Episódios de Calma Urgente

O Brasil Pós-Globo

20 de julho de 20261h32min
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Como a CazéTV, os vídeos de IA e o fim da fogueira da aldeia mexem com nossa ideia de país.

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O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo

Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez

Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_

Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Na Edição de Cortes, Julia Leite

Nas Redes Sociais Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Identidade visual, Pedro Inoue

Participantes neste episódio2
A

Alessandra Orofino

Host
G

Gregório Duvivier

HostComediante
Assuntos9
  • Esquemas mentais e religiãoSuspensão da descrença · Religião como faz de conta · Crença factual vs. crença religiosa · Marcador de identidade de grupo
  • Disputa de narrativas com videos de IAVideoclipes e projetos futuros · Fim da diferença entre IA e realidade · Comerciais da Casé TV feitos por IA · Vídeos de IA do Lula no TikTok
  • O fim da fogueira da aldeiaPerda de fenômenos midiáticos unificadores · Halftime show do Super Bowl · Americanização da Copa do Mundo · Pausa hidratação com publicidade
  • Política prevalecendo sobre futebolSeleção Argentina e Copa do Mundo · Seleção Espanhola · Marco Rubio · Conflito Israel-Palestina
  • Cobertura midiática e dissonância cognitiva ocidentalPerda do monopólio da Globo · Cazé TV · Mosaico de informações sem compromisso jornalístico · Consumo de produtos que refletem subjetividade
  • Futebol e emoçõesJogadores brasileiros e falta de heróis · Lamine Yamal e Nico Williams · Trajetória de imigrantes
  • Interações sociaisFutebol como pretexto para conversas · Carnaval e desfiles de escolas de samba · Novelas brasileiras e sua perda de protagonismo
  • Opinião sobre apostas esportivasApostas na Casé TV com delay · Cultura de hackear o sistema · Aposta como forma de comunidade · Perversão da torcida
  • Uso de Espacos PublicosJogar bola na praia · Lei orgânica do município do Rio · Apropriação do espaço público
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GDGregório Duvivier

Olá, boa tarde, boa noite! Aqui é Gregório do Vivier e esse é o Calma Urgente. Hoje é segunda-feira, dia 20 de julho de 2026. Eu queria chamar aqui Alessandra Orofino.

AOAlessandra Orofino

Oi, Greg!

GDGregório Duvivier

Como é que tá?

AOAlessandra Orofino

Semana passada só com o Bruno, essa semana só com você. A gente tá aqui revezando nesse mês de julho.

GDGregório Duvivier

Exatamente, estamos, estamos. Adorei ouvir vocês semana passada. Eu tô viajando, tô aqui em turnê, como você sabe, mas explicando às pessoas que eu estou no Piauí. Por isso vocês não estão reconhecendo aqui talvez esse fundo. Eu estou no Piauí, em Teresina, onde faço peça hoje mais tarde, pela primeira vez aqui. E vindo do Maranhão, aliás, semana passada, onde eu vi a final. Aliás, não, já vi no Piauí a final ontem. Você deve ter visto também.

Você veio em casa? É porque o Miguel, seu marido, é meio espanhol, não é? Então você deve ter torcido especialmente para Espanha.

AOAlessandra Orofino

A minha sogra, que é espanhola, tava aqui com meu sogro, com a minha cunhada. A gente fez uma final espanhola em casa, torcemos bastante, foi divertido.

GDGregório Duvivier

Delícia!

AOAlessandra Orofino

Eu tava no Piauí também torcendo muito. Torcendo pela Espanha também.

GDGregório Duvivier

Todo mundo no Piauí é Espanha, nunca vi a Espanha, a seleção da Espanha aqui tava assim 90%, 99%. Não vi ninguém, eu não vi nenhuma Argentina não. Acho que até tem um outro torcedor da Argentina assim Rio-São Paulo, mas aqui eu não vi nenhum não. E é impressionante como a Argentina, que eu não sou, pelo amor de Deus, antes mais nada deixar bem claro que eu sou um argentinófilo de modo geral assim da cultura argentina, sou apaixonado de Borges, Acortázar, ao tango, ao Piazzolla, poderia ficar um dia inteiro falando.

Então não vou, não cai nesse papo idiota de que a Argentina é, é que idiota, Argentina é malandro. Não, adoro argentino, mas essa seleção aí, obviamente seleção antigamente também amo, Maradona e tal, Essa seleção vestiu lindamente o papel de vilões da Copa, não é assim, cara? Em todos os aspectos possíveis, não é? De favorecimento da arbitragem o tempo inteiro, a catimba, a briga. Os cara brigam quando perdem, perderam, aí vai lá provocar, bate, grita.

É uma coisa horrorosa. O Messi, você viu um detalhe do cara, o Cucurella, que aliás é provavelmente um dos grandes astros dessa Copa, é o Cucurella. Puta lateral, puta jogador, e uma simpatia. Aliás, tem uma história linda da relação dele com o filho, já chorei, que o filho dele é autista e ele é um paizão. Aquele cara incrível, provando que é possível ser um jogador de futebol legal, isso existe. A gente no Brasil se acostumou muito mal, né?

E o Cucurella é um desses caras. E o Cucurella foi avisar porque que o jogo tava parado, ele foi falar para o Messi assim: o cara machucou a boca, ele faz assim. E tem a Lei Vini Júnior, diz que a pessoa não pode gritar, não pode xingar outro jogador assim, porque a chance é muito grande de ser racismo. Então você ganha um cartão amarelo, você xingar o jogador assim, você é expulso. É um cartão vermelho, você é expulso, claro.

Puta Lei Vini Júnior incrível, tal, contra o racismo, diminuiu o racismo em campo e tal. O Messi vê ele fazendo assim, mostrando a boca, obviamente o cara machucou a boca, ele ainda faz assim, ó, e o Messi vai para o juiz dizer que ele tá sendo racista, que ele tá fazendo assim, era uma falta de caráter mesmo essa cena. Desculpa tá narrando, eu sei que muita gente viu, tá, todo mundo deve ter visto. Só tô narrando caso você não tenha visto por algum acaso, para dizer que assim, essa relação, essa seleção da Argentina foi para mim talvez das seleções mais odiosas que já passaram.

Até, até o Messi, que é queridinho de muita gente, assim, falta mesmo de, de de carisma total. Por isso, cara, uma quantidade junto com o Trump torcendo para eles, junto com assim, é um combo muito grande de vilanias. Então eu que em geral adoro Argentina, nessa Copa, pelo amor de Deus, torci muito também, confesso. Um perdão aos amigos argentinos. Minha filha, minha filha tava torcendo para Argentina, falou assim, pai, você tem que torcer para o Sul Global.

Detalhe, ela tem 8 anos de idade. Você tem que torcer para o Sul global. Eu acho que a Giovanna talvez tenha ensinado essa expressão, se é possível. E eu entendo o ponto dela, eu entendo. Mas a verdade é que futebol não é só política, né? E tem outras coisas em questão. E ali eu entendo que a Argentina, até, nossa, são nossos irmãos, estão aqui do lado, né? Mas, cara, aquela seleção, pelo amor de Deus, não dá.

AOAlessandra Orofino

Mas não é só política, mas parte também da sua razão, é da sua relação com essa seleção argentina, não é só porque foi um futebol feio, truculento e muito catimbeiro, mas é também político, né? É o Trump apoiando, é a relação com Israel. Então assim, parte do que a gente queria trazer hoje inclusive para o programa é isso, né? Como essa Copa de alguma forma ela explicitou um fenômeno que não é específico da Copa, mas que foi explicitado durante a Copa, que é essa politização das relações e da nossa relação com tudo, do futebol ao dia a dia.

Vou dar um exemplo do meu cotidiano, que eu acho que talvez você se identifique, Greg. Eu vou à praia muito, né, moro no Rio de Janeiro, então frequento a praia no final de semana com as crianças. E vou sempre com criança pequena, tem uma filha de 1 ano e pouco, tem uma outra de 7, tô sempre com outros pais com criança. Então A minha praia em geral é um monte de bebês às 7:30 da manhã. Esse é o meu contexto de praia. E aí volta e meia tem alguém que chega pra jogar bola, altinha, que é uma coisa bem carioca também, mas jogar bola na praia.

E a rigor, a lei orgânica do município do Rio proíbe altinha na beira do mar. Você tem que jogar bola, qualquer esporte com bola, você tem que jogar perto do calçadão, que é justamente pra evitar acidente. Perto do mar você tem ali gente passando, caminhando, é outra relação, né? Mas isso não é muito respeitado no Rio, joga-se bola em qualquer lugar. E é muito comum que a pessoa que venha jogar bola não esteja nem aí para o fato de que tem um monte de criança do lado e começa a jogar uma bola meio agressiva, e meio uma relação com o espaço público que é meio de apropriação desse espaço, de você não saber conviver com outro, de você não respeitar a vulnerabilidade também.

Tem um ser que é mais frágil, que é uma criança pequena, você não vai jogar uma bola forte. Então assim, uma coisa que seria um, digamos, um conflito típico de você navegar um espaço público que é usado em conjunto, que é uma coisa que acontece todos os dias, né? De como é que você vai estacionar um carro, de como é que você vai entrar no ônibus, de como é que você vai negociar o espaço no metrô. É normal quando você compartilha uma cidade que existam conflitos e que esses conflitos às vezes escalem, que as pessoas fiquem chateadas, porque o convívio é difícil.

Ele é difícil numa família e ele é difícil em sociedade. Mas de alguma maneira eu, na minha cabeça, politizei. E não é que eu explicite isso quando eu tô no conflito, mas de alguma forma eu projeto na pessoa que não tem respeito ao outro num contexto de espaço público, eu projeto motivações políticas que não necessariamente ela tem, entendeu? Eu já fico assim: esse bolsonarista jogando essa bola em cima desse bebê, tipo, não necessariamente é o caso.

GDGregório Duvivier

Perfeito, eu também, Lilia.

AOAlessandra Orofino

Mas eu projeto. É isso, é isso aí, essa energia.

GDGregório Duvivier

E eu sei que eu vou ser xingado por pessoas porque eu concordo totalmente com você. Parte de uma coisa chata que ficou no final da Copa foram as pessoas também agindo como se torcer para Argentina ou para Espanha fosse muito sério, sabe? Como se fosse— eu vi pronunciamentos explicando por que torço para Argentina, é, ou eles não são mais— aí começou a discussão sobre se eles são mais racistas do que o Brasil ou não, ou mais racistas que os espanhóis.

Ou seja, é para torcer menos racismo, mas qual que é o menos? Que um é colonizador, o outro é. E o tempo que você gastou na internet para se debater qual era o lado certo dessa questão, eu acho muito deprimente. Porque, gente, o Brasil foi eliminado, e a vantagem disso, tem uma vantagem nisso, é o fato de que foda-se, todo respeito, né? Assim, então o brasileiro, na falta de assunto, ele começou a brigar por causa de Argentina e Espanha. Olha que deprimente.

AOAlessandra Orofino

Mas eu também, eu projetei as piores coisas da seleção da Argentina, o que evidentemente isso também não é justo, porque se a gente for julgar o caráter de uma nação pela performance em campo dos jogadores, o Brasil, coitado, tá, né, em campo e fora dele, tá em más lençóis. Mas é óbvio que a gente vai enxergar no futebol, e sempre enxergou, isso não é novo, né, uma dramatização de conflitos que existem fora do futebol. E acho que nesse caso quem tava do lado da Espanha projetou em grande medida uma dramatização desse conflito também entre a individualidade e o coletivo, né?

Espanha tava com uma seleção muito voltada para o jogo de time mesmo, com as estrelas não eram muito, não eram centrais. O próprio Amal, que é a estrela em tese do time, não também não tava jogando nesse nível, não era, ele não era um dos protagonistas dessa Copa dos Protagonistas, para usar o termo que a Casé TV enfiou goela abaixo do Brasil.

GDGregório Duvivier

Então vai falar disso também. Precisamos. Copa dos protagonistas.

AOAlessandra Orofino

Ele não era, e o Messi claramente era. Então você tinha, né, então você poderia projetar muita coisa. Teve gente que projetou nesse conflito uma dramatização do conflito Israel-Palestina, porque o Yamal defendeu a Palestina em alguns momentos, e a Argentina, né, a própria torcida argentina trouxe bandeiras de Israel em vários momentos, e o Milei tem. Mas é claro, é, a gente tá de alguma forma encontrando espelhos para a gente poder transformar esses espelhos em dramatizações dos conflitos que nos interessam.

Mas o que eu acho curioso é que a gente precise que essa dramatização ela seja da política, porque a gente sempre fez isso com outras coisas, as rivalidades entre vizinhos, as próprias rivalidades futebolísticas, as diferenças culturais, né? Tem várias maneiras de você, a própria, né, em alguma medida, o esporte, ele, ele é a Copa do Mundo, as Olimpíadas também são uma maneira de você encenar a própria guerra, né, sem necessidade de violência.

Então tem, tem tudo isso. Isso não é novo, mas eu acho curioso que para o brasileiro poder se divertir com uma Copa na qual ele não tinha mais nada a perder nem a ganhar, porque a gente foi eliminado, a gente precisou atribuir dos dois lados. Porque do lado de quem tava torcendo pela Argentina também era isso, era o Sul Global, era os países da América do Sul se insurgindo contra os seus colonizadores.

GDGregório Duvivier

E o Trump e o Marco Rubio estavam torcendo para Argentina também por motivos políticos. Não é porque eles gostam do futebol da Argentina. Então tava todo mundo nessa pela política.

AOAlessandra Orofino

É muito bom, mas no caso do Trump e do Marco Rubio, porque eles têm de fato cálculos políticos a fazer. No caso do torcedor, o que eu achei mais curioso é que é quase como se para poder se divertir com o jogo, ou seja, você só se diverte de verdade com o jogo, você só consegue torcer por um jogo, por um time, se você atribui algum significado àquilo. Se você tá totalmente indiferente, o jogo é muito menos divertido. Jogo divertido é jogo no qual você tem lado, né, em que você torce por alguém.

Eu achei curioso que a gente precisou atribuir um significado político, porque a gente poderia ter atribuído outros, entendeu? A gente poderia falar: não, eu não quero que a Argentina ganhe porque eu não quero que a Argentina tenha 4 Copas, porque vai encostar demais no Brasil. A gente poderia ter deixado no terreno da rivalidade futebolística. De alguma forma, a gente achou necessário politizar para se importar, e eu acho isso novo.

E de alguma forma, o fenômeno contrário também é real. A gente também tem tido uma relação com a política que é mais parecida com a relação que a gente tem com torcida de futebol. Então existe uma futebolização da política, uma politização do futebol. E no geral, acho que tem uma politização dos conflitos que é típico de sociedades mais polarizadas, apesar da gente não gostar muito do termo, né? Em que qualquer diferença entre você e o outro você vai ler politicamente.

Então esse menino na praia que jogou a bola na cabeça da minha filha, ele é assim quase um exemplo da machosfera. Ele com certeza é um eleitor de Flávio. Não é verdade, mas é o projeto, entende?

GDGregório Duvivier

Eu entendo você, eu entendo você. Aliás, vendo o jogo ontem, uma das coisas que mais me dá inveja, além do futebol da Espanha, é também a qualidade heroica de alguns jogadores, que é algo que eu acho que falta muito no Brasil também. A gente fala muito de qualidade de futebol, que é coisa que falta com certeza, Mas também falta herói. Que eu quero dizer com herói? Uma pessoa que entenda que a missão dele é maior do que ele mesmo, entende?

Algo que entenda o romantismo. Uma das definições do romantismo é essa, né? Acho que é do Teixeira de Paschois, que define o romantismo como a ideia de que existe algo maior do que a vida. A ideia de que esse algo pode ser o seu país. Aí você entra no romantismo patriótico. Pode ser o amor, onde entra um romantismo mesmo, é romântico, lírico, não é? Você pode entrar no romantismo é da guerra. Você acha que tem vários tipos de romantismos assim.

Você pode ser sempre imaginar que tem algo maior do que a vida. Essa abstração é o romantismo. E os jogadores de futebol brasileiros são muito pouco românticos nesse sentido, são muito pouco heroicos. Eles estão ali jogando uma partida. Isso se vê nas entrevistas. Não tem nenhum jogador de futebol brasileiro que dê uma entrevista que preste. Atenção, eu não quero que os caras digam viva Palestina, abracem, digam. Não, não é isso, não quero tanto.

Claro que eu adoraria, mas obviamente eu não tô indo tão longe. Eu tô dizendo alguém que diga algo bonito ou interessante ou relevante. É um exemplo: Lamine Amal perguntado sobre é muita pressão você jogar um final de uma Copa tendo 19 anos? Que que um jogador brasileiro responderia? Ah, muita pressão, mas graças a Deus tô confiando no trabalho do nosso técnico para levantar os troféus, levar taça para casa, graças a Deus. Pronto, ele respondeu a platitude dita por um transformador, um ChatGPT humano, que são jogadores de futebol da seleção brasileira.

Lamini Amal simplesmente falou: pressão? Não, pressão tinha minha mãe quando engravidou com 16 anos, ou meu pai quando tinha que trazer comida para casa e pegar comida na rua para trazer para casa com filho pequeno com 17 anos de idade. Eu não, ele disse, eu só tenho que jogar bola. Por um lado, ele tá diminuindo a missão dele, então é o contrário de um romantismo dizer que ele é um herói, que ele é o máximo. Mas por outro lado, ele tá entendendo que ele está falando em nome de milhões de pessoas, que ele tem algo a dizer, que a trajetória dele é relevante, está homenageando pessoas, está trazendo a mãe, o pai, uma ancestralidade.

Quando ele vai falar de Palestina também não é porque ele é de esquerda e tá querendo se enturmar, não, é porque tá falando de uma ancestralidade árabe, ele tá falando do pai, da mãe, dos avós, dos primos, entendeu? Ele tá, ele tem uma relação com a terra. Ter uma relação com o país, com a cultura, que é uma coisa que o jogador brasileiro, amigo, não tem nenhum que diga que tenha algo a dizer. Ah não, aí vou falar o Danilo. Danilo é um psicólogo, fala, desculpa, fala platitudes sobre psicanálise.

É porque o mental, psicológico do jogador, assim, umas besteiras. Não tem, ele não fala uma coisa que interesse. Feito o outro também, o outro, o maravilhoso Nico Williams, também foi lá e deu a medalha para mãe também. Porque falou, não, eu posso correr Mas minha mãe correu muito mais quando teve que atravessar o deserto do Saara refugiada. Cara, são coisas que arrepiam, que fazem você torcer ainda mais por um país. E algo que eu acho que o Brasil não tem há muito tempo agora, não sei nem desde quando, mas desde Sócrates, não sei, né? Pessoas que eu digo tem algo a dizer.

AOAlessandra Orofino

É mais do que isso, né? Porque não é só que você torce mais pelo país, mas o que esses jogadores de futebol estão fazendo, e acho que instintivamente eles entenderam, É que ao contar a história deles próprios, quando o Yamal fala da mãe e do pai imigrantes que batalharam pra ele estar ali, ou quando o Nico Williams faz essa declaração, eles também estão contando a história do país que eles representam. Então eles também estão situando a Espanha como um país de imigrantes e desses imigrantes.

E ao fazer isso no momento em que a Espanha tá comemorando uma vitória que é intimamente ligada com os símbolos nacionais, é a bandeira, são as cores, é a defesa da pátria, eles estão de alguma forma investindo essa pátria de um significado que é o significado que interessa a eles. E esses momentos de atenção nacional e internacional, no caso da Copa, né, muito pouco dividida, em que tá todo mundo vendo a mesma coisa, todo mundo com a sua atenção ligada no mesmo evento, eles são cada vez mais raros.

Acho que a gente pode falar um pouquinho disso também. Mas justamente porque eles são raros, eles são muito preciosos e eles são muito formativos da identidade nacional. Então uma final de Copa do Mundo, ela realmente contribui para criação de um imaginário nacional em quem assiste. Tanto os cidadãos daquele país que estão ali torcendo, investidos emocionalmente, quanto os cidadãos de outros países que estão assistindo como a plateia.

E a partir daquilo que eles veem, eles estão entendendo aquele país também. É como você se projeta para o mundo. Então acho que o que o Yamal faz, o que o Nico Williams faz, o que ambos fazem é profundamente político nesse sentido. O Ferran Torres também fez um pouquinho menos, né? O que fez o gol, que quando ele é logo depois da TVE, que é a televisão mais importante da Espanha, né? Ou entrevista, e ele fala, não, esse gol não foi meu, nem desse aqui, peria de 46 milhões de espanhóis, que é o básico, é meio platitude também, mas já é alguma coisa, já é você transferir o épico para o espaço da coletividade e não deixar como uma coisa pessoal.

GDGregório Duvivier

E foi o que mais me incomodou no Neymar no final do jogo, quando ele vai lá, bate o pênalti, faz o gol e vai para o— e fala assim, comigo não? O que ele tá dizendo basicamente assim: eu não teria perdido aquele pênalti anterior, eu sou melhor do que os jogadores do meu time. O que ele tá dizendo é basicamente isso. Eu sou melhor do que, não do que o outro time, eu sou melhor do que eles. Eu não sou esse otário que perdeu o pênalti, não. O que ele tá dizendo é isso.

AOAlessandra Orofino

O mínimo, né? Exatamente, Greg. E você viu o vídeo que o Nicolas Ferreira fez logo na sequência da derrota do Brasil?

GDGregório Duvivier

Não.

AOAlessandra Orofino

Ele faz um vídeo, acho que ainda logo depois de ver, né, o jogo. Ele ainda tá tipo com camisa do Brasil, assim, num climinha meio pós-jogo. E ele vai falar, ele diz isso que você tá dizendo que o Neymar deixou implícito. O Nicolas faz um vídeo dizendo o que teria acontecido se o Neymar tivesse sido colocado desde o primeiro tempo, tivesse sido ele a bater aquele pênalti. Esse é o questionamento. E ele é um vídeo muito curto e ele termina dizendo, ah, eu só queria dizer que, sei lá, fora Lula, ou foda-se o Lula, ou alguma coisa sobre o Lula.

É que também é uma conexão que ele não desenha muito bem. Ah, o jogador de home office foi o único que trouxe para si. É, ele tá atribuindo significado político. No fundo, ele quer dizer que a derrota do Brasil é uma derrota do Lula. É, mas é curioso porque como ele abre o vídeo dizendo, se o Neymar tivesse entrado desde o início, ele teria decidido de outra maneira. Não é só um campo político que ele quer colar na derrota, o que é muito comum, né, em derrotas nacionais assim.

É também uma série de valores. E são esses valores do individualismo. E aí que realmente a melhor chave de leitura para entender extrema-direita hoje no Brasil é o hiperindividualismo, né? É a fé no hiperindivíduo. E me preocupa muito quando eu vejo a esquerda e pessoas que se dizem de esquerda e o campo mais progressista padecendo do mesmo mal, porque aí eu acho que eles ganham culturalmente, mesmo que eles não ganhem na urna, sabe?

Por exemplo, tratar o Lula como um Neymar, uma espécie de craque em campo, eu acho profundamente desrespeitoso, inclusive com a trajetória do Lula, que é produto de movimento social, que é produto da luta coletiva e que ao mesmo tempo a potencializa e a torna muito mais importante, porque ele é uma liderança extraordinária, mas também é produto dela, sabe? Essa relação com o ídolo, acho ela De novo, nada disso é novo. O ídolo sempre existiu, a liderança política que cria comoção também sempre existiu.

Mas existe uma fetichização extrema desse personagem, a ponto da gente resumir uma Copa do Mundo, que sempre foi um duelo entre nações, uma disputa entre nações que culmina num duelo na final, como um duelo entre pessoas, entre os craques. O cartaz da Casé TV, digamos, a arte que a Casé TV usou para chamar para a final, era o Yamal e o Messi, com os dizeres: por quem você vai torcer? E não se trata disso, certo? Não se trata realmente, não se trata disso.

GDGregório Duvivier

Essa história da Copa dos Protagonistas eu acho que diz muito mesmo sobre esse tipo de pensamento. Muito bem lembrado ali. O jogo visto pela Casé TV era um embate sempre de um herói contra o outro, fosse o Mbappé e o Kane. Quem viu Inglaterra e França foi assim. Ou se tudo era focando para provar o quê? A excepcionalidade de um jogador. Então Messi é o alienígena, eles só chamavam Messi assim, de alienígena, né? Tem algo meio divino, uma construção divina e narcísica, aquilo que eu acho que cria muito ruim para criança, para adolescente que tá vendo, que vai pensar que o que ganha é o que ganha de futebol.

AOAlessandra Orofino

E é também um reflexo da cultura adolescente que já existe hoje, porque o Casé TV tem uma coisa meio adolescente no seu, totalmente na sua linguagem.

GDGregório Duvivier

É, tem, tem muito. E eu acho que, aliás, uma coisa que eu acho que vai ficar para essa Copa em termos de imagem é um vídeo que foi dos mais vistos da Copa, mas não é, não se passa no gramado. Um dos vídeos mais vistos dessa Copa tem 300 milhões de visualizações, pelo que eu tô vendo aqui, em 15 dias. Foi um vídeo feito por IA do Neymar do futuro. Você deve ter visto isso. Caso você não tenha visto, vou resumir apenas. É um vídeo de IA no qual o Neymar encontra sua versão criança e vai falar para essa versão criança que ele virou um jogador, um grande jogador de futebol.

E essa versão criança vira para ele e fala: uau, você virou um grande jogador de futebol e você já ganhou Copa do Mundo! Quantas copas você ganhou? Diz o Neymar criança. Aliás, o Chico Barney falou coisa engraçada. Neymar criança era um cuzão, né? Ele fala, virei jogador de futebol. E o criança pergunta, quantas Copas você ganhou? Calma aí, moleque, não é assim não. O moleque e o Neymar grande fala assim, pois é, ainda não ganhamos nenhuma, mas ganhamos muitos títulos e ganhamos muitas coisas.

Só a Copa que ficou faltando. Nisso chega um carrão que eu não sei qual é, do qual sai um Neymar de terno que é o Neymar de 2030 com uma Copa na mão, sabe, uma taça na mão. E aí o garoto que não viu a taça nem o Neymar de 2026 pergunta: mesmo assim você quer que eu continue? Mesmo mais uma Copa? Quer que eu jogue mais uma Copa? Quer? E o menino fala: quero. Aí você entende que o Neymar ganhou a Copa porque ele, menino, falou para ele continuar jogando.

Enfim, é uma, é uma coisa super óbvia, lacrimogênea. Você vê, a partir do momento que você vê um carro chegando, você já entende que vai ser o Neymar de 2030. Qualquer pessoa entende. Quando eu vi, eu achei que fosse uma piada, O Neymar tá falando inglês com uma voz grossa que não é a voz dele. É uma quantidade gigantesca de bizarrices. É copiado dos Vingadores, parece que essa é a cena final de um filme dos Vingadores, até na estética e tal é bem Vingadores.

Tem uma, pra gente que não é neymarzista, não é do clube do menino Ney, a gente simplesmente acha engraçado ou ridículo ou doloroso. Só que você vai ver todos os comentários, as pessoas estão aos prantos. Nunca chorei tanto vendo um vídeo, as pessoas falam, tá? Esse é o vídeo mais bonito que alguém já fez. Que emoção! E assim, é muito louco, é muito louco, porque eu acho que mostra um abismo cognitivo mesmo, mostra um abismo assim, né, tão grande que eu não saberia descrever.

O que que faz uma pessoa ver esse mesmo vídeo do Neymar e se emocionar e achar algo, o vídeo mais bonito que já viu, e chorar, é algo que acho que a gente mora mesmo em outro lugar. Matheus Sodré falou muito bem disso. Sigam ele, aliás, que ele faz vídeos ótimos. Sodré Mata, Matheus Sodré no Instagram. E o Matheus, que ele tá dizendo, que eu acho interessante, assim, acabou a diferença para a maioria das pessoas entre a IA e a realidade.

Porque esse vídeo do Neymar da IA, primeira coisa você vê é meu, e que coisa esquisita, Que tom estranho, essa não é a voz dele, ele não fala assim. A gente que não tá tão acostumado ao conteúdo de IA, graças a Deus, vai ter um estranhamento que vai impedir a gente de se emocionar, de entrar na história. Mas a maioria das pessoas, ao que parece, não, não mesmo. Acabou a diferença. Os comerciais da Casé TV são quase todos de IA.

Não sei se vocês perceberam, só na Casé TV especialmente os comerciais são todos de BAT. Claro, todos ou quase todos são feitos por IA. Então é o Vini Júnior de monge, sei lá, com barbão branco no alto de uma montanha. Tudo é IA, tudo. Vampeta, não existe mais, não filmaram uma porra de um comercial mais. Para mim causa um estranhamento gigantesco, mas ao que parece as pessoas estão muito acostumadas. IA já virou o novo normal.

Então inclusive tá parecendo, o que tá aparecendo aqui Sabe quando você mostra um meme para uma pessoa mais velha? Você mostra assim aquele meme de uma pessoa rindo, daqueles, aquelas imagens clássicas, aquele cara de barba branca rindo, fala com alguma coisa escrita em cima. A pessoa mais velha vai perguntar quem é, ou quem mandou, quem te mandou, quem fez, quem é essa pessoa do meme. Várias perguntas que é um meme, ninguém fez, alguém fez, mas não importa quem fez.

Você não achou engraçado? Não sei se achei engraçado, porque para uma pessoa mais velha, para achar engraçado um meme, ela tem que entender quem fez, quem mandou e quem é. Coisas que são irrelevantes já para nossa geração. E eu acho que perguntar se você não viu que isso aí, ah, você não entendeu que isso aí, ah, você não acha ruim essa aí, ah, não tá mal feita assim, ah, essa não é a voz do Neymar, é um traço geracional de gente como a gente, como eu e você, que não estamos imersos no slop da AI assim.

A gente não tá imerso no caldo aí, ah, e vendo de fora a gente acha estranho. Para quem tá dentro Não acha. Eu queria mostrar uma coisa para você ali, que é quando você bota Lula no TikTok. Eu botei para sentir como é que tá o parâmetro de Lula no TikTok, tá? E eu vou mostrar para o espectador. E aí a pessoa que tá em casa vai apenas ouvir, e vai ser a pessoa que tá ouvindo no Spotify, ela vai apenas ouvir. E aí ela vai, o áudio, ela vai achar mais estranho ainda, porque olha como é que são os vídeos estão no TikTok. Quando você bota, eu botei apenas uma busca, uma busca simples, busca Lula.

AOAlessandra Orofino

Vamos lá, tá?

GDGregório Duvivier

Olha só, eu não selecionei, eu não mudei nada, tá? Estão querendo forjar a eleição só para mim não ganhar. Preciso da sua ajuda urgente. Aperta na cruz embaixo da minha foto para me apoiar. Estão, entenderam? Isso não é o Lula, né? Obviamente é uma imagem de ar. Você que está ouvindo, você nem entendeu O que que aconteceu? Mas era a cara do Lula falando isso, tá? É a cara do Lula. Vamos ver aqui, top liked, top liked, tá? Botar o vídeo mais visto, 52k só de curtidas.

Vamos ver aqui, ó. Sabem, essa é a última campanha da minha vida e eu quero fazê-la valer por vocês. Aperta no mais aqui embaixo da minha foto e comenta 13. Vocês entenderam? Não é o Lula tampouco, é uma imagem que eles animaram. E os comentários não são assim: que que é isso? Que estranho, isso aí, ah. Não, os comentários são mais de 10 mil comentários, são 13, 13, valeu Lula, que é 13, melhor presidente, Lula 65% dos votos, primeiro Lula 13, estamos juntos Lula 13.

As pessoas ou acreditaram, o que que você acha, elas nem se importaram, entram no jogo, entendeu? Todos os comentários, não tem nenhum comentário falando, gente, isso aí, ah, ou por que que estranho, que vídeo é esse, não tem. E esses são, esse é quase a totalidade dos vídeos quando você bota Lula e a, tá entendendo? Isso aí não é muito distópico?

AOAlessandra Orofino

É muito distópico, é muito distópico.

GDGregório Duvivier

Vários vídeos dele chorando. Ah, tem um dele dando um carro, quer ver? Eu prometi, eu agora vou cumprir. Esse carro zero quilômetros pode ser seu. Clica na cruz vermelha abaixo da minha foto e comente qual cidade eu mando entregar ele. E acho que o comentário das pessoas é: aqui na cidade de Timóteo, Minas Gerais, Vale do Aço, entrega no meu endereço.

AOAlessandra Orofino

As pessoas estão de fato dando a cidade.

GDGregório Duvivier

Dando as cidades para ele entregar o carro dele. Assim, onde é que a gente chegou? Assim, para mim isso é muito louco e distópico, porque a gente já achou— todo mundo diz que ia ser um perigo aí nas eleições porque ia ter muita fake news, e vai ter também. Mas tem um outro perigo que são esse tipo de vídeo. Por que que a pessoa tá fazendo isso? Eu tava me perguntando por que que essa pessoa fez essa aí, caçando like. Criação do like, criação do engajamento, porque o mais aqui é para seguir.

E aí ela vai ter um perfil muito seguido, e esse perfil depois ela pode vender, seja para Lua, seja para Flávio, seja para quem quiser, sabe? Ela tá criando engajamento que muitas vezes inclusive é monetizado no TikTok. TikTok tem uma particularidade que ele monetiza somente se você não for um CNPJ, para mim não faz o menor sentido. Então o Porta dos Fundos não pode ganhar R$1 no TikTok. Mas se eu, Gregório, roubar os vídeos do Porta e colar na minha conta, aí eu posso monetizar.

Faz o menor sentido. Mas então as pessoas estão monetizando em cima disso. Mas o que eu acho mais curioso não é nem essa monetização, é o fato realmente de que isso é assistido, comentado, engajado, e as pessoas curtem, gostam desse tipo de conteúdo. É um abismo muito grande, né?

AOAlessandra Orofino

É fascinante. E eu acho que tem a ver com esse Brasil hiperfragmentado, né? Tem uma, né, voltando um minuto para Copa, para voltar para o IA, que eu acho que tem uma conexão. Essa também foi a Copa em que a Globo perdeu na prática o monopólio da atenção nacional, né? E foi a primeira Copa do Mundo em 56 anos, desde 1970, em que a Globo não transmitiu uma semifinal. Então o jogo Inglaterra, o jogo, perdão, França-Espanha foi exclusiva do Casé TV, foi só na Casé TV, e acabou sendo a maior transmissão da Casé TV na Copa, justamente porque não tinha Globo lá.

E essa concorrência com a Casé TV, ela realmente tirou da Globo— a Globo continua sendo a preferência do espectador, mas são muitos anos, né, de lugar cativo com o espectador— mas tirou da Globo o monopólio da atenção nacional. Eu não quero aqui chorar pela Globo, que acho que não se trata disso, Mas tem, a Globo não tá sendo substituída por um ambiente mais plural jornalístico, com apuro jornalístico, talvez até mais apuro jornalístico do que a Globo, né?

O monopólio da Globo era feio, ele foi construído sobre uma concessão pública no regime militar, em cumplicidade com a ditadura e décadas de uma única narrativa vendida como sendo o Brasil, né? Então isso é, que bom que isso acabou, mas o que veio depois, o que tá se desenhando agora é uma espécie de mosaico de possibilidades de informação sem nenhum tipo de compromisso com jornalismo ou com qualquer tipo de objetividade ou qualquer tentativa de ser objetivo.

A gente vai entendendo ou se entendendo cada vez mais como consumidor não de um produto que busca de alguma forma, mesmo que de maneira imperfeita, refletir uma realidade comum. É, mas simplesmente de produtos que visam refletir a nossa subjetividade. E acho que por isso também que a gente não se preocupa tanto quando a gente vê um vídeo de que é claramente IA, desde que ele esteja falando alguma coisa que nos conforta na nossa identidade.

Então isso sim é identitarismo, né? Porque é uma busca por consumir algo que reforça uma identidade. Então a pessoa que se emociona com vídeo do Neymar, ela não tá preocupada em saber se aquilo é verdade, não é verdade. Evidente que não é verdade, né? Verdade que tem o Neymar semelhança, encontra o Neymar adulto, mas ela não tá nem preocupada em saber se aquilo, se o próprio, se aquilo é uma representação verossímil do Neymar, se a voz parece, se o sotaque parece, se o jeito de falar, se a maneira de pensar.

Não se trata de verossimilhança, não se trata de relação com a realidade, se trata da tradução de uma filiação identitária em imagem. E quando isso acontece de maneira satisfatória, aquilo toca a pessoa. Mas isso eu acho que tem realmente a ver com essa fragmentação, com essa fragmentação da informação, que já é péssima em qualquer circunstância. Mas eu acho que ela fica muito evidente quando a gente tá falando de eventos midiáticos, esses que tinham essa vocação historicamente de serem os eventos midiáticos que criam um piso nacional ou um espaço comum de atenção nacional, que é exatamente o lugar da Copa do Mundo.

Eu vou falar, por exemplo, que eu assisti a semifinal pela Casé TV, né, a semifinal que a Globo não transmitiu. Os demais jogos eu vi pela Globo. Ontem eu vi a final pela Globo. Uma das coisas que me incomodaram muito na Casé TV quando eu vi a semifinal foi a quantidade de palavrão que eles falam na transmissão, porque eu tava vendo com a minha filha. E eu não sou puritana, eu não tenho uma preocupação com, ai, o palavrão. Acho ótimo que existem espaços midiáticos onde o palavrão ele é dessacralizado, não tem problema falar palavrão.

O próprio Porta dos Fundos não existiria Aliás, em parte existe porque vocês queriam poder falar palavrão e a Globo não deixava vocês falarem palavrão no humor da Globo.

GDGregório Duvivier

Uma defesa que a gente sempre fez do Porta é exatamente essa: a Globo você é obrigado a assistir, que a Globo passa numa televisão num bar.

AOAlessandra Orofino

Isso, você não é obrigado a assistir o Porta, mas a semifinal, a semifinal da Copa do Mundo que só estava passando na Casé TV, é claro, eu não sou obrigada a assistir uma semifinal de Copa do Mundo, mas seria lamentável, seria uma perda para o país se você não pudesse mais assistir assiste uma semifinal de Copa do Mundo como um evento midiático que todo mundo assiste junto, porque eles são tão raros hoje em dia, esses eventos midiáticos.

E no entanto, eu senti que eu tava assistindo de fato uma live fragmentada no YouTube, que tá destinada a uma comunidade específica, a um tipo de espectador específico, que certamente não tá pensada como, como ponto de encontro de um país. Porque se você tem pretensão de ser ponto de encontro de um país, você não pode falar essa quantidade de palavrão. Porque é um programa que tem que, de alguma forma, atender a várias gerações, a pessoas com, né, com referenciais culturais diferentes, com níveis de tolerância para palavrão diferentes.

Então, esse abandono da ideia de objetividade e da ideia de uma coisa, de um chão comum, acho que tá evidente nessas escolhas editoriais, no caso da Casé TV. E acho que ela também se desdobra nesses vídeos de IA. Agora, o fenômeno do vídeo, por exemplo, do Lula falando, ai, Tem mais a ver com o que a gente tava falando no início, né? De alguma forma entendeu-se que uma boa maneira de caçar clique, de caçar engajamento, é a partir da política das paixões políticas.

E aí você apela para paixão política da forma mais básica possível, simplesmente porque você entendeu que isso é um filão de engajamento. Que é a mesma razão pela qual a gente precisa projetar política na partida de futebol para poder se importar com ela. Quer dizer, é o mesmo mecanismo que tá em jogo. É você entender que a política ela mexe com a emoção, e aí que a emoção mexe com comportamento na internet, que o comportamento na internet ele é ouro, como você falou, né?

Ele pode ser traduzido em faturamento. Então essas duas coisas andam juntas um pouquinho.

GDGregório Duvivier

Pois é, eu acho que realmente eu acho que tem algo muito diferente mesmo quando tá todo mundo vendo a TV, a Copa na Casé TV. Foi realmente um baque, porque eu nunca tinha visto. Eu via a Copa passada, já tinha visto uma coisa ou outra e tal, Mas essa primeiro teve as bets, né, que a gente já falou muito disso e tal, dessa invasão das bets de todas as formas, com propagandas, isso em IA, coisa muito opressiva, com uma particularidade que aliás eu nunca tinha percebido, mas um cara muito interessante, como é que é o nome dele?

Paulo Vitorino? Vitorino, aquele cara que é da— ele ficou famoso como fiscal de aeroporto. Como é que é o nome dele? Sim, Angelito. Paulo Angelito é um cara, ficou famoso por aquele programa do aeroporto da Receita Federal. Ele encontra, ele vigia as malas e tal. Não sei se você não conhece esse universo, mas ele faz vídeos tipo, é, ele é um cara ótimo. Ele virou um grande cara contra as bets e ele é, ele também inclusive candidato a deputado pelo PSB, eu acho.

E é um cara, esqueci o nome do Bastidores do Aeroporto assim, que ele faz. Ele surgiu assim como um cara muito honesto e carismático e tal, tem um cabelão grisalho. Enfim, porque eu tô falando dele, porque ele veio com um bom argumento, que ele falou assim, cara, uma coisa que não estão falando aí, e é verdade, é que a pessoa que aposta assistindo a Casé TV, ela tá com 30 segundos de atraso por causa do delay. Então isso numa bet é determinante.

Numa odd aumentada, vai ter gol, não vai, ela pode perder o próprio gol ou pode perder uma chance de gol que vai aumentar muito a odd que ela perdeu. Enfim, ela vai estar com menos informação. Informação é o bem mais precioso para quem aposta. Aposta é só sobre informação, basicamente. Enfim, ainda tem essa desonestidade mesmo, tá fazendo as pessoas apostarem dando informação ela atrasada, sabe, que é algo que não combina com o delay.

Acho que é um outro, né? Não que desse para você, não, nunca acho legal a pessoa na TV aberta ficar Fica fazendo problema de aposta, mas eu acho que faria mais sentido, porque pelo menos tem uma relação mais direta.

AOAlessandra Orofino

Pelo menos a informação tá fidedigna. É, mas é que não se trata nem disso, é parecido com o fenômeno da IA mesmo. Tem um tanto do fenômeno das bets que é vício, né, que é vício em jogo. Tem um tanto que é, a gente já falou, né, essa cultura de hackear o sistema, de achar que você vai ganhar dinheiro fácil, etc., e de achar que aquilo é day trade, de querer meio que tirar uma onda de investidor, que também existe. É, e tem um outro tanto que eu acho que é justamente o fenômeno que a Casé TV explora, e não à toa que tantas bets colocaram tanto dinheiro na Casé TV nessa Copa, que é essa ideia de criação de comunidade.

Você aposta para participar de alguma forma, né, para meio que jogar junto, para fazer parte do fenômeno midiático, que também tem isso, né. Existe uma constatação de que o lugar de espectador, ele se tornou profundamente desconfortável para a maioria das pessoas. As pessoas não querem assistir uma Copa, elas querem de alguma maneira jogar também. E a maneira de jogar também é apostando. Isso também é uma maneira de se investir emocionalmente naquilo, que é curioso, né?

Porque você poderia se investir por outras razões, mas a bet te dá uma razão muito pessoal, justamente muito pouco conectada com o coletivo, para se investir, para se importar. Com aquilo. É por isso também que ela, a bet, ela é um pouco uma traição de alguma coisa. Você apostar no evento esportivo no qual você, com o qual você deveria se importar ou poderia se importar por outras razões que não aposta, porque é uma perversão dessa, dessa ideia da torcida.

Porque torcer não é fazer previsão, são comportamentos completamente diferentes, né? Torcer é irracional. Você torce pelo time que tem mais chance de perder muitas vezes. Você, e se tá competindo com outro cálculo, que é um cálculo de aonde você colocou o seu dinheiro, que é o seu, a sua maximização pessoal, é, de alguma forma você já perdeu a torcida. Mas é, mas é, mas é muito mais condizente com a ideia, com essa, com esse hiperindivíduo, porque a torcida também é um fenômeno necessariamente coletivo, né?

Senão ele não tem muita graça. Então acho que tem uma solidão assim, a pessoa que tá assistindo futebol sozinha, que é um fenômeno também meio novo, Eu não sei, eu me lembro da minha infância, da minha adolescência, ninguém assistia um jogo de futebol importante em casa sozinho com fone de ouvido. Essa figura não existia muito, ela, porque futebol era um fenômeno coletivo, até quando ele é televisionado, não só no estádio, mas na televisão, no boteco, na casa da família, todo mundo vendo junto.

A Beth, eu acho que ela explora um comportamento solitário do espectador. Porque se você tá vendo sozinho, apostar é uma maneira de se conectar com aquilo, já que você não tá se conectando pela torcida que é coletiva.

GDGregório Duvivier

E mesmo que você esteja num grupo, se você apostou, a sua torcida vai ser solitária. Sim, porque só você vai ficar feliz com aquele resultado, certo? É, isso acontece em bolão mesmo, que é uma das partes chatas do bolão, é meio isso. Você vai ficar às vezes torcendo contra o teu time ou contra o time fazer um gol a mais porque você botou 1 a 0 só. Eu acho uma coisa estranha, gera um ruído na torcida. Eu acho, para mim pelo menos, que as pessoas passam a torcer meio um contra os outros num dos poucos momentos da nossa vida que a gente tá junto.

Porque a Copa, a Copa é talvez nosso último momento em que o Brasil torce junto, a não ser quando o Neymar está em campo. E é uma das coisas que me dá raiva quando ele entra em campo. Imaginando que ele entra em campo, o Brasil volta a se dividir. Mas sem Neymar em campo, o Brasil tá todo torcendo pela mesma coisa. E eu acho que isso daí é uma coisa que eu sinto falta, é a coisa que eu mais gosto em Copas, e é o que eu, e é o que eu sinto falta assim ao longo dos próximos 4 anos, que são os poucos momentos que a gente tá junto.

E curiosamente, no Brasil ela calha de ser no mesmo ano das eleições. Talvez por isso ela seja tão política, né? Para gente atualmente. Cara, a gente tá 3 meses das eleições.

AOAlessandra Orofino

Eu acho inclusive que a Copa ajudou a abafar um pouco, enterrar o assunto eleitoral. A gente tá falando de Copa aqui no Calma Urgente de uma maneira ou de outra, não necessariamente se dedicando à Copa, não é uma análise futebolística, né? Vocês fizeram um pouco mais isso no programa em que eu não tava, mas a gente tem falado da Copa como fenômeno cultural há 3 episódios. E não porque a gente, ai, somos, mas porque de fato isso dominou a atenção.

E fenômenos que dominam a atenção nacional, eles geram também muitas muitos subprodutos para análise, né, várias outras coisas que a gente pode olhar.

GDGregório Duvivier

Sim, é, inclusive muita gente analisou isso já, sobre se Copa tem influência em eleições ou não, né, porque a princípio eu sempre acho que sim. Eu acho que o 7 a 1, a gente já falou muito disso aqui, né, como 7 a 1 ele foi determinante para certamente, se não, não vou dizer que foi a queda da Dilma, foi por causa do 7 a 1, não é tão direto, mas foi, por exemplo, determinante para que a extrema-direita se apropriasse da camisa amarela.

Foi a partir do 7 a 1 que ela vestiu a amarela, por algum motivo estranho. E não só, eu acho que o 7 a 1 abalou alguma confiança brasileira ali, é um trauma do qual a gente ainda tá se recuperando, né? Mas eu não sei se já estudaram, e parece que não tem uma relação, por exemplo, sobre a gente tem Copa e eleição sempre no mesmo ano, né? Tem alguma relação entre o Brasil ganhar a Copa e eleger, reeleger o incumbente, eleger uma pessoa nova? Parece que não. Que não tem nenhuma relação.

AOAlessandra Orofino

Não, é assim, pesquisadores não conseguiram identificar uma relação causalidade de dados.

GDGregório Duvivier

A gente tem 10 eleições com Copa, né, 12.

AOAlessandra Orofino

É, não é só isso, né? Você, você num estudo acadêmico, você chegar à conclusão de que existe uma relação de causalidade entre dois fenômenos é muito difícil. E acho que sobretudo quando a gente fala de caldo cultural, que é uma coisa muito difícil de definir, Tem muitos outros elementos que contribuem para criação de um caldo cultural. Eu não tenho nenhuma dúvida de que o ânimo da nação, como que a nação se vê, tem influência política.

Agora, você daí, você falar não existe uma relação causal com o resultado da eleição, muito mais complicado de você aferir, né, e de você cravar. Mas eu tenho, eu sinto que a gente tá em volta de um tema que tem a ver com esse lance da IA. Eu queria voltar na coisa da IA, desses vídeos de IA, Greg, e dessa relação dessa loucura, desse, dessa, dessa, das pessoas chorando com o vídeo do Neymar, dessa relação um pouco histérica. É a palavra que o movimento feminista vai me deixar, vai me deixar chatear por usar, mas no caso eu tô usando para falar sobre tudo de homens que estão chorando com o vídeo do Neymar, é, com, com essa encenação sentimentalóide assim, né, que não é possível que você tenha se emocionado tanto, amigo.

Não é possível que isso tenha te tocado tão profundamente, esse vídeo do Neymar menino falando, ai, eu não ganhei. É muito esquisito. Mas é, quando você fala do heroísmo, Greg, talvez seja uma outra forma de heroísmo que ganhou culturalmente. E acho que isso sim tem impacto na eleição, né, que é esse heroísmo justamente não romântico. As pessoas são heróis de si próprias, né? O que você tá tentando fazer é vencer na vida, mas não em nome de uma outra coisa além da sua própria vida.

É quase uma perversão perfeita do que você falou que o romantismo era, que acreditar que existe alguma coisa maior do que a própria vida, né? Ou do que a vida em si. É, em alguma medida, você só atribui importância a essa trajetória de crescimento pessoal. Que tem a ver com a cultura de autoajuda, que tem a ver com a cultura de reality show, que tem a ver com um monte de outras coisas e com neoliberalismo no seu ápice. E nada melhor para isso do que uma cultura midiática que também ela, ela só, ela, você só conta as histórias a partir das vidas de todo mundo, porque os veículos são os próprios perfis, né?

Então a maneira como você interage com um fato, com alguma coisa que aconteceu, é vendo o que foi dito pelos personagens específicos a respeito desse fato. Então é a maneira como você vai digerir o resultado da Copa do Mundo, é o que o Neymar falou, que o Bruno Guimarães falou, e são vários olhares individuais sobre aquilo. E não existe mais uma centralidade onde você vai olhar para aquele fenômeno como fenômeno coletivo, porque até os espaços que deveriam ser esses espaços, a transmissão ao vivo do jogo, também tá fragmentado.

Não é mais. Eu fui, eu, é isso, eu realmente não, não tinha o costume de assistir Casé TV até a Copa do Mundo porque eu não sou uma pessoa que acompanha futebol dessa forma, não tem essa conexão com a figura do Casemiro e tal. É muito curioso para mim como eles falam muito deles. A gente falou disso um pouquinho semana passada, eu e o Bruno também, mas nesses jogos que aconteceram desde então isso ficou mais evidente para mim.

Quando eu vi a semifinal eu vi a semifinal, perdão, França-Inglaterra, que aliás foi um jogaço maluco com 10 gols, uma doideira. É, em dado momento eu acho que o próprio Casemiro diz: e agora várias pessoas estão me mandando mensagem perguntando se eu estou bem. Aí ele meio que manda uma mensagem para mãe dele. É muito estranho ver tipo um âncora, né, alguém que tá transmitindo um momento de atenção tão unísona no país falando de si.

Então tem um se colocar na história que é uma espécie de— isso tem assim, se você for olhar, por exemplo, a maneira como o lugar de fala foi alçado a uma espécie de lugar sagrado dentro dos próprios movimentos sociais, também tem um pouco a ver com isso, né? Que não é só você reconhecer que as pessoas trazem as suas experiências e o seu olhar e a maneira como elas foram produzidas intelectualmente mesmo para as suas análises, que é basicamente um reconhecimento básico de viés, e que é necessário até para você poder pensar em objetividade.

Se você não reconhecer que os vieses existem, você também não consegue buscar alguma objetividade, que é sempre uma busca, não é possível, mas é uma busca legítima e talvez importante de se ter, sobretudo no jornalismo, né? Mas não é o lugar de fala também como uma espécie de, sei lá, de narrativa heroica de si próprio quando você opina sobre qualquer assunto. E isso eu acho que em ambientes onde o lugar de fala não é o termo usado, porque são ambientes talvez menos políticos ou menos de esquerda e assim por diante, então o termo não vai ser lugar de fala, mas em alguma medida o lugar de fala também tá colocado, mas de uma outra forma, que é essa hipervalorização da minha experiência pessoal na maneira como eu me relaciono com esse fenômeno.

E que é especialmente estranho quando você tá no lugar de quem deveria narrar o fenômeno, para um grupo muito grande, muito heterogêneo de pessoas.

GDGregório Duvivier

Isso, sei lá, isso talvez seja o que mais me incomoda também, Alessandra, uma autorreferência constante.

AOAlessandra Orofino

É isso, é isso.

GDGregório Duvivier

Um jogo, tem um, teve um jogo que eu vi que o, agora não lembro qual era, mas o atacante driblou, fez um gol e saiu comemorando. É, e o narrador falou, gol, mas talvez esteja impedido, hein? Eu tô sentindo que tá impedido. Vamos ver. Gol muito bonito, gol, caso fosse Tá impedido, tá impedido. Eu falei, você viu primeiro aqui, você é pica. Aí outro casé fala: caralho, tu é pica, hein? Porra, eu não tinha visto esse impedimento não, o cara falou antes do juiz, antes do VAR.

Tu é pica, só na Casé TV, porra, que vocês viram isso. É pica. Ele vai, começa uma festa porque o narrador ele antecipou que seria impedimento. Tipo, foda-se, nem preciso saber que, sabe? Tipo, ninguém, cara, não é sobre você. Obrigado. Acho que esse daí é algo que tinha que botar assim na placa. Eu falei que tem qualquer Não é sobre você, é a frase que eu acho que tinha que ter em qualquer lugar do mundo, numa fila, né, para as pessoas respeitarem.

Qualquer, não tá narrando um jogo, não é uma palestra. Eu, coisa que me irrita muito, ver uma palestra que o mediador começa a falar, o mediador começa a falar assim: então, eu em 2006 eu tive contato com a sua obra quando eu sou um cara que eu morei muito tempo em Barcelona. Aí começa a falar de si. Para mim, a primeira coisa que você tem que ensinar para mediação, ou para jornalista, ou para— vai dizendo— tradutor, ou para— são profissões— para o ator também.

Não é sobre você, o ator é uma pessoa que empreende, você sabe, é sobre o personagem, tem que render. Todo mundo, na verdade, nunca é sobre você, cara. E ali vira uma coisa, com perdão da palavra, meio da expressão meio Casé TV, cachorros lambendo a caceta assim. É uma coisa meio, sabe, autocongratulatória. E 40 milhões de inscritos. Com todo respeito, foda-se, assim, num grau. Quantos inscritos tem um canal no YouTube, né? E virou uma coisa, se inscreve no nosso canal, o nosso canal deu 40 milhões e essa live tem 7 milhões e essa tem uma autocongratulação que não é sobre isso.

Ninguém tá ali para ver, eu acredito, um canal de TV bombando. As pessoas estão para ver o jogo em si. Teve, para mim, o apogeu disso foi um vídeo de Iaqui em defesa do Casimiro, do Casé deles todos. O vídeo não foi feito por eles, mas para mim diz muito sobre essa cultura, que é o próprio Casimiro chegando, vendo uma criança ali. Aí é o vídeo do Neymar, e eu achei que era uma paródia zoando, mas não é não, é de verdade. Aí é motivo também que o Casimiro vai até a criança, fala assim: oi, você virou— que criança fala?

Você virou taxista igual ao papai? Isso até engraçado. Ele fala: não, mas eu virei comunicador, jornalista, eu tenho um canal E eu reuni meus amigos e a gente transmite, tem o maior canal do Brasil. Aí aparece um ônibus, todos eles, eles começam a vir, o Luizinho, fulano, todos eles. A gente tem a maior turma do mundo. E no final é emotivo. Achei que você é uma paródia zoando. Não, é emotivo do Casimiro, porque ele criou esse império.

Que é outra coisa curiosa também, muito bem pensada da Live Mode em termos de branding, com perdão da palavra, que é você ter uma mega empresa da Faria Lima que é um Live Mode o nome, mas perceber que Live Mode não ia pegar muito bem com os jovens, ia ficar uma coisa meio careta, meio Faria Lymer. Então, em vez de botar os paulistas de colete dono da Live Mode no nome, na logo, coisa, chamam um moleque da Zona Norte carioca muito carismático, genial, que é o Casimiro, um cara carisma gigante, engraçado, espontâneo.

Chama os amigos do cara, chama de Casé TV, não chama de Live Mode, é como se fosse dele. E você de repente cria um antissistema, né, uma cultura antissistêmica, anti-establishment, mas dentro do establishment, dentro do establishment, dinheiro da XP, dinheiro da—

AOAlessandra Orofino

é isso.

GDGregório Duvivier

Então é uma grande sacada de branding que diz muito sobre o tempo atual, né, que é o sistema hoje ele precisa se fantasiar de antissistêmico para emplacar. Tudo precisa ter uma cara de ser contra o establishment. E aí você tem que criar um grande inimigo. No caso deles é a Globo, que não precisa nem criar, porque a Globo realmente foi muito monopolista e muito nociva em vários, vários sentidos, e por muito tempo monopolizando mesmo a informação e os jogos para o futebol brasileiro mesmo.

Foi muito uma cagada. Os horários dependem da Globo e é muito ruim. Então quebrar esse monopólio é muito positivo, mas ele não tá sendo quebrado por uns moleque da Zona Norte zoeiros, né? Sendo quebrado pela XP, pelas bets, por um outro megazorde também Mas o Megazord que entendeu que precisa se fantasiar de streamer. E aí isso é igualmente problemático.

AOAlessandra Orofino

E de novo, também tem a ver com a politização de tudo. Que é, você não quer só assistir Casé TV e não Globo porque você prefere o jeito do Casimiro, porque você acha ele mais engraçado, porque você prefere uma certa informalidade na maneira como aquilo é reportado, etc. Não, você quer fazer isso como um statement, como um pronunciamento político. Eu faço isso pra ser contra a Globo. E é por isso que você precisa que todo posicionamento de marca ele seja meio contracultural, é porque você entendeu que tem valor de mercado em você ser contracultural.

Quando na verdade é isso, é pura e simplesmente uma concorrência, é como você falou, por um outro megazord corporativo. E em última instância é uma concorrência com o YouTube, que é uma, né, que é da Google, que é uma empresa mil vezes maior do que a Globo e mais nociva para a humanidade do que a Globo, sem nenhuma dúvida. É, então tem uma, porque é isso, né? A Casa TV não tem infraestrutura própria, transmissão no final das contas é no YouTube, é aquilo ali que interessa.

E todos nós somos dependentes do YouTube. Esse programa tá no YouTube, tá no Spotify, porque a gente tá com uma dependência infraestrutural dessas plataformas. Mas enquanto espectadores, a gente precisa ter algum olhar crítico sobre isso, né? A gente tem que entender onde é que a gente tá pisando. E ali existe um apagamento de qualquer outra coisa a não ser a figura carismática do Casimiro. Mas é engraçado, Greg, é, eu concordo que é isso, né?

O futebol fez muito mal para o futebol brasileiro em várias, em várias, em várias maneiras, esse monopólio da Globo. Mas eu realmente acho que a gente não sabe ainda medir a falta que vai fazer esse espaço de mídia mais centralizado, de atenção centralizada. Mesmo que fosse uma mentira centralizada, a gente sabe que isso aqui é uma mentira, isso aqui é uma projeção, mas a gente sabe onde ela mora. E existe uma responsabilização também, né?

Existe um editor, existe um editor-chefe, você tem, você tem a quem atribuir alguma coisa. É, agora a gente tem um espaço de informação muito abundante, barata, divertida, mas não tem ninguém muito responsável por ela ser verdade. Não tem nem a quem reclamar, porque essa nunca foi a intenção. Essa não é a carta de intenções do jornalismo da Casa TV, né? Vocês que me falaram que eu não vi essa, essa entrevista da Casa TV com Cristiano Ronaldo, em que o jornalista fica muito emocionado, depois passa horas falando, meu Deus, eu entrevistei o Cristiano Ronaldo!

GDGregório Duvivier

Ele entrevistou o Ronaldo, não diz nada, nada de novo, de relevante. É prazer, um beijo para os brasileiros. E o cara começa a chorar e todo mundo que vê TV começa: eu não acredito, ídolo! E quando ele entrevistou, para casa é TV, isso é história, a gente fez história, fez história! Porque um canal, sabe, é óbvio que ele vai dar entrevista para ver TV, são os maiores, assim, 40 milhões, assim, é normal.

AOAlessandra Orofino

E você tem, e você tem os direitos de transmissão da Copa do Mundo. Ele tem uma obrigação de dar entrevista.

GDGregório Duvivier

E é uma coisa vira-lata, sabe? Porque sobretudo, claro, com esses megastars assim. Então é uma cultura da estrela, sabe? Com deslumbramento mesmo do Messi, do alienígena, com muita— eu acho uma coisa muito esquisita também assim. Mas que é isso, é uma cultura que deu certo, não dá para dizer que não deu. As pessoas estão completamente nesse universo e usando esse léxico já, sabe? Eu acho, eu acho que falta inclusive a Globo, porque aí entra Globo com uma tentativa de se caseificar, sabe?

Sei lá, chamar a Virgínia é meio que tentar falar a língua deles, é totalmente diferente, tá? Porque o Casé TV não chamou a Virgínia, pelo amor de Deus. Nesse sentido, Casé TV é muito melhor, inclusive, porque tem boas jornalistas ali no meio e tal. Tem gente que eu gosto e faz análise boa sobre futebol. Então eles são muito mais sérios, não tô dizendo que Não, mas a Globo chamar a Virgínia é tentar imitar errado o Casé, sabe?

Não entendeu o fenômeno, é não entender o fenômeno e falar assim, ah, então precisa de influência, então precisa de gente jovem, precisa de trend. Aí bota lá umas pessoas que assim não é isso, porque a Virgínia tem lá influência dela, mas não tem nada a ver com esse público do futebol, não é uma pessoa que vai saber falar sobre o assunto, não é espontânea exatamente. Não é do ao vivo tampouco.

AOAlessandra Orofino

Então é esse daí também, é o Felca no Fantástico, que é, ele tá no Fantástico, fez um quadro no Fantástico. E é isso, não é, não é muito bom, não por falta de talento do Felca, que eu acho super talentoso e que fez um vídeo muito importante ano passado, realmente muito importante, mas fez numa linguagem dele, dentro do canal dele. E essa, essa tentativa de adaptar isso para TV aberta, ela é muito difícil de se fazer bem. Porque a função da TV aberta é outra.

A sensação que eu tenho com a Globo quando ela traz a Virgínia é que ela não entendeu o que que faz as pessoas ainda quererem a Globo, que é justamente o contrário da Virgínia. Porque esse é um detalhe importante também, né? Com tudo isso que a gente tá dizendo, com o fato da Globo sequer ter transmitido as duas semifinais, dela ter basicamente se retirado da Copa em alguma medida, né, ter deixado os direitos de transmissão é só para Casé TV em momentos decisivos, etc., no final das contas, quando havia as duas possibilidades, ou seja, nos jogos em que você podia assistir na Globo e assistir na Casé TV, a Globo ganha em audiência ainda.

E eu, claro que tem um fenômeno aí geracional, são muitas décadas consolidando essa audiência. Seria até surpreendente que essa liderança não seja maior, ela poderia ser maior. No entanto, eu sinto que tem um delay, tá, exatamente. Mas de alguma maneira eu sinto que o que as pessoas estão buscando na Globo, mais do que o jogo sem delay, É justamente um espaço que se pareça mais com um espaço comum e que elas não vão ter na Casa TV, porque elas vão ter essa experiência um pouco memética, gritada, muito marcada geracionalmente, com palavrão, com tu é pica, barará, que você não pode ter criança na sala, ou enfim, que de alguma maneira te dá a sensação de estar vendo uma coisa pequena.

É muito engraçado porque é isso, as experiências que eu tive vendo Casa TV nessa Copa, mesmo quando eles ficavam se autocongratulando pelo tamanho da live, a sensação que me dava era a oposta da que eles queriam gerar no espectador. Não era: meu Deus, eu sou parte de um fenômeno midiático muito grande, olha só, tem 40 milhões de aparelhos conectados. É: nossa, eu tô— esse fenômeno midiático tá pequeno, ele foi diminuído, inclusive pelo deslumbre com o tamanho.

Porque quem tá deslumbrado com o tamanho é quem não espera esse tamanho, certo? É quem não naturaliza esse tamanho. E tem uma coisa de que a Globo nunca precisou te dizer que uma semifinal de Copa do Mundo era um fenômeno midiático em que tava o Brasil inteiro assistindo, porque Isso tava subentendido, estava dado, era evidente que era um fenômeno massivo e completamente dominador e totalizante da atenção nacional. Então acho que o que as pessoas buscam na Globo e vão buscar eventualmente, né, no jornalismo também, no jornalismo mais, digamos, sério, mais convencional e tal, é justamente esse chão comum.

E se você não quer mais providenciar, prover chão comum, porque você acha que é colocando uma personalidade que é uma influência que as pessoas amam para odiar ainda por cima, que é a Virgínia, né, que tem muito hate follower assim, tem muita gente que segue para odiar. É, se você acha que é assim que você vai criar envergadura em mídia social, etc., você acha que você não tá tendo entendimento adequado nem do seu papel no inconsciente coletivo da nação.

O que é muito doido para Globo, né, porque se tem uma coisa que a Globo sempre entendeu bem foi o papel dela. É o A Globo, a gente se vê por aqui. Esse é o Brasil, isso aqui que você tá vendo é o Brasil, a gente se vê por aqui, é por aqui que a gente se enxerga, que é muito bem encontrado.

GDGregório Duvivier

Isso é uma coisa que eu sinto muito bem encontrado. E essa é uma coisa que eu sinto com a Globo, eu que, pô, é isso, a gente nos últimos anos, 2015 para cá, a gente teve um certo divórcio. A Globo, ela virou um canal de verdade. Não, é uma pena inclusive Mas ela deu uma certa guinada ali, acho que no golpe, mais ou menos 2016, e foi mesmo uma tentativa, acho que até de ver como o Brasil— não é aquela coisa do ovo e a galinha, não sei se o Brasil foi para direita por causa da Globo, se a Globo foi para direita junto com o Brasil, aquelas coisas não dá para saber direito.

O fato é que realmente a gente assistiu, assisti o Jornal Nacional 2010, 2011, 2012, seja família, via a gente jantar, vamos ver que tá Jornal Nacional, você via. E a partir de um momento, acho que foi 2013 em diante, tal, umas 15, 16, foi ficando muito difícil mesmo, porque tinha uma desconexão gigantesca entre o jornal e a realidade, e pelo menos a minha percepção da realidade. E aí foi sendo cada vez mais difícil, foi tendo um distanciamento gigantesco, surgiram outras mídias que achava muito mais interessante em geral, inclusive no YouTube e tal.

Inclusive o Bruno foi uma das pessoas que eu conheci nesse momento assim de conhecer outras mídias, outras formas de explodir Explosão midiática. E o que eu sinto é que a Globo agora tá tentando recuperar um tempo perdido e um espaço perdido, sabe? Mas que é muito difícil, é muito difícil, porque nesse meio a GloboNews tá sofrendo muito com isso, eu acho, né? Porque nesse meio, nesse meio do caminho entre— não, eles não querem ser bolsonaristas, mas eles também não querem ser vistos como esquerdistas.

Isso, qual é o lugar que eles têm? Alugar da verdade, imparcialidade, pelo amor de Deus, é uma coisa que já ninguém acredita, né? Não acho que isso aí seja algo que convença alguém.

AOAlessandra Orofino

Não, não é verdade. Mas eu acho que o que as pessoas sim acreditam, de novo, não é que exista imparcialidade ou verdade absoluta. Ainda bem que elas não acreditam, porque seria realmente pouco inteligente. Mas eu acho que elas acreditam em chão comum. Tem uma coisa que é Se eu tô vendo o Jornal Nacional e você tá vendo o Jornal Nacional, mesmo que nós dois achamos, né, que aquela notícia que tá sendo transmitida pelo Jornal Nacional não é exatamente, quer dizer, que ela tá influenciada pelo editorial, pela maneira como a Globo vê o mundo, etc., mesmo que a gente tenha um espírito ou uma dúvida em relação a não a verdade, que acho que também não chega tanto, né, não era uma invenção completa, uma fabricação absoluta, acho que isso a Globo se fez, fez muito, muito raramente.

Mas, mas uma dúvida sobre o viés daquilo, da maneira como aquilo é apresentado, a própria priorização de uma notícia em detrimento da outra, tudo isso pode existir e é bom que exista. Mas só o fato da gente tá vendo a mesma notícia já nos dá uma coisa para falar no dia seguinte, entendeu? Para discutir no cafezinho. Então esse chão comum, ele é interessante. E as redes sociais, elas não fazem isso. Isso é uma coisa que eu acho que é realmente uma demanda das pessoas.

É um lugar afetivo que importa. Tanto que a coisa mais comum e mais irritante, eu que não tenho rede social, então quando você encontra um amigo ou um familiar, às vezes uma pessoa mais velha da família, é a pessoa querer ficar te mostrando uma coisa que ela viu no Instagram. Porque no fundo ela quer muito que você tenha visto também, porque ela quer poder comentar, ela quer poder falar a respeito, ela quer poder ter essa, essa.

E claro, a gente fez isso aqui agora, você me mostrou o TikTok do Lula, mas a gente tá tentando fazer alguma análise sobre, sobre o que tá sendo visto, né? Né, que é um pouco diferente disso que eu tô, que eu tô citando. É mais uma coisa assim: você viu aquele vídeo do sei lá quê? E aí a pessoa não viu, e aí a conversa não flui, aí você tem que mostrar o vídeo, aí volta. Aí é um negócio de 20 segundos também fora de contexto, também nem faz mais tanto sentido.

Quer dizer, não se trata de buscar uma pretensa objetividade ou um fato absoluto, mas ter uma linguagem comum, uma dieta midiática básica que todo mundo de alguma maneira, mais ou menos, consumiu é relevante para construção de uma conversa nacional, é relevante. E a gente às vezes tem a impressão, não é à toa que as pessoas amam uma trend, elas gostam do meme, porque a trend ela cria uma ilusão de uma experiência compartilhada, mas em geral ela não é, não de fato, não no tamanho que a gente gostaria que ela fosse, né?

Assim, sei lá, você pega um, sei lá, até o streaming é muito isso, né? Porque não é linear, então você vai, você escolhe a experiência de entretenimento que você quer ter. E até os fenômenos muito grandes de streaming, o último capítulo de Game of Thrones, que é uma das grandes séries de streaming da era de ouro do streaming, né, não se compara em termos de consumo massivo nacionalmente no Brasil com o último capítulo de Avenida Brasil, entendeu?

Então até as coisas que saturam a sua timeline, dependendo de quem você é e de que tipo de timeline que você consome, e que te dão uma ilusão de que você está vivendo uma grande experiência compartilhada, na verdade não são experiências compartilhadas, não de fato. O futebol é, a final da Copa do Mundo é, ela é, né? Por isso que ela é tão gostosa também, que é muito bom ver a mesma coisa que o vizinho e que todo mundo, e saber que no dia seguinte você vai sair na rua e literalmente, né, quando tem um jogo do Brasil, se você sai na rua no dia seguinte, todas as pessoas que você encontrar provavelmente viram esse jogo.

Vai ser raro alguém que não viu, da pessoa que te serve um café na padaria, a amiga que você encontrou na esquina, reunião de trabalho que você vai fazer, o motorista da do Uber, a pessoa que você encontrou no parquinho com a filha pequena, todas essas pessoas. E isso é bom. E isso eu acho que a gente tem uma necessidade psicológica. Eu amo, todo mundo ama isso. É muito difícil alguém que não ama isso.

GDGregório Duvivier

A função do futebol é meio essa, né? Eu acho que futebol é um pretexto para as pessoas terem assunto com gente que elas não conhecem. Eu acho que é isso que o homem hétero, então, tipo assim, É o único assunto. Você encontra outro hétero, é a mesma coisa, é o time. De repente você vai ver, você vai estar falando, você vai ter assunto com o cara. Então eu tenho que pesquisar um pouco sobre Fluminense às vezes quando eu sei que eu vou encontrar amigos héteros.

AOAlessandra Orofino

Eu tenho que pesquisar, eu falo assim, para você fingir que você tá mais, que você tá mais por dentro do que você, do que você tá de fato.

GDGregório Duvivier

Totalmente. Mas não só o futebol, os grandes assuntos, né? A cultura é, no fundo, é isso. Carnaval, cara. Tinha um cara na padaria que eu ia que o cara falou que era do Carnaval. Você é de qual escola? O cara falou Tuiuti. Aí eu falei de bobeira assim, ah, eu torço para o Tuiuti, pô, só Tuiuti. Eu falei assim porque eu também, Tuiuti tinha dado um puta desfile no, aquele grande desfile da Tuiuti, teve um tema e tal. Depois tiveram outros, mas foi um desfile lindo da Tuiuti.

Escola, eu falei para o cara, volta a chorar. Sério, saiu da chapa da padaria, veio, me deu um abraço. A partir daí, era padaria embaixo da minha casa, eu não podia sair de casa sem pesquisar sobre tuiuti, porque ele vinha falar assim: tu viu lá, tu viu o samba? Como é que tu viu o samba que escolheram? Aí eu falo: mais ou menos, né? O cara falou: mais ou menos? Bonito para caralho! Eu: não, lindo, eu sei. Eu tinha que estar informado sobre a tuiuti, porque— mas acho que essa é um pouco a função dos grandes assuntos, né?

Que é o futebol, é o samba, é que são aquelas coisas que nos conectam. E eu falei de Carnaval porque a Globo também era o lugar da transmissão, assistia. E acho que ainda é um pouco, mas perdeu um pouco, infelizmente, porque até o Carnaval foi bem politizado, né? E tem gente, provavelmente bolsonarista, direita, que diz que não gosta. Mas isso não existia muito nos anos 90, 2000. Todo mundo acompanhava os desfiles e torcia. E assim, tem, é curioso mesmo, porque eu acho que o Brasil é um país Nesse sentido funciona muito bem por causa dos seus assuntos tradicionalmente.

Isso funciona no Brasil, inclusive no Brasil funciona, não precisa. Então, coisa que não funciona no Brasil são os monotemas que as pessoas se encontram e falam daquilo, né? É o futebol, o carnaval, era a novela. E acho que todos eles é uma das coisas que mais me entristece, é pensar que esses nossos interesses em comum foram sendo dilapidados e hoje já não é possível encontrá-los, sabe? A novela certamente foi Infelizmente, porque eu acho que eu tenho maior orgulho da nossa produção novelheira também.

A gente fazia tão bem assim, a gente exportava para o mundo inteiro, né? Então tem pena da novela e do futebol. Carnaval acho que ainda segue firme e forte, mas o futebol também perdeu o seu protagonismo.

AOAlessandra Orofino

Não, mas o Carnaval como fenômeno midiático perdeu, Greg. Não perdeu como experiência coletiva de festa e tal, mas O fenômeno televisivo perdeu, claro que perdeu, perdeu totalmente. Como fenômeno midiático, perdeu.

GDGregório Duvivier

A gente tá tendo muito pouco futebol. Só explicando, eu tô falando do futebol, não é que as pessoas não se interessam mais por futebol, tô falando futebol brasileiro. Eu acho que as pessoas infelizmente estão vendo cada vez mais Champions League, estão vendo cada vez mais.

AOAlessandra Orofino

Eu acho uma tristeza, eu acho fratura, fratura a atenção, porque uma final de Champions League nunca vai ser esse fenômeno massivo que todo mundo assiste, todo mundo comenta da mesma maneira, ainda que seja um fenômeno midiático. Grande. Tem uma coisa que é, em países onde a fragmentação da mídia aconteceu mais rápido do que aqui, em que houve essa, essa perda da fogueira da aldeia, né? É um pouco isso que a gente tá querendo dizer, né?

É o fogo da aldeia assim, onde todo mundo se reúne no fim do dia para ver a mesma fogueira. Em países em que isso aconteceu antes, houve uma tentativa de fabricação artificial desses momentos para fins publicitários. Porque uma coisa que se perde quando você perde esses fenômenos massivos é que para um certo tipo de anunciante isso é muito ruim. Não para todos. Tem anunciantes que gostam de um espaço midiático mais fragmentado porque isso facilita a hipersegmentação.

Você consegue falar exatamente com o consumidor que você quer, do jeito que você quer. O próprio fenômeno de BATs como grandes anunciantes desse novo ecossistema de mídia brasileiro tem a ver com isso também. Porque as bets, tudo bem ser fragmentado, né, e você vai anunciar de maneiras diferentes de acordo com o público. Mas para aquele tipo de marca que se quer também como cara de um país, ela quer falar com o país inteiro, a ausência dessas grandes tribunas ela é um problema.

Então nos Estados Unidos o que eles fizeram foi o deslocamento desse espaço unificador para publicidade. E aí o maior exemplo disso é o halftime show do Super Bowl, né? Então você tem a final da grande liga deles, e como a própria final em si como fenômeno esportivo já não era mais tão atraente, o show da final se torna um grande evento, um grande evento midiático. E ele é fabricado para caber naquele intervalo, mas ele é fabricado sobretudo para caber naquele intervalo e logo na sequência você ter as propagandas.

E você tenta hypar as próprias propagandas como se as propagandas fossem elas mesmas peças de arte que precisam ser vistas e debatidas e fomentadas. Então você tem marcas investindo muito dinheiro nessas propagandas. E foi curioso que nessa final da Copa do Mundo eles tentaram criar o mesmo modelo midiático para Copa, né? Então enfiaram ali um show do intervalo com Madonna, com Justin Bieber, Shakira, aliás, o BTS. Era uma quantidade de celebridades num espaço de 12 minutos que eu não sei nem como que isso aconteceu.

Cada um fez uma aparição de 20 segundos. E com isso, inclusive, alargaram o tempo do intervalo, né, que virou um intervalo de meia hora, que eu acho que é meio ruim para jogo. Então, em detrimento do jogo, eles tentaram dar uma centralidade para— não acho que foi bem-sucedido, tá? Foi a primeira tentativa de se fazer isso em Copa do Mundo, que eu saiba. Não me parece ter sido particularmente bem executado ou bem-sucedido, mas chama atenção.

E tem vários elementos assim nessa Copa, né, Greg? Eu não sei se você também se incomodou ou reparou, mas eu fiquei muito, muito intrigada pela americanização, assim, esse take americano sobre a Copa. Então coisas como a presença de música nos estádios muito alta, de música pop, muito alta em todos os intervalos. É muito estranho, eu acho também, porque você tem que ouvir na hora do futebol é a torcida, né? Assim, sei lá, é estranho para mim. Aí tem pausa hidratação, aí tem 500 publicidades na pausa hidratação.

GDGregório Duvivier

Toda vez que vai para celebridades também americanas Acho muito deprimente que eles, Timoti, Xalamê, que vem o jogo assim, eles veem o jogo igual se vê beisebol, ou se vê, eu acho que basquete também se vê assim, né? Então vem sentadinho assim comendo cachorro-quente, como quem tá na sala de casa. E o futebol, o torcedor brasileiro ou argentino também, justiça seja feita, ele vem em pé berrando, ele vem em pé em cima um do outro.

Aí agora, cara, acho muito deprimente esse torcedor americano sentadinho comendo sempre, ou no celular, falando meio para o celular. Tomando um vinho. Bom, que bom que essa Copa acabou. A gente nem queria ter ganhado mesmo.

AOAlessandra Orofino

Era isso, nem queria.

GDGregório Duvivier

Azul, acabou a Olimpíada.

AOAlessandra Orofino

Estamos falando de Copa esse ano, mas não é a última vez que a gente vai falar de fragmentação do espaço midiático. Então isso a gente vai continuar, e nem de IA. Agora, Greg, a gente não respondeu a sua pergunta. Antes da gente encerrar, queria saber a sua opinião. Você acha que as pessoas acreditam no Lula falando vou te entregar um carro, ou elas, ou isso nem vem ao caso mais no mundo da IA?

GDGregório Duvivier

Ótima pergunta. Eu acho que esse acreditar é um verbo complexo, porque é um pouco aquela pergunta, né, se os gregos acreditavam em seus deuses. É assim, que que eu acho que é complexo mesmo, porque se você, são pessoas, ninguém é tão burro, só Para, você acha que o Lula vai pegar o carro? Ele agora vai parar o que ele tá fazendo? Ele vai dirigindo, vai deixar um carro na sua porta só porque você comentou? Eu acho que se você fosse fazendo perguntas, a pessoa fala assim: não, né, não ia.

Mas ela quer acreditar, então ela meio que acredita, ela vai que ir, ela escreve ali. Talvez tem alguém que tá escrito zoando, né? Eu acho, eu acho que o acreditar é sempre uma, uma, assim, é multifacetado, né? Eu assim, eu já acho estranho isso com alguém. Eu acredito em Deus, para começar, né? Você acredita em Adão e Eva? A pessoa acredita em Adão e Eva? A pessoa que é realmente fervorosa, ela acredita que Deus criou um homem, depois ele tirou a costela?

AOAlessandra Orofino

Pouca gente acredita literalmente na Gênese. É, tem gente que acredita, porque tem gente que tem uma interpretação dogmática da Bíblia, mas acho que é uma minoria no fundo. Sinceramente acho.

GDGregório Duvivier

Mas as pessoas gostam de fingir que acreditam, gostam de falar Adão e Eva, gosta de falar Deus não fez Adão e Ivo. Elas gostam de fazer esse cosplay de algo que dá vontade de falar assim: calma aí, para aí, para, para, para. São Jorge, puta história linda, mas você acha que realmente existia dragão então no mundo? Existia um dragão? Onde que era esse dragão? Cadê a ossada? Cadê o fóssil? Ele vai falar: é, não, não. A pessoa vai perguntar, mas ela vai contar a história, vai se emocionar, ela vai ter imagem, ela vai vai acontecer, né?

Então acho que é meio isso também. As pessoas acreditam, elas gostam de acreditar, né? Ou de— elas acreditam que acreditam. Uma coisa meio complicada de explicar assim. No fundo é o famoso me engana que eu gosto, é uma expressão que tinha já, que a gente usava muito. Me engana que eu gosto, quando você tava duvidando de algo. E eu acho que no fundo é meio isso aí, assim, vai, me engana aí, me engana que eu tô louco para ser enganado.

As pessoas pegam o celular já para ser Então elas meio que gostam de acreditar que é mentira. Tem um termo engraçado que a gente usa em roteiro, que é suspension of disbelief, né? Os caras de roteiro chamam, os professores de roteiro gringos, que é a suspensão da descrença, que é algo que acontece em geral ali nos primeiros minutos de filme, se o filme é bom. Quer dizer, demora um pouco mais, uns 10 minutos, que você deixa de pensar que é um filme, você passa a acreditar na história.

Todo mundo é uma delícia quando isso acontece, né? Quando o filme é ruim, isso não acontece. Esquece. Você nunca esquece que aquilo é um filme que foi filmado, e o ator é ruim e tal. Os bons atores, os bons filmes, eles fazem você esquecer por alguns minutos que aquilo é um filme. E o que eu sinto é que com a internet de hoje, as pessoas, elas esquecem em 3 segundos assim.

AOAlessandra Orofino

Elas, ou elas não precisam mais esquecer. Talvez isso não seja mais necessário. Eu não sei se elas esquecem, porque, por exemplo, um outro fenômeno de fragmentação da atenção que a gente não comentou é o fenômeno das novelinhas verticais.

GDGregório Duvivier

Novelas.

AOAlessandra Orofino

Você já viu uma novelinha vertical, né?

GDGregório Duvivier

E o fim da novela das frutas, das frutas, mas não só das frutas.

AOAlessandra Orofino

Tem muito novela meio coreana, japonesa, aí tem várias indústrias. Isso tá chegando no Brasil e é novela às vezes com atores mesmo, não são umas frutas, não é IA, é filmado. É quase todas tem um enredo bem básico assim, tem muita história de Não, tem muito uma coisa mais deprê, tem muito, muito, muito rags to riches, né, que é da pobreza para riqueza, em geral através de um casamento. Então tem assim muito assim, eu casei com um bilionário, é muito, isso é super popular.

A mulher que casa com o cara mais rico, tem a outra que quer o cara mais rico que a mulher casou, enfim, é essa história, é meio Cinderela, né. E isso, isso é muito comum. E tem uma coisa muito peculiar das novelinhas verticais que elas são completamente inverossímeis. A história é inverossímil, mas a atuação é inverossímil, o cenário é inverossímil. Elas têm baixo valor de produção, então é tudo meio mal feito. E é impossível você ter uma suspensão da descrença nesse contexto, não é realmente possível.

Você tá vendo aquilo, você tá entendendo que aquilo é uma encenação. Não existe possibilidade de você— isso que você tá descrevendo, que é quando você entra no enredo, né, Greg? Quando você não consegue, quando você fala com personagem na tela. Então, de alguma maneira, você esquece por alguns segundos que aquilo é uma ficção, que é uma— é muito gostoso porque é uma relação quase infantil também com o Henrique.

GDGregório Duvivier

Criança vendo teatro infantil é assim, né? Cara, como é que— obviamente é um cara com— ele não tá nem vestido de lobo, às vezes é só com uma máscara de lobo. A criança tá morrendo de medo, ou então grita quando o lobo aparece atrás. Ele tá atrás de você. É, né? Assim, a criança embarca em um segundo em qualquer história assim. E eu acho que isso daí é a prova de que a gente também infantilizado cognitivamente. Essa é a verdade.

Acho que a gente tá, a gente tá virando cada vez mais sedentário cognitivo, né? Que é algo muito importante a se falar. Vale um Greg News, vale um Calma Urgente inteiro sobre sedentarismo cognitivo. A ideia de que a gente parou mesmo de malhar a cabeça, então tá tudo entregue na nossa cabeça pronto graças à IA e tal. E a gente parou de duvidar e parou de desconfiar mesmo, que é esse exercício de se fazer. Acho que a gente tá muito, muito sedentário.

Isso é muito, cara, isso é muito apavorante mesmo. Acho que a grande doença do século para mim é o sedentarismo cognitivo, é doença do século de o que está por vir. E é que vai causar todo tipo de carga, já está causando e vai causar muito mais, né?

AOAlessandra Orofino

Então, mas esse fenômeno de que não é necessário acreditar para acreditar, eu acho que é resultado de sedentarismo cognitivo também, mas é também uma espécie de, ela se aproxima muito, e é bom que você tenha comentado, falado de discurso religioso, porque ela realmente se aproxima muito do discurso religioso. E aí acho que eu já vou me encaminhar para minha recomendação de livro, porque tem a ver com isso. Eu já falei aqui no Calma Urgente sobre esse livro, eu vou falar de novo, Na verdade, um livro não, perdão, tem um artigo e depois tem um livro que foi fruto desse artigo.

Ambos estão em inglês, ambos são meio acadêmicos, então não são livros feitos para consumo assim de grande público, mas vale a pena buscar. Tem um que é de um pesquisador que eu gosto bastante, que é o Neil Van Leeuwen. Eu não sei se eu tô pronunciando o nome dele direitinho, mas o artigo se chama Religious Credence Is Not Factual A crença religiosa não é crença factual. E depois ele escreveu um livro chamado Religion as Make-Believe, que ele publicou em 2023, A Religião como Faz de Conta.

E aí, basicamente, o que ele diz, Greg, é que a crença factual— tem dois modos de crença. Ele fala da crença factual e do que ele chama de credência religiosa, ou crença religiosa, né, religious credence. Então, a crença factual, ela é involuntária. Você não escolhe achar que choveu. Se choveu e você viu a chuva, você acha que choveu, você viu a chuva. E a crença factual, ela é vulnerável à evidência, ela muda ou ela some quando os fatos mudam, e ela conversa com o resto do que você sabe.

Então, se eu sei que se eu jogar o copo no chão ele quebra, as outras coisas que eu vou acreditar sobre o mundo, elas vão estar em diálogo com essa coisa que eu já sei, que eu já consolidei como algo que eu sei. Então, isso é um tipo de crença. Que ele chama de crença factual. A crença religiosa, ela funciona de— e ele fez pesquisa sobre isso, né, de análise cognitiva, etc. Ela funciona de uma maneira muito diferente. Ela é muito mais voluntária, ou seja, você decide crer, que é diferente de você simplesmente crer porque você viu ou porque você foi confrontado ao fato.

Ela é voluntária, ela resiste à evidência factual, e ela se ativa em contextos específicos. Ela não necessariamente precisa estar ativa o tempo todo. Então, é o contexto da missa, do culto, da oração, é momento de crise, é quando você sabe aquela pessoa que não acredita em nada, mas na hora que tem uma tragédia acontecendo ela vai e reza, ou na final de uma Copa do Mundo ela vai e reza. É a crença, ela se ativa nesses momentos específicos.

E ela serve principalmente, a principal função social que o Van Nuwen encontrou para crença religiosa é marcar a identidade do grupo. Ela é um marcador de identidade do grupo. Então tem uma coisa aí que eu acho que tem a ver com como as pessoas se relacionam com esse vídeo de ia do Neymar ou com o vídeo de diá do Lula, elas estão ativando o modo da crença religiosa e não o modo da crença factual. Não se trata— por isso que não é vulnerável à evidência, por isso que não guia a ação em qualquer contexto, e por isso que tem tanto de identidade política envolvido.

Porque no fundo elas estão acreditando naquilo como maneira de se enturmar, de significar. Elas precisam significar, elas precisam sinalizar que elas acreditam para sinalizar pertencimento. E é uma escolha crer naquela, naquilo, naquele vídeo de ar. Isso é muito, acho que é muito precioso para a gente pensar em política e pensar em como as pessoas estão se relacionando com informação. E é por isso que a coisa de revelar a verdade sobre desinformação, você falar não, isso aqui não é verdade, ou isso aqui é fake news, ou isso aqui não funciona muito quando você tá em contexto né, de pertencimento político muito marcado, como é o contexto do Brasil, porque não se trata disso.

A crença religiosa não é vulnerável à evidência. Então não se trata de mostrar as evidências. Inclusive, o Van Loon, ele argumenta que a crença religiosa ela funciona melhor justamente quando ela não tá apoiada em nenhuma prova, né? Que é basicamente um dogma que virasse fato comprovado, ele perderia a função de teste de pertencimento.

GDGregório Duvivier

Você sabe que fizeram um teste ali? Fizeram um teste, desculpa interromper, com pessoas que estavam, enfim, estavam geral acho que espalhando desinformação. Era sobre desinformação o teste, e davam para essas pessoas uma informação que a pessoa tinha que dizer se era verdadeira ou falsa. Um grupo não valia dinheiro Tá, e o outro valendo dinheiro. A cada resposta certa você ganha R$100, tá. E o grupo valendo dinheiro sabia exatamente, quando valia dinheiro, a pessoa sabia exatamente que era verdade, que era mentira, entendeu.

Se você perguntar para um bolsonarista assim, quem foi o presidente que mais reduziu desigualdade na história do país? Ela vai falar Bolsonaro, ou ela vai falar Médici. Agora tá, não, tá bom, valendo R$100. Luiza Inácio, ela vai falar, aquilo vai ser publicado lugar nenhum, vídeo. Então ela não vai, se ela não vai perder nada com o grupo dela. Mas se você sabe, se você, a pessoa sabe qual é a resposta certa, ela sabe, as pessoas sabem que uma informação é falsa no fundo.

Então a expressão do Chico Buarque é: no fundo, falso do coração. Ela sabe no fundo falso do coração.

AOAlessandra Orofino

É isso aqui, eles mostram em pesquisa, é exatamente isso. É muito fascinante. E é por isso que não se trata de dissuadir a pessoa, se trata de outra coisa. E é por isso que uma pessoa pode— ele fala de dois mapas de verdade e que você consegue carregar contradições. E aí você fala do valendo dinheiro, me lembra a conversa que a gente tava tendo sobre betes e futebol. É por isso que de alguma forma apostar no resultado do jogo é tão estranho para um torcedor, porque você tá ativando dois mapas muito diferentes.

Em um, você tá realmente tentando usar evidências de alguma maneira, e você muitas vezes erra porque você é muito menos inteligente ou capaz de avaliar evidências do que você acha que você é, e também porque tem muito mais de absolutamente arbitrário em resultado de jogo do que você pensa. Mas em todo caso, você tá fazendo um esforço de, a partir das evidências, aferir corretamente o resultado de um No outro caso, você acredita que o seu time vai ganhar porque você acredita que seu time vai ganhar, entendeu?

E você acredita de verdade. Mas se alguém falar assim, não, mas valendo R$10 mil, seu time vai realmente ganhar? Aí você meio que para de acreditar. Então tentar jogar no mesmo evento essas duas maneiras de se comportar ou de se relacionar com a evidência é péssimo para o lado religioso, que é muito gostoso de sentir também, né, no caso do futebol ou de outras coisas.

GDGregório Duvivier

Perfeito, perfeito.

AOAlessandra Orofino

Eu vou indicar, você tem uma dica?

GDGregório Duvivier

Eu tenho. Já que eu tô aqui fazendo turnê nordestina, eu queria indicar um livro que tá esgotado, mas dá para encontrar no Estante Virtual, que é maravilhoso. Eu tô relendo agora o Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, livro espetacular do Orlando Tégio, que foi quem, esse jornalista incrível que morreu há pouco tempo, e foi quem mais divulgou essa figura do Zé Limeira, que é uma espécie de Homero Homero do sertão, Homero do cordel, assim, o repentista do absurdo, que um monte de gente sabe um monte de poemas dele de cor, mas até hoje ninguém sabe direito se ele existiu, quando existiu, quem foi.

Ele é um homem, se mistura com a lenda. E esse livro é espetacular porque Orlando Tégio conta, enfim, conta e talvez invente essa mitologia em torno do Zé Limeira. E é um pouco isso, você não sabe o que é verdade, que não é uma delícia acreditar nisso. Interessa, você pode escolher acreditar, porque é um grande mito. É lindo, lindo. Imagina um poeta analfabeto que ganhava todas as batalhas de repente no início do século 20, e que tem alguma coisa de verdade, que tem poema.

A gente conhece alguns versos: ano passado eu morri, mas esse ano não morro. Zé Limeira, que o Belchior retoma. Então tem vários versos que tu sabe que são lindos. Era um grande poeta, mas analfabeto, e com muita coisa que talvez não fosse dele, ou talvez ele— enfim, é um grande, é um grande dúvida. E eu publiquei um livro que é o Zé Limeira, que tá saindo agora, que em cima desse livro infantil para crianças, que é a partir do mito Zé Limeira para crianças, assim, o menino que—

AOAlessandra Orofino

ai, que maravilhoso!

GDGregório Duvivier

É Zé Limeira, tá sendo agora pela Elo. Então vou lançar em Pernambuco, lançar no Recife, Campina Grande, João Pessoa, o Zé Limeira. Tomara que vocês gostem. Para quem tiver crianças vai curtir, porque meus filhos adoram rimar, adoram, adoram brincadeira de rima, e o livro é sobre isso assim, é sobre um menino que era viciado em rimar. É isso, gente.

AOAlessandra Orofino

Então eu tenho mais um enorme para vocês. Antes que você dá o beijo, não, eu tenho um anúncio de utilidade pública para quem nos assiste. Então vou fazer, que é o seguinte, gente: esse ano o TSE— eu vou repetir isso no episódio que vem, tá? O TSE pela primeira vez tá aceitando que você registre voto em trânsito, a intenção de votar em trânsito, online ou pelo aplicativo lá do e-Título, né? Então você pode basicamente dizer que você vai estar fora da sua cidade ou do seu estado no momento da votação.

Eleição. Então, se você é alguém que não vai estar na sua cidade onde você tem o seu registro, ou eventualmente você se mudou mas esqueceu de transferir o título e agora tá tarde para transferir o título, já tá tarde para transferir o título de maneira definitiva, mas não está tarde para transferir só para essa eleição, para registrar sua intenção de votar em trânsito. Dá para fazer pelo aplicativo do TSE, pelo site do TSE, até o dia 20 de agosto.

Então, a hora de fazer é agora. Não espere até o último minuto. Nós precisaremos de todos os votos que conseguimos ter no pleito de outubro. E se você tá ouvindo Calma Urgente, acho que tem grandes chances de você tá com boas intenções de voto nesse outubro. Então, por favor, se registre, não deixe de votar. É isso, essa é minha utilidade pública.

GDGregório Duvivier

Gostou? Amei, perfeitíssimo.

AOAlessandra Orofino

Tchau, Greg, boa peça.

GDGregório Duvivier

Um beijo, gente, até mais. Obrigado, até já.

AOAlessandra Orofino

Tchau, tchau, tchau, tchau. O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção temos Carolina Foratini Greja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Toni Costa. Na pesquisa e roteiro, Luísa Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro e Noe. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.

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