Episódios de Calma Urgente

Semana do Agrocrime e o Realismo Ruralista

25 de maio de 20261h12min
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A investida parlamentar que desligou as câmeras e o poder do Estado conter o crime ambiental.

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo

Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez

Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_

Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Na Edição de Cortes, Julia Leite

Nas Redes Sociais Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Identidade visual, Pedro Inoue

Consultoria de Comunicação, Luna Costa

Participantes neste episódio3
A

Alessandra Orofino

Host
B

Bruno Torturra

HostJornalista
G

Gregório Duvivier

HostComediante
Assuntos8
  • Indicadores semanais do agronegócioDesregulamentação ambiental · PL 2564/2025 · Proibição de uso de imagens de satélite · Proibição de destruição de equipamentos de garimpo ilegal · Redução de reserva florestal no Pará · Lúcio Moschini · Sérgio Botelho Teixeira · Italac
  • Crédito RuralPL 3123/2025 · Vedação do uso de dados ambientais para análise de crédito · Conselho Monetário Nacional (CMN) · Alceu Moreira · Tereza Cristina · Jacques Wagner · José Guimarães
  • Previsão climática El NiñoImpacto no agronegócio brasileiro · Crise hídrica · Desmatamento na Amazônia · Tipping point da Amazônia · Sobrevivência e catástrofe climática
  • Patriotismo e identidade nacionalAgro é tudo · Construção da identidade brasileira · Projeto de país extrativista e cristão · Fusão do Brasil com commodity · Oligarquia rural · Capitalismo desenfreado · Reação ao progressismo
  • Belo Sun e Barragem de RejeitosMineradora de ouro · Barragem de rejeitos tóxicos · Rio Xingu · Belo Monte · Helder Barbalho · TRF1
  • Reforma TributáriaITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural) · Renúncia fiscal do agronegócio · Diferença entre agricultura familiar e agronegócio · Bernard Api · Fernando Haddad
  • Ocupação da cidade e ruaCidade de 15 minutos · Distância como vício da cidade · Desigualdade e espraiamento urbano · Carlos Moreno · Jane Jacobs · Le Corbusier
  • LiteraturaO Sonho do Jaguar · Os Irmãos Corsos · Stoner · Desacralização da leitura
Transcrição193 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Boa noite, bom dia, ou boa tarde, você, querido ouvinte, espectador do Calma Urgente. Queria chamar aqui meus amigos, Bruno Torturra e ela, que está de volta, Alessandra Orofino, está de volta bronzeada, está de volta com uma... Olá, queridos. Está com uma teis... Uma cutis. Uma cutis. De alguém que tirou férias.

De férias. Com a teia descansada. A sua cutis é a melhor propaganda da importância das férias remuneradas no mundo. Você devia mostrar, assim, você, a foto sua para as pessoas lembrarem como é importante tirar férias. Com o direito às férias. Fica aqui o registro público, o direito às férias e meu agradecimento à minha mãe e minha sogra que se revezaram nos cuidados infantis porque eu tirei férias sem crianças.

E a gente não? Nossa. Eu e o Bruno? Vocês ajudaram os meus filhos? Ficamos sozinhos. Cuidando desses filhos que são os espectadores do Camus, gente. Que são seus filhos também. Obrigada, gente. Com essa grande família. A grande família. Ai, Alessandra. Cuidarem na nossa família. Nem todo homem, tá? Nem todo homem. Tem homem que cuida.

Eu tô em pânico com as nossas férias aqui, exatamente porque vai ser com as... É um pouco diferente. Volta, trabalho. Volta. Mas tem toda razão de saudar as avós queridíssimas, que são tão importantes na nossa rede. Então, obrigado. Um beijo pra Dona Isabel e Dona Dulce, pra ambas. As maravilhosas. Tô me sentindo do Faustão, que sempre falava assim com a pessoa. O Faustão sempre apresentava assim. Tô aqui com a lição da filha da Dona Dulce. Um beijo.

Ele sempre com o papel de padaria. Lenda, é. Doce. Então, vamos agora. Acabou. Eu tô só rindo um pouco. Isso é o que eu queria dizer. Acabou o riso. Acabou a parte engraçada da programação. Porque na pauta de hoje, realmente, não vai ter muito kkk, não.

Viu? Não vai ter muita gargalhada, não, porque a gente até pensou em falar sobre desdobramentos do caso Master, que seriam engraçados, porque tá rolando um barata voa na direita, jogaram um inseticida na caixa de gordura e elas estão... Tá um tal de...

Zema batendo no caiado, que caiado dá uma indireta em cima do Flávio, aí vem a Michelle e ri da cara do Flávio, e diz que é, vai lá perguntar pra ele. Enfim, tá uma confusão grande que a gente não sabe o que vai ser. Mas acho que isso aí até que já tá bem coberto, né? A gente tenta, no calmo urgente, falar de coisas que não estão sendo muito ditas, ou que a gente tem algo novo a dizer. O que é uma pena, porque eu gostaria muito de falar sobre...

Coisas já ditas, mas mais leves. Mas eu... Mas vem aí a pauta urgente, né? Exatamente. Mas na verdade, eu fui até um advogado da gente mudar a pauta e falar sobre algo que não está sendo dito e que é catastrófico. E é urgente.

Que é algo que está acontecendo um pouco na surdina e ao mesmo tempo na frente de todos nós. Aconteceu a Semana do Agro, semana passada. E ao que parece, essa semana agora também vai acontecer. É só tirar férias, gente. É só você tirar férias. Exatamente. E a Semana do Agro, e a semana vai ser também provando que toda semana no Brasil é a Semana do Agro. Exatamente. Tipo, essa é a Semana do Agro?

E a Semana do Agro foi uma semana em que passou a boiada, a boiada da desregulamentação da legislação ambiental. A boiada, o que eles querem que a gente chame da boiada do agro. Aliás, o que eles querem que a gente chame de Semana do Agro, como se fosse bom para o agro, para a agricultura, o que está acontecendo, e é tudo menos isso.

É o nome que eles deram. Que eles deram, exatamente. Não é o nome que a gente deu. Exato, bem lembrado, Bruno. O nome que a gente dá, não sei qual vocês dariam, mas eu daria da semana dos oligarcas. Eu acho que é a semana do crime mesmo, Greg. Se você for olhar, se você for olhar, o que está acontecendo tem muito mais a ver com a facilitação de crimes.

ambientais, do que a facilitação de novos negócios agrícolas. Perfeito. Entendeu? Não tem uma desregulamentação pra que seja mais fácil ter boi e soja. É só bem mais fácil é cometer os crimes que já estão na nossa lei. Então tem fiscalização, tem satélite, um monte de coisa que a gente vai falar hoje.

Bruno, resume pra gente então os PLs, o que você acha que tá acontecendo fui interrompido lindamente por uma filha muito querida que veio se despedir mas Bruno, fala pra gente eu vi ali uns 5 PLs ou talvez mais que passaram alguns novos foram ressuscitados outros são fresquinhos são novos em folha e tem um pouco de tudo ali junto eles fizeram realmente aproveitaram, fizeram um saudão mesmo do meio ambiente ali e aí

E tem de tudo. Fala, por exemplo, fala do que a gente está falando aqui. De que tipo de PL são esses? Bom, tem vários. A gente vai falar de vários deles, então eu não vou fazer o resumo de tudo, senão eu vou monopolizar muito. Mas, por exemplo, um deles, que eu acho que é um de fácil entendimento para quem não está acompanhando a coisa de muito perto, é que eles estão vetando o uso de imagens de satélites.

que é uma rede muito sofisticada, que fiscaliza o nosso vasto território, a gente não pode usar mais os satélites para multas de desmatamento e crimes de meio ambiente. Precisa ser in loco, em flagrante. Para embargos, né? Precisa... Ô loco, meu! Como diria? Precisa passar uma viatura lá. Faustão. Entendeu? Então, assim, isso você imagina no território brasileiro e em áreas que, muitas vezes, mal acesso.

é veicular, tem, e aí fica na mão dos estados, não sei o que, e de um Ibama muito desempoderado. Isso é uma das coisas que é um sonho antigo deles e que passaram na semana passada. E no mesmo projeto, no mesmo projeto, porque ele se diz pra evitar injustiças, né, aos...

aos desmatadores ou aos fazendeiros e tal. Maiores justiçados do Brasil. É. É como a gente sabe, né? Realmente o pessoal oprimido pelo poder do Estado brasileiro. E no mesmo projeto tem não só o final da...

da fiscalização por satélite, mas a proibição da uma coisa que o Ibama faz, e a gente sempre gosta de ver, que é botar fogo em equipamento no meio da floresta que tava fazendo garimpo e desmatamento ilegal, que é uma coisa que eles sempre, sempre reclamaram e é uma das coisas mais eficazes que você pode fazer, porque você não simplesmente cobra uma multa que muitas vezes tá na planilha do cara, mas você acaba com o investimento dele.

E vamos lembrar que não se coloca fogo só porque é legal, porque é punição. É porque não dá para remover. É um custo do cacete para o Ibama tirar essas máquinas e mandar para um pátio e desmontar. Então, taca fogo e já está feito parte da punição. Então, isso também não pode mais fazer a partir desse projeto de lei. E tem trocentas coisas. Redução de 40% de uma reserva no Pará e por aí vai.

Eu acho que vale a pena olhar cada um dos projetos individualmente, em vez de tentar resumir todos de uma vez, porque é realmente muita coisa. Vamos começar por esse que o Bruno já deu o conteúdo dele. É o projeto de lei, vou dar o número, 2564 de 2025. A urgência dele foi aprovada em março e o mérito foi aprovado agora, durante a Semana do Agro.

E agora o texto segue para o Senado. Então só para deixar claro que ele ainda não está em vigor, mas se não houver nenhum veto no Senado, ele entra em vigor. E ele faz essas duas coisas que o Bruno falou. Ele proíbe que os órgãos de fiscalização alimentar apliquem embargos com base exclusivamente em detecção remota. Então ele cria uma série de outras obrigações para esses órgãos, o que é bastante difícil. E hoje a nossa detecção remota é muito sofisticada e muito boa. Então é basicamente privar o Brasil.

de uma ferramenta muito importante num país continental como o nosso, com órgãos de fiscalização tão subfinanciados como os nossos, é privar a gente de uma ferramenta fundamental e moderna que nos permite fazer esse tipo de fiscalização em escala. E a segunda mudança é basicamente dificultar ou quase impedir a destruição dos equipamentos usados em crimes ambientais. Mas o que eu acho que é importante desse projeto é quem o propõe.

Ele é um projeto do Lúcio Moschini, que é um deputado por Rondônia desde 2015, que está atualmente filiado ao PL, ele é ex-MDB, mas agora está no PL.

Que surpresa, no PL. Logo o PL. Quem diria, não é? Foi presidente da cooperativa agrorural de Jaru, a AgriShow, e vice-presidente da associação comercial e industrial do município de Jaru, onde ele reside. Mas o que eu acho mais interessante do Moschini é que ele tem um grande doador de campanha.

que inclusive nas últimas eleições, em 2022, foi o único doador de campanha dele, que é o Sérgio Botelho Teixeira, que é sócio-diretor da Italac, a empresa de laticínios de leite, uma das grandes marcas de leite do Brasil. Ele foi o único doador de campanha do Moschini em 2022. Então, basicamente, o Moschini é um representante da Italac no Congresso. É isso que ele é.

E aí, digamos, em consideração com o seu único doador, o Moschini já concedeu para ele, para o Teixeira, a medalha do mérito legislativo. E agora apresentou esse PL. E tem um detalhe que torna tudo mais interessante, que é, em dezembro de 25, ou seja, agora, no final do ano passado, o Ibama multou uma fazenda no Tocantins, da qual o Teixeira é um dos donos junto com outros familiares. Basicamente uma fazenda da família do Teixeira.

e aí basicamente o Ibama multou em 5 milhões 5.5 milhões de reais essa fazenda poucos meses depois o Moschini apresenta esse PL e ele falou pra BBC que ele não tinha conhecimento dessa multa, ele não sabia que o único doador dele de campanha tinha sido multado pelo Ibama poucos meses antes dele apresentar um PL que basicamente vai impedir o Ibama de aplicar multas no futuro directors

A defesa do Teixeira ainda está alegando engano cadastral, está contestando na justiça. Eu acho interessante, né? Primeiro, assim, que você possa fazer a doação de campanha quando você já foi autuado por infração ambiental. Isso é uma coisa pra gente também pensar, né? Quem é que pode fazer a doação de campanha? Por que uma empresa ou uma pessoa... Não tem ficha limpa pro doador, né? Não tem ficha limpa pro doador. É verdade. O que é interessante, né? E...

E a outra coisa é, uma vez que ele já fez a doação de campanha, se você poderia poder apresentar um projeto de lei que muito claramente blinda o seu maior financiador pessoal, de forma tão direta. Tem uma situação de conflito de interesse muito colocada.

E sabe o que é o mais louco, Alessandra? Isso daí não tem outro nome. Pra mim é corrupção. Ah, não, tô dizendo pra mim, tá? Pra onde você chamou ele de corrupto. Imagina se esse sujeito é corrupto. Isso não é lido como corrupção, entende? Isso não é um escândalo de corrupção. Que eu acho que deveria ser. Um sujeito ganhar dinheiro. Dinheiro.

de uma empresa, para depois criar uma lei, para blindá-la, de uma pessoa, para depois criar uma lei para blindá-la, para protegê-la, para isentá-la, qual é o nome disso? Falta, isso aí não falta ser um escândalo, mas não é escandaloso, isso não está na grande mídia, está no Suma Uma, que elas são um puta trabalho incrível, vai estar no Joio e Trigo, em grandes sites que cobrem o agro, basicamente, mas não vai ser um escândalo, que eu acho que deveria ser, isso é escandaloso, não deveria ser criminoso?

Eu acho muito louco. Não é lido como corrupção. Não é lido como corrupção. É, eu acho que tem uma coisa cada vez mais recorrente no Brasil e acho que esse caso da Semana do Agro escancara isso muito, que é quando você emprega os trâmites, quando os trâmites são legais, mas a finalidade é claramente imoral e possivelmente ilegal.

Isso não é lido como corrupção. Então, no fundo, quanto mais escancarado, mais limpo na cabeça das pessoas, quando deveria ser o contrário. É uma coisa bem estadunidense, onde o lobby é institucionalizado e ele é à frente de todo mundo, algo que em qualquer lugar do mundo decente, para mim, é corrupção.

dar o dinheiro para um deputado que vai isentá-la em imposto ou de lei ou vai tirar alguém da cadeia. O nome disso em qualquer lugar do mundo é crime. Nos Estados Unidos é lobby e faz parte. Agora, lobby, o nome, lobby para mim é corrupção institucionalizada. Institucionalizada, é. Vale lembrar que o Brasil não aceita mais doação de campanha de empresa, né? Mas a gente não impede que é isso, que o sócio-diretor de uma grande empresa faça uma doação a título pessoal.

Como é Volcaro fez também, né? Como Volcaro fez. Para o Tarcísio, para o Bolsonaro. É verdade, verdade. Exatamente. E aí, voltando só para o mérito do projeto, hoje, dois terços das autuações do Ibama se baseiam em censureamento remoto, né? Em imagem de satélite, basicamente. Então é uma coisa... Isso segundo o diretor do Ibama.

É realmente um projeto que, caso ele seja aprovado no Senado tal como ele é, ele essencialmente acaba com a capacidade do nosso órgão de fiscalização de fiscalizar. É um desastre de proporções monumentais.

É, é muito grande. E tudo isso por uma coisa prosaica, entendeu? Porque tem um deputado de Rondônia. É, então, mas vamos falar, né? Eu acho que o exemplo do deputado de Rondônia é mais o seu... o seu benemérito, o seu... o seu mecenas, né? Eu acho que assim...

Não é tão prosaico, né? Porque foi uma passagem avassaladora e vem num pacotão. Então, tem esse exemplo representativo alegórico, é quase, de um cara que foi autuado, o único financiador de um deputado que vai lá e apresenta esse projeto. Não seria tão bem sucedido, não passaria tão facilmente quanto ele passou e vai passar no Senado, diga-se, de passagem. Se ele não representasse uma coisa que eu acho que precisa ser martelada mesmo, que é o modelo de negócio do nosso agronegócio, ele passa pelo crime.

Ele, tipo, depende da não fiscalização, ele depende do não cumprimento das regras que estão no nosso código. Sabe? Tanto na nossa Constituição, quanto no código penal simples e tudo mais. Então, assim, é basicamente um monte de dispositivo para enfraquecer...

o cumprimento de leis. Não se tratam de novas leis que flexibilizam, que facilitam, que reduzem o imposto, porque isso já está resolvido. Isso já tem plano safra, isso já não paga, já rola dívida, quantas décadas for. Já tem uma super representação muito desproporcional no nosso E-Congresso em relação à participação do agro na própria economia. É uma coisa que a gente bate muito na nossa tecla aqui. O agronegócio...

não carrega o Brasil nas costas. É o Brasil que carrega o agro no lombo. E eles invertem isso. Mas o modelo de negócio deles, que é por isso que a semana do agro, ela é basicamente uma semana de redução de capacidade de fiscalização e de responsabilização de crimes, não de negócio. Sim. Fala uma outra lei. Passa para uma outra lei para a gente entender do que a gente está falando.

Vamos passar, mas só um instantinho, só um último detalhe sobre esse primeiro que a gente mencionou. É o seguinte, tem um detalhe que é, hoje, quando o IBAMA embarga uma propriedade rural com base em imagem de satélite, isso é um embargo administrativo, ele não é uma condenação, é uma medida cautelar. Ela é suspensa se o produtor comprovar regularidade. O proprietário tem 30 dias para contestar o processo. Então, E...

Essa alegação principal dos produtores rurais de que, no fundo, o uso de imagem de satélite de forma, como única prova, ela geraria injustiças, ela realmente não procede. Primeiro porque a gente tem um sistema de monitoramento por satélite muito preciso, muito bom e muito robusto.

O CNJ já normatizou os imagens satélites, o Conselho Nacional do Ministério Público também, o STJ também, até o Conselho Monetário Nacional já. Então, assim, isso já passou pela avaliação de um monte de órgãos do sistema financeiro, do MP, do Judiciário. E segundo que, ainda assim, o proprietário rural, ele tem tempo depois de contestar, mas ele está embargado enquanto ele contesta, né? Basicamente, o que eles querem mudar é que...

Basicamente, eles querem fazer com que a autoridade tenha que avisar antes de embargar. O André Lima, do Ministério do Meio Ambiente, ele fez, acho que resumiu bem a situação. Ele falou assim, imagina se hoje no Brasil a gente fosse controlar... Não, primeiro, a frase que veio do Observatório do Clima.

Ele diz que basicamente exigindo notificação prévia ao infrator antes do embargo, equivale à Polícia Federal ser obrigada a avisar um banqueiro acusado de fraude bilionária, de que ele está sendo investigado por fraude bilionária, de forma que tenha tempo de arquitetar sua defesa enquanto continua a cometer fraude bilionária.

É bem essa situação. Enfim, só para concordar com o Bruno, não se trata nem de uma coisa que a gente já teria questões, mas que seria mais defensável moralmente, que é, digamos, uma desregulamentação que ajuda o produtor rural, de fato, a produzir com menos burocracia. Não é uma coisa pró-setor produtivo, é uma coisa pró-crime. A ampliação de fronteira agrícola em alguma área. É crime. Trata-se de facilitar o cometimento de crimes, é isso.

Tem uma metáfora bem simples. Eles querem desligar a câmera. É a metáfora do André Lima, que eu ia citar essa. Ele fala, imagina se o Brasil, a gente fosse controlar a infração de trânsito só com um guardinho na esquina ao invés de... Quer desligar a câmera do condomínio, quer desligar a câmera do guarda. Querem desligar radar na estrada. É basicamente isso.

E assim, a direita do Brasil, que supostamente a grande bandeira dela é contra a impunidade, nessas horas você vê que não tem nenhum problema com impunidade. Isso daí que está passando um grande pacote da impunidade. Mas quando a impunidade é com oligarcas, quando ela é com latifundiários, quando ela é com bandidos de verdade, de alto escalão...

Aí eles viram, não é, cordeirinhos, assim, e se dobram. É uma vergonha essa direita, supostamente contra a corrupção, contra a impunidade, que cala a boca com um escândalo desses. É uma vergonha. É, Greg, mas aí vou ter que jogar um pouco de salitre aí, né, que é...

Também boa parte da esquerda, né? A gente sabe que esses projetos passaram sem o uso de grande força e capital político do próprio governo federal. E eu tive uma conversa hoje com uma amiga que trabalha em advocacy. Ela está lá no Congresso hoje. Ela estava lá quando eu liguei para ela para tentar falar com o senador para entender o que estava acontecendo.

E ela fala que é um projeto que, dois dos projetos principais, teve apoio do próprio governo federal, que é de interesse do governo federal, e pessoas...

notadamente o Jax Wagner e o José Guimarães, que é o atual Relações Institucionais, que já foi cargo do Padilha e da própria Glaze, hoje é o José Guimarães, do PT do Ceará, são pessoas que estão facilitando a passagem desse processo e...

querem acelerar, no Senado inclusive, para que a opinião pública não cresça e pressione o Lula a fazer vetos maiores do que ele estaria disposto a fazer. No cálculo deles, e aí a informação dessa minha amiga, em off, mas muito bem qualificada, ela atribui aqui o governo, e aí sob orientação do próprio Lula,

Eles estão gastando todo o pouco capital político que eles têm para aprovação do fim da escala 6x1. Então não é à toa que a 6x1 está andando. Parte dessa negociação é deixa a boiada passar e a 6x1 passa também.

Caralho, sério, com o Jacques Wagner no governo, quem precisa de oposição? Minha pergunta. Com o Jacques Wagner, aliás, breve aqui, momento até de autocrítica. Um amigo falou assim, não, o Master pegou todo mundo. Eu falei, não pegou, não pegou todo mundo, pegou só a direita. Não, pegou o PT da Bahia, ou seja, a direita.

Ah, não, porque agora eu falei pra você. Não, porque isso aí a direita não se comove com impunidade. Aí você fala, não, porque o PT da Bahia não se comove. É, a direita, tô te falando. Agora, claro. Agora qual é a minha autocrítica aqui? É que eu tô igual o Zizek que fala isso da União Soviética, né? Quando você criticava a União Soviética. A União Soviética nunca errou, diziam os pró-soviéticos. E quando você apontava erros da União Soviética, a pessoa dizia, tá, mas aí ela não estava sendo a União Soviética. E é um pouco assim que eu acho da esquerda. A esquerda nunca errou.

Se errou, essa pessoa não é de esquerda. Essa pessoa não é autocrítica. Mas a verdade é que esse PT que está lutando pela desregulamentação ambiental, sabe? Está contra a indicação do Lula ao Supremo, a favor do Master, a favor da blindagem desenvolvida no caso Master. É uma vergonha. É uma vergonha. Vergonha, vergonha.

Mas é isso aí. Então quer dizer que a 6x1 está sendo trocada por esse pacote do agro, é isso? Não, não estou afirmando isso de maneira categoria seca. É parte do cálculo político e é parte também, a velocidade toda que está acontecendo isso, tem a ver com o fato de que tem que correr para o calendário eleitoral oficialmente começar. Então isso tem que passar rápido para diminuir o custo político dos deputados e senadores. Mas o governo federal também entende que... directors directors directors directors directors directors directors directors directors directors

o capital político que ele tem é para 6x1, que seria a bandeira final para o Lula falar que está ao lado dos trabalhadores e entregar alguma coisa realmente popular e populista, no melhor sentido. Mas outra é que essa desregulamentação atende interesses muito regionais e muito paroquiais, o que significa também em palanque.

Então o governo federal, por exemplo, está vendo com bons olhos, em tese, a redução muito significativa de uma reserva florestal, de uma floresta nacional no Pará, para flexibilizar ela para a produção agrícola e mineração. E é por que isso? Porque o Hélder é barbalho, que é um aliado de primeira ordem do Lula.

do Gregorio ficando suspiradora. E um cara que o Lula precisa do palanque lá no norte, que está caindo para a extrema direita. Então tem esses interesses que são mais, não digo paroquiais, mas são de grandes regiões, que significa palanque em eleição, significa manter um aliado e não entregar ele para o seu outro rival. Então também tem um outro cálculo que não é só o capital ali de uma votação em troca de outra. Mas é o calendário de alianças em um ano muito estratégico.

No fim das contas, rifa-se mais uma vez o meio ambiente barra futuro das criancinhas. Podemos passar para o próximo PL? Porque não acabou. Temos mais na Semana do Água. Na Semana do Água tem várias atrações. Vários hits. Vou falar de um outro que é de um popstar da Frente Parlamentar da Agropecuária.

que é o Alceu Moreira, que é um articulador histórico da bancada ruralista. E o projeto é o projeto 3.123 de 2025. O que o projeto diz que faz é criar um sistema nacional de gestão de risco de crédito rural. E ele usa muitas palavras técnicas. Ele fala de centralizar, organizar e disponibilizar informações, de bases de dados, de plataforma unificada, interoperável. Iá! Iá, possivelmente. Iá, parece tudo muito moderno.

Mas, na verdade, o que ele faz é vedar o uso de dados ambientais oficiais sobre irregularidade do produtor rural na análise de risco para a obtenção de crédito. Então, hoje, se você é um produtor rural no Brasil, você tem crédito facilitado, que quer dizer, basicamente, crédito subsidiado pelo horário público, por todos nós.

E tem várias boas razões. Vários países do mundo dão crédito facilitado para produtor rural porque a atividade rural bem feita, não estou falando da atividade rural criminosa, ela precisa mesmo de crédito. Você tem muito investimento antes de poder... Basicamente, você precisa plantar para poder colher. E é estratégico que o país tenha esse tipo de atividade bem feita. Então, existe um sistema nacional de crédito que é disponibilizado de forma muito privilegiada para os produtores rurais.

Só que para você acessar esse crédito, você tem que cumprir alguns pré-requisitos mínimos. E um deles, que é meio óbvio, é você não estar com embargo do Ibama, você não está com desmatamento detectado pelo PRODES, você não tem pendências fundiárias, você não tem infrações ambientais documentadas. Faz sentido. É meio óbvio. Não pode pôr fogo no amiguinho, né? Não pode pôr fogo no amiguinho, se quiser, empréstimo com o jogo baixo. Não pode morder, não pode pôr fogo no amiguinho, é.

E aí, basicamente, o que o seu Moreira está dizendo é que não, que isso não é legal, que esses produtores rurais querem ter acesso a crédito subsidiado, mesmo que eles estejam com algum tipo de infração ambiental documentada.

E aí tem uma coisa aí que é importante saber, que é, existe um órgão que não faz parte do Congresso, um órgão independente, chamado Conselho Monetário Nacional, que faz parte do sistema financeiro nacional. E o CMN construiu, nos últimos anos, desde 2014, uma série...

de medidas que basicamente vão criando uma espécie de armadura ambiental para o crédito rural, vão criando esses critérios mínimos. Isso foi feito direto na implementação, é direto pelo sistema monetário. Então, tem uma resolução inicial lá em 2014 que pede um pouco de responsabilidade social ambiental para os bancos. Isso depois é estendido em 2024 para proibir o crédito rural a empreendimentos em imóveis que já estejam embargados por desmatamento ilegal.

todas coisas muito óbvias, tá? E foram feitas a partir de normativas meio técnicas. Elas não foram feitas com lei. Elas foram basicamente... Elas basicamente dizem, a lei já existe, essas coisas já são crimes. O que a gente está fazendo é, tecnicamente, impedindo ou tornando mais difícil que o erário público, que a sociedade brasileira, sem querer, acabe subsidiando a atividade de criminosos. É isso. E é por isso que isso foi feito na normativa e não precisava de uma outra lei.

E aí a última dessas resoluções do CMN entrou em vigor agora, em 1º de abril de 2026, sete semanas antes desse projeto de lei ser aprovado. Então, a partir de abril, na prática, os bancos passaram a ser obrigados a olhar especificamente a...

resolução que passou, que entrou em vigor em abril era sobre imagem de satélite. Os bancos eles passaram a ser obrigados a olhar as imagens de satélite antes de liberar o crédito rural. Eles passaram a ter que verificar se não havia imagem de desmatamento naquela propriedade rural. Se o PROD estiver mostrando desmatamento ilegal na fazenda, não tem crédito.

Se a propriedade estiver em floresta pública, não destinada, não tem crédito. Se houver embargo ambiental, não tem crédito. E tudo isso foi sendo montado ali, sem muito barulho, dentro do CMN, e agora desmontado, possivelmente desmontado, se o Senado não vetar, por esse projeto do nosso grande Alceu Moreira. Ou seja, está nas mãos do Senado.

Estamos com sorte, né? Não tem ninguém que eu falei nos últimos dias que entende do riscado que acha que vai ter qualquer veto lá dentro. Que a Tereza Cristina é particularmente poderosa no Senado e é uma das senadoras que mais tem o ouvido e o respeito ao Columbre que vamos falar, não é exatamente um Fernando Gabeira de consciência ambiental. Não é exatamente esse político.

Então, é isso. A expectativa é que passe, até porque tem Jacques Wagner lá trabalhando, tem José Guimarães trabalhando também com a outra perspectiva de fazer. Deixa passar e vamos virar essa página.

E a chance, também em tempo recorde, sem passar por a comissão, estamos gravando isso numa segunda-feira, existe uma chance muito alta de votar já nessa terça, quarta, quinta-feira para tirar da frente a pauta. E avançar com coisas mais saborosas midiaticamente, como por exemplo...

seis por um e coisas que também interessam super no nosso país, mas é isso é como nem mais o escândalo público, essas pautas são capazes de despertar eu sinto que até a sociedade tá meio já meio deu de derrota já meio derrotada isso, né? eu tava com uma preguiça ferrada de falar disso tava querendo falar de Flávio, de Dark Horse eu entendo ai gente, eu entendo mas você acha que preguiça é a palavra? eu acho que é mais um desânimo, né?

É, mas eu acho que se confunde as coisas assim. O que eu sinto é meio... Vamos lá, vamos falar de... Sabe, é uma coisa... E tem a ver com desânimo. Tem a ver com... A gente tem a impressão de que nada vai mudar. São placas tectônicas. O centrão e o agro, eles são... Existe um realismo capitalista do agro. Um realismo ruralista.

A gente vive num realismo ruralista. Você vai tentar lutar contra o agro, mas é que o agro é... O país é o agro. Ele virou. O agro é tudo. É o slogan deles, cara.

É? O slogan é isso? O slogan do agro. O agro é pop. O agro é cultura. O agro é tudo. É um argumento imanente. O agro é espinoziano no nosso país. Ele está imanente em cada coisa. E é identitário. Também tem isso. Cada vez mais. Eu sinto. Tem uma coisa do... Eu falei isso do livro do Rui Castro, Bonito, sobre a Carmen Miranda. Ele fala um pouco, no fundo, sobre a construção do Brasil. Ele fala de Carmen Miranda.

Puxei um assunto nada a ver, né? A gente tá falando de agro, eu puxei a Carmen Miranda. Mas é que o livro fica muito claro, e também fica um pouco no livro do Lira Neto sobre o Getúlio, como o Brasil que a gente conhece...

Fala aí, carnaval, o Brasil que o mundo conhece, não digo a gente ou a vocês, o que o mundo conhece quando se fala Brasil? Carnaval, futebol, samba, exatamente. Tudo que a marca Brasil implica lá fora, que é uma marca festiva, com perdão de chamar o país de marca, mas é algo de festa, de futebol, de alegria, de ousadia, enfim. Tudo isso foi inventado no século XX, anos 20, 30, 40, no máximo, por aí.

mas não tem nem 100 anos mas foi uma invenção, foi uma construção e é interessante lembrar disso, porque às vezes a gente essencializa e acha que o Brasil sempre foi assim, não era, o Brasil era um país triste nos séculos XVI era um país triste, eu digo, tinha uma vocação pra tristeza, você via as cartas era um povo que não tinha não existia esse mito do Brasil cultural, samba e tal tinham outros mitos, uma melancolia o mito das três raças tristes e tal, enfim directors directors directors

Você tinha uma outra mitologia e o país, como todo o país, não é que o Brasil foi assim. Todo o país foi construído, imaginário, uma cultura. Foi inventada muitas vezes como projeto de país. No caso do Brasil, foi um projeto estatal de país. Por que eu estou falando disso? Porque existe um projeto hoje, conflitante, até que oposto a esse, que é um projeto de criar uma identidade nacional.

Não diria ruralista, porque o ruralista é outra coisa. O agro tem muito pouco de rural, inclusive. Ele é bem cidadino. Os donos do agro não moram em Rondônia. Eles estão na Faria Lima. Mas é uma ideia de um país extrativista, que sempre foi, claro, porque o Brasil sempre foi extrativista, mas um país muito cristão, fundamentalista, extrativista, claro.

E a do agronegócio mesmo, que vende commodity. Mas não vende commodity porque é o que tem para vender, porque é um projeto de um futuro vender outra coisa. Não, vende commodity porque a nossa identidade é vender commodity. Então tem um projeto cultural de fusionar o Brasil com a commodity e de virar mesmo assumidamente um país em que quem manda...

é o latifundiário, é o oligarca. Por isso que eu estou falando em oligarca. Cada vez mais a gente está vivendo nessa oligarquia rural. E falar contra isso fica sonhático. É um pouco como falar contra o capitalismo, que por sua vez é como falar contra a gravidade. Virou um pouco isso nos anos 90 pra cá. Então você vai falar contra a gravidade se falar contra o agronegócio no Brasil. Eles vencem. Essa é a definição do jogo.

Isso é muito aflitivo. Desculpa aí meu desabafo. Não, acho que você está totalmente certo. Eu acho que é além do agronegócio, Greg. Eu acho que não é nem só a identidade extrativista, que é o centro, é o âmago disso. Mas é uma identidade que já vai além até das expressões culturais do agro. Vai além do sertanejo, vai além da...

da roupa e tudo mais. Acho que é uma identidade nacional que muita gente no próprio mundo é urbano, nas grandes metrópoles e tudo mais. Claro. Começa a se associar com uma ideia do que significa não só ser...

é brasileiro, mas uma ideia de capitalismo desenfreado, de sucesso, um tipo de ostentação adaptada à nossa economia especificamente, a um tipo de música que vai representando aí sim um novo léxico, uma nova terminologia, um outro jeito de festejar, um outro jeito de falar, que vai contaminando todos os outros nossos aspectos que eram de identidades antigas, como o próprio carnaval, como as festas populares, como a identidade...

do interior e do litoral brasileiro. A gente vê que isso começou muito, acho que culturalmente dá para identificar com essa fusão muito forte que houve nos últimos 10 anos, do sertanejo com a rocha, com o funk, com o romântico, foi tudo se amalgamando em uma expressão só, e acho que tem a ver com esse fato, que é uma nova identidade nacional e é popular mesmo. E aí o que é louco dela é que não é que ela é exatamente directors directors directors directors directors

de direita do ponto de vista político ideológico, mas ela é muito reacionária ao tipo de progressismo que a esquerda representa culturalmente, e não economicamente, não tem a ver com o trabalho, com o sindicato com que a esquerda representava. Mas com a ideia cultural estereotipada de que a esquerda representa, o agro é cultural, ele também é uma resposta a isso tudo. E é por isso que eu acho que as pessoas, tipo...

uma, não se escandalizam tanto com isso e entendem de novo, o Ibama como um problema ser superado e não identifica esse fazendeiro como um bandido porque o país é pra isso mesmo é pra crescer, é pra explorar mas acho que tem uma coisa que é é a esquerda que defende o Ibama então assim

tá capal de verdade, ele representa algo maior do que um órgão de fiscalização. Sim. Ele representa aquela consciência da culpa, da responsabilidade ambiental, do papo do ativista, do chato e tudo mais, e que também tem uma força cultural avassaladora, assim, por cima disso.

Tem alguns elementos simbólicos aí que vocês falam me parecem interessantes. Um, você fala, né, Bruno, que é uma identidade que vai além da identidade agro e ela, no fundo, se funde com essa ideia de um capitalismo desregulado.

Que também tem a ver com bets, que também tem a ver com aposta, que tem a ver com golpes. Essa ideia de que, no fundo, o que importa é ganhar dinheiro a qualquer custo. E a prova do sucesso é o sucesso em si, né? A prova de que você foi abençoado é que você ganhou dinheiro. E não a maneira como você construiu. E no final das contas, se você puder passar esse recibo, não interessa como é que você chegou lá.

Que tem, de fato, muito a ver com a nossa cultura hoje. E a gente já falou disso em outros programas. Mas o que eu acho curioso é que tem uma contradição aí, né? Se por um lado essa identidade é uma identidade calcada nessa ideia de um capitalismo selvagem e não regulado e do poderio dos mais fortes sobre os mais frágeis e sobre tudo que é frágil. E que...

e que por isso mesmo você quer, no fundo, ir deixando o Estado mais fraco, e enfraquecer o Ibama é uma maneira de enfraquecer o Estado.

Por outro lado, nesse último PL que a gente estava comentando, trata-se essencialmente de facilitar o acesso do produtor rural a um crédito que é subsidiado por esse mesmo Estado. Então esses caras são tudo menos capitalistas selvagens. Eles precisam hoje de um tipo de subsídio que só existe pela capacidade solidária do povo brasileiro de subsidiar o agro. Eu fui fazer um cálculo.

por pessoa, assim, eu fiquei curiosa de saber quanto que cada um de nós contribui só pra que o agro tenha juros mais baixos, assim, só pra fazer a equalização direta dos juros do crédito rural, né, que é basicamente o que a União precisa injetar no sistema financeiro pra que eles, pra subsidiar esses juros mais baixos, porque isso não é o banco que dá, assim, porque ele resolveu, a gente subsidia.

E depende do cálculo, porque tem o quanto que de fato a gente coloca ali no plano safra, quanto que a gente disponibiliza em crédito rural oficialmente, depois tem o quanto que no fundo a União depois precisa de fato pagar porque o juros está aumentando, aí tem toda uma complicação técnica. Mas é algo entre 20 e 100 reais por brasileiro.

É todo ano. Que a gente faz, assim, de uma contribuição, e eu não estou falando de outras formas de subsídio ao agro, estou falando especificamente para fazer com que eles tenham acesso a esse crédito mais barato que eles querem acessar sem precisar passar por qualquer tipo de fiscalização ambiental, ou seja, sem que o banco use os dados que já existem, né, de compliance ambiental no seu cálculo de risco. Então é uma...

É uma cara de pau muito grande. E o que eu acho mais interessante, voltando para a conversa mais identitária e cultural que vocês estavam tendo, é como essas duas coisas conseguem conviver. Como eles conseguem continuar projetando uma imagem de cowboys, assim, que estão na fronteira, sem ajuda de ninguém, com os seus cavalos desbravando terras nunca antes usadas. Sabe, uma coisa bem, uma imagem do western clássico americano.

que não precisa de Estado, que não precisa de ninguém, que é independente e tal, e ao mesmo tempo que eles estão pleiteando, usando lobby, usando doação de campanha para deputado, usando todos os mecanismos do Estado, é mais crédito subsidiado por esse mesmo Estado e, portanto, por todos os brasileiros.

Eles não são fortes, eles são tão fracos que eles precisam de um esforço coletivo de 100% das pessoas que moram nesse país para que eles possam, assim, pagar uma taxa de juros mais baixa que todo mundo paga.

Do que todos os outros setores produtivos, do que todas as pessoas físicas, do que o trabalhador tentando financiar uma casa. É uma máfia, Alessandra. Sabe o que dá raiva? Eles se uniram a uma coisa muito querida, que é comida, né? Quem faz comida nesse país. Como se eles fossem responsáveis por botar comida na nossa mesa. E você nem encontra um dado direito na internet que separa. Então eu fui buscar, por exemplo, quanto que eles empregam. Porque eu sabia que era pouco. Aí do nada, todas as matérias dão 28 milhões de pessoas. É muita gente. O agro emprega 28, tudo isso?

Ninguém separa agricultura familiar nos dados, nas matérias, do agro. E são coisas radicalmente diferentes. Radicalmente, eles estão lutando por coisas opostas. Você não vai ver agricultura familiar defendendo crime ambiental. Você não vai ver as pessoas que plantam de fato e botam comida na sua mesa interessadas em defender isenção para quem comete crime ambiental. Você não vai ver eles defendendo, por exemplo, que o Ibama não queime.

tratores de infrator ambiental porque nem tem maquinário desse tamanho muitas vezes, é uma outra não tem nada a ver, mas eles são botados no mesmo bloco pra parecer que eles empregam e eles alimentam quando eles não empregam e eles não alimentam, então tem uma operação muito bem feita assim, de grudar com uma categoria que é muito querida e muito necessária, que é da agricultor familiar, da agricultor que faz de fato comida pra você, pra gente comer

não é da pessoa que faz etanol que você não come etanol, que faz soja para o porco chinês eles se grudaram eles fizeram como se fosse esse amálgama e que é difícil você separar, você não vai encontrar esses dados, alguns fizeram, não, são 7 milhões só, porque aí separam agroindústria, que são eles acho que tem gente que vai dizer que são 2 milhões tem gente que vai falar que são 5, enfim é um dado difícil de encontrar, porque eles botam no agronegócio todo mundo que planta, sendo que esses caras fazem tudo, menos é um dado difícil

botar a mão na massa e plantar. É mais do que isso, né? Quando eles contestam, por exemplo, os dados de PIB, de participação no PIB, eles não colocam só todo mundo que planta, Greg. Eles fazem uma coisa ainda mais, assim, esperta, que é basicamente falar que toda cadeia produtiva, inclusive a distribuição, etc., precisam ser consideradas nos dados de PIB. Então, eles querem considerar, desde a produção do pesticida pela indústria farmacêutica, até de fato o agronegócio, até a distribuição de comida no supermercado.

Agora, claro, se todo setor produtivo for fazer isso, a soma das suas participações no PIB não vai dar 100%, vai dar 500%, porque todo mundo... É verdade. Mas é por isso que tem essa disputa dos dados do PIB. Eles falam que eles são responsáveis por 20% do PIB, os dados oficiais são de 7% ou 8%.

Eu que faço uma peça, não é um ator que faz peça, eu quero também ganhar um trocado. Todo mundo que vai jantar depois da minha peça e da pessoa que pegou o Uber, que eu tô sustentando. O Uber, a peça. O turista que vem pro Rio pra ver a peça. Todo mundo, então, é do teatro. É dinheiro do teatro. É a cadeia produtiva do teatro.

Claro que eu acho que é mesmo. Não, e assim, não é completamente maluco pensar que essas coisas... É evidente que quando você avalia um setor estratégico, você tem que olhar para tudo isso. Mas isso é muito diferente de falar, não, a participação do agronegócio no PIB é essa. E acho que a maior distinção é essa que você já fez, né? É entre o agronegócio que produz comida e o agronegócio que produz commodity.

E hoje a maior parte do lobby do agro no Congresso é financiada por quem produz commodity. Inclusive o exemplo que a gente deu antes da Italac, ele é um mau exemplo nesse sentido. Porque mal bem eles estão ali produzindo leite. Mas não é de onde vem a maior parte dos subsídios da própria frente parlamentar agropecuária, né? Que é subsidiada pelo agronegócio.

E que cada vez mais está fundindo literalmente com atividades meramente criminais mesmo, como o tráfico de madeira, garimpo ilegal. E aí tudo isso vira uma grande frente só. E é isso que é louco, que a palavra agro também esconde para a própria imprensa algo que é muito mais insidioso.

que a mera produção extrativista de commodity, que já é mal compreendida, que já tem a propaganda dela, mas tem uma fusão muito clara, e acho que do bolsonarismo é para cá isso ficou muito evidente, não é à toa que tem Roraima enfiado nisso, porque não são interesses agrícolas, pura e simplesmente.

É interesse aí, é fronteiriço, é madeira, são minerais em terra indígena, coisas que estão nesse mesmo pacote de altos interesses de modelo de negócio brasileiro. E aí tem, só botando aqui um outro projeto que eu acho importantíssimo da gente falar, que esse sim é um sonho molhado desses caras desde a época do Ricardo Salles.

quando ele anunciou aquela boiada no começo da pandemia, naquela fatídica reunião, tinha essa ideia que nunca foi executada e que está sendo agora. Que é transformar o Ministério da Agricultura e a Pecuária em um super, super ultra ministério. E que ele, sim, vai ser responsável por muito da fiscalização e das autorizações que o IBAMA, que o ICMBio tem como autarquia técnica.

Então é absorver para dentro do Ministério de Agricultura as autoridades de fiscalização e de autorizações de novos campos de exploração, de desmatamento, de mineração, de uma série de outras coisas. E como a gente sabe que o Ministério de Agricultura já é, em qualquer presidência,

uma representação do agronegócio, não tem presidente que tem força política de meter no Ministério da Agricultura um representante do bom senso nacional, digamos assim, é também entregar mais poder política direto para esse mesmo grande campo em que o agro é, enfim, nas palavras da própria campanha, o agro é tudo.

Aliás, uma outra coisa que se fala muito pouco e pra mim era muito central é uma reforma tributária do campo. O ITR é grátis. Primeiro, ele é autodeclaratório. Você diz quanto vale sua terra. Imagina que moleza se o IPTU fosse assim. Você diz quanto vale. Tem várias maneiras de você se declarar, inclusive isento.

E é uma mata que tem no país. É muito barato você ter um latifúndio. E você criando um imposto que seja justo, não precisa ser altíssimo, basta que ele exista, que ele não seja uma piada. E imediatamente você favorece com a quantidade de coisas gigantescas, desde a reforma agrária, claro, porque você vai ter que vender a terra. Ninguém quer ter um latifúndio pagando milhões. Deixa de valer a pena. Você não pode valer tanto a pena assim se você tem um latifúndio.

Vai querer vender, vai democratizar a terra, vai aumentar. Claro, você vai ter que cuidar um pouco melhor dela. Tem mil maneiras. E, curiosamente, o cara que é um dos mentores da reforma tributária, que é o Bernard Api, é um dos caras que tem um texto interessante sobre isso, inclusive, fácil de encontrar na internet, sobre como o ITR seria fundamental, inclusive, para boas práticas ambientais. Como ele ia ser uma grande campanha contra o desmatamento. Porque só vale a pena ser desmatar, essas quantidades se desmatam hoje, se você puder ter...

milhões de hectares de terra seus, entendeu? E não cuidar deles. Se você tem em terras menores, em geral, são muito mais bem cuidadas, mais fiscalizadas e muito mais ambientalmente sustentáveis. Enfim, é muito óbvio essa conta. E eficientes também. Você precisa focar em produtividade. Exatamente.

E a não escala, pura e simplesmente. Então, assim, é uma medida muito simples que teria impacto de todo tipo. Produtivo, mas também arrecadatório, mas também ambiental. Muito simples. Mas ainda não está nem sendo discutido. Então, eu acho que é uma das derrotas que a gente já assumiu e que eu acho uma tristeza que tem a ser assumido, sabe? Que o ITR no Brasil é assim mesmo, que ninguém mexe. Que loucura, cara. Isso é uma loucura mesmo. Total, total, total.

E o Bidinho não é falado, né? Eu não sei se estão falando na reforma tributária, mas eu tenho a impressão de que não. Nunca mais ouvi falar nisso. Eu acho, Greg... O GTR é muito pouco explorado mesmo.

E eu sei que é uma das suas obsessões, mas eu acho que o ITR, ele entra... Que eu ouço essa conversa em mesa de barro, quando a gente tá falando mal de agro, mesmo de gente que não é tão interessada no assunto. Eu acho que entra no realismo ruralista nosso, que a gente tá falando. Já é um dado da nossa realidade. É tipo, intachável. Entendeu? Um negócio assim, tipo, essa guerra a gente já perdeu.

parece que está mais nesse registro e acho que o governo faz a mesma avaliação. Com essa força parlamentar tão avassaladora e está sendo tão difícil de passar uma reforma tributária tão mínima para taxar um pouquinho mais rico, para isentar um pouquinho mais os mais pobres e tal, que os caras falam assim, cara, eu não vou comprar esse BO gigantesco aqui.

Agora, para além deles pagarem pouco imposto, eles têm muita renúncia fiscal. É de longe o setor produtivo que tem mais renúncia fiscal. O Haddad falou algumas vezes sobre isso e acho que isso causou tanto problema para o governo que ele parou um pouco de falar. Mas você perguntou se isso estava sendo pautado na discussão sobre reforma tributária. Eu não vi o ITR ser pautado, posso ter perdido essa discussão. Mas o que eu vi sim o Haddad tentar pautar foram as renúncias fiscais do agronegócio.

Que essas são gigantes. Aquele dado que eu estava dando anteriormente era só crédito, era só subsídio para crédito rural. Se a gente realmente olhar para a renúncia fiscal do agronegócio, é papo de mais de 150 bilhões de reais por ano. É uma loucura. O Haddad, quando foi falar sobre isso, ele falou que o agronegócio sozinho representava cerca de 18, quase 19% de toda a renúncia fiscal federal. Então, e aí, isso...

No fundo, é claro que o ITR em si seria um mecanismo interessante, mas também não adiantaria a gente ter um pouco mais de imposto sobre a terra em si, se a gente continua dando tanta isenção para esse setor de qualquer maneira. Muita anistia também, muita anistia. É impressionante as anistias que eles têm de multas atrasadas, diga-se de passagem, que eles também não pagam. Agora, gente, vocês querem continuar fazendo passeio pelos projetos deprimentos? Sim, pode continuar. Pode continuar.

Tá, tá bom. Não, fala, fala. Fala você, porque eu ia falar de uma coisa um pouco mais deprimente, mas que eu acho que se conecta com o agro. Não, eu acho que a gente pode passar para talvez análise de fundo. Eu vou citar muito rapidinho os outros projetos, só para eles não ficarem sem menção, até porque parte da razão pela qual essa galera faz esse tipo de coisa, de forma tão concentrada em uma semana, é exatamente pelo que está acontecendo aqui.

a gente que se interessa por esse tema, que tem um público que se interessa por esse tema, a gente fala de três, a gente fala não quero mais falar dos outros, já que eu cansei. Então a gente não consegue nem dar conta, acho que cognitivamente mesmo, do tamanho do problema, é tudo muito rápido, é tudo muito avassalador. Eu vou tentar lembrar que estou trazendo o documento que a nossa querida Luísa Miguez nos preparou para trazer alguns dos outros absurdos, né?

que entraram nessa mesma semana. Que, aliás, era também a semana da ida dos prefeitos para Brasília. Então, a pauta de Brasília estava muito capturada pela presença dos prefeitos lá. Então, a gente já falou do crédito, a gente já falou do grande Ministério da Agricultura mais poderoso, a gente já falou da fiscalização por satélite, do impedimento da fiscalização por satélite. Tem o desmonte da Floresta Nacional do Jamanchim, que eu acho que o Bruno citou rapidamente, que é essa grande área de proteção ambiental no Pará e que interessa...

muito especificamente as elites locais. E é isso que é um projeto do Osnaldo Bulhões, que teve um apoio especificamente do Helder Barbalho. E aí tem também o fim da proteção dos campos nativos, que é basicamente o PL 364 de 2019, ou seja, a gente está aí transmitando.

Transmitando desde 2019. Transmitindo e tramitando. E ele altera o código florestal para permitir que toda formação vegetal não florestal, que é basicamente campos, campos nativos, áreas úmidas, o cerrado tem muito isso. Não é que são grandes florestas, são outro tipo de vegetação, mas que todas essas formações vegetais não florestais sejam classificadas como área rural consolidada sem precisar de licenciamento ambiental para conversão.

Então facilita basicamente a regularização de áreas de campos nativos convertidas para soja e pecuária. Se você tem um campo nativo e você coloca três bois para pastar nesse campo nativo, você pode dizer que isso já é uma área consolidada de agropecuária. A estimativa da SOS Mata Atlântica é que esse projeto sozinho vai retirar a proteção de 48 milhões de hectares de campos nativos. Metade do Pantanal vai ser atingida por esse projeto.

É isso, parei de deprimir. Eu não vou mais citar mais nada, porque eu acho que tá ficando chato. Mas queria só dar o contexto geral. Caralho. E ainda tem Belo Sun, né? Ainda é um outro assunto. Não sei se vocês já conhecem Belo Sun.

Esse nome é ridículo, aliás. Sim, não bastasse Belo Monte. Ao lado de Belo Monte. Belo Monte, vale só lembrar. Vale só lembrar o que foi Belo Monte. Foi uma hidrelétrica...

feita a revelia da população que ali morava, a revelia de qualquer laudo ambiental sério, apesar de ter sido feito, sim, com a aprovação do Ibama, e com muita gente, foi feito pela Dilma em 2016, dizendo que ia ser um incrível maior, ia ser a maior hidrelétrica, o mais eficiente do planeta e que o Brasil estaria precisando, porque entregar tudo não entrega, ou seja, nem em termos de energia ela entrega o que prometia. Foi uma catástrofe ambiental, uma catástrofe humana.

porque deslocou uma quantidade gigantesca de pessoas ali. E para piorar, não bastasse o fracasso de Belo Monte, em todos os aspectos, querem fazer ao lado de Belo Monte uma grande mineradora, que seria a maior mineradora de ouro do país.

Belo Sun. Aliás, tem um nome curioso, que Belo Sun, eu acho que é a própria empresa que vai fazer, e quem vai fazer o nome da mineradora é Volta Grande, que é o nome do lugar. Para mim, isso aí já diz tanto, ser uma grande volta, sabe, assim, ao passado. Meu Deus, olha Belo Monte voltando aí de novo. É uma volta grande a mineradora. E isso está sendo feito sem nenhuma consulta séria, ninguém. Quer dizer, sim, tem uma consulta de uma empresa que eles contrataram e que, pelo jeito, valeu.

Porque o que dizem é que nosso Helder Barbalhos está louco para fazer isso logo. Então conseguiu fazer com que fosse uma legislação do SEMAS, ou seja, do Pará, que não precisasse ser federativo, não precisasse passar pela União, pelo Estado do Meio Ambiente, etc. E pelo jeito ele está conseguindo, mas está em disputa. Vai ter uma votação no Supremo, dia 3 de junho, era agora 20.

a DIO vai ser dia 3 de junho, onde vão decidir quem é que vai liberar isso. E se for a federação, se for a União, tem um pouquinho menos chance de passar. Ou pelo menos de passar com um pouquinho mais de seriedade. A verdade é que já passou muita coisa, não é? Perdão, não é Supremo, é TRF1. Falei besteira. É no TRF1.

que vai passar dia 3. E, na verdade, já passou muita coisa. Já tem autorização para desmatar, sei lá quantos hectares. Isso já está acontecendo. Tem muito protesto, claro, em geral, de pessoas diretamente afetadas. Aqui são as pessoas que estão, de fato, falando disso, o que é uma pena. Mas é um negócio criminoso que está acontecendo debaixo dos nossos olhos. É um negócio horroroso mesmo. E também está sendo muito pouco falado. Esse desastre de Belo Sano.

Você falou já da barragem, Greg? Você falou de uma coisa agora? Tem esse detalhe, né? Que a barragem de rejeitos projetada pela Belo San, basicamente onde eles vão deixar os rejeitos da atividade de mineração, ela teria cerca de 35 milhões de metros cúbicos de lama tóxica. É três vezes maior que a barragem da Vale Embromadinho, aquela que se rompeu em 2019. Ela equivale a 35 estádios do Maracanã, cheios até o topo, e fica só 1,5 km do rio Xingu.

Do Rio Xingu, que é a volta grande do Xingu, que é entre muitas coisas, foi a área alagada já por Belo Monte. Já é uma área de desastre ambiental. De desastre. Então é basicamente criar uma barragem com uma solução residual de cianeto, que é o composto usado para dissolver o ouro nas rochas, que é altamente tóxico, a um quilômetro e meio do Rio Xingu. Três vezes maior do que a barragem da Vale Embramadinho.

Sem falar na remoção de 800 a mil famílias. Não são nem pessoas, tá bom? Que moram lá. Vão ser despejadas. Tem um detalhe que a consultoria que assinou o estudo de segurança da barragem da Belo San foi a mesma consultoria que assinou a segurança da barragem de Fundão em Mariana. A que se rompeu em 2015. Dizer que a gente não aprende...

Eu não sei, gente. Histórico de sucesso, hein? Meu Deus, está aí. Que currículo bacana. Que currículo lindo que você solta. Subiu a cabeça mesmo. Subiu a cabeça. E assim, sabe o que é simbólico? São 10 anos Belo Monte. Você já lembra? É 16 Belo Monte. Comecinho de 16. A Dilma fez questão de se apressar na inauguração para ela não sofrer o impeachment antes.

Porque ela realmente quis, foi o último grande ato inaugural dela como presidenta, foi Belo Monte. Uma loucura. Um dos pivôs da briga dela com a própria Marina Silva. A gente esquece, acho que gente mais jovem do que a gente talvez não tenha vivido isso de maneira tão intensa, mas Belo Monte foi um ponto muito importante de inflexão e de racha político do próprio governo Lula e Dilma.

Lá atrás. E deu no que deu.

Enfim, pessoal... Mas, Bruno, você queria ampliar um pouco a lente. Amplia a nossa lente. Só pra gente não cortar o tipo. A gente parece que a gente tá falando isso, assim, só porque, puxa vida, é como se fosse apenas uma tragédia local, como se isso fosse injusto com as florestas, com os animais, com as populações que moram lá perto, como se a gente só gostasse de florestas que, de fato, a gente gosta e não gostaria de ver isso dominado por crime, por soja e por filha da puta.

Mas o ponto é, a gente está, nessa mesma semana do agro, a gente está vendo dia após dia as chances aumentando significativamente para um super-elninho. A gente falou um pouco disso por acidente, como a gente passado.

Mas a gente está falando agora, não é nem mais uma questão de mero conservacionismo clássico, a gente está falando de sobrevivência e de uma catástrofe climática já em curso. E aí tem uma ironia muito forte nisso, que é, pode ser o super ou o ninho mais danoso ao agronegócio brasileiro da história.

Apesar de a gente ter tido grandes secas, frutos de outros reuninhos...

Dada a nossa condição, a nossa crise hídrica, o tamanho do nosso agronegócio e o fato dele ser tão monocultor e tão dependente, ao mesmo tempo, de uma estrutura muito frágil de chuva, esse super reuninho pode ter um impacto econômico para esse mesmo agronegócio que, em grande medida, é responsável pela facilitação de super reuninhos. A gente pode ver esse ano culminar de uma maneira muito...

muito louca, que é um desmonte final de uma boiada que nem o Ricardo Salles conseguiu passar, uma capitulação do próprio governo Lula em relação a não usar o capital político que tem para impedir isso de fato e isso não ser uma pauta nas nossas eleições, o que para mim é muito louco.

A gente não conseguiu pautar isso e apontar isso como uma fronteira muito importante para o nosso campo. Mas é do Super Uninho entrar, e aí não é só no nosso país, é no mundo todo, mas o Brasil é especialmente afetado, porque as águas quentes estão aqui atrás da nossa costa, não da nossa costa, do nosso interior.

e começar essa catástrofe toda em período eleitoral então o que eu acho, falando disso não é o profeta de apocalipse que vai morrer gente mas o que eu acho já que a gente fala com o campo mais esquerdo, campo progressista as pessoas ouvem e tudo mais é

A gente precisa pautar, e acho que o Lula deveria pautar urgentemente, o super-elminho e se adiantar ao que pode acontecer no nosso país. Porque se isso não vira...

um anúncio prévio, se o governo não apresenta a política pública, não dá o alerta, não prepara as pessoas para o que pode acontecer no país todo, na economia, na inflação de alimentos, enchente, seca e incêndio, vai cair na conta dele em outubro.

Vai cair um certo desespero. E aí vem, pra mim, um problema mais atávico do próprio lulismo, do próprio Lula. A gente identifica isso quando ele fala, na nossa entrevista. O Lula não gosta de baixar o astral, né?

O Lula sempre gosta de ser o cara solar, o cara da esperança, o cara do... Vai dar tudo certo, eu garanto, você vai ver, o próximo governo vai ser melhor ainda. Mas eu acho que tem um momento cultural no mundo todo, um momento político no mundo todo, que acho que as lideranças que estão sendo capazes de ganhar confiança do público são as que...

polarizam de um jeito mais interessante, quer dizer, apontam culpados, quem são os culpados pela merda que você vive, o Lula se recusa a fazer isso com muita clareza, mas também são claros na gravidade do momento que a gente passa. E eu acho que, se se confirmar, porque tem 90% de chance de um El Ninho vir, o que já é difícil, o que já vale o pronunciamento em rede nacional.

Mas se ele vier mais forte do que o normal, eu acho que demandaria um recálculo político muito sério na campanha, nos discursos, no léxico que o presidente usa para falar disso. Inclusive, responsabilizando o crime ambiental em curso no país por parte da nossa falta de resiliência a esses fenômenos.

Até porque o que vai acontecer, sem nenhuma sombra de dúvida, é que se a gente viver um super auninho de fato, como está se anunciando, a gente não tiver só seca, que o auninho já causa, mas mega seca, potencializada pelo desmatamento na Amazônia, que vai tirando da floresta a sua capacidade de, basicamente, criar chuva no Brasil. Como você disse, né, Bruno? O agro vai ser o mais afetado. E eu não tenho nenhuma dúvida de que o que o agro vai fazer no dia seguinte é pedir socorro do governo federal.

Essa conta volta de novo pra sociedade. Diretamente? Diretamente. E a solução no curto prazo, depois, no ano que vem?

abrir mais fronteira em terras frescas e terras férteis. Então, assim, é um ciclo vicioso muito forte. E essa do Pará, por exemplo, essa relativização de fiscalização, gente, a gente está muito próximo, possivelmente na fronteira limítrofe mesmo, do tipping point da Amazônia, dos pontos de não retorno. E aí o maior desmatador da Amazônia não vai ser mais o agronegócio, vai ser o próprio clima. E é isso que a gente precisa evitar a todo custo.

Então é isso que me dá esse desespero Na hora que o desmatamento For simplesmente efeito natural Que aí sim, não tem satélite Que vai segurar

Bom, animado. Perfeito. Animadíssimo, Bruno. Que barato. Legal, né, pessoal? É, muito fofo. Vamos ficar por aqui? Liga no próximo Calma Urgente. É, não percam. Não percam o próximo Calma Urgente. Liga o sininho. Deixa o seu comentário. Ativa o sininho. Deixa o seu comentário. Diz o que você acha dos comentários. O que você acha do Apocalipse Iminente? Dá um like. Faz um pix.

E assine o clube do livro. Mês que vem vamos ler Os Imortais, que é um pequeno grupo de neandertais tomando na cabeça do clima e da natureza. Maravilhoso. Tô louco pra ler isso. Por enquanto, estamos com maravilhoso Celso. Agradecer a Celso Rochas Baixo que participou do nosso clube do livro. Tivemos um feat quase. Foram... ...

calma, na quarta-feira do nosso grupo no Clube do Livro, foi uma delícia, ele veio falar do livro dele que aliás é incrível, e aproveitar pra fazer uma, dizer, falar agora de livro, livro incrível que chegou aqui, Alessandra deve conhecer, Carlos Moreno, grande urbanista, inventor do conceito da cidade de 15 minutos, uma cidade na qual você tem que atravessar em 15 minutos e tal, e tem esse grande...

desse livro lindíssimo que é uma defesa da cidade reduzida. Basicamente o que ele define em termos de distância. Ele chama de cidade de 15 minutos, mas ele diz que a distância é o vício da cidade. É bonito isso. Quanto mais uma cidade se espalha e fragmenta, mais aumenta a desigualdade dentro dela. E é bonito isso, como desigualdade e espraiamento estão ligados numa cidade. Um puto urbanista pensa a cidade de uma maneira...

muito interessante, revolucionária mesmo, quem gosta de discutir cidade, aliás, a WMF está com essa coleção inteira incrível, tem a Jane Jacobs também, Kevin Lynch, Le Corbusier, um monte de gente muito interessante nessa coleção linda, então, pra quem gosta de urbanismo, de cidade, de discutir tudo isso, livraço do Carlos Moreno, queria muito que nossos prefeitos lessem, não sei se é sonhar alto demais, mas com essa mania de expansão, o Rio sofreu muito com isso.

E uma sociedade que se expandiu de uma maneira louca, assim, desnecessária, sem adensar, sem cuidar do centro, precarizando, assim, sucateando nosso centro histórico que está até hoje sofrendo, em vez de crescer pra dentro e democratizar a densidade, é o que o Carlos Moreno fala, a gente tem que democratizar a densidade. E o quanto mais pobre, em geral, menos densa e tal.

Eu adoro o Moreno. E tem uma coisa muito isso aí que a gente sente, de como é gostoso uma cidade densa, de como é gostoso você, em poucos quarteirões você anda, você vê vários tipos de comércio, vários tipos de pessoa. Alessandra, isso é revolucionário. E tem uma coisa, ao mesmo tempo que a gente sente isso, quando a cidade densa em geral, toda cidade densa em geral é mais organizada, ela é mais democrática, ela é menos desigual, mas ao mesmo tempo, as pessoas têm, às vezes, elas demonizam um pouco a verticalização. Eu já falei isso.

Ah, porque essa verticalização das cidades, hoje em dia tudo é arranha-céu. Ao mesmo tempo, é difícil você ter uma cidade organizada e uma cidade democrática que não seja densa. Ou seja, é uma medida vertical. É, mas você vê uma cidade como Paris, por exemplo, não é uma cidade com muitos arranha-céus, é uma das cidades mais densas do mundo.

É verdade. E inclusive, né, a elite brasileira que ama Paris, acho que muito raramente reconhece que parte do que é delicioso de Paris é a densidade de Paris, porque é isso que faz a cidade ser vibrante e você em pouco tempo conseguir passar... Mas ela não tem arranhação, mas ela é bastante vertical, ela também não é uma cidade baixinha. Pois é. Mas não é sem arranhação. Isso dá pra dizer sobre a elite brasileira em relação a tudo. Tudo que elas admiram em Paris, elas não admiram em casa. Elas vão pra Nova Iorque, elas vão...

Não, elas vão pra fora e amam e elogiam coisas que aqui, se alguém propõe, elas tacam fogo em tudo e vão pras ruas. É um inferno. Mas e vocês? Gente, eu tava de férias, eu só li romances, entendeu? Então eu tava no momento ficção. Eu li um romance de um autor franco-venezuelano, que ainda não foi traduzido pro português, mas como eu sei que tem muitos editores que nos ouvem, eu recomendo muito que traduzam. Chama-se O Sonho do Jaguar.

E é a história de uma família, meio realismo fantástico latino-americano, essa tradição, mas é a história de uma família na Venezuela, ao longo de boa parte do século XX. E a partir dessa história da família, ele vai contando também a história da Venezuela. E é fascinante. Eu tô bem interessada na Venezuela, por óbvias razões. Então, foi muito legal de ler O Sonho do Jaguar. Eu li um romance do Má, chamado Os Irmãos Corsos, que é basicamente bem curtinho, bem rapidinho. Também gostei. E agora eu comecei um thriller.

mas que eu não sei se eu vou recomendar talvez semana que vem, mas quando eu tô de férias eu gosto de ler só só besteira, e eu tô falando isso porque eu acho que a gente precisa não, mas um pouco besteira, no sentido de ser realmente mais frívolo, mais rápido mais

livro que você lê rápido e que você devora e que não tem grandes compromissos, não precisa ser uma grande literatura. E acho que a gente fala muito de livro no Calma Urgente, muitas vezes as pessoas ficam, mas vocês ficam aí exibindo suas leituras. E acho que parte do que a gente está tentando fazer também é de sacralizar um pouco a coisa da leitura. É poder ler coisa meio mais ou menos, é poder começar a ler e jogar fora e começar outro livro, é não transformar a leitura numa coisa que precisa ser...

Um grande compromisso, sabe? É poder ler gostosinho também. É poder ler livro infanto-juvenil. Ler literatura de adolescente. Eu acho que tudo isso tá valendo. Claro, claro. Desde que a gente esteja lendo. Então, quando eu tô de férias, é pra aí que eu vou. Recomendo. O Sonho do Jaguar. Mais do que o outro. O outro é legal, mas não tão legal. O Sonho do Jaguar é muito legal.

Boa. Eu não tô lendo nada, assim, vou reler Os Imortais, que eu li no mês passado, mas vou reler pra o nosso Clube de Cultura do próximo mês, então isso é o que eu vou pegar. Mas eu tô lendo essa semana, Stoner, que é um romance maravilhoso que eu nunca tinha lido, um romance daqueles que... do John Williams, também um dos anos...

Meados dos anos 60. Seguindo na pesquisa que eu falei na semana passada, que eu estou muito interessado nas construções narrativas de vanguarda, de quem estava escrevendo entre 65 e 78. Acho que é uma hora muito interessante da gente olhar para onde a arte estava indo. Estou ainda seguindo um pouco nessa minha pequena obsessãozinha.

do mês aí. E a recomendação que eu tenho pra dar pra todo mundo que tá em São Paulo, ou vai tá em São Paulo na semana que vem, calma urgente, ao vivo, dia 3 de junho, na Feira do Livro, na Praça Charles Miller, ali no Paquembu.

Acho que é um dos eventos mais legais de São Paulo. Já acontece acho que há quatro ou cinco anos, não sei. É maravilhoso, tem mais de uma semana. Esse final de semana vai começar, vai até o outro final de semana. Então acho que começa no dia 30 ou 29, não sei. E vai até o outro final de semana. Muita gente legal, vão ter várias palestras. Acho que o Greg também faz uma fala no próprio dia 3, se não me engano, 7h30 da noite. Estaremos todos lá, Alessandra, Greg e eu.

pra falar ao vivo, o episódio vai ao ar acho que na outra semana e é isso aí, nos vemos pra quem tiver chance, de graça só chega lá na próxima quarta-feira, da semana que vem boa, aproveitar e agradecer antes de me despedir nossa apuradora nossa, na verdade mais, corporadora, nossa repórter nossa jornalista, nossa redatora maravilhosa Luiz Amigues, e agradecer a todo mundo que contribuiu, Tominho, com essa pauta, a gente conversou com um monte de gente eu conversei com o Alexandre Barreto antropólogo que tá morando lá em Altamira

Agradecer também, claro, a quem cobre tão bem a Amazônia hoje, que é a Repórter Brasil, a Amazônia Real, o Eco, o Joio e o Trigo, também que a gente sempre fala aqui, e Brasil de fato. Muita gente, então um abraço a todas essas pessoas que cobrem tão bem. O Agro, parabéns aí pela coragem, pelo trabalho seríssimo de jornalismo. Quem quiser saber mais também, é só procurar esses sites, que muitas vezes aceitam contribuições. Ah, eu também não falei, eu falei já da Sumauma, falei, mas não vale. Vale sempre lá, sumamo.com.

sempre tem informação de qualidade, com ótimas matérias e colunas e tal. Então é isso, obrigado a todos esses que cobriram também, obrigado a Luísa, um beijo Alessandra, um beijo Bruno. Um beijo Greg, um beijo Bruno. A gente se vê. Até semana que vem pessoal. Até semana que vem, pessoalmente.

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção, temos Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Tone Costa. Na pesquisa e roteiro, Luísa Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes. Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite.

Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoui. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.