eu acho que esse é o foco deles, é aumentar a rejeição ao Lula, porque como você bem disse, é uma batalha de rejeição.

E por acaso tá bem equilibrado, a rejeição do segundo turno tá 50% do Flávio a 49 do Lula. Olha isso, 50 a 49. É algo assim, um vídeo desses de gari, por exemplo, vira o jogo, vira, sabe, 51 a 49 para o outro lado.

AOAlessandra Orofino

Enfim, mas lembrando que a última eleição foi definida por menos de 2 milhões de votos, como a gente gosta, e é possivelmente menos ainda, né?

BTBruno Torturra

Sobre calcificação, gente, eu tenho, tenho os dados, né, que o Felipe Nunes já trouxe, que o Bruno reiterou aqui. Eu tenho uma sensação que é, né, que tá em acordo com esses dados. Quer dizer, os dados corroboram de alguma forma essa sensação, mas queria dividir com vocês para ver o que que vocês acham. A minha sensação é que essa tá sendo uma eleição estranha, é uma eleição que parece que não tá acontecendo muito, é como se não tivesse nada acontecendo, como se não tivesse muita campanha na rua.

Nada acontece informacionalmente, nada reverbera. E a sensação que eu tenho é que, como a gente tá repetindo o conflito dos últimos dois pleitos em alguma medida, né, e a fase das rupturas ela já aconteceu, as pessoas já brigaram. E no Brasil a gente tem isso, a gente sim tem dado, teve um número muito inédito para política brasileira de rupturas, inclusive dentro das próprias famílias, né, em decorrência das disputas eleitorais de 18, 22 e agora ela vai se repetir em 26 em alguma medida.

Então, o momento em que as pessoas estavam dispostas a brigar com o pai, com o tio, com a avó, parar de responder WhatsApp, já passou. E agora, ou essas relações já estão cortadas e esgarçadas, ou as relações voltaram, mas a política não é um assunto que ninguém tá muito disposto a trazer para sua conversa entre os seus, com a sua comunidade, porque o custo é muito alto e tem uma exaustão com a briga política. E acho que é por isso, inclusive, isso ajuda a explicar, pelo menos na minha cabeça, o crescimento do Augusto Cury.

Eu acho que mais do que oferecer uma terceira via ou um outsider ou o que seja, o Augusto Cury, ele encontrou uma maneira social, ele virou na verdade uma maneira socialmente aceitável, é inclusive porque menos raivosa, de manifestar um descontentamento, seja com Lula, seja com Bolsonaro. Quer dizer, É uma forma de você explicitar sua rejeição, e tem rejeição a ambos os candidatos no voto do Augusto Cury, né? Tem gente que votaria talvez mais pelo Flávio ou mais pelo Lula, que tá migrando para ele.

Os dados indicam que é o Flávio que tá perdendo mais do que Lula nesse momento, mas em todo caso tem rejeição a ambos. Mas é uma forma de você explicitar essa rejeição sem que você entre numa briga, porque falar eu sou eleitor do Augusto Cury, eu decidi votar pelo Augusto Cury, é muito diferente. É uma forma de você rejeitar o Lula, mas muito diferente de você falar vou votar no Flávio.

GDGregório Duvivier

Flávio.

BTBruno Torturra

Você não vai brigar com a sua sobrinha mais de esquerda ou, ou sobrinho gay da maneira como você brigaria se você falar, se você expressar a sua rejeição ao Lula falando que você vai votar no Flávio. E da mesma maneira, você não vai brigar com seu pai bolsonarista se você rejeitar o Flávio Bolsonaro falando sobre um voto no Augusto Cury. Ele é um voto que ele pode ser dito, ele pode ser discutido sem que ele crie uma kizumba, sem que ele crie uma briga, uma ruptura, uma conversa difícil.

Então ele virou uma identidade positiva. Eu acho que é por isso que ele é viralizante, e ele é especialmente viralizante no momento em que as pessoas não estão querendo falar de política, elas estão exaustas. Mas falar do Augusto Cury tem um custo social muito menor. Então o que eu tô vendo é um voto que se expressa de uma forma como identificação positiva, para cima, pacificadora, que é toda a linguagem que o Augusto Cury tá usando.

E é por isso que o Renan inclusive não esse lugar, porque o Renan ele oferece uma terceira via a partir da briga com todo mundo. O Augusto Cury, ele tá tentando oferecer uma terceira via a partir da briga com ninguém. Então o Renan, ele vai, ele entra e se apresenta como um candidato que briga com Lula e que briga com Bolsonaro. O Augusto Cury, ele chega e diz: eu não brigo nem com Lula nem com Bolsonaro, eu dialogo com todos, eu quero o melhor da esquerda e o melhor da direita.

É muito diferente, né, como voto. E aí é mais interessante. Não à toa que o Renan perde para o Augusto Cury, que ele perde voto para o Augusto Cury. Ele perde porque o Augusto Cury faz a mesma operação de negar ambos os lados e de alguma forma, ao fazê-lo, também dá o mesmo peso para ambos os lados, como se ambos os lados estivessem, né, proferindo os mesmos absurdos ou tivessem no mesmo espectro de radicalismo assim, só que em direções opostas.

Só que ao fazer isso, o Renan ele faz pela briga com todo mundo e Augusto Cury ele faz pela pacificação. Então ele faz a mesma operação, mas com uma identidade muito mais positiva do que o Renan.

AOAlessandra Orofino

E tem uma coisa parecida com isso que você tá falando, que o Renan faz, que tem a ver com isso, mas é uma coisa ainda mais tensa, que o que ele promete como presidente é uma presidência treteira também. É tipo assim, eu vou seguir no mundo calcificado, só que eu sou o novo polarizador, né? Então não é só uma, é, eu vou tretar, tipo, eu vou para cima da esquerda, eu vou ser o Bukele, eu vou prender todo mundo, eu vou aumentar chamar atenção social da sua família, né?

Isso acho que é verdade. E o Augusto Cury, eu insisto nisso, a gente não pode esquecer, porque a gente não leu Augusto Cury, que ele vende muito, muito, muito, muito, muito, muito livro. E ele é o voto do livro de aeroporto, né, gente, que é o livro que mais vende. Não no aeroporto, que é pouca gente que pega voo, mas, cara, assim, eu vejo alguma pessoa lendo no metrô, eu acho que mais da metade das vezes é algum tipo de livro que representa o universo do Augusto Cury, que não é exatamente só autoajuda, mas é só essa autoajuda que se mistura com performance, carreira, liderança, dinheiro, Jesus, ser um melhor pai, essa coisa de autoaprimoramento individualístico, né, de que em geral é uma É um mexidão de platitudes e de ciência retraduzida de maneira superficial, mas que eu acho que responde a uma coisa que não é pós-política de algum jeito, porque ela é muito política, mas é exatamente dessa pessoa que, como nós, né, gente, assim, vamos falar sério, a gente tá cansado, eu e vocês dois, a gente sabe, a gente tá cansado para caralho de conversa eleitoral. A gente é quem a gente é.

GDGregório Duvivier

E a gente é junkie disso.

AOAlessandra Orofino

Essa eleição também, país que nunca gostou muito de viver nesse ambiente, como é que a situação tá? E acho que o Augusto Cury representa de fato uma mudança, não só na vibe da conversa que tá mais pacificada, mas é uma mudança de assunto quase assim. É uma pessoa que prefere que o presidente venha falar para ela sobre performance pessoal do que, entendeu, a taxa Selic. E aí que educação vira uma platitude, né, e tudo vira platitude.

Mas são platitudes que tem muito boa resposta entre as pessoas. Não acho que ele é uma ameaça, o Augusto Cury, de jeito nenhum, assim, por enquanto, de verdade. Mas eu acho que é a única peça no tabuleiro que mexeu significativamente desde que essa merda, essa campanha começou.

GDGregório Duvivier

Olha, eu gosto dessa leitura, que é dessa ideia que justamente ele vem de uma de uma polarização, uma despolarização por outro caminho. Achei uma ótima leitura. Mas o que mais me surpreende nele, Bruno, é justamente isso, diz, é a platitude em pessoa. Ele parece ser um candidato criado pelo ChatGPT antes da existência do ChatGPT. Ele já é uma inteligência artificial. É bom lembrar disso.

AOAlessandra Orofino

Ele é precursor do ChatGPT, é bom lembrar disso.

GDGregório Duvivier

Visionário que antes da existência da IA já existiam pessoas IA, ou seja, Pessoas que produziam conteúdo de uma maneira rasa e aleatória, mas com um grande alcance, dizendo exatamente aquilo que o leitor quer ouvir. E eu acho que é isso que ele era.

AOAlessandra Orofino

Quando você vê, muito importante, Greg, meio através de, entre aspas, plágio, porque ele não pesquisa, ele não desenvolve, ele não elabora nada. Ele bebe de toda pesquisa, de todo mundo que ele lê, e aí ele transforma isso e uma platitude vazia, mas de alto engajamento emocional.

GDGregório Duvivier

Exatamente.

AOAlessandra Orofino

Que é muito o que IA faz.

GDGregório Duvivier

Exatamente, é isso. É exatamente o que a IA faz.

AOAlessandra Orofino

Mas eu tava pensando nas sabatinas também, que uma das coisas que mais me deixaram perplexo na sabatina é o quanto que elas não importam tanto mais, né? Assim, e não é que não tem gente vendo, Se você vê a audiência do JN, ela permanece estável, assim, é o que ela sempre foi. Mas o que não tem mais é a força, né, que uma sabatina do Jornal Nacional— eu me lembro da do Bolsonaro em 2018 muito mais do que eu lembro do Lula de 26.

Ela tá mais fresca na minha cabeça, ele conversando com o William Bonner, do que o Lula com César Tralli na semana passada. E eu acho que tem a ver com o fenômeno que as campanhas não se dão muito conta porque elas foram construídas em um mundo diferente de análise política e de conquista de voto muito diferente, que a TV aberta é a segunda tela. O celular não é mais a segunda tela. A gente tratava do celular como segunda tela até pouco tempo atrás.

Acho que a gente tem que admitir que a telona é a periferia do nosso consumo audiovisual. E ainda que ele seja muito grande, e ainda que o Big Brother seja grande, ainda que o JN seja muito grande, ele é um acessório para a nossa vida na rede social, para o celular. E eu acho que por isso que o marqueteiro do Augusto Cury é uma pessoa talvez mais relevante mesmo do que os marqueteiros do— certamente do que o marqueteiro do Flávio, porque me parece que ele é um cara criado já nesse ambiente de TV sendo a segunda tela.

E é por isso que as pesquisas qualitativas e quantitativas têm muita dificuldade de entender a movimentação, essa movimentação. E acho que a calcificação talvez passe um pouco por aí também. Tem a questão de identidade, que eu reitero que eu acho que é isso mesmo, muito tempo de polarização cristaliza e calcifica. Mas outra coisa é que os campos políticos não estão sabendo se comunicar para mexer com essa nova psicologia das pessoas também.

E aí você vê um marqueteiro, digamos assim, orgânico desse novo mundo hiperconectado, que não vem do universo do marketing político tradicional, ele consegue uma movimentação de 8 pontos em uma semana, né? Que é assim, é o sonho molhado de qualquer pessoa com fundo partidário gigantesco, coisa que Augusto Cury também não tem. Mas é isso, eu acho que vocês sentem isso, né? Tem a exaustão, mas ninguém fala da sabatina como sabatina forte.

GDGregório Duvivier

Você tem toda razão. Eu acho que isso daí é outra coisa que eu fiquei pensando também, vendo. Não só tem uma desimportância do ao vivo, mas também tem algo que assim, eu fiquei um pouco torcendo para o Lula não ficar amiguinho e brother dos entrevistadores, tá? Porque por um lado é muito importante ter uma certa tranquilidade, por outro pegaria muito mal para ele se ele ficasse como candidato da Globo. Que eu acho que é a pior coisa que um candidato pode ser hoje, para qualquer um dos campos, tá?

Eu acho que é muito ruim para um candidato ser visto como aquele que tenha o apoio do Jornal Nacional, sabe? Então, por um lado, o fato de serem sido duros, eu acho que é bom para ele. E eu acho que até a crescida que ele dá, muita gente leu como sendo ruim, de que ele perdeu um pouco o tom, mas eu acho que de certa forma é bom para as pessoas verem que ele se sente, tá sentindo injustiçado, e foi de fato injustiçado passado por aquela emissora muitas vezes ao longo da sua vida inteira.

Foi 2018, mas foi 2014, mas foi 2010, foi 2002, mas foi 89. Então assim, é uma história longa de injustiças e de perseguições vindo daquela emissora na qual ele tá. Então, se tem um candidato que tem esse lugar de fala garantido, é ele, o lugar mesmo do perseguido pela grande mídia. Então eu, por um lado, acho que era importante ele marcar esse lugar. Isso ele fez para não ser algo que a direita tenta dizer que não, porque a direita é a Globo, é Lula, que é uma coisa que não faz o menor sentido.

Mas aliás, é só aproveitando para falar disso, tem algo que eu sinto que é um lugar que o Lula, que a campanha do Lula ainda não sabe exatamente onde colocá-lo, e que eu tenho uma opinião formada a respeito disso, pode não ser a melhor, mas que assim como eu acho que é bom para imagem dele bater de frente com a Globo e com o Jornal Nacional e ser duro nas respostas e bater de volta, eu também acho que não tem nada melhor para ele do que o embate com o Trump.

Por isso achei uma certa loucura no seu primeiro programa eleitoral aparecer a imagem dele abraçado com Trump.

AOAlessandra Orofino

É uma piração isso, eu não entendi nada.

GDGregório Duvivier

Tem ele com, justiça seja feita, tem ele com Xi Jinping e depois ele com Trump. E eu entendi a mensagem, ele se dá bem com todo mundo. Mas eu não acho que seja o caso de vender que ele se dá bem com todo mundo, porque primeiro não é verdade. Eu espero que não seja verdade, espero que não esteja dando bem com Trump.

AOAlessandra Orofino

E eu acho que não é culpa dele, não é culpa dele, exatamente.

GDGregório Duvivier

Mas a imagem dele abraçado, assim, se a competição foi quem se dá bem melhor com Trump, ele já perdeu. Bateu para começar. Depois, aí o Trump não é exatamente uma pessoa carismática no Brasil profundo, com todos os motivos do mundo. O primeiro deles é a tarifa, mas não só, né? Esse sujeito laranjão todo, ele não funciona aqui no Brasil, a não ser, claro, para as senhoras de Copacabana ou dos jardins que vão a Paulista. Assim, tem gente que gosta dele, óbvio, mas esse voto é uma saída.

Então assim, eu venderia como uma pessoa que bateu de frente com Trump. Inclusive não tem nada mais carismático para qualquer incumbente do mundo do que a perseguição do Trump a ele. Que eu diga o Mark Carney no Carnaval, no Carnaval no Canadá, que eu diga tantos outros presidentes do mundo que cresceram graças a esse embate, que eu diga o próprio Lula, que teve seu auge de popularidade no momento do embate com o próprio Trump.

Então queria também lembrar, a campanha é isso assim. E eu não entendi porque que o Lula nem sequer falou disso, ele não falou de soberania, primeiro, porque é uma palavra-chave. No Jornal Nacional, ele não falou nem de 6 por 1 também, que eu achei que foi um erro, mas deve ter sido um esquecimento, até porque ele tava tentando achar uma brecha. Mas soberania, tiveram várias brechas. Eu acho que isso daí é algo que a gente tem que lembrar o tempo todo, inclusive para nós mesmos, inclusive para militância, inclusive para todo mundo.

Essa é uma eleição em que o Brasil está em jogo e que consequentemente América Latina, soberania do Sul global está em jogo mesmo. A gente nunca teve uma interferência tão clara, tão direta assim, pelo menos não em nossa vida, nossa geração, sabe, dos Estados Unidos no país. A gente viu o que aconteceu na Venezuela, assim, é um país, a gente tá vivendo o momento do mundo em que os Estados Unidos vão lá, sequestram um presidente, botam outro e bola para frente, que bombardeiam escola com criança assim do dia para noite.

BTBruno Torturra

Aliás, só ia lembrar que desde que a gente teve essa conversa semana passada, em que a gente também falou de soberania, O Trump anunciou que o petróleo da Venezuela é um presente do povo venezuelano para os Estados Unidos e que ele vai ser usado para recompor as reservas de petróleo dos Estados Unidos. Quer dizer, é o saque com recibo, né? É o saque se efetuando mesmo e se concretizando diante de todo mundo. Então eu concordo, eu acho que tem uma, uma, tem uma reafirmação da importância da nossa soberania que é fundamental.

Por outro lado, eu acho que parte do carisma do Lula também é esse carisma do olha lá, ele vai, consegue, ele, ele, ele consegue não abaixar a cabeça e ainda assim conquistar o cara em alguma medida, sabe? Não é muito diferente do que o próprio Mandani fez com o Trump, indo lá tirar foto e falar, ó, tô aqui, dialoguei, defendi Nova York. E foi carismático e foi positivo para o Mandani. Então eu Eu não sei, Greg, eu não sei se é tão ruim assim mostrar que ele teve a reunião, que ele apertou a mão, que ele conseguiu o diálogo.

Porque também uma ruptura até do diálogo, ela também gera um medo na população, que é o que que acontece se o Brasil tiver na mira da Casa Branca de verdade, né? O lugar ideal é um nem lá nem cá, é um eu não abaixo a cabeça, não me curvo a todo, eu não sou subserviente como Flávio é, como a família Bolsonaro é, não tô aqui para beijar os pés do imperador, mas eu também não tô aqui para ficar de birra e não conseguir abrir o canal do diálogo, que é importante para o país, né?

Eu ponho o país acima das minhas diferenças pessoais, que eu acho que é o que o Lula tá tentando projetar de imagem nesse momento.

GDGregório Duvivier

É, acho que pode ser.

AOAlessandra Orofino

Com certeza eu imagino que talvez é só uma suposição, talvez eu pensasse assim se eu fosse um marqueteiro. Do próprio Lula, que é meio guardar isso um pouco para o segundo turno, quando ele com o Flávio, a polarização imediata, fazer um indiciamento de que o Flávio é o cachorrinho, de botar essas coisas nos termos geopolíticos. Mas eu te digo, Greg, apesar da gente ter essa clareza da questão de soberania, questão existencial que a gente falou no último programa, as conversas que eu tenho por aí, eu acho que E quando eu tento descrever essa questão do nosso país às vezes virar um quintal vassalo e a gente perder assim décadas e um século de oportunidades e tal, eu sinto que as pessoas têm aquela tipo, acho que não, tipo, sabe?

Quando as coisas são muito grandes para se acreditar, meio que nem mudança climática. Quando você fala o que que o super El Niño pode fazer de verdade, a pessoa fala assim, eu não acho que é tão sério assim. Né? Então tem uma delicadeza que eu acho que a campanha do Lula precisa ter, que é de saber dosar muito bem o espaço de altivez, de soberania, sem entrar num pânico e numa coisa que as pessoas vão achar que é um certo exagero e tudo mais, que eu acho que cabe.

Eu tô nesse pânico, eu acho que é possível um tipo de ruptura, um tipo de intervenção inédito no nosso país, ou muito parecido quando a gente era colônia, colônia real assim. Que é o que a gente já tá vendo. Mas eu acho que para uma comunicação política popular brasileira, falando com um cidadão que não tá acompanhando essas questões, tem uma dosagem muito complexa de saber fazer isso em massa, fora do argumento do tete a tete.

GDGregório Duvivier

Não sei, tem toda razão. Mas nessa batina eu senti falta dele também tocar nessa, sabe, nessa tecla.

AOAlessandra Orofino

O JN não tocou.

BTBruno Torturra

É, mas tocou um pouquinho na sabatina do Flávio, né? Para o Flávio eles perguntam sobre o que o Flávio foi fazer nos Estados Unidos, sobre as tarifas. O Flávio, enfim, ele ensaboneta como ele ensabonetou o tempo inteiro, mas foi isso. Eles fizeram um pouquinho.

GDGregório Duvivier

É porque eu fico pensando historicamente, sabe? Se daqui a 20 anos, não precisa nem ser tanto, vou nem falar 50, mas 10 a 20 anos a gente for ver como é que foi essa sabatina naquele ano de 26, em que tinha guerra, com o princípio talvez de uma guerra mundial e aquecimento global chegando. Como é que será que foi aquela sabatina do Lula contra o Flávio Bolsonaro? Ou seja, do candidato do Trump contra aquele que estava. E aí você vai ver o tema e é Lulinha, e sei lá, sobre os jornalistas do que sobre o Lula, né?

BTBruno Torturra

Com certeza, a gente é obcecado com o prosaico. Não que um escândalo de corrupção seja prosaico, de novo eu reitero que é de interesse público, mas o interesse público tem gradações. E uma coisa que você poderia fazer uma pergunta, eventualmente uma de segmento para dar uma pressionada, mas isso não merece meia sabatina e sobretudo não justifica a ausência de outros temas como esse da soberania.

GDGregório Duvivier

Olha o momento histórico que a gente tá vivendo, não tenho dúvida de que vai ser estudado no futuro, não muito, sabe, não muito distante, como algo um momento muito chave da história mesmo, em que realmente a gente tem um conflito mundial, uma, tá mudando completamente a ordem mundial. E os Estados Unidos estão mostrando esse império decadente, tá mostrando as garras, e mais do que nunca tá interferindo de uma maneira criminosa em outros países soberanos e tal.

Está tendo o Brasil no centro dessa luta, dessa guerra iminente, e a gente tem uma eleição que vai definir E estão falando, meu Deus do céu, não sei nem descrever assim, é difícil de assistir porque é uma picuinha de bobagem assim. E é isso, Lula não falar de soberania, não ser perguntado sobre isso, eu acho muito louco mesmo. Parece que o foco tá em outro lugar, as pessoas estão numa, parece mesmo que é uma eleição de 2014, 2010, sabe, que tinham outras coisas em jogo ali, a corrupção, a Lava Jato, sei lá.

AOAlessandra Orofino

Ela tem menos, menos a temperatura do que quase qualquer uma que eu lembro. Eu lembro da eleição de 2010, foi muito mais quente do que essa. Mas eles são assim muito menos consequentes. Mas isso, Greg, a coisa que mais me envergonha como cidadão, como pessoa no mundo hoje, é imaginar o futuro vendo o que a gente tá fazendo. Certamente a imprensa não tá à altura mesmo do que a gente tava vivendo, mas eu estendo isso para o próprio Lula.

O Lula também não tá à altura do momento que a gente tá vivendo. E a sociedade, francamente, assim, a gente como grande coletividade, como movimento e tal, a gente não tá se dando conta. E eu acho que a gente até se dá conta, mas a gente tá sem instrumento, a gente tá paralisado, a gente não sabe o que fazer. Quem presta atenção também, que é isso, cara. A gente não tá falando sobre IA, que tá no momento assim extremamente intenso e perigoso.

Não sei se vocês estão acompanhando, mas as últimas semanas A coisa tá mudando muito rápido. A questão climática, que para mim deveria ter sido meia sabatina de cada candidato, e foi uma pergunta para o Flávio, na qual ele foi negacionista. Mas enfim, na qual ele foi negacionista. E tipo assim, a gente tá vivendo, a gente tá vendo isso diariamente, assim, desabamento na semana passada, chuva, tempestade no sul, tá acontecendo o nosso inverno aqui na Mantiqueira.

E assim, aí a imprensa certamente não tá à altura. E eu acho mesmo, a questão do É Lulinha, ela pode ser importante, mas ela é muito prosaica, ela é muito pequena para o tamanho da questão que a gente tá passando. E ela está sendo coberta, ela está sendo debatida, e o Lula tem se explicado sobre isso em muitas situações. E o que me irrita do jornalismo, e eu acho que o É Lulinha de algum jeito é a Venezuela da vez, é que eu me lembro do Boulos em 16 candidatando, 2000, não, 2022 candidatando, não sei.

Toda entrevista que ele ia, ele passava um terço da entrevista tendo que falar do Hugo Chávez ou do Maduro. E como a Venezuela, agora o Lula, não convém mais o Lula falar sobre a Venezuela, porque vai ser bom para o Lula falar sobre a Venezuela, agora toda hora que ele senta, as mesmas perguntas vão se empilhar. E isso gera uma exaustão também no público. Assim, é a vigésima vez que o Lula fala que Lulinha tem que ser investigado. Então é, enfim, o meu ponto é: ninguém está à altura do nosso momento.

GDGregório Duvivier

Tem toda razão.

BTBruno Torturra

Sim, ninguém tá à altura do nosso momento. E com isso dito, a gente tem alguma chance de se organizar para estar à altura do momento se a gente não passar os próximos 4 anos tendo que lidar com Flávio Bolsonaro. Então a gente vai precisar dar um jeito nos próximos 60 dias, porque é isso, né? Para mim, a coisa mais importante que aconteceu nessas sabatinas, a mais reveladora de todas, é que tem mais consequência para gente, é de fato essa pergunta, a única pergunta feita sobre mudança climática para o Flávio Bolsonaro.

E ele responde basicamente dizendo que mudanças climáticas são cíclicas, que não tem muita né, não é por causa da ação humana, ele dá a resposta mais negacionista possível. É disso que a gente tá falando. O Lula tá longe de ter feito uma política perfeita no que tange clima, né? Tem, a gente tem críticas que a gente tem feito reiteradamente nos últimos anos enquanto a gente tá aqui no ar. Mas a gente teve uma diminuição expressiva, real, do desflorestamento no Brasil.

Então a gente tá tendo um pouquinho de proteção para as nossas florestas, coisa que tinha sido desmantelada na gestão do Bolsonaro. E a gente tem gente de qualidade, a gente tem gente tecnicamente capaz no governo pensando em clima, pensando em energia, pensa muitas vezes perdendo batalhas, porque a gente tem um ministro de Minas e Energia que é detestável, que é terrível. A gente tem várias outras forças em jogo, mas não é um governo negacionista.

O governo do Flávio seria rigorosamente negacionista. É disso que a gente tá falando, né?

AOAlessandra Orofino

E posso baixar mais o astral? Tem uma coisa que eu fiquei perturbado hoje também pensando. O El Niño vai entrar com tudo em outubro, mas o preço do El Niño a ser pago, as tragédias e a quebra de safra e a seca e os efeitos do El Niño na sociedade, na nossa economia, vão ser a partir do ano que vem. E, cara, ter um Flávio Bolsonaro administrando os efeitos nacionais e internacionais do super El Niño é nível Jair Bolsonaro pandemia.

Tipo assim, sabe, a gente teve o grande azar de ter uma pandemia sob o Jair Bolsonaro. Isso é uma tragédia cósmica, assim, aconteceu, calhou dele ser o presidente. E, cara, a gente tem a chance de voluntariamente empossar o Flávio Bolsonaro para administrar o super-heroinho brasileiro. E os choques econômicos e alimentares que vão advir disso. E eu acho que isso é uma das coisas difíceis de comunicar. Não sei nem se cabe na boca do próprio Lula, mas eu acho que é algo que precisava ser pensado e ser dito mesmo.

Essa semana também fiquei em choque assim de vendo a lista. Claro, não é em choque porque eu não esperava muito mais deles, mas é isso, a lista de banqueiros, empresários poderosos que sentaram para jantar com o Flávio, o quê, 4, 5 dias atrás. Presidente do Bradesco e não sei o quê. Para mim é uma coisa assim, falando em falta de altivez histórica, né, de como é que as pessoas sentam com ele, é mesmo, né, de não ter essa dimensão assim do impacto econômico e social que isso vai representar em momentos de crise.

GDGregório Duvivier

É mesmo, isso para mim é o mais louco assim, aquela ideia da lata de lixo da história, né. Ah, Bolsonaro vai, foi parar na lata de lixo da história. Os donos de banco estão frequentando essa lata de lixo sem nenhum tipo de vergonha.

AOAlessandra Orofino

Eles vivem. A história é um aterro sanitário, ela não é uma lata de lixo, pessoal. Ela é, a história é um grande, né, é um grande aterro sanitário a céu aberto.

GDGregório Duvivier

É muito louco, não tem custo nenhum a pessoa ter apoiado o Bolsonaro na pandemia. Isso é muito louco, e seguir apoiando, né? Mas me diz, nossa, passamos muito do tempo já. Vocês querem indicar algum livro ou não? Então de boa.

BTBruno Torturra

Eu tenho, eu fiquei pensando sobre Augusto Cury, fiquei com hiperfoco também, que nem você, Greg. E aí lembrei de um livrinho brasileiro dos anos 90, que eu li há muito tempo atrás. Eu tava na faculdade, que eu tava muito interessada em questões justamente de comunicação de massa. Eu acho que tá esgotado, mas eu vi que tem na Estante Virtual, se alguém quiser comprar e ler. Se chama Literatura de Autoajuda e Individualismo, do Francisco Rüdiger.

Ele é professor de comunicação, ele não é psicanalista, ele não vem, né, da psicologia tampouco. E ele trata autoajuda não como só livro ruim assim, ele não faz uma análise de qualidade necessariamente, mas ele, ele entende a autoajuda como um gênero que tem uma história, né? E aí ele vai traçando esse gênero desde a época vitoriana até hoje. Então ele faz essa genealogia da autoajuda. É claro que o livro é dos anos 90, então ele não pegou os coaches, a internet, os infoprodutos, as lives, ele não pegou esse fenômeno que é é o fenômeno mais marcial.

Mas eu sinto que o curi, ele é mais um produto justamente do caldo cultural de autoajuda dos anos 90 do que do caldo cultural de autoajuda dos anos 2020. Então acho que tem alguma coisa nesse livro que pode nos ajudar a entender o lugar afetivo assim que o curi ocupa. E tem uns dois outros livros aí em inglês que também falam do assunto. Um é o Brainwashed, que saiu em 2013, e é menos sobre autoajuda e é mais sobre Eles chamam de neurocentrismo, que é essa ideia de que uma explicação fica mais verdadeira ou ela fica mais convincente porque ela foi dita num vocabulário que é meio cientificizante, fala de cérebro, de neurologia.

Então você fala de qualquer coisa, enfia uma neurologia no meio, o povo se convence. Então Brain mostra, por isso que é Brain, né, é uma brincadeira com a palavra brain, cérebro, fala sobre isso. E tem um terceiro livro que tem tradução para o português, e que a gente inclusive leu no Clube de Cultura do Calma no ano passado, que é o Rapcracia, que também fala do fenômeno da autoajuda, que também fala dessa indústria da autoajuda.

Então essas três obras acho que podem nos ajudar a entender o fenômeno Augusto Cury, para quem tiver interessado.

GDGregório Duvivier

Perfeito. Eu vou falar de um livro que eu não li ainda, mas acabou de chegar, que é o André Singer, Impasse. E o André Singer é um cara espetacular, escreveu vários livros muito bons, inclusive sobre o lulismo, um grande estudioso do fenômeno Lula e do que ele chama de lulismo e tal. Foi porta-voz do governo Lula de 2003 a 2010, acho. Mas é, além disso, um estudioso também, um estudioso que participou, então que sabe muito, que entende o lulismo de dentro assim, e fala muito bem, escreve muito bem sempre sobre o Lula, e mais que isso, sobre tudo que o cerca.

E esse livro me parece ser sobre exatamente tudo isso que a gente falou assim, o impasse diante da onda reacionária. Ou seja, o que é feito, como criar essa nova hegemonia necessária para derrotar essa onda reacionária que tá mais forte do que nunca. Porque eu acho assim que ela tá mais forte hoje do que em 2018, 22 nem se fala, mas do que 18 a gente tá realmente vendo mais que uma onda, um tsunami reacionário no mundo inteiro.

Então é isso, me parece ser bem útil esse livro, vou ler semana que vem, a gente conversa sobre ele.

AOAlessandra Orofino

Bruno, Quer falar alguma coisa, gente? Me desculpa que tá um barulhão de chuva, tá caindo um temporal aqui. Então vamos ver se a internet aguenta. Eu quero recomendar um livro novo, eu espero que saia no Brasil em breve, eu acho que vai sair porque os dois primeiros livros desse cara já foram publicados aqui, que é The History of Birds, A História dos Pássaros. Quem escreveu esse livro é o Steve Ebrusati, e ele talvez seja o último livro de uma trilogia incrível que ele escreveu.

Eu acho ele um dos melhores divulgadores científicos em atividade hoje. Ele é um paleontólogo e um biólogo evolutivo, e ele escreveu dois livros incríveis que tem em português. O primeiro deles é A Ascensão e Queda dos Dinossauros, que é o melhor livro sobre o que aconteceu com os dinossauros e quem são eles. A Ascensão dos Mamíferos que é um livro lindo também sobre como a gente aparece no final dessa história. Então é Obrigado, Asteroide.

E A História dos Pássaros, que ele acabou de publicar, é um livro lindo que são os dinossauros que sobrevivem não só ao próprio meteoro, mas conquistam o planeta inteiro exatamente na hora em que os mamíferos têm espaço para se desenvolver e para evoluir. É um livro lindo, maravilhoso. É sempre um livro muito aflitivo, esses livros são sempre muito aflitivos de você ler em tempos de extinção. Mas para quem gosta de pássaro e quem gosta de histórias biológicas muito bem narradas, ele puxa para exemplos pessoais, para outros artistas.

É uma leitura bem fácil e bem aprofundada para quem gosta de estar vivo no planeta. Recomendo muito, Steve Brussatte.

GDGregório Duvivier

Perfeito, muito obrigado, Bruno. Obrigado, Alessandra. E obrigado você que tá assistindo. Um abraço para vocês, foi o Calma Urgente, e boa semana para todos.

BTBruno Torturra

Boa semana, gente, obrigada, queridos.

AOAlessandra Orofino

Beijo, turma.

BTBruno Torturra

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção temos Carolina Foratini Greja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Veronica Costa. Na pesquisa e roteiro, Luiza Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoue. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.

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