Episódios de Rádio Novas

Vida além do trabalho #BEMVIVER87

01 de maio de 202614min
0:00 / 14:01

Neste episódio do Bem Viver, Lulu compartilha uma reflexão pessoal sobre cansaço, trabalho e espiritualidade. A partir da própria experiência de ter acumulado dois empregos, mestrado e outras responsabilidades, ela fala sobre esgotamento, precarização e a pressão do sistema para que as pessoas vivam apenas para trabalhar.

O episódio propõe perguntas sobre o sentido do trabalho, critica a lógica de acúmulo e relaciona essa discussão com o evangelho de Lucas 12:15-21, destacando que a vida não é definida pelos bens que acumulamos. Lulu também conecta o tema às desigualdades estruturais do trabalho no Brasil, citando a pejotização, a plataformização e a escala 6x1 como exemplos de exploração.

No fim, ela defende que ter vida além do trabalho é também um compromisso cristão, ligado à partilha, à comunidade, ao descanso e à dignidade humana.

Participantes neste episódio5
E

Evelyn Azeredo

Host
L

Luciana Peterson

Host
M

Matheus Machado

Host
T

Tayo Amaral

Host
N

Nick Ellert

Participante
Assuntos6
  • Cansaço crônicoAcúmulo de trabalhos e responsabilidades · Pressão do sistema para viver para trabalhar · Cansaço ancestral
  • Evangelho no LarParábola do Rico Insensato (Lucas 12:15-21) · Crítica à lógica de acúmulo de riquezas terrenas · Lógica do Reino de Deus: partilha e comunidade
  • NeoliberalismoViver para trabalhar para ter o mínimo · Dilema do jovem adulto e a sensação de não alcançar satisfação · Lógica de acúmulo e exploração
  • Desigualdade Social BrasilPrecarização e pejotização · Plataformização de serviços · Escala 6x1 e o fim da precarização do tempo
  • Trabalho e RecompensaRelação intergeracional com o trabalho · Gen Z e a visão de 'trabalho é só trabalho' · Trabalho como meio de sobrevivência e busca pelo supérfluo
  • Desafios da vida cristãDefender a pauta do fim da escala 6x1 · Organização e luta por outras lógicas de trabalho · Construir outros imaginários sobre o Brasil
Transcrição37 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Oi, eu sou a Lulu e esse é o Bem Viver, o podcast devocional do Novas Narrativas.

Gente, tava até com saudade de gravar episódio por aqui. Faz um tempo que eu não apareço. E tenho fofocas pra você hoje. Fofocas pessoais. Inclusive, esse episódio vai ficar um pouco pessoal, talvez. Quero partilhar algumas coisas com vocês. Recentemente, eu saí de um dos meus trabalhos. Se você me conhece, ou me conheceu nos últimos três anos, provavelmente sabe que eu equilibrava dois empregos em dois lugares diferentes.

junto com o mestrado, e aí tentando encaixar o resto da vida nessa agenda muito atarefada. Não foi uma vida fácil nesses últimos tempos, eu me sentia muito esgotada, e eu acho que eu ainda tô sentindo esse cansaço, assim.

Ao mesmo tempo que eu sentia que eu precisava daquilo, eu precisava desse momento de acumular esses trabalhos para me estabelecer profissionalmente, me estabelecer na minha carreira, entender também esse trabalho como um sentido de vida, um sentido de missão, gostar das coisas que eu estava fazendo. Ao mesmo tempo, eu cheguei num ponto de quase esgotamento e aí precisei rever como que eu estava lidando comigo mesma nessas lógicas de trabalho.

Nesse processo, eu ficava pensando assim, mas nem é essa, nem é a fase mais difícil da minha vida. Porque quando eu cheguei no Rio de Janeiro, por exemplo, eu equilibrava sete trabalhos. Freelance, né? Então, era uma vida de escrever um texto pra cá, um texto pra lá, fazer uma edição de não sei o quê. Era muita coisa.

E aí talvez por isso que eu consigo sentir hoje o que essa amiga chama de cansaço ancestral. Sabe esse cansaço acumulado que parece que nem se você dormir um mês inteiro vai adiantar para curar? Bom, se você se identifica com isso, pode ter alguma coisa aí para investigar.

mas o meu objetivo com esse episódio é conversar com você e construir boas perguntas mais do que respostas, porque a gente sabe que essa coisa do trabalho não é simples, nossa relação com o trabalho não é simples, e o cenário do trabalho no Brasil pior ainda, né? Então, entender nossa relação com o trabalho não tem a ver só com a gente, mas com todo um sistema de exploração que nos mói.

E eu gosto muito de trabalhar, mas nem sempre eu trabalho tanto porque eu gosto. Eu trabalho porque eu preciso, porque eu quero ter minhas coisinhas, quero pagar meu aluguel, quero ter algum conforto. Tem um meme que é muito bom, que é que nunca nos falte o supérfluo.

Quero ter algum superfluo ou outro. Mas assim, não é coisa de bilionário que compra relógio de 150 mil reais, igual alguns pastores, né? É coisa de comer um pastel ali no final de semana. Quero deixar minha casa do jeito que eu gosto, enfim. Eu moro numa cidade que tem um custo de vida caro. Então a minha relação com o trabalho é tema recorrente de terapias. E hoje eu gostaria de abrir um pouco mais sobre isso pra conversar com você. Vamos lá?

Qual sentido você dá para o trabalho? É engraçado porque cada geração parece que tem uma relação diferente com o seu trabalho, né? Enquanto as gerações mais antigas valorizam uma estabilidade, um concurso público, estar muitos e muitos anos no mesmo emprego, a minha geração, que talvez seja a sua geração, eu estou com 29 anos,

já começa a valorizar ter um trabalho que faça sentido com o que você acredita, um trabalho que te dignifique, que te dê algum valor, que você seja reconhecido por ele. Então, a gente atrela muito o nosso valor pessoal ao trabalho, né? E aí, quando as coisas no trabalho vão mal, a gente vai para o fundo do poço, a gente se acaba, né?

Já os Gen Z, e eu tô aí no limiar, né? Entre Millennial e Gen Z. Mas já os Gen Z tem dado um baile na gente. Ensinando que trabalho é só trabalho. Não sei se você acompanha o TikTok, mas tem muitos memes sobre o Gen Z que vai, faz o que tem que fazer, compra o que tem que cumprir. Não é obrigado a fazer mais do que deve. Chega no horário que tem que chegar, sai no horário que tem que sair. Não fica fazendo média com o chefe, porque trabalho é só trabalho. E acho que a gente tem muito a aprender sobre isso.

Mas é isso, né? Trabalho também é um meio pelo qual a gente sobrevive. Você corre atrás do seu pra ter um salário, pra poder pagar suas coisinhas, suas comidas, suas necessidades básicas. E o superfluo, aquele show, aquela viagem, o rolezinho com os amigos, o presente do dia das mães.

Só que tá tudo muito difícil de conseguir. Então a gente se vê tendo que trabalhar mais e mais e mais. E pegar mais um freela e pegar um extra. E trabalhar no final de semana pra conseguir uma graninha. Pra ter algo que nem é tão supérfluo assim, né?

Todo mundo devia conseguir ir na praia de vez em quando, tirar um feriado pra passear. Só que aí nesse sistema neoliberal capitalista que a gente vive, pra ter o mínimo, a gente vai começando a viver pra trabalhar. Você precisa fazer extra, fazer frila, complementar a renda, porque o aluguel tá ficando cada vez mais caro e você não é herdeiro de nenhum terreno. O cartão tá indo lá nas alturas, o empréstimo do Nubank cobra taxas altíssimas.

Aquele amigo marcou um aniversário num restaurante caro, mas ele é muito seu amigo, então você tem que ir. Você tem que ter uma reserva de emergência pra não passar tanto perrengue. Enfim, esse é o dilema do jovem adulto, do adulto e do idoso e de todo mundo que vive nesse país, nesse sistema. Essa sensação de nunca alcançar a satisfação, a plenitude, né? Porque realmente não tá fácil.

Mas aí, como é que a gente faz essa roda parar de girar em cima da gente? Como que a gente para de reproduzir essa lógica de trabalho que nos leva à exaustão? Como que a gente aprende a se contentar em viver uma vida mais simples, sem buscar a lógica do acúmulo, mas também considerando, enfim, a vida, as cidades que a gente mora, as distâncias que a gente tem que enfrentar? Bom, acho que para isso a gente precisa...

ter um compromisso radical com a vida que a gente quer, mas mais do que isso, se você acredita, um compromisso radical com o evangelho de Jesus. E tem uma palavra de Jesus que tem germinado no meu coração esses dias, e eu gostaria de partilhar com você, que está lá em Lucas 12, 15 a 21.

Em seguida, disse, cuidado, guardem-se de todo tipo de ganância. A vida de uma pessoa não é definida pela quantidade de seus bens. Então, lhes contou uma parábola. Um homem rico tinha uma propriedade fértil, que produziu boas colheitas.

E pensou consigo, o que devo fazer? Não tenho espaço pra toda a minha colheita. Por fim, disse, já sei, vou derrubar os celeiros e construir outros maiores. Assim terei espaço suficiente pra todo o meu trigo e os meus outros bens. Então direi a mim mesmo, amigo, você conquistou, você guardou o suficiente pra muitos anos.

Agora descanse, coma, beba, alegre-se. Mas Deus lhe disse, louco, essa noite perderá sua alma. Você morrerá essa noite. Então, quem ficará com o fruto do seu trabalho? Sim, é loucura acumular riquezas terrenas e não ser rico para com Deus. Eu adoro esse texto. Acho que ele tem uma aplicação muito forte, muito explícita, muito... Enfim, já está dita no último versículo. É loucura acumular riquezas terrenas. Eu amo Jesus, né?

Lógica de acúmulo, de concentração, de riqueza. Não tem nada a ver com o reino de Deus, com o evangelho de Jesus. Mas eu acho que faz sentido a gente aplicar também isso à nossa própria relação com o trabalho, né? Mesmo que você não seja mega rico como o homem da parábola, quantas vezes a gente age igual esse cara nessa lógica de ganância, né? De se definir pelos bens que você consegue ou não conquistar, do corre que você consegue ou não fazer, do modelo X que você tem, mas você precisa correr atrás do 2X.

Mas enquanto eu li esse texto, eu também fiquei pensando nos outros personagens implícitos aí. Porque se esse homem rico tem tanto poder que pode destruir um celeiro para construir outro, não piscar nos olhos, claramente ele tem trabalhadoras e trabalhadores à sua disposição, provavelmente precarizados e trabalhando muitas e muitas horas para executar esse tipo de obra.

Porque não vai ser ele que vai derrubar os celeiros com as próprias mãos, né? Claramente, ele vai dar ordem às pessoas, às trabalhadoras e trabalhadoras braçais ali, que provavelmente não fazem só esse trabalho de construção, mas podem arar a terra, plantar, colher, adubar.

Fim das plantas, armazenar e ainda cuidar do capricho do patrão que vai derrubar um celeiro pra fazer outro maior. Ele colhe muita comida e não vai partilhar. Ele vai acumular mais e um celeiro maior, né? E fazer um celeiro maior, mais high-tech, mais bonito. Quem nunca, né? É quase como a gente que, quando trabalha muito, coloca toda a criatividade, se dedica o ano inteiro, entrega coisas geniais, planilhas lindas, muito elaboradas, porque no fim do ano...

A filha do nosso chefe precisa ir pra Disney, né? A ordem do acúmulo é necessariamente injusta. Mas a lógica do reino de Deus é a lógica de partilha. Se eu tenho um pão, nós temos um pão. Se eu tenho um saco de macarrão, nós temos uma macarronada. E é loucura acumular riquezas terrenas e não ser rico para com Deus. Não ser rico em comunidade. Não ser rico na partilha de tudo que a gente tem.

E eu quero que você pense, que você lembre que a exaustão do seu corpo também é um projeto desse sistema, dessa roda que vive passando por cima da gente. E estar consciente disso é um grande passo para se rebelar, para ousar lutar por alguma coisa diferente do que isso que a gente vê todo dia.

Então é muito importante a gente olhar para a nossa relação individual com o trabalho, porque só assim a gente pode construir uma lógica de uma vida mais saudável, da vida que a gente quer, mas para construir o Brasil que a gente quer, também é igualmente importante olhar para as relações estruturais de desigualdade que se estabelecem nesse ambiente, nesse sistema trabalhista brasileiro. Porque a ordem desse mundo...

E aí do mundo inteiro? Essa estrutura capitalista é feita para que os trabalhadores e trabalhadoras encham celeiros e celeiros que, na verdade, são dos patrões. Qual é a parte dos trabalhadores nessa colheita? E nós temos visto cada vez mais uma precarização, uma pejotização, um desmonte das legislações trabalhistas.

A plataformização de serviços que não garantem nem um seguro de acidente pro cara que entrega o seu iFood de bike. Um monte de bizarriça exploratória, cada vez mais. E a gente tem que se levantar contra isso enquanto cristãos.

Não é sobre o entregador, mas sobre quem constrói a plataforma de entregas, quem constrói a plataforma de aplicativos, quem constrói as big techs. A gente está pensando sobre esses caras e qual o objetivo deles, quando eles fazem o que fazem. Enfim, a gente quer ter vida além do trabalho, a gente quer apreciar a criação de Deus, cuidar da nossa família, cuidar dos nossos pets, da nossa saúde, de nossas plantinhas.

cuidar da nossa espiritualidade. A gente quer ter tempo para cultivar a comunidade, para estar entre amigos e irmãos, para ver as nossas pessoas. E nos últimos meses, uma pauta muito fundamental explodiu, gerando consenso muito grande entre trabalhadores, que é o fim da escala 6x1. E a gente precisa muito dizer que defender essa pauta deve ser um compromisso cristão, porque em nenhuma lógica predatória de aniquilação do corpo

a aniquilação do espírito, nenhuma lógica dessa cabe no reino de Deus. Não é normal ter uma folga por semana. Não é normal não conseguir ir ao ensaio do louvor, porque sua escala de trabalho não deixa. Não é normal não conseguir ir nas atividades da igreja, porque a escala de trabalho não deixa. Ou do terreiro, ou da casa religiosa que seja. Não é normal não conseguir dar uma volta, fazer um exercício físico, porque você pega muito cedo e chega muito tarde.

Não é normal ter que dar conta de dois, três, quatro empregos simultaneamente pra conta chegar perto de fechar no fim do mês. Não é normal viver pra trabalhar. E se você acredita em vida além do trabalho, você pode se organizar pra estar nos atos dessa semana, ser vocal em defender o que você acredita, levar essa pauta pra sua comunidade de fé, conversar sobre isso com seus amigos. Porque só assim a gente vai construir outros imaginários sobre o Brasil que a gente quer. Faz sentido pra você?

Deixe seu comentário aqui no Spotify, ou onde você está ouvindo, ou no Instagram do Novas. A gente vai adorar saber o que você achou desse episódio. É arroba novas narrativas evangélicas. Você já deve saber, né? Bom, mas você também pode me seguir no meu Instagram, que é arroba Luciana Patterson, underline, underline. Também vou adorar trocar com você sobre o que a gente tem feito por aqui. Um beijo, que Deus te abençoe e até a próxima.

O Bem Viver é um podcast da Rádio Novas. Toda gente junta construindo uma fé consciente, ativa e coletiva. Temos devocionais todo domingo no seu tocador de podcast favorito. Realização, novas narrativas evangélicas. Direção executiva do Novas está comigo, Luciana Peterson e Matheus Machado.

A direção de operações é da Evelyn Azeredo. A coordenação de comunicação é da Tayo Amaral. A designer é a Nick Ellert. A social media é a Nath Almeida. E a DM financeiro está com a Dayal Buquerque e a Suzy Calisto. E a edição é da Voz Ativa Produções. Um beijo, Deus te abençoe. Tchau, tchau. Tchau, tchau.

Vida além do trabalho #BEMVIVER87 | Castnews Index — Castnews Index