I.A., Irã e a Ascensão da Inconsciência
Do Irã às colunas de beleza, o império da I.A. e a automação da consciência humana.
O Clube de Cultura do Calma Urgente de 2026 começa na primeira semana de março. Para participar dos encontros, entrar na comunidade exclusiva e ganhar descontos incríveis, inscreva-se em calmaurgente.com
O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções @peri.prod e Estúdio Fluxo
Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra
Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo
Na Pesquisa e Roteiro, Luiza Miguez
Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes @vitor_bernardes_
Ilustração, Anna Brandão @annabrandinha
Na sonoplastia, Felipe CroccoNa Edição de Cortes, Julia Leite
Nas Redes Sociais Bruna Messina
Na gestão de comunidade, Marcela Brandes
Identidade visual, Pedro Inoue
Consultoria de Comunicação, Luna Costa
Diretor de Fotografia, Marcos Mathias Wendhausen
Assistente de Câmera, Rodrigo Favorito
Técnico de Som, Matheus
Técnico de Luz, Pablo Miranda
Agradecimentos especiais ao Teatro Carlos Gomes e sua equipe.
- Conflito EUA-IrãAssassinato de Ayatollah por Israel · Uso de Anthropic pelo Pentágono · Ataque a escola com crianças · Autonomia vs obediência em armas · Cláusulas de segurança violadas
- Coluna de Natália Bilt com IAChatGPT substituindo escrita jornalística · Defesa da Folha sobre inovação tecnológica · Diferença entre pensamento e linguagem · Qualidade ruim do texto automatizado · Crítica leitores vs posição editorial
- Tecnologia e consciência humanaRetirada de agência histórica · Fim da subjetividade · Automatização de decisões morais · Hipertrofia do eu sem subjetividade real · Avatarização da identidade
- Linguagem como limite do pensamentoSeparação impossível linguagem/pensamento · Wittgenstein e Lacan · Processo de escrita como elaboração · Vícios linguísticos refletem vícios cognitivos · Autoficção como resistência
- Contratos e cláusulas AnthropicProibição de armas autônomas · Proibição de hipervigilância interna USA · Contrato encerrado mas uso continuado · Pressão Trump para remover restrições · Claude usado dentro de limites
- Risco de hipervigilância digitalCâmeras onipresentes · Análise retroativa de dados · Leitura de lábios e vigilância · Risco panótico perfeito · Uso contra inimigo interno/dissidentes
- Literatura como resistênciaLeitura coletiva como ato político · Clube de Cultura do Calma Urgente · Experiência imaterial da leitura · Conexão com consciência do autor · Tempo como elemento fundamental da obra
- Colonialismo e ImperialismoDiferença com imperialismo século XIX · Lógica de arrego vs ideologia · Comparação com milícia urbana · Interesse israelense vs americano · Ausência de nation building
- Processo CriativoTrajetória repórter-editor-colunista · Edição como diferente de autoria · Importância do processo de escrita · Falsidade de separar pensamento de linguagem · Pacto de sinceridade leitor-escritor
- Conflito Irã-EUAPreço político alto da invasão · Possível chantagem com arquivos Epstein · Relação Epstein-Mossad · Netanyahu forçando barra · Interesse territorial israelense
- Politicas PublicasSaturação informativa · Falta de indignação vs passado · Mudança de parâmetro pós-Gaza · Comparação com protestos 2003 · Algoritmo da história
- Modelos de IALanguage models vs agentes · Execução de tarefas de longa duração · Autonomia relativa vs controle humano · Precisão e sofisticação atual · Capacidade de autossuperação
- Discurso político automatizadoFlávio Bolsonaro usando padrões ChatGPT · Ronaldo Caiado e parallelismos · Damares com sussurros falsos · Deputada de esquerda com estrutura IA · Normalização de discurso terceirizado
- Tempo humano vs tempo de máquinasNanosegundos vs tempo humano · Alienação pelo tempo extraterrestre · Cobra vs gato analogy · Diferença de realidades · Tempo como ingrediente fundamental
- Sedentarismo cognitivoAutomatização de procesos mentais · Perda de habilidades básicas · E-mail como prática fundamental · Necessidade de intencionalidade cognitiva · Comparação com sedentarismo físico
Olá, boa noite. Está começando mais um Calma Urgente. A gente está aqui no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. Um teatro vazio, por enquanto. Mas é um teste para a gente receber vocês futuramente em sessões ao vivo do Calma Urgente. Então, agradecer a todos aqui do Teatro Carlos Gomes que nos receberam. Esse teatro no centro do Rio. Teatro municipal, ou seja, um teatro público que está nos recebendo aqui na segunda-feira. E eu espero que nos receba muito ainda, porque eu amo esse teatro aqui. Uma vez por mês a gente vai fazer, né? Uma vez por mês vamos fazer aqui.
É a nossa desculpa de se ver pessoalmente. Na verdade, é a nossa desculpa de obrigar o Bruno a sair do mato e vir visitar a gente. O Bruno nos deixou. Eu venho e é vocês que não estavam aqui. É verdade. A Alessandra voltou de uma turnê de divulgação, uma turnê internacional, para divulgar seu filme maravilhoso Apocalipse nos Trópicos. Está aqui de volta. E o Bruno Torturra veio do mato das profundezas da Serra da Mantisqueira aqui nos visitar. É um prazer estar falando.
falando com vocês ao vivo. Adoro encontrar-vos ao vivo. E a gente ia falar de inteligência... Até a HGG. A gente ia falar de inteligência artificial, de IA ou de AI, dependendo da língua que você fala. Dos novos desdobramentos da IA, que não para de ter novas notícias, entrevistas e coisas meio apavorantes, e de como a IA penetrou na nossa vida, e mais que na nossa vida, no universo, nas estruturas, nos sistemas, no jornalismo. Na linguagem, né? Na linguagem.
Um dos pontos de partida seria aquela coluna da Natalia Bilt na Folha. Não sei se souberam desse caso em que a jornalista, nada disso, a colunista da Folha, a Natalia Bilt, que é uma designer de sobrancelha, se não me engano, que ganhou uma coluna da Folha, inclusive com o nome da marca dela, chama Natalia Bilt, que ela assina a coluna. E nessa coluna, ela estava usando muita IA, aparentemente. Os leitores estavam denunciando o uso de AI.
Está, obviamente, escrita pelo JET-EPT essa coluna dela, com todos os clichês possíveis de JET-EPT. Não é sobre isso, é sobre aquilo. Não é sobre sobrancelhas, é sobre mudar almas. As colunas dela eram assim, na Folha, tá? Na Folha de São Paulo. E ela, então, respondeu as críticas... Perdão, aí entrou a Ombudsman, se não me engano, falando assim, de fato, eu li as colunas e parece muito JET-EPT, eu sinto muito, aí, para o leitor, de que a pessoa esteja escrevendo... Meio chato para o leitor. É chato, né?
ler um chat de EPT. E a Natália Bilt, então, respondeu às críticas dizendo, é e há sim, eu uso sim de chat de EPT por um motivo, o meu tempo é muito precioso. E o nosso, aparentemente, não, né? O meu tempo é muito precioso pra ter um coluna na Folha. Exatamente. É o que eu pensei também. O do leitor, foda-se o tempo do leitor, foda-se o tempo da Folha, enfim. E essa é a parte mais louca? Ela continua na Folha. Ela está lá. A Folha definiu. Jânio de Freitas não está, tá? Só queria lembrar disso.
e tantos outros jornalistas brilhantes que foram demitidos. Mas a Natália Bilt e o Chá de APT tá. E, bem lembrado, a Folha defendeu o uso com uma formulação muito canalha, que foi a Folha nunca teve medo de inovações tecnológicas. Ou seja, ainda botou na gaveta da coragem. Olha que coragem que nós temos de usar inteligência artificial. Nós temos coragem de usar Chá de APT. Parabéns pra caralho mesmo pela coragem
da Folha e da Natalia Bildt. Mas o mundo se impôs e nos obrigou a falar de outras coisas também. Não vamos poder falar só da Natalia Bildt. É, tem a Natalia Bildt e tem uma guerra do Oriente Médio. Tem o assassinato de um outro chefe de Estado. A IA foi cúmplice de coisas ainda mais graves do que uma coluna da Natalia Bildt. Pois é. Parecia impossível. Parecia impossível. Mas aconteceu. Mas aconteceu. Ela está trabalhando não somente com a Folha, mas também com o Pentágono,
E o que a gente viu... Que também nunca teve medo de inovações tecnológicas. Aliás, até alguém que nunca teve medo de inovações tecnológicas. O Pentágono. Acho que é menos que a Folha ainda, o Pentágono. É, ainda mais aberto. Menos que a Folha. E o Pentágono atacou o Irã e assassinou o Ayatollah. Não só o Pentágono, né? Não só o Pentágono, claro. Israel. Na verdade, a gente já sabe que foi Israel, não é?
que matou o Etala Bomenay. E matou também, assassinou mesmo centenas de pessoas, entre elas pelo menos 50 crianças, que estavam em uma escola, provando que a inteligência artificial, se é que foi ela que escolheu, comete erros também em grande escala. Não só não é sobre isso, é sobre aquilo, mas também atira em escolas, porque aparentemente esse não devia ser o plano, ou era, ninguém sabe, porque mataram tantas crianças,
uma escola do nada é algo que ainda está sem resposta, assim como tantas coisas. Qual é o plano dos Estados Unidos para o Irã? Qual é o plano de Israel para o Irã? Existe um plano? O que se espera, além de matar e de retirar as lideranças? O que se faria daqui para frente? Ninguém sabe direito, mas uma das poucas coisas que a gente sabe foi que os Estados Unidos usaram Antropic, que é uma corporação de inteligência artificial. É uma das grandes empresas de IA.
usou para fazer esses ataques, inclusive a revelia da própria Antropic. Não é só o Congresso americano que o Trump atropelou, porque foi um ataque sem a aprovação do Congresso americano, assim como foi também o sequestro do Maduro, também não teve a aprovação do Congresso, que teria que ter, mas não é só o Congresso que o Trump atropela, é sim a própria Antropic, porque o contrato já tinha sido encerrado com os Estados Unidos e com o governo americano, e ainda assim ele continuou usando.
é uma violação de todos os tipos, da lei internacional, mas da lei americana, porque viola o Congresso, mas também do contrato dele com Antropi, todos os tipos de violações possíveis. E eu queria ouvir vocês, o que vocês acham que representou esse ataque ao Irã? Começa pelo Irã ou começa pela Natália Bilt? Desculpa, precisamos de prioridade? Eu queria que vocês juntassem as duas coisas. Pede isso para o chat GPT. Não é só sobre o Natália Bilt, é também sobre o Irã.
Quando aconteceu o ataque ao Irã, a gente pensou assim, não dá mais para falar de Natalia Bildt, de inteligência, mas vamos usar também, mas não tem nada a ver. A gente foi vendo que, na verdade, tem tudo a ver. Tem. Tem tudo a ver. No sentido que, realmente, é a prova de que a inteligência artificial já adentrou todos os meandros da nossa vida, do macro ao micro, das colunas, dos e-mails aos ataques, às bombas. E acho que isso está mais claro do que nunca, não é?
Eu acho que tem uma relação bem direta entre a Natália Bildt e o uso. E o Irã, na verdade, e esse uso de inteligência artificial indiscriminado, que a gente está entrando em um processo muito acelerado da retirada do papel humano em decisões morais, éticas e de alta consequência. De um jeito muito inofensivo, quase, as pessoas deixam de escrever os próprios textos.
e começam a achar que tem algum poder nele pelo simples fato de que elas leem antes de publicar. E algo semelhante está começando a acontecer na geopolítica, em decisões financeiras, decisões de grandes empresas, que é você passa para um software muito poderoso de automação de decisões humanas, ou de análises humanas, ou de processos que simulam o que o ser humano tem de mais humano a fazer,
e o processo de análise moral desse tipo de coisa, e você terceiriza isso para uma máquina, para qualquer tipo de outro processo, e no limite guerra e decisões de alvos, de padrões de movimento, de análises de risco, de estratégia, que antes era um papel de generais, analistas, presidentes, imprensa, opinião pública, e agora você confia nesse processo meio que é transcendente,
penetrar para tomar essa, para fazer esse mapa de decisões e aí você toma só a decisão final de começar ou não a guerra, de apertar ou não o botão, de publicar ou não uma coluna. Por enquanto você ainda toma essa decisão. Por enquanto você ainda toma essa decisão. E isso está no cerne da questão dessa briga do Pentágono com a Antropic, que é um bom ponto da gente explicar, que a Antropic é uma das grandes empresas de IACH,
é o Google, Antropic, o ChatGPT, é o OpenAI, e o GROC, que é o AIX, que é do Elon Musk. Está correndo um pouco atrás, mas são os quatro grandes grupos do Ocidente. Tem a China, que corre por fora com outras questões, de psique e outras empresas, que estão indo muito bem. A China vendeu o Manos AI para a Meta, então agora a Meta tem uma das chinesas. Mas a Antropic tem se destacado, acho que nos últimos meses,
tem alguma preocupação com uma barra muito baixa, mas alguma barra sobre umas questões éticas e de segurança em relação a... E foi essa empresa que foi usada para tirar numa escola de crianças? A gente não sabe, porque essas decisões específicas a gente não tem acesso porque elas são muito secretas e não seria de interesse de ninguém que isso viesse a público. Decisões militares de Israel, diga-se de passagem, que tem as suas próprias empresas de inteligência artificial militar, que são...
empresas só de uso militar, que a gente nem tem acesso ainda como cidadão. Mas o fato é que o Eclode, que é esse aplicativo dessa empresa, eles tinham uma regra, que é, eles já tinham esse contrato militar, já estavam no Pentágono, não tinha nenhum problema, estava assinado. Só que tem uma cláusula lá que eles falam, a gente não autoriza que o nosso software seja utilizado para armas totalmente, que é totalmente autônomas. Ou seja,
Tudo bem usar ela em uma guerra, mas precisa ter alguma escala humana na decisão. O nosso software não vai tomar a decisão de jogar a bomba, de dar o alvo e fazer a ação. Uma barra bem mínima e muito razoável. E a outra é, nosso software não deve ser utilizado para hipervigilância de cidadãos dos Estados Unidos. Só. Do mundo, não. Americanos. E o Pentágono recentemente falou, não.
não quer nenhum limite. A gente quer usar o seu software para o que a gente quiser fazer como Pentágono, uma máquina de guerra. E a Antropic quase cedeu, houve uma consideração, porque se ela não topar, outra empresa topa. E no final das contas, eles não cederam, eles se recusaram a tirar essas duas cláusulas. E dois dias antes do ataque, ou três dias antes, eu não sei, o Donald Trump disse, não vamos usar mais a Antropic. Então, declarando ele uma empresa,
que é risco de linha de produção, não sei o que é, e a não ser o que não vai mais usar, o chat GGPT vai virar o software, acho que é prioritário para o uso do E-Pentágono, mas nesse meio tempo, que eles ainda não fizeram a transição de um para o outro, eles usaram o Claude na guerra iraniana, nessa guerra. Muito provavelmente sem autonomia do software e sem a coisa de hipervigilância interna ainda. Então, possivelmente, eles ainda usaram
o Claude dentro da linha que o Claude é concordado de utilizar. Como usaram na Venezuela também. Nossa, muita coisa. Tem tantos pedaços dessa história. Uma que eu acho, para complementar um pouco o que o Bruno falou, tem uma distinção que eu acho que é importante e legal da gente fazer, que é que houve uma evolução muito rápida, para quem não está acompanhando muito de perto, houve uma evolução realmente muito rápida e muito surpreendente para alguns das capabilidades da inteligência artificial.
Os modelos que foram disponibilizados para o público há alguns anos já eram basicamente modelos de linguagem, que é o modelo que a Natalia Beauty está usando para escrever suas colunas. Esses modelos de linguagem têm várias limitações e algumas dessas limitações ficam evidentes nas colunas da Natalia Beauty. E eu quero falar sobre isso porque, apesar de ser trivial, por um lado, não é. É super importante. Então, vou voltar para a Natalia Beauty já já. Mas esses modelos evoluíram.
geração de modelos de inteligência artificial, eles são os modelos que os criadores dessas máquinas chamam de agentes. Eu tenho dúvidas se esse é um termo adequado, e a gente pode debater isso, porque agente implica um nível de autonomia que também não é exatamente o que está acontecendo, mas a grande diferença entre os modelos de linguagem e os agentes de inteligência artificial é que os agentes conseguem executar tarefas durante, às vezes,
esses períodos longos de tempo, então você pode dar instruções para um agente, o agente vai executar essa tarefa ao longo de algumas horas, alguns dias, algumas semanas, e ele consegue fazer isso de maneira relativamente autônoma, a partir das indicações que ele recebeu, essencialmente substituindo uma pessoa na medida em que a pessoa trabalha digitalmente. Então, esses agentes não têm presença física, eles não são robôs físicos, eles não estão no mundo real, físico, mas tudo aquilo que uma pessoa poderia fazer atrás de uma tela de um computador,
Em tese, esses agentes podem fazer também. Eles podem entrar na internet, eles podem desenhar coisas, eles podem codar, então criar software, eles podem implementar esse software, colocar num servidor, eles podem até também, em tese, começar a controlar, aí sim, máquinas físicas no mundo físico através do digital, que é o perigo justamente das armas autônomas. Então, uma das coisas que esses agentes podem fazer é decidir atacar um alvo e controlar um drone, por exemplo, para que esse drone ataque esse alvo
sem que nenhum ser humano intervenha nessa decisão. Isso já é uma capabilidade existente, colocada, instalada desses sistemas. Mas os próprios criadores desses sistemas, e a Antropic é uma dessas empresas, dizem que eles não têm uma sofisticação adequada para, de fato, fazer isso. Então, a Antropic levanta dois problemas. O CEO da Antropic, que é o Dario Amodei, ele levanta um primeiro problema, que é,
fazer isso, mas ele levanta um segundo problema que é, mesmo que a gente decida que é eticamente tudo bem, ela não tem ainda um nível de precisão adequado para isso. E é claro que o problema ético vai se tornar muito mais difícil de tratar quando esses criadores entenderem que a máquina já tem essa sofisticação. O que provavelmente vai acontecer em breve. Mas no momento tem um problema que é um problema de qualidade mesmo da máquina e tem um outro problema que é um problema ético. Eu estou trazendo isso porque
é importante entender que quando a gente diz que o Pentágono está usando o Cloud, que é o AI da Anthropic, que vai usar agora o ChatGPT, não é um uso simplesmente do modelo de linguagem. Sim. É um uso desses agentes que podem executar tarefas ao longo de períodos muito longos de tempo. Então, você pode pedir para um agente fazer uma coisa que ele vai ficar um mês trabalhando. Você pode ter vários agentes. Você pode ter um time de agentes.
Agentes de pessoas diferentes podem conversar e trabalhar em projetos juntos. Então, uma das coisas que a Anthropic diz que ela faz,
internamente, é que hoje cerca de 90% do código do Claude, ou seja, do código da inteligência artificial e do agente de inteligência artificial da Antropic, esse código já é construído, 90% das linhas de código são escritas pela inteligência artificial. É por ele mesmo. Então, é ele mesmo se construindo. E a maneira como a empresa trabalha, em termos leigos, pelo que eu consigo entender, é que eles têm times que vão orientar diferentes agentes construídos com base no
código do Claude, no sistema do Claude, e esses agentes interagem. Então, eu, Alessandra, posso dar um direcionamento para o meu agente, você, Gregório, pode dar um direcionamento para o seu e os nossos robôs podem interagir e chegar a uma conclusão e implementar essa conclusão juntos. Mas é claro que isso é muito limitado ao universo virtual. E quando isso extrapola o universo virtual, você passa a ter um controle de máquinas, sobretudo máquinas mortíferas no mundo real, isso traz uma série de outras questões éticas e práticas.
para a mesa. Mas isso é parte do debate hoje. E eu queria voltar para a Natália Bilt, mas queria só deixar esses comentários primeiro. Eu acho especialmente trágico que a gente está tendo essa discussão hoje em dia de deixar ou não a autonomia militar na mão de máquinas, porque quem está no comando humano das grandes armas hoje são os seres humanos mais psicóticos em décadas. Então, assim, fica mais sedutor um pouco,
você automatizar se a opção é pôr o Donald Trump, o Netanyahu e o Pete Hegset, na mão de uma invasão e de uma guerra aberta em um país gigante, com 40 milhões de habitantes e o centro do Oriente Médio. E a gente assistindo isso, isso é uma outra questão que eu acho que tem um pouco a ver com essa algoritimização generalizada, que é, não sei vocês, mas eu fiquei muito impressionado, e eu faço parte disso, tá? Então não é um choque,
assistindo só, é um choque de me sentir assim. O quão séria essa invasão foi, está sendo, e o quão pouca resposta pública teve. A invasão do Iraque, que foi anunciada muito mais justificativa, passou pelo Congresso, pelo Conselho de Segurança, meses de mentira, mas fizeram um ritual ridículo, mas fizeram um ritual. Eu lembro que tinha algo muito totalizante no noticiário daquela época,
E só em São Paulo, para vocês terem uma ideia, só em São Paulo foram 150 mil pessoas na rua protestar. É contra a invasão do Iraque em 2003. Em São Paulo. Eu estava lá. Teve Nova York, Londres, Berlim, o mundo. Eu acho que hoje há também uma certa automação até da reação pública. Tem uma saturação, tem uma certa exaustão que a gente assiste isso meio como se a história também fosse um algoritmo. Como se a gente estivesse no encadeamento de certos processos que a gente...
não faz parte. Então, essa criação de um agente digital, de muitas formas, eu realmente acho que é para tirar a nossa agência. Não tem três agências aqui, duas. Tem uma energia só. É um jogo de soma zero, no fim das contas, se você vem retirando o ser humano da participação histórica. É, isso explica até um pouco algo que eu fico me perguntando quando vejo essas notícias, porque é que a IA não quer, o Claudio Antropic não quer dar agência
IA dela. E o Trump, enfim, o Pentágono, quer que eles não decidam, porque era para ser a luta contrária, né? O lógico seria o Pentágono falando assim, não, eu que tenho que ter a palavra final. Só compro Antropic se eu puder mandar nela. Mas é o contrário. Eles querem que... Dá mais autonomia. Dá mais autonomia para a gente. Eu acho que não é para ele. O Daramuday, o CEO da Antropic, tem um texto que ele publicou recentemente que eu recomendo. Está em inglês, mas
Qualquer chat GPT te ajuda a traduzir. E se chama A Adolescência da Tecnologia. E ele tinha publicado um texto anterior, que era um texto bem tecnotimista. Ele falando de tudo o que poderia ser... Muito distópico esse texto. Tudo o que poderia ser conquistado com a inteligência artificial. Ele falando bem da inteligência artificial, que era um outro texto chamado Machines of Loving Grace. Máquinas... Não sei como traduzir isso. Pede para o chat GPT.
Loving Grace, e agora ele publicou o Adolescence of Technology. E nesse Adolescência of Technology, ele fala dos riscos. E ele fala de adolescência porque, no fundo, ele posiciona esses riscos, ele chama de riscos de transição. Então, ele não está dizendo que esses são os riscos no longo prazo. Ele acha que esses são os riscos exatamente nesse momento que a gente está vivendo, que ele entende como uma adolescência da tecnologia, onde a gente ainda não entendeu o que fazer com ela.
E ela também não entendeu o que fazer consigo mesma. Ela é adolescente. Os hormônios estão em ebulição. Estão fora de controle.
fala de dois, são cinco riscos que ele ilumina, mas os dois primeiros têm a ver com a sua pergunta, Greg. Porque ele fala de dois riscos que são quase opostos e que eu acho que a tensão entre o Pentágono e a Antrópia é que tem a ver com esses dois. Ele diz que tem um risco inicial, que é o mais óbvio, que é o risco de autonomia de mais. Então, é se esses agentes de inteligência artificial começam a tomar decisões à revelia dos seres humanos.
E eles começam a ter suas próprias preferências, a exibir capacidade de cooperação. Então, a imagem que ele usa é como se a gente
ser criado um país de gênios e em poucos anos, segundo ele, em dois anos, esses gênios já vão ser mais capazes do que qualquer prêmio Nobel em qualquer domínio. Então, eles vão poder fazer coisas muito mais incríveis. E aí, se esses gênios começam a perseguir seus próprios objetivos, você, obviamente, pode acabar com problemas sérios para a humanidade. Isso é um risco. Aí, o segundo risco é o risco oposto, que é, eles também têm o risco de serem obedientes demais. Então, não terem justamente autonomia
não terem critério próprio. E se eles forem simplesmente ferramentas a serviço de quem está mandando neles, eles também podem ser, no fundo, operacionalizados, instrumentalizados por quem quer que seja. Então, ele fala muito do risco de desenvolvimento de armas biológicas. É uma coisa que ele está especialmente preocupado, porque ele acha que isso vai ser muito possível, que a inteligência artificial vai ser muito útil para desenvolver armas biológicas.
E qualquer... Aí ele, obviamente, não vai falar do governo americano. Ele fala que qualquer terrorista, qualquer rogue state,
qualquer Estado autoritário, poderia, em tese, desenvolver essa capacidade de armas biológicas simplesmente porque a inteligência artificial cumpre aquilo que foi dado a ela como objetivo. Então, o dilema dessas empresas hoje é como que eu crio um sistema que tem um critério próprio, robusto o suficiente para ele resistir, eventualmente, à tentativa de instrumentalização por parte de um psicopata, mas não um critério próprio demais,
a ponto dele começar a ter vontade própria e não obedecer mais aos seres humanos. E quando, no fundo, o Trump está querendo o controle, eu não acho que ele está querendo dar autonomia para a inteligência artificial. Ele está querendo dar autonomia na medida em que aquela inteligência artificial cumpre os parâmetros do Pentágono. Então, se o Pentágono diz, queremos atacar o Irã, queremos matar os cabeças do Estado iraniano, essas são as pessoas que a gente quer matar. A gente não está muito preocupado com matar criança,
esse é um dano colateral que a gente está disposto a ter. Porque, no fundo, é isso, né? É, criança árabe, né? E aí a inteligência artificial cumpre autonomamente dentro desses critérios. E, no fundo, eu acho que parte do que a Antrópica está querendo fazer, para além das questões éticas, eu acho que tem uma questão de liability, de responsabilidade jurídica também. Que é, eu não quero ser responsável, porque se dentro desses parâmetros uma decisão é tomada e acontece alguma coisa, a responsabilidade é do Pentágono ou da Antrópica?
eles queiram autonomia também por uma questão de liability, no sentido de poder dizer que não fui eu. Foi eu e a. Mas eu discordo um pouco. Foi o meu eu lírico. Eu sinto que... Foi o meu agente. Eu discordo um pouco, porque eu acho que nós ficamos mais preocupados com a questão de autonomia, porque é o mais adistópico. É a Skynet, é o que pode dar mais errado. Mas eu acho que o centro da divergência deles são outros dois centros, na verdade.
Um, eles não querem limite. A gente é o pentágono, a gente é autoritário, a gente quer fazer o que a gente quiser.
e não é um CEO de uma empresa que vai me falar o que eu posso não fazer. Então acho que tem uma questão de riscar uma linha e falar eu que mando. Mas o mais importante na minha cabeça, que é onde eles estão indo com mais força, não é na autonomia, é na hipervigilância, que é a segunda coisa que o Dário falou que não pode utilizar. E que é a violação da Constituição nos Estados Unidos, que ele também cita nessas entrevistas. Especialmente da quarta emenda, que é você precisa de um mandado para ir atrás, investigar, espionar, fazer você perceber que um juiz humano,
assim uma ordem. E o que ele fala também em alguns documentos, mas ele fala em algumas entrevistas, o Dário, recentemente, vale a pena ver, é que tem esse risco de que o mundo já está inteiro filmado. Câmeras de segurança hoje é a coisa mais onipresente que tem. Há 20 anos isso não era uma realidade. As câmeras estão com a definição cada vez mais alta. Já tem microfone em todo lugar. Os telefones das pessoas são microfones, que dá para hackear.
muito simples hoje, com o Cloud, com a tecnologia que ele oferece, de você ter acesso à informação é total. Quer dizer, você consegue ler lábio, você consegue escutar essa pessoa e você consegue ter um tipo de hipervigilância que nem o Orwell imaginava no 1984, entendeu? É o panótico perfeito. E ele é pior do que o panótico, porque o panótico é essa câmera que filma tudo, mas ainda supõe-se que tem um ser humano tentando ver. Então você tem medo que naquela hora
esteja olhando, é você. Mas o panótico não necessariamente tem um vigia lá. Tem só a possibilidade de ter o vigia. Mas agora o vigia pode ser onipresente. Não só a tecnologia. Mas o observador digital pode oferecer o e-contexto para qualquer pessoa retroativamente. Então você acessa arquivos de dois, três meses atrás, cinco anos atrás e você consegue dar o contexto e oferecer como análise de dado. Aí sim, para oposição interna. Que na minha cabeça é o que o
tá se transformando na mão do Trump e do Pete Hegset, junto com o ICE e tudo mais, que é promessa de campanha dele. Temos que ir atrás do inimigo interno, que é o clássico fascista. Ele não é pra fora, ele é pra dentro também. Aliás, o Safatley acabou de publicar um livro pelo Ubu, vocês já receberam? Eu vi que publicou, mas não li ainda. Chama exatamente isso, chama Ameaça Interna, e é uma psicanálise do fascismo brasileiro. O fascismo é isso, o fascismo é a paranoia do inimigo interno.
que ela é criada de muitas e muitas formas, e o estado de hipervigilância internalizado, ou com violência física mesmo, mas com esse sonho de um medo generalizado, esse medo que as pessoas sentem de serem dissidentes porque estão sendo observadas e isso vai ter um preço alto, que é o que a Lê sempre fala, você sabe se um país é autoritário pelo custo de ser oposição, pelo custo de ser dissidente. E esse custo não é só um custo hoje político, repressivo, imediato, mas é uma paranoia interna.
ativo, é de acesso a serviços e produtos digitais, é você estar ou não de acordo com os termos de consentimento das plataformas que você usa. Então é uma situação muito séria mesmo que a gente está passando e o Irã, e eu acho mesmo que essas duas pontas estão muito mais ligadas do que aparece, que é a nossa adesão à crítica, a essa tecnologia, a nossa produção de texto, de coluna de jornal, entendeu? Até a decisão de alvos
no Irã, entendeu? E você tem razão quando você diz que a gente não se indigna mais tanto. É algo que realmente eu não vi, assim, uma comoção por parte desse ataque ao Irã, assim como não vi pela Venezuela. Claro que tiveram muitos protestos e muita gente, enfim, denunciando o absurdo, mas nada perto da comoção que se fazia antigamente. E eu acho que um dos motivos para isso é que a gente não tem ferramentas direito nem para entender ou para narrar o que está acontecendo. As pessoas, inclusive, ficam tentando comparar
com coisas do passado, do tipo... Ah, esse daí é o imperialismo do século XIX, que está de volta. Não tem nada a ver, sabe? Eu falo isso um pouco, né? Você falou isso? Eu falo isso um pouco. Não, eu acho que um pouco tem, mas eu concordo com você. Ele tem características completamente... E bem mais assustadoras. Hipermodernas, né? Exatamente. Naquela época, e eu não digo que era melhor ou pior, não, mas chegava lá em Inglaterra, o que ela fez na Índia foi bárbaro, matou milhões de pessoas em algo que hoje em dia se chama de holocausto colonial, né? Talvez seis milhões, sete milhões,
indianos morreram, inclusive, de fome durante a colonização inglesa. Mas eles estavam lá. Era o famoso boots on the ground. Eles botavam lá o coturno no chão para operar o genocídio deles. E, junto com isso, tinha uma colonização também cultural. Obrigaram todo mundo a falar inglês. Obrigavam todo mundo a frequentar a escola britânica e reprimiam a cultura local. Tinha um projeto genocida, com certeza, mas colonialista
de uma colônia. Não é o caso. Agora, os Estados Unidos não têm menor interesse em descer no Irã e fazer o famoso nation building, que eles têm esse termo que a gente já criticou, que é uma loucura, né? Forjar uma nação. Não está nos projetos de Trump, ou de ninguém nos Estados Unidos, dessa alt-right, lá não está no Project 2025, que é um dos projetos no qual o Trump se baseou para esse segundo mandato. Não está no projeto deles construir uma nação
parceira, aliada, ou nem fomentar aliados no Irã ou na Venezuela. Não tem mais aquela questão ideológica ou cultural de colonização de soft power, não. A gente não tem ferramentas para entender esse colonialismo, porque ele é radicalmente diferente de tudo que a gente já viu. Então, a gente está sempre buscando no passado alguma coisa para comparar, que é o imperialismo do século XIX, mas alguns vão falar em feudalismo, outros vão falar da volta da doutrina Mondra, outros vão falar... Na verdade, me parece muito inédito.
Onde eu vejo mais a semelhança mesmo é no Rio de Janeiro. É no Rio das Pedras, precisamente. Uma milícia, com uma lógica de arrego. Uma lógica que não é... Se você paga o arrego, está tudo bem. Está tudo bem. Mais ou menos o que a Delce e a Rodrigues fez na Venezuela. Ela paga o arrego, fica aí, não tem problema nenhum. A Delce prova muito bem que não é uma questão ideológica, é uma questão de arrego. É uma questão que parece muito com o que um miliciano faz na Zona Oeste. Ele não quer saber se o dono da padaria vota no Lula ou no Bolsonaro.
se ele é cristão ou se ele é d'Umbanda, não faz diferença para o miliciano. Faz diferença o arrego. Tanto é que o miliciano faz acordo com o terceiro comando, faz acordo com o traficante, faz acordo com a polícia, faz com todo mundo. Porque o interesse dele é puramente o arrego. Mas eu discordo nesse caso específico do Irã. Porque tem um outro grande elefante na sala que é Israel. É verdade.
O Donald Trump, eu acho que a gente pode fazer essa analogia mais fácil, de que ele é um miliciano, que ele quer o arrego dele, que é o presente dele, que é a barra de ouro dele, e aí ele fica amigo de quem for, do Lula, do Petro, da Adelson Rodrigues, não tem ideologia. Mas vamos lembrar aqui que quem está capitaneando esse negócio todo é Israel. O interesse, aí sim, ideológico, religioso, político e territorial é israelense. E a situação mais esquisita aí, que está contradizendo que, aliás,
e pouca gente imaginava que o Trump estivesse disposto a pagar fazendo essa invasão, é que ele ia entrar de corpo e alma nesse negócio, como ele entrou. Achavam que ia ser uma coisa mais parecida com o que ele fez. Ele ataca aqui e se retira. Ele explode uma base, mas assim, e com tudo. Porta-avião, já morreram três americanos hoje, mas assim, ele está indo com tudo, gasto, gasto. Ele se queima com a base política dele de maneira muito decisiva com os eleitores. Uma boa parte, não digo todo mundo, mas uma boa parte sim.
é muito contra isso, mas promessa de campanha dele mesmo que ele não iria fazer a guerra que a Kamala Harris ia fazer no Irã. E eu acho que tem a ver com Israel decididamente. Eu acho que Israel forçou a barra e o Trump cumpriu. E eu acho que não é uma coisa que a gente tem prova, prova cabal, porque nunca vai ter, mas eu acho que os indícios são tão grandes e está tão escancarado que vale a pena a gente fazer uma especulação muito bem informada disso, que é a relação disso com os arquivos Epstein, que é...
O Trump está fazendo de tudo para esconder o que está lá, o que tem nesses arquivos. Ele soltou uma parte muito pequena, muito estratégica, ele se excluiu disso tudo. E uma coisa a gente meio que sabe. Israel tem esses arquivos, todos. O próprio Epstein estava trabalhando junto com Israel. Dá para dizer isso já? Dá para dizer isso. Com a Mossad, né? Não dá para dizer que ele era espião da Mossad, mas dá para dizer que tinha uma relação.
para o que ele era. Eu estou falando muito sério isso. Espião é um cargo baixo para o que ele era. Ele era um agente solto, com alguma independência, e ele fazia muito o serviço de lavagem de grana para agências de inteligência, tráfico de arma, relações. Mas o backchannel que ele fazia por fora de relações diplomáticas, tanto com dinheiro sujo, mas com relações políticas e com chantagem, com tudo que ele produziu de registro, câmeras nos quartos da ilha, da casa,
dele e tudo mais, ele fazia isso claramente a serviço de Israel, pelas relações que ele tinha, pelo histórico que esse cara tinha e por uma coisa que a gente já sabe nas últimas semanas que ficaram ainda mais claras, que é Israel, Mossad tinha um departamento específico, pessoas encarregadas de administrar a investigação de quem tinha acesso aos apartamentos dele em Nova York, quem ele hospedava, entrevistavam, faziam uma
tudo vigiado com câmera por dentro e por fora da casa, de quem entrava, de que conversas aconteciam lá. E não era ele fazendo isso, era Mossad fazendo isso com ele. Ele hospedava o primeiro-ministro de Israel na casa dele, que não era só o primeiro-ministro, era o ex-diretor da Mossad, da inteligência. Então, assim, não dá para afirmar isso. Mas o que dá para afirmar mesmo é que, assim, o protagonista político dessa história, quem está ganhando essa história, ou é trabalho sujo que o Donald Trump está fazendo,
não é pelo interesse americano disso, é pelo interesse israelense. E é tanto é que o único vídeo que ele publicou, ele não fez um pronunciamento na Casa Branca. Olha que loucura. Ele fez um vídeo na rede social dele, no Truth Social. Foi isso que ele fez. E o que ele fala como justificativa? Ele fala que o Irã sequestrou a embaixada na Revolução Islâmica de 79. Ele fala que o Irã apoiou o ataque do USS Cole, que houve em 2000, se não me engano.
que é mentira. Porque quem fez o ataque foi a Al-Qaeda, que é inimiga declarada do Irã. Sem falar que um ano atrás ele estava bombardeando o Irã e falou para todo mundo que a capacidade nuclear do Irã tinha sido obliterada, que não tinha mais nenhuma possibilidade do Irã desenvolver uma arma nuclear. E agora eles estavam tão perto, mas tão perto que precisavam ser atacados novamente. Mentira. As duas afirmações não podem ser verdade. Em algum momento ele mentiu. Mentira. Então tem essa questão que eu acho muito
muito importante da gente dizer aqui, porque, novamente, o Donald Trump é a figura magnética mediática. O exército dos Estados Unidos é o maior exército do mundo, é o que protagoniza. A crise virou dos Estados Unidos hoje. Mas esse preço que o Trump está pagando me parece muito alto para o tipo de político que ele é. Então, assim, Israel é o vencedor disso, é o interessado disso. E aí não é milícia.
amplamente, que é territorialmente imperialista. Ah, não, aí sim parece mesmo aos imperialismos. E só para encerrar uma coisa que você falou que eu não queria deixar passar, que você falou que a gente está desensibilizado. Eu acho que parte a gente não sabe muito o que fazer, parte tem a ver com algoritmo e com saturação informativa. Mas eu estava falando isso com a minha mulher, a Laila, e ela falou uma coisa que eu falei, nossa, você tem toda razão.
Ela falou assim, cara, eu acho que isso tem a ver também com antes e depois de Gaza. A gente foi massacrado moralmente com Gaza. Eu acho que depois do que a gente viu
últimos anos e a ausência de resposta e a força que não dá pra ser interrompida e o cessar fogo de mentira e o massacre que todo mundo viu, é mais o mesmo. Tem algo que deu uma normalizada, não que a gente não esteja indignado, mas a gente mudou o nosso parâmetro do que esses exércitos são capazes e estão fazendo depois de Gaza. Acho que não tenho muita dúvida disso. Esgotou a indignação que havia. É que esgotou, mudou o nosso parâmetro. Uma outra coisa que eu acho importante falar, que é muito doido,
E eu acompanhei isso hoje. Eu vi em um post de Instagram e comecei a checar em outros posts. Caíram três aviões americanos hoje. Três caças. E foi fogo amigo no Kuwait. Pra você ter ideia. A saber se foi Iá que decidiu defender o espaço aéreo do Kuwait. Achando que pudessem ser caças ou armas iranianas. E derrubaram três caças americanas. Não morreu os soldados.
eles se ejetaram, mas o avião caiu. E aí tem esse vídeo de ir caindo. E aí olha que coisa louca. Os comentários americanos são bem feitos, uhul, que cena linda. Um monte de americano em inglês falando assim que ótimo que esses aviões estão caindo, tipo ufa. E eu vi comentários de gente progressista de esquerda independente meio, não digo torcendo, mas apresentando os argumentos iranianos para a defesa.
meio que torcendo, meio que fazendo o argumento, esperando que Israel seja bombardeada. Mas qual é a sua conclusão disso? A minha conclusão disso é que a nossa indignação já não está mais no nível do protesto, mas há um deslocamento meio das alianças internas, que até os americanos estão fazendo diante disso. Então, ninguém está apostando, indignado, chamando manifestação, mas a opinião pública do seu próprio país não está defendendo as suas próprias tropas mais. A galera está assim,
isso aqui não é o meu exército. Eles são os terroristas. Quando cai esse avião que eu paguei, eu quero ver isso. Mas você acha que não é minoritário isso, não? Porque eu tenho a impressão de que se tem uma coisa que o americano médio gosta é de ver demonstrações de poderio militar. Possivelmente a maior parte ainda sim. Mas essas centenas de comentários que eu vi, não só na queda do próprio avião, mas nas bombas que bateram em Israel,
todos os israelenses que já morreram, mas no comentário generalizado, isso seria impossível na guerra do Iraque. Esse tipo de dissidência pública, interna, de ir contra a empreita militar americana. 80% dos democratas são totalmente contra isso. Esse número não existia na guerra do Iraque. Mas o instamento democrata, por enquanto, não surpreendentemente, está sendo bastante generoso com a administração do Trump nesse caso.
O Bruno Thomas Friedman no New York Times é, ah, espero que o regime caia, é um regime muito terrível. É uma conivência isso. Não, mas aí que está. Eu estou falando de contas de rede social. Está falando de perfil. Eu estou falando de perfil. Eu estou falando de perfil, mas não só perfil, de comentaristas independentes. Mas isso que é diferente. Quando você fala que isso seria impossível durante a guerra no Iraque, Bruno, havia essa praça pública.
A gente não sabe como que essas pessoas estavam se comportando. Porque a opinião pública expressa era mediada por algum tipo de editor, de mediador.
tinha esse espaço para saber, não sei como. Por outro lado, isso tem a ver com o nosso assunto anterior, a partir do momento em que você tem um presidente que claramente fala que existe um inimigo interno, não é tão surpreendente que uma parte da população diga, bom, já que eu sou inimigo interno, quando o exército americano perde, eu ganho. Então, isso vai realmente criando um outro tipo de aliança interna. No geral, no entanto, eu acho que vai ser muito bom para o Trump isso, assim como eu acho que foi bom para ele também.
O do Maduro foi. Ele vai ganhar. Ele vai ganhar com os dois casos, Bruno. Eu não sei. Porque o Irã não é certo que vai dar certo. Cuba é o próximo passo. Se virar um desastre completo, talvez ele perca. Talvez. Ele tem os midterms em novembro. Eu concordo que claramente tem muita pressão de Israel. Eu não duvido que Israel tenha algum tipo de material de chantagem e consiga extrair esse tipo de lealdade do Trump com base em outras coisas. Mas eu tendo a acreditar que tem um cálculo político
tão bem em relação aos midterms, em relação ao próprio posicionamento dele como um homem forte. Ele é um pouco o mafioso deles. A sensação que eu tenho é que o Trump migrou realmente para uma persona pública que é totalmente ancorada nessa figura de o meu malvado. É tão pornográfico que acho que nem quem gosta do Trump lê ele como uma pessoa ética, correta, boa, generosa.
Ele é o nosso filho da puta. Ele é o nosso, que defende os nossos interesses e ele é um bully como os outros são também. Então, num mundo de malvados, eu quero ter o meu. Mas nesse sentido, isso também explica um pouco isso que eu estou colocando. Porque se você entende o Trump como esse fascista interno, não é que as pessoas estão a favor do... É Irã. Elas não querem o sucesso militar do fascista. Então, quando cai o caça, eles falam assim, ufa, a campanha do Trump está indo.
mal, entendeu? Tipo, ele não vai conseguir o que ele quer, isso vai virar um buraco pra ele, entendeu? Ele vai ter que pagar um preço pro político muito mais alto do que ele pagou na Venezuela, por exemplo, que eu vou concordar, não pagou, não pagou, entendeu? Ele saiu de gênio imperialista. Podemos voltar pra EAS negativa, pra texto e linguagem, porque a gente foi longe com o Irã e dá pra continuar aí, tem muita coisa, e acho que nas próximas semanas também as consequências ali do Irã vão ficar muito mais claras, mas a gente começou falando da Natália Bildt, a gente
começou falando no fundo de texto. E eu queria voltar nisso, porque eu sinto que, quando a gente começa a discutir as reações da opinião pública a uma ação como a do Trump, a gente entra justamente nesse papo quase que sobre a cognição e como a cognição se comporta em massa diante de um acontecimento totalmente inesperado e uma excrescência. A Natália, que, aliás, vamos começar pelo fato de que ela não se chama Natália Beauty. Eu já acho o fim da picada folha da alma coluna.
para alguém que se representa como uma marca. E a gente está aqui falando a marca da empresa. É muito estranho. Muito estranho. Mas, enfim, a Natália, quando ela vai defender o uso da IA, ela vai botar os seus críticos como luditas e ela faz uma comparação com as canetas emagrecedoras. Ela diz, ah, todo mundo usa caneta emagrecedora e não admite. E ela fala, bom, a IA escreveu o texto, mas o pensamento é meu. E ela faz muito essa distinção entre o texto e o pensamento.
totalmente errada. Eu não sou iludita e eu acho que é absolutamente natural que, uma vez que a ferramenta está disponível, que muita gente que trabalha com o texto use IA para alguma etapa do seu processo de trabalho. Mas a questão fundamental do texto da Natália é que o texto é muito ruim porque o pensamento é muito ruim também. Ela não faz nem edição, tem um deslocamento. Se você vai usar IA para escrever, então você deixa de ser escritor e você passa a ser um editor de você mesmo, ou da IA, em alguma medida. Então, você recebe um texto meio pronto,
que você, no mínimo, precisa editar. Ela é uma má editora. Ela não está fazendo nem isso bem. O texto é muito ruim. E não só porque ele tem todos os vícios de linguagem da IA, mas porque ele tem os vícios cognitivos da IA. E aí entra uma discussão sobre se é possível, no fundo, separar a linguagem do pensamento. E eu não sei se é. Essa é uma boa pergunta para você, Greg. Mas acho que a gente não resolve isso. A gente não resolve a questão da inteligência artificial.
Dá para separar a linguagem do pensamento? Essa é a pergunta central da linguística.
cada um vai responder de um jeito. O Wittgenstein é o grande defensor da ideia de que os limites da linguagem são os limites do seu mundo, não há pensar fora da língua, só pensa com a língua. E depois Lacan também vai dizer que o inconsciente se estrutura como linguagem e que não há diferença entre... A linguagem é o inconsciente, não existe uma diferença. E acho que tem algo realmente no fato de que é muito difícil você separar as duas coisas. Agora, no caso da Natália,
Beauty e comparando ele. Tem uma coisa que eu acho que é muito gritante, que é exatamente isso que você está narrando, que é o fato de que... E que é o que depois encontra o uso da IA. Ela é a melhor advogada contra o uso da IA. É insuportável ler um texto ou um pensamento da IA. É insuportável. Porque é estúpido, é básico. Ele está querendo agradar. É tudo que um texto não deve ter. E o que um texto não deve ter? Impessoalidade.
pasteurização. É tudo que define aquele texto do Natália e o texto de Iá de modo geral. É formulaico, que é o pensamento... Enlatado. Enlatado, perfeito. Pasteurizado, pensamento ultraprocessado. É isso que o Iá te dá, um texto ultraprocessado. Outras palavras é artificial. Artificial, esse é o nome da coisa. Mas, e voltando para a linguagem, tem uma coisa que é muito cara de pau,
dela, que é dizer que é a coisa do tempo, que foi o que mais me pegou. Porque a Yaa realmente faz com que a gente tenha outra relação com o tempo. Porque ela trabalha no tempo, que é o tempo dos nanosegundos. Que é um tempo extra-humano. E tem isso que é interessante, aquele livro Maneiras de Ser, que a gente falou, inclusive, no Clube do livro do ano passado. O Maneiras de Ser é um livro muito bonito sobre um artista que James Riddle, um inglês que
trabalha contra a inteligência artificial nas artes. Mas também com ela de um outro jeito. De um outro jeito, exatamente. Ele advoga para um uso possível. Uma das coisas que ele fala é o tempo dos nanosegundos é enlouquecedor para o ser humano. E ele cita vários exemplos de pessoas que trabalhavam com computação e que pediram demissão porque estavam enlouquecidas pelo nanosegundo. E falaram assim, quando você está trabalhando para reduzir nanosegundos ou para aumentar o nanosegundo,
a pensar num tempo que é alienígena. O tempo da vida, no mais rápido possível, é dos segundos. Tudo que a gente faz na vida demora alguns segundos. E a IA trabalha com o nano. Isso é extra-humano. Isso é alienígena. Isso enlouquece o ser humano. Porque a gente só existe dentro de um tempo. Uma pessoa que está em outro tempo, ela está em outra realidade. Ela está em outro plano. E esse contato parece muito com um contato alienígena. E ele cita uma coisa que eu acho
muito interessante. Ele cita, bom, primeiro, a cobra, que eu acho uma coisa muito interessante. Sabia que a cobra não pode nunca atacar um gato? Sim, porque o tempo de resposta do gato é mais rápido do que um bote. Então, o gato não é atacado por cobra porque ele vê o bote vindo em câmera lenta e dá um tapa na cara da cobra. E ele dá esse exemplo para dizer que a cobra e o gato estão em realidade, estão em planos diferentes de realidade.
Iá está num plano de realidade diferente da gente por causa do tempo. Nós somos cobras e eles são gatos. Isso que as torna invencíveis, não é? A gente é bicho preguiça e eles são gatos. Exatamente. Porque essa diferença de tempo não é da cobra e do gato que admite esse mundo. A gente está falando de um tempo absolutamente diferente. E por isso que eu achei muito louco ela falar de tempo. É, muito. Porque realmente a Iá trabalha fora do tempo.
Só que é muito louco ela não ter o tempo de escrever uma coluna e aceitar escrevê-la ainda assim.
E eu acho muito louco ela usar algo que é fora do tempo para escrever algo que dura alguns segundos. Mas a parte louca é que a gente, quando vai consumir a coluna dela, não sei se você já tentou ler, você vai forçosamente ler na diagonal. Porque algo que é escrito na diagonal, você lê na diagonal. É, você não tem vontade de entrar em conta. Ainda bem, né? Ainda bem, claro. Mas uma coisa que eu quero falar disso... E é especialmente perda de tempo, não só por ser mal escrito, ser mal feito, ser mal editado e ser burro, mas é perda de tempo porque tem muita... Uma coisa que a IA faz muito,
É repetição, é redundância. Então, é muito doido que uma ferramenta que vomita algo tão rápido não seja capaz de poupar o tempo de quem ler. Exatamente. Porque é profundamente redundante. Gente, só para fazer um parênteses, para referência futura. Essa é a Luísa, a nossa checadora. Nós mantendo na linha. Vai, Lu. Só para referência futura. A Natália nasceu Martins e adotou o Built como propósito de vida. Está assim no site dela. Como propósito de vida? Propósito.
Mas é o nome da empresa dela também. É, mas ela assina a Beauty. Ela assina a Beauty. É o nome é Ticho. Ela transicionou de pessoa física para jurídica. Entendi. Então, Natália Martins. Martins é o deadnaming dela. Mas tem algo só interessante. Ela transicionou de pessoa física para jurídica. É uma ótima, ótima definição do texto. Ela virou Beauty. Todo mundo está virando pessoa jurídica. Tem uma coisa muito importante aí, que é ridícula falar que ela não tem tempo para fazer o trabalho.
que ela foi chamada para fazer, então tem um jeito simples, não faça o trabalho, óbvio. Mas tem uma coisa muito interessante, que é o espaço onde isso foi feito, que é numa coluna. Não é na apuração fria, não é no caderno de cidades, na previsão do tempo, que já seria um pouco suicídio editorial, você automatizar a parte da coisa que você tem para vender, mas isso é um outro papo, mas a coluna é o espaço rigorosamente
subjetivo do jornal. Rigorosamente a gente quer saber o que você acha. E é muito interessante ela falar que ela faz esse trabalho e que ela tem o pensamento e só a escreve, porque eu tive a sorte questionável de trabalhar em redação durante um bom tempo. E, cara, eu era repórter. E eu tinha não um, três editores. Tem o subeditor, o redator-chefe e o diretor de redação. Os três leem o meu texto, os três canetam o meu texto, os três devolvem o texto.
e às vezes fazem alterações no texto que eu não gosto, mas que vai ser publicado. Nenhum deles assinou o meu texto. No jornalismo, a gente tem muito a clareza que mesmo editado, quem escreveu foi o repórter, não foi o editor. O editor pode ter me pautado. A pauta pode ser de outra pessoa, mas eu escrevi. Eu apurei, eu pesquisei, que é o que o Chate GPT faz, eu chequei as informações,
e me caneta e me orienta nesse processo. Mas ninguém nunca questionou quem é o autor desse texto. E só depois de você ser editado por muitas pessoas durante muitos anos, depois de ter escrito muito texto, você vira editor. E depois de muito tempo de edição, você vira um colunista, naquela época. Depois de você ter sido repórter apurador, depois de você ter sido editado, você vai pegar o texto de outras pessoas. Aí, depois de anos disso, você fala assim, agora pensa.
Agora pensa e escreve a sua coluna. Então tem uma traição muito forte, que eu não esperava nada muito diferente, da Natália Bildt. Será que ela é? Não estou interessado. Mas a Folha não mandou ela embora. A Folha não pediu desculpas. Ela falou, mas realmente, tipo, não dá. E é por isso que eu usei o exemplo do Jânio de Freitas. A Folha defendeu. A Jânio fez precisamente essa trajetória que você narrou. De grande repórter a um grande editor, a um grande polonista, a demitido. E não vou nem comparar a...
a Natália com o Eugênio, porque eu até entendo do ponto de vista editorial da Folha, tem cliques e cliques e cliques a serem conseguidos com o mercado de beleza e com design de sobrancelha. Não tenho a menor dúvida disso. Eu não sei não, Bruno. A parte mais louca é essa, tá? Se a coluna dela estivesse sendo lida pra caralho, tá? Mas não é o caso. Não é o caso. Você pode ir lá checar. Os comentários estão todos falando o que está acontecendo aqui.
Meu Deus do céu. Não é pra isso que eu assino o meu jornal. Claro. Entendeu? Mas independente disso, seja qual for a motivação da Folha, se ela é comerciante,
se tem parceria pública, se tem anunciante, não vem ao caso. Para mim, o mais grave é a defesa da Folha, que não percebe, ou não assume, ou não se dá conta, da inversão do sentido editorial de ser um jornal mesmo, de você automatizar a coisa principal que você tem a fazer, e a sociedade, não é só a Natália Bildt, mas acho que muita gente que está usando o 7GPT hoje, e vejo amigos meus de redação, que estão se auto-enganando,
que essa edição que você faz no final desse processo faz com que você seja o autor desse texto de alguma maneira, cara. E assim, e desculpa, escrever ou falar para todos os efeitos, você produzir um discurso encadeado, fora da sua cabeça, é pensar. A gente sabe isso na eterapia. Qual o sentido da eterapia? Porque quando você precisa falar, você pensa de um jeito, você organiza o seu pensamento, você se dá conta de coisas que você não se dava conta.
que escreve na vida sabe disso. A sua ideia, o seu pensamento é muito diferente de quando você pensa e de quando você termina o que você escreveu. Você vai descobrindo coisas, você descobre que o que você pensava não era bem isso, estava errado, era feio, estava cafona, estava óbvio. E aí você termina com uma outra questão, com outro texto na sua mão. Então, a Folha defender isso, por isso que você colocou no Ecomeço, que me deixou especialmente puto, que a Folha não tem medo de adotar novas tecnologias. Empurra quem está cético,
em relação a isso, é o quê? A covardia? Ou, pior do que isso, bota até o produto de uma coluna, que em tese é opinião e é pensamento, como um commodity que pode ser automatizado, que pode ser feito por uma máquina, literalmente. E deve estar sendo feito. Não espantaria que os editoriais da Folha estão sendo escritos. Luísa, vê se você consegue para a gente a última coluna da Natália na Folha, por favor. E para terminar, eu queria lembrar de uma outra coisa que foi uma semana mais tarde, mas que é muito mais grave do que a Folha.
que foi a elaboração da sentença que inocentou aquele caso de estupro de uma menina de 12 anos que deixou o Brasil justificadamente indignado. Um monte de homem inocentou esse cara que estuprou uma menina para todos os efeitos. E a sentença, ela foi redigida pelo relator, não a sentença, mas o relatório, o relator, ele deixou o prompt de uma parte. E a parte que ele botou,
prompt era exatamente a função dele. Que é assim, dê argumentos que embasem melhor essa justificativa. Não é nem assim, enxugue o texto, ache erros de ortografia. Cara, eu acho muito louco isso. Faça o embasamento que eu sou pago pra fazer pra inocentar um estuprador. Eu acho muito louco esse cara continuar sendo juiz do Brasil. A sentença valer. Exonerado, caçado, preso. Só pra fim de jurídico, deixar claro que se ele foi absolvido
a gente não pode dizer que ele é um estuprador, porque ele não foi absorvido. Mas a gente pode dizer que havia muitos indícios e que a sentença ter sido proferida, o relatório ter sido feito dessa maneira, cria indignação em relação à sentença desse homem acusado de estupro. Só, enfim. Fazendo aqui o papel de... Porque agora que a gente está precarizado, não tem mais um jurídico de plantão, que nem a gente tinha no Grego. Não, obrigado.
Eu preciso fazer essa função. Obrigado, Alessandra. Você pode ter poupado alguns milhões. Alguns milhões de processos aqui.
louco um juiz usar XGPT na sentença e ainda nem reler, porque... Não é a primeira vez, né? Já teve alguns casos nos últimos dois anos. Não é a primeira vez. E é isso, nem se deu o trabalho de reler. Não, já rolou no UOL, já rolou no Globo, um monte de coisa que você vê o prompt no meio do negócio. Eu acho que esse caminho, assim, o uso dessas ferramentas de geração de texto, por quem trabalha com texto, eu realmente acho que é um caminho sem volta o uso em alguma medida. Tem uma
coisa que é muito burra na maneira como as ferramentas estão sendo usadas também, porque é realmente uma substituição da cognição. Por isso que eu acho que o comentário mais interessante feito pela nossa amiga Natália é essa separação entre pensamento e linguagem, porque é não conseguir entender que a linguagem é o limite do pensamento e, ao mesmo tempo, é também admitir que o pensamento dela, então, é básico naquele nível, porque o que ela está publicando é tão ruim, é tão ruim que se o pensamento
dela é esse, então isso é uma denúncia dos limites da sua própria capacidade cognitiva mesmo. E aí ela tem que ser demitida não por achar de GPT, ela tem que ser demitida porque ela é burra demais para escrever na Folha. Não dá para escrever num jornal publicado. Você tem que ter um pouco de capacidade de elaboração de alguma coisa. Alessandra, mas eu sou mais radical quanto a isso. Mais radical? Eu acho que tem que prender. Então, se tem evidências de uso de IA para fazer um trabalho que você deveria estar
fazendo, eu imagino que tenha sido paga para isso, não sei se a Folha ainda paga para coluna, mas eu acho que, enfim, que as pessoas pagaram para consumir, isso é verdade, eu acho que deveria ser ilegal mesmo você usar, na minha opinião, assim como se você vende um hambúrguer de carne bovina, se eu usar soja, não é crime usar soja, mas vender como carne bovina, sim, você está vendendo uma coluna de opinião, o público está pagando para ler uma coluna de opinião, não está lendo para ler a opinião de uma IA, ah não,
daí, ah, ela que cheveu junto comigo, sim, uma opinião construída em parceria com a que seja, entendeu? É algo que eu acho que deveria estar na ordem, sim, do ilegal, na minha opinião. Mas, para mim, isso seria... Eu quero só deixar, eu quis que a Luísa puxasse a última coluna da Natália, porque eu queria ter certeza que eu não tinha lido errado, que eu li meio na diagonal, vindo para cá, li na diagonal, porque tem que ler na diagonal o que ela escreve.
Mas eu quero só deixar esse detalhe, essa informação, de que a última coluna da Ana Folha é contra o fim das calças 6x1, porque o trabalhador brasileiro...
Não é produtivo. Não quer trabalhar, não gosta de trabalhar. É. Olha que curioso. É realmente isso. É realmente isso. Então, mas o trabalhador é brasileiro. Trabalhar menos vai te salvar ou te afundar, diz a coluna. Quer dizer, diz o chat de PT. A colunista que não trabalhou para te ver uma coluna. Essa coluna. Essa coluna. Então, assim, é uma camada de ironia, é inconsciente da própria ironia, que é exatamente a definição da burrice, né? Que cara de...
Muita cara de pau. A pessoa, depois desse debate, falar, eu vou escrever sobre isso. Posso ler um pouco do que o Chate GPT escreveu para ela? Pode. Mas é o que ela pensa, né? Eu agora estou com uma esperança, Alessandra, de que o Rafael Cariello tenha usado o Chate GPT para escrever a coluna dele. E não tenha sido ele que escreveu. Grande jornalista, tá? Ficou um abraço para um grande... Não é meu amigo, é um abraço de fã, porque eu sempre adorei ele na Piauí, um grande repórter e tal. Mas entrou para a Folha e escreveu uma coluna
trabalha pouco, sem checar as fontes, sem ouvir o outro lado, sem ouvir outros pesquisadores. E termina o texto com um apelo mesmo, quase um call to action contra o fim da escala 6x1. Dizendo que é, a gente não trabalha tanto assim. E detalhe, tudo ali é uma loucura essa coluna. Essa coluna não, essa matéria. A Folha está encampando essa batalha contra o fim da escala 6x1.
É isso. É contra o fim das calças. A favor das calças por um. A favor das calças por um. A favor de que as pessoas trabalhem de segunda a sábado. É contra o fim de semana. A gente pode falar isso. Eles são contra o fim de semana. É contra o fim de semana. É o pessoal que é contra a distância. Mas eu quero só ler um parágrafo do chat GPT aqui pra gente... Do chat GPT que está trabalhando a serviço de Natália. É... Abre aspas. Nós ocupamos uma das posições mais baixas entre as grandes economias do planeta, segundo o ranking de produtividade da OIT, a Organização Internacional do Trabalho. Você vai ler tudo? Não faz isso comigo. Não, é só esse parágrafo.
do Daniel Duque mostrou, e essa formulação é que eu queria trazer para vocês, mostrou que o brasileiro trabalha menos que a média mundial e queremos trabalhar menos ainda. E aí ela, e aí fala assim, por isso é necessário sim desenvolver estudos e campanhas, é necessário desenvolver estudos e campanhas que para mostrar aos trabalhadores que não enxergam ou não querem enxergar, pois já estão planejando o que vão fazer nessas horas de lazer e descanso que terão a mais os pontos negativos dessa nova jornada.
nada. Sim, eles existem. É isso. Os trabalhadores já estão planejando suas horas de lazer, por isso eles não querem enxergar os pontos negativos. Eu não sei o que fazer com isso, entende? Eu não sei o que dizer sobre isso. Porque isso, quando eu falo de burrice, a falta de autocrítica é um elemento muito básico da burrice. O burro não sabe o que é burro. A pessoa que é capaz de admitir ignorância sobre um domínio, em geral, é menos ignorante do que a pessoa que sabe tudo sobre aquilo.
Para você saber tudo sobre, sei lá, astrofísica, ou você é um Nobel, ou você é um completo
A pessoa que sabe um pouquinho, ela sabe o suficiente para ela saber que ela não sabe tudo. A curva de Dunning-Kroger. A curva de Dunning-Kroger, né? Exatamente. Que é essa curva da sabedoria. E aí a pessoa está no centro de um debate interessante, filosoficamente interessante. Não os argumentos dela, mas sobre texto e pensamento e produção e quem trabalha com texto e se é legítimo ou não tentar ganhar tempo e, portanto, abrir tempo na sua própria jornada de trabalho para outras coisas. É isso, você é pago para escrever uma coluna.
tudo bem você usar uma ferramenta que no fundo escreve para você e isso libera seu tempo para outra coisa e assim por diante. E no meio dessa confusão, quando ela já está na mira, ela resolve que ela vai publicar uma coluna para dar uma lição de moral nos trabalhadores brasileiros que, veja bem, tem a audácia de planejar o que eles vão fazer no final de semana. Não, e ela falando que o tempo dela é muito valioso para trabalhar.
Para escrever. Para escrever coluna. É, não, é muito inaceitável. É muito inaceitável. E tem essa questão que é muito importante que eu acho que vai afetar a sociedade para além
disso, que é a parte mais sutil, que eu não tenho muito repertório para definir o que eu quero, mas que é, as pessoas não estão se importando muito com isso, e a gente vai lendo os textos, e tem pessoas que vão utilizar o chat GPT com mais destreza do que ela, possivelmente, o chat GPT vai trabalhar melhor, daqui a pouco vai começar a ter mais estilo, vai começar a ser mais não identificável, de maneira óbvia, como ele tem sido hoje em dia, e o ponto é exatamente esse, se a linguagem é o limite do pensamento, mas também a base dele, ele está nas
duas pontas, a gente sem perceber vai se automatizando. Porque, assim, se o nosso vocabulário, mas mais do que isso, a própria sintaxe, a forma de pensar dos textos que estão nos cercando de muitas e muitas formas, está sendo elaborado por modelos de linguagem privadas de uma certa empresa, o nosso pensamento que vai mandar o próximo web prompt já é colonizado pelo algoritmo, a gente não percebe isso. Porque o que a Natália Bilt acha,
que mais me ofende, a maior arrogância dela na minha cabeça, nem a do tempo dela. Ela fala, não, o pensamento é meu. Supondo uma originalidade do que ela pensa. Meio supondo que ela não é vítima do lugar mais comum possível do pensamento da obviedade medíocre que o chat GPT objetivamente é. A busca da média, não das pontas extremas de má qualidade ou de boa qualidade, de uma emulação
de algo que não foi criado, mas simplesmente que é meio... Uma cópia é probabilística. Eu acho que é muito útil para escrever um e-mail burocrático. Se ela estivesse usando o chat GPT, como certamente está na vida dela como executiva, é uma coisa. É para escrever uma coluna de jornal. Eu sei, mas até isso. Eu quero pegar o da coluna para jogar no do e-mail também. Porque é o seguinte, mesmo esse uso mais defensável, mais prático, que poupa o precioso tempo que teríamos para ser mais produtivos ou descansar mais,
pra fazer esse e-mail, até isso é muito cuidado e muita cautela. Porque é nisso que você cria rotinas, hábitos, novas maneiras de estruturar a própria sintaxe sua. E é escrevendo e-mail chato que você pega cancha pra escrever uma coluna depois. Pra você expressar, escrever um bilhete. Porque se você não faz nem o básico, vai ser muito difícil você escrever uma carta pra alguém. Pra mim tem uma lógica parecida com a lógica do áudio, que as pessoas falam assim,
mandar áudio porque é mais fácil. É mais fácil de mandar. É mais difícil de ouvir. É mais fácil pra quem? E um e-mail com o JGAPT, ele é mais fácil de mandar. Ele é mais chato de ler. Aliás, uma tirinha ótima que eu vi outro dia, assim, um cara falando, pô, foi ótimo, eu tinha que escrever um e-mail pro meu chefe, escrevi três palavrinhas, ele transformou em três páginas. Aí corta pro chefe falando, pô, recebi aqui um e-mail de três páginas, joguei no JGAPT, ele transformou em três palavrinhas. É foda. Então, assim,
Você está escrevendo o concha de APT para pessoas que vão ler o concha de APT. Por que não escrever apenas o que você tem que dizer com três palavras? Então, eu acho um desrespeito gigantesco a pessoa ocupar o seu tempo precioso com algo que ela não se deu o trabalho de escrever. Porque ela acha que ela não se deu o trabalho de escrever, mas você vai se dar o trabalho de ler. E está invertendo a lógica. Porque, necessariamente, escrever é uma coisa que tem que demorar mais tempo do que ler.
É a única regra que você tem que... É o mínimo que você espera. A única regra escrita que é realmente lapidar,
assim, você tem que passar mais tempo escrevendo do que a pessoa vai passar lendo. É o mínimo, cara. Então, se você está escrevendo um e-mail que vai demorar menos tempo do que você acha que a pessoa vai demorar lendo, você está desrespeitando o tempo dela. Você está dizendo assim, o meu tempo vale mais que o seu, porque você é uma merda. Mas aí acho que tem uma outra dimensão disso, que é, para algumas pessoas, em algumas dimensões da minha vida, eu até me incluo nessas pessoas, você já tem acesso à equipe. Então,
Acho que onde as pessoas estão sentindo um alívio da inteligência artificial é que ela é um bom emulador, não de você mesmo, mas de uma equipe. A coisa mais comum do mundo é uma executiva ou uma executiva que tem um assistente que lê e-mail e que responde e-mail por essa pessoa. Que está ali abrindo a caixa de e-mail e quando o e-mail quer uma coisa, a reunião de quarta-feira precisa ser remarcada para sábado, não sei o quê, o avião que atrasou e o relatório que tinha que ter saído ontem, tem que sair amanhã. Essas coisas que a vida de um executivo, infelizmente, é 99,
por cento, esse tipo de chatice, essas pessoas já delegam. Elas não passam o seu tempo respondendo sobre a remarcação da reunião de quinta pra sábado. Mas elas delegam porque elas têm uma ou duas ou três, se for nas calças por um, uma basta, assistentes trabalhando pra elas, certo? Então, o que acho que não é à toa que a primeira nomenclatura que foi dada em inteligência artificial foi de assistente. Porque a ideia é dar a todo mundo essa praticidade de ter um assistente.
E eu não acho que isso seja necessariamente o fim do mundo. Até porque tem algo que é equalizador aí, que é todo mundo poder acessar alguma coisa. Agora, isso é fundamentalmente diferente de delegar o próprio pensamento. E eu discordo, Bruno, de que escrever e-mail é o que te permite escrever uma coluna. Não, não, eu sei. Porque muitas vezes é o que também não te permite. Porque se você tem, sei lá, filho pequeno, coisa pra fazer, efetivamente consome o seu tempo e tira o seu tempo da tarefa criativa.
O que é ofensivo da coluna da Natália é que ela tá tratando a coluna como um e-mail sobre a reunião de quarta-feira. Ela tá tratando como uma coisa desimportante da vida dela. E se é desimportante, por que você tem uma coluna, entende? Cara, eu acho que existe um pacto, gente, que é um pacto de sinceridade, sabe? Entre o leitor e o escritor. Que é um pacto de sinceridade entre um amigo e outro. E que você rompe esse pacto quando você bota no meio uma máquina. Tem algo que é engraçado. Mas às vezes o e-mail é meio maquinal.
é sobre a reunião. Mas esse tipo de e-mail, que você escreve, então, três palavras. Isso. Pronto. Você não precisa escrever. Porque o que acontece? Esses e-mails maquinários que eram para ser três palavras, cancelado a reunião amanhã, por que não escrever isso? Agora virou assim, ó, meu querido, com todo respeito, parabéns pelo seu trabalho, estou acompanhando o seu feedback, qualquer coisa, estamos aí sempre juntos numa equipe, aí uma citação de coisa assim, para dizer que a reunião está cancelada amanhã.
Não é apenas um e-mail. Exatamente. Esse não é apenas um e-mail, é uma congratulação.
seu lindo trabalho frente aqui. Você sabe que no surgimento da escrita, ela veio com muita polêmica, né? A escrita. A gente esquece disso. O pessoal era contra. O pessoal era contra. Platão era contra. Sócrates. Platão não. Platão traiu Sócrates, inclusive. Ah, é? Publicando Sócrates, assim. Claro, publicou Sócrates. Sócrates era contra. E o Sócrates tinha um argumento muito bom contra a escrita, contra o livro. Porque ele falava assim, cara, se tem alguém me diz algo e eu discordo, a pessoa tá na minha frente.
Eu sei que foi ela que disse. Eu vou discordar dela, ela vai poder melhorar o argumento dela.
método dele, inclusive. Já os livros, ele dizia, não melhoram. Você discorda do livro, ele continua achando a mesma coisa. E mais, a pessoa publica uma coisa e depois você não sabe quem escreveu aquilo. Você não consegue ir atrás da pessoa que escreveu. Ele ficava revoltado já com a falta de ética, com os dilemas éticos da escrita no livro. E ele tinha um ponto. Ele tem um ponto, realmente. São problemas que a gente se acostumou. Mas a escrita, ela é mesmo problemática. Porque ela faz com que o emissor não
esteja presente. E até o advento da escrita, se alguém estava dizendo alguma coisa, a pessoa estava necessariamente na sua frente dizendo aquilo. E isso tinha implicações. Você podia respondê-la, você podia bater nela, você podia argumentar contra. Tem outros indícios de que ele está mentindo também. Não confio muito. Você olha a cara dele. Botei a mão na orelha, passou a mão no nariz. Você esclarece alguma dúvida no caminho. Mas, perto dos dilemas da IA, isso não é nada.
Mas o que tem de bonito é que a gente tem subterfúgios para que a escrita seja confiável.
Um texto é assinado, um texto passa por um editor, uma editora. Mas é outra coisa. Imagina, os editores da Natália Bilt nunca acharam aquilo meio IA. Claro, ela não deve mais ser a editora. Acho que a Folha demitiu os editores. A Folha publicou direto. Não é possível, porque aí entra a gente em todos os sinais muito evidentes de IA. A IA escreve mal, por enquanto. Eu acho que isso vai mudar. Essa conversa vai ficar eticamente praticamente mais complexa também.
muito básica e muito pouco interessante. E ela tem vários vícios de linguagem. Existe um estilo da IA, sobretudo do chat GPT, que tem já um estilo de linguagem próprio, que é, na verdade, como o Bruno falou, uma mediocridade instalada como estilo. Então, uma coisa que ele faz muito, por exemplo, é paralelismo. Não é isso, é aquilo. É o uso excessivo do travessão, que muita gente já notou. Tem um monte de outros vícios. E ela comete todos. E, de novo, o paralelismo existe na escrita, de fato. Não é uma invenção,
inteligência artificial. Mas é o excesso de paralelismo, é o paralelismo como muleta, assim como travessão existe. Ou, por exemplo, a IA, ela tenta emular a complexidade, porque ela sabe que a boa escrita, ela tem sutileza, ela tem complexidade, ela tem camadas, ela entende que isso é bom na escrita. Então, ela tenta emular a sutileza. Como que ela faz isso? Da forma menos sutil possível, que é falando de sutileza. Então, ela fala dos sussurros, do que foi entreouvido, do que foi revelado,
ela gosta desse campo semântico, que ela associa a sutileza e a complexidade. Então, ela enfia sussurro onde não tem sussurro. Isso na política está sendo muito engraçado de ver, que é um território... É um território específico. É muito específico, porque se a gente falou que o pensamento, o limite do pensamento e a linguagem, o limite da organização política, de fato, é o pensamento. Você não consegue organizar ninguém em torno de um ideal que você não consegue conceber.
pensar e imaginar. E a política é discurso. É discurso. A gente sabe disso. A produção de discurso é profundamente política. Então, quando a política começa também a absorver o discurso da inteligência artificial, o que isso faz com a política? E aí a gente pegou aqui alguns exemplos de políticos usando IA, claramente usando IA, só pra gente lembrar a cara que tem. Então, Flávio Bolsonaro falando. Muito provavelmente, porque o jurídico não aprovou.
É, muito provavelmente. 2026 não é só uma eleição. É uma escolha entre o que constrói e o que destrói.
2026 vai além da política. É sobre valores, futuro e direção. Esse não é isso, é aquilo, é típico de chat GPT. Aí depois um outro dele também. Não é sobre números, é sobre escolhas. Aí temos o Ronaldo Caiado também. Autoridade moral não é discurso, é prática. Esse tipo de construção é muito comum. E a Damares fez um maravilhoso com a coisa da sutileza, dos sussurros. Falamos sobre carnaval. Muitos olham para esse período apenas como um feriado,
Para nós, o povo de Deus, esse é um tempo precioso de retiro e renovo. Em meio ao barulho do mundo, escolher o silêncio para ouvir a voz do pai não é fuga, é estratégia. Tem sempre o não é. É no secreto. No secreto. De joelhos que ganhamos as forças necessárias para lutar as batalhas públicas pela vida, pela família e pelas nossas crianças. Enfim, é sintético. E aí a produção do discurso político sintético, o que ele faz com a política? A gente não sabe ainda.
mas é muito preocupante. E a questão que mais me preocupa, e é isso que eu falo, que daqui a pouco vai automatizar o nosso discurso, e isso vai fazer com que as pessoas escrevam assim, e daqui a pouco não vai ser mais comprovável, porque isso muito provavelmente é. A gente não sabe, mas tem todos os indícios de que achete GPT. Mas na medida que as pessoas que vão lendo isso, e aí eu vou dar um exemplo de uma deputada de esquerda, que eu não vou citar o nome porque eu não quero polêmica aqui, também não lembro direitinho do texto, mas foi o seguinte, ela fez um post, um acarrossel no Instagram,
Bad Bunny, o show do Bad Bunny. Não é cultura, é política. Sei lá, tinham seis, sete e cards. De seis, sete e quatro tinham essa estrutura. Não é sobre. Não é sobre, é isso. É aquilo, não é aquilo. E a coisa mais AGPT é que ele botava esse negócio e aí é. E aí tinha itens, bullet points. Tá, tá, tá, tá, tá. Então era assim, era um recibo completo de chat AGPT. Que pra gente, não só a gente vê como chat AGPT, mas a gente é mais de letra, a gente leva
muito a série, a gente gosta desse assunto, a gente acha ruim, acha feio o texto. Só que os comentários eram o que mais me preocupou, porque as pessoas assim, nossa, meu olho encheu de lágrima, eu mostrei pra minha família, a gente tá batendo palma de pé, porque ele fez de um jeito pra um mundo que não é um mundo das letras, um mundo que, tipo, consome texto de maneira muito fugaz mesmo, ele apresenta uma estrutura que, mesmo que seja na média, ele provoca esse efeito emotivo muito barato,
ato que ele está atrás de provocar essas sensações literárias baixas. E aí o que eu acho que as pessoas não só vão se emocionar e serem influenciadas por esse discurso, mas elas tentem emular isso no texto delas. Porque ela viu que essa formulação, não só recorrente, toca ela. Então, muito provavelmente, já estamos escrevendo os mais com não é sobre, é sobre. E aí vira uma coisa que morde o próprio rabo, que é essa profunda influência mesmo
de máquinas no nosso pensamento. O nosso prompt vai estar acondicionado ao que a máquina deu pra gente antes. Já está. Já está. E eu sinto que as pessoas já estão repetizadas sem necessariamente usá-lo. Isso acontece também. É verdade. Eu já sinto pessoas que usam um modelo mental desse tipo que não necessariamente recorreram a ele. Porque às vezes é uma pessoa falando na opinião normal, mas ela está num esquema mental de não é sobre termos, né?
O PT voltou. Tem palavras que bombaram por causa deles. Falou de sussurros. Mas em inglês tem várias. É crucial. Ele começou a usar muito durante a época. Unveiling. Unveiling em inglês. Está sendo muito usado. Isso é medido, né? É medido. Você consegue medir a prevalência, por exemplo, de certos termos em teses de doutorado, em teses de mestrado. E aí tem um aumento vertiginoso do uso de alguns termos. Aliás, acho que vertiginoso é um deles.
Enfim, em todo caso. E dá uma rábia, porque às vezes são palavras que você gosta. Eu, por exemplo... Adoro vertiginoso. Eu adorava. Eu adorava travessão.
também. Eu também. Eu adoro travessão no meio de frase. Ele é esperto. Ele é esperto. E ele lê textos bons. Então ele lê os textos bons e transforma numa pasteurização. Uma coisa que eu acho que talvez role, sendo otimista, é uma fuga algorítmica. É algo que faz com que textos bons se obriguem a ser menos algorítmicos. Então, feito a fotografia, criou a arte abstrata, talvez o texto de Iá, ele crie a necessidade do escritor ou do
jornalista, quem for, ser menos formulário, ser mais pessoal, ser aquilo que um computador não sabe ser. Essa é a minha única esperança. Talvez tenha uma volta pro oral, que talvez, inclusive, esse boom de áudio, de podcast, tenha a ver com isso. É a concretização do medo de Sócrates, Greg. A partir do momento que a escrita puder ser produzida de maneira cada vez mais convincente por máquinas, pra que ler, né? Então, eu só vou confiar naquilo que eu ouvi da boca de alguém. E olha, e a literatura,
Porque se for em vídeo, ainda pode ser também de fake. E alguns de um teatro vazio, mas... Cá estamos em um teatro vazio, mas no próximo vai estar cheio muito por conta. Pra gente ter testemunhas. E a literatura, Alessandra, o boom... Do teatro. Não, não, não, da auto... Alguns chamam de autoficção. O Eduard Luiz prefere autobiografia. Esse boom da autoescrita... Da autonarração. Tem a ver também com o fato de que é algo que o computador ainda não sabe
e emular por não ter experiência de vida mesmo. Porque ele não viveu. Então eu acho que a verdade própria é o crescimento de uma literatura... Se a inteligência artificial escrevesse uma autobiografia, eu estaria interessada em ler. Não, tem uma autobiografia. É o que mais tem. Já saiu. Não, dele mesmo. Tem um livro, chama Iá, uma autobiografia, que é um cara que editou um livro que o Iá escreveu. É feito em parceria. Está publicado em português.
E qual é o seu interesse nisso? Eu... Zero. Eu não comprei. Eu ganhei o livro. Eu acho que de modo geral é zero. Porque as pessoas, elas ainda querem. Quando elas buscam um livro, pode ser... Cara, eu estou falando de livro de aeroporto.
até, mas elas vão buscar a história do cara, do dono da empresa tal, pode ter sido escrito por IA, mas ele vai ter que disfarçar legal, porque as pessoas querem ter pelo menos a impressão de que elas estão escrevendo algo por humano, entendeu? E o bom do teatro é isso, o teatro vive uma explosão, é um lugar que você sabe que vai ser um território livre de algoritmos. Tem uma coisa acontecendo ali que está acontecendo na sua frente.
Está acontecendo na sua frente, ali. Tem um corpo. Sobre essa descorporização, e acho que já já a gente vai ter que começar a encerrar também, então não quero me alugar, mas quando o Bruno
falou da deputada que escreveu com o Iá, eu fiquei pensando que é uma etapa dois de uma coisa que já aconteceu na política, que é sobretudo para pessoas públicas, e os políticos quase todos, por definição, são pessoas públicas, a gente já aceita que o perfil delas diz algo que não são elas que disseram. Então, ninguém imagina, ou acho que poucas pessoas imaginam, que a deputada é quem está apostando no perfil da deputada. É uma equipe, é uma assessoria,
Eu não sei se é a maioria das pessoas. A gente já normalizou uma coisa na política que eu acho muito, profundamente desconcertante, que é a ideia de que os produtores de discurso político, aqueles em que a gente vai votar, que podem governar nossas vidas, que podem ajudar a criar o coletivo, que essas pessoas têm que emitir opinião sobre tudo, o tempo todo, e que essa opinião não é exatamente delas, é de alguém. Tanto que quando elas falam merda, a desculpa mais comum é culpar a assessoria.
Isso é um pouco normalizado. As pessoas me perguntam muito porque eu não tenho rede social. Mas parte da minha razão é que eu realmente, assim como Natália Bilt, não tenho muito tempo, não para escrever um tweet, mas para pensar sobre o que eu acho de tudo isso. E essa ideia de que você fica escravizado, enfim, você precisa emitir opinião sobre tudo, ela é muito enlouquecedora, eu acho, para o cidadão comum, mas é especialmente enlouquecedora para o representante eleito.
ou deputada, tenha uma opinião sobre tudo. Se ele ou ela tiver, eu desconfio. Porque o que eu espero, sim, de um representante meu é que ele tenha uma reflexão madura sobre as coisas, que ele tome o tempo de se informar, que ele ou ela leiam sobre o assunto, conversem com pessoas, procurem os afetados por uma política pública. E ninguém faz isso a toque de caixa, sobretudo. O que acontece aqui, o que acontece na China, o gato, o cachorro, é uma loucura. E aí, se você já aceita
estou é de um assessor, aceitar que é do chat do GPT não é tão mais difícil, né? Você já dissociou da subjetividade, de fato, da questão do discurso. Essa é a parte mais louca de todas, né? Que é o fato de que a gente está cada vez mais perfilado, assim, e cada vez mais avatarizado. Então, tem uma hipertrofia do eu, do eu, eu, eu, o que eu vivi, eu, a self, o center of self, né? Aquela coisa. E, ao mesmo tempo, um esvaziamento da subjetividade real. Então, são performances de subjetividade
subjetividades esvaziadas na subjetividade de fato. Mais eu e menos self, né? Exatamente. Tem menos subjetividade. E isso eu acho que é muito central, que é uma conversa que estranhamente a gente não consegue penetrar nela e que ela é a mais aflitiva na minha cabeça, que é a gente tá arrancando a consciência dos processos cognitivos de maneira massiva. A consciência, que é um mistério. A gente tava numa década passada, a gente tava começando uma ciência da consciência, entender que tá
é isso que o processamento de dado vira subjetividade, vira uma experiência real. Ele é colapsa em um sujeito que sente, vê e pensa coisas para a emulação disso que está tomando o lugar das coisas que a gente fazia com muita consciência. Então, é o fim da subjetividade em nome de uma... do que exatamente? Do nosso tempo que é mais valioso para quê? E a gente está fazendo tudo isso em nome do nosso tempo e não consegue nem acabar com as calas 6x1.
Que tempo todo é esse que a gente tá liberando dos grandes... É incompreensível. É incompreensível. Então, assim, se fosse pra isso, se ela... Então, a Natalia Bildt, pra ter um mínimo de coerência, ela precisa falar assim, gente, eu tô usando isso daqui porque eu quero ter fim de semana de três dias. Eu tenho uma filha. Eu não quero ficar escrevendo coluna da folha. Eu quero brincar com a minha filha ali no parque. E todo mundo deveria usar pra ter a escala 3 por 4, entendeu?
Pra produtividade aumentar. É, pra gente fazer alguma coisa da vida. Não. É pra ter tempo de trabalhar mais em alguma outra coisa.
O quê? E vamos ser sinceros, o caso da Natália Bilt, de muita gente no nosso meio, é pra ter tempo de scrollar. Porque o tempo que as pessoas não estão escrevendo, elas estão usando um assistente pra escrever um texto, elas não estão lendo, né? Guerra e Paz. Não é isso que elas estão fazendo. Ô, Chad APT, escreve essa coluna aqui que eu vou terminar o meu Tolstói. Não é isso. Ela tá lá scrollando. Então ela tá passando mais tempo com o algoritmo, ela tá usando o algoritmo pra passar mais tempo com o algoritmo.
Essa é a verdade. Então é o algoritmo fazendo com que você passe mais tempo com ele.
E que, no final das contas, pode ser resumido em termos econômicos em você deixar de ser produtor. Então, a produção você delega para o robô. No caso, produção de informação. No mercado da atenção, você para de produzir aquilo que captura a atenção, mas você não deixa de ser consumidor. Você segue consumindo. E daí, a pergunta para quem olha para o mercado de trabalho é, bom, se todo mundo deixa de ser produtor, mas não deixa de ser consumidor, como é que o consumidor consegue consumir?
essa captura absoluta do valor por essas empresas, as Antropics da Vida, que capturam o valor de uma maneira absurda, sem precedentes na história da humanidade mesmo, e que pode acabar gerando uma obsolescência do trabalho. Numa sociedade que não consegue nem discutir lazer e tempo livre e capacidade de viver com a sua família e distribuição de renda, que são as únicas coisas que podem nos salvar dessa distopia. O Fim das Calças por Um é o início de uma conversa sobre como que a gente desloca
Coloca aquilo que sustenta a sociedade de trabalho para o capital, na verdade. Porque é no capital que está acontecendo a produção. É um monte de marcas. São empresas produzindo, não mais as pessoas produzindo. E o fim da consciência nesse processo, que eu acho que você botou bem, quando a gente vira consumidor, talvez seja o nosso único papel público daqui a muito pouco tempo, ou o principal deles, mas cada vez mais, acho que tem algo diretamente relacionado com o fim da consciência. Que é você sobra com quem?
então, com o seu inconsciente livre. Porque se você não tem a consciência e o seu ego muito bem estruturado e o seu pensamento que seja capaz de se elaborar sem uma máquina, mas um pensamento que é capaz de escrever a coluna de si mesmo, de você conseguir se entender como um sujeito, o seu inconsciente priorizado, o seu inconsciente como a única coisa que sobra na sociedade, é ou é consumidor mais perigoso e mais inconsequente que possa ter? É o ser humano que perde a agência histórica, que é o que a gente está vendo
nessas guerras todas. E é político que para de tomar decisão moral. Que para de tomar decisão e para de produzir discurso. O que ele faz? O que ele faz? E é a algoritimização da própria história que a gente vê. É muito louco isso. Eles pulando a parte chata. Eles pularam a política. Eles pularam o trabalho deles. No fim das contas, ninguém quer trabalhar. Vamos assumir isso. Vamos para a escala 2x7. Vamos embora, né, gente? Cara, mas concluindo aqui,
Eu acho que realmente tem algo que o Bruno falou, e voltando ao grã, com a nossa... Não é inércia a palavra, nem apatia, mas nossa falta de ferramentas de indignação. Aliás, um termo bom que o Fernando Barros cunhou é pós-putos. Pós-putos. Nós estamos meio pós-putos. Ele está bem pós-putos. E eu acho que é algo que define bem mesmo o estado que a gente está. Você já ficou puto, já ficou puto pra caralho, já ficou hiper-puto. De repente você ficou pós-puto.
Você ficou anestesiado, sem palavras, e sobretudo com a impressão de que não vai adiantar nada.
sim com automatização. Você vai protestar contra uma IA, ela tá cagando. Se tem alguém que tá cagando... Os governantes sempre cagaram pros protestos, né? De modo geral. Mas a IA realmente... Mas se tem alguém que caga de verdade, é a IA. E eu acho que você tá lidando com um inimigo novo que realmente não é que não se importa com você, é que não sabe o que é você. É o que não sabe o que é se importar. Não sabe nada. Não sabe. Então, é uma era nova mesmo que a gente vai precisar... Que bom chegar, hein?
Muito chat EPT para entender o que está acontecendo. Eu vou fazer um último jabá antes de a gente fechar, que eu sei que o Greg já está aqui fechando, que é essa semana, quarta-feira, a gente vai ter o primeiro encontro do nosso Clube de Cultura para debater um livro que a gente chama, que é O Vivo Povo Brasileiro, um filme, um disco. E a gente vai continuar tendo esses encontros semanalmente ao longo do ano. Então, se você ainda não se inscreveu, ainda dá tempo de se inscrever e pegar o Clube de Cultura no iniciozinho.
E eu falo isso muito sinceramente mesmo. Me preocupa muito o sedentarismo cognitivo. Muito.
das coisas físicas gerou uma geração, algumas gerações de sedentários físicos na humanidade, né? E aí as pessoas passaram a fazer, sei lá, exercício de forma... Academia. Academia. Ou sair pra correr. O exercício, que era uma coisa integrada à vida, o Bruno fala muito sobre esse assunto, né? Passou a ser uma coisa que você precisa fazer de maneira intencional. E acho que a gente está vivendo um processo parecido com a cognição.
Se a gente não for intencional sobre as nossas leituras, os nossos debates, aquilo que a gente conversa, a gente vai ficar preguiçoso e sedentário cognitivamente. Então,
A resposta mínima que a gente está tentando dar é se juntar para ler uns livros longos. Não todos, não serão todos longos. O do próximo mês é bem curto. É bem curtinho. A gente acabou de ler um de 600 e poucas páginas. Mas a gente vai depois ler um de 100. Mas vou te falar, são as 600 páginas mais prazerosas que eu já vi há muito tempo. Essa aqui é a delícia. Aliás, a gente falou por alto de sedentarismo, que eu acho uma ótima imagem de sedentarismo cognitivo, mas tem outra que acho que a gente usa um pouco, que é a gastronômica,
de que você tem ultraprocessados cognitivos, né? Que é o texto de Yá. Ele é uma farinata do Dória. É, farinata. Tipo, você comer, você não vai morrer, não é isso? É óleo. Mas a sua vida vai ser muito triste. A sua dieta não pode ser só óleo. Não pode ser só. Então vem comer um brócolis com a gente, entendeu? Não, no caso do povo brasileiro, é uma feijoada, uma muqueca, na verdade. Uma muqueca de camarão. Não, é uma loucura. Exatamente, é uma explosão de sabores, não só com sabores, mas também com tradição, porque comida não é só sabor,
que organiza a vida. A literatura pode ser esse lugar também. E tem uma coisa de... Então, só para terminar o jabá de direito, Bruno, eu passo para você calmaurgente.com.br para quem quiser se inscrever no Clube de Cultura. É só .com. Ai, meu Deus, eu sempre erro isso. Calmaurgente.com. A gente teve teu BR também. Quem quiser se inscrever no Clube de Cultura para vir comer feijoada e muqueca com a gente, não literalmente, é só entrar em calmaurgente.com e se inscrever. E não só isso. Você vai ler, ver,
filme, vai ter o acesso a essas conversas que são só para os assinantes, vai ter acesso prioritário para esse teatro e para ver como a gente... Ao vivo? Ao vivo, a gente vai fazer mais eventos desse e uma comunidade exclusiva para quem é membro e é membro para a gente se conhecer, para se organizarem, verem, assistirem e lerem coisas juntos, irem em festas e um clube de muitos descontos em cinema, em editoras,
Em coisas que acontecem fora da tela. Em coisas que acontecem fora da tela pra gente se ver. Mas isso que você colocou, só pra encerrar aqui, eu vou fazer uma defesa do Vivo O Povo é Brasileiro, que é um livro que a gente tá lendo, mas uma coisa que me espanta muito, que é o livro, ele é muito saboroso de ler. É um texto, pra mim, assim, uma obra-prima, uma exuberância, assim. Mas mesmo que você me convença, e talvez vai ver que é possível, daqui a três, quatro anos, que a Antrópica seja capaz de produzir o mesmo texto. Ter essa capacidade cognitiva eletrônica.
Me enganar. Me enganar. Depois, o mesmo texto equivalente a um texto que se eu lesse de uma pessoa, eu ia ficar muito admirado. Eu posso te garantir que eu ia ficar triste lendo esse livro e não feliz. Porque a questão da obra de arte, que eu acho, ela não é um produto. Ela se apresenta materialmente, como um quadro, como um poema, como um livro, como uma música, que ainda assim é som e é material também. Mas o mais bonito disso é que ela te conecta com uma outra consciência humana.
passando na cabeça do João Ubaldo. Você entra na cabeça do João Ubaldo. Na vida dele, em ser um baiano, em comer aquela comida. Tipo, qual foi o dicionário que ele achou essa palavra maluca? De onde que ele recuperou a história que ele achou aqui? E me dá uma empatia por essa pessoa. Ver um quadro lindo ou abstrato, eu falo assim, qual é a angústia que esse cara tem? Você se conecta em um lugar intransponível da obra de arte, que é pra isso que ela serve.
Ela não é um produto. Não é. E tem algo que eu acho que existe uma utopia da nossa geração muito forte pra mim, pelo menos, não sei se
também, que é o Matrix. Uma parte específica do Matrix, que é o aprendizado no Matrix. Não sei se vocês lembram como é que era. É um download. Aquilo ali mexeu com a nossa imaginação. Eu pensei, cara, já pensou que máximo você botar aqui, baixar e você luta jiu-jitsu, você toca piano, você fala russo. Porque é um chip, baixou, tá na nuvem, pronto, virei um karateka. Pronto, virei. E essa utopia, esse sonho, esse input, chame como quiser, é algo que nos contaminou muito e que é meio
impossível, teoricamente, pela IA. Você consegue fazer, é meio sobrenatural. Baixei, fiz. Não é que eu fale russo, mas ele traduziu, é como se eu falasse. Escrevi um e-mail em russo. Mas, ao mesmo tempo, tem algo ali que é utópico e é inatingível, por um motivo. Está fora do tempo. E qualquer professor sabe disso, que é impossível você ensinar alguém fora do tempo. Entendeu? Você não tem como baixar, porque aprendizado não é um download. É um processo. É um processo. Você não consegue aprender russo,
tem 10 mil horas de voo. Aliás, é curioso o conceito de... 10 mil horas, é. Horas de voo é um conceito curioso, porque você pode ser o melhor piloto do mundo, cara. Você pode aterrissar um Boeing na sua primeira aula, você faz o milagre, não importa, você não vai ter o brevê. Porque tem uma coisa que se chama horas de voo. Você só consegue com horas físicas, experiência de verdade. É uma aposta de que é o tempo que ensina. Não é o quanto você leu, não é o que você fez. É o tempo. E tem isso pra piloto, mas eu acho que tem isso de modo geral.
Tem coisas que você só aprende com horas de voo. Por isso que essa coisa do Matrix é algo que eu acho que a gente nunca vai chegar lá. Que é o fato de que você só aprende dentro do tempo. O tempo é o ingrediente mais fundamental pra vida. Você não consegue condensar. E por isso que eu acho linda a experiência de ler um livro. Por que é diferente ler um livro? Seria radicalmente diferente você baixar o livro do povo brasileiro.
Você não passa tempo com aquele livro. Você não passa tempo com ele. Ele não entra na sua vida. E a mágica da literatura é que ela vai permear a sua vida. E o tempo que você leu vai ser um tempo.
que vai fazer parte da fruição da obra. Ela não existe fora daquele tempo que você lê. E acho que isso aí que é legal de ler junto também. E é um diálogo real com uma pessoa que está morta, mas estou conversando com o João Ubaldo. Estou absolutamente vivo naquele momento. Que é outra coisa que eles tiram da gente também, que é a ideia de que esse tempo que a gente lê ou escreve, ou aprende piano, ou se esforça para fazer alguma coisa,
perde, é um mero esforço e você deveria fazer menos esforço e a ideia de que ler é difícil e chato e não extremamente saboroso junto com isso, que o esforço que você traz é altamente recompensador em dimensões imateriais, intangíveis e é isso que eu falo, se aquele livro fosse escrito por uma máquina e eu lesse o livro e falasse o que fez, eu ia ficar triste porque eu falo assim, não tem um ser humano, não tem outro aqui, não tem uma angústia aqui, isso não tem desejo
se não tem uma vontade, se não tem vontade de falar comigo, de me tocar, de me emocionar. Então, esse é o convite. Esse foi o Calma Urgente. Obrigada, gente. Venha nos encontrar no Clube do Calma. Se quiser continuar essa conversa. E aqui, ó. Clube do Calma Urgente. CalmaUrgente.com. Entra no nosso clube de cultura. E até já, até breve, até semana que vem. Um beijo, queridos. Tchau, tchau. O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções e do Estúdio Fluxo. Na apresentação, Alessandra Orofino,
Gregório Duvivier e Bruno Torturra. Na produção, Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na pesquisa e roteiro, Luís Amigues. Na captação de som, edição e mixagem, Vitor Bernardes. Ilustrações, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Bruna Messina. Gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoui. E, consultoria de comunicação, Luna Costa. Música