O Irã e a Teocracia Americana
O ataque ao Irã e o colapso moral dos EUA. Fim dos tempos ou fim do mundo pós-2ª Guerra?
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O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções @peri.prod e Estúdio Fluxo
Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra
Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo
Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez
Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_
Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha
Na sonoplastia, Felipe Crocco
Na Edição de Cortes, Julia Leite
Nas Redes Sociais Bruna Messina
Na gestão de comunidade, Marcela Brandes
Identidade visual, Pedro Inoue
Consultoria de Comunicação, Luna Costa
- Operacao Epic Fury Iran-EUAAssassinato do Ayatollah Khamenei · Ataque aéreo israelita-americano · Retalição iraniana · Impacto econômico global · Cessar-fogo diplomático quebrado
- Teocracia nos EUAPete Hegseth como Secretário da Guerra · Christian Reconstructionism · Sionismo cristão · Religiosidade fundamentalista no governo · Tatuagens das Cruzadas · Linguagem apocalíptica · Comparação com Irã
- Bombardeio da escola em MinabeMorte de crianças de 7-12 anos · Táctica de double tap · Responsabilidade americana · Mísseis Tomahawk · Intenção vs. erro
- História das intervenções americanas no IrãOperação Ajax de 1953 · Derrogação de Mossadegh · Golpe de Estado contra democracia iraniana · Instalação do Shah Reza Pahlevi · Auditoria de royalties de petróleo britânico · Papel de Churchill e CIA · Polícia secreta SAVAK · Revolução Islâmica de 1979
- Conflito no Estreito de Ormuz20% do petróleo mundial passa diariamente · Dependência japonesa (70%), indiana (40%), sul-coreana (75%) · Bloqueio potencial pelo Irã · Ataques a navios petroleiros · Convite de Trump para proteção multilateral · Recusa de países em participar · Poder político do Irã via energia · Negociações diretas entre países e Irã
- Consumo de munição e capacidade militar americana800 interceptadores Patriot gastos em 5 dias · Comparação com consumo russo-ucraniano total · Movimentação de defesa da Coreia do Sul para Oriente Médio · Estoque abaixo do necessário · Dificuldade de reposição de munição · Redução de analistas de 2 mil para 20 · Uso de IA em geração de alvos
- Conflito EUA-IrãOperação Ajax (CIA e MI6) · Deposição de Mossadegh · Instalação do Shah Reza Pahlevi · SAVAK (polícia secreta) · Ditadura 1953-1979 · Revolução Islâmica · Tomada de embaixada americana
- Cobertura midiática e dissonância cognitiva ocidentalMídia mainstream americana relutância em admitir intencionalidade · Racismo introjetado na cultura ocidental · Vidas iranianas valem menos midiaticamente · Comparação com cobertura de Gaza · Mídia independente vs. mainstream · Novo ambiente digital de informação · Ceticismo sobre 'erro de IA' · Bode expiatório da tecnologia
- Disparidade moral ocidental em cobertura de guerraVidas iranianas como menos valiosas · Comparação com Gaza · Mídia mainstream americana · Recusa de admitir intencionalidade · Racismo introjetado · Cobertura seletiva
- Projeto expansionista israelenseDeclarações do Netanyahu sobre 40 anos de projeto · Embaixador Huckabee e direitos bíblicos · Expansão territorial do Nilo ao Eufrates · Sionismo cristão como justificativa · Forçamento da mão ao Trump · Independência estratégica de Israel · Carta de intenções do Likud · Radicalização pós-outubro de 2023
- IA Operacoes MilitaresSistema Palantir MavenSmart · Geração automática de justificativas legais · 1000 alvos em 24 horas · Redução de analistas de 2000 para 20 · Bode expiatório conveniente · Banco de dados desatualizado
- Cinismo e mentiras da administração Trump sobre o ataqueAcusação inicial de que Irã bombardeou escola · Declaração no Air Force One · Desmentida por Bellingcat · Confirmação por New York Times · Resposta 'I don't know about it' · Identificação de mísseis Tomahawk · Enrolação sobre posse de Tomahawk pelo Irã · Padrão de negação
- Transicao EnergeticaDependência global de combustíveis fósseis · Volatilidade do petróleo · Falta de investimento em renováveis · Substituição por combustíveis fósseis mais danosos · Soberania energética · Preço do petróleo em alta · Lucro de empresas petrolíferas · Apocalipse secular do aquecimento
- Racionalidade estratégica vs. retórica de regimesIrã como ator racional estrategicamente · Ausência de ataques a escolas iranianas · Seleção de alvos militares estratégicos · Comparação de inteligência estratégica · Dissonância ocidental com superioridade moral · Vocabulário político inadequado · Revisão de categorias políticas ocidentais · Pragmatismo vs. ideologia
- Arma química e história de apoio americano a SaddamGuerra Iran-Iraque (1980-1988) · Apoio americano a Saddam Hussein · Fornecimento de armas químicas · Contexto pós-Revolução Islâmica · Tentativa de desestabilizar Irã · Escândalo Irã-Contras · Precedente de violação de direitos humanitários
Olá, salve, salve, amigas, amigos, espectadoras, espectadoras do Calmo Urgente. Aqui quem fala é Bruno Torturra, como vocês podem ver ou escutar, não sou o Gregório Duvivier, que está em turnê europeia com a sua peça O Céu da Língua. Então, hoje, seremos apenas eu e Alessandra Orufino. Vem pra cá. Oi, querido. Tudo bem, Bruno? Tudo em cima? Tudo certo, na medida do possível. Na medida do possível. É, tudo certo, sei lá.
Não, depois de me preparar pra pauta de hoje, eu fiquei levemente deprimida, confesso. Minha fé na humanidade foi abalada. Mas é isso. Estou tentando seguir. Vamos falar disso, que a gente nunca prometeu que o Calma Urgente é um programa pra levantar os espíritos. Mas é pra gente falar com calma sobre alguma dessas coisas que deixam a gente com o coração e com a cabeça bem ansiosos. E o tema de hoje é a guerra no Irã.
e israelense ao território iraniano, que foi um assunto que a gente falou muito pouco no Camo Urgente que a gente fez há duas semanas, quando a gente se encontrou ao vivo. A gente tinha uma outra pauta para falar de inteligência artificial e a guerra começou na sexta, a gente não teve tempo de preparar, de se informar e a gente não falou muito sobre essa guerra e acho que foi bom a gente não ter falado para a gente ter mais informação, a gente ver o andamento, ver como a coisa ia evoluir e hoje é sobre isso que a gente vai se aprofundar
um pouco mais. E como a Alessandra disse, é um aprofundamento bastante deprimente, né? O que você está prestando atenção no caso, Alessandra? Quando você viu a nossa pesquisa que a Luísa fez, o que te saltou mais na sua revolta e na sua depressão? Na minha revolta. Não, acho que tem algumas coisas, né? Algumas atualizações em relação a essa conversa que a gente iniciou nesse Calma Urgente de duas semanas atrás. Então, se você não foi lá escutar, eu aconselho que escute. Mas tem muitas atualizações que são importantes, né? Então,
dando contexto pra quem tá embaixo de uma caverna e não tá acompanhando. A gente tá com esse conflito atual que foi batizado pelos Estados Unidos de Operação Epic Fury. E eu tô trazendo o nome porque eu acho que tem um tanto que é revelador. Primeiro que eles batizem uma operação dessa forma, um pouco que nem Polícia Federal, sabe? Mas o nome é meio marqueteiro. Epic Fury é Fúria Épica. E é esse nome meio de game, né? Poderia ser um novo lançamento de RPG, sei lá. É muito estranho como...
nome, e ele claramente quer se comunicar com um público muito distinto com esse nome. Eu diria que é a segunda rodada de um conflito, não é um conflito novo, é uma segunda rodada do conflito que se iniciou no ano passado, que ficou conhecido no ano passado como a Guerra dos Doze Dias, e durante esse período os Estados Unidos atacaram as instalações nucleares, ou supostas instalações nucleares iranianas, e Israel bombardeou vários alvos militares, e esse conflito terminou com um cessar-fogo. E a guerra atual, ela se inicia no meio de
negociação que já estava acontecendo com times diplomáticos dos dois países, aliás, dos três países. Então, foi um ataque surpresa que, muito literalmente, explodiu as negociações, que logo de cara começa com o sucesso do ponto de vista militar, do ponto de vista dos Estados Unidos, que é o assassinato do Ayatollah, Khamenei, e de cerca de 40 autoridades iranianas, logo nas primeiras 24 horas, mas que também, ao decapitar o regime, os Estados Unidos ficam
sem uma saída diplomática clara. E aí o Irã retalia, e retalia a avaliação que se faz hoje, é que ele retaliou, o Irã está retaliando de maneira muito mais competente também, do ponto de vista do Irã, do que tinha sido previsto pelo Trump. Então, eles estão conseguindo retaliar, claro que eles são a parte mais fraca desse conflito, evidentemente, até por não ter arma nuclear, mas eles estão conseguindo tocar um terror na região ali, de uma maneira que os Estados Unidos não previram,
E isso está criando uma situação de impacto econômico, impacto humano muito grave, mas também de um impacto político para o Trump. A avaliação que eu faço, pelo menos, é de que ele e seus psicofantas de plantão, seus puxa-sacos profissionais, não tinham previsto essa reação. E não acreditavam mesmo que o Irã fosse capaz, por exemplo, de impedir a passagem pelo estreito de Hormuz. Apesar disso ser muito dito por todos os analistas,
que eles estavam ali numa espécie de bebedeira orgulhosa pós-Venezuela, de que eles seriam capazes de fazer o que eles quisessem com qualquer país do mundo, rapidamente, sem grande custo humano para os Estados Unidos e sem grande custo financeiro ou militar ou econômico para a economia global e para a própria economia americana. O que já não é o caso. Então já é uma guerra que está mais ruidosa do que o que eles tinham previsto.
Agora, o grande escândalo da guerra, só para responder a sua pergunta, Bruno, do que me choca,
O bombardeio da escola em Minabe, que aconteceu logo no primeiro dia de guerra, então no dia 28 de fevereiro, já tinha acontecido quando a gente gravou nosso último Calma sobre esse assunto, mas ainda tinha muito pouca informação sobre esse bombardeio quando a gente gravou o Calma, né? O bombardeio foi num sábado, e a gente gravou numa segunda, e até então não havia muita informação sobre o que tinha de fato acontecido. A gente sabia que era uma escola primária, que esse bombardeio tinha vitimado sobretudo meninas muito jovens, de 7 a 12 anos,
de quantas meninas tinham morrido no ataque, quantas crianças tinham morrido no ataque. Não tinha ainda uma clareza de que era uma responsabilidade de fato dos Estados Unidos, apesar de todos os indícios apontarem para isso. E a gente não sabia de um detalhe muito essencial para avaliação do que aconteceu, que é de que muito provavelmente foi um double tap, que é quando você faz dois ataques no mesmo local com um intervalo de tempo razoável.
para que você, no primeiro ataque, mate pessoas, e no segundo ataque, você mate as pessoas que estão tentando resgatar ou socorrer os feridos do primeiro ataque. O que dá um grau de perversidade para esse ataque, conduzido pelos Estados Unidos no Irã, é extremamente chocante, e acho que abre uma conversa aí que a gente pode ter, Bruno, sobre como isso está sendo reportado, como isso está sendo retratado, sobre a participação de IA também, e por aí por diante. Eu acho que é importante falar que esse que você falou, o double tap,
que é você ataca, espera a resposta e ataca novamente, ele é tradicionalmente uma tática terrorista, não uma tática militar de países que se consideram a parte racional, que respeita leis de guerra e que tem um exército estruturado. É da parte que lida como terrorista, que é para maximizar dano e acabar com a estrutura de resgate e, mais importante, impor terror,
na população, que já está lidando com uma situação impensável, um ataque em uma escola, e aí você ataca novamente os pais, as ambulâncias, os bombeiros, a imprensa. Mas colocando que essa escola, muita gente tem dificuldade de admitir que ela possa ter sido atacada intencionalmente como uma escola. Isso no Ocidente é muito comum. As pessoas sempre assumem um erro do Ocidente,
porque não lhes parece possível que o mundo das repúblicas seculares e democratas, elas vão fazer uma coisa que é atribuída só aos bárbaros e aterroristas. Mas vai ficando claro que tem uma chance muito significativa deles saberem que é uma escola, ter sido intencional, porque esse double tap, possivelmente ele estava se referindo aos pais dessas crianças que estudavam nessa escola,
é famílias de militares iranianos. Então, talvez não seja simplesmente o terror clássico de atacar as ambulâncias e a população com mais gente ali, mas possivelmente de ver os pais se movimentando ou uma movimentação que daria não só dados estratégicos para pegar alvos militares, mas assassiná-los ali no local mesmo. Na sua tentativa de resgatar seus filhos.
suas filhinhas. As suas filhinhas, crianças, meninas. Não fica muito mais cruel do que isso, quando você avalia o tipo de ataque que foi feito. Tem uma questão aí, se foi IA ou se não foi, a gente nunca vai saber disso. Porque pra ter essa informação, precisaria de um tipo de vazamento que não tá disponível, sobre que tipo de tecnologia, tipo de decisão que foi tomada lá. Mas o que a gente sabe já, até por conta da briga que deu antes, é que a inteligência artificial ainda não tem autonomia
decisão de mandar a bomba no alvo. Então mesmo que o alvo tenha sido selecionado com o uso de inteligência artificial, com certeza houve uma análise, uma decisão e uma mão humana que mandou não uma, mas as duas bombas que atacaram essa escola com intervalo de tempo. Então isso é muito importante de colocar, mesmo que a IA esteja envolvida. Tudo indica que foi um intervalo de 40 minutos, que é um intervalo clássico de double tap, que é exatamente o tempo que você precisa para que equipes de resgate cheguem.
Mas não tempo suficiente pra que elas já tenham saído do local. Então você ainda não terminou uma evacuação, mas você permitiu que as equipes de resgate chegassem. É de uma... Ai, Bruno, eu não sei. Essa história acabou comigo, então eu tô meio pouco eloquente em relação a isso. Eu queria só trazer duas informações. Uma é que o Trump, logo inicialmente, falou que o ataque na escola tinha sido feito pelo próprio Irã. No dia 7 de março, ele faz uma declaração ali no Air Force One, né? Que é aquele formato clássico que ele tem usado.
Ele tem formato de programa, né, o Trump? A comunicação dele é muito formatada. É televisão, né? Então, um programa dele, um pouco como o Bolsonaro fazia com o cercadinho, né? Que, aliás, falta ao Lula uma comunicação formatada assim. Mas isso é uma outra conversa. É ele no avião, né? Na porta do Air Force One. E aí, é ele ali no avião. E ele fala, não, na minha opinião, baseado no que eu já... É muito maravilhoso que ele fala, na minha opinião, como se ele não fosse o presidente dos Estados Unidos. Como se ele fosse um pitaqueiro, tipo a gente.
no Camus, gente. Na minha opinião, isso foi feito pelo Irã, porque eles são muito pouco precisos com as suas munições, então ele tenta deslocar a culpa pro Irã. Depois isso é completamente desmentido, tem uma agência de inteligência de jornalismo investigativo chamada Bellingcat, que é muito competente, que faz uma primeira apuração e depois isso é corroborado pelo próprio New York Times, pela CNN, enfim, pela própria imprensa tradicional americana, apontando culpa americana no ataque.
E aí quando o New York Times faz a primeira pergunta pra ele falando, olha, a gente viu que a culpa é de vocês, ele fala, eu não sei nada sobre isso, I don't know about it. É de um cinismo. E tem um jornalista que fez uma pergunta muito esperta, muito inteligente, porque o que se acabou confirmando que foram os Estados Unidos, não é que veio uma informação de que, ó, fui eu que taquei, não teve um delator. O que acontece é que se confirmou o uso de mísseis Tomahawk.
Que só eles têm. Tomahawks que explodiram. Só eles têm no conflito. Eu acho que nem Israel tem Tomahawk. Não tem.
Então, nos primeiros dias, por ter testemunhado Gaza, por exemplo, na minha cabeça, muito mais provavelmente teria sido o Israel que fez esse ataque, pelo histórico deles de atacar escola, maternidade, hospital, centro de refugiado e por aí vai. Pela crueldade explícita desde 2023 para cá, no mínimo. Mas quando o Tomahawk veio, e aí eles perguntaram isso para o Donald Trump. Falaram assim, olha, mas foi um míssel Tomahawk. O Irã tem Tomahawk? Aí o Trump se enrola na resposta e fala,
isso está sob investigação, a gente não sabe. Aí ele fala assim, então o senhor está admitindo a possibilidade de que o Irã tenha tomahawks? Aí ele, não, não, não, não. Só que assim, eu acho que mais do que admissão ou não admissão, porque cai nessa grande névoa de falta de clareza dos Estados Unidos. Porque quando você colocou no começo que eles não esperavam uma reação assim do Irã, eles imaginavam uma outra coisa, um pouco eu sei que é verdade, um pouco eu acho que eles tacaram numa autoilusão assim de que aconteceu
com o Irã, que aconteceu com a Venezuela, que em duas horas o assunto estava resolvido, que o pessoal ia chegar com o rabo entre as pernas e fazer uma negociação. Estava um pouco deslumbrado com a falta de repercussão que aconteceu na Guerra dos Doze Dias, no assassinato do Suleimani, que ele fez no comecinho de 2020, nos primeiros anos, nos primeiros dias de 20. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que tem uma coisa que é a falta total de clareza estratégica. Não é que o plano deles deu errado,
imaginavam outro exfecho. Porque se você for ver logo no começo das falas de todo mundo, especialmente na do Marco Rubio, mas o presidente da Câmara deles, o equivalente de presidente da Câmara deles, que é o Speaker of the House, eles meio falaram o que estava sendo discutido internamente, que os Estados Unidos se apressou em fazer isso e não tinha clareza, não tinha as linhas militares completamente desenhadas, porque Israel forçou a mão.
Israel disse que iria atacar de todo jeito. Então assim, ou vocês vêm ou não vêm,
vai atacar sabendo que atacaria de qualquer forma. E aí tem uma série de outras implicações, como eu imagino, tem a ver, eu pessoalmente acho que tem a ver com a lista Epstein e com todo o material de compromisso que Israel tem em relação aos políticos dos Estados Unidos, especialmente os que estão no poder hoje, especificamente o presidente. Mas isso é uma outra questão. Agora, o que pra mim é a questão da escola, pra mim mesmo assim, ela é um ponto de partida e é muito sintomático que seja o primeiro, no segundo
dia de ataques, na verdade, que isso acontece. Ela revela algumas coisas, né? Uma, eu acho que é um racismo muito introjetado na cultura americana, até na cultura americana que se considera contra essa guerra. Sim. O New York Times, que você pode dizer que ele é especialmente pro Israel em muitos e muitos casos, mas ele não é um jornal desumano nesse sentido. Eles não são a Fox News, eles não demonizam o Irã. Não, e fez editorial contra o ataque. Contra.
E eles investigam, eles denunciam isso, que é uma coisa que a mídia de direita americana jamais faria. A Fox News nunca teria esse furo. Se eles tivessem esse furo na mão, eles iam enterrar embaixo do tapete e não publicar na primeira página. Mas é muito sintomático não só a reação da mídia americana, mas do Ocidente como um todo. A reação europeia, brasileira, desse mito da superioridade moral do nosso Ocidente,
essa explosão nessa escola repercutiu significativamente menos do que o assassinato de um americano pelas forças do ICE internamente. Você pode até falar que por ser um americano, por ser internamente, tem mais apelo, mas não é isso que eu quero dizer. Houve um indiciamento moral muito mais claro. Houve um sinal de alerta muito mais evidente. Houve a conversa sobre fascismo muito mais clara e mobilizações populares enormes
ao ponto das pessoas irem pra rua e o ICE meio se retirar do espaço onde ele estava depois de dois assassinatos. Explodiu uma escola de meninas. Se isso acontecesse em qualquer lugar do Ocidente, se o Irã tivesse feito isso como escola israelense, ou se uma célula xiita tivesse feito isso com uns aliados americanos na Europa, ou nos Estados Unidos mesmo, a gente sabe que provavelmente essa guerra ia começar a falar abertamente em armas nucleares,
Tem uma grande coalizão de a condenação disso. E, de alguma maneira, a gente está vendo acontecer com o Irã o que aconteceu em Gaza. Essas vidas, midiaticamente, culturalmente e apoliticamente, elas valem muito, muito, muito, muito menos. Mas muito menos. E tem um papel muito interessante da alegação de uso de IA, de que haveria um erro da IA na construção disso que você está descrevendo, que eu chamaria de uma certa dubiedade moral.
em relação à guerra, né? Então, muito imediatamente, 120 congressistas americanos, 120 e poucos congressistas americanos, perguntaram formalmente para o Pentágono, né? Interpelaram o Pentágono perguntando se a inteligência artificial teria sido usada para selecionar esse alvo específico da escola de Minabe. E aí, só um pouco de contexto, né? O Pentágono usa um sistema da Palantir, que é uma das grandes empresas de ar dos Estados Unidos, liderada por um maluco, de quem a gente já falou aqui no...
no Calma, podemos falar mais, eles usam um sistema chamado MavenSmart. E é um sistema muito específico, porque não só ele lista alvos, dando as coordenadas de GPS, mas ele já gera justificativas legais automatizadas. Não se está brincando. Ele já vem com o parecer legal. Ele já vem com o parecer jurídico para você atingir lá o seu alvo. E, supostamente, esse sistema teria ajudado a gerar aproximadamente mil alvos nas primeiras 24 horas de operação dessa operação Epic Fury.
a comparação que a imprensa americana tem feito é que o que teria exigido 2 mil analistas na invasão do Iraque em 2003, agora é feito por cerca de 20 pessoas com auxílio de inteligência artificial. Então, os times ficaram muito menores. 100 vezes menores. É, o que não só tem uma questão de custo, etc., mas isso também torna o dissenso muito mais difícil. Porque é relativamente fácil você encontrar 20 analistas completamente leais à doutrina Trump, ao regime Trump,
e que você pode selecionar com perfeição e ter certeza que ninguém ali vai, não é só trair ou virar um whistleblower, mas ninguém vai levantar o dedo e falar, olha, talvez a gente não devia fazer isso. É bem mais difícil fazer isso quando você precisa de um time de duas mil pessoas, né? E até de whistleblower, vamos falar aqui, mesmo que alguma pessoa nesse lugar tenha alguma crise e é moral, e se veja que se engana, é muito mais fácil você investigar 20, é muito mais assustador você romper com um grupo de 20,
software também é usado contra você. Exatamente. Então, assim, eu estou descrevendo isso porque eu acho que isso traz um pouco de cor pra esse processo, que ele é desumanizador em vários sentidos, né? E aí você tem essas 20 pessoas, portanto, usando essa inteligência artificial, os alvos são selecionados e a hipótese levantada por vários veículos da empresa americana é que o banco de dados estaria desatualizado, a escola se tornou um prédio
lá em 2016, já tem 10 anos, e que esse banco de dados não teria sido atualizado. Eu estou trazendo isso, primeiro porque se isso for verdade, evidentemente isso é um escândalo também gigantesco, né? Você explodiu uma escola de meninas por erro de inteligência artificial. Mas o que eu acho relevante aqui, nem se foi de fato um erro ou não foi, é que a introdução da inteligência artificial no processo, ela cria um bode expiatório muito conveniente, porque você sempre pode dizer que foi um erro de inteligência artificial.
Ainda que você saiba que tem uma revisão humana no final, você está trabalhando com uma espécie de alter ego que você pode culpar muito fácil, né? É um erro técnico. Exatamente. Você transforma em erro técnico, que é uma atrocidade de guerra. Eu não acredito que tenha sido um erro de inteligência artificial. A minha crença, baseada na informação que eu tenho, o double tap, etc., é de que isso foi planejado. De que esse era o objetivo da operação.
Exatamente como você descreveu, Bruno. A operação tinha como objetivo atingir essa escola, matar essas crianças, gerar pânico e terror e, sobretudo, atrair os pais que são militares iranianos para o local da explosão para que depois eles fossem atingidos pela segunda bomba. Essas crianças foram usadas de isca, na minha avaliação. Mas eu acho interessante que, para a mídia americana mais progressista, é insuportável eles admitirem a possibilidade disso ter sido planejado.
sabendo que é o Trump no poder, que é o Reg Seth no poder. Eles não conseguem admitir a possibilidade dessa mancha moral. Então eles precisam acreditar que foi um acidente. Eles precisam. Eu só tenho uma divergência nesse final que você colocou. Acho que você disse isso, mas não é a mídia mais progressista americana. Justo. É a mídia mainstream americana. A mídia que ainda representa o establishment deles, que ainda se vê como a velha instituição que representa
o quarto poder, o equilíbrio de checks and balances, aquela mitologia americana que todo mundo conhece bem e que o Brasil emula de um jeito mais imperfeito ainda. Mas a mídia progressista americana, isso eu acho que é uma questão muito importante, o que a gente está fazendo aqui, pelo menos grande parte da informação que eu tenho hoje para compartilhar, dividir, para analisar, vem de um novo ambiente de mídia que acho que nessa guerra especificamente ele tem crescido muito, não só em audiência, mas relevância e impacto. Porque a mídia independente
audiovisual de alta qualidade, de alto rigor a jornalístico, com fontes que em geral não são escutadas. E essa turma, essa turma, comunicadores que foram se especializando depois de Gaza, que estão cobrindo a ascensão do Donald Trump e também é mantendo o mesmo tipo de clareza crítica em relação ao Partido Democrata, ao que a Kamala Harris e o Joe Biden representavam, essa turma tem essa visão de que foi de propósito. Essa turma faz uma análise semelhante a nossa.
E eu acho que está acontecendo uma coisa inédita por conta desse novo ambiente digitalizado, onde a IA corre com tanta facilidade quanto informações independentes que furam o bloqueio da propaganda e da própria censura, que é o fato de que eu acho que tem, não declaradamente com a frase que eu vou colocar, mas o afeto está muito colocado na maneira como esses comunicadores têm falado hoje em dia.
população deles, que é uma galera que está torcendo contra a própria máquina de guerra do seu país. É uma galera que está torcendo para que os Estados Unidos tenham que se retirar disso com o rabo entre as pernas e derrotado. Que não está confortável. Porque o papel imperialista dos Estados Unidos sempre deixou muito americano desconfortável. Mas era um desconforto cômodo. Ele se engaixava na expressão cultural, o outro lado era sempre um pouco mais tirânico. Você conseguia
abraçar esse edicenso internamente e manter a máquina de guerra funcionando. Eu acho que hoje tem uma galera que está torcendo pela decadência dos Estados Unidos como a única posição moral possível para um americano realmente progressista hoje em dia. Eu acho que tem acontecido uma mudança muito crítica, inclusive nos últimos dias. Essa escola tem sido um ponto fulcral. Agora, o que eu acho importante da gente também colocar aqui, que eu acho que reforço o que você disse, que eu também creio que foi
não é você olhar Palantir ou Trump ou o que o Hegset está falando. É olhar o que os Estados Unidos fizeram desde a Segunda Guerra Mundial naquela região. E que tipo de ataques foram feitos intencionalmente pelo Eisenhower, pelo Kennedy, pelo Nixon, pelo Jimmy Carter, pelo Ronald Reagan. Se você for olhar a Coreia, o Iraque, o Irã, no golpe que tomou em 1953 e tudo mais, eles sempre tiveram essa...
aspecto é terrorista de fazer coisas tão brutais que faz com que o país capitule mais rápido por medo da falta de acomedimento do seu adversário. Então você atacar uma escola no segundo dia, de algum jeito, é você apostar que o país vai ficar tão apavorado que você mata o Ayatollah, explode uma escola, acaba com as baterias de mísseis rapidamente, com o choque que você dá no país, que o pessoal fala, cara, chega, a gente vai
se render. Então eu também acho que não só tem essa intenção de atacar alvos militares que voltam, o double tap, mas se encaixa numa tradição dos Estados Unidos de provocar terror na população. Que é o país que se arvora respeitador e criador de leis internacionais, mas é o que menos respeita. É o país que disparado mais matou é civil nos últimos 70 anos. Nessas décadas de imperialismo desenfreado dos Estados Unidos. Então eu acho que tem um momento da
verdade mesmo, que é importante a gente começar a comunicar. E é muito doido você ver assim, e pra mim, eu te falei isso no telefone, eu fico transtornado assim. É um conflito interno, é um incômodo que me dá mesmo assim, de ter que olhar e falar assim, nossa, a teocracia islâmica é a parte mais racional, estratégica e de algum jeito é politicamente secular do que tá acontecendo hoje. Eles são os caras que estão escolhendo alvos estratégicos na sua reação.
têm uma visão clara do que precisa ser feito para provocar dano no seu inimigo econômico, militar e político. Mas eles não estão atacando escolas. Escola de criança. Eles não estão entrando no país para varrer isso. E de algum jeito essa clareza ela provoca um bug muito forte mesmo dentro do Ocidente. De pessoas que mesmo anti-americanos, anti-imperialistas como eu, que estão entrando cada vez mais. De algum jeito tem uma dissonância
muito forte na maneira como a gente construiu o nosso universo político, de onde o nosso vocabulário político vem, da nossa ideia do que democracia é, do que revolução é. Então, tem um momento aqui que tem muita coisa pegando fogo, muita coisa sendo rediscutida. Aí, Bruno, eu acho que tem vários elementos. A gente poderia falar de uma escolha por um caminho estratégico talvez menos cruel, de você não explodir a escola de criança, certamente, mas tem também o fato, evidentemente, de que
o Irã precisa ser mais estratégico porque ele tem muito menos munição, muito menos capacidade militar do que os Estados Unidos. Então, eles estão trabalhando com uma outra realidade. Até porque é isso, né? É um regime... A agressão americana é inaceitável, sobretudo nesses termos, explodindo criancinha. Não interessa, evidentemente, quem essas criancinhas são filhas. Mas é um regime que tava pra cair, porque tá com sua população na rua, levando bala, sendo presa e torturada, protestando contra esse regime.
Aliás, acho que é um belo favor que Trump está fazendo para o regime. Porque se ele estava para cá ontem, eu imagino que a população iraniana já esteja com uma outra opinião sobre suas lideranças, uma vez que você tem um inimigo que se apresenta como um libertador, que está abertamente pedindo mudança de regime, ao mesmo tempo em que ele bombardeia a escola de criança. É uma loucura. É a melhor maneira de você acabar com qualquer tipo de oposição ao regime dentro mesmo do Irã. Mas isso é um outro assunto.
das munições e de como o Irã precisa ser mais estratégico, é que até para os Estados Unidos, essa guerra tem sido... Ela tem poucos dias, ela acabou de começar, não existe um horizonte muito claro de quando ela termina, e essa guerra já tem sido uma guerra difícil de sustentar do ponto de vista militar mesmo. Então, uma das coisas que eles já estão fazendo, por exemplo, é que eles estão movendo todos, não todo, mas uma boa parte do sistema de defesa anti-míssel que eles têm hoje estacionado na Coreia,
do Sul. Então, lembrando que a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, tecnicamente, ainda estão em guerra. A guerra que eles tiveram lá nos anos 50 terminou num armistício. Não foi um processo de paz. São países inimigos. E, desde então, os Estados Unidos têm soldados e um sistema bastante sofisticado antimíssel instalado na Coreia do Sul pra defender a Coreia do Sul como um aliado na região. E eles já estão movendo o seu sistema antimíssel pro Oriente Médio. Porque eles estão gastando
gastando munição e gastando esses interceptadores de míssel numa velocidade muito maior do que aparentemente eles tinham previsto e do que as reservas mesmo de interceptadores permitem. Então, os dados do próprio Pentágono é que os Estados Unidos gastaram cerca de 800 interceptadores anti-míssel desses Patriots, que são os interceptadores de última geração deles, em cinco dias. É mais do que eles gastaram em toda a guerra russo-ucrânia até agora.
com os estoques muito abaixo do que seria necessário. Porque demora muito para fabricar. É difícil fabricar esse míssil. Ele é caro de fabricar. Isso que é a coisa mais insana mesmo. É uma cagada estratégica absurda. Porque eles tiveram o laboratório da Guerra dos Doze Dias. E Israel, naquela investida, eles tinham a intenção originalmente de também encerrar o regime iraniano. Eles não estavam nessa para, tipo, só fazer uma operação. Mas Israel meio que quis encerrar a Guerra dos Doze Dias mais rápido.
Porque viram que estavam comendo muito o sistema de defesa, muito mais rápido do que a capacidade de acabar com o Irã, antes deles mandarem mais mísseis e drones e fazerem gastar tudo o que eles tinham. Então, qualquer analista, eu sabia disso. Tipo assim, lendo noticiário. Não tem nenhuma especialização. Nenhuma fonte no Pentágono. Nenhuma fonte no Pentágono. Não tem estudo pra isso. Não tem porra nenhuma de arma. Nunca segurei um .22 na minha mão. Só de acompanhar a mídia, eu sei disso.
dias, do medo que o Netanyahu tinha de seguir essa guerra um pouco mais e se ferrar. E o Irã, naquela época, fez uma escolha também estratégica, que foi a de falar a nossa resposta vai ser comedida, vai ser uma demonstração de poder, não vai ser um ataque aberto. A gente não tá fazendo isso pra acabar com os nossos inimigos, a gente tá fazendo isso pra encerrar o assunto aqui e começar a negociação. Que é, a gente vai avisar que os mísseis estão saindo antes deles saírem, eles vão ser ensaiados, vai ser uma onda, uma, duas ondas,
vai ter imprevisibilidade no que a gente tá fazendo aqui, pra demonstrar que não é tão simples assim, segurar a força deles, se eles apertarem o botão. E aí eles vão lá e vão com tudo. E é isso que tá acontecendo hoje, não só na Coreia, que é a inteligência iraniana, e novamente, é isso que é louco, cara, porque tipo, nas vésperas disso acontecer, eu acompanhando analistas estratégicos americanos, eles dando o mapa do plano iraniano inteiro, que está sendo
Gente, na imprensa falando, eles vão fazer isso aqui, e eles estão fazendo isso. E esse vai ser o efeito, e esse tem sido o efeito. Então não tem surpresa aqui. O que tem é essa demonstração de arrogância, burrice, ou uma coisa, na minha opinião, mais teocrática do que qualquer outra coisa. A gente só vê a sessão evangélica que houve lá na Casa Branca, a sessão de abençoar, o sionismo é cristão fundamentalista americano, o fato de que tem comandantes teocráticos,
na Força Aérea dos Estados Unidos, abertamente falando com as suas tropas sobre o caráter apocalíptico santo do que eles estão fazendo lá. E eu sei que isso encaixa menos ainda no nosso vocabulário político. A gente falando sobre isso fica parecendo maluco, parecendo é conspiratório, parecendo uma coisa meio assustadora. Mas é factualmente, isso é mais aferível nos Estados Unidos hoje do que a estratégia militar deles,
jogos ou de recursos militares. Então, assim, isso que eu quero colocar. Quando a gente precisa criar essa ideia de que o Irã, com o Ayatollah no poder, nessa situação... Não é o único regime teocrático na situação. Ele é menos teocrático. Porque a missão deles não é acabar com os cruzados e ir pro paraíso. É acabar com a economia de petrodólares que os estados do Golfo estabeleceram com o mercado financeiro dos Estados Unidos.
é fazer com que a Dubai se arrependa de ser um espaço que vai depender dos recursos militares e da boa vontade dos investidores ocidentais, que são inimigos da independência do Oriente Médio como um todo. Então eles têm um pensamento muito mais parecido com o pensamento de guerra secular, de guerra moderna, do que o Donald Trump, que está achando, honestamente eu acho que ele acha isso, ele está nessa loucura dele,
ele também se ungiu de um sentido que ele é escolhido de Deus aqui. Isso não é só uma inferência sua, né, Bruna? Acho que é importante trazer, assim, tem um grupo que é muito curioso, que é um grupo americano, uma organização não governamental, chamada Military Religious Freedom Foundation, a Fundação da Liberdade Religiosa Militar. E eles trabalham, é, eles trabalham unicamente, eles são uma espécie de watchdog do exército, né, então eles prestam serviço pra os soldados.
e eles recebem denúncias de, basicamente, intolerância religiosa dentro do exército americano, que existe bastante, de várias naturezas. E aí, no contexto específico dessa guerra, o que eles estão dizendo, um grupo totalmente formado por militares, eles estão dizendo que eles receberam mais de 200 reclamações só nos primeiros dias da guerra, nos primeiros 48 horas, de militares ativos, ou seja, que estão no corpo militar, no serviço militar dos Estados Unidos nesse momento,
mais 200 reclamações de pessoas dizendo que seus comandantes tinham falado para as tropas usando uma linguagem cristã fundamentalista apocalíptica. Então posicionando a guerra no Irã como uma manifestação do livro do Apocalipse, do fim dos tempos e como um plano de Deus, um plano divino mesmo para a dominação daquela região. Chegou a hora, a batalha final.
E esse uso do livro do Apocalipse para fins políticos, que, aliás, é objeto do Apocalipse nos Trópicos, do filme que eu fiz, não me surpreende porque ele está muito colocado na política americana hoje. Mas que isso chegue de maneira tão direta, tão clara, para soldados americanos que podem, a qualquer momento, ser enviados para morrer também, né? Nesse teatro de guerra, como eles chamam, é uma surpresa. É uma coisa relativamente nova, pelo menos nesse volume.
O grupo Military Religious Freedom Foundation falou que nunca identificou um número tão grande
em tão pouco tempo em nenhum outro conflito, e aponta pra uma teocracia em curso mesmo, usando a justificativa teocrática para sua agressão a um outro país. Então, é algo que muda, na minha avaliação, de forma definitiva, o próprio caráter do regime do Trump. A gente realmente precisa encarar, e é nesse sentido que eu acho que a mídia mais mainstream, quando eu digo mais progressista, é que não é uma mídia ultraconservadora trumpista, é uma mídia anti-Trump, na maior parte das vezes. Mas até essa mídia
mais mainstream anti-Trump nos Estados Unidos, ter dificuldade de admitir ou de admitir a possibilidade do bombardeio à escola no Irã ter sido proposital, pra mim mostra que existe uma defasagem de linguagem, que é nossa, mas que é sobretudo deles, uma dissonância cognitiva. Eles não conseguem admitir a possibilidade de que o regime instalado no país deles não é mais uma democracia, é um regime autoritário teocrático. É isso que é. Apocalíptico. E satânico, né?
Se você for assumir que a guerra é santa, porque eles avisaram que é, se a motivação passa por isso e você não for acreditar nisso, mas você for simplesmente ver a consistência dos sinais nos livros religiosos, o que tem acontecido nos Estados Unidos e na expressão disso tem muito mais a ver com o papel do anticristo do que qualquer outra coisa. Se você for ver quem é a figura cabeça disso tudo.
em torno de quem que a profecia está se realizando. E isso é uma outra coisa que eu acho que os americanos têm menos recurso para entender do que ameaça teocrática. Porque ameaça teocrática, se você for escutar o que o Frank Zappa falava no governo Reagan, no alerta que muitas pessoas fizeram depois do 11 de setembro com a retórica do Bush, que era um evangélico renascido, era um cara que se via fazendo uma missão divina também,
sendo cozido em fogo baixo, em fogo médio, era parte de uma receita pra você vender isso dentro do seu próprio país e de algum jeito tinha alguma ressonância com o presidente e com as pessoas lá. Não é que esses comandantes que hoje estão comandando tropas e tropas, eles são evangélicos e radicais, eles eram soldados nos anos 80. Então, assim, isso tá vindo sendo construído. A coisa que pra mim é o ponto que eu acho que eles têm menos vocabulário pra falar é encaixar isso
Pra mim, o lado mais importante do Donald Trump. E é onde eu vejo o fim dos tempos na cabeça dele. Não na cabeça dos evangélicos. Mas é onde isso se encaixa dentro do cara que pode estragar tudo. E tá estragando tudo. O cara que pode apertar o botão nuclear e talvez aperte. Que é o fato de que o que o Trump é, mais do que qualquer coisa, ele não é um político. Ele se tornou um grande político, mas ele não vem da trajetória política. O que o Trump sempre foi, foi um narcisista,
Ele é um narcisista maligno. Ele tem um diagnóstico profundamente expresso de um cara de mania de grandeza que se vê como o maior de todos, o gene melhor, o mais inteligente, o mais genial, o que come todo mundo, o que a lei não pega. E nada na vida dele o impediu de seguir nessa ilusão. Muito pelo contrário. Toda vez que ele apostava mais e mais no narcisismo dele, de algum jeito a cultura e a economia dos Estados Unidos
ele um ponto acima. E agora, nessa situação, ele está em declínio cognitivo. Isso é evidente. Se a gente falava isso do Biden, não dá pra dizer que o Trump também não está. E ele está com questões de saúde muito sérias. E se você for olhar o que um narcisista maligno com a mão no arsenal nuclear, com seu nome na lista do Epstein, com processo de declínio cognitivo, provavelmente demência, o que eu acho que faz nisso é o narcisista não se imagina
indo embora sem levar tudo junto. Então eu acho que na cabeça dele, não dos militares, mas a justificativa interna do Donald Trump é se eu tô no fim da minha vida, eu vou... Levar o planeta junto. Eu não vou deixar ninguém junto. Assim, eu me recuso. Bruno, mas eu quero só discordar de você num ponto. Senão não tem graça. É muito especulativo o que eu tô falando. Não, eu acho que você tem toda a razão. Não é nesse ponto. Mas ele expressa isso. Não é nesse ponto. Mas é no que você falou anteriormente.
sobre o aspecto teocrático, ele já tá anunciado há muito tempo. Você tem razão que não é de agora que você tem figuras importantes na política americana que são nacionalistas cristãs e que falam sobre isso e que professam isso. Mas existe um fenômeno, de novo, eu não quero que a gente também ache que tudo é velho, porque aí a gente... Não dá pra achar que tudo é novo, porque senão a gente fica numa amnésia. Mas também não dá pra achar que tudo é velho porque a gente fica um pouco blasé em relação às novidades. E tem novidade, assim.
Se você olhar, por exemplo, pro Pete Hegseth, né? Que é o secretário de defesa. É o ministro da defesa americano. E que se rebatizou de secretário da guerra. Da guerra. Se rebatizou assim. Esse homem que hoje comanda, literalmente comanda, o maior exército do mundo. Então a gente não tá falando de uma pessoa que tem influência no governo. A gente tá falando do cara que tá no ministério mais poderoso, com maior orçamento, com maior capacidade de infringidor e destruição a outros países dos Estados Unidos.
causa do mundo depois do próprio Donald Trump, né? É o Pete Hexer. Esse homem é... Ele não é só teocrático. Ele é declaradamente e explicitamente teocrático. Isso não é uma inferência, não é uma avaliação a partir dos sinais que ele apresenta. É uma coisa que ele diz, né? Não, não. Ele tem uma tatuagem dos cruzados. Ele tem algumas tatuagens. Então, olha só. O Pete Hexer, só pra dar um pouco do perfil desse ser humano. Ele é esse ex-âncora de televisão que também serviu no Iraque.
ex-militar, de uma igreja evangélica, associada ao reconstrucionismo cristão, que é esse movimento cristão fundamentalista americano que foi desenvolvido por alguns teólogos de lá, o Rusduni, o Gary North, uma galera bem doida, que defendem basicamente a aplicação do Antigo Testamento na sociedade moderna. Então, é uma visão de que o Antigo Testamento deveria ser aplicado na sociedade moderna. Por isso, inclusive, também existe uma visão de sionismo cristão.
e pena de morte pra homossexualidade pena de morte pra adultério pra blasfêmia essa ideia de uma de uma sociedade muito patriarcal em que as famílias são fortes e comandadas pelo homem e que isso estrutura a sociedade e assim por diante ele recentemente teve uma série de podcasts da igreja do Reg Seth que foram descobertos que tinham sido tirados do ar o podcast se chama Reformation Red Pill é uma loucura quem quiser
é um tempo... Ai, meu Deus do céu. Eu vi isso por causa do meu filme, mas quem quiser perder um tempo de vida, eu indico que bote no Google Reformation Red Pill. E tem o próprio Reg Seth falando. Ele, ele, não é alguém da igreja, é ele. E ele endossa essa doutrina teocrata, autoritária, do reconstrucionismo cristão, e uma doutrina especificamente perigosa dentro do reconstrucionismo cristão, que é o que eles chamam de soberania das esferas. Que é...
uma doutrina muito associada a um pastor lá maluco também do interior dos Estados Unidos. Eu ouvi falar disso já. Douglas Wilson, que dá uma entrevista muito boa para o New York Times, inclusive, recentemente. É um psicopata, né? Um psicopata completo. Mas, basicamente, nesses podcasts, o Hegsep fala literalmente. Ele fala que queremos que a nossa nação seja uma nação cristã porque queremos que todas as nações sejam nações cristãs.
Ele fala das cruzadas. Ele fala de igualdade como uma coisa que tem que ser combatida. Empatia como fraqueza.
deveria ser secular, que a escola deveria ser cristã. Esse é o Ministro da Defesa dos Estados Unidos, entendeu? Não é usar ninguém. Da guerra. Enfim, da guerra. Título dele. Eu faço questão de falar isso. É verdade, tem razão. Porque ele se rebatizou disso. E a defesa é um eufemismo inaceitável nesse caso. Ninguém tá se defendendo. É, ninguém tá se defendendo, é verdade. Eu falo Ministério da Defesa porque é o nome que os lugares civilizados em geral adotavam.
E ele tem, como você lembrou, Bruno, uma série de tatuagens, né? Ele tem a Cruz de Jerusalém, que é o símbolo das cruzinhas.
e do reino de Jerusalém. E ele tem as palavras Deus vult, Deus quer, que era o grito de guerra da primeira cruzada no século XI. É uma coisa um pouco... Não é conservador, é reacionário mesmo, né? E ele tem um livro chamado American Crusade, Cruzada Americana. Então ele tem uma coisa que é um imaginário das cruzadas que tem uma coisa meio gamer também, meio incel, tem todo um universo de fãs das cruzadas, mas que é uma convocação à violência religiosa.
É um grito de guerra de violência religiosa explicitamente ligada a esse episódio que é muito sombrio das cruzadas. Então, não tem outra leitura possível disso, sabe? E é isso. Eu só tô falando isso, Bruno, porque eu acho que esse nível de autocracia a gente não viveu nos Estados Unidos até agora. Não tinha um Heg Seth. Eu concordo com você. Eu concordo com você. Eu não tô dizendo que tudo é velho. Eu tô dizendo que, assim, que...
Mas o Heg Seth e os comandantes que aderiram a isso, não sei o quê, eles não vieram do nada. E há uma radicalização,
uma troca de guarda, há uma loucura nova instalada, a falta de pensamento é estratégico, porque mesmo que houvesse antes caráter religioso no Reagan, no Bush, não sei o que, havia um profissionalismo militar que perdia guerra atrás de guerra, diga-se de passagem, perdia todas também, mas que conseguia pelo menos impor a vitória de alguns interesses macroeconômicos nos Estados Unidos. Eles não ganhavam guerra, mas eles mantinham
impérios funcionando apenas no vapor. Eles mantinham a lucratividade do complexo militar industrial, mantinham a mídia alinhada e mantinham a maioria do país de acordo com a doutrina militar da sua época, o que não é o caso hoje. Mas o que eu acho que tem de diferente mesmo, que aí sim é a novidade, é que ninguém antes do Donald Trump falava em fim dos tempos como essa guerra. Ninguém invadiu o Iraque falando que é a profecia. Do apocalipse. Ninguém detonou o Vietnã falando que
era o Apocalipse. Ninguém invadiu o Afeganistão falando que eles estavam acelerando a volta de Jesus Cristo na Terra para ter a ascensão aos céus, para ter o arrebatamento. Ninguém fez a Guerra da Coreia em relação a isso, ninguém deu um golpe no Brasil falando isso. Sempre teve essa linguagem. Mas onde eu acho que a metástase começou na cultura americana, e não é à toa que a Fox News é o lugar onde o Pete Hegset trabalhava antes de virar secretário, é que na Guerra do Iraque,
que começou essa repetição ad náusum de uma coisa que não existia muito antes no vocabulário político normal, que era a defesa do mundo judaico-cristão. Judaico-cristão como uma entidade só, que é uma coisa esquisita. Que são duas religiões que só são compatíveis no futuro dentro do Apocalipse. Elas dividem o mesmo Velho Testamento, mas elas separam exatamente em Jesus Cristo.
não é judaico, especificamente. E quando você junta judaísmo com o cristianismo, não estou falando do monoteísmo, mas junta essa raiz em uma coisa só, é porque o objetivo é a visão apocalíptica. E isso começou a ser difundido como um valor banal no conservadorismo dos Estados Unidos. Algo que era dito assim em roda de debate, sem a pessoa ser questionada sobre o que ela estava falando.
É um termo político como falar esquerda, direita, e judaico é cristão. E agora está se revelando, tipo, essa é a batalha. E o mais interessante é isso, é a minha opinião, que fora essa questão religiosa, está acontecendo algo que aí é o embaraço mesmo. Para os Estados Unidos perder essa, e eles não deveriam ganhar mesmo, para eles não imporem o projeto deles, o projeto sionista, o projeto de massacre daquela população, de destruir a viabilidade do Estado iraniano, a consequência disso,
para eles perderem essa guerra, não vai ser perder a guerra do Iraque. Você gasta, perde um capital político, toma um prejuízo, gera centenas de milhares de veteranos com trauma e tudo mais. Não, não é isso. A gente está falando de um rearranjo geopolítico energético de supremacia do dólar, de fazer rearranjos de mapas naquela região que vão muito além da fronteira física, que realmente pode ser a guerra mais custosa
da história dos Estados Unidos mesmo. Parece que já custou 12 bilhões, né? Falando de custo financeiro daí. Já custou 12 bi? Acho que é bem mais. Tem estimativas... Não, até agora. Tem estimativas dizendo no jornal já, pelo menos eu vi isso ontem, gente falando, que ela tem custado em média 3 bilhões de dólares por dia. Por dia. Como se a gente não tivesse problemas no mundo pra resolver, né? Como se a gente tivesse problemas lá deles pra resolver. Esquece o mundo. Esquece o mundo.
alguém que fez essa conta. Acho que foi numa entrevista que eu vi o Varoufakis falando. Foi muito interessante. Ele falando assim, o que que 3 bilhões faz nos Estados Unidos? É tipo assim, meses de saúde grátis, é tipo assim, é uma coisa muito... Enfim, eu não vou me lembrar aqui, eu não anotei, não me preparei pra falar isso hoje. Mas pra não ficar só no apocalipse cristão, eu queria falar do apocalipse secular. Que é algo que me deixou, aí sim, o que me deixou de cabelo em pé.
Nessa história toda, Alessandra. Que é, eu tô muito mais pessimista em relação à nossa transição energética. Depois do que eu vi acontecer. Ai, amigo. Porque assim, a palavra clima basicamente não entra nessa conversa mais. Assim, tipo, a gente não tá falando disso. E quando você começa, contra a minha vontade mesmo, a ser forçadamente instruído sobre o volume de petróleo que tem sido queimado no mundo inteiro,
e o preço e a maneira como os países têm consumido e a tamanho da dependência tão profundo. Eles não conseguem transformar isso numa oportunidade até minimamente narrativa de fazer uma transição. É uma emergência que o preço do petróleo sobe e a produção tem que aumentar imediatamente. Eu vi o Haddad falando no sábado que o Brasil vai ganhar mais dinheiro com isso. Não estava defendendo a guerra. Não estou falando que ele está a favor disso. Longe disso. Mas ele está falando que aumenta
receita do próprio governo. Me deu um desespero, cara, da gente, tipo, tá sendo forçado a engolir uma visão apocalíptica mitológica e tirando completamente da manchete, assim, ninguém faz essa conexão em larga escala. Você só vê um comentarista aqui, um tweet lá, mas você não vê isso sendo colocado como a questão, né? Assim, a dependência de combustíveis fósseis, o modelo de produção econômica e energética do mundo que tá
colocando literalmente o fim dos tempos na pauta geológica, não está em consideração na conversa sobre o Irã e sobre o que está acontecendo no Estreito de Hormuz e para onde isso vai. Dá esse contexto para quem está ouvindo para a gente. O que está acontecendo no Estreito de Hormuz? A gente nem falou disso, né? O Estreito de Hormuz é a estreita saída do Golfo Pérsico para mares internacionais.
Irã, os países do Golfo Pérsico, Arábia Saudita, Oman, Iêmen, os grandes maiores produtores históricos de petróleo do mundo e ainda os maiores produtores de exportação estão lá. 20% de todo o petróleo do mundo passa diariamente por esse estreito que na sua área mais estreita tem 30 quilômetros de distância. É bem fininho mesmo. E ali é um lugar em que o Irã sempre prometia fechar o estreito caso fosse invadido,
algum problema. O que significa não é que fecha, mas é que qualquer navio que passa por ali está sujeito a tomar um míssel, um ataque e ser impedido. E aí todas as petroleiras, todos os capitães, não sei o que, falam, cara, melhor não. E eles já atacaram alguns navios. Houve um vazamento de petróleo e um desses, por exemplo, e basicamente por dias não passou nada. E hoje, olha que interessante, o Irã aumentou a sua exportação de petróleo desde que a guerra começou, porque o Irã naturalmente não ataca os seus próprios navios. Mas isso é a coisa desequilibrada.
e assimétrica do que tem acontecido lá. E é a maneira como o Irã está ganhando força diplomática. Porque para os Estados Unidos controlarem o estreito e impedir qualquer tipo de ataque, eles vão precisar se dirigir militarmente para lá, quer dizer, colocar tropas in loco, em grande poder, e eles vão ter que fazer isso ad infinito. Quer dizer, vão ter que fazer escolta de navios petroleiros. O que faz com que o navio petroleiro fique mais vulnerável do que ele estava antes, porque o alvo,
militar se torna mais precioso para o Irã do que um petroleiro. Então os Estados Unidos não estão fazendo isso. E o que o Irã tem feito? Porque é isso que a conta é difícil de a gente entender na notícia rápida, que é 20% do petróleo do mundo passa por ali. Só que é 70% do petróleo japonês, 40% do petróleo indiano, é 75% do petróleo da Coreia do Sul, é não sei quantos por cento do gás de outro país, entendeu? E também do estreito saem outras coisas.
que o mundo fez a cagada de colocar lá por questões de lucratividade, que é a produção de fertilizantes que está muito controlada no Golfo Pérsico hoje em dia. Que é um problema para o Brasil, inclusive. Problema para o Brasil, inclusive. Mas aonde que o Irã está se tornando uma força política muito importante nessa semana? E acho que isso vai ser decisivo para a gente entender os próximos passos. O Trump ontem convocou os países do mundo a defenderem e ajudarem os Estados Unidos a abrir o estreito. Então a gente quer navio inglês, francês, alemão, brasileiro,
venham para cá para o petróleo continuar fluindo e o preço não subir. Todo mundo recusou. Teve um país que topou. E por que isso está acontecendo? Você vê a resposta que a Georgia Meloni deu, a primeira-ministra italiana, extrema-direita aliada do Donald Trump, está condenando essa guerra abertamente, falou dessa escola atacada, porque ela, o Japão, a China e os outros países estão negociando diretamente com o Irã para não atacar os petroleiros deles.
Então assim, a gente não vai se meter nisso, estamos fora desse negócio, mas por favor, deixa o meu petróleo passar. Então o Irã tem conseguido um poder já político que ele jamais teve nos 40 e tantos, porque assim, hoje ele tem algo que o mundo precisa para fora dos Estados Unidos. E como os Estados Unidos fez isso sem perguntar para ninguém, e mais importante, contra a opinião de todos os países, inclusive o próprio Estados Unidos, na sua população, ninguém está com boa vontade de ajudar de fato,
o Trump a vencer essa guerra. Então também é uma situação inédita que tem acontecido. E o Irã tem o poder de fazer isso hoje por conta do seu preparo estratégico nos últimos 20 anos, especialmente nos últimos 10 anos, que é a produção autossuficiente de uma quantidade muito grande de drones que custam de 10 a 50 mil dólares ou mais caro e 10 mil mais barato, que é uma pechincha para qualquer armamento de guerra.
e são capazes de fazer estragos colossais, de provocar impacto sísmico na economia mundial, se ataca, como já atacou centros de produção de petróleo em Oman, na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes, ou um petroleiro. E mais importante, a cada drone de 10 mil dólares que eles soltam, no mínimo, Estados Unidos e Israel gastam milhões com os interceptadores, que como você falou antes, não duram para sempre. São finitos, é um recurso finito.
finitos. Então, assim, o que significa vencer uma guerra dessa? O Irã claramente já perdeu e vai perder muito mais infraestrutura, seres humanos, meninas, meninos, idosos, idosos, hospitais. Ele vai sofrer um dano físico incomensuravelmente maior do que a Israel e os Estados Unidos no futuro visível aqui. Como aconteceu no Vietnã, que sofreu muito mais, dando muito mais baixa, milhões de pessoas do que os americanos, do que o Iraque, do que o
Afeganistão. Mas qual que é a vitória no caso deles aqui? A vitória deles é que os Estados Unidos não cumprem o seu objetivo. E uma hora eles vão ter que se retirar com um custo muito alto. E o regime se fortalece de muitas formas e a população se solidifica de muitas outras. Só que o custo que os Estados Unidos tem a pagar com essa guerra hoje em dia não é o custo do Iraque. É um custo que os Estados Unidos me parece, talvez, nunca imaginou que pudesse pagar no pós-guerra. Que é perder
a primazia mesmo do petrodólar, do arranjo econômico e financeiro que foi feito em torno da produção de petróleo com monarquias no Golfo. E isso é uma coisa que, só para encerrar, que eu acho muito importante deixar claro hoje, pelo menos, que a gente fala da Revolução Islâmica, que instalou os Ayatollahs e esse regime que está no Irã hoje, que, para deixar muito claro, que é um regime teocrático, repressivo, violento, muito brutal, com dissidência interna, um regime que, Deus me livre,
ver embaixo de algo assim na minha vida. Mas o que as pessoas esquecem é em cima de qual regime que essa revolução foi colocada. Essa revolução foi feita de 78 e encerrou em 79 em cima do Shah Reza Pahlevi, que foi um cara que os Estados Unidos e a Inglaterra especificamente instalaram em 53 em um golpe de Estado que o Churchill, Winston Churchill, o ídolo dos democratas liberais brasileiros, que acho que é o grande estadista,
a galera esquece que ele era um imperialista racista do inferno, teve o mérito incrível de ajudar a derrotar o nazismo e conduzir a guerra europeia. Mas, depois disso, quando voltou a ser primeiro-ministro em 51 ou 52, não me engano, foi um dos caras que deu o golpe de Estado em cima de quem? De um presidente secular iraniano que estava modernizando o país. E sabe qual foi o escândalo que fizeram eles dar esse golpe? Eu não sabia bem. A nacionalização do petróleo. Não, foi muito mais simples do que isso.
Alessandra. Eu achava que era isso. Aí eu voltei nesse livro, que tá fora de... que tá uma fortuna no estante virtual. Não foi a nacionalização? Então, foi mais simples do que isso. Virou a nacionalização, virou uma conversa sobre a nacionalização depois. Mas o escândalo começa em 51, quando o Mossadegh, que era o presidente iraniano na época, resolve fazer uma auditoria nas empresas de petróleo britânicas instaladas no país pra ver se eles estavam pagando os royalties em dia.
Ele estava falando de privatizar. Ele estava falando assim, vamos ver se vocês estão pagando direitinho. De privatizar não, né? De nacionalizar. De nacionalizar, exatamente. De nacionalizar o país. Ele estava falando só de tipo assim, já estava privatizado, esse acordo já tinha sido feito com o antigo Shah, que é o pai do Shah dos anos 50 e tal, que era de domínio imperial daquela região. E os Estados Unidos tinham invadido aquela região junto com a União Soviética, diz, na Segunda Guerra Mundial. Mas assim, a Inglaterra controlava o petróleo iraniano,
com a BP, que não chamava BP ainda. Era Anglo-Iranian Oil Company, que hoje é a BP. Hoje é a BP. Mas Bruno, mas depois disso eles não tentaram nacionalizar? O que acontece foi o seguinte, a BP da época, a empresa da época britânica, de controle britânico e muito corrupta, se recusou a fazer a auditoria. Não é apagar os royalties, é falar assim, não, não, não, ninguém vai olhar os nossos arquivos. E o cara insistiu. E aí começou uma conversa política, porque foi um escândalo nacionalista,
de uma população orgulhosa, educada, inteligente, midiaticamente já preparada pra entender o que tava acontecendo, começou a se revoltar com essa situação. E o presidente e o primeiro-ministro começaram a ser, começou a ser influenciado pela esquerda do país. Que falava assim, então já que não vai ter auditoria, cara, vamos nacionalizar. O petróleo é nosso. E começou um movimento nacionalista. E começou um movimento nacionalista em torno do petróleo. E aí, o primeiro-ministro era o Churchill, em 1953.
E o Churchill convenceu o Eisenhower e rolou uma operação não militar, mas das duas agências de inteligência deles. Era uma coisa de propaganda mesmo, né? Mas houve operação física dentro do país. A CIA admitiu, tá gente? Essa história que o Bruno tá contando, só um detalhe que eu acho que é importante. A CIA admitiu tudo isso. Isso não é teoria da conspiração. Não, não. Essas operações têm nome. Isso é documento histórico. Isso tá escrito. Isso não é CIA, teoria da conspiração. Isso é o que a CIA foi criada
fazer no pós-guerra? Aparece no livro, Bruno, que a pessoa, se não me engano, a pessoa que liderou Luisa Miguel está aqui ouvindo a gente, pode checar a informação, porque eu não estava preparada para falar sobre isso, mas se não me engano, a operação no Irã nos anos 50, que culmina com o golpe, era o neto do Roosevelt, que estava no comando. Era no governo Eisenhower e era o neto do, ou filho do, não, filho não, seria o neto, o neto do Roosevelt.
Porque ele foi um cara que trabalhou na CIS, com certeza, que criou uma doutrina,
mesmo dentro da CIA, que foi a doutrina que foi usada depois, meio que o manual, o modelo, pra várias intervenções americanas depois em outros países do mundo, inclusive na América Latina. Que era aquele manual bem clássico de primeiro acusar o chefe de Estado que deveria ser combatido de comunismo, mesmo que ele não tivesse nada de comunista. Então, o Mossadegh, que era o presidente do Irã eleito praticamente, era anticomunista, era zero comunista.
E foi acusado de comunismo e depois usar isso como uma desculpa pra intervir, né? E esse manual
é o manual do neto do Roosevelt, que eu acho que era quem estava no comando dessa operação especificamente. Mas a gente vai ouvir. Mas, em todo caso, a gente esquece desse detalhe, né? Ele está muito na origem. Esse detalhe, ele se estende, porque não é que foi um golpe de Estado. Vamos lembrar, foi um manual... A Luísa confirmou aqui. Kermit Kim Roosevelt Jr. E a operação Ajax, que foi conduzida pela CIA, e a que foi conduzida pelo Churchill, que, vamos dizer, em 1953, a CIA era uma agência novinha.
Estava bem cru ainda. Mas o Churchill tem experiência nisso muito mais vasta. Porque ele já era um colonizador na Primeira Guerra Mundial. E um grande conhecedor das táticas de inteligência, de sabotagem e de deslegitimação de oposição interna da época vitoriana até. De quem ele defendia como visão do que na Inglaterra deveria ser. Inconformado com o que aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com o seu próprio império. Então, para o MI6, que era a CIA dos ingleses,
a Operação But. E eles fizeram isso. Acusaram de comunista, criaram paranoia, influenciaram opinião pública. Pagaram gente pra protestar, pagaram apoiadores do Mossadé pra fazer ato de vandalismo. Todas essas coisas bem clássicas, né? Clássico, clássico, clássico. E aí eles colocaram no poder o filho do Shah que eles tinham deposto em 41, que é o Mohamed, que é o filho Mohamed Reza Palevi. Botaram ele no poder. E aí esse livro é sobre isso, que é o que esse cara fez.
no poder. Nossa, eu quero muito ler. E é aí que a CIA, então assim, os 20 anos, os mais de 20 anos, né, 26 anos de ditadura do Reza Paleve antes da Revolução Islâmica, cara, o tipo de ditadura que ele colocou naquele país, o tipo de corrupção que ele instalou no país nem se compara. Virou um reinado absolutista. Era uma monarquia constitucional, né, tinha ali um rei, mas era uma coisa meio, era bem constitucional, era um pouco como a Inglaterra é, e virou um
um monarca absoluto, depois da intervenção americana. Mas aí que tá, o que a CIA fez? A CIA treinou, porque assim, ninguém ia topar um negócio desse. O país, dezenas de milhões de pessoas, um país com uma civilização de milhares, milhares de gêneros, e novamente, um país que não foi redesenhado como os países do Oriente Médio, sob o reinado britânico. O Irã é outro país, é a Pérsia, eles têm outra identidade, tem outra situação lá. Ninguém ia aceitar isso. Então o que a CIA fez?
criou uma polícia secreta lá, que é pior do que qualquer polícia secreta que a gente conhece na Alemanha Oriental, KGB. Nada se compara com a Savak, que era a polícia secreta iraniana, que virou o poder executado de fato dentro do país. E o que o Reza Palevi virou? Ele não virou um monarca absolutista, ele virou um playboy de Mônaco, vivendo essa vida de ostentação nababesca, sem parar. Ele mal parava no...
é Irã. Ele ficava sempre em Monte Carlo, Mônaco, apartamento em Paris e o Ocidente inteiro. Petroleiras, indústrias de construção, com esses petrodólares vazando, que foi o modelo que o Eisenhower construiu mesmo. O que o Truman começou, mas o Eisenhower construiu de usar o petróleo para desenvolver o capitalismo dos Estados Unidos. Ele falou, se é aqui que tem um poço, é aqui que a gente vai dominar. Então o domínio do Irã e da criação das casas monárquicas do próprio Golfo
esse projeto, é esse projeto, esse cara humilhou o país, assassinou gente de todo tipo de família, assim, tipo, as pessoas, qualquer pessoa que levantava a mão pra olhar feio pra um cara da Asavá, que era assassinado na frente do filho, estuprava, um negócio assim, uma violência. E aí, as igrejas islâmicas e xiitas começaram a ser pontos de dissidência espiritual e de refúgio, mas quando a revolução aconteceu, o Ayatollah tava sendo apoiado,
que teve que ser voado para o país para encerrar a revolução, porque ele comandou a revolução de fora do país, ele estava sendo apoiado pelos marxistas, pelos liberais. Sim, que depois ele vai e assassina vários marxistas. Na hora que ele chega, essa cena também é bem importante, ele chega, tem 3 milhões de pessoas esperando ele chegar inteira. E ele vê que ele tem um poder, enfim, e ele é um teocrata, violento, não sei o que, que fala, não, isso aqui não vai ser uma república secular, vai ser uma república islâmica. E aí, prende, mata, expulsa todo mundo,
acaba com o marxismo, que era um movimento forte no Irã, e consolida a revolução iraniana. Mas é nesse contexto que esse governo é fundado. É com esse orgulho que esse governo é fundado. É com essa ideologia, com essa capacidade que eles tiveram de expulsar os americanos na bala do país deles. Eu tinha feito uma linha do tempo antes de a gente gravar esse programa para entender um pouco essa história das intervenções dos Estados Unidos no Irã. Então, tem 53, esse episódio que você está descrevendo,
que são os Estados Unidos, derrubando a democracia iraniana essencialmente para proteger o petróleo britânico e americano. Mas acho que sobretudo britânico. É, mas que era parte do mesmo sistema. Que era o mesmo sistema de exploração. Que foi o que o Truman combinou com o Churchill no final da Segunda Guerra Mundial. Quase 10 anos. Isso aqui é nosso, não vamos mexer nisso aqui. Eles fizeram um arranjo com Stalin na Conferência de Alta.
Agora o mundo vai ser esse. Estamos vivendo nesse mundo até agora. Aqui está o petróleo que vai mover a nova fase do imperialismo.
no meio do capitalismo. Eu quero voltar para o que você falou sobre mudança climática, mas só para dar a timeline para quem estiver nos assistindo se situar na história toda, porque acho que é importante. A gente falou de muita coisa muito rápido. Então, em 1953, os Estados Unidos derrubaram um presidente democraticamente eleito no Irã, o Mossadegh, que era super popular e que tinha, eu não sabia de todos os detalhes da história, mas que tinha essencialmente depois de tentar auditar os royalties de petróleo pagos pela BP, que era Anglo-American, Anglo-Iranian,
Oil Company, depois de não ter sucesso nisso, ele tentou, ele ameaçou nacionalizar o petróleo iraniano, né? E aí, os Estados Unidos e o Reino Unido se juntam pra derrubar a democracia iraniana. E aí, instalam o chá, esse chá do livro que o Bruno tá indicando, em 53. Esse chá, ele vai reinar como um monarca absoluto, então acaba a democracia iraniana, essa monarquia constitucional que havia anteriormente, e ele vai reinar como um monarca absoluto entre 53 e 79, usando apoio americano durante todo esse período.
Então, é essa polícia secreta que era treinada pela CIA, era apoio americano para o exército iraniano, era também essa vida de luxo e riqueza que o Shah passou a viver. E a compra do petróleo. A compra do petróleo, que ia para o bolso dele e da SAVAC. E aí, em 79, a SAVAC é a polícia secreta, né? Aí, em 79, o Shah está lá curtindo a vida doidado, governando com mão de ferro e humilhando a população iraniana. E aí, vem a Revolução Iraniana, em que os iranianos primeiro tomam a embaixada americana. Tem esse detalhe.
Eles fazem os funcionários da Embaixada Americana de reféns durante quase um ano. É uma coisa que se arrasta durante muito tempo citando o golpe de 53. Então, é um efeito direto do golpe de 73. O Ayatollah toma o poder durante a Revolução e imediatamente trai os segmentos mais... Imediatamente ou quase imediatamente trai os segmentos mais seculares ou mais à esquerda da aliança que tinha levado ele ao poder e se torna ele próprio também um ditador teocrático.
isso é bom lembrar, eu tinha trazido na minha timeline, os Estados Unidos passam a apoiar o Saddam Hussein no Iraque, que tava em guerra contra o Irã. E fazem, inclusive, fornecimento de arma química pro Saddam Hussein. E tem uma conexão com essa guerra de agora, quando a gente fala de arma química. A gente vai chegar aí já já. Em 2002, o Bush incluiu o Irã naquele eixo do mal. Lembra dessa palhaçada? Teve esse momento? Teve. E aí depois já é agora o Trump, né? Em 2020, o assassinato do Soleimani. Em 2025, a Guerra dos Doze Dias.
última agressão. Mas só pra dizer que realmente não dá pra entender a relação ali com o Irã e como o regime iraniano vai se comportar e como a população iraniana também vai se comportar nesse contexto sem entender essa história de invasões que vem desde 1953. E é muito doido porque é a mesma história da Venezuela, a mesma história da Guatemala, é a mesma coisa que eles vão tentar em vários outros países, na maior parte das vezes motivados por petróleo. É um inferno mesmo. É um inferno, é motivado por petróleo.
O petróleo, na minha visão, é o apocalipse secular. Ele está inserido, não é à toa que a desculpa mitológica que arruma-se para manter esse esquema de combustível fóssil e de lucratividade precisa ser apocalíptica, porque nada mais justificaria algo assim. Você precisa do arrebatamento para justificar a exploração de petróleo em 2026, com o mundo pegando fogo dessa maneira como ele está. E lembrando de uma outra coisa, o Irã, aí parece assim, aí o Ayatollah chega e vira o pandemônio e é um país irracional.
não é um país irracional. É um país teocrático. Mas um país profundamente irracional. Eu nunca disse que era irracional. Não, não. Você não. Mas, assim, isso é um pouco a ideia que se vende. Quando, no primeiro dia, as pessoas escrevendo na imprensa abertamente que ninguém ia sentir falta do Ayatollah, que é um dia para se comemorar e por aí vai. Assim, são pessoas que tiveram uma competência estratégica, racional e política profunda para construir uma estabilidade de um governo brutal com a população, repressivo,
tudo isso está tudo certo, mas que desenvolveu o país muito mais para a sua população economicamente do que as ditaduras anteriores, do que o governo do Chás foi capaz de fazer para a sua população, que criou universidades, ciência de ponta, ciência atômica, mas ciência médica, artes que preservaram os seus monumentos e que tem algum jogo de tolerância com diversidade. Teheran é muito mais diversa culturalmente,
até com os protestos que aconteceram, que sem dúvida também foram parcialmente insuflados por Israel e por Estados Unidos, mas tem uma posição real lá, tem gente que quer mesmo derrubar o regime lá. Essas pessoas estão sendo presas e assassinadas quando foram para a rua para fazer uma derrubada mesmo. Mas essa certa tolerância ainda existe na população como maneira de manter o país estável, como manter o país lá. E só um detalhe que pouca gente se dá conta disso.
Quando o Reagan ganha, se não me engano, ele ganha em 80 e toma posse em 81. É nos primeiros dias do governo Reagan, nos primeiros dias, que o Ayatollah solta os reféns dos Estados Unidos sem nenhuma ação militar dos Estados Unidos. Ele solta os reféns dos Estados Unidos, que estavam presos desde a Revolução, passaram 1980 inteiro presos, como um gesto de boa vontade para o Ronald Reagan. Como assim, agora vamos normalizar as nossas relações. Porque o Jimmy Carter, na cabeça do Ayatollah, era o problema.
O Jimmy Carter foi o cara que ainda estava armando o governador do Shah e a Savá, que era o representante dos Estados Unidos quando a embaixada foi invadida. Exatamente. E os funcionários foram sequestrados e mataram os soldados americanos. E aí o Reagan faz o escândalo do Irã Contras, que é tipo, por baixo dos panos, sem declarar guerra, arma o Saddam e tenta fazer com que desestabilize o governo iraniano por conta disso.
E o agente, desculpa com perdão da referência do Oscar, e o agente secreto nessa história toda, que aí sim é o projeto em curso hoje, a gente falou muito nos Estados Unidos, mal citou o Netanyahu. Mal citou o cara que falou na semana passada que o que está acontecendo hoje é o projeto dele de 40 anos. De 40 anos atrás. Então assim, o objetivo estratégico aqui não é americano. O objetivo estratégico aqui é israelense. É o objetivo que está declarado na carta de intenções do próprio Likud,
do partido do Netanyahu, que se radicaliza desde 7 de outubro pra cá, mas que agora tá expresso também nas palavras do embaixador americano em Jerusalém, o Mike Huckabee, que uma semana antes dessa guerra começar, fala pro Tucker Carlson que Israel tem o direito de tomar uma área muito maior, que pega pedaços do Irã e do Iraque. É isso. Porque tá na Bíblia que eles têm o direito. Essa entrevista do Mike Huckabee com o Tucker Carlson, pra quem nos ouve, vale a pena assistir.
que ela é bastante reveladora, e acho que o Mike Huckabee, né, ele tá falando ali com uma âncora de direita, de extrema direita, e o Tucker Carlson tem tido uma postura anti-expansionismo americano e anti-Israel, e o Mike Huckabee tá defendendo a postura dele pro Tucker Carlson, e tá em esse momento que o Bruno tá relatando, que é o momento em que o Huckabee, o Tucker Carlson pergunta muito diretamente, tá, mas basicamente eles têm uma discussão teológica que é chatésima, porque eles ficam lá discutindo se de fato Israel da Bíblia,
de hoje. E aí, depois de um certo momento, o Tucker Carlson fala, não, mas tudo bem. Vamos assumir a sua premissa, né? De que é Israel da Bíblia, é Israel de hoje. Se eu assumir essa visão muito literal, isso quer dizer que Israel, na verdade, tem direito, teria direito, biblicamente falando, a todo o território que vai do Golfo... Do Nilo ao Eufrates. Do Nilo ao Eufrates, exatamente. E aí o Mike Huckabee responde, ah, I wouldn't mind.
Eu não teria problema com isso. E ele fala, de onde esse direito vem? Então, é muito revelador.
De onde veio o direito de Israel ter essas terras? De Deus. Ele fala, da Bíblia. Da Bíblia. Então, assim, é teocrático. De novo, eu repito, o regime Trump hoje nos Estados Unidos é um regime autoritário teocrático. Tanto quanto o regime iraniano. É claro que o regime iraniano está lá há muito mais tempo e desenvolveu uma série de outros mecanismos de coibição, de atividades de dissenso dentro do próprio país. Isso está mais sofisticado porque está há muito mais tempo.
Mas eu argumentaria que, inclusive, a criação de um aparato de repressão interno,
externo nos Estados Unidos hoje está se dando mais rapidamente do que ela se deu no próprio Irã. Com certeza. E certamente mais do que se deu na Rússia do Putin. Então o caminho, a tendência é muito ruim. Eu acho que essa história toda que a gente ficou muito tempo, Bruno, dos anos 50 pra cá, do Irã, mas pra mim o ensinamento disso é essa ideia de que essa ia ser uma guerra de poucos dias que ia acabar rapidamente com uma rendição incondicional, como o Trump falou, ela é uma ideia muito alucinada em muitos sentidos.
tem um tipo de intervenção que esse regime no Irã foi construído e desenhado há décadas pra resistir a, é exatamente esse tipo de intervenção americana. Ele surge por causa de uma intervenção americana. Essa é a guerra que eles estavam esperando. Não vai ser rápido e não vai ser fácil. Agora eu queria voltar e já já a gente vai ter que terminar saindo Gregório aqui e a gente fala até amanhã, né? Eu queria voltar pro que você falou da mudança climática, Bruno.
Por favor. Não, tem um professor de Oxford que deu uma não vou lembrar do nome dele, mas que deu uma
entrevista recente para a NPR sobre as implicações da guerra no Irã para justamente energias renováveis na Europa. E ele fala essa frase que é muito óbvia, mas é muito boa, que é que o sol e o vento não se preocupam com o que está acontecendo no Estreito de Hormuz. A lição desse tipo de shabu generalizado da economia mundial em decorrência do fechamento do Estreito de Hormuz deveria ser investir em renováveis. É a única conclusão lógica a se tirar.
desse processo. Uma que soberania energética, de fato, importa muito. Nesse momento, soberania energética certamente vai incluir algum tipo de combustível fóssil para alguns usos específicos, mas combustível fóssil ser a sua primeira e mais importante fonte de energia é uma roubada por muitas razões, inclusive pela volatilidade. No entanto, o que a gente viu depois da invasão russa na Ucrânia e outros momentos de grande volatilidade do petróleo não foi um aumento do investimento em renováveis e sim, primeiro, um aumento
uma valorização das ações das empresas de petróleo porque o petróleo aumenta de preço o que gera uma dinâmica específica e os países afetados correndo para substituir os seus combustíveis fósseis por outros combustíveis fósseis que é a substituição mais rápida e muitas vezes combustíveis fósseis inclusive mais danosos para o meio ambiente como o carvão então a preocupação aqui ela é assim no médio prazo a única lição possível deveria ser investir em renováveis no curto prazo não é o que vai acontecer
de prazo nunca chega, porque a gente fica preocupado com a próxima crise causada pelas crianças grandes que estão controlando o arsenal nuclear no mundo. E aí é um caso que, infelizmente, não deu tempo de a gente falar hoje. A gente deveria ter falado, mas a gente foi se enrolando com 150 no Irã. Não, que não deu tempo de falar hoje, que é o problema eleitoral. Não, vamos falar um pouquinho. Vamos falar um pouquinho, vai, Bruno.
Eu acho que talvez valha a pena a gente guardar mais os dados e fazer o próximo, porque tem muito
coisa pra gente falar, sobre as consequências disso pra eleição de 26. Então a gente vai fazer tipo um cliffhanger no final do Camorrenti. Volte semana que vem. Volte semana que vem pra gente conversar disso, porque eu acho que dá mais de uma hora de conversa. A gente for fundo e for investigar e for falar sobre o que afeta o nosso Grêmio aqui, que é a presença desse... a não presença, mas a quase presença desse representante dos Estados Unidos aqui pra falar com o Bolsonaro e com o Cássio Nunes, que é o Barron
esqueci o nome dele, eu notei, já não estou achando aqui. Darren Beatty. Darren Beatty. Darren Beatty. Que é esse cara que acabaram de negar o visto dele, mas estava marcado para encontrar com o Bolsonaro. Mas o que significa a gente ter aumento de preço de gasolina, aumento de, possivelmente, uma recessão, um impacto econômico mundial que vai para a nossa economia, o preço do petróleo na gasolina que vai cair na conta do Lula, possivelmente, muito provavelmente. Mas, mais importante, o que significa os Estados Unidos hoje,
sem os freios, sem os mínimos freios que eles tinham, já que estão invadindo tudo e tacando bombas, bordando para quebrar em escola, como é que isso vai refletir na influência dos Estados Unidos na tentativa de eleger o Flávio? E o que significa o Flávio Bolsonaro alinhado com o Donald Trump nesse mundo pós-guerra iraniana? Que é o mundo mais fechado entre linhas de aliança, entre pessoas que estão fechadas com o dólar ou com a multipolaridade, são pessoas que estão fazendo acordos independentes,
com a China, com o Oriente Médio, ou estão precisando de autorização do Trump para fazer isso. Então eu acho que tem, aumenta muito as consequências de uma eleição do Flávio Bolsonaro no nosso país para 27 e no futuro, mas possivelmente vai aumentar também a nossa atenção eleitoral para ter um resultado que evite isso. E tem muitos elementos aí que acho que a gente precisa conversar na semana que vem, que é como é que o Irã toca aqui. Ou seja, fica com a gente, volta para cá.
no YouTube, terça-feira no Spotify ou na sua plataforma de podcast. Calma, urgente. Tudo bem, Bruno? Vocês estão calmos? Vocês estão calmos ou vocês estão urgentes? Então, e aí... Esse não é um calma, urgente, calma. Eu e você, a gente fica muito pior. A gente fica mais urgente. O Gregório traz calma. Aqui também, esse assunto mexe comigo muito mais. Eu tenho... Bom, escola de criança com bomba mexe com todo mundo, né, Bruno? Difícil ficar calmo. Eu virei jornalista por conta disso.
no pós-11 de setembro, as guerras do Iraque, os Estados Unidos se mexendo como esse ator, assim. E aí, erroneamente, enganosamente na minha vida, assim, a eleição do Obama deu uma distensionada, eu comecei a ser menos fatalista e menos pessimista em relação ao caminho da história com os Estados Unidos na cabeça do projeto imperialista. E agora a gente tá totalmente, assim, desbarrancado. Então eu vou ficando mais nervoso, toca em lugares,
profundos da minha sanidade. Na sua psique. Totalmente. E volta o ódio que eu tinha do Bush, assim, das coisas que eu lia e tal. E é isso. E quarta-feira temos Clube de Cultura do Calmo Gente. Então quem quiser participar. Essa semana, inclusive, pra quem nos ouve e faz parte do Clube de Cultura, a gente vai estar ao vivo no Zoom, eu e Bruno. Trabalhando, né, a partir das perguntas de vocês. Então a gente vai responder as perguntas ao vivo.
Vai trazer também membros do clube pra falar. Vai ser um episódio muito legal do Clube de Cultura. E quem ainda não tiver entrado,
tá tempo de pegar o Clube de Cultura no comecinho. A gente tá na terceira semana só do clube, então dá pra pegar todo o ano junto com a gente, aproveitar bastante. Os dois primeiros episódios estão gravados e disponíveis pra quem assinar o Clube de Cultura do Calma Urgente agora. E pra assinar, é só entrar em calmaurgente.com. E a minha dica dessa semana não é uma dica de leitura exatamente, mas é uma dica pra Companhia das Letras, que editou esse livro daqui.
O Chá do Chás faz parte da coleção de jornalismo literário da Companhia. Uma coleção maravilhosa que eles editaram, livros do
Italis e do John Hershey. E esse aqui é do grande Richard Kapuscinski, que é um repórter polonês que escreveu obras incríveis como Ébano, Chá do Chás, escreveu uma também sobre o Selassie, se chama O Imperador, se eu não me engano. E ele era meio especializado nessas tiranias do pós-guerra, desse rearranjo desses países que foram ou não vítimas de colonização ocidental e que depois se reconstituíram com seus próprios imperadores,
com monarcas. Ele, como repórter, viveu nesses lugares, então ele investigou pessoalmente sob muito risco físico a África, as tiranias africanas na segunda metade do século XX e investigou porque estava lá pessoalmente na Revolução Islâmica. Então esse livro daqui é um testemunho in loco do que estava acontecendo, com muito sabor local, então ele descreve as ruas como estavam, como estava o hotel dele. É uma narrativa muito fácil de ler, muito simples,
em que ele vai se baseando em fotos para escrever episódios históricos que estão acontecendo. E tem essa narrativa da Revolução Islâmica que eu acho muito importante ser feita por um jornalista e não por um historiador e de um repórter in loco, que ele dá uma dimensão da sensação humana de estar vivendo o final daquele processo. Então não são os dados e as motivações, mas você meio que entra na cabeça dos iranianos sendo assassinados por estarem protestando e ir contra o Shah e no medo que começa a acontecer
revolução se instala. Então, é um livro que está fora de circulação e eu fui ver na estante virtual, está uma fortuna. Então, por favor, o Irã está tomando bombas, esse livro tem que estar disponível para a gente ler e ter uma conversa um pouco mais informada sobre esse assunto. Companhia, capricha. A minha indicação também não vai ser uma indicação de leitura, vai ser uma indicação de filme. Eu indico muito, foi apenas um acidente, que é um dos filmes que tinha sido nomeado na categoria de melhor filme estrangeiro, I was just an accident, que é o filme de um cineasta iraniano,
Jafar Panahi. Acho que está disponível no MUBI agora, para quem quiser assistir. Indico muito, é uma obra-prima, é um filme lindíssimo. E o Panahi é hoje um dos maiores cineastas do mundo. Já ganhou a Palma de Ouro em Cannes, já levou Dois Ursos de Ouro em Berlim, já levou Leão de Ouro em Veneza. Super premiado. Ele passou décadas fazendo filmes bem líricos, assim, sobre a vida cotidiana no Irã, sobre mulheres, sobre pessoas comuns.
Operando sob o regime e empurrando um pouco os limites do que o regime permitia, ele já foi preso
vezes, já foi proibido de falar, de filmar repetidas vezes, e esse filme especificamente, o It Was Just An Accident, foi rodado clandestinamente, ele não tinha autorização pra filmar, e ele foi filmando ali de uma forma bem, com uma equipe de filmagem bem pequenininha, bem enxuta pra conseguir filmar. Ele conta a história de cinco ex-prisioneiros políticos que tentam, acham que encontraram a pessoa, o cara que seria o seu torturador. E aí é um filme que tem humor, que tem um lirismo maravilhoso,
que tem uma mensagem muito poderosa. E eu acho o Panahi, ele, essa figura que eu conheci, tive a sorte de conhecer quando estava no circuito levando o Apocalipse nos Trópicos para os festivais, ele é uma figura muito, muito fantástica, muito única mesmo, que é um grande crítico do regime iraniano, isso já foi condenado algumas vezes pelo próprio regime, mas ao mesmo tempo se recusa a ser uma peça de propaganda americana, sabe?
E critica a atuação estadunidense no Irã sempre que pode. Recentemente deu uma entrevista para o John
Stewart, que calhou de ser na segunda-feira, ele gravou, na segunda-feira, depois do início dos ataques, no sábado, né, então, muito no calor do momento, e ele faz uma declaração muito, é, muito bonita ali, assim, pro John Stewart, ele nesse momento tá condenado, ele foi condenado em absência, há um ano de prisão, e ele fala que vai voltar pra cumprir a pena dele, mesmo que ela seja injusta, que ele só tem um passaporte, é, ele falou no festival recente, ele falou, eu vou pra prisão,
por um ano e quando eu sair eu vou ter um novo roteiro. Mas tem uma coisa muito... Claro que agora tem uma guerra que vai complicar um pouco esse retorno, até porque os voos foram todos cancelados, mas tem uma coisa muito complexa nele, sabe? De conseguir ser essa voz crítica e ao mesmo tempo ser profundamente nacionalista, não trair o país dele de origem, não se prestar um papel bobo de propagandista dos outros, mas reconhecer também a crueldade desse regime, mas falar disso de forma muito humana,
nunca vingativa, nunca rancorosa. É uma preciosidade, assim, do cinema. A Petra Costa, minha amiga e diretora do Apocalipse, diz que hoje é o diretor dela favorito em atividade. E acho que ela tem razão. Então, assistam o filme. Se vocês não tiverem assistido ainda, recomendo muito. E a gente nem falou do Oscar, né, Ale? Ah, outro assunto. Nem da roubalheira do Oscar de ontem. Ai, gente, o que dizer, né, dos Estados Unidos. Um dia bombardeando criancinhas, outro dia, né, foda-se o Oscar, nessa altura do campeonato.
Ainda bem, ainda bem que temos esses cineastas maravilhosos e artistas maravilhosos como o Wagner, como o Kleber, que nos enchem de orgulho, mas a gente não precisa do Oscar pra ficar orgulhoso deles. Não mesmo. Não mesmo. É isso. Tá bom, turma. Então até semana que vem, até segunda que vem, no próximo Calmo Urgente. É isso. Tchau, tchau.
Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na pesquisa e roteiro, Luís Amigues. Na captação de som, edição e mixagem, Vitor Bernardes. Ilustrações, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Bruna Messina. Gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoui. E, consultoria de comunicação, Luna Costa.