Episódios de Calma Urgente

Entre a Dívida e a Ostentação

11 de maio de 20261h41min
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Nosso centésimo episódio, gravado ao vivo no Teatro Carlos Gomes. Uma conversa sobre grana, endividamento crônico, status performático e a linguagem global da ostentação.

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções 

Na apresentação, temos Alessandra Orofino, Gregório Duvivier, Bruno Torturra

Na Produção, Carolina Forattini Igreja e Sabrina Macedo

Na Pesquisa e Roteiro,  Luiza Miguez

Na Captação, Edição e Mixagem, Vitor Bernardes  @vitor_bernardes_

Ilustração, Anna Brandão  @annabrandinha

Na sonoplastia, Felipe Crocco

Na Edição de Cortes, Julia Leite

Nas Redes Sociais Gabi Biga

Na gestão de comunidade, Marcela Brandes

Identidade visual, Pedro Inoue

Consultoria de Comunicação, Luna Costa

Equipe Calma - No Teatro

Produção, Nathália Ribeiro

Direção, Gustavo Rosa de Moura

Diretor de Fotografia, Pedro Urano

Assistência e Operação de Câmera, Tomás Camargo e Mariana Durán

Logger, Pedro Freitas

Técnicos de Som, Matheus Tiengo

Operador de som, Ton Oliveira

Técnico de Iluminação, Pablo Miranda

Roadie, Reynaldo Thomaz

Maquiagem e Cabelo, Natali Araújo

Transporte, Felipe Monteiro

Agradecimentos especiais ao Teatro Carlos Gomes e sua equipe.

Assuntos1
  • Endividamento das famílias brasileirasEpidemia de endividamento · Nome negativado · Mercado de luxo · Inflação controlada · Desemprego baixo · Cartão de crédito · Bets (apostas esportivas) · Supermercado parcelado · Estresse financeiro · Cultura do consumo · Performance de status · Redes sociais · Old Money · Gourmetização · Códigos dos ricos · Exclusividade · Monocultura da ostentação · Cancelamento do futuro · Endividamento de idosos · Crédito predatório · Crédito consignado · Gamificação do trabalho · Trabalho plataformizado · Economia de dados · Shopee · Consumo como linguagem · Fintechs · Golpe do Pix · Mães solo · CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) · Anistia de dívidas · Comédias de cinema sobre enriquecimento · Pablo Escobar como ícone pop · Teologia da prosperidade · Falta de vergonha da riqueza obscena · Shakira e o divórcio · Áreas VIP em shows · Profecia autorrealizada · Fake it until you make it · Cosplay de sucesso · Escritórios fake · Bancada de enfermeiras · Dados de endividamento · Superendividamento no ocidente · Juros altos no Brasil · Expansão de crédito · Bolsa Família · Consumo como forma de inserção social · Políticas universalistas · Hiperfocalização de políticas públicas · Crédito para consumo · Bancada de enfermeiras · Dados de endividamento · Shopee como rede social feminina · Consumo como linguagem principal · Influenciadoras de compras · Parcelado (livro) · Dívida (livro de David Graeber) · Desenrola Brasil · Odiar CLT · Trabalho precário · Miragem de enriquecimento rápido · Vício em jogos de azar · Parasitismo econômico
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Olá!

Olá a todos. Entrem, tem gente ainda ali? Fique à vontade. Entrem, entrem. Ah, que alegria, calma. Ao vivo, presencial. Ao vivo com vocês, não é? Muito feliz de estar aqui. Obrigado ao Carlos Gomes, esse teatro que já está virando a nossa casa aqui no Rio. Foi também a Casa do Céu da Língua, estreou aqui a peça. Estreou aqui? Sim. Um teatro público, um teatro histórico.

Um teatro nosso, o nosso da população. Então, estou muito feliz de ter ele também com, agora, um podcast. Eu era contra podcast de teatro, eu confesso. Um palco desse tamanho, lindo, com luz. Tudo e ficam três marmanjos sentados, dois marmanjos e uma marmanja sentada. Mas eu estou gostando cada vez mais disso, porque é bom também, podcast às vezes é meio solitário, se fazer em casa, sozinho, naquela... Eu acho bom ter gente.

Você não só acha bom, como você é muito mais produtivo quando tem gente de verdade. A gente só faz no teatro. É verdade. O Gregório fica super nervoso. Ele fala, acho que a gente não está preparado para essa pátria. Ele fala, Gregório, toda semana a gente faz isso. Você nunca está alheassando paranoia, só quando tem teatro. Eu me importo muito com vocês, me julguem. Mas só quando vocês estão aqui, entendeu? Vocês em casa... Em casa não conta, não.

Quando a gente fazia Greg News, a gente fez uma primeira edição do Greg News sem plateia. E Gregório não funcionou. Não, não. Não. Eu só funciono com plateia. Aí eu falei, precisamos de uma plateia urgentemente. Teatro mesmo, ensaio, para mim, não conta. Eu só começo a fazer de verdade na estreia. Pois é. Acho que nunca dá para fazer. Já tratou isso na terapia? Como funciona? Não, não, não. Senão eu tenho medo de tratar e mudar de profissão.

Mas é um prazer estar aqui. Esse é o Calma Urgente Especial, o segundo que a gente está fazendo nesse teatro. Terceiro. É o terceiro. É o segundo com o público. Num teatro. É. E...

A gente pensou muito sobre o que falar, e esses calmas com o público e no teatro a gente tem tentado fazer com temas menos noticiosos e mais gerais, mais duradouros, vamos dizer assim. Até porque está no teatro, não adianta nada a gente ficar falando aqui de algo que aconteceu agora, até porque esse aqui vai demorar um pouquinho mais, é o arco, tem que editar e tal. Então, falar de coisas que estão nos angustiando, não no momento presente, mas angustiando a um tempo mais duradouro. Isso, as angústias existenciais mesmo.

Angústias existenciais mais antigas, conjunturais. E assuntos que voltam muito na nossa conversa riqueira, que a gente não vai fundo, mas está sempre presente. Exatamente. Temos obsessões do calma. E essa é uma obsessão do calma, mas também acho que do brasileiro, do mundo todo. Patati patatá.

Tatatá é uma delas, é, total. Mas é o dinheiro, vamos falar de dinheiro hoje. Uma obsessão. Uma obsessão, uma necessidade. A gente está falando de dinheiro e de endividamento. Porque o que acontece é que hoje a gente tem uma epidemia de endividamento no Brasil. 80% das famílias estão endividadas. Esse é o maior número da série histórica.

Mas isso não é nem tão grave, como bem lembrou a Alessandra na reunião. Endividamento pode ser normal ou até saudável. A pessoa vai comprar uma casa, ela tem que se endividar. Isso não é necessariamente grave, endividamento. E esse número não seria grave se não fosse o número seguinte, que é 50% da população hoje está com o nome negativada. 50% da população adulta tem o nome negativado, está com o nome sujo.

E isso é muita coisa. E cresceu. Seria uma base. Em 2016, em 10 anos, era 39, que já era alto em comparação com o mundo. Mas hoje é bem mais alto. É 50%. É metade da população adulta. Pouco mais da metade, na verdade. Porque é 50,5%. Isso é muita coisa. E por que tem um assunto aqui? Porque, bom, não só é grave, a gente gosta de coisas graves.

Mas também porque é curioso, no sentido que o mercado de luxo, por exemplo, cresceu 30% em dois anos, nos últimos dois anos. O mercado de luxo. Em dois anos. Em dois anos. E, além disso, não só o mercado de luxo cresceu, o Brasil tem hoje uma inflação controlada, o Brasil tem um nível de desemprego baixíssimo, uns menores também da série histórica. E me segurem para eu não ficar falando horas bem do governo Lula aqui, que eu ficaria.

Como vocês sabem. O Brasil tem um presidente charmoso. Tem um presidente incrível. E jantou vocês numa entrevista no Diana.

Eu felizmente não fui para não presenciar. A gente já sabia, né? Um presidente que só marca golaços. Mas a verdade é que é conflitante, não é? É conflitante. Números, de modo geral, positivos. Inclusive coisas contraditórias, entre aspas, porque geralmente...

Uma inflação muito baixa não vem acompanhada de um desemprego baixo, normalmente até o contrário, pelo menos aquele mito da economia, de que o desemprego baixo, em geral, aumenta os preços de tudo, porque aumenta o valor da força de trabalho e tal. E o consumo. E a gente está tendo um desemprego baixo, uma inflação baixa, e ainda assim o endividamento alto, e ainda assim uma popularidade do incumbente, do presidente, baixa.

comparativamente com esses números. Então, o que está acontecendo? É a minha pergunta para vocês. Talvez começar com a Alessandra, que é a nossa economista, apesar de não parecer. Eu não sou, gente. Eu sou economista só de formação. Eu digo não parecer, porque ela é uma economista que se importa com a escola.

Porque você é da linha. Não é um comentário... De não parecer? Não, eu digo não parecer, que, de fato, os economistas, em geral, eles são aquilo que, os que eu conheço, a grande maioria, são aquilo que Maria Constituição Tavares chama de tecnocratas.

Eles se importam apenas com os números, não com a população. Você não parece economista por isso, porque você é economista política. Assim como, aliás, outras mulheres, a própria Conceição, mas também Laura Carvalho. Talvez seja uma característica das economistas mulheres. Das humoristas também. Eu ia falar humorista.

Mas fala para mim, Alessandra, o que está acontecendo? O que está acontecendo no Brasil hoje? O que está acontecendo no mundo? Que endividamento é esse? De onde é que você acha que vem? A gente sabe de onde vem. O grosso da dívida do brasileiro hoje, do brasileiro e da brasileira, e mais da brasileira, as mulheres estão mais inadimplentes, em todo caso, mais endividadas do que os homens, o que é um problema.

mas o grosso desse endividamento vem de cartão de crédito. Então, a gente não tem um processo de endividamento que é justamente puxado por esses processos de endividamento que visam construir patrimônio de longo prazo. Não é justamente financiamento imobiliário puxando o endividamento das famílias brasileiras, que se fosse, seria um pouco menos preocupante do que a realidade que temos hoje. Mas é cartão de crédito, então é dívida de curto prazo.

Não só o endividamento cresceu nos últimos 10 anos, esse crescimento que o Greg...

já trouxe de 39% para 50% da população adulta negativada, mas o tamanho dessa dívida também cresceu, quase dobrou, na verdade, em 10 anos, o tamanho médio da dívida das pessoas que estão negativadas. Então, mais pessoas estão devendo dinheiro e não conseguindo pagar.

e o dinheiro que elas estão devendo, elas estão devendo mais dinheiro. Então, essas duas coisas estão acontecendo. Tem algumas tendências, né? Desde a pandemia houve um agravamento muito grave, muito acelerado do processo de endividamento e de inadimplência. E aí os especialistas apontam para várias causas possíveis.

Vamos falar de juros altos, evidentemente. A gente estava com juros no início da pandemia, em 2020, em um patamar bastante baixo comparado ao que a gente está hoje. Houve um aumento paulatino dessa taxa de juros. Isso, obviamente, não ajuda. Mas também a introdução das bets.

E a proliferação desses esquemas, basicamente, de ganhar dinheiro rápido, que muitas vezes são ótimas maneiras de se perder dinheiro. As bets sozinhas são responsáveis por uma boa parte desse endividamento, e não só, mas também de tirar uma quantia considerável de dinheiro do comércio. Então, tem um processo muito grave mesmo, por causa dessas plataformas de aposta.

E o pano de fundo desse processo de endividamento, ele é mais, o que a gente chamaria de defensivo, mais do que aspiracional, sabe? Não é que as pessoas estão se endividando como uma estratégia para construir patrimônio futuro, mas é para se defender, basicamente, da impossibilidade de pagar as contas do mês mesmo. A gente tem, por exemplo, no Brasil, uma taxa muito elevada de pessoas que pagam supermercado parceladamente.

que é um péssimo sinal quando você está analisando uma economia. Se as pessoas estão pagando produtos de primeira necessidade, usando o cartão de crédito e parcelando, isso necessariamente é uma conta que não vai fechar, porque todo mês você vai precisar de novo daquele supermercado. Então, é um problema sério nesse sentido. Cerca de um terço dos brasileiros...

gastam mais do que eles ganham de forma regular. E metade dos brasileiros dizem que estão em estresse financeiro, o que é normal se a gente considerar que metade da população está negativada. Então é uma situação de insegurança financeira meio crônica. Aliás, esse aumento de 39% de negativados em 2016...

para 50% em 2026, uma coisa que é importante desse dado é que os mesmos 39% teve muito pouca mobilidade nessa base inicial, ou seja, as pessoas estão carregando essas dívidas há uma década e sem conseguir resolvê-las há uma década.

trágico. É. Agora é curioso, né? Desculpa. Não é bom. Não é bom. A categoria estresse financeiro eu adorei porque eu acho que não tem ninguém. Eu acho estranho gente que diga que não está sob estresse financeiro. Talvez já tenha desistido desse conceito. É, talvez já passou do estresse, já está no desalento financeiro. É. Bruno, você, o que você que não é economista, o que você... O que eu acho? O que você atribui disso? O que você acha disso tudo?

O que eu acho que é um índice, que eu não tenho a estatística, mas acho que ele é aferível para a nossa experiência, é que a gente tem 50% de pessoas com nome negativado, tem 80% de pessoas endividadas e tem 100% de pessoas ostentando. Acho que a gente falou, uma coisa que a gente quis falar desse assunto, não é para fazer uma análise econômica fria, é para fazer uma análise cultural do que está acontecendo.

E acho que tem um abismo muito grande que se formou, acho que nos últimos 10 anos, de maneira muito acentuada, ele vem de mais longe, com toda certeza, mas que é, não digo da grana, mas do status, da ostentação, dos símbolos de riqueza, da maneira como a gente consome, mas mais importante, faz a performance de um certo consumo, ele é muito antagônico com os índices econômicos que a gente está vendo aqui.

Acho que a relação das pessoas com o trabalho, com símbolos de riqueza, com a maneira como você projeta isso e com a forma como as pessoas estão buscando grana hoje, também mudou radicalmente dentro desse cenário de dívida fria, de ansiedade. Isso a gente não exibe. Isso está meio quieto no nosso psicológico. Ele não aparece nos índices macroeconômicos.

a nosso endividamento claro. Então isso explica muito a sua pergunta inicial. Por que o Lula não está tão bem se a gente está com pouco desemprego, inflação baixa? Por causa disso. Porque o emprego não está dando renda ou é suficiente para pagar a dívida. A gente está vivendo de uma maneira muito clara.

nos ecos inflacionários de muitas maneiras da pandemia, da impossibilidade de adquirir esses bens duradouros de endividamento positivo. Eu faço parte de uma geração de que gente mais jovem isso é muito pior, que é que a gente não tem muita perspectiva de comprar a casa própria sem...

Um golpe de sorte. E acho que essa ideia do golpe de sorte, de um atalho para conseguir grana, que está por trás de Bet, mas está por trás da mega popularização de mercado financeiro como algo, varejo, como algo que as pessoas entram. Eu acho que esse é um cenário mais interessante para a gente analisar hoje.

A gente falou no Clube de Cultura do Calma que esse mês é sobre o livro do Celso Rocha de Barros, PT, Uma História, que é do caralho o livro e é muito interessante ler hoje, porque ele faz uma história do partido, do PT, e do Lula também, consequentemente, mas além do Lula. É um pouco sobre o PT além do Lula. Mas tem alguns trechos muito interessantes.

para se discutir hoje, e a gente falou uma coisa no clube que eu acho que é interessante, que é o Lula sempre teve uma aposta que fazia sentido, nos anos 80, 90, e acho que 2000 também, de que o que o povo precisa, o que o povo aspira é a ter três refeições diárias.

Se ele tiver três refeições diárias e a certeza de que continuará tendo, ou seja, não basta ter hoje, mas eu sei que eu tenho até o final do mês, eu estou feliz, eu estou satisfeito. É a isso que eu aspiro e vou votar numa pessoa que me deu isso. Acho que o Lula tem uma frase muito simbólica disso. Ele fala que o pobre precisa de pouco. Ele falou essa frase? Algo bem parecido com isso. Ou ele precisa, ou ele se contenta, ou ele quer pouco. Então.

Que esse mínimo já é o suficiente para uma sociedade pacificada. Isso foi verdade. Mas isso já não é. Já não é. E eu não sei se isso tem a ver com redes sociais, com a venda de uma riqueza que está o tempo todo palpável, que você liga o celular e tem pessoas ostentando riqueza sem problema, ou de um capitalismo tardio, de uma hegemonia, talvez, ainda maior dos Estados Unidos e de um tipo de capitalismo muito selvagem.

Eu não sei com quem exatamente tem a ver, mas eu tenho a impressão de que já não é o bastante a certeza da comida na mesa, das refeições, e é necessário aspirar a uma riqueza que seja também ostentatória, se é que dá para dizer isso. Eu acho que mudou muito mesmo a relação com a grana. E eu chutaria que tem muito a ver com redes sociais, mas eu chutaria que as redes sociais...

te jogam num status relativo muito mais pobre. A gente se descobriu mais pobre por causa das redes sociais. A gente, eu digo, a pessoa, todo mundo, não necessariamente... Porque sempre vai ter alguém mais tipo que você no Instagram. Sempre alguém no Instagram, você vai dizer, ah, mas antigamente tinha a caras.

Mas, para começar, a pessoa tinha que comprar a caras, zoeira um dentista que tivesse a caras. Depois, até na caras, a riqueza era mediada e as pessoas tendiam, a não ser o Cid Moreira, que tem um ensaio clássico na banheira, quem não viveu nos anos 90 não sabe, as pessoas tendiam a não mostrar.

a casa e elas tendiam a ir para a Ilha de Caras e tal, mas para não justamente... Não era tão claro e ostentatório a riqueza na Caras, que era uma revista feita só para isso. As pessoas disfarçavam, os artistas iam para Caras para divulgar a peça, mas não era tão claramente assim. Olha o que eu tenho. Não tinha foto na executiva. Aliás, um dado muito louco, que eu não sabia disso, que a executiva e as tarifas prêmios cresceram, quase dobrou entre 2023 e 2024.

Os assentos em classe premium, que são executivos em primeira classe. Agora tem a sala VIP da sala VIP. O BTG Pactual inaugurou um terminal VIP em Guarulhos. Um terminal inteiro no qual você vai para o avião num carro Volvo, em vez de ser naquele ônibuzinho. Tem uma sala de embarque com uma suíte privativa. E tudo isso com o slogan singelo de um aeroporto só para você.

Um aeroporto. Um aeroporto. Não basta mais um avião só para você. Mas a gente está falando de duas coisas, um pouco na linha que o Bruno foi. A gente está falando, ao mesmo tempo, de um processo de agravamento do endividamento dos brasileiros, de mais inadimplência, de mais endividamento puxado por esse endividamento defensivo, que a gente chama, que é para, basicamente, fazer as contas, fecharem no fim do mês.

e de uma obsessão, que a gente percebe muito mais na corrente cultural, no Instagram, nas redes sociais, etc., com a ostentação, mas que vai se traduzindo no produto ostentação. Então, tem a obsessão cultural, mas tem também como as empresas e como o capitalismo vai se adaptando à necessidade de ostentação, que é isso, com a criação de cada vez mais subcategorias do premium. Então, você tem a econômica, a econômica premium, a econômica premium plus, a business básica, a business não sei o quê, a sala VIP da sala VIP.

que é uma maneira de você ter sempre uma forma, primeiro, de se distanciar de alguém que está um pouquinho pior do que você, mas também de sempre achar que você não está exatamente no topo ainda. Então, você tem uma subcategorização dos produtos de consumo que atinge muitos dos produtos de consumo. A gente está falando de avião, mas tem coisas mais singelas. Quando você pega um Uber, você tem o Black, o Comfort, o sei lá o quê, o Pop, nem sei mais os nomes, mas você tem uma série de categorias. Então...

A experiência de consumo mesmo, hoje, é uma experiência de se confrontar o tempo todo, até em ambientes de consumo que eram mais universalistas na sua proposta de consumo, com a possibilidade de que tenha alguém melhor do que você, ou que está se dando melhor, ou que está tendo um acesso mais rápido. Então, você está sempre um pouco em defasagem em relação a alguém. Não só naquilo que você ostenta, mas em como você se movimenta pelo mundo mesmo.

A gourmetização também é um fenômeno que eu acho que acompanha isso. Com certeza. Que até os botequins têm uma gourmetização da não é mais a coxinha, é a coxinha com medo da coisa que ganhou, o comida de boteco de 2022. Você tem uma gourmetização de coisas que normalmente eram populares, eu acho que tem um pouco a ver também com isso. E as marcas importadas também têm. A Alessandra mostrou um perfil apavorante do Instagram, que é um cara que fica só falando se a coisa é de rico ou de não rico.

Mas isso é uma tendência no Instagram, no mundo todo. Mas o brasileiro é especialmente obcecado com conteúdo sobre dinheiro no Instagram. É o tipo de conteúdo que gera mais engajamento no Instagram brasileiro. Mais do que economia, mais do que política, mais do que entretenimento. É dinheiro. Esse é o assunto do Instagram. E tem toda uma trend que eu acho...

especialmente interessante para a gente discutir aqui, que é essa da avaliação dos códigos dos ricos. Porque associada a essa política ostentatória ou a cultura da ostentação, tem também uma enorme curiosidade e uma enorme insegurança em relação a essa ostentação.

que é o será que eu estou ostentando certo? Será que o tipo de sinalização externa que eu estou dando de fato me qualifica como alguém que pertence a essa classe social a qual eu aspiro? Então, eu não quero só ostentar, eu quero saber se o tipo de ostentação que eu estou tendo é o tipo de ostentação correta.

E como existe, claro, de fato, isso é Bourdieu, é análise sociológica muito clássica, existem, de fato, códigos que separam as classes para além do dinheiro, não é só ter dinheiro, é toda uma criação do referencial estético, da maneira de consumir, etc. Isso gera uma tremenda insegurança, porque não basta só eu projetar a riqueza, eu preciso projetar a riqueza certa.

Sobre a palavra exclusiva, o Bruno teve um insight que eu achei muito inteligente. A ideia da exclusividade como algo positivo é algo recente, não é? É, eu acho que ela é vendida como algo... Mas ela virou um valor absoluto como uma coisa...

E é louco, porque é aspirado por todos. A exclusão do outro. A exclusão é uma coisa que todo mundo quer. O que você quer é o exclusivo. O inclusivo nem existe como palavra. Inclusivo pra caramba. Não, existe. Inclusivo, mas inclusivo em geral é a PCDs. É. É algo que você... O inclusivo não é aspiracional. Não é aspiracional. Ninguém fala assim, ah, eu queria muito numa balada inclusiva. Inclusivo ele vai ser uma coisa do canal futuro. Inclusive é um direito. É.

O inclusivo vai ser vendido como algo... Meio chato. É, meio tem que ter, porque é inclusão, deixa eu falar. Agora, o exclusivo é sexy. O exclusivo é sexy. Muito mais que o inclusivo. E ele é feito pra exibir pra quem tá fora.

Ele não é feito para uma satisfação pessoal pura. Ele é performático também. É isso que eu acho interessante. Eu me lembro de uma vez que caiu essa ficha para mim, muito claro, porque tem muitos exemplos disso o dia todo. Mas ouvindo uma rádio na Roça, uma rádio bem popular, lá onde eu moro, os caras assim...

no final de semana, o festão com Bruno e Marrone. E você vai concorrer a um ingresso para a área VIP para você fazer aquela selfie.

Então, não era pra ver o show de perto, vai ter bebida grátis, você vai conhecer o artista. Não, você vai estar numa área exclusiva pra falar pros seus amigos que você tava lá e eles estão fora. Quem é jornalista é cultural há uns 20 anos, tem um termo que foi tido como uma grande perda.

para o jornalismo ecultural, porque a gente não tem a monocultura mais, que é o que a novela representava, que é o que... Hoje, meio que tem um Big Brother, o máximo de monocultura que tem hoje em dia, mas que são produtos eculturais que a sociedade inteira vê e discute e se orienta.

E a internet fragmentou a monocultura. Isso é muito conhecido. As músicas são todas nichos. E mesmo que seja de massa, são nichos de massa. Mas pensando sobre exclusividade, sobre rede social, eu acho que a nova monocultura é a ostentação. A nova monocultura é o status. E eu não acho que tenha a ver com grana, exatamente. Não é dinheiro o ponto. O ponto é a performance de status um pouco acima.

ou muito acima do que a pessoa tem de fato. Então não se trata, eu acho, das pessoas estarem buscando terem mais grana no bolso. Mas eu acho que é simplesmente fazer um outro tipo de jogo, que é um tipo de cultura, é performática, mas que é cultura mesmo, que é uma linguagem que está sendo estabelecida, especialmente quando a gente vai para uma cultura audiovisual. E aí tem uma coisa que acho que é...

É um paradoxo da exclusividade. Que assim, todo mundo almeja a exclusividade, ele é um adjetivo que é vendido em condomínio, em festa, em área VIP, em pulseirinha, em restaurante, acesso. Mas que o que era antigamente luxo, onde tinha esse capital que você fala, capital é cultural, que as pessoas não têm... Ele era, por definição, exclusivo, porque ele era privado.

ele não era massificado na monocultura. Ele era a coisa mais nichada possível, era o conhecimento das marcas certas, dos preços que as coisas têm, da imagem do que uma classe executiva é, do que uma área VIP é. E o fato de a gente ter criado uma massificação da imagem e da experiência exclusiva, ela incluiu todo mundo.

No mesmo é desejo de exclusividade. Então, é um curto-circuito mesmo que se dá nisso. E eu acho que não é só sobre grana. Mas um lado disso, que eu acho que tem a ver aí sim com uma questão mais econômica e barra ambiental até, que é...

Vem junto em uma época em que a gente não consegue mais ter um imóvel, fazer compras de longo prazo, dívidas que viram patrimônios, mas também vem em uma época em que o trabalho não é mais estável, que o trabalho é precarizado para bem além do Uber.

Todo mundo é frila, é PJ, você sabe que não vai ficar 20 anos no mesmo lugar. O aumento é salarial e a promoção não é uma ladeira com ângulo baixo. São coisas que acontecem, são golpes de sorte, são relacionamentos que você estabelece.

Mas acho que tem uma outra coisa, que é a ideia de que o futuro está meio cancelado. Essa ideia de que se preparar para um futuro muito longo é inviável porque não tem sobra no seu salário, porque o imóvel é muito caro, porque o seu emprego não é certo, mas o futuro é muito nebuloso. Então, na minha geração, isso meio que começou. Eu sinto que a gente ganhava mal...

mas começou a ter mais a despesa com restaurante do que com poupança, sabe? Começou a comer comida japonesa, entendeu? Com 25 anos de idade. Uma coisa que não faz muito sentido. Mas, Bruno, sobre esse dado do cancelamento do futuro, tem um dado interessante desse que a gente estava falando, do endividamento das famílias, de como isso mudou desde a pandemia, que eu achei relevante, que é...

O grupo etário que mais se endividou desde a pandemia, que teve um crescimento maior da inadimplência especificamente, que é a dívida que você não está conseguindo pagar, são os idosos, 60 a mais.

que é muito doido, porque justamente é uma parcela da população que deveria estar no final da sua curva de construção de algum tipo de patrimônio, algum tipo de segurança, e que foram muito afetados. Bom, aí tem todos os fatores da pandemia, é um setor especialmente também afetado por esses esquemas de...

de golpe essencialmente, de basicamente aplicar uma ideia de que você vai ganhar dinheiro rápido que não é verdade, é muito, muito, muito vítima de crédito predatório.

da explosão dos consignados, de você botar o crédito direto na aposentadoria ou direto no contra-cheque. Então, tem milhões de fatores. Mas é interessante, o crescimento da dívida entre os jovens teve um crescimento de 11%. Entre os idosos, teve um crescimento de 60% desde a pandemia. É uma loucura. É um crescimento muito expressivo mesmo. E eu me pergunto se essas duas coisas não têm um pouco de... Justamente, de diálogo entre elas. Porque a cultura da ostentação de Instagram...

Ela não é uma cultura dos idosos brasileiros, ela é uma cultura jovem, sobretudo. E a estética clássica é um menino jovem com uma roupinha assim, meio uma blusinha toda botuadinha, falando, vou te ensinar como você vai ter dinheiro tipo old money.

Você tem que ter esse... Enfim, você sabe melhor do que eu, Bruno, que você é obcecado com a trend do Old Money, que é parecida com a trend que a gente estava falando antes, isso aqui é coisa de rico, isso aqui é coisa de pobre. Que é um pouco sinalizar conhecimento dos códigos dos ricos. E é muito jovem e muito masculino como tendência. Tem uma outra tendência da relação meio maluca com o dinheiro, que é a mais feminina, que a gente pode falar já já.

Mas é jovem. E eu me pergunto quanto que esse jovem não está vendo seu pai, seu avô, sua avó que trabalharam a vida toda chegando na fase em que essas pessoas deveriam estar se aposentando, ter direito a algum tipo de descanso, ter direito a algum tipo de...

momento para aproveitar os frutos do seu trabalho, e estão endividados, inadimplentes, sem conseguir viver com uma aposentadoria que foi muito, muito espremida, com um sistema previdenciário que não dá conta, com um sistema de saúde muito sucateado, gastando uma boa parte da sua renda em plano de saúde. É isso que eu ia falar.

Então, a gente tem realmente uma tragédia no fim da vida, ou na terceira idade, que não é necessariamente o fim da vida, mas, enfim, que de alguma forma vai afetando os horizontes de futuro e de perspectiva de quem está no início da sua vida adulta.

E eu acho muito cruel. E eu entendo que, de alguma forma muito perversa, isso vai gerando duas coisas. Uma obsessão com ganhar dinheiro rápido, com a ideia de que a aposentadoria não pode ser uma coisa que eu vou construir ao longo da minha vida produtiva, porque eu não posso contar com isso. Então, na verdade, o que eu preciso fazer é acumular o suficiente no início da minha vida produtiva para, se tudo quebrar depois, eu estar salvo. Então, é um pouco parecido com os...

Os sobrevivencialistas, assim, tem uma lógica meio prépera, de se preparar para o apocalipse, para você se salvar, só que é um apocalipse meio abstrato, e aí você precisa acumular dinheiro para lidar com aquele cataclisma que virá. E tem uma outra coisa que é mais de adonismo mesmo, que não é nem tanto eu preciso ganhar muito dinheiro jovem e sinalizar que eu estou ganhando, etc., mas eu preciso aproveitar a minha vida agora, porque não tem uma perspectiva...

depois disso, do meu esforço de alguma forma a ser recompensado. O esforço não é muito parte desse cálculo. Não é. Tem um desuso dessa ideia do esforço, porque, de fato, a gente não é uma sociedade que compensa o trabalho duro e o esforço. Não há possibilidade de ascensão. E tem um outro dado que você falou.

Por algo que a gente tinha que lembrar, que é o fato de que mudou-se radicalmente a percepção do que é você ter um trabalho estável. Sim. Na minha juventude, CLT era aspiracional, sonhava ser CLT. O cara conseguiu emprego com CLT. Era bom, concurso público nem se fala. Eu vi, inclusive, até alguns estudos sacrificarem muitas coisas que a profissão gostava, ou por uma CLT ou por um concurso. Era algo aspiracional.

a estabilidade de uma CLT hoje é um xingamento. Os jovens falam, se cala a boca, CLT. Era assim, fala, olha, lá vem o CLT para dizer uma pessoa que é pobre ou que não aspira, que não sonha. Tem o quê de conformista? Tem o quê de falta de ambição? É um derrotado.

Isso muda radicalmente o tabuleiro político, no sentido do eleitor. O eleitor que sonha em CLT é um tipo de eleitor. O eleitor que despreza quem é CLT é um outro tipo de eleitor radicalmente diferente. E o PT, eu não tenho dúvidas que ele não sabe falar com esse eleitor.

Não sabem nem se sabem que existe esse eleitor. Se existe essa cultura de que a CLT é isso, é ruim, ela não é desejável. Mas isso é algo que mudou radicalmente. Inclusive tem músicas. Músicas já falam disso. Como é que é? Quem vai para a BC? É, vou descer para a BC.

Vou descer para BC, é Balneário Camboriú. Não, foi uma paródia, porque eu não sou CLT. Eu não vou descer para BC, porque eu sou CLT, teve essa também. Ou seja, quem vai para BC, é porque não, quem vai para Balneário Camboriú, é porque não é CLT. Porque só quem vai, quem pode, ou seja, é um desprezo pela CLT, que para mim era uma vaca sagrada, assim, brasileira, eu achei que era uma coisa eterna, sabe, e não é, não é.

Não, não é. E acho que vai além disso, né? Eu acho que a gente está falando muito de performance para fora, né? De uma auto-exposição e tal. E acho que uma coisa muito importante nisso é o quanto que o trabalho da pessoa não é mais o centro da identidade dela. Sim.

O trabalho referencia muito mais do que a estabilidade financeira. Ele era uma identidade, era uma forma de apresentação, era social, era uma maneira como você construía laços sociais, grupos de amizade, onde você conhecia muito provavelmente o seu parceiro para casar e tudo mais. E acho que houve uma mudança muito radical com uma sociabilidade radicalmente nova que a gente viveu nos últimos tempos e que, novamente, não é só de jovem.

É uma coisa que a sociedade inteira foi colocada nisso, e é esse espelho diário que a gente fica vendo, que acho que não é só rede social, como a gente falou bem, tem índices econômicos, tem o estado do próprio capitalismo, tem o mercado financeiro, que a gente vai precisar falar hoje, e é também disso.

que vai construindo um grande caldo, mas a formação de uma identidade digital ou performática, não cabe muito uma identidade trabalhadora nela ou da sua profissão como algo que vai te definir. E aí, eu acho que tem um lado...

Eu queria só trazer esse outro elemento, que eu sinto que tem uma pista junto nessa galáxia de coisas que fazem essa cultura de ostentação nova. Mas que, especialmente a questão masculina, que a Leia estava colocando, muito do tipo de renda que a gente associa com esse novo cenário, que é Bete...

ou day trade, ou uma obsessão com certos códigos de riqueza para você fingir que é uma coisa, para você ter mais acesso ao mundo que vai te aceitar e aí sim te pagar bem e tudo mais, é uma coisa bastante masculina. E eu sinto que tem uma pista aí que tem a ver com a cultura...

de uma geração jovem, que Jorge não é mais tão jovem, mas que foi forjada na infância, na adolescência, com os games. Porque, se você for ver, tem uma gamificação muito forte da relação das pessoas com dinheiro, com profissão e com a performance. Tem o que, da maneira como esses aplicativos ou como essas oportunidades são apresentadas, elas têm uma estrutura muito mais de game e...

do que de uma profissão ou de um trabalho produtivo ou de algo que faz parte de um mercado, pura e simplesmente. Sim. Porque a relação que você estabelece com aquela grana é uma relação numérica de índice, de energia, de porcentagens, de gráficos.

com os mesmos ícones gráficos de videogame, com barulhinho, com o mesmo esquema de cor e com a mesma dinâmica de produção de resultado muito rápido. Sem dúvida. Porque videogame não é o tipo de coisa que você joga por anos. Você tem uma missão, você cumpre, você cresce muito rápido, você desenvolve algo, você perde tudo muito rápido, você ganha tudo muito rápido, tem macete.

Tem atalho. Tem fases. Tem fases. O Uber é basicamente isso. Inclusive com as tarifas dinâmicas, que fazem com que o trabalhador esteja querendo ir para casa, mas daí a gente pipoca uma tarifa dinâmica ali para ele. E ele é um game. Opa, pipocou. Não vou perder essa sorte que apareceu aqui. O Uber tem vários dispositivos no aplicativo que são de gamificação. E não só o Uber. O iFood, todo trabalho por aplicativo, entrega também. Gamifica. E você vê lá, não sei se já viram, tem um... Não, não, não.

no aplicativo do Uber, tem ali quanto dinheiro a pessoa fez hoje. Está sempre ali. Uma vez eu já tomei um susto, porque aparece quanto está a corrida. Porque aparece 230 reais, fala, caralho, tudo isso. Não, não, isso aqui é quanto eu fiz. Que é para a pessoa estabelecer, volta e meia, a meta do quanto ela precisa fazer, porque ela tem que alugar o carro. Então tem mil jogos e contas que você obriga o trabalhador a fazer e que faz com que... São variáveis...

São variáveis típicas de jogo. De jogo. Isso vale também para uma variante do jogo mais clara ainda, que é o day trade. A gente fala muito de bet, que aí é um jogo... Bet não precisa nem explicar que é gamificada completamente. É um jogo, de fato. É um jogo, de fato. Mas é um jogo no qual você aposta a tua vida, né? No jogo você tem vidas, mas se você morre no jogo, você não morre na vida real. Se você morre na bet, você pode, sim.

Inclusive, já há uma relação entre suicídios e... Sim, crise de saúde mental. E endividamento. Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val

E logo entre suicídios e bet. Ou seja, você que faz propaganda de bet, você pode estar, sim, gerando suicídios e acabando com famílias ao seu lado. Só lembrando disso. Lembrando, como disse... Só para você dormir bem hoje. Para elogiar a Luana Piovani aqui. Luana Piovani... Todo dia é dia. Todo dia é dia de elogiar a Luana Piovani. Gente, a Luana Piovani, ela está banhada de lucidez de uma maneira que é...

E ela falou uma coisa para a Virgínia que foi espetacular. Porque o que ela falou para a Virgínia foi, dentro da linguagem teocrática da Virgínia, eu ia falar teológica, mas teocrática mesmo, na qual Deus está unipresente, é a única verdade da vida, ele falou assim, esse dinheiro é endemoniado. Esse dinheiro que você está usando é endemoniado. E ele vai acabar não só você, como com seus filhos. Eu acho que eu não precisava dos filhos.

Foi uma coisa grega, assim, sabe? Eu não entendo. Os átridas. Mas assim, pensando taticamente, põe os filhos no meio, você perde metade da internet. Mas quem bota os filhos no meio é a Virginia. É verdade, eu sei. Ela foi na CPI das Betis com a foto da filha da camisa.

Sabe, então assim, foi a Virginia que botou os filhos dentro dessa maldição. E a Luciana, a Luciana, a Luana, ela está lembrando, a Virginia, a Luana está lembrando a Virginia assim, você botou seus filhos num negócio que é do demônio, você sabia disso? E está certo, porque se tem algo próximo do demônio encarnado hoje, são as Betes. Não exagiram. E é verdade, no sentido de que...

O conteúdo de criança gera engajamento. E lá no Pico do Tigrinho, que hoje essas influências muito grandes já não estão fazendo o Tigrinho exatamente. O Leãozinho. Agora estão no...

No ursinho. Mas no Pico do Tigrinho, toda a lógica de engajamento era literalmente você criar muito conteúdo que traz engajamento para o perfil e aí você faz uma propaganda de tigrinho no meio daquela onda e você aproveita, portanto, o engajamento que veio dos outros conteúdos. Então, se você usa as crianças como parte recorrente da sua estratégia de engajamento em rede social e no meio disso você tem propaganda de tigrinho, você está realmente, literalmente, transformando seus filhos em uma ferramenta para vender.

tigrinho. Tigrinho. É, e pra levar um percentual das perdas das pessoas que apostam a partir do link que você divulga, que também era parte do contrato da legislação especificamente. E tu tá usando seus filhos, tu tá usando crianças...

para lucrar em cima da perda dos seus seguidores. A minha profecia teocrática louca não é nem que vai resbalar nos filhos, mas eu adoraria ver a vingança desses filhos um dia. Eu torço, na verdade, pela treta futura. Eu torço para elas processarem a mãe, falarem que quer tudo o que você ganhou com juros e correção monetária.

que você ganhou em cima de mim, entendeu? Esse negócio aí vai ser muito bom. Inclusive, acho que a gente já tem que começar a trabalhar no fundo de defesa dos filhos das influentes que vendem batch. Porque, obviamente, elas não vão deixar eles acessarem os advogados. A gente precisa fazer a gente uma vaquinha.

Pra pagar... A gente? É. Mentira dessa. Vai valer a pena. É. Pra os filhos da Virgínia. E depois eles vão usar os ganhos pra financiar a revolução. Essa é a minha maldição. Aham.

É a revolução comunista financiada pela nova geração de mini-influz. Eu vou escrever esse roteiro. Eu só não daria dinheiro, mas eu concordo com você. Eu rogo essa praga junto, mas é só aí. A minha praga é boa. Mas eu queria lembrar aqui de algo que é... A gente falou de Deus. Existe uma relação.

Existe uma relação direta mesmo entre essa cultura da ostentação e uma nova religiosidade. Não à toa o PT foi criado com as comunidades eclesiásticas de base, ou seja, dentro do seio da religião católica, na verdade, no seio não, nas margens, nas franjas da religião católica, porque foi graças à ordenação justamente...

aos leigos, aos irmãos leigos, aos freis, não eram padres. Sim, mas a Igreja Católica, exatamente para ter mais capilaridade, liberou e incentivou que pessoas não ordenadas, freis, pregassem, embora não missas, mas que eles tivessem comunidades e tal, eclesiastes de base. E nessa política também ela foi entrando, e o PT se fortaleceu muito dessa capilaridade da Igreja Católica e da possibilidade que leigos professassem a fé e tal.

Então, dito isso, a gente teve de 78, 80, que foi esse início do PT, para cá, uma mudança no perfil religioso brasileiro. E isso não foi por acaso, foi um projeto político, norte-americano, na verdade, estadunidense, como bem comprovou Alessandro Orofino e Petra Costa no seu maravilhoso filme Apocalipse nos Trópicos. Muito obrigada pelo Jabá. Existiu um projeto de Estado americano, norte-americano, de difundir a...

fé com muitas aspas deles, porque ali era um projeto de Estado, então ia além da fé o projeto, não era só teológico, ele era mesmo um projeto político e também empresarial, e difundir essa teologia da prosperidade no Brasil, muito bem sucedido. E foi exatamente de 1980 para cá que isso mudou radicalmente a proporção...

de católicos e de evangélicos no Brasil. Os evangélicos que eram minoria, hoje são maioria. Dentre os evangélicos, claro, não são maioria, mas está quase. Não, mas são politicamente mais homogêneos do que os católicos. São mais homogêneos, são a maior força política organizada desse país. E você tem, dentro dos evangélicos, uma imensa maioria de evangélicos neopentecostais, que são de uma tradição, de uma teologia justamente da prosperidade. Isso informa uma outra relação com o dinheiro.

uma outra relação com o dinheiro. Porque o católico tem uma relação com o dinheiro muito diferente da teologia da prosperidade. O dinheiro para o católico existe uma moral... A ostentação média. No Vaticano? O que é o Vaticano? É uma grande ostentação. Tem muita ostentação. Mas também tem uma tradição franciscana. E tem uma tradição, sobretudo, que o dinheiro é mau. Ele é algo que... A César o que é de César. O dinheiro é vio. Durante muito tempo, a usura...

A usura era um dos pecados? Foi proibida. A igreja católica tinha essa tradição. Eu nunca achei que eu fosse defender a igreja católica pra você, Alessandra. Pois é, não é? Tomamos nessa inversão. Mas a verdade é que a igreja católica tinha... A única coisa que eles tinham de bom é que tinha um anticapitalismo.

era hegemônico na igreja, cultural na igreja. Acho que a grande diferença, na verdade... Mas acho que, de qualquer forma, independentemente da relação com a igreja católica, que é notório, sim, na estética da ostentação hoje, é...

como muitas vezes ela vem aliada a uma ideia de que a ostentação é boa, não só porque ela sinaliza o pertencimento de classe, ela sinaliza que você venceu na vida, que você é um vencedor, que você conseguiu, que você chegou lá, mas ela também sinaliza que você é abençoado. É o ter dinheiro também como prova de que você tem uma relação estreita, pessoal e maravilhosa com Deus.

E isso, de fato, é novo. Pelo menos como fenômeno cultural é novo. Isso é calvinista, mas ela é nova no Brasil. A ideia de que Deus se manifesta pelo dinheiro é algo que a gente vê muito presente nas redes. E que, para mim, é uma loucura total. Deus se manifestar por um pix, é uma coisa assim. Mas até a visão... Mas mesmo o calvinismo achava isso, mas ele não ostentava. Não era ostentatório. Eles eram mais sóbrios do que a igreja católica. Sem dúvida.

Parte da reforma que eles fizeram era uma para achar uma teologia mais compatível com a burguesia nos seus estados iniciais, mas também era porque a igreja católica era ostentadora. Ela era ofensiva no seu luxo, no seu ouro, nos seus veludos, na sua linguagem. Eles tentaram fazer uma coisa um pouco mais assim e fizeram uma associação com uma classe emergente na época. Mas o que eu acho que os católicos têm de...

diferente e de, entre aspas, muito positivo nessa cultura é que o católico tem culpa. Mesmo que o católico seja ultra rico, mas a ostentação tem algo... Noite ele chora por ter tanto dinheiro. Tem algo feio, tem algo errado, tem algo pecaminoso. Nem que chora, mas faz parte da culpa, seja ela sincera ou performática.

É porque existe aquilo que a gente chama de moral do ressentimento. Existe uma moral do mártir. Tanto é que Jesus, o ídolo maior, foi alguém que não morreu rico, Jesus. Ele ostenta como?

Talvez na vida é privada para os amigos dele, com as obras de arte, com o ouro dele, mas para a rua, ele ostenta com obras de caridade, com filantropia, com a generosidade. Ele dá dinheiro. Porque isso tem a ver com a culpa, com a expiação, com a materialização.

do excesso dele dado para os mais pobres. Eu acho que a perda da culpa, não certo, não é o pentecostalismo, mas que não é uma teologia exclusiva evangélica, mas é uma teologia do capitalismo de hoje em dia, e que é uma cultura mais importante do que isso, onde a culpa por ter dinheiro ou a...

A descrição é tida como uma virtude falsa, como algo hipócrita, como algo que está estragando a festa, como algo que é feio de você apontar que é feio. Isso mudou completamente. E acho que a ostentação... É isso que eu quero dizer.

Não sei se define bem, mas eu acho que ela virou uma linguagem em si. Sim. Porque ela é feita até porque não ostenta a riqueza em si, mas ostenta outras coisas. Sim. Tem algo de um exibicionismo, de uma valorização que você dá, mas busca uma aprovação. Narcisismo mesmo.

E mais importante, que acho que é diferente, nem admiração, nada, você busca uma certa inveja das outras pessoas, que é uma linguagem muito contemporânea e que a ausência da culpa e da vergonha e da autoconsciência ela cria uma bola de neve infinita, que vai chegando em paroxismo como a Virginia, por exemplo. A gente falou de masculinidade e rapidamente pulou pra Virginia que não é um homem.

E tem um acontecimento dessa semana que eu acho que é interessante também nessa discussão sobre a relação com o dinheiro. O que o dinheiro significa de fato? Como ele está significando talvez mais coisas hoje do que ele já significou no passado, em termos de capital simbólico? Que é o show da Shakira. Podemos falar do show da Shakira? Sim.

Cara, Alessandra, ela já brigou com o Lula, claro, irritou os fãs do Lula. Irritou os fãs de Bad Bunny, agora ela quer brincar com a Shakira, vamos lá. Eu sou fã do Bad Bunny e sou fã da Shakira, muito fã. Porém, depois não fala pra gente assim, gente, não sabia que a Shakira tinha tantos fãs. Minha filha não sabia dos meus planos e resolveu passar maluco. Mas fala que você, na verdade você tem toda a razão que você falou.

vários elementos, né? Tem várias coisas do show da Shakira que são interessantes de se analisar. Um é, todos esses shows no Rio de Janeiro, esses mega shows que estão acontecendo, eles têm áreas VIPs, que são a personificação disso que a gente... A personificação não porque não são pessoas, mas são a materialização...

dessa tendência que a gente está descrevendo. O aumento da área VIP. Gente, é uma área VIP para 10 mil pessoas. Tem 10 mil VIPs e, na verdade, tem 10 mil VIPs que, de fato, vem no show, porque ocupa absolutamente toda a área em volta do palco, e todo o resto das pessoas está relegado a um segundo plano que não é um pouco pior. É muito pior. É muito mais distante, é outra experiência mesmo.

Não é a área VIP como um espaço ali para, sei lá, meia dúzia de autoridades que vêm com segurança, que precisam de um esquema muito diferente, porque senão você não consegue estar ali. De fato, existe uma delicadeza de você ter um show que é na praia, que é aberto, que é para todo mundo, e ao mesmo tempo você ter, talvez...

Seria defensável, talvez, uma coisa muito pequena para pessoas que, de fato, têm uma necessidade, sobretudo, de segurança e de... E ao lado, como era antigamente. Em geral, ao lado, exatamente. Porque não é sobre você ter o melhor lugar para assistir o show. É sobre você ter um perímetro adequado para um certo tipo de pessoa que precisa estar ali por alguma razão e que tem necessidades específicas por causa do seu cargo, do seu lugar.

Tá, ok. Não é isso. É uma coisa que ocupa toda a frente do show, que é gigantesca, que joga as pessoas para trás.

que é usada pelos patrocinadores também como uma moeda de troca, que é um grande estúdio de selfie, porque é pensado dessa maneira, e todas as ativações de marcas, as marcas patrocinam não só o show, mas você tem patrocinadores específicos da área VIP.

Porque patrocinar a área VIP traz também um retorno de marca muito maior, porque é um investimento menor do que patrocinar o show, e você vai estar num lugar onde essas pessoas com muitos seguidores e muito poder de influência vão estar tirando as suas selfies. Então você conta com um exército de reprodutores da sua marca que estão ali fazendo esse trabalho, que é um trabalho, simplesmente pelo acesso à área VIP, o que já é muito deprimente, porque eu acho que é vender a sua capacidade de reprodução de mídia por muito pouco. Mas em todo caso...

Tem isso. Então, esse é um elemento do dinheiro ali, né? E aí, obviamente, vai ter a VIP da VIP, porque é uma área VIP de 10 mil pessoas, não vai atender justamente a essa pessoa que tem uma necessidade de segurança de sei lá o quê, porque não dá com 10 mil pessoas. Então, você vai ter o VIPão e o VIPinho e todas as... E o que isso sinaliza em termos de status e uma presença na área VIP, inclusive, assim, para autoridades, para pessoas que talvez até estivessem lá, mas que deveriam estar com muita vergonha de estar lá, que não deveriam estar tirando foto lá.

E que não, ao contrário, vão exibir esse acesso como um pouco na lógica de Deus me abençoou. Isso é a prova de que é um recibo de poder. E, portanto, precisa ser mostrado como recibo de poder. Quando é, na verdade, a coisa mais antirrepublicana possível, num show que foi financiado com dinheiro majoritariamente público. Então, se você é sobretudo no campo de esquerda, isso deveria ser uma coisa ou que você não vai, ou se você vai por uma obrigação profissional, por alguma razão, você esconde.

certamente não deveria ser razão para você... Ostentar. Ostentar. Então, isso é a primeira coisa. Depois, tem uma outra coisa do momento específico que a Shakira está vivendo, que eu acho que é interessante como análise da linguagem de uma estrela pop.

É que é diferente do tipo de ostentação de dinheiro dos machos, da coisa da manosfera, da insegurança com o dinheiro do homem, que entende que o dinheiro é uma maneira de atrair e que se você não tem dinheiro, você é menos desejável como homem. Tem toda uma discussão sobre masculinidade e dinheiro, que eu acho fascinante e que tem muitas implicações.

No lado mais das mulheres, o que eu tenho observado é que, claro, para uma geração inteira, uma geração não, para muitas gerações de mulheres, não ter um homem ao seu lado era uma quase certeza de ruína financeira, numa sociedade patriarcal.

em que o acesso a crédito, em que o acesso a todas as estruturas, ao próprio sistema bancário, ao emprego formal, etc., eram coisas reservadas aos homens, se você se divorcia ou se você é abandonada pelo seu parceiro ou parceira, se você tem um filho sozinha, não sozinha porque ninguém faz filho sozinha, mas o cara some, se isso acontece, isso é uma certeza de ruína financeira.

Isso muda, claro, para muitas mulheres, não para todas, mas para muitas mulheres isso vai mudando com a inserção da mulher no mercado de trabalho formal, com o acesso a crédito, etc. Então, isso tem uma mudança de fato. E aí, a Shakira, ela, de alguma forma, depois do divórcio do Piquet e essa...

Essa turnê dela agora é a turnê em que ela está falando desse divórcio como o tema principal, talvez, das novas músicas, dos novos hits, etc. O fato de ela foi traída, que é também, né, com uma mulher... Ele troca ela por uma mulher muito mais jovem. Todos os clichês de uma masculinidade terrível.

E ela vai falar, não, mas eu não vou me deixar bater, eu não vou ficar num papel de vítima, eu vou ser uma vencedora aqui. O que é, por um lado, muito subversivo e muito saudável. E eu acho que é isso que ecoa e que gera um processo de identificação com muitas outras mulheres que olham pra isso e falam, tá certa. O cara foi lá, traiu, foi um escroto, babaca, e ela não tá falando, ai, vou sofrer por esse homem. Ela tá falando, eu vou sair daqui ganhando, e ganhando dinheiro. Então, tem um tanto que é de independência financeira, que é de empoderamento,

Mas, ao mesmo tempo, tem dois elementos aí, que é, não é só um ganhar dinheiro, é também um ostentar. Várias das músicas vão falar de um tipo de gasto, que não é só assim, eu tenho minha independência financeira. Eu consigo criar meus filhos sozinha, eu não preciso de um homem para estar bem. Mas é também sobre o hotel e a praia e o drink, é a bebida que pisca. Então, flerta com um lugar que é ostentatório.

E existe uma ponte que ela cria, que ela cria explicitamente no show, e que eu acho que ela só poderia ser criada em 2026 sem gerar um tipo de revolta das próprias, das fãs. Que é, em dado momento do show, ela fala, o Brasil tem 20 milhões de mães solo. Ela fala mãe solteira, mas na verdade o dado é mãe solo mesmo, que é diferente de mãe solteira, para deixar claro. Ela quer falar isso.

E ela diz que tem 20 milhões de mães solo, que vão à luta todo dia para criar seus filhos, que estão ali, que são essas mulheres, que estão mais endividadas do que os homens, que estão segurando a casa sozinhas, cuja renda não dá conta das necessidades, que estão no endividamento defensivo. É esse o perfil da mãe solo no Brasil hoje. É quem está mais endividado, quem está mais realmente vivendo uma situação de escassez de dinheiro. E aí ela fala, e eu também sou uma delas.

E aí é tipo, não, amiga. Não, não. Peraí. Aí passamos um pouco do... Não é uma delas. E a área VIP bateu bastante palma. Não é uma delas por várias razões. A área VIP tá muito... A área VIP, eu também, eu também. Não é. Não é uma delas. Primeiro porque, ao que tudo indica, Piquet foi um péssimo marido, mas não há nenhum indício de que ele tem abandonado os filhos. Isso pelo menos não tá dito, não é uma coisa...

Então, é diferente você ser uma mãe divorciada e você ser uma mãe solo, porque também a gente não pode ter uma visão moralizante do divórcio como se ele equivalesse a um abandono das crianças, não é sempre o caso. É muitas vezes o caso, mas não é sempre o caso. E segundo...

que se você tem 300 milhões de dólares na conta, você não é alguém que está saindo todo dia, batalhando para criar... Não é. E é muito doido que a dimensão de classe e de poder aquisitivo mesmo, ela não entre mais na lógica da identificação. Eu consigo efetivamente criar uma ponte com a minha fã que está fodida, tentando criar os filhos num país desigual, sendo maltratada, abandonada, sem política pública para ela,

sendo vítima de crédito predatório todo dia. E eu, que sou uma mega popstar multimilionária. E isso não gera um... Eu botar o dinheiro no meio, porque ela poderia criar essa identificação sem falar de dinheiro, certo? Mas ela põe o dinheiro no meio e, ainda assim, isso não gera uma quebra na identificação. E estamos juntas. E estamos juntas. É louco, né? E eu não acho que isso seria possível há 20 anos atrás. É isso que eu acho que é a monocultura. Eu fiz uma grande coisa de Shakira.

Vou conseguir problema, né? Tô catando o problema. Não, Ale, é genial. Só você poderia falar isso. Mas é isso que eu acho... Mas é isso que eu acho que é... De tu isso, um Waka Waka. Que, aliás, agora eu vou comprar uma nova briga. Que é um dino. Essa música, desculpa, essa música não é... Cara, eu vou comprar uma briga brava agora. Ai, meu Deus, o céu. Essa música não é racista pra caralho?

Ai meu Deus, não sei, é? Que música? Que waka waka, irmão. É porque a música é na África, que vai botar uma mulher que não é africana, é branca, pra cantar, waka waka, que isso? Isso é a visão de americano, que americano tem isso, inclusive... Eu não sei nem que música é. Não tô preparada pra ser descansado. Eles têm mania disso, de norte, a FIFA, assim, apesar de um africano. Chama a Colômbia e África. Então, com isso dito...

E bota lá ela fazendo waka waka e virou. Eu vou mudar, eu vou mudar. Que isso, que África, irmão? Com isso dito, lerô lerô lerê.

Lerou, lerou. Mas desculpa, me cancelem pra caralho aí. Louca, louca, louca. Só não cortem isso que eu falei e botem no Instagram sozinho. Alguém vai cortar a grade. Eu vou distribuir em grupo de WhatsApp. Mas tem um outro lado da Shakira que eu acho que conecta com a gente também, que é o dado de que você percebeu isso que eu achei bem interessante, que é a ideia de que ela faz uma profecia autorealizada. Ah, isso é muito maravilhoso. Que é o fato de que ela diz que ficou muito rica com uma música sobre divórcio.

Antes da música ter deixado de fato... Porque, de fato, ela ficou. Essa turnê da Shakira é a turnê mais cara, que mais botou dinheiro na conta bancária da Shakira. E que bom pra ela. Mas ela anuncia esse artifício na música de pré-lançamento. Ou seja, antes mesmo da música de fato virar algo que vai a deixar mais rica, ela já está dizendo na própria música que a música deixou ela mais rica. E isso é exatamente a lógica da ostentação.

Por que a pessoa está obcecada com o old money, com saber se o chocolate é de rico ou de pobre? Porque em algum lugar ela imagina que se ela projetar uma imagem de já enriquecer, isso vai facilitar esse enriquecimento. Eu acho que o Z é central no capitalismo tardio e no momento atual. É muito americano também. É a ideia de que ser é parecer, e de que fake it until you make it, ou diga como quiser, é a ideia de que hoje, no momento atual, você, para ser rico, precisa parecer rico.

E o Trump, presidente dos Estados Unidos, Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val

É isso, é um exemplo claro disso. Ele, antes de ser um homem de sucesso, ele fez um cosplay de homem de sucesso. Que era isso que o aprendiz era, em que ele fazia um grande chefe de empresas que demitia todo mundo. Era um fracassado, um falido, o Trump. Ele era famoso por ser um empresário de merda.

que falia um monte de empresa, ele não era especialmente bom em nada que ele fazia, ele era bom em fake it. Então ele escreveu um livro chamado Order of the Deal, como se ele fosse um grande negociador. Não, ele era um grande vendedor de autoajuda. Depois ele faz uma série na qual ele interpreta um chefe.

Então ele é um grande ator de reality show. O reality show é o berço político do Trump. E ali ele começa um gênero que é a cara do mundo de hoje, na qual a simulação da riqueza traz riqueza. Isso é onipresente nas redes sociais. O que mais tem é gente dizendo que ficou bilionário com o Bet.

E se você for ver, o dinheiro... A pessoa ficou realmente milionária, não bilionária. Ela ficou milionária, mas não com bet. Ela ficou milionária vendendo dicas pra você apostar em bet. As únicas pessoas que ganharam dinheiro com bet são pessoas que venderam... É coach de bet. São coach de bet. Assim como todo coach milionário ficou dinheiro dando conselho de como ficar milionário.

E foi assim que ele ficou milionário. E fingindo que era milionário. Fingindo que era milionário. Ele fingiu que era milionário, passou a dar conceito de como dar milionário, e ele ficou milionário. Ensinando os outros a ficar milionários. Os outros não ficaram. Mas ele ficou. Primeiro veio o cosplay. Então é uma sociedade de cosplays, na qual você vê as pessoas o tempo todo encenando antes de ser e se tornando aquilo que encenaram.

aquela coisa que o hábito faz o monge primeiro você vai fazer o perfil do bilionário você vai alugar muitas vezes uma Ferrari, que é o que os caras de influência de Bet fazem, eles alugam uma Ferrari pra dizer, comprei esse carro com Bet a vez que eu vi isso mais claro foi uma vez que eu fui fazer uma entrevista no Hotel Fasan, aqui

num algum festival de música. Eu não me lembro nem que banda era. E eu descobri lá, por meu choque, eu sei que hoje é banal isso, mas eu fiquei assim, ó.

Era o começo de influencer, de uma coisa mesmo assim, que tinha um aluguel da piscina. Você não precisava ficar hospedado no hotel. Você pagava, sei lá, você pagava 500 reais e podia usar a piscina. Era o The Use. Era o The Use. Falei, tá, legal, vamos usar a piscina, uma reunião, alguma coisa. Não. Eram pessoas que iam lá.

E fingiam que estavam hospedadas. E o lance era a pessoa tirava um monte de foto, ela pegava um drink, fazia foto, a pessoa fazia foto, aí ela mudava de biquíni e fazia mais foto. Mudava de biquíni e fazia mais foto. Pra parecer que tinha barulhinhas. Pra parecer que passou a semana lá. Meu Deus!

Para parecer que ela tirou férias no Hotel Fazana. E era exatamente isso. E aí isso foi virando muitas outras coisas. Aluguel de carro para fazer vídeo e tal. Já conheci gente que faz isso na Califórnia e tal. E aí recentemente eu vi uma versão chinesa disso. Para você ver como a cultura muda de país para país, mas tem a mesma essência. Lá tem um mercado enorme de escritórios fake. E áreas de trabalho fake. Para você fingir que você tem um emprego.

essa é a coisa mais triste tem também os podcasts o calmo gente é muito triste sempre mas olha que deprê o fundo do poço mas olha o aspiracional de dignidade e de sucesso relativo tem um mercado que está crescendo mesmo e tem matéria disso tem uma cultura própria desses espaços já e tem uma autoironia disso já porque é tudo rede social tudo vira uma propriedade emergente louca e uma cultura própria mas o que tem é o seguinte Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val

É tipo um WeWork de quem não tem work. É um dicionário. E aí as pessoas... Mas falam que tem gente que faz isso pra tirar foto, pra parecer que tem trabalho. Então o cara tá no LinkedIn, aí tá lá trabalhando, manda pros pais pra fingir que tem emprego. Porque é uma vergonha não ter emprego, então a família acha que ele tem. Mas o mais interessante que eu li disso é que tem muita gente que vai...

para ficar no lugar e sentir que está em um ambiente de trabalho para ela mesmo. Para ela se encorajar, para ela não ficar em casa. Então, tem uma depressão absurda nisso, tem uma distopia nisso, mas olha o aspiracional, como a dignidade está vindo de um outro lugar. A pessoa está fingindo que tem trabalho. Nossa, Bruno. Não está fingindo que ela não tem trabalho, que é o que o influencer faz. Isso foi inventado, Bruno. O que essa menina que está fazendo, ela está fingindo que ela não trabalha.

É isso, é. Provavelmente ela tem um emprego que ela não quer mostrar qual é. Ou ela tá batalhando, ou ela mora com os pais, mas ela tá fingindo que ela tem tempo livre pra passar uma semana no hotel fazendo. E do outro lado do mundo, também com uma disfunção econômica e social gigantesca, tem gente que tá alugando espaço pra fingir que tá trabalhando. Isso daí foi inventado por um maluco do centro do Rio. Sabia?

A gente está no centro do Rio e aqui tem um doido clássico que eu não sei o nome. Doido mesmo assim, que doido a gente chamava. Eu acho que ele deve ter de fato alguma neurodivergência, eu não sei qual é, peço desculpas. Mas ele vem todo dia ao centro do Rio de Janeiro de terno e gravata. Eu fazia peça aqui um tempão e tal e eu conhecia o cara já. E o que ele faz é o seguinte, ele acorda, sei lá, seis da manhã, põe um terno, uma gravata e ele vem para o centro da cidade e fica entrando e saindo dos lugares estressado, fazendo fila, dando bronca.

Ele bate na padaria, fala assim, vem um café, pô, tá atrasado, tem uma reunião. Aí entra outro café, ela, cadê meu pão? Pelo amor de Deus, perdendo a reunião aqui pra estar aqui com vocês, fica com essa fila, tromba nas pessoas. Ele já veio na peça? Não, porque... É o estressado paulista. Meu sonho era fazer um documentário sobre ele. Ele é um estressado, ele faz o cosplay de um executivo. E ele passa o dia inteiro no centro, se você vê ele rapidamente, você tem certeza que é um executivo, porque ele faz isso há 30 anos, ele faz muito bem isso.

É o papel da vida dele. É o papel da vida dele. E eu acho lindo esse cara. E como ele ganha dinheiro? A primeira vez que eu vi, eu achei que fosse de fato. Eu tava... Não, ele é sustentado. Ele é um sujeito... Eu imagino, eu tô chutando aqui. Guerreiro. Mas eu imagino que ele seja um sujeito exatamente. Por ser... Talvez tenha alguma... Alguma grana de... Porque ele é... Realmente, ele tem uma questão. E eu lembro de perguntar assim, qual é...

Esse cara tá bravo? Aí o cara me contou da padaria. Ele falou assim, não, isso aí é uma doidinha. E aí... E aí...

Só que isso agora é a sociedade inteira. A sociedade? Que loucura. Isso tá fazendo isso. A China. Posso trazer duas coisas? Eu sei que a gente já tá se estendendo um pouquinho, mas que me lembra isso. Uma é... Tem um tanto que, quando você tem esse nível de incoerência entre o que é projetado, você tá alugando o carro pra fingir que o carro é melhor e que você tem o carro melhor e...

e alugando o espaço, e são as influências brasileiras que alugam um cenário de jatinho para fingir que estão andando de jatinho, enfim. Quando você está nesse nível de performance tão desconectado da realidade, de fato, material da sua vida, é evidente que o tipo de busca por ação social que você vai ter vai se dar nessa lógica do ganhar dinheiro rápido. Porque você não vai resolver esse salto de mobilidade social com o emprego.

Mesmo que fosse um ótimo emprego, aliás. Então precisa ser bet, precisa ser day trade, precisa ser uma coisa que vai resolver muito rápido. E eu não acho tão diferente em termos aspiracionais, estéticos e éticos, da galera um pouco mais rica, um pouco não, bastante mais rica, mas que está...

Fazendo, sei lá, startup, achando que vai criar a empresa unicórnio, que vai vender para um fundo por um bilhão de dólares. Também é uma ideia desse pote de ouro no final do arco-íris, sabe? Que vai mantendo toda uma outra economia da projeção acontecendo. Então, isso de novo, isso eu acho que é muito masculino, por um lado. É muito masculino, mas tem a ver com o que eu estou falando no começo, que é uma monocultura mesmo. Que assim, até o Jeff Bezos está nessa ansiedade.

É verdade. O Elon Musk está tentando, gasta o tempo dele tentando ser o primeiro trilionário individual do mundo. E ele tem isso como uma linguagem, ostentação para fora também. Também é uma performance. E é interessante você falar do Bezos, Bruno. Vocês viram, teve uma matéria recente, quem não tiver visto, eu recomendo. É um perfil da mulher, da atual mulher, segundo o casamento dele, do Jeff Bezos no New York Times.

E é um perfil longo dela. E toda a tese do perfil é que ela representa uma ruptura numa certa ética dos bilionários americanos, mas acho que essa ética dos bilionários americanos vai gerando repercussões culturais para o mundo todo, e certamente para o Brasil, que tinha justamente a ver com a culpa, a filantropia. Então você tinha uma classe de pessoas muito, muito, muito ricas. Aí a gente está falando de um nível de concentração de riqueza...

muito maior do que de qualquer outra pessoa que a gente tenha mencionado aqui, são muitas Shakiras, e que tinham um consenso social que era voltado para, de alguma forma, a expiação dessa culpa, mas também uma ideia, ainda que ela fosse narcísica, ainda que ela fosse talvez superficial.

mas de criação de um mundo melhor, de que a gente precisa investir uma parte do que a gente ganhou de volta na sociedade, de que isso tem que construir um... E aí você tem, durante os últimos 30 anos, todo um circuito de espaços de convívio entre elites que são muito ancorados nessa ideia de que temos que ser elites ilustradas que contribuem para o mundo melhor. De Davos até o TED, sabe? São essas conferências em que não há pessoas muito ricas para falar de como elas estão construindo um mundo melhor.

E aí, o que o perfil diz é que a Lauren de Santias Bezos, que é a mulher que casou com o Jeff Bezos recentemente em Veneza, que fecharam Veneza, fizeram um casamento bem ostentação, curiosamente, com uma estética meio em flu de Goiás, uma coisa estranha. Tinha um carpete, umas coisas bem loucas. O menino lá do chocolate, ele vai falar, não rico.

já deu a volta. Era estilo Vorcaro. Era meio estilo Vorcaro Filho. Bem Vorcaro, bem festa de derivada do Vorcaro. Bem esse repertório. E aí, a tal da Lauren Santos Bezos, parte do que ela traz de novo, segundo o New York Times, enquanto figura...

política pública, que tem uma influência sobre seus pares, é a expiação da culpa. Você não precisa ser culpado por ser rico. Gaste o seu dinheiro, seja feliz com as suas bilhões. Não precisa dessa encenação do martírio. E eu acho que a falta de vergonha da riqueza...

Que é muito diferente da falta de vergonha de você ter ganhado um pouco de dinheiro, de ter sido bem sucedido, de você poder usufruir dos filtros do seu trabalho. E isso acho que é muito saudável que as pessoas não tenham vergonha. Sobretudo quem veio de baixo, batalhou, etc. É muito normal que as pessoas queiram usufruir e não queiram ter vergonha de usufruir. Mas a gente está vivendo um outro lugar, que é a falta de vergonha da riqueza pornográfica, da riqueza obscena.

E isso é culturalmente muito novo. E vai da Laurence Sanchez Bezos até a Shakira, em alguma medida, até a Virginia. Então tem um... E é, olha só, corta ideologias. Porque isso aconteceu na esquerda também. Eu posso fazer um parênteses que aconteceu no Brasil rapidamente? A gente teve uma novela que foi um remake, exatamente de 89, que foi Vale Tudo. Na qual a vilã...

Odete Roisman foi a figura mais adorada na versão nova no remake. E acho que exatamente mostra essa mudança gigantesca. É diva, né? A mesma fala dita por uma atriz em 89, que se eu não me engano foi o ano de Vale Tudo, dita hoje, o que era escandaloso, hoje se torna engraçado, carismático, divertido, aspiracional.

E é a monocultura mesmo. Independente de uma puta abissal desigualdade econômica, de grana mesmo, tem um lugar onde está todo mundo equalizado nessas expectativas e nessas ansiedades. Por exemplo, o próprio Bezos não só casa com uma mulher que representa isso.

Mas ele também mudou o próprio corpo dele, com hormônio, com anabolizante, com uma série de outras coisas, também no mesmo tipo de ansiedade de performance pública, de autoimagem, de formação de um perfil público. O Elon Musk fez as mesmas coisas. As pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo buraco de uma ostentação que, por definição, não se satisfaz.

Por definição, não satisfaz. E se você faz isso ser uma monocultura, quer dizer, você democratiza o mesmo código, a mesma ambição e, mais importante, a mesma linguagem, é uma força profundamente antirevolucionária. Profundamente ante os antagonismos que a gente precisava ter mais exacerbados na nossa sociedade.

que é exatamente isso as pessoas da esquerda com cargo público estão ostentando a área VIP com patrocínio privado com a mesma linguagem e isso não é um escândalo isso é simplesmente a linguagem que todos nós estamos vivendo aspirando e se você aponta isso você faz um podcast depressivo ninguém quer ouvir você está estragando literalmente estragando a festa de todo mundo Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val

Posso falar de uma coisa um pouco mais deprimente antes de fechar? Porque eu sei que o Greg vai querer fechar. Eu acho que não. É a última coisa. Só para enterrar mesmo aqui o humor da nossa audiência. Não, é que eu queria voltar numa discussão que a gente teve lá atrás. Você trouxe, né, Bruna? A coisa da gamificação.

A gente falou sobre isso no Clube de Cultura. Para quem está aqui e faz parte do Clube de Cultura, muito obrigada. A gente só está aqui por causa de vocês. Obrigada mesmo. Mas a gente não falou no podcast, eu queria trazer isso que tem a ver com o assunto. A gente começou falando dos endividados. Depois o Bruno falou da gamificação e do trabalho dessas plataformas, que são plataformas de precarização do trabalho.

usando a lógica da gamificação. E você falou, Bruno, Greg, da coisa de chegar num valor mínimo, de como a gamificação vale para todo mundo, para o consumidor e para o trabalhador. Tem uma coisa especialmente preocupante nessa combinação de trabalho plataformizado, aumento da dívida e da inadimplência e a ansiedade com grana, que vai além de simplesmente não ter dinheiro suficiente para viver, mas também o status e tal.

que é como que essas coisas são usadas numa economia de dados. Tem uma empresa nos Estados Unidos que está com um modelo de negócios que eu duvido que vá demorar muito para chegar aqui, que é basicamente, eles são meio que o Uber das enfermeiras. Então, na saúde privada, é muito comum que as enfermeiras trabalhem por empreitada.

Então, basicamente, o hospital te oferece um plantão e você vai fazer um plantão nesse hospital, e amanhã vai ser em outro lugar e assim por diante. Então, é uma plataformização do trabalho da enfermagem na saúde privada, que nos Estados Unidos é toda a saúde, dado que não existe saúde pública.

Teve uma reportagem investigativa que foi feita recentemente sobre a plataforma que conecta os hospitais com as enfermeiras que estão precisando desse dinheiro. E eles compram os dados de crédito, eles compram os dados de quem é que está endividado ou não. Por que eles fazem isso? Porque eles oferecem para as enfermeiras que têm dívida um valor menor de plantão.

Porque eles sabem que se aquela mulher está endividada, tem mais chance dela aceitar trabalhar por menos. Então, como a gente está vivendo numa sociedade de dados e ao mesmo tempo numa sociedade do trabalho por empreitada, esses dados de endividamento, eles também são muito potencialmente politicamente explosivos. Não é impossível imaginar...

Todos os aplicativos de entrega, de motorista e de outras formas de plataformização do trabalho, você já tem plataformas para empregadas domésticas, você tem uma série de...

profissionais que estão se plataformizando, e até o trabalho mais freelance e cognitivo também está sendo plataformizado, que eles cruzem cada vez mais esses dados de endividamento justamente para provocar um achatamento da renda desses trabalhadores e trabalhadoras. Então, é uma combinação muito, muito terrível. Se a gente não olhar para ela politicamente, a quem pertencem os dados de endividamento? De quem é o Serasa? Como a gente controla?

O que pode ser cedido e o que não pode? A gente pode cair num buraco ainda mais preocupante. É isso só para terminar.

Que barato terminar lá no alto, que energia lá em cima. Aliás, uma coisa curiosa, um dado muito rápido que eu ouvi, é que a gente fala muito de Beth, que é um endividamento mais masculino, mas tem o responsável também pelo endividamento feminino, que é a Shopee. Não estou culpando a Shopee. É, não, mas a Shopee é a maior rede social do Brasil, gente. Mas o Shopee, eu descobri que... Maior rede social feminina do Brasil. Maior rede social feminina.

As mulheres ficam, em média, 1h40 por dia na Shopee. Foi o dado que você me deu.

Esse é um dado muito chocante de uma pesquisa ampla que foi feita por um think tank político e tudo mais. Acho que ela não está bem divulgada, mas é um dado interno que a gente viu, teve acesso a isso. É uma rede social, as pessoas ficam numa espécie de puneta do consumo, que não tem a ver com comprar, tem a ver com botar coisas num carrinho. Não só isso. Vai fechando um carrinho e não é assim. Não, e tem as assinadas que recomendam produtos e que ganham uma parte da comissão, é a gamificação disso também.

O dado é esse, ela meio que é um uber feminino, de algum jeito, mas é o seguinte.

A Shopee no Brasil tem 80 milhões de CPFs nela, cadastrados. 80 milhões de CPFs já fizeram compras na Shopee. A grande maioria é feminina, são mulheres. E as mulheres que frequentam a Shopee como uma plataforma, elas gastam em média 1 hora e 40 por dia na plataforma.

É muito mais do que Instagram, que a gente trata aqui como algo mais público, como algo mais relevante até, ou do que Facebook, ou do que Twitter, ou de qualquer outra plataforma. E o interessante é que, ao mesmo tempo que ela é um lugar de exploração de consumo e de códigos de consumo, que também é essa formação de monocultura que a gente fala, que aí não são das marcas e dos códigos, mas a falsificação de coisas de luxo, do que parece a bolsa que a bilionera tem, que é o mesmo código,

É um tempo que a pessoa passa vendo isso, pondo no carrinho e atirando, mas vendo vídeos de outras mulheres com esses produtos. Fazendo teste na maquiagem, mostrando a bolsa, como combina com a blusa, como combina com o sapato. E esses videozinhos tem o cupom de compras com o desconto, para que se você compra com esse vídeo, aquela influenciadora ganha um pouquinho daquele dinheiro.

E isso dá uma renda para milhões de mulheres no país de R$50 até R$5 mil ao mês das muito bem-sucedidas. E que também é uma renda complementar, mas que não é um trabalho, pura e simplesmente. É a formação de um novo sujeito político-mediático que é consumo como a linguagem principal.

Vou ler as perguntas que vocês fizeram aqui. Um animal pessoal. Agradecer vocês que estão aqui hoje. Hoje nós temos um teatro lotado. Agradecer a presença, as pessoas especialíssimas. Hoje temos os barbatuques aqui conosco. Maravilhosos barbatuques aqui.

Temos também uma parte... Não sei se vocês estão ouvindo palmas muito ritmadas, perfeitas. São deles, palmas. Temos também uma boa parte da antiga equipe do Greg News que está aqui hoje com a gente. Obrigada, maravilhosos. É verdade. Nosso jurídico, inclusive, está aqui. Na nossa área VIP, está vendo? Denise. Temos uma área VIP. Nossos jurídicos, nossos redatores estão todos aqui. Que alegria. Muito legal.

e vou ler as perguntas que escreveram. Começar aqui talvez com a pergunta da Bárbara Rocha, que é produtora de cinema e historiadora, que fez uma pergunta muito interessante, que é num contexto temporal mais longo, de 2012 e 2016. Será que uma cultura do endividamento não foi a construção do próprio projeto econômico do governo do PT, que objetivou o crescimento econômico estruturado no estímulo ao consumo e a facilitação ao crédito?

Com certeza, desde esse período, cada cidadão com CPF passou a ter diversos cartões de crédito, mesmo que a soma dos limites deles ultrapassem muitas vezes o valor total de sua renda. Sim, existiu uma financiarização gigantesca nos governos do PT, inclusive graças ao Bolsa Família, que é um projeto espetacular, pelo amor de Deus, não estou falando mal do Bolsa Família, mas ele financiarizou, ele obrigou muita gente a abrir uma conta.

E muita gente... Também tem algo do consumo, que o Bruno falou por alto, que é verdade que o consumo, ele iguala, embora não iguale, claro. Mas o consumo é algo que a partir do momento que você... Ele é uma maneira de inserção em uma lógica que se você não tem acesso a nada que é comum, ele parece comum.

Entende o que eu quero dizer? O preço da Shopee é o mesmo. Então você, de repente, acessou algo que é o mesmo lugar que uma pessoa rica acessou. E ao ter aquilo, você de repente está inserido dentro de uma lógica e é o único momento que você está inserido em uma lógica igual. Mas tem algo do consumo, ele foi algo incentivado. Eu acho que o consumo, inclusive, é uma das vantagens do Bolsa Família que justamente ele botou mais gente num mercado de consumo. Isso fez a economia girar, né?

Mas o Bolsa Família põe as pessoas em série num lugar que é um mercado de consumo de bem de subsistência. De necessidade. Não é um endividor, não é? Não. O que teve, de fato, no Brasil, e aí acho que isso foi não só o governo do PT, mas também, é que o projeto, no final das contas, de inserção...

de inserção social de uma massa de brasileiros e brasileiras excluídos foi muito mais pelo consumo do que pela cidadania. E acho que isso passa também por um abandono das políticas universalistas, que é uma coisa que seria o inclusivo, o aspiracional.

que é você ter os espaços onde todo mundo está, que não é nem exclusivo para ricos e nem também focalizado. A gente acaba caindo em uma das duas coisas. Então, o setor privado vai oferecer espaços que são só para ricos, ou você tem várias subdivisões, os muito ricos, os mais ou menos ricos, os médios ricos, os pobres, os remediados, enfim.

tendo experiências de consumo diferentes. E no setor público, a gente também abandonou a ideia de uma coisa que é universal, que todo mundo vai, inclusive os ricos e os pobres e a classe média, todo mundo. E a gente substituiu por uma ideia de hiperfocalização da política pública. Que é, não, eu vou ter uma coisa que é só para quem é muito pobre. Então, isso aqui é só para quem ganha menos de meio salário mínimo por mês. Isso aqui é o que vai erodindo uma certa ideia de republicanismo, de você ter uma coisa pública que todo mundo acessa.

E também erudindo a capacidade da sociedade de sustentar politicamente as coisas. Porque se os ricos não estão usando... Também é mais fácil de sucatear. Mas é importante falar que esse superendividamento não é brasileiro só. Está acontecendo quase no mundo todo, no mundo ocidental. Isso é muito comum. A gente está bem desandado nisso. Mas os Estados Unidos estão muito lascados. A Europa também está perdendo muito nível de poupança. Está muito baseado nisso. Acho que tem um problema.

que não tem a ver com a política do foco no consumo, porque o nosso país tinha um déficit grande de consumo mesmo. O Brasil estava muito retraído, as pessoas não tinham acesso a bens de primeira necessidade e também não de segunda necessidade. Tinha aquela grande explosão que teve a ver, aliás, com a expansão de crédito no país, que era para ter a linha branca.

Que era trocar uma geladeira, comprar uma TV para a Copa do Mundo, melhorar a casa. Aquela coisa que o Haddad falava, né? O Lula melhorou da casa para dentro, agora a foto melhorou da casa para fora. Lembra dessa história? Isso. Eu acho que o problema não foi a expansão do consumo em si, mas foi do discurso de que o consumo...

É o ponto. Ele se gabava disso como resultado da sua política. E aí sim, eu acho que da expansão da possibilidade de crédito no país, que foi uma conquista importante também, os pobres precisavam de mais crédito, e a classe média precisava de mais crédito, veio com uma indisciplina muito forte do mercado financeiro. Isso não foi devidamente regulado.

Não disciplinaram juros de maneira muito clara, não fizeram créditos especiais, e mesmo bancos públicos acabaram mantendo uma política de juros muito parecida com a dos bancos privados, para não fazer uma concorrência especial. E mesmo o presidente do Banco Central, indicado por Lula, vamos lembrar disso. Lula estava falando mal a Bessa, e todos os petistas estão falando muito mal do Roberto Campos Neto, com razão, que manteve uma taxa de juros alta num nível que não fazia o menor sentido, com a inflação tão controlada. Trocou, botou o Galípolo, ele manteve.

a mesma taxa de juros, praticamente. A gente continua com juros que eu acho que é 15% ou 16%, é algo desse tipo, que é altíssimo e que não faz sentido num país que tem uma inflação tão controlada. O indicado pelo PT. Então o PT manteve sempre juros altos.

Sempre manteve-se o tripé, especialmente esse quesito dos juros altos. E eu acho que, então, quando você está falando de endividamento, a gente acabou nem falando de taxa de juros, né? Mas se tem algo determinante no endividamento, são os juros brasileiros, que são uma loucura, e os prédios bancários em cima dos juros, que é outra loucura. Então, tem o jeito muito fundamental. É, o problema de esporte desde a pandemia é porque, de novo, em 2020 a gente estava com a taxa de juros relativamente baixa.

E ela cresceu muito em 2020. Olha que triste, né? Era mais baixo. Era bem mais baixo no governo Bolsonaro.

Não, mas aí, bom, não é por causa do Bolsonaro. Já vinha numa trajetória de declínio e aí em 2020 teve uma série de outras coisas, inclusive gasto público, porque a gente precisou ter gasto público acelerado durante a pandemia. E, por fim, ela faz uma outra pergunta que é interessante, só continuando na Barra Rocha, que tem um adendo. E falando especialmente para Gregório, você acha que as comédias de cinema lançadas durante o governo do PT incentivaram, ajudaram a construir essa cultura do consumo?

Nossa! Achei espetacular. Você acha que as comédias de cinema Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val Val

lançada durante o governo do PT, refletiram, incentivaram e ajudaram a construir uma cultura do consumo. Comédia no cinema. Sim, eu entendo totalmente o que ela está dizendo. Pelo seguinte, eu só não acho que incentivaram, ajudaram, mas certamente...

acompanharam a cultura. Representaram isso. Porque existia um boom de comédias brasileiras todas focadas em enriquecimento. Muitas vezes milagroso. É o Torrica, que tem um, dois, três. É o Até Que a Sorte Nos Separe, que é uma pessoa que ganha na loteria e de repente fica milionário e separa e tal. E tem umas outras, não sei se Farofeiros também é sobre isso, mas existe o tema mais comum das comédias blockbusters do Brasil, especialmente do diretor Roberto Santucci, que eu acho que quase só falou disso.

São comédias sobre o enriquecimento milagroso. Aspiracional. São comédias... São as maiores bilheterias. As maiores bilheterias do Brasil, nessa retomada, tem a ver com filmes que vendem o enriquecimento milagroso. Entendeu? É uma pessoa que ficou rica da noite para o dia. É a Beth, é o que for.

E acho que isso daí, com certeza, se não ajudou aquela coisa cultura, que a gente nunca sabe se é um reflexo ou se é um motor. A cultura, frequentemente, é os dois. Então, a comédia, nesse sentido, foi um reflexo dessa aspiração, mas ela também, certamente, gerou a aspiração de enriquecimento milagroso. Então, é muito bem observado, Bárbara.

Eu acho que tem uma pergunta interessante do Renê. Na opinião de vocês, até que ponto ostentação pode ser percebida como um sinal de desvio ético? É meio filosófica a pergunta. Nossa! Mas eu acho que dá para falar disso. Ou de propensão de pessoas a atividades ilegais. E aí eu entendo o que você está querendo dizer.

Eu já falei por alto isso no... Eu já falei por alto isso no Calmo, gente. E é verdade. Eu continuo defendendo isso. Porque eu acho, de fato, que uma pessoa que ostenta, ela tem que cair imediatamente na malha fina da Polícia Federal. Imediatamente. Pra mim, se eu fosse... Haja fiscal. Da Receita, perdão. Se eu fosse da Receita, eu tava no Instagram.

Você está vendo assim, o relógio Patek Felipe, 50 mil ou 500 mil reais? Calma aí. Com o que você ganha? Deixa eu ver a renda declarada aqui. Não vai bater. Pagar imposto. Não rico. Assim como dava para estar em porta de balada paulista, o Vorcaro estava gastando, acho que, 300 mil por semana numa balada em São Paulo.

Por que demoraram tanto pra entender que esse cara era um pilantra? Entendeu? Ninguém honesto gasta 300 mil numa balada. Isso nunca existiu na história do mundo. Porque um dinheiro que sai fácil assim, ele entrou fácil. É óbvio. Ah, isso é moralismo? Então me chama de moralista, me prenda. Mas eu sou moralista pra caralho com dinheiro e com ostentação. Eu acho que onde há fumaça, há fogo. Onde há ostentação, quase sempre há crime. Dá pra ir... Não, sempre há crime.

Porque é verdade. O Balzac tem aquela frase famosa, né? Do Balzac. Toda grande fortuna esconde um grande crime. Eu concordo com ele, mas até acho que ele vai além. A fortuna, às vezes, não é bem que você considera herança um crime, você vai além, mas você vai ter pessoas que conseguiram... Eu não acho que a Shakira, por exemplo, que é uma grande fortuna, é uma criminosa. Eu acho que essa fórmula é um pouco radical. Agora...

Onde há ostentação, onde há gente rasgando dinheiro e gastando, sempre há crime. Sempre, sempre, sempre. Tem algo a dizer? Ou vocês subscrevem o relator? Eu quero... Gente, pelo amor de Deus, eu quero dizer que essa é uma opinião pessoal do Gregório. É, opinião pessoal do Gregório. Que não foi aprovada pelo nosso jurídico. Não? E que a gente não está nomeando ninguém. Preciso pensar melhor sobre isso.

É um posicionamento filosófico. Mas sabe uma coisa interessante? Eu não sei dizer um caso prático. Mas uma coisa interessante de falar aqui, uma coisa que vem de longe, vem de uma fusão de várias outras culturas, mas hoje em dia é massificado. A gente foi lá pra Barcelona, agora entrevistar a Lula e tal, não sei o quê. Vamos ficar falando isso sempre, toda hora?

Última vez, Greg. Todo mundo já viu, todo mundo já sabe. Não, não, mas eu tô dando... É nossa forma de orientação. Nossa forma de orientação. Não, mas uma coisa que eu vi lá que eu fiquei muito impressionado. Tipo, a coisa que mais tinha de souvenir, como é que eu vou fazer... Dar um passeio e ver as coisas lá, o tanto de camiseta e de poste que tinha do Pablo Escobar.

O Pablo Escobar. Era um ícone pop lá. E é um ícone pop no mundo inteiro hoje. Você vai para Los Angeles, Califórnia. E em Barcelona eu fiquei meio chocado. Tinha muita camiseta do Pablo Escobar rasgando dinheiro, acendendo o charuto com o dólar. E acho que tem uma associação recente, também muito grande, de como gangsters famosos de filme, Scarface, Pablo Escobar, se tornaram... Ícones pop. Ícones pop que tem a ver com...

com esse dinheiro infinito, que não digo que é fácil, mas que vem subitamente, que não é trabalho. Eles se tornaram representantes de algo que não digo que é aspiracional, mas que vem de até outras tradições. O próprio gangster rap faz isso como um discurso cultural mesmo, que é o gangster que ostenta o ouro como um discurso até antissistêmico mesmo, fazendo um pastiche da própria riqueza.

Mas eu não sei isso que você está falando, Greg Porque novamente, eu acho que a ostentação é tão uma linguagem E que as pessoas Que não tem dinheiro fazem ostentação Se endividam para ostentar Eu conheço uma pessoa Que parcelou E se endividou para comprar um Erolex

Porque era... Era uma loucura que ela entrou em rede social e virou um objeto de desejo real. Ela foi lá e comprou como quem compra um carro que precisa ou uma casa. O Bolsonaro estava vendendo baratinho ali na...

É só para uma refinariazinha. É, custou nada a refinaria. Nathalie perguntou, existe algum estudo sobre o impacto da bancarização no endividamento brasileiro? Em 2016 para cá, houve uma explosão de fintechs, muito bem lembrado, que oferecem cartões de crédito a qualquer pessoa, empréstimo pessoal, Pix parcelado, etc. Mas nunca vi nenhum estudo sobre isso. Acho que a Alessandra vai responder bem. Essa história histórica do Serasa que a gente usou...

que foram os dados que a gente deu no início, de como é que foi a explosão da dívida nos últimos 10 anos, e sobretudo desde a pandemia, os idosos, as mulheres, todos esses dados vêm dessa série histórica do Serasa. E mostra justamente a evolução também da fonte da dívida. Então, cartão de crédito, financiamento imobiliário, financiamento de automóvel, e tem uma categoria que é fintechs.

que de fato explodiu nos últimos 10 anos. Então, sim, tem uma relação. E tem não só com dívida, mas também tem com bet. A fintech acaba sendo uma estrutura, uma infraestrutura mesmo, que é usada para várias coisas. Golpe. Golpe. Golpe do Pix bombou muito por causa dos fintechs. É, porque você consegue abrir uma conta e fechar a conta imediatamente. Essa facilidade de se abrir e fechar. Então, tem claramente um vazio regulatório aí nas fintechs que vai precisar ser olhado.

porque pode ser muito predatório e pode também gerar uma série de outras repercussões. E ela perguntou também como explicar que as mulheres estão mais endividadas. A gente falou isso por alto, né? Estética, consumismo ou porque são mais chefes de família? É, não. Os dados de aumento do endividamento feminino têm a ver com várias coisas. Primeiro que, quando a mulher se insere...

Se endividar requer que alguém te empreste dinheiro, né? Tem esse detalhe. E claro que tem endividamento predatório, de quem empresta dinheiro com juros muito altos, já imaginando uma inadimplência, enfim. Mas o fato é que é mais fácil contrair dívidas se você tem alguma renda. Então, quanto mais inseridas no mercado de trabalho as mulheres estão, também mais acesso a crédito elas vão ter e mais fácil de se endividar. Então, isso tem um elemento aí. Tem as questões das famílias, aí sim, das mães solo, não da Shakira.

e do abandono parental, e das mulheres chefes de família tendo que se endividar. Existe uma coincidência, uma confluência entre os dados de idosos e os dados de mulheres, muitas avós que são a rima de família, que mantém a família.

e que tem a única renda estável da família. Uma aposentadoria, alguma coisa que é estável e que você usa justamente para poder contrair dívida. Porque você consegue usar aquilo como uma maneira de pegar dívida. Então, tem vários elementos aí. Mas é notório que as mulheres hoje estejam mais endividadas do que os homens. Ainda que esses outros mercados mais predatórios, tipo o Betis, as principais vítimas de vício em jogo, etc., é homem.

Então, no caso das mulheres, você tem inclusive uma porcentagem maior das mulheres endividadas que estão naquilo que eu já falei de endividamento defensivo, que estão literalmente se endividando para pagar-se para o mercado. Parece ser, e aqui eu não quero fazer uma avaliação moralizante, mas ela é real nos dados, um tipo de endividamento mais responsável, ou mais inevitável. É menos para financiar um vício, uma ilusão, e é mais para fazer a família rodar.

E é muito doido, a gente falou, né, a CLT caiu em desuso, mas se você tem um país em que 50% da população adulta está endividada... Negativada. Negativada, é, perdão, negativada, 80% está endividada, mas 50% não está conseguindo pagar as suas dívidas.

É evidente que a renda não está sendo suficiente. E se você está negativado, você não resolve isso na CLT. Porque a sua CLT já não está dando conta do que você precisa gastar todo mês. Então, ou vai ter um evento externo, extremo, ou você vai ganhar na Mega Sena, ou numa bet, ou num negócio, ou no day trade, ou você não vai resolver esse ciclo. Não vai ser pelo trabalho. Já não é pelo trabalho. E o louco é que é muito o sujeito político neoliberal mesmo. Porque toda saída milagrosa que a gente pensa é um evento individual.

É uma mega cena que chega. É, não é uma reorganização política. Eu me lembrei que a gente leu no ano passado, no nosso clube do ano passado, o Dívida, do David Graeber, que é um livro superinteressante. E ele conta como as grandes mudanças políticas na sociedade têm a ver com a anistia.

de uma população endividada. E é muito louco, porque a gente não pensa nem numa política pública coletivista que seja capaz de desendividar as pessoas. Todas as saídas... O governo acabou de anunciar o desenrola. O PT lançou o desenrola. Não, não, tem o desenrola. Tem políticas públicas que tentam fazer isso. Mas não é uma coisa que embaralha as cartas tão profundamente.

Não é o desejo do sujeito político brasileiro. Não é isso que o eleitor pensa na hora de votar muito claro. Você precisa avisar para o eleitor. Eu me lembro que o Ciro Gomes, eu falei, caramba, ele acertou uma coisa importante. Ele falou, eu vou tirar o seu nome do SPC. Ele olhava para a câmera e falava toda vez. Mas isso é muito engraçado.

Você me convenceu a votar nele, Greg, em 2018. Eu nunca estive incluída nisso. Não quero deixar claro. Então, mas faz sentido. Mas isso não é uma demanda que vem coletiva. É uma demanda que vem... Os partidos entendem isso e tem esse pensamento de política pública. Mas uma anistia, uma grande revisão disso, um grande programa e tal, não é uma demanda pública. Uma promessa é política. Sempre insuficiente.

Mas as saídas são sempre individuais. Estamos sinalizando, já deu 8h15, a hora que a gente tem que liberar o teatro. Eu tenho uma outra pergunta, vou resumir só para falar a pergunta. O João falou, o João disse basicamente que o calma tem que encabeçar uma mudança de alternativa no mundo a ser adotado, uma coisa muito ambiciosa para a gente.

E eu agradeço a confiança, João. E Léa Lutz Galdens fez uma pergunta muito complexa para mim, que sou burro, que é, senti falta de comentários sobre o modelo do país, micro e macro indivíduos e sociedade, também não saberia fazer com o tempo que a gente tem. Não tem. Na verdade, que bom que a gente tem pouco, porque eu não saberia com mais tempo também.

E Mariana Ais falou sobre o novo ódio ao CLT. Podem falar da relação dos jovens que não acreditam mais nesse regime que é exaustivo, na escala 6x1 que a vida da pessoa é em função desse trabalho. Tem relação? E eu acho que talvez tenha mesmo. Sim. Se a CLT que permite a 6x1, ela não é aspiracional mesmo. Se tivesse uma CLT mais humana, talvez isso ajudasse as pessoas a sonhar com ela. É uma boa pergunta.

Tem muitas loucuras aí, né? Porque se também todo mundo começar a sonhar com CLT hoje, não vai adiantar grandes coisas, porque a CLT, de fato, está em crise, como modelo do trabalho estável. Então, eu também não sei o quanto tanto que a gente também não molda os nossos desejos a partir daquilo que é possível, porque se você perder muito tempo desejando aquilo que não vai acontecer, é muito frustrante. Então, acho que tem um lado disso. Tem um outro lado que é...

É... que, de novo, o que a gente vê nos dados de endividamento no Brasil, resumindo muito a ópera, é a renda das pessoas não dá conta daquilo que elas precisam pagar. Aí você poderia dizer, bom, mas tá gastando dinheiro com bet, tá gastando dinheiro na cachaça, tá gastando dinheiro... Sim, tem um tanto que é vício, que é jogo, que é bet, que é fintech, que é tudo isso.

Mas tem um tanto que é simplesmente pagar o supermercado. É pagar a conta de casa, é pagar a luz. Não é porque as pessoas... Também não vamos sair achando que o problema do Brasil... Porque isso é muito velho e é sempre a mesma ladainha quando você fala de dívida. Ah, não, mas as pessoas estão gastando dinheiro com... No fundo, assim, a culpa dos endividados. Porque os endividados não têm disciplina financeira para cuidar da sua renda.

Ser metade da população adulta não é culpa dos endividados. Tem uma coisa que é sistêmica que está acontecendo.

E que está inserida nesse caldo cultural da ostentação, mas que é separada dele, que é realmente a vida cotidiana. Então, se a renda não está dando conta, é normal que a expiração seja por algo que enseja, pelo menos no terreno de possibilidades, a eventualidade de algo fora da curva. Quer dizer, a CLT, o que ela promete é a estabilidade.

Ela até pode prometer crescimento de renda, mas não um crescimento louco. Você começa ali como estagiário da empresa, depois você vai ficar ali no nível 1, depois de 3 anos você vai ser promovido, depois de outros 7 anos outra promoção, e você vai encerrar talvez a sua vida com uma aposentadoria que vai ser parecida com aquilo que você ganhava no meio da sua carreira e que não vai ser muito diferente daquilo que você ganhava no início dela.

Não por múltiplos, talvez por margens. Então tem uma ideia de uma progressão paulatina Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Valendo Val

mas não dramática da sua trajetória de renda. Se a conta não está fechando hoje...

É normal que o desejo se desloque para algum tipo de identidade, de trabalho, de emprego, de coisa, que pelo menos carregue a possibilidade de daqui a dois anos vir uma bolada, e não vai ser na CLT. Não vai ser, vai ser no empreendedorismo, porque mesmo que a maior parte dos autodenominados empreendedores brasileiros na verdade sejam trabalhadores precários, com pouca seguridade social, ainda mais expostos à possibilidade de uma doença, de um acidente, acabar com tudo,

Existe no terreno do imaginário a possibilidade daquilo ali dar muito certo, daquilo virar de você investir bem, porque você está fazendo um curso com o coach, e aí aquele investimento, na verdade, vai ser o investimento da sua vida, que vai resolver a vida. A CLT não traz essa promessa. Então, para ela se sustentar, ela precisa dar conta do que as pessoas precisam pagar. Se ela não estiver dando conta do que ela... Aí você vai...

É melhor uma miragem do que um negócio que já não resolve e vai continuar não resolvendo, certo?

É melhor uma chance de talvez alguma coisa resolver. E eu acho que as pessoas estão apostando realmente nessa miragem. Mas não porque elas são loucas ou porque elas compraram um modelo de sociedade. Não, porque a conta não está fechando. E isso é importante falar. A gente fez uma pesquisa há tempos atrás sobre a Bete.

E quem tende aí para a Bet são as pessoas que já estão endividadas. As pessoas não fazem dívidas com Bet. Elas, em geral, aprofundam a dívida delas com Bet. Deve fazer também. Porque elas estão tentando resolver. Tem casos de vício em jogo e não é todo mundo. Mas o fato é que se você está estável financeiramente, se você está seguro financeiramente, você é muito menos propenso a fazer esse tipo de busca. É predatório. É muito predatório.

Então é um processo mais de parasitismo do que é da causa de uma doença em si. Parece todo sentido. Bom, e assim, lá no alto, com essa energia positiva, a gente termina esse episódio de Calma Urgente. Muito obrigado a todos vocês que estão aqui. Foi um prazer ver com vocês. Até já.

Duas coisas só que só eu não sei que a gente não sabia. Tem um livro sobre o assunto, que é o Parcelado. Acabou de sair. A gente falou no episódio passado. A gente falou no episódio passado. Acabou de sair e ele vai falar sobre esse assunto. A gente não lê. Eu não li porque saiu há muito pouco tempo. E, por fim, se querem falar de algum livro, não precisa já estar aqui no online, no presencial. No presencial, já trouxemos. Mas o Parcelado é justamente sobre crédito, consumo.

Acho que a pergunta sobre o governo Lula vai ter algumas respostas ali. É isso, gente. Muito obrigado. Obrigada, gente. Até a próxima. Muito obrigada.

O Calma Urgente é uma produção da Peri Produções. Na produção, temos Carolina Foratini Igreja e Sabrina Macedo. Na assistência de produção, Léo Tone Costa. Na pesquisa e roteiro, Luísa Miguez. Na edição e mixagem, Vitor Bernardes.

Na ilustração e design, Ana Brandão. Na sonoplastia, Felipe Croco. Na edição de cortes, Júlia Leite. Nas redes sociais, Gabi Biga. Na gestão de comunidade, Marcela Brandes. Na identidade visual, Pedro Inoui. E uma consultoria de comunicação por Luna Costa.