Tretas familiares: entre a cruz e a espada #BEMVIVER88
Neste episódio do Bem Viver, Machado conversa sobre as dores das relações familiares marcadas por negligência, conflitos e distância emocional especialmente em datas como o Dia das Mães. A partir de experiências pessoais e da reflexão sobre amor próprio, ele fala sobre limites, autocuidado e a importância de construir redes de afeto que realmente acolham. Com apoio de Bell Hooks, o episódio convida à pergunta: o que fazer com aquilo que fizeram conosco e como seguir em frente sem abrir mão de si mesmo.
- O amor como ação e a importância do auto-cuidadoNecessidade de impor limites · Construção de redes de afeto · Superar a ideia de que amor próprio é egoísmo · Bell Hooks e amor incondicional
- Relação abusiva e questões familiaresRomper com a família que deu amor e violência · Insistência em não compreender os caminhos da vida · Narrativas bíblicas e culpa
- Impacto familiar e traumaNecessidades tratadas como excessos · Orgulho de não precisar de ninguém · Sofrer em silêncio · Ser invisível para a família
Olá, eu sou o Machado e esse é o Bem Viver, o podcast devocional do Novas Narrativas. E aí, como é que você tá? Como é que vai essa força? Bom poder compartilhar com você mais uma reflexão, começar a semana junto com você por aqui. Deus te abençoe no que você estiver fazendo por aí enquanto escuta o Bem Viver. Esse episódio está indo ao ar no Dia das Mães e nesse episódio eu quero trocar uma ideia com você.
que não tem aquela relação familiar que você gostaria, que sente que sua relação com sua família foi abalada por conta da sua orientação sexual, por conta da sua saída da igreja, por conta do seu posicionamento político, ou por tantas outras coisas, né, gente? Afinal de contas, treta de família, briga de irmãos, separação, divórcio, irmãos que não se falam, pais que brigaram com seus filhos e o inverso também.
Pois é, como você pode ouvir, eu vim até aqui pra conversar com você sobre esse elefante aí no meio da sala. Essas coisas que vão minando o nosso coração pouco a pouco e com as quais a gente precisa lidar em datas como a de hoje, que nos fazem pensar na verdade por trás das nossas relações, no que a gente de fato pode e consegue construir com a nossa família na vida adulta. Com tantas demandas, tantos sonhos, tantas histórias, mas e aí? O que a gente vai fazer com tudo isso?
Ser um bom menino, uma criança que não traz problemas e maduro demais para a idade, foi o preço que paguei para sobreviver em um ambiente onde minhas necessidades eram tratadas como excessos. Eu me orgulhava de não precisar de ninguém, sem entender que esse orgulho era, na verdade, era a cicatriz de todas as vezes em que pedi e ninguém me ajudou. Ou das vezes que eu meio que preferi sofrer em silêncio porque sabia que ninguém ia me entender.
Eu me tornei especialista em ler nas entrelinhas, sempre tentando pegar qualquer coisa, qualquer migalha, buscando desesperadamente qualquer sinal de aprovação que pudesse servir de banquete para essa minha fome de ser visto. Eu passei a vida inteira me escondendo, tentando não aparecer, ficando bem quietinha para não incomodar, mas acabei me tornando invisível para minha família e até para mim mesma.
Minha família faz de conta que meu namorado não existe. Eu não posso levar ele na casa dos meus pais. Nós nunca conversamos sobre a minha relação e eu vou ficando asfixiado com essa situação, sabe?
Crescer com negligência é sentir que você é um hóspede na sua própria casa, sempre esperando o momento em que você terá que pagar a conta por um afeto que nunca recebeu. E pode ser que isso tenha acontecido na sua infância, mas tem muita gente vivendo isso agora, na vida adulta. E é muito difícil, pelo menos para mim, romper com a família que deu amor.
mas também deu tantas violências, que se faz reiteradamente distante, que insiste em não compreender os caminhos que a nossa vida tomou, as decisões que nós tomamos, o modo como nós nos relacionamos e tentamos construir uma vida que faça sentido pra gente. Eu escrevo esse episódio porque sei que todo mundo tem problema com a sua família. Problemas diferentes, outros parecidos, e de algum modo a gente vai ter que lidar com isso.
Como é que você tá lidando com as suas tretas familiares? Eu sei que tem gente aí que cortou os laços e deixou pra lá. Sabe Deus como é esse pra lá, né?
E tem gente que pontua quando tá doendo, tem gente que prefere seguir em silêncio, se fazendo de doido. Como você tem lidado com isso? Quero hoje oferecer uma reflexão pra você que, como eu, está entre a cruz e a espada.
Essa canção da Tuyo que você acabou de ouvir, ela tem um gosto bem agridoce pra mim. Porque ela traduz alguns sentimentos bem profundos. E um sentimento que eu sustento por anos. Essa sensação de eu vou relevar, eu vou sentar a mesa e vou ouvir um pouco de besteira, um pouco das mesmas histórias, daquilo que até me faz um pouco mal, mas que a gente sabe que é um modo de estar perto pelo tempo que a gente consegue, sabe? Porque no final a gente se ama, né?
mas até quando o amor vai dar conta de engolir tanto sapo eu não sei se você assistiu a terceira temporada de euforia mas no primeiro capítulo a rue precisa atravessar a fronteira bom se você viu sabe aquela cena até quando quanto é possível engolir sem que engolir tudo isso nos faça mal
Por vezes é importante impor limites, dizer até onde cada relação pode ir, até onde ouvimos e o que não vamos mais ouvir, o que aceitamos e o que não aceitamos mais a essa altura da vida. E como é que amor pode significar sujeitar-se às mesmas violências? Eu tenho muita dificuldade com narrativas bíblicas que um dia me fizeram acreditar que eu deveria me sentir culpado se tivesse que impor limite aos meus pais, como se isso fosse desonrá-los, como se cuidar de mim fosse errado, como se o amor próprio fosse um homem.
não precisasse ser cultivado. Talvez uma das coisas mais importantes que eu descobri nos últimos tempos é a necessidade de cuidar de mim mesmo, de formar uma rede, uma família, uma comunidade onde eu cuido e também sou cuidado, de gente que se importa no meio do corre da vida, que manda uma mensagem se eu estiver doente, que me manda coisas que sabe que vão me fazer rir ou debochar, ou até derramar algumas lágrimas.
Mas nada disso adianta se eu não estiver cultivando em mim o amor que eu mereço ter. Aquele que eu esperei por tanto tempo e não veio. E aqui eu não estou tentando empurrar a ideia neoliberal de que a gente vai ter que dar conta sozinho de todas as coisas podres que nos acontecem na vida. Eu estou aqui lendo Bell Hooks para você e para mim. Quando eu falei com amigos e conhecidos sobre amor próprio, fiquei surpresa em ver como muitos de nós se sentem inquietos diante dessa noção.
Como se a simples ideia implicasse narcisismo ou egoísmo demais. Todos nós precisamos nos livrar de ideias equivocadas a respeito do amor próprio. Precisamos parar de igualar covardemente o amor próprio a egoísmo e egocentrismo. Amor próprio?
É a base de nossa prática amorosa. Sem ele, nossos outros esforços amorosos falham. Ao dar amor a nós mesmos, concedemos ao nosso ser interior a oportunidade de ter um amor incondicional que talvez tenhamos sempre desejado receber de outra pessoa. Quando interagimos com os outros, o amor que damos e recebemos sempre é necessariamente condicional. Embora não seja impossível, é muito difícil e raro que sejamos capazes de estender o amor incondicional aos outros.
Em grande parte porque não temos como exercer controle sobre o comportamento deles e não podemos prever ou controlar totalmente nossas reações e suas ações. Podemos, contudo, exercitar controle sobre as nossas. Podemos nos dar o amor incondicional que é o fundamento para a aceitação.
e a afirmação sustentadas. Quando nos damos esse presente precioso, somos capazes de alcançar os outros a partir de um lugar de satisfação, e não de falta. Em um mundo ideal, todos nós aprenderíamos na infância a amarmos a nós mesmos. Cresceríamos seguros de nosso valor e merecimento, espalhando amor aonde quer que fôssemos, deixando nossa luz brilhar. Se não aprendemos o amor próprio na juventude...
ainda há esperança a luz do amor está sempre em nós não importa quão frio esteja a chama ela está sempre presente esperando uma fagulha que o inflame esperando que o coração desperte e nos leve de volta para a primeira lembrança de ser a força da vida dentro de um lugar escuro esperando para nascer esperando para ver a luz bom
Acho que nem eu nem Bell Hooks temos uma resposta do tipo faça isso ou não faça aquilo. Só você pode responder essa pergunta. O que é que você quer fazer com o que fizeram contigo? Compartilha com alguém que também precisa ouvir essa mensagem e precisa pensar nesse tema. Alguma amiga ou amigo que você sabe que está passando por um momento difícil. Me conta nos comentários como é que isso reverbera aí. Como é que perceber que você não está sozinho também nessa dor com a sua família te faz sentir. E como que é para você cultivar esse amor próprio, né?
É isso que eu espero, que a gente cultive o amor próprio e isso nos ajude a nos livrar dessas tretas familiares e encontrar um outro jeito de se posicionar daqui pra frente. Eu torço por isso pra você e espero que você torça por mim aí pra gente poder dar a mão e seguir nessas dificuldades da vida. A vida é difícil, mas a gente encontra muita beleza, encontra muita gente pra se irmanar no meio das nossas dores também, tá bom? Se cuida, viu? Um beijo. Até breve.
O Bem Viver é um podcast da Rádio Novas. Toda a gente junta construindo uma fé consciente, ativa e coletiva. Temos devocionais todo domingo no seu tocador de podcast favorito. A realização é do Novas Narrativas Evangelicas. A apresentação e o roteiro de hoje, Matheus Machado. Direção executiva, Luciana Petersen e Matheus Machado. A direção de operações é da Evelyn Azerido. Nossa coordenadora de comunicação é a Tayoa Amaral. Nossa designer gráfico, Nick Ellert.
Social Media é a Nath Almeida E o nosso ADM Financeiro estão com a Dayal Buquerque e a Suzane Calisto A edição é da Voz Ativa Produções Ah, e as vozes do episódio de hoje foram geradas pela Eleven Labs e A Um beijo, até a próxima