"Aux Origines": uma exposição que mostra a presença do racismo sistémico no quotidiano europeu
Ir à escola, encontrar um trabalho, alugar uma casa ou ir ao médico não é tarefa fácil quando se tem uma cor de pele ou religião diferente do que é norma num determinado país. Assim, o racismo alimenta um sistema perpétuo de discriminação que só pode ser quebrado conhecendo os factos e as experiências de quem é vítima do sistema. É para isto que a exposição "Aux Origines", no Palácio da Porte Dorée, que abriga o Museu da Imigração, em Paris, quer alertar.
Como é que a discriminação e o racismo se disseminaram nas sociedades ocidentais e quais as consequências até hoje para quem é visto como diferente em países como França, Espanha, Roménia ou Suíça? O Palácio da Porte Dorée, que abriga o Museu da Imigração, em Paris, quis responder a esta questão através de duas vias muito diferentes. Por um lado, mostrando os dados da discriminação reunidos num estudo feito a nível europeu, o UNDETERRED, mas também recorrendo a dados do Instituto Nacional de Estudos Demográficos. Por outro lado, utilizando obras de cerca de 40 artistas com percursos muito diferentes que espelham na sua prática artística a discrimação que viram e sofreram ao longo das suas vidas.
Duas formas muito diferentes de ilustrar o racismo e a discriminação, mas que se complentam, como explicou à RFI Olivier Bedoin, um dos comissários desta exposição.
"Na verdade, trata-se de duas perspectivas sobre uma única e mesma realidade. E essas duas perspectivas podem parecer contraditórias, mas, na verdade, complementam-se muito bem. Ou seja, colocamos em diálogo duas formas de visibilidade: uma baseada nas provas materiais, que consiste nos dados científicos extraídos de diversas pesquisas realizadas em França e na Europa sobre a questão da discriminação, e outra baseada na sensibilidade. E, para isso, convocámos cerca de quarenta artistas de cerca de vinte nacionalidades diferentes que têm, na sua história, uma ligação com a questão da discriminação, que, na sua maioria, são provenientes de migrações pós-coloniais e cuja obra reflecte a sua visão sobre estas questões. E, portanto, para o visitante, há uma pluralidade de pontos de vista que se expressam. Eles podem ser tocados, ao mesmo tempo, por estatísticas muito impactantes, que às vezes até podem ser violentas porque denunciam uma realidade violenta; e, ao mesmo tempo, podem ser tocados por algo que se insere mais na esfera do sentimento, através de obras que assumem formas muito diferentes", explicou o comissário.
Pratos e cadeiras típicos do século XIX com motivos de escravatura, néons com frases que marcam o quotidiano das pessoas de diferentes origens, fotografias ou objectos do quotidiano que reforçam a existência durante anos da chamada France Afrique vão assim interpondo-se com dados de estudos sobre a discriminação na exposição “Aux Origines”, ou em português “Na origem”, um jogo de palavras já que se tenta encontra a raíz do racismo, mas também em França, é comum perguntar-se a origem, ou seja, de se é, logo na primeira vez que se conhece alguém.
A exposição é marcada por frases fortes, onde os dados são alarmantes quando se fala de um imigrante vindo de África ou até jovens já nascidos em França mas com pais árabes. Por exemplo, 20% das crianças filhas de imigrantes vindos da África do Norte e da África subsaariana dizem ter vivido algum tipo de discriminação ao longo da sua escolaridade. Olivier Bedoin fala sobre os dados que o marcaram ao realizar esta exposição
“No Museu da Imigração temos muita atenção a essas questões. Sabemos que as sociedades são marcadas por um racismo sistémico. No entanto, há alguns números que são particularmente marcantes. E eu fiquei surpreendido com um número que foi incluído na secção dedicada à área da saúde e que indica que, quando se é um homem branco e se vai à urgência por problemas respiratórios, tem-se 50% mais de chances de ser internado em comparação com uma mulher negra com os mesmos sintomas. Portanto, um sector como o da saúde, que poderíamos imaginar estar fora dessas discriminações”, contou.
O estudo UNDETERRED aprofundou em vários países europeus os impactos da discriminação, alargando a sua pesquisa para além da saúde ou da educação e incluiu também o alojamento e o acesso ao emprego. Em França, o Defensor de Direitos estima que 40% dos homens identificados como negros através dos seus nomes foram discriminados quando procuravam casa. Já no trabalho, em França, ter um nome que soe a um apelido do Norte de África diminui a um terço a possibilidade de ser contactado para uma entrevista de emprego.
Todas estas discriminações somadas em sectores essenciais para a vida de cada indivíduo constituem o racismo sistémico nas sociedades ocidentais.
“A exposição aborda questões de racismo tanto no alojamento como na educação e outras áreas desde logo porque o estudo que deu origem a esta exposição é um estudo realizado na Europa, através do Projecto UNDETERRED, que se dedicou a descrever e investigar as discriminações em diversos sectores da nossa vida quotidiana e são esses sectores que incluímos na exposição. E, de facto, são esses sectores que normalmente estão ligados a direitos que deveriam ser garantidos para todos. Portanto, o direito à saúde, o direito à educação, o direito a ter uma casa. E o que tentamos mostrar na exposição é que as pessoas que sofrem discriminação enfrentam uma série de barreiras para ingressar nesses diferentes setores e, portanto, as discriminações acumulam-se e alimentam-se mutuamente. Porque, se alguém não tiver acesso a um emprego estável, provavelmente também não terá acesso a uma casa. Logo, a ideia era mostrar esses ciclos sistémicos que impedem a população de ter acesso a esses direitos fundamentais”, detalhou.
Em conjunto com a outra comissária da exposição, Farah-Clémentine Dramani-Issifou, Olivier Bedoin trabalha há dois anos na elaboração desta exposição encontrando artistas, identificando obras e percorrendo galerias. Estes são artistas ligados de alguma forma às questões da discriminação e à questão das migrações pós-coloniais. Especificamente para a exposição “Aux Origines”, o Museu da Porte Dorée encomendou uma obra à artista moçambicana Euridice Zaituna Kala. E é esta peça que abre a exposição.
“Para esta exposição encomendámos a realização de duas obras. A primeira obra encomendada é a obra de abertura, criada por Euridice Zaituna Kala, uma artista de origem moçambicana que há muito tempo trabalha com a representação de arquivos através de instalações em vidro e aço. E, para a exposição, ela realmente trabalhou nos nossos acervos, nas colecções e nos arquivos do museu para resgatar cartazes com iconografia racista que datam, de facto, mais ou menos da época da construção do Palais de la Porte Dorée, que foi erguido para a Exposição Colonial de 1931. E, na verdade, ela cria uma estrutura de vidro muito frágil que contrasta com a monumentalidade do Palais de la Porte Dorée, como se quisesse indicar, em última análise, os alicerces ideológicos muito frágeis sobre os quais repousa esse palácio, que é um palácio de propaganda colonialista”, indicou.
A exposição abriu ao público no início de Junho e vai durar até 23 de Agosto. Tem sido visitada por muitas escolas, mas também muitos visitantes individuais que se comovem ao ver os números dos estudos e pesquisa sobre o racismo traduzidos em obras de arte tocantes.
“As reações têm sido muito positivas. Na verdade, há muita emoção na visita a esta exposição. Podíamos pensar à partida que uma exposição sobre o racismo seria algo bastante austero. E, na verdade, esse diálogo entre as obras de arte e os dados pode gerar reações muito comoventes, já que as pessoas podem identificar-se, ver-se nas obras e, assim, acabar por se reconhecer numa parte das realidades que mostramos”, concluiu.