[Ep.26/2026] A violência como potência: desejo, interdição e patriarcado em Carla Madeira
📚 Biblioteca em Podcast 🎧
Em mais um episódio da série destinada à Revista Kixará, recebemos Natália Lacerda, graduada em Geologia pela Universidade Federal do Ceará e discente do curso de Letras – Português na Universidade Cândido Mendes. É estagiária docente no Liceu do Ceará e possui interesse de pesquisa sobre literatura contemporânea brasileira, escrita criativa e educação. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7678604356240383
Neste episódio, ouviremos a versão em áudio do artigo intitulado: A violência como potência: desejo, interdição e patriarcado em A Natureza da Mordida, de Carla Madeira, publicado na Kixará em agosto de 2026. A coautoria do artigo pertence à professora Cristiane Lima da Silva. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5371941819952398
Tendo como editora-chefe, desde 2024, a professora Yls Rabelo Câmara, a Kixará visa à divulgação aberta e gratuita de artigos, ensaios, resenhas, entrevistas, relatos de experiência, obituários, panegíricos e bibliografias - em português, inglês, espanhol, francês, galego e línguas indígenas - que dialoguem com o espectro interdisciplinar que existe entre História, Pedagogia e Letras, além do repertório de conhecimento que esses campos do saber albergam.
Este episódio marca a continuidade da nossa parceria com esse periódico científico vinculado ao Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em História e Letras (PPGIHL) da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc) - Campus da Universidade Estadual do Ceará (UECE) em Quixadá.
🔗 Para mais informações sobre a Revista Kixará, acesse o site do Portal de Periódicos da UECE: https://revistas.uece.br/index.php/kixara
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A VIOLÊNCIA como potência: desejo, interdição e patriarcado em A Natureza da Mordida, de Carla Madeira. Gravação do episódio: Natália Lacerda Porto Manhães. Edição de áudio: Francisco Edvander Pires Santos. Coautora do artigo: Cristiane Lima da Silva. Editora-chefe da Revista Kixará: Yls Rabelo Câmara. Fortaleza: Biblioteca em Podcast: Projeto CoCriando, 2026. Podcast.
🔗 Descrição da imagem de capa disponível em: https://share.gemini.google/bR4cCUxJp5Qh
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Natália Lacerda
- Apresentação da pesquisa sobre a obra de Carla Madeira e suas motivaçõesCarla Madeira·A Natureza da Mordida·Violência como Potência·Desejo, Interdição e Patriarcado
- O abandono de Teodoro e a violência simbólica na famíliaTeodoro·Bia·Teresa·Violência simbólica·Pierre Bourdieu
- O sonho como revelador de desejos e a violência como potênciaTeodoro·Sonhos·Desejo·Violência como potência
- A complexidade dos personagens e a narrativa não linear de Carla MadeiraCarla Madeira·A Natureza da Mordida·Véspera·Narrativa não linear
- A pedagogia da masculinidade e o patriarcado na obra de Carla MadeiraTeodoro·Natan·Judith Butler·Rita Segato·Patriarcado·Masculinidade
Olá, ouvintes! Eu sou Natália Lacerda, sou mestranda em Geologia pela Universidade Federal do Ceará e sou graduanda em Letras Português pela Universidade Cândido Mendes. Hoje eu tô aqui a convite do Biblioteca em Podcast por meio do projeto Cocriando, em parceria com a revista Quixará, periódico que publicou minha primeira pesquisa na área de literatura. Quero compartilhar com vocês um pouco sobre esse trabalho. Como ele surgiu, o que me motivou a escrevê-lo e quais são as principais reflexões que ele propõe.
Essa pesquisa, ela só foi possível graças à minha orientadora, Cristiane Lima, que me incentivou durante todo o processo e foi uma inspiração constante pela sua trajetória na área de língua portuguesa. O artigo se chama A Violência como Potência: Desejo, Interdição e Patriarcado em Natureza da Mordida, de Carla Madeira. Então, antes de falar propriamente da pesquisa, eu acho importante apresentar rapidamente a autora, né? A Natureza da Mordida é o segundo romance publicado por Carla Madeira.
Ela nasceu em Belo Horizonte em 1964, é formada em jornalismo e publicidade. Em uma entrevista ao programa Provoca, ela comenta que essas formações influenciam diretamente sua escrita. Ela também fez alguns períodos de matemática E isso fica muito marcado na sua terceira obra, que é o livro Véspera. Bom, uma característica que sempre me chamou muita atenção é a maneira como ela constrói sua narrativa. Nesses três romances que ela publicou, a história não segue uma ordem linear, ela avança e retoma no tempo o tempo todo, mas tudo acaba se encaixando de uma maneira muito coesa.
Além disso, a Carla Madeira, ela escreve capítulos curtos com uma linguagem bastante acessível, repleta de referências literárias e personagens extremamente humanos. Eu acho que foi justamente essa complexidade dos personagens que despertou meu interesse pela obra e por essa autora de forma geral. Então, nesse segundo livro, né, que ela publicou, A Natureza da Mordida, a gente conhece Bia e Olívia. Elas são duas mulheres que constroem amizade a partir da escuta e da partilha dos seus processos de luto.
Ao longo dos encontros que elas têm, que inicialmente é um encontro ao acaso, mas elas vão se conectando, criando essa relação. E ao longo desses encontros, a Bia conta sua história de forma muito fragmentada, é constantemente atravessada pela perda de memória. Em alguns momentos ela chega a citar frases da literatura como se fossem lembranças ou pensamentos próprios, até que chega um momento que a gente descobre que ela nem se chama Biá, ela se chama Ema.
Então essa confusão mental ela interfere diretamente na maneira como a narrativa é construída e faz com que o leitor tenha acesso apenas a pequenos fragmentos da sua história. Bom, em determinado momento Biá deixa de aparecer nesses encontros e, tentando ajudá-la, Olívia vai até a sua casa levando um conjunto de textos escritos por ela mesma sobre sua própria história, que era uma história que elas já compartilhavam, né, nesses encontros.
E ela passa a ler para sua amiga na esperança de animá-la. E agora, gente, vem um spoiler que sem ele não tem como a gente dar continuidade e chegar no objetivo da pesquisa, mas vou ter que compartilhar com vocês. Alguns dias depois desse encontro de Olívia lendo a história dela, Bia morre e é então que Teresa, filha de Bia, entra definitivamente na narrativa e passa a revelar aspectos do passado da família dela que até então permaneciam ocultos.
É por meio de Teresa que a gente conhece melhor a história de Teodoro, seu pai. A gente descobre que ainda jovem ele se envolveu numa briga com seu irmão mais velho, Natan, que terminou em um grave acidente. Natan perdeu um olho e a culpa por esse acontecimento passou a acompanhar Teodoro para o resto da vida. A partir dali, ele tenta sempre compensar esse trauma assumindo uma postura de constante alegria, leveza e dedicação à família, como se precisasse reparar permanentemente tudo aquilo que havia feito.
Só que ouvindo o relato de Biá enquanto ela conversava com Olívia, a gente sabe que Teodoro abandonou a família, e a gente não sabe por quê. Então Teresa conta do reencontro com o pai, que depois de anos desse abandono ela vai atrás dele e pergunta por que ele abandonou a família, né? Então quando chega nesse momento em que Teresa reencontra o pai, a pergunta da narrativa finalmente é respondida, né? Ela quer entender por que teve esse abandono de forma tão abrupta.
E a resposta surpreende tanto a personagem, a Olívia, que tá ouvindo essa história pela primeira vez, quanto o leitor, que também tá lendo pela primeira vez, né? Teodoro revela que passou a ter sonhos recorrentes nos quais desejava sexualmente a própria filha. E com medo de que esses sonhos ultrapassassem o plano do inconsciente, ele decidiu ir embora. Não porque tivesse cometido algum ato, mas porque já não confiava na própria capacidade de impedir que aquele desejo se transformasse em realidade.
Foi justamente nesse ponto que nasceu minha pesquisa. Ao terminar essa passagem do romance, eu comecei a me perguntar: será que a gente pode falar de violência mesmo quando nenhum ato foi cometido? Ou será que a violência também pode existir como possibilidade, como medo, como algo que reorganiza completamente na vida das pessoas antes mesmo de acontecer? E além disso, a violência, ela não pode ter sido de uma forma simbólica à medida que esse pai abandona uma filha e causa nela sofrimentos de uma vida inteira?
Então, para tentar responder essas perguntas, eu recorri primeiro a Pierre Bourdieu, especialmente ao conceito de violência simbólica. E ele mostra que existem sim formas de violência que não dependem de agressão física para produzir um sofrimento. Elas acontecem por meio das estruturas, das relações sociais, das normas, de quem tem o poder e de quem não tem, deixando essas marcas profundas na vida das pessoas de forma geral. Então, no romance, embora Teodoro nunca concretize o desejo, sua decisão de partir produz consequências devastadoras para todos os personagens.
A Bia entra em um processo de adoecimento psíquico e Teresa cresce marcada pelo abandono. Além disso, o próprio Teodoro, ele passa a viver consumido pela culpa. Então todos são afetados por essa estrutura, por essa norma, né? Mas eu percebi que ainda era preciso compreender como essas relações também eram atravessadas pelo patriarcado e pelas normas de gênero. E foi aí que Judith Butler e Rita Segato passaram a integrar essa pesquisa.
Butler me ajudou a pensar a relação entre desejo, norma e interdição. Ela também fala um pouco de incesto, né, e mostra que os sujeitos, eles são construídos pelas próprias regras sociais que definem aquilo que pode ou não pode ser desejado. Já Rita Segato, ela me permitiu compreender como o patriarcado organiza as relações sociais e produz determinadas formas de masculinidade Então, um aspecto que me chamou muita atenção depois de ter lido essa referência teórica, né, foi justamente a infância de Teodoro.
A narrativa, ela descreve sua família como uma casa marcada por uma concentração exagerada de masculinidade. São 5 irmãos convivendo em um ambiente onde, à medida que eles cresciam, as brincadeiras se tornavam cada vez mais violentas, até que acontece o acidente que completamente a trajetória de todos. Então há um trecho no romance que eu considero muito significativo. Abre aspas: tio Natan se esquivou de um lado para o outro, driblando de maneira humilhante meu pai e exibindo sua superioridade física.
Os outros irmãos entraram na torcida botando fogo, como se estivessem em uma rinha. Minha avó, a essa altura histérica, gritava mandando parar. Meu pai não demorou a desmoronar, sufocado por uma culpa sem tamanho, e meus avós logo entenderam que tinham não apenas um, mas dois filhos irremediavelmente feridos. Daquele dia em diante, olhar meu tio seria para sempre se arrepender. O resto da vida começava ali. Esse fragmento tá nas páginas 185 e 186 do livro da Carla Madeira, na edição de 2024.
Quando a gente lê essa passagem pensando à luz da Rita Segato, a gente percebe que essa briga vai muito além de um conflito entre irmãos. Ela apresenta uma aprendizagem da masculinidade, uma pedagogia da masculinidade, né? A violência, ela aparece como uma linguagem de afirmação, de hierarquia, de pertencimento. A humilhação pública, a torcida dos irmãos e essa necessidade de provar força revelam um ambiente em que ser homem está profundamente associado à disputa.
Então, a culpa que passa a acompanhar Teodoro para o resto da vida mostra que esse episódio, ele não termina no momento do acidente, ele passa a fazer parte da própria constituição do personagem, ele vai para subjetividade desse indivíduo. Bom, então, se os homens são formados, né, dentro dessa lógica de competição e violência, que nesse caso é física, mas ela passa depois para uma dimensão simbólica à medida que ela fica marcada no interior desse sujeito e é reafirmada pelas estruturas, qual que passa a ser o lugar reservado às mulheres, né, nesse contexto?
E a narrativa responde isso, né, de uma maneira muito interessante. No fragmento que eu li, né, durante essa briga, a mãe aparece desesperada, gritando para que os filhos parem. Ela tenta conter essa violência, mas ela não consegue interromper essa dinâmica que sustenta. Mais tarde, a gente encontra a mesma lógica na personagem de Biá. Mesmo sem ter provocado qualquer acontecimento, ela assume para si uma culpa enorme pela situação vivida pelo marido.
Em vários momentos ela se pergunta se ela falhou como mãe, se ela poderia ter feito algo diferente. A culpa passa a ser vivida por ela como uma responsabilidade pessoal, quando na verdade tá ligada a uma estrutura muito maior do que qualquer decisão individual. Ou seja, as duas, tanto a mãe de Teodoro quanto a esposa, né, que é Bia, personagem central nessa história, Elas têm comportamentos que se complementam. Elas passam a ser as mulheres que estão respondendo pelos atos de um homem.
Elas em si não tiveram atitude nenhuma, mas elas passam a se responsabilizar. Bom, isso aí já dá muita pesquisa, né? Bom, e ainda tem um elemento da narrativa que eu considero muito interessante, que é o sonho, né? Então Para poder compreender essa dimensão também, eu recorri ao artigo de Camarani, de 2002, que retoma a concepção de Nordier de que o sonho é uma realidade transformada, ou seja, um relato produzido pela consciência que reorganiza as experiências, afetos e tensões que já existem no sujeito.
Então, nessa perspectiva, o sonho não inventa o desejo, ele revela. E isso significa que aquilo que aparece durante o sonho não surge do nada, mas ele reorganiza conteúdos que já habitam o sujeito. Então, além de pensar numa estrutura que tem a violência marcada no gênero, né, do gênero no masculino, é uma reflexão que eu acabei fazendo também foi associar essas relações dos homens, que são nesse caso os dominadores, né, do poder, sempre atravessadas pelo sexo, né?
E isso se revela nos sonhos, nesse caso até no incesto, que é uma ideia que passa a ser tão repugnante para o personagem que ele decide se afastar, né? Então essa, essa ideia do sonho ser o revelador de algo que já tá ali dentro, ela dialoga diretamente com a narrativa da Carla Madeira, né? O que desestabiliza o Teodoro não é uma ação que ele praticou, mas é o reconhecimento de um desejo que passa a existir para ele de forma concreta.
Os sonhos deixam de ser apenas sonhos porque continuam presentes quando ele desperta Esses sonhos acompanham ele no cotidiano, nas relações, na sua percepção de si mesmo. E é justamente essa impossibilidade de separar completamente o sonho e a realidade que faz com que ele decida abandonar a família. E aí a violência, nesse caso, ela não se manifesta como ato, mas como potência, como uma possibilidade reconhecida suficiente para reorganizar completamente a vida de todos ao seu Então foi essa reflexão que orientou toda, toda essa pesquisa, né?
E mais do que discutir um personagem específico, meu objetivo foi mostrar como que Carla Madeira constrói uma narrativa que amplia a nossa compreensão da violência, evidenciando que ela nem sempre se apresenta de forma explícita, de forma física. Muitas vezes ela vai se manifestar no silêncio, na culpa, no medo, naquilo que permanece apenas como possibilidade, mas que ainda assim produz consequências profundas. Bom, gente, eu pretendo continuar pesquisando a obra de Carla Madeira porque eu acredito que ela é uma das escritoras contemporâneas mais sensíveis na construção dos personagens e na construção dos conflitos humanos também.
Ela até gera um pouco de polêmica, tem gente que gosta muito, tem gente que não gosta, mas eu acho muito bom como ela reforça as tantas entrelinhas que tem na estrutura. Ela mostra isso para gente de uma forma poética e ao mesmo tempo muito potente, na minha opinião. Então os seus livros, de forma geral, eles nos convidam a refletir sobre questões difíceis e sem oferecer resposta pronta. E talvez seja justamente isso que torna a sua literatura tão potente.
Eu quero aproveitar para agradecer novamente à Biblioteca em Podcast, ao projeto Cocriando, à revista Kixará, e especialmente a minha orientadora Cristiane Lima, sem quem essa pesquisa não teria acontecido. Eu deixo também um convite para quem tá nos ouvindo Leiam A Natureza da Mordida, leiam o artigo publicado na revista Kixará e continuem consumindo literatura. A literatura, ela tem uma capacidade incrível de fazer a gente compreender melhor o outro, mas principalmente fazer a gente compreender melhor a nós mesmos. Muito obrigada pela companhia e até a próxima!
Holo Cocriação
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