[Ep.27/2026] Ezilda Milanez Barreto: vida, obra e legado de uma educadora e escritora paraibana
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Em mais um episódio da série destinada à Revista Kixará, recebemos os professores Marcelo Medeiros e Raimundo Segundo, vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).
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Neste episódio, gravado no Studio FK (Franklin Estúdio), localizado no município de Monteiro-PB, ouviremos uma verdadeira aula de literatura regional baseada no artigo intitulado: "Ezilda Milanez Barreto: vida, obra e legado de uma educadora e escritora paraibana", publicado na Kixará em agosto de 2026.
Tendo como editora-chefe, desde 2024, a professora Yls Rabelo Câmara, a Kixará visa à divulgação aberta e gratuita de artigos, ensaios, resenhas, entrevistas, relatos de experiência, obituários, panegíricos e bibliografias - em português, inglês, espanhol, francês, galego e línguas indígenas - que dialoguem com o espectro interdisciplinar que existe entre História, Pedagogia e Letras, além do repertório de conhecimento que esses campos do saber albergam.
Este episódio marca a continuidade da nossa parceria com esse periódico científico vinculado ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em História e Letras (PPGIHL) da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc) - Campus da Universidade Estadual do Ceará (UECE) em Quixadá.
🔗 Para mais informações sobre a Revista Kixará, acesse o site do Portal de Periódicos da UECE: https://revistas.uece.br/index.php/kixara
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📝 Este episódio lhe ajudou em alguma produção acadêmica? Saiba como referenciá-lo de acordo com o estilo bibliográfico ABNT:
EZILDA Milanez Barreto: vida, obra e legado de uma educadora e escritora paraibana. Convidados: Marcelo Medeiros da Silva e Raimundo Mélo Neto Segundo. Gravação e edição de áudio: Studio FK (Franklin Estúdio). Publicação do episódio: Francisco Edvander Pires Santos. Editora-chefe da Revista Kixará: Yls Rabelo Câmara. Fortaleza: Biblioteca em Podcast: Projeto CoCriando, 2026. Podcast.
🔗 Descrição da imagem de capa disponível em: https://share.gemini.google/p9OQhO2WZb6n
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Marcelo Medeiros da Silva
Raimundo Mélo Neto Segundo
- A invisibilidade das escritoras brasileiras na história literáriaprodução literária feminina·acesso feminino à educação·papel da mulher na sociedade
- A vida e trajetória de Ezilda Milanês Barreto como educadora e ativista socialAreia·Escola Normal·Centro São Francisco·compromisso social
- Análise dos romances de Ezilda Milanês Barreto e seus temas recorrentesE a Luz Brilhará nas Trevas·A Sombra da Gamileira·Nos Arcanos do Império·O Meu Mundo É Assim·condição feminina·desigualdades sociais·escravidão
- A importância do resgate e revisão da literatura de autoria femininacrítica feminista·história da literatura·ANPOL·Zaidê Musá
- O panorama da literatura feminina na Paraíba e a lacuna de pesquisaParaíba·Gemi Cândido·Idelette Musart Fonseca dos Santos·Dicionário Literário da Paraíba·Ana Maria Coutinho de Sales
- A atuação jornalística e romancista de Ezilda Milanês Barretoimprensa paraibana·Revista do Ensino da Paraíba·O Século·O Areiense·romances·condição feminina
Olá, ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast. Eu sou Marcelo Medeiros da Silva, professor de literatura da Universidade Estadual da Paraíba e líder do grupo de pesquisa Mulher e Escrita: Resgate, História e Leituras Críticas. Nosso grupo desenvolve pesquisas sobre a produção literária de autoria feminina, especialmente a de mulheres que escreveram no século 19, com destaque para escritoras paraibanas.
Juntamente com Raimundo Melo Neto II, meu orientando no programa de pós-graduação em Literatura e Interculturalidade, escrevemos para a revista Quixará o artigo intitulado Esilda Milanês Barreto: Vida, Obra e Legado de uma Educadora e Escritora Paraibana. Hoje queremos compartilhar com vocês um pouco dessa pesquisa. E eu gostaria de começar fazendo uma pergunta: você já ouviu falar em Ezilda Milanês Barreto? Muito provavelmente não, e essa resposta não surpreende.
Infelizmente, o desconhecimento sobre escritoras brasileiras faz parte da nossa história. Quando pensamos em nossa produção cultural em geral, normalmente lembramos de nomes masculinos. Rarissimamente nomes femininos vêm à nossa mente. Em se tratando de literatura, quanto mais voltamos no tempo, maior é a impressão de que as mulheres simplesmente não escreviam. Mas essa impressão está longe da verdade. As mulheres escreveram e escreveram muito.
Produziram poemas, romances, contos, crônicas, textos jornalísticos, didáticos e diversos outros gêneros. O problema é que durante muito tempo escrever foi um direito negado às mulheres. Em primeiro lugar, porque o acesso feminino à educação era bastante limitado. Muitas mulheres sequer aprendiam a ler e escrever. Mas mesmo aquelas que conseguiam estudar encontravam outro obstáculo: escrever significava ocupar um espaço que a sociedade considerava masculino.
Naquele contexto, esperava-se que a mulher fosse discreta, dedicada exclusivamente ao lar, ao marido e aos filhos. A escrita, por outro lado, exigia estudo, reflexão, participação intelectual e presença no espaço público. Tudo isso contrariava o modelo de feminilidade dominante, Assim, muitas mulheres viveram um verdadeiro conflito: como escrever sem desafiar aquilo que a sociedade esperava delas? Como tornar públicas suas ideias sem serem vistas como pessoas que ultrapassavam os limites impostos ao comportamento feminino?
Essas perguntas acompanharam inúmeras escritoras ao longo da história. Mesmo diante dessas dificuldades, muitas decidiram escrever. Elas desafiaram normas sociais, romperam expectativas e conquistaram um espaço que durante muito tempo lhes havia sido negado. Pouco a pouco, deixaram de ocupar apenas o lugar de inspiração para os escritores e passaram também a ocupar o lugar de autoras. Foi uma conquista importante, mas ela não resolveu completamente o problema.
Muitas dessas mulheres publicaram livros, colaboraram em jornais, participaram da vida intelectual do seu tempo e ainda assim acabaram esquecidas. Seus nomes desapareceram das histórias da literatura, dos livros didáticos, das universidades e da memória cultural do país. É justamente nesse ponto que nossa pesquisa se insere. Nos últimos anos temos nos dedicado a estudar escritoras que, embora tenham desempenhado papel importante na literatura brasileira permaneceram durante décadas praticamente invisíveis.
Exilda Milanes Barreto é uma dessas vozes. Conhecida por muitos moradores de Areia, importante município paraibano, simplesmente como Dona Exilda, ela foi professora, educadora, jornalista, romancista e uma mulher profundamente comprometida com causas sociais. No entanto, apesar de tudo o que realizou, seu nome permanece pouco conhecido, até mesmo entre pesquisadores da literatura brasileira. Ao longo deste episódio, vamos conhecer sua trajetória, entender o contexto em que ela viveu, descobrir as obras que escreveu e refletir sobre a importância de recuperar sua contribuição para a literatura paraibana e brasileira.
Afinal, Conhecer escritoras como Exílda Milanês não significa apenas resgatar uma autora esquecida, significa também compreender que a nossa história literária é muito mais rica, diversa e complexa do que durante muito tempo aprendemos a imaginar.
Antes de falarmos propriamente de Exílda Milanês Barreto, vale a pena explicar de onde parte a nossa pesquisa. Nós nos dedicamos ao estudo da produção literária de autoria feminina Estamos vinculados ao campo dos estudos literários e da crítica feminista, mas especificamente à linha conhecida como resgate e revisão. Mas o que significa isso? Significa olhar para a história da literatura e perguntar: quais escritoras ficaram de fora dessa história?
Quais mulheres escreveram, publicaram e participaram da vida intelectual de seu tempo, mas acabaram esquecidas? Essa perspectiva foi muito bem sintetizada pela professora Rita Terezinha Schmidty, ao lembrar que os estudos sobre mulher e literatura ajudaram a revelar a relação entre a produção literária, a tradição construída ao longo do tempo e a ideologia patriarcal. Em outras palavras, esses estudos mostram que o esquecimento de muitas escritoras não aconteceu por acaso, Ele faz parte de uma história que privilegiou determinadas vozes e silenciou muitas outras.
Quando nos deparamos com essas ausências, somos levados a refletir sobre a própria formação cultural do nosso país. Será que conhecemos de fato toda a nossa tradição literária ou conhecemos apenas uma parte dela? E mais do que isso, queremos construir um futuro que reconheça essas contribuições ou continuaremos naturalizando esse apagamento? Foi justamente para enfrentar essas questões que surgiram os primeiros trabalhos de resgate e revisão.
Inicialmente, o objetivo era localizar obras esquecidas, identificar suas autoras e devolvê-las ao conhecimento do público. Hoje, essa missão continua, mas ela ganhou uma dimensão ainda maior. Não basta descobrir quem foram essas escritoras, É preciso fazer com que suas obras voltem a circular. É preciso que sejam lidas, estudadas, comparadas, discutidas em salas de aulas, em universidades, em grupos de pesquisa e também por leitores e leitoras interessados e interessadas na literatura brasileira de tempos pretéritos.
Nas últimas décadas, esse movimento cresceu significativamente em várias regiões do país. Grande parte desse avanço foi impulsionada pela crítica feminista, especialmente a partir da década de 1980, quando foi criado o grupo de trabalho A Mulher na Literatura da ANPOL. Os resultados desse movimento são bastante expressivos. Um dos exemplos mais importantes são os 3 volumes da Antologia de Escritoras Brasileiras do Século XIX, organizados pela professora Zaidê Musá.
Esse trabalho abriu caminho para muitas outras pesquisas. Em diferentes estados brasileiros, pesquisadores e pesquisadoras passaram a investigar quais mulheres fizeram da escrita um espaço de atuação intelectual e cultural. Graças a esses estudos, hoje contamos com antologias e pesquisas dedicadas às escritoras do Piauí, de Minas Gerais, do Ceará, de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Essas iniciativas vêm ampliando o nosso conhecimento sobre a literatura produzida por mulheres e mostrando que ela é muito mais rica e diversa do que durante muito tempo se imaginou.
Mas quando voltamos o olhar para a Paraíba, percebemos uma realidade diferente. Aqui, esse movimento de identificação, resgate e valorização das escritoras de tempos idos ainda não se consolidou plenamente. Isso significa ainda conhecemos muito pouco sobre a tradição literária feminina do nosso estado. Ainda há muitas escritoras esperando para serem reencontradas. Ainda há muitas obras aguardando pesquisadores e pesquisadoras que as tragam novamente para o debate.
É justamente nesse cenário que o nosso grupo de pesquisa desenvolve seu trabalho. Temos procurado identificar essas autoras, reconstruir suas trajetórias e contribuir para que seus nomes voltem a fazer parte da história da literatura paraibana. Sabemos que esse é um trabalho que ainda está longe de ser concluído. Há muito a ser pesquisado e foi justamente a partir dessa constatação que iniciamos o caminho que mais adiante nos levaria ao encontro de uma escritora extraordinária, Ezilda Milanês Barreto.
Pois é, quando voltamos nosso olhar para a Paraíba, percebemos que o trabalho de resgate das escritoras ainda está em construção. Enquanto na década de 1980 a professora Zaidê Musá desenvolvia na região sul do Brasil as primeiras pesquisas voltadas ao resgate e a revisão da literatura de autoria feminina, a Paraíba ainda dava os primeiros passos para contar a história de sua própria literatura. Por exemplo, é de 1983 a obra História Crítica da Literatura Paraibana, escrita pelo jornalista Gemi Cândido.
Sem dúvida, esse livro representou um marco importante para os estudos da literatura produzida em nosso estado. No entanto, como ocorreu em muitas histórias literárias, a maior parte da atenção foi dedicada às obras de autoria masculina. As escritoras aparecem pouco, em alguns casos recebem apenas um breve comentário, em outros sequer são mencionadas. Para preencher essa lacuna e pensarmos especificamente na literatura produzida por mulheres na Paraíba, um passo importante foi dado alguns anos depois com a publicação do Dicionário Literário da Paraíba, organizado pela professora Idelette Musart Fonseca dos Santos e lançado em 1994 pela Editora União.
Embora esse dicionário não tenha sido concebido exclusivamente para tratar da literatura de autoria feminina, ele reúne informações valiosas sobre diversas escritoras paraibanas. Ali encontramos dados sobre suas trajetórias, suas áreas de atuação, as obras que publicaram, em alguns casos pequenos perfis biográficos. Em outros verbetes, porém, as informações são muito reduzidas. Às vezes restam apenas o nome da escritora, algumas datas e a relação de obras publicadas.
Mesmo assim, trata-se de uma fonte extremamente importante porque a autora elenca diversos nomes esquecidos na historiografia literária do estado. Nesse dicionário aparecem 35 verbetes dedicados a escritoras paraibanas. A maior parte delas nasceu no século 20, apenas duas possivelmente nasceram no final do século 19. Esse dado nos leva a uma reflexão importante: será que realmente existiram tão poucas mulheres escrevendo na Paraíba antes do século 20?
Ou será que muitas delas escreveram, mas seus textos nunca chegaram a ser publicados? Talvez algumas tenham produzido poemas, narrativas ou outros escritos apenas para o ambiente familiar. Talvez tenham guardado esses textos durante toda a vida. Talvez até os tenham destruído por receio do julgamento social. Não podemos afirmar, mas também não podemos concluir que esses escritos simplesmente não existiram. No ambiente universitário, embora os estudos sobre literatura paraibana ainda sejam relativamente poucos, e mais raros ainda quando se trata das escritoras de épocas passadas, algumas pesquisas têm contribuído para ampliar esse panorama.
Uma delas é o livro A Recifes e Lagedos: Breve Itinerário da Poesia na Paraíba, publicado por Idelberto Barbosa Filho em 2011. Resultado de sua pesquisa de doutorado, esse trabalho ajuda a preencher uma importante lacuna na historiografia literária paraibana, especialmente no campo da poesia. Embora não tenha sido concebido com o propósito específico de resgatar escritoras, O livro apresenta nomes de autores e autoras que se destacaram na produção poética do estado até a segunda metade do século 20.
Assim, acaba oferecendo importantes pistas para pesquisas posteriores sobre a participação feminina em nossa literatura. Outro estudo de grande relevância é a dissertação de mestrado de Campos Júnior, intitulada A Sombra da Gamileira, Literatura Contemporânea e os Rumos da Produção Feminina na Paraíba, defendida em 2015. Nesse trabalho, o pesquisador catalogou mais de 350 nomes de escritoras que publicaram entre 1920 e 2013. Esse levantamento representa uma contribuição fundamental para a preservação da memória feminina na cultura paraibana.
A pesquisa revela que muitas das autoras conhecidas atualmente nasceram ainda nas últimas décadas do século 19 ou nas primeiras décadas do século 20. No entanto, elas começaram a publicar principalmente a partir da década de 1920, quase sempre em jornais. Naquele momento, a poesia era o gênero mais cultivado por essas mulheres. Ao longo do século 20, essa produção foi crescendo Novas escritoras passaram a publicar livros individuais ou a participar de coletâneas.
Segundo Campos Júnior, o momento de maior intensidade dessa produção ocorreu na década de 1990, quando iniciativas do Núcleo Cultural Português e da Editora Caravela possibilitaram a publicação de diversas escritoras paraibanas nas coletâneas Autores Campinenses e autores paraibanos. Outro estudo pioneiro merece destaque. Trata-se da tese de doutorado de Ana Maria Coutinho de Sales, intitulada Tecendo Fios de Liberdade: Escritoras e Professoras da Paraíba do Começo do Século 20, defendida em 2005.
Nessa pesquisa, a autora recupera a trajetória de mulheres que atuaram como professoras e escritoras nas primeiras décadas do século 20. Foram mulheres que utilizaram a literatura para defender a liberdade humana, a justiça social, combater o racismo e enfrentar diferentes formas de opressão. Como destaca a pesquisadora, elas fizeram da literatura um espaço de atuação política e de transformação social. Entre os nomes recuperados por Ana Maria Coutinho de Sales está justamente aquele que motiva este episódio: Exilda Milanês Barreto.
Mas as pesquisas sobre escritoras paraibanas não se limitam aos livros. Os jornais e revistas literárias também constituem um campo extremamente rico para novas investigações. Embora já existam estudos sobre a participação feminina em publicações como o Correio das Artes, ainda permanecem pouco explorados outros periódicos importantes como o suplemento Tudo, do antigo Diário da Borborema, e a revista Garatuja, publicada em Campina Grande na década de 1970.
Esses espaços reuniram a colaboração de muitas mulheres que ainda aguardam pesquisas mais aprofundadas. Aliás, é importante lembrar que na Paraíba, durante muito tempo, os jornais desempenharam um papel fundamental para a circulação da literatura. Isso não aconteceu apenas com as escritoras. Muitos escritores também utilizaram os periódicos como principal meio de divulgação de seus textos. Em outras palavras, compreender a história da literatura paraibana passa necessariamente pela leitura desses jornais e revistas.
Foi justamente nesse universo de pesquisas, arquivos, jornais, livros e documentos que encontramos uma escritora cuja trajetória reúne literatura, educação, compromisso social e uma profunda dedicação à cultura paraibana. Essa escritora é Ezilda Milanês Barreto, e é sobre ela que vamos falar a partir de agora.
Agora que conhecemos um pouco do contexto em que nossa pesquisa se desenvolve, chegou o momento de apresentar a personagem principal deste episódio. Afinal, quem foi Ezilda Milanês Barreto? Durante muitos anos ela foi conhecida simplesmente como Dona Ezilda pelos moradores da cidade de Areia, no Brejo Paraibano. Foi nessa cidade que construiu grande parte de sua trajetória, desenvolveu seu trabalho como professora, participou de inúmeras ações sociais e escreveu os romances que hoje começam a ser redescobertos pelos pesquisadores e pesquisadoras.
Curiosamente, apesar de sabermos exatamente o dia em que ela nasceu e o dia em que faleceu, ainda existem dúvidas importantes sobre sua biografia. Sabemos que Dona Exilda nasceu em 29 de fevereiro, portanto em um ano bissexto. Era filha de Joaquim Ferreira Dantas e Maria Ferreira Milanês. Inicialmente utilizou o sobrenome paterno Dantas. Mais tarde, ao casar-se, preferiu conservar o sobrenome da mãe, Milanês, acrescentando o sobrenome do marido, Barreto.
Esse gesto uniu suas raízes maternas à nova etapa de sua vida. Também sabemos que ela faleceu em 19 de janeiro de 1986, na cidade de Areia, onde viveu durante a maior parte de sua existência. Hoje seu túmulo encontra-se no Cemitério São Miguel, naquela cidade, sob a sombra de uma frondosa aroeira. Mas quando tentamos descobrir exatamente onde e em que ano ela nasceu, surgem algumas incertezas. Alguns estudos apontam que Dona Isilda nasceu em 1898 na cidade de Guarabira.
Outras informações obtidas em entrevistas realizadas com Dona Aliança Barreto, enteada da escritora, indicam que ela teria nascido em 1902 em Serra Redonda, então distrito de Ingá, informações confirmadas pelo diploma de normalista da autora. Entretanto, outros documentos pessoais, como a certidão de casamento e o título de eleitor, apresenta uma terceira possibilidade. Nele, o ano de nascimento registrado é 1907 e o local de nascimento passa a ser João Pessoa.
Há ainda um detalhe curioso: como ela nasceu em 29 de fevereiro, nenhuma dessas três datas possíveis, 1898, 1902 e 1917 corresponde a um ano bissexto. A certidão de nascimento da escritora foi destruída em um incêndio, por isso esse mistério permanece até hoje. Uma coisa é certa: Ezilda Milanês Barreto pertenceu à geração de escritoras das primeiras décadas do século 20 e ocupa um lugar importante na literatura paraibana. Embora sua obra tenha permanecido esquecida durante muito tempo.
Infelizmente, esse destino não foi exclusivo dela. Como vimos anteriormente, muitas escritoras brasileiras tiveram suas obras silenciadas ou apagadas da história da literatura. Em 1927, Dona Isilda concluiu sua formação na Escola Normal. Naquele período, Tornar-se professora representava uma das poucas possibilidades de acesso das mulheres à educação formal e também à participação na vida pública. O magistério era para muitas delas muito mais do que uma profissão, era uma oportunidade de estudar, trabalhar e ampliar sua presença na sociedade.
Depois de diplomada, ela mudou-se para Areia. Foi nessa cidade que iniciou sua atuação como professora no Grupo Escolar Álvaro Machado, mas sua contribuição não se limitou à sala de aula. Ao mesmo tempo em que ensinava, envolveu-se profundamente em ações de caráter sociais e assistenciais. Participou de atividades voluntárias no Albergue Pedro Simeão Leal, Instituição vinculada à paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Areia e dirigida pelo Monsenhor Rui Barreira Vieira.
Também teve participação decisiva na criação e na administração do Centro São Francisco. Essa instituição foi fundada por seu esposo João Barreto, atendendo a um pedido dela. O centro funcionava em frente à residência do casal e ali eram oferecidos cursos de crochê e corte e costura para mulheres da região. A renda obtida com a venda das peças confeccionadas era destinada às famílias mais necessitadas. Esse compromisso social também se refletia em sua atividade como escritora.
Quando publicou seu terceiro romance, Nos Arcanos do Império, em 1981, toda renda obtida com a venda da obra foi destinada ao Centro São Francisco. Essa informação aparece inclusive em um anúncio publicado no jornal O Areiense por ocasião do lançamento do livro. Esses episódios mostram que Para Esilda Milanês Barreto, literatura e compromisso social caminham lado a lado. Sua atuação como educadora, escritora e agente de ações beneficentes revela uma mulher profundamente envolvida com os problemas de sua comunidade e comprometida com a melhoria das condições de vida das pessoas mais vulneráveis.
Mas sua atuação não se restringiu à educação e ao trabalho social. Ela também encontrou no jornalismo outro espaço importante para exercer sua voz. E é justamente sobre essa faceta de Exilda Milanês Barreto que vamos conversar.
Pois é, Raimundo, ao longo de sua vida, Exilda Milanês Barreto construiu uma trajetória marcada pela educação, pela escrita e pelo compromisso com as questões sociais, como você já nos contou. Além do trabalho como professora e das ações beneficentes que desenvolveu em Areia, ela também participou ativamente da imprensa paraibana. Na década de 1930, colaborou com a Revista do Ensino da Paraíba, publicando textos artigos voltados para a educação.
Nesses escritos, discutia práticas pedagógicas alinhadas aos princípios da Escola Nova, movimento que naquele período defendia uma renovação do ensino e da própria concepção de educação. Mais tarde, passou a colaborar também com os jornais O Século, na década de 1950, e O Areiense, entre as décadas de 1970 e 1980. Por meio desses jornais, tratou de diversos temas ligados à realidade social. Escreveu sobre a situação das mulheres, das crianças, dos estudantes e das populações mais vulneráveis.
Mas há um aspecto de sua atuação jornalística que merece destaque. Dona Exilda também se preocupou em preservar a memória de outras mulheres, registrando em seus textos a trajetória de professoras como Carminha Souza, Alda Derli e Nanete Santiago. Ao escrever sobre essas educadoras, contribuiu para que suas histórias não fossem esquecidas. Esse cuidado com a memória feminina revela uma característica importante de sua atuação intelectual.
Ela compreendia que valorizar o trabalho de outras mulheres também era uma forma de construir a história da educação e da cultura paraibanas. Ao mesmo tempo em que escrevia para os jornais, Dona Exilda consolidava outro aspecto fundamental de sua produção intelectual: ela se afirmava como romancista. Nas primeiras décadas do século 20, publicou 4 romances. Todos eles têm mulheres como protagonistas e em todos eles encontramos personagens que enfrentam conflitos provocados pelas normas sociais impostas às mulheres de seu tempo.
Suas narrativas abordam questões como a liberdade feminina, o casamento, o adultério, o desejo, a moral, o divórcio e as desigualdades sociais. Entretanto, é importante compreender o contexto em que essas obras foram escritas. Ezilda Milanês Barreto vivia em uma sociedade profundamente conservadora, publicava seus livros no interior da Paraíba, em um período em que mulheres escritoras enfrentavam enormes dificuldades para conquistar reconhecimento.
Por isso, embora seus romances apresentem personagens femininas que desafiam convenções sociais, suas narrativas também revelam o cuidado da autora em não romper completamente com os valores predominantes de sua época. Em outras palavras, seus livros estabelecem um diálogo constante entre mudança e permanência. Ao mesmo tempo em que permitem discutir questões relacionadas à condição feminina, também evidenciam os limites impostos pela sociedade em que foram produzidos.
É justamente essa tensão que torna sua obra tão interessante para os estudos literários atuais. Ao analisar seus romances, percebemos que eles não apenas contam histórias, eles registram valores, conflitos e transformações vividas pelas mulheres brasileiras ao longo do século 20. Cada romance apresenta personagens e situações diferentes, mas todos dialogam de alguma forma com as expectativas sociais dirigidas às mulheres e com as possibilidades ou impossibilidades de romperem essas expectativas.
Foi em 1940 que ela publicou seu primeiro romance intitulado E a Luz Brilhará nas Trevas. Esse livro marcou sua entrada definitiva no universo da literatura. Na época, publicar um romance já era um grande desafio. Para uma mulher que vivia no interior da Paraíba, esse desafio era ainda maior. A obra foi impressa pelas gráficas da Livraria Santo Antônio ligadas à tipografia do jornal O Século da cidade de Areia. O jornal pertencia a Antônio Benvindo, importante incentivador da vida cultural da região.
Exílio Milanês colaborava com O Século e é bastante provável que essa relação tenha sido definitiva para a publicação do romance. Ainda uma curiosidade interessante: Esse livro nasceu a partir de uma peça teatral concebida pela autora para ser encenada pelos seus alunos do grupo escolar Álvaro Machado, no contexto das práticas educativas desenvolvidas por ela. Antes de ganhar a forma de romance, portanto, essa história já havia sido concebida para o palco.
Outro aspecto chama logo nas primeiras páginas da obra. No prólogo, a autora fala do antigo desejo de escrever um livro. Ela reconhece que ingressar no universo da literatura significava percorrer um caminho cheio de incertezas, não porque lhe faltassem ideias, mas porque esse ainda era um espaço predominantemente ocupado por homens. Esse sentimento não era exclusivo dela, Diversas escritoras brasileiras do século 19 manifestaram preocupação semelhante.
Escrever, publicar e conquistar leitores e leitoras representava enfrentar resistências que muitas vezes não eram impostas à produção masculina. Quando passamos à narrativa propriamente dita, encontramos uma protagonista chamada Edna, Ela é uma mulher que reivindica o direito de amar e de decidir sobre sua própria vida afetiva. No entanto, essa escolha a coloca em confronto com os valores morais da sociedade em que vive. Ao desafiar as normas estabelecidas para o comportamento feminino, Edna passa a sofrer as consequências dessa transgressão.
Ao longo do romance, Percebemos que a autora constrói uma narrativa marcada por forte intenção moral. Isso aparece inclusive na imagem escolhida para a capa da obra. Nela, um farol rompe a escuridão. Essa imagem simboliza a fé e antecipa uma das mensagens centrais do romance. No desfecho da narrativa, a protagonista acaba sendo punida. Sua morte funciona como uma reafirmação da ordem social vigente. É como se o romance dissesse aos leitores e leitoras que romper determinados limites impostos às mulheres traz consequências inevitáveis.
Em contraste com Edna, aparece outra personagem importante, Maria Helena. Ela representa o modelo feminino valorizado naquela sociedade. É representada como esposa dedicada, obediente e virtuosa. Dessa forma, o romance estabelece uma oposição bastante clara entre duas formas de viver a condição feminina: de um lado, a mulher que desafia as convenções; do outro, aquela que se mantém fiel aos papéis tradicionalmente inesperados.
Há ainda outro elemento significativo nessa publicação: o livro traz um prefácio escrito pelo Padre Francisco Lima. A presença desse prefácio confere à obra uma espécie de legitimação religiosa. Esse aspecto ajuda a compreender como temas delicados para a época, como o adultério, o aborto e o desejo feminino puderam circular em um ambiente profundamente conservador como o interior paraibano das primeiras décadas do século 20. Hoje, ao lermos E a Luz Brilhará nas Trevas, percebemos que o romance revela muito mais do que a história de suas personagens.
Ele nos permite compreender os conflitos vividos por muitas mulheres naquele período. Mostra os limites impostos pela sociedade, mostra os riscos enfrentados por quem ousava ultrapassá-los, e evidencia também os cuidados que uma escritora precisava adotar para tratar desses assuntos sem romper completamente com os valores predominantes de sua época. É justamente essa tensão entre crítica e conservação que torna o romance tão interessante para os pesquisadores da literatura brasileira, e ela continuará presente nas obras seguintes de Ezilda Milanês Barreto.
Depois da publicação de E a Luz Brilhará nas Trevas, Ezilda Milanês Barreto voltou à ficção com romance bastante diferente do primeiro. Trata-se de A Sombra da Gamileira. Existe, porém, uma curiosidade em torno dessa obra. Até hoje não sabemos com absoluta certeza quando ela foi publicada. O Dicionário Literário da Paraíba registra o ano de 1961. Entretanto, exemplares autografados pela própria Zilda, além das informações fornecidas por familiares, indicam 1975 como a data mais provável de lançamento.
Essa divergência permanece, mas não diminui a importância do romance. Aliás, entre os leitores e leitoras da região de Areia, esta talvez seja a obra mais conhecida da escritora. Diferentemente do romance anterior, A Sombra da Gamileira nos leva para a primeira metade do século 19, A narrativa inspira-se em uma personagem que realmente existiu. Seu nome era Carlota Lúcia de Brito. Ela viveu uma história marcada por conflitos políticos, disputas de poder e fortes julgamentos morais.
Carlota manteve uma relação amorosa com o Major Quincas, importante liderança liberal da época. Essa relação provocou um intenso conflito com Trajano Alímpio de Holanda Chacon Cavalcanti, chefe conservador da região. Mais do que uma disputa política, tratava-se também de um confronto em torno da moral e do comportamento feminino. Na memória coletiva da cidade de Areia, Carlota passou a ser lembrada de maneiras muito diferentes.
Algumas narrativas apresentaram sua imagem de forma negativa, Outras preferiram vê-la como uma mulher trágica ou como alguém que enfrentou à sua maneira a ordem patriarcal do seu tempo. Foi justamente essa personagem histórica que inspirou Ezilda Milanês Barreto, mas a escritora não reproduziu simplesmente os acontecimentos conhecidos. Ela transformou Carlota Lúcia em Carlota Flores, protagonista de seu romance. Ao fazer isso, construiu uma obra em que ficção e história caminham lado a lado.
Por meio dessa personagem, o romance discute o conflito entre os desejos individuais e as estruturas de poder que organizavam a sociedade brasileira do século 19. Durante nossa pesquisa, encontramos outro dado bastante interessante. Nos arquivos pessoais da escritora, descobrimos que o projeto inicial desse romance era diferente. A protagonista seria uma personagem jovem chamada Ceres. Ela era apresentada como uma mulher que buscava o divórcio para libertar-se de um casamento opressor.
Posteriormente, Dona Isilda abandonou essa ideia e passou a construir a narrativa em torno de Carlota. Essa mudança provavelmente não aconteceu por acaso. É possível compreendê-la à luz do contexto em que a autora vivia. Ela mantinha forte vínculo com a Igreja Católica e o divórcio era um tema extremamente sensível naquele momento histórico. Ao deslocar o centro da narrativa para uma personagem inspirada em fatos do passado, a autora encontrou outra forma de discutir a condição feminina.
No romance, a protagonista continua enfrentando os limites impostos as mulheres, mas a solução construída para sua história preserva determinados valores que a sociedade considerava aceitáveis. Ao final da narrativa, o casamento aparece como possibilidade de redenção de Carlota Flores. Isso significa que Exilda rompe completamente com a visão tradicional de mulher? Não, mas também não significa que apenas a reproduz. O romance estabelece uma relação muito mais complexa com seu tempo.
Ao mesmo tempo em que preserva determinados valores da moral cristã, revela os mecanismos por meio dos quais a sociedade controlava a vida das mulheres. É justamente nessa tensão que reside um dos aspectos mais interessantes da obra. Além disso, A Sombra da Gamileira oferece aos leitores e leitoras um retrato da sociedade brasileira do século 19. Ao acompanhar a trajetória de Carlota Flores, conhecemos também personagens que representam mães, esposas, donas de casa e outras figuras femininas inseridas naquele universo social.
Mais do que reconstruir um episódio da história de Areia, Exílda Milanês Barreto utiliza a ficção para refletir sobre a posição da mulher em uma sociedade organizada segundo valores patriarcais. Esse diálogo entre memória histórica, ficção e condição feminina torna A Sombra da Gamileira uma das obras mais importantes de sua produção literária. Mas a escritora ainda iria ampliar o alcance de sua ficção. Seu romance seguinte levaria os leitores e leitoras para outro cenário, explorando os conflitos de uma aristocracia em decadência as marcas da escravidão e, mais uma vez, os dilemas enfrentados pelas mulheres.
Assim, em 1981, Ezilda Milanes Barreto publicou seu terceiro romance, Nos Arcanos do Império. Mais uma vez, encontramos uma protagonista feminina. Seu nome é Rosemary do Morin, ou simplesmente Rose. Ela é uma jovem branca, rica e pertencente a uma família aristocrática. Depois de estudar em um colégio de freiras, retorna ao castelo onde vive sua família no Rio de Janeiro. À primeira vista, a narrativa parece acompanhar apenas os conflitos cotidianos de uma jovem criada com privilégios, mas essa impressão muda rapidamente.
Pouco a pouco, o romance revela segredos escondidos pela família do Morroi e é É justamente por isso que o título da obra faz tanto sentido. Os arcanos do império são os mistérios, os segredos e as contradições que sustentam aquela família, e de maneira mais ampla, a própria sociedade retratada pela autora. À medida que a história avança, o adultério passa a ocupar o centro da narrativa. É esse tema movimenta os acontecimentos e expõe as fragilidades morais de uma aristocracia que procura preservar as aparências.
Ao mesmo tempo, Dona Isilda situa esses conflitos em um Brasil ainda marcado pelas heranças do período escravagista. Durante muitos anos, parte da crítica concentrou sua atenção justamente nesse aspecto. Alguns estudos destacaram principalmente a representação da escravidão, das desigualdades sociais e das condições de vida da população negra. De fato, essas questões estão presentes no romance e ajudam a compreender o contexto histórico em que a narrativa se desenvolve.
No entanto, nossa leitura propõe outro olhar. Sem negar a importância desses cenário histórico, entendemos que ele funciona como a moldura dentro da qual se desenvolve o verdadeiro núcleo da narrativa. O centro da história está na vida privada da família do Mourão, e é justamente nesse ambiente doméstico que os grandes conflitos aparecem. Ao longo da narrativa, descobrimos que Rose e Otto do Mourão apresentados inicialmente como pai e filha, são na verdade irmãos, filhos de relações extraconjugais.
Essa revelação modifica completamente a maneira como compreendemos os acontecimentos anteriores. Mais do que um simples recurso para surpreender os leitores e leitoras, esse segredo permite à autora discutir as contradições morais daquela sociedade. O adultério feminino deixa de ser apenas um acontecimento individual, ele passa a ameaçar um dos pilares da organização patriarcal: a honra masculina. Em outras palavras, a escritora mostra como a sociedade atribuía enorme importância ao controle da sexualidade das mulheres, porque era esse controle que garantia a estabilidade da família e da herança.
Quando essa lógica era rompida, toda a estrutura parecia entrar em crise. É justamente por isso que o adultério ocupa posição tão central na narrativa. Enquanto a escravidão constitui o pano de fundo histórico do romance, os conflitos familiares revelam os mecanismos pelos quais o poder também era exercido dentro das relações privadas. Ao construir essa narrativa, Ezilda Milanês Barreto amplia temas que apareciam em seus romances anteriores.
Mais uma vez encontramos mulheres submetidas às normas sociais. Mais uma vez vemos personagens tentando conciliar desejos individuais e expectativas impostas pela sociedade. Mas agora esse conflito surge em um ambiente ainda mais complexo, marcado pelos privilégios da aristocracia imperial e pelas profundas desigualdades herdadas da escravidão. Assim, Nos Arcanos do Império não se limita a contar a história de uma família, O romance também convida o leitor e a leitora a refletir sobre os valores morais que sustentavam aquela sociedade e sobre as consequências produzidas quando esses valores eram colocados em questão.
Pouco tempo depois da publicação desse livro, a autora encerraria sua produção romanesca com uma obra que muitos pesquisadores leitores consideram a mais ousada de toda a sua trajetória. Nela, a autora retoma temas que atravessaram seus romances anteriores, mas o faz de maneira ainda mais intensa.
Em 1983, veio a público O Meu Mundo É Assim, obra que encerra sua trajetória como romancista. Curiosamente, esse livro demorou muitos anos para chegar aos leitores e leitoras. A própria autora já anunciava sua existência desde a publicação de E a Luz Brilhará nas Trevas em 1940. Mesmo assim, o romance permaneceu inédito durante décadas. É bastante provável que as dificuldades enfrentadas por Dona Exilda para publicar seus livros, especialmente por viver afora dos grandes centros editoriais do país tenham contribuído para esse longo intervalo.
Como aconteceu com seus romances anteriores, O Meu Mundo É Assim teve apenas uma edição. Isso explica em parte sua pequena circulação e o fato de ainda ser uma obra pouco conhecida. No entanto, para nós pesquisadores de sua produção literária, este é provavelmente o é o romance mais ousado que Exílda Milanês escreveu. A narrativa se passa na Fazenda Recanto, espaço que simboliza o brejo paraibano e preserva as marcas deixadas pelo sistema escravocrata.
É nesse cenário que acompanhamos a história de Juliana, também chamada de Liana. Ela pertence a uma família burguesa e cresce sob a forte autoridade do pai. Desde cedo, seus sentimentos e suas escolhas passam a ser controlados pelas expectativas da família. Quando Liana se apaixona por um homem considerado inadequado, não lhe é permitido viver esse amor. Em vez disso, é obrigada a aceitar um casamento imposto como forma de reparar aquilo que a sociedade considerava uma transgressão.
Mais uma vez, encontramos um tema recorrente na obra de Liliane Barreto. O casamento aparece como instrumento de controle da vida feminina. O destino da protagonista deixa claro que naquela sociedade os desejos das mulheres precisavam submeter-se às normas estabelecidas pela autoridade patriarcal. Ao longo da narrativa, a transgressão vivida por Liliane produz consequências profundas. Ela passa a carregar sentimento sentimento de culpa, experimenta o peso da punição social, e esse estigma acaba atingindo também seus filhos.
No entanto, diferentemente do que acontece em alguns momentos dos romances anteriores, a escritora oferece à protagonista uma possibilidade de reconciliação. Depois de ficar viúva, Liana finalmente consegue casar-se com Alexandre, o grande amor de sua vida. Esse desfecho reafirma uma ideia que aparece com frequência na ficção da autora: o casamento continua sendo apresentado como caminho para a redenção feminina. Isso significa que Dona Isilda abandona sua preocupação com a condição da mulher?
Ao contrário, mais uma vez ela constrói uma narrativa marcada pela tensão entre permanência e mudança. Ao mesmo tempo em que evidencia os limites impostos às mulheres mantendo determinados valores que organizavam a moral de sua época. Mas há outra personagem que merece atenção especial. Seu nome é Mãe Benta. Ela é uma mulher negra antiga escravizada que dedicou sua vida à criação de Liana. Com o passar dos anos, porém, é abandonada na velha fazenda enquanto a família se desagrega Mãe Benta permanece naquele espaço cuidando do antigo proprietário, Júlio Fernandes, já tomado pela loucura.
Sua presença na narrativa possui um significado profundo. Por meio dessa personagem, a autora chama a atenção para outra dimensão das desigualdades existentes na sociedade brasileira. Depois da abolição da escravidão, muitas pessoas negras continuaram vivendo em condições de abandono e invisibilidade. Mãe Benta simboliza justamente essa realidade. Ela representa uma população que perdeu sua importância econômica para a antiga ordem social, mas que continuou carregando o peso da exclusão.
Ao construir essa personagem, a autora amplia o alcance social do romance. Os conflitos deixam de envolver apenas da vida de mulheres brancas pertencentes às famílias tradicionais. Passam também a incluir a experiência das populações negras no período posterior à escravidão. Essa preocupação aproxima O Meu Mundo É Assim dos outros romances dela, que registram em diversas épocas a condição das mulheres negras, como Mariquinha, de E a Luz Brilhará nas Trevas, Ingrácia, e Escrava Velha, de À Sombra da Gamileira, e Paulina, de Nos Arcanos do Império.
De maneira que, em diferentes momentos de sua produção, encontramos personagens negras que evidenciam as desigualdades construídas ao longo da história brasileira. Assim, ao concluir sua trajetória como romancista, Ezilda retoma praticamente todos os temas que marcaram sua obra. A condição feminina, o peso da moral patriarcal, o casamento como destino social das mulheres, as desigualdades raciais, a memória histórica e os conflitos entre os desejos individuais e as normas impostas pela sociedade.
Esses são temas que atravessam seus 4 romances e ajudam a compreender por que sua produção merece ocupar um lugar de destaque na literatura paraibana brasileira.
Ao longo deste episódio conhecemos a trajetória da escritora Esilda Milaneses Barreto como professora, jornalista, romancista e agente de ações sociais. Mas sua contribuição para a cultura paraibana não terminou com a publicação de seus romances. Há outro aspecto importante de sua atuação que merece ser lembrado. Além da produção ficcional Dona Exilda dedicou-se também à preservação da memória. Em determinado momento de sua vida, registrou em um pequeno caderno as lembranças ditadas por seu esposo, João Barreto.
Essas memórias permaneceram inéditas durante muitos anos. Somente em 1995, por iniciativa dos filhos de João Barreto, Francisco Haroldo Vivian Barreto de Araújo e Maria Vitória de Aliança Barreto Paiva. Esse material foi publicado em homenagem ao centenário de nascimento dele. Durante nossa pesquisa, tivemos acesso tanto aos manuscritos quanto à edição publicada. Ao confrontarmos os dois documentos, verificamos que publicação preservou fielmente o conteúdo original.
É importante destacar, porém, que essas memórias são de autoria de João Barreto. Coube a Dona Ezilda o trabalho de registrá-las por escrito. Mesmo nos últimos anos de sua vida, ela continuou profundamente envolvida com as causas sociais nas quais acreditava. Manteve sua atuação em defesa das mulheres em situação de vulnerabilidade, das pessoas idosas e da população mais carente. Também participou da vida cultural paraibana. Embora tenha optado por não integrar o grupo de fundadores da Academia de Letras de Campina Grande, manteve diálogo com essa instituição e utilizou reconhecimento que possuía para defender causas que considerava importantes.
Sua interlocução com intelectuais de seu tempo, entre eles Amaury Vasconcelos, que escreveu o prefácio de O Meu Mundo É Assim, demonstra que Dona Isilda participou ativamente da vida intelectual paraibana. Reconhecida por seu espírito solidário, continuou desenvolvendo ações educacionais e beneficentes até o fim da vida. Exílio Milanês Barreto, como dissemos anteriormente, faleceu em 1986 na cidade de Areia. Seu falecimento foi noticiado pelo jornal A Cidade.
Durante o velório, um de seus antigos alunos, Pedro Cunha Lima, destacou em seu discurso a inteligência, a dedicação e a bondade da professora. Com o passar dos anos, sua memória continuou sendo preservada por diferentes instituições. Na cidade de Areia, uma creche no bairro da Jussara recebeu seu nome. Ela também se tornou patrona da cadeira número 10 da Academia de Letras de Areia. É patrona da cadeira número 7 da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba.
Em 2024, recebeu uma nova homenagem da Academia Popular Oliveira de Panelas, que lhe dedicou uma cadeira sem número. No mesmo ano, seu nome passou a identificar a categoria conto do Prêmio Literário Juventude nas Letras promovido pela FUNESC. Ainda em 2024, por ocasião de seu aniversário, a Biblioteca Nacional destacou sua trajetória e sua obra, reconhecendo-a como uma escritora comprometida com o enfrentamento do racismo e com a defesa das pessoas mais pobres.
Ao longo deste episódio, não procuramos apenas apresentar contar a biografia de uma escritora. Procuramos mostrar que a história da literatura brasileira ainda guarda muitas lacunas. Durante muito tempo, diversas mulheres escreveram, publicaram livros, colaboraram com jornais, participaram da vida intelectual e contribuíram para a formação cultural de seus estados. Mesmo assim, muitas delas seram praticamente invisíveis.
Pois é, Raimundo e ouvintes, Exilda Milanês Barreto é uma dessas vozes que ficaram invisibilizadas em nossa historiografia literária. Ao recuperar sua trajetória, seus romances e sua atuação como educadora e agente social, procuramos contribuir para que sua obra volte a circular entre leitoras e leitores, professoras e professores, estudantes e pesquisadores e pesquisadoras. Mais do que conhecer uma escritora do passado, conhecer Ezilda Milanês Barreto significa compreender que a literatura brasileira é mais ampla, mais diversa e mais plural do que durante muito tempo aprendemos.
Significa reconhecer que ainda há muitas autoras esperando para serem reencontradas e que cada pesquisa de resgate representa também um compromisso com a preservação da nossa memória cultural. Esperamos que este episódio desperte em vocês a curiosidade para conhecer a obra de Exílda Milanês Barreto e de tantas outras escritoras que ajudaram a construir a literatura brasileira. Muito obrigado pela companhia.