Episódios de Biblioteca em Podcast

[Ep.24/2026] Nos Rastros das Narrativas: Memorial para Professor Titular

15 de agosto de 20263h25min
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Boas-vindas a mais um episódio especial da nossa Biblioteca em Podcast! 📚🎧

Ouça "Nos Rastros das Narrativas", um registro da defesa de memorial para promoção à classe de Professor Titular.

Foram mais de 4 horas na companhia da professora Cristina Maria da Silva, docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará, neste momento importante e de muita emoção em sua trajetória profissional.

Participaram da banca examinadora as professoras Ana Maria César Pompeu, Andrea Saad Hossne, Maria Suely Kofes e Neusa Maria Mendes de Gusmão. Também estiveram presentes bolsistas, orientandos e amigos de Cristina, além de todas as pessoas que foram mencionadas através de muitas recordações em fotografias.

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NOS RASTROS das Narrativas: Memorial para Professor Titular. Docente arguida: Cristina Maria da Silva. Banca examinadora: Ana Maria César Pompeu, Andrea Saad Hossne, Maria Suely Kofes e Neusa Maria Mendes de Gusmão. Convidado: Martinho Tota Filho Rocha de Araújo. Apoio técnico: Alex Dax de Sousa. Gravação e edição: Francisco Edvander Pires Santos. Fortaleza: Biblioteca em Podcast, 2026. Podcast. Gravado no dia 13 de agosto de 2026.

#rastrosurbanos #projetococriando #bibliotecaempodcast

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Participantes neste episódio5
A

Ana Maria César Pompeu

HostProfessora
A

Andrea Saad Hossne

ConvidadoProfessora
C

Cristina Maria da Silva

ConvidadoProfessora Titular
M

Martinho Tota Filho Rocha de Araújo

ConvidadoProfessor
N

Neusa Maria Mendes de Gusmão

ConvidadoProfessora
Assuntos14
  • Defesa de Memorial· EducacaoPromoção à classe de Professor Titular·Ana Maria Braga·Trajetória acadêmica
  • Formação e Trajetória Acadêmica· EducacaoCiências Sociais e Literatura·Universidade Federal do Ceará (UFC)·Universidade de São Paulo·Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)·Pós-graduação em Letras
  • Extensão Universitária e Impacto Social· SociedadeProjetos de extensão·Fotobiografias·Canto das Guardianas das Memórias·Biblioteca Viva·Descobrindo Carolinas
  • Grupo de Pesquisa Rastros Urbanos· SociedadeModos de vida na cidade·Práticas urbanas·Memória, narrativas e imagem·Extensão universitária
  • Relação com Fortaleza· SociedadePoço da Draga·Praia de Iracema·Ponte Metálica·Luta pela permanência territorial
  • Extensao Universitaria e Formacao· EducacaoExtensão como motor de pesquisa·Engajamento com a comunidade·Transformação social
  • Encontro e Coletividade· SociedadeAndar em constelação·Rede de afetos·Aprendizagem coletiva
  • Narrativas Pessoais e Familiares· SociedadeTeresa (avó materna)·Lucas Carneiro·Tia Antônia Maria de Jesus·Fotografia e memória·Bordado como narrativa
  • Adoecimento e Resiliência na Universidade· EducacaoDesafios institucionais·Conflitos geracionais·Saúde mental acadêmica
  • Poética dos Fungos e Imagens· CulturaFungos como guardiões da natureza·Bordado em fotografia·Composição e recomposição da vida
  • Publicações e Produção Acadêmica· EducacaoTese de doutorado·Livro 'Raquel Raqués: Travessias Entre Saberes'·Literatura e Cultura de Cabo Verde·Livro 'Rastros Urbanos: Experiências, Narrativas e Memórias na Cidade'
  • Exposições e Intervenções Artísticas· CulturaHabitar é Deixar Rastros·Poço 115, Rastros na Cidade·Guardiãs das Memórias·Cicatrizes: Rostos de Mulheres Latino-Americanas·As Linhas Inventadas da Memória
  • Diálogo Interdisciplinar· SociedadeCiências Sociais e Literatura·Antropologia e Literatura·Museologia e Fotografia·Artes Visuais e Bordado
  • Genealogia e Identidade· SociedadeBusca por raízes familiares·Relações familiares·Reconhecimento de traumas
Transcrição41 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
CMCristina Maria da Silva

Boa tarde, é uma alegria, mas ao mesmo tempo é uma sensação de alívio. Espero que essa seja a última defesa. A gente passa uma vida acadêmica toda nesse lugar de defesa. Esses nomes, né, defesa, produtividade, parece que isso só se intensifica. Mas hoje eu quero que seja um dia de alegria, né? Tô muito feliz e quero começar agradecendo a composição dessa banca. É uma banca muito especial para mim, né? Ter a Ana Maria presidindo esse momento num lugar que é tão importante para mim, que é esse programa, e estar nessa sala a Capitu, que é uma sala onde a gente já viveu tantos momentos felizes aqui, ter a presença da professora Sueli Koffes, minha orientadora do doutorado, uma professora muito querida que marca muito a minha trajetória, professora Andréa Rosni, que eu tive a oportunidade de conhecer na Universidade de São Paulo quando estava no doutorado e fiz disciplinas com ela e tive a oportunidade de tê-la na minha banca de doutorado também, na qualificação e na defesa.

É uma honra ter você aqui. Professora Neuza Gusmão, né, uma querida que conheci também na Unicamp e que tive a oportunidade de conhecer através de vários colegas meus que eram da Faculdade de Educação. Então agradeço muito por essa banca. Aí, suplentes, A professora Antonádia Borges, que esteve na minha banca de doutorado também e prefaciou o meu livro da tese, né? Então ela tem uma importância imensa para mim. Suas palavras estão no livro da tese, né?

E toda uma conversa que começou ali, que me marca até hoje. E a professora Inês Vitorino Sampaio, que está de maneira muito forte na minha vida acadêmica, né? É professora aqui da universidade, mas na época foi minha professora de graduação na UES, no curso de Ciências Sociais. E é uma honra tê-la aqui. Foi a única professora de graduação. Ainda bem que consegui colocar uma delas na composição dessa banca, mas Quando a gente tá redigindo memorial, vem a memória de muitas outras, né?

E duas que eu gostaria de destacar, e que eu faço isso no memorial, é a professora Nazaré Fonseca, né, que eu conheci durante um pós-doc em 2019 sobre literatura africana, né, e que me marca até hoje esse encontro. Uma amiga muito querida, uma referência de literatura africana aqui no Brasil e uma amiga muito importante na minha trajetória. E muito importante também o encontro com a professora Ilza Matias de Souza, que foi minha professora no mestrado, na época que eu estava nas ciências sociais também, né?

Passei uma vida inteira nas ciências sociais, mas também uma vida inteira estudando literatura. E isso foi maravilhoso, mas ao mesmo tempo um grande desafio, porque nas ciências sociais sempre me achavam muito estranha, e nas letras eu sempre fui muito acolhida, e as pessoas sempre pediam: vem logo para cá, você tem tudo a ver com esse lugar. Mas como eu estava dizendo um pouquinho mais cedo, eu acho que eu fiquei nesse lugar, nesse entre-lugar, E eu acho que foi também uma decisão.

Eu quero ficar aqui atazanando o pessoal das ciências sociais com essas conversas literárias e nesse lugar incômodo, né? E assim tem sido esse caminho, né? Então o nome dessas professoras são extremamente importantes nesse caminho. Nesse agradecimento, eu gostaria também de lembrar que hoje não é uma data menos importante para mim. No início da minha carreira, eu aqui na UFC, eu lancei o livro da minha tese no Recôncavo, né? Hoje, dia 13 de agosto, é a abertura da Festa da Boa Morte no Recôncavo, na Bahia, na cidade de Cachoeira.

E naquela época, logo no início, quando eu cheguei aqui, Eu apresentei, eu lancei o meu livro lá a convite da professora Francisca Marques, da UFRB, que é nossa colaboradora no Rastros, e participei dos festejos da festa e fui muito bem acolhida pelas irmãs da Irmandade da Boa Morte, né? E hoje, né, depois dessa defesa, inicia essa festa com a missa pelas irmãs falecidas, né? Então eu me conecto hoje com essas irmãs, com as falecidas, né?

Com aquelas que vêm antes de nós. Então hoje é um dia de festa, é um dia de agradecimento, mas como disse Conceição Evaristo nos poemas da recordação, É a filha que recorre às vozes das mais velhas, daquelas que vieram antes, né? E que seja assim. Defender esse memorial aqui nesse programa é a realização de um sonho, né? Quando eu estava na graduação, mais ou menos por volta do 4º semestre, com aquele acúmulo de teorias que dá para todos nós que viemos das ciências sociais um certo peso, porque a gente olha para a realidade uma certa impotência do que que nós podemos fazer, né, diante de tantas coisas, as limitações da nossa teoria.

E foi encontrando a literatura que eu senti que ali eu podia ter uma conexão. Então ali eu também tomei uma decisão de que eu queria trabalhar com literatura, e um dia eu gostaria de estar num lugar que eu pudesse ensinar as duas coisas, ensinar ciências sociais e ensinar literatura. Então estar no programa de pós-graduação em Letras é a realização desse sonho, né, e acompanhada Né, porque nunca estive sozinha e hoje menos ainda.

Os meus alunos, os meus amigos estão nessa sala, estão conectados comigo nesse momento, né. Eu dedico esse memorial, comecei assim, a Teresa. Não podia ser diferente, né. Teresa, minha avó materna. E digo assim: que bom que nos encontramos. Você sonhou tanto com a cidade. Eu posso tocá-las, mãezinha, com as minhas mãos e agora também com os meus pés. Também dedico esse memorial à minha mãe, Creuza Carneiro, por me ensinar a ler antes mesmo de eu ir à escola.

Isso é muito forte na minha vida porque a relação com as letras com o ensino foi algo dentro de casa, né? Tanto as minhas tias como a minha mãe, elas alfabetizavam as pessoas da família. Então tem toda uma relação, né, de ir com as letras e esse espaço familiar. Ao pensar nessa apresentação, como eu ainda sou um pouco antiga, eu faço as minhas anotações. Mas eu sabia que quem vem assistir gosta de ver as figurinhas, né? Então tinha que ter alguma projeção, né?

Então eu começo por ela: sou minhas mulheres mortas, velórios projetados em todas as paredes. Sou minhas mulheres mortas, rasgos invisíveis em mulheres igualmente invisíveis. Mamãe dizia que éramos obras das antigas e que um dia elas se manifestariam em nós. Esse é um poema da Lisa Alves, no livro Jardim de Pragas, e foi um livro que eu conheci nos últimos anos, e é com ele que eu abro esse momento, né? A universidade, ela mesmo, ela pode ser, como disse o Eduardo Said, um autor que eu fui apresentada pela professora Sueli Koffis.

A universidade, ela pode ser esse lugar privilegiado, né? Quem pode estar 3, 4 horas do seu tempo sentado numa sala, né, uma sala climatizada, pensando, refletindo? São poucos, né? Então ainda é um lugar de um certo privilégio, ainda que estejamos constantemente atacados. Mas ao mesmo tempo, todos nós sabemos que a universidade é um lugar de muitos adoecimentos. E eu adoeci aqui, adoeci muito, né? Os meus primeiros anos aqui foi de um profundo adoecimento, né?

Um embate muito grande com as coisas que eu encontrei com muitas, com muitos conflitos, né? A gente tem que falar disso também, até para poder ensinar também aos nossos alunos que a universidade não é só isso, né? E, mas eu fui também nesse adoecimento que eu fui encontrando não só meios, mas fui me fortalecendo para encontrar os caminhos dentro dela mesma, né? Como diz o Tim Ingold, é de dentro, né? A gente tem que, dentro da própria instituição, dentro das próprias questões, ir descobrindo esses fios, né, que nos reconectam de volta.

Então, ter vindo para Letras Depois de um pós-doc em 2019 sobre literatura africana, foi uma decisão. E essa decisão foi uma das decisões mais acertadas, né? Eu continuo professora do Departamento de Ciências Sociais, mas a sensação que eu tenho é que em 2019, eu, depois de 2019 e depois da pandemia também, que não foi pouca coisa, eu finalmente cheguei aqui, né? Cheguei e fui muito bem acolhida, né? Me sinto acolhida, me sinto respeitada nesse lugar.

Eu sei que esse momento a gente fala muito de pesquisa, né? É um momento para falar muito dos nossos, das nossas questões de pesquisa, mas eu quero começar ressaltando os meus alunos que já fizeram disciplinas comigo, a minha pesquisa ela só ganha sentido com a extensão, né? A extensão ela configurou para mim um novo momento. Em 2016 ela ressignificou muito para mim a sala de aula, me preparou para ingressar na pós-graduação, aumentou e muito a qualidade dos meus textos, Né, das minhas orientações, tanto na graduação quanto na pós, e o meu ensino, né.

Eu me sinto muito mais fortalecida com tudo que a extensão me deu. Pode passar, Alex. Então eu vou tentar, gente, obedecer isso aqui. Não sei se mais ou menos nessa ordem, mas já passei para os agradecimentos. A questão da vida e da escrita, só para dizer que escrever um memorial, né, de alguma forma é uma luta, porque quando a gente está escrevendo vem muitas coisas na memória. E em muitos momentos eu lutava até mesmo com a temporalidade, porque eu queria dizer algo no presente que era muito importante para mim, Mas quando eu vi, eu tava contando uma coisa que tinha acontecido há muito tempo, né?

Então eu não conseguia ficar num único tempo, isso ficava o tempo todo se entrecruzando, né? E eu tentei segurar isso o máximo que eu pude. Eu só consegui terminar o texto quando eu parei de lutar. Chegou um momento que eu disse, eu tenho que deixar fluir, porque senão eu não vou conseguir terminar esse texto.

?Voz B

Né?

CMCristina Maria da Silva

E também não queria escrever um texto muito longo, queria escrever um texto que as principais coisas estivessem ali, né? Também sem ser algo muito denso para banca, né? E aí, isso é o Rastros Urbanos. É, muitos que estão aqui sabem o que o Rastros Urbanos é para mim. É por isso que eu digo que não ando só, né? O Rastros Urbanos foi criado em 2011, um ano depois, um ano não, 6 meses depois da minha chegada, porque eu cheguei em junho.

No início, em fevereiro de 2011, eu comecei, fiz o cadastro no diretório e começamos os primeiros encontros. O Rastros, ele se fortalece com a graduação em Ciências Sociais, mas foi algo muito bonito porque logo de início alunos de outros cursos, e que eu acho que é uma natureza assim muito forte do Rastros Urbanos de atrair alunos de outros cursos, então vinha alunos da Geografia, da História, então foi algo sempre muito bonito, né?

Nós não tínhamos sala, como até hoje não temos. Nós nos encontramos na cidade. E no início eu achava que talvez isso fosse um problema, mas os meus próprios alunos: professora, nós temos uma cidade inteira onde a gente pode se encontrar. E é isso que o Rastros é hoje. Em qualquer lugar nós estamos, né? E eu acho que isso faz parte da própria ideia do grupo de ser Rastros. Então, de 2011 para cá já é um tempinho, né? Estamos quase chegando na maioridade e a família cresceu, né?

Estávamos na graduação, mas agora tem mestrado, tem doutorado, alguns já defendendo doutorado. Então é algo assim muito bonito E é algo que perpassa, e algo bonito também de dizer é que o nosso trabalho, principalmente esse trabalho extensionista, nós conseguimos durante esses anos estar em todas as proreitorias. Então nós temos projetos tanto na Prae, né, no PIBIC, no na Pró-Reitoria de Cultura, né? Então assim, é algo muito bonito, e principalmente na Pró-Reitoria de Extensão, que é a nossa principal colaboradora.

Pode passar. Então, só para dizer uma coisinha, né, voltar de novo à infância, porque esse momento do memorial foi também um momento de voltar à infância, né? Por que que eu volto, eu digo no memorial que esse é o meu diploma mais muito importante, né, porque foi o meu, digamos que aí, oficialização do meu contato com as letras. Uma aluna me chamou atenção de que o tracinho de orientadora tá em branco, né. Eu disse que nessa época era todo mundo desorientado mesmo, né.

Ainda bem que a orientação veio depois, né. Teve orientador de graduação, de mestrado, doutorado, E aqui de novo, né, para dizer, já ressaltei isso, foi importante conseguir chegar e ter esse primeiro diploma, mas ao mesmo tempo a relação muito tensa, né, porque nesse ano eu odiava a escola, né. Ter que ir para escola para mim foi um tormento porque eu tinha aprendido a ler em casa. Eu já sabia ler e escrever, então eu não entendia o que que eu tinha que ir fazer na escola.

Por mais que minha mãe tentasse me convencer, era uma luta. Então eu morava aqui bem perto da universidade, no bairro São Gerardo, e os moradores mais antigos devem lembrar do escândalo que eu fazia todas as manhãs para ir para escola. Eu me segurava em todos os postes, né, até chegar na escola, uma escola ali na Bezerra de Menezes que eu odiava ir. Né, as coisas só começaram a melhorar no primeiro ano. E escrevendo esse memorial, não está ali, mas foi algo muito forte para mim, vindo nos nomes de todas as professoras, né, e uma especial, a Tia Anitta.

E que recentemente eu vi o perfil dela no Facebook, porque tem ainda um grupo da escola. Foi algo muito bonito porque eu ainda guardo os boletins E lá nos boletins, em muitos boletins que a tia Anitta assinou, ela sempre dizia no final do ano: é uma ótima aluna, mas conversa demais. Então eu acho que ali já tava o primeiro diagnóstico das narrativas, né? O que tava por vir, né? Ela nem sabia, né, o que tava por vir. Ali já estavam as primeiras avaliações.

Então foi esse momento tenso, mas à medida que eu fui para escola, eu fui descobrindo que era esse lugar que eu podia conversar. E as narrativas era muito isso, porque eu não me contentava de estar ali nessa coisa com os professores só aprendendo. Eu queria estar nessa interação já com as pessoas, né? Já eram os primeiros ensaios. Bom, então aqui os projetos, né? Mas antes de falar dos projetos, eu queria antes, porque senão eu posso passar por isso aqui, esquecer, porque falar de um memorial é também falar dos esquecimentos, né?

O esquecimento também faz parte dos autores que são uma referência para mim e que abrem esse memorial. O Said, o Eduardo Said, que me foi apresentado pela professora Sueli Koffis, é extremamente importante para mim. Lembro como se fosse hoje, professora Sueli nos indicou um primeiro livro que era Freud e os Não-Europeus, e eu saí muito tocada, né, por toda aquela discussão E nós ainda tínhamos Livraria Cultura em São Paulo, e eu passei na livraria, tudo que tinha do Said eu levei para casa, né?

Estourei minha bolsa aquele mês, levei tudo para casa. E desde então Said me faz muita companhia. E para cá, para o memorial, eu trouxe uma frase em que ele diz que em vez de ver do conhecimento acadêmico como uma busca por coerção e controle sobre os outros, deveríamos considerar o conhecimento algo pelo qual devemos arriscar a identidade, e então pensar na liberdade acadêmica como um convite a desistir da identidade na esperança de compreender e talvez até assumir mais de uma.

Isso tá no livro sobre o exílio. E muito importante para mim também, esse é um autor que eu conheci na graduação, o Carlos Ginsburg, historiador que nos deixou recentemente, no dia 17 de junho. Eu estava finalizando esse texto, né, foi algo que me tocou muito a partida dele, porque eu lembro que quando eu li O Queijo e os Vermes, ainda na graduação, né, meio que por conta própria, tava nas disciplinas, nós estávamos lendo Mitos, Emblemas e Sinais em correntes epistemológicas, e mas por fora eu li O Queijo e os Vermes, e eu li história como quem lê literatura, né.

E um pouco mais tarde foi que eu fui de saber que ele era filho da Natália Ginsburg, uma grande romancista italiana. E isso me tocou muito porque a leitura do Ginsburg foi algo assim que mexeu tanto comigo que eu falava disso sem parar, né? A minha mãe não é muito de ler livros grandes, ainda mais livro de história, nem de assistir filme, mas minha mãe até hoje ela gosta muito que eu conte as histórias para ela. Então lá estava eu falando que eu tinha lido no Guinness Book para minha mãe, né?

E aí eu contava as histórias para ela, né? E talvez que ali eu estava já treinando o ofício de ser professora em casa. Pode passar, Alex. E aí os projetos, né? Dos projetos, para eu não fugir muito da conversa, talvez antes do Alex voltar, só dizer qual foi a citação que eu trouxe aqui, já que vocês não tiveram acesso ao memorial, né, do Ginsburg, né? Ninguém aprende o ofício de conhecedor ou de diagnosticador limitando-se a pôr em prática regras preexistentes.

Nesse tipo de conhecimento entram em jogo, disse-se normalmente, elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição. Isso até hoje é muito importante para mim, né? Isso aprendi com o Guizmo. Os projetos, gente, foi o que eu consegui me lembrar. Talvez tem alguma coisa que tenha ficado de fora, mas quando eu cheguei aqui nós tínhamos uma defesa de projeto de atuação que para mim continua atual. Que meu concurso foi para teoria, pesquisa e ensino em sociologia.

Acreditem ou não, eu sou da área de sociologia, né? E o meu projeto Cidades e práticas urbanas, experiências, trajetórias e narrativas literárias, né? Depois, já um bom tempo depois, eu comecei um trabalho, né, que eu tinha a intenção que fosse um trabalho só meu, meio assim as coisas, as maluquices que a gente inventa, um trabalho para descansar, né? Uma coisinha só minha para eu ficar mexendo nos meus achados em casa, que foi esse trabalho, a composição de um álbum fotográfico de uma avó materna.

Mas isso até hoje é algo que eu descobri que é muito grande, né, e que não terminou, pelo contrário, porque quando eu comecei a mexer nas imagens e nas narrativas de Teresa Foi uma cidade inteira que se abriu para mim, né? E até hoje, as inúmeras mulheres que eu conheço, que me procuram, mães, avós, cuidadoras, eu sei que foi pelas mãos de Teresa que elas chegaram e chegam sem parar, né? E hoje chegam também através dos projetos dos meus orientandos.

Em Ali tá errado. Em 2016 também nós começamos o projeto de extensão Fotobiografias, uma fortaleza que se encontra em acervos fotográficos pessoais, que tá ativo até hoje. Então estamos com 10 anos de trabalho. Começou principalmente no Posto da Draga, e é uma alegria ter a Ivoneide hoje aqui, é uma das nossas principais protetoras do poço. O Canto das Guardianas das Memórias é um projeto de cultura, né, que nós nos concentramos em 2024 e 2025 em fazer algumas gravações dessas histórias.

É uma parceria que é uma parceria de vida com o projeto Cocriando, é com o Edvander que está aqui, fazendo a gravação dessa defesa, e que começou nesse momento. É um trabalho que tá— a gente meio que deu uma pausa para ter um respiro, porque são muitas histórias e a gente precisa. Mas muita coisa está no nosso Instagram, as gravações que já foram disponibilizadas. Em 2024, eu assumi aqui no Programa de Pós-Graduação em Letras o Programa de Extensão da Educação Superior, o PROEXT-PG, e redigi o projeto Literatura Comparada em Sociedade: Impacto em Inserção e Inclusão Social.

Algumas das ações, né, tem sido cursos, né, tá tentando tornar o acesso ao programa mais acessível, mais claro, que os candidatos consigam entender melhor um edital. Então alguns alunos do doutorado ministraram cursos, uns 4 cursos a gente já conseguiu fazer, o que facilitou muito o ingresso desses alunos. O cuidado com o acervo que nós temos aqui na pós-graduação, acervo bibliográfico, e o Edvander também tem nos ajudado, né, pela formação como bibliotecário que ele tem, juntamente com a Joana Dark, que tem também nos ajudado com formações sobre isso.

O Biblioteca Viva, que tem sido um projeto também muito bonito e conta com a colaboração do Cocriando também, coordenado pela Caroline Reis, que está aqui me orientando do doutorado, que tem trazido escritoras daqui da cidade de Fortaleza para apresentar seus livros na universidade, principalmente escritoras não muito conhecidas, para que a gente tenha oportunidade de, em algumas tardes, não só estar conversando, mas acessando esses livros.

E elas sempre deixam uma cópia desses livros no nosso acervo E esses encontros são gravados, então tudo isso também tá ficando registrado no nosso trabalho. E os estágios docentes, que tem sido também algo que eu tenho tentado trabalhar não só com os meus orientandos, mas os orientandos de alguns colegas que têm me procurado para a gente pensar em ações não só nas atividades nas escolas, né, nas atividades de extensão, que hoje é uma orientação da universidade, e também nas disciplinas da graduação que eu ministro, né.

A Leste, Lucas, vários alunos que são meus orientandos já estiveram comigo em Sociologia da Literatura, em Narrativas, Grafias e Trajetórias, que são disciplinas que eu ministro. O projeto da pós-graduação, né, que conta com o apoio da Proreitoria de Pós-Graduação, o Rastros da Memória e Narrativas Literárias: Grafando as Recordações Femininas na Literatura Africana e Brasileira, que por muitos anos teve o Lucas Pinheiro como bolsista, agora é o Medina, né, para minha sorte.

Tenho sempre a sorte de ter esses meninos maravilhosos comigo e a gente tem feito muita coisa. Tem o grupo de estudos que é aberto não só aos orientandos, mas há muitos agregados e tem muita gente, inclusive de outras áreas, que nos procuram. E mais recentemente, de 2025, as ações curriculares em comunidade de saberes, que é uma ação da Proreitoria de Extensão. É uma ação em que a universidade nos pede que a gente esteja realmente comprometido com a cidade.

Então é algo que eu pensei muito e resolvi redigir esse trabalho chamado Descobrindo Carolinas: Experiências Criativas entre Bibliotecas, Bordados e Instalações Artísticas. Partindo da inspiração desse prédio. Nosso prédio se chama Carolina Maria de Jesus. Aliás, tudo aqui é batizado, né? Essa sala é a Capitu, tem a sala de Adorinha, Helena de Troia, né? E o prédio é Carolina Maria de Jesus. Então, partindo dessa inspiração do nome de Carolina, nós temos lido Carolina em algumas comunidades, tanto no Poço da Draga, que era esse território onde eu já estava, mas estamos agora também no Jardim Iracema, nas rodas de bordado.

E hoje essas mulheres também nos ensinam muito, que nós levamos literatura, e com elas nós todos estamos aprendendo a bordar, né? Então todo mundo, quando chega lá, tem que sentar e tem que bordar, tem que aprender a bordar, né? Então tem sido um trabalho muito forte, muito bonito. Mas vamos lá que meu tempo tá correndo. A equipe e o público-alvo, né? Até hoje, ao longo desses 16 anos, os discentes de graduação não têm se concentrado apenas nas ciências sociais, Os orientandos, muita gente tem vindo de outros cursos, os orientandos, os voluntários, alunos de ciências sociais, de letras, dos vários cursos de letras, letras Libras, letras espanhol, letras em inglês, história, geografia, direito, né?

Então assim, a gente teve uma psicologia também. Então assim, são vários cursos. Então isso cada vez mais fortalece essa vocação interdisciplinar do Rastros Urbanos. Da pós-graduação, além dos alunos do mestrado e do doutorado em literatura comparada, nós temos os colaboradores que estão aqui presentes do curso de psicologia, do curso de educação, né, que vieram como alunos das disciplinas da pós-graduação e ficaram, né? Eu tenho muita sorte que muita gente fica, né?

Os da graduação que não vão embora, tem uma bem ali atrás, a Alana. Eu nem sei quanto tempo a Alana tá com a gente, é desde que eu entrei, né? Então já é uns 16 anos. Então as áreas de conhecimento pelas quais nós circulamos, pelo menos as que eu me lembro, são essas. Né? Então, ciências sociais conversando com a literatura comparada, ciências da informação aqui com o Edvander, biblioteconomia, história, geografia, museologia.

Eu tenho que dizer que ter encontrado o Saulo, né, do Museu de Arte da UFC foi um divisor de águas para todos nós no Rastros Urbanos, inclusive Foi conhecendo o Saulo que eu cheguei ao Advander, né? Então Saulo abriu as portas do Museu de Arte para gente, né? E temos aprendido muito sobre museologia também com o Malk. Então as artes, a psicologia, educação, pedagogia, fotografia e o bordado, né? Os bairros por onde nós já passamos, estamos E nos conectamos, né?

O Posto da Draga, o SESC Fortaleza, coloquei ali centro por atividades que nós já fizemos lá. O projeto Cidadania Ativa, que foi esse projeto que nós trabalhamos com eles em 2024, que atendia o Papicujo, a Quinta Árvore, Pici, Monte Castelo, Henrique Jorge, Bom Jardim, Jardim Iracema, e a região metropolitana de Fortaleza, em Calcaia, Jurema e Potira. E temos também agora, mais recentemente, pelo Descobrindo Carolinas, o Jardim Iracema, né?

As cidades das guardiãs, né? As guardiãs, quem eu estou chamando de guardiãs? Todas essas mulheres que esses projetos acabaram encontrando, né, desde o começo. Porque quando eu começo a fazer esse trabalho sobre a Teresa e o Fotobiografias, Eu vou percebendo no Fotobiografias que principalmente são mulheres que se apresentam para nos contar as histórias de Fortaleza, e não só nos mostrar, nos falar sobre Fortaleza, mas nos mostrar.

Aqui nessa sala nós temos a presença da Ivoneide. A Ivoneide com toda certeza é uma das grandes guardiãs da memória da cidade de Fortaleza. Ela tem centenas de álbuns fotográficos em casa. E quando eu cheguei na casa dela e que eu começava a falar essas coisas para ela, ela nem achava que era isso tudo, né? E eu, gente, aqui tem livro pronto, Ivaneide. Não tem não, daqui a pouco vocês vão ver. E aí as cidades, né? Aqui em Fortaleza e região metropolitana, mas Massapê, que é de onde a minha avó vem, Camuci, Iguatu, Uburetama, Capistrano, Cristino no Piauí, Currais Novos no Rio Grande do Norte, Jundiaí em São Paulo.

Isso as que eu consegui me lembrar ontem pedindo ajuda ao Lucas, mas eu acho que algumas ficaram de fora, né? É algo ainda que a gente tá fazendo esse mapeamento, essa cartografia. Então, acessar as experiências de vida dessas mulheres por meio das fotografias e dos traços visuais no tempo através desses projetos, né, vão nos colocando em contato com diferentes experiências, né, não só nos cursos, mas também nas exposições, nas oficinas, nas rodas de bordado, e em contato com essas mulheres que são mães, avós, cuidadoras, viajantes, sonhadoras, separadas pelo tempo, pelo espaço, e de famílias diferentes em cidades do Ceará e de outras cidades.

Seguimos seus trajetos pelas imagens que nos legaram. Pula, não vou falar disso não. Livros, aqui as principais publicações, eu me concentrei no primeiro que está ali, a minha tese, né, que eu falei, que tem o prefácio da querida professora Antonádia Borges. Que foi orientado pela professora Sueli Koffes. Recentemente, essa publicação chamada Raquel Raqués: Travessias Entre Saberes, não é uma publicação só minha. Eu fiz o meu mestrado sobre a Raquel de Queiroz na UFRN, em Ciências Sociais, mas orientada pelo professor Alip de Souza Filho.

Mas quando eu cheguei a UFC, é por isso que essa publicação está aí, ela é tão importante para mim. Eu em 2012 conheci o professor Thiago, e o professor Thiago é professor da geografia e ele também trabalha com literatura. E em uma dessas, acho que uma formação que eu estava fazendo aqui numa semana de humanidades, ele veio muito interessado quem era essa maluca que tava aqui dentro das ciências sociais falando de literatura. E nessas conversas nós nos conectamos e acabei descobrindo que ele estava com um projeto de doutorado também sobre a Raquel de Queiroz.

Então, muitos anos depois, nós realizamos um evento aqui na UFC, no Auditório Raquel de Queiroz, não podia ser diferente, e Depois desse evento, nós decidimos cada um falar um pouco do que tinha feito, mas a gente queria que fosse um livro acessível para qualquer pessoa, um livrinho de bolso, um livrinho que não tivesse aquela cara de tese que poucas pessoas vão ler. Então a gente fez o Raquel Raqués com distribuição gratuita, com apoio aqui da imprensa universitária.

E ficou esse trabalho muito bonito, né, com o design feito pelo Anderson Lemos, em que, e com a xilogravura do mestre João Pedro, né, a inspiração é uma xilogravura do mestre João Pedro, em que a Raquel mais jovem tá encontrando a Raquel mais velha. E ao fundo, não sei se vocês percebem, o solo do sertão e as águas do Rio de Janeiro. Se confundem aí. A gente vê alguns traços de Quixadá e do Rio de Janeiro se misturando, né, o tom azul e o tom de terra, né, que se confundem no trabalho feito pelo design.

Esse trabalho, Literatura e Cultura de Cabo Verde, tem a ver com essas incursões pela literatura africana. Em 2019, quando eu tive a oportunidade não só de ir para Cabo Verde, mas fui também para Maputo Mas nessa viagem de Cabo Verde com outros professores, depois nós fizemos um evento e essa publicação organizada pelo professor Agnaldo, professora Geni Mendes e a professora Simone Caputo da USP. E nessa sequência de trabalhos, esse trabalho sobre a Nélida Pinhão e sobre o livro que ela escreveu, República dos Sonhos.

Que foi um evento realizado na Universidade de Salamanca, em que eu escrevi um capítulo nesse livro. E foi um evento muito bonito porque a Nélida ainda estava com a gente, então a gente teve oportunidade de fazer esse evento com a presença dela. Pode passar. E esse livro também marca muito não só a trajetória do Rastros, mas a minha trajetória. É o livro da Ivoneide Góes, que está aqui. Quando nós lançamos esse livro, foi um trabalho muito coletivo.

Eu tive o apoio do professor Tiago Vieira Cavalcanti, da Geografia, de muitos colegas que me ajudaram a realizar esse projeto. Precisamos cuidar da segunda edição, né, Ivoneide? E foi muito bonito porque nós conseguimos levar para a Bienal dentro da temática da Bienal do ano de 2019, que era a cidade e os livros. Então tinha tudo a ver com o trabalho do Rastros, com o projeto de extensão que nós estávamos fazendo. Enfim, né, tinha que ser.

E do lado, um trabalho mais recente que tá sendo reeditado pela imprensa universitária, que teve o apoio aqui do programa, Rastros Urbanos: Experiências, Narrativas e Memórias na Cidade, que conta um pouco a história do Rastros Urbanos aqui em Fortaleza e dos lugares por onde a gente passou nos últimos anos. Era um livro que a gente queria ter feito nos 10 anos, mas os 10 anos foi o período da pandemia, então a gente deixou um pouquinho para depois.

Então foram 13 anos de história dos rastros urbanos. E enfim, tá no livro. Tá aqui ainda do lançamento do livro, Livonete com as suas crias, algumas delas, as pessoas muito importantes para mim, Alana, Felipe, o Léo que estão ali, o professor Tiago.

AMAna Maria César Pompeu

Pode passar.

CMCristina Maria da Silva

Exposições, né? Em 2017, nós fizemos uma exposição no Pavilhão Atlântico chamada Habitar é Deixar Rastros. Foi a primeira e muito simples a atividade que a gente fez. Nós levamos algumas fotografias e colocamos no entorno do pavilhão para que os moradores eles tivessem contato. E foi algo muito bonito, eu não esqueço daquele momento, porque eram pessoas que não conheciam o acervo da Ivoneide. Então essas pessoas olhavam: mas professora, onde foi que a senhora conseguiu?

Eu preciso tudo é de vocês, isso tudo é patrimônio desse lugar. Então, e que foi algo que eu mesma demorei para entender. Eu estive num congresso de antropologia, num grupo de extensão, e uma professora da UNESP me chamou atenção: professora, o trabalho que vocês estão fazendo é de narrativas, é de memória, mas é de salvaguarda de patrimônio, né, de patrimônio material e imaterial. Então acho que por isso que agora a gente também tem uma preocupação muito grande de estar gravando, de estar registrando, de estar deixando todo esse acervo disponível ao público, à comunidade, né.

E nessa exposição foi algo muito bonito porque eles nos pediram: façam e façam de um jeito que a comunidade se conecte com o que vocês estão fazendo. E a gente fez se conectando com algo que é muito bonito do Benjamin, que é essa questão dos rastros, né? Então o nome foi Habitar é Deixar Rastros. Em 2021, Poço 115, Rastros na Cidade, que foi feita com o Felipe Camilo, Álvaro Graça, que é morador do Posto da Draga, em que a gente conseguiu reunir muita coisa lá no Dragão do Mar.

Fizemos uma exposição lá. Em 2023 foi quando nós conseguimos trazer tudo que nós tínhamos catalogado aqui para o Malk. Então ficamos 2 meses, né, em cartaz aqui no Malk. Em 2023 ainda, final de 2023, eu fui convidada para ser curadora dessa outra exposição chamada Cicatrizes: Rostos de Mulheres Latino-Americanas, que é um projeto autoral da artista Dalila Zanon, que foi feita na Estação Cultura de Campinas. 2024, nós fizemos aqui em Fortaleza, no Sesc, aqui no centro, a exposição As Linhas Inventadas da Memória.

Pode passar, velho. Aqui, só para que vocês tenham uma ideia do que é o pavilhão no Posto da Draga. Pode passar. Essa é Dona Iolanda. Na exposição, a gente fez uma roda de conversa, Guardiões das Memórias, que é algo que é muito forte para eles, esses momentos de escutar os mais velhos. E a Alana preparou esses tubos e a gente colocou as fotografias em todos os lados, e isso ficava circulando pela sala, na sala, na casa da Dona Iolanda, que é onde ela também celebra o sarau.

Todo mês a gente se reúne para— é um momento em que elas cantam, recitam poesias, né? Um momento muito bonito, e é feito na casa dela. Então, nesse ano de 2017, junto com a exposição, a gente pediu que ela fosse a guardiã e que ela contasse histórias, que ela trouxesse as suas memórias. Então, nesse momento, ela tá inclusive com o cubo que é o da mãe dela, né, que é o santinho da mãe dela. Então foi um momento muito forte, né, dela contando esse vínculo dela com a comunidade.

E aqui a abertura da exposição que eu falei para vocês, Guardiãs das Memórias, aqui no Museu de Arte da UFC. Essa foi a equipe que organizou, né? Nada seria possível sem eles. Tem alunos da Letras, da Psicologia, Ciências Sociais, Arquitetura, Cinema e Audiovisual, Direito, História. É muita gente. Pode ir aqui na abertura, né? Em que de novo a gente lutando com essa questão de infraestrutura da universidade. De repente a gente olhou, o Museu de Arte tava lotado e teve que ser no Gogó mesmo.

Então ainda bem que a Ivoneide tava do lado. E vocês veem que o corpo não mente, né, mulher? Pera aí, deixa que eu conto. É, e aí ela conta mesmo porque as imagens são dela e é ela que tem que contar, né? Então as histórias são dela também, a gente tá só emprestado, pegando carona. Então, e que é algo muito bonito porque o que mais o Rastros tem feito, eu digo Rastros porque não sou apenas eu, a minha trajetória tá aí também junto com isso, mas esses muito os colaboradores vêm agregando projetos muito potentes, né, que sustentam o que o Rastros é hoje.

Então, nessa exposição, o que para mim é mais forte é que essas comunidades, elas estejam aqui dentro usufruindo desses espaços que é delas, né, e que nós somos funcionários públicos servindo a essas comunidades. Por isso que eu reforço o quanto o meu trabalho de pesquisa só ganhou sentido com a extensão. Pode ir aqui. Essa que tá olhando os álbuns é a mãe da Ivoneide, Dona Zeni, uma das guardiãs. É Dona Iolanda e Dona Ivonilda, que nos deixou recentemente.

Tô olhando aqui, pode ir. Aqui foi um mapa que foi feito dentro da exposição com os nomes das mulheres que estavam na exposição, bordado também pela Alana. É um mapa imenso, eu nem imaginava que ela ia bordar um mapa desse tamanho, e ocupou uma parede inteira. E os recortes eram os recortes dos municípios, das cidades onde essas mulheres estão. Pode ir aqui da exposição que eu falei de Campinas, pode ir. Imagens das mulheres dessa exposição ainda, rostos de mulheres latino-americanas, pode ir.

E aqui a Teresa, que é minha avó, e eu olhando para ela porque é assim, pode ir. E aqui, e que é algo que eu falo muito nesse trabalho, Né? E ali vocês podem ver, eu fiz de propósito recorte da dedicatória que tá no verso. Talvez eu termine aqui porque eu acho que é importante dizer, às vezes a nossa história está em lugares que a gente nem sabe onde aquelas estão. Essa fotografia passou 30 anos com um tio meu que tinha ido embora para Porto Velho.

E quando eu voltei a morar em Fortaleza por conta desse concurso, é, eu cheguei para fazer o concurso 2 dias depois do falecimento dele. Eu não consegui reencontrá-lo, mas ele já tinha me dado talvez a principal herança que alguém pode dar a alguém, né? Ele, na última vez que eu tinha vindo, eu fui olhar os álbuns de fotografia dele e me deparei com essa fotografia. É a única fotografia da família em que eu estou do lado da minha avó, né?

E no verso dessa fotografia eu não sou Cristina. Ali tá o nome das outras pessoas que estão, que vocês viram na imagem anterior, as minhas tias Assunção, Dora, e a mamãe e a menina da Creuza. Então eu sou a menina da Creuza, né? Então muitas vezes a gente demora para se reencontrar, para se conectar com a nossa história. E todo esse trabalho de reencontrar minha avó foi um trabalho também de me reencontrar comigo. Escutando as mulheres dessa cidade, algumas delas estão aqui.

Nisse chegou agora há pouco tempo, não menos importante em todo esse trabalho que a gente fez no SESC. E então, quando eu escuto e presto atenção ao que essas mulheres amam nessa cidade, eu consegui de novo ir me conectando com ela, que foi a cidade da minha infância, né, e que talvez tenha sido a cidade mais difícil de conseguir voltar e me adaptar, né. Eu lutei muito depois que eu voltei se era aqui que eu queria ficar, né. E quando eu vou hoje encontrar a ponte metálica, a ponte metálica para mim nunca vai ser apenas um cartão postal.

Porque era o lugar onde eu ia na minha adolescência quando o mundo pesava. E hoje, e nem imaginava que um dia eu iria voltar com um projeto de extensão lá no Posto da Drag, né? Então hoje, e olhando para os álbuns dessas mulheres, me conectando com as imagens dessas mulheres, tudo isso é um encontro com a minha própria vida, com aquilo que eu faço, e é o que dá sentido ao meu trabalho. Vou ficar aqui. Obrigada.

?Voz B

Professora Sueli Koffis, sem microfone.

AMAna Maria César Pompeu

Aqui estou, desculpe.

?Voz B

Então pronto, a palavra é da senhora, viu? Cada uma tem 20 minutos, né? E ela tem que responder.

AMAna Maria César Pompeu

Obrigada, obrigada. Eu procurei, eu procurei onde aplaudir Cristina, mas eu não achei. Bom, sinta-se aplaudida pela apresentação.

?Voz B

Muito bem.

AMAna Maria César Pompeu

Você disse que escrever o que vai falar é coisa antiga, então considere-me antiga, porque é o que eu fiz, é o que eu sempre faço. Bom, boa tarde, Cristina.

?Voz B

Olá, colegas!

AMAna Maria César Pompeu

Você é uma artesã de encontros, Cristiano. É o que mostra a montagem dessa banca. Muito obrigada pelo convite que me propiciou a leitura do seu memorial e esse encontro com pessoas que eu aprecio muito, que é um reencontro, né? A cada vez que eu sou convidada para a banca de titulação de uma ex-orientanda, eu sou tomada por uma imensa alegria. Afinal, trata-se do desafio de encontrar o tempo na sua substância, a de um ritornelo.

Somos, agora no caso Cristina e eu, as mesmas e diferentes, o que fomos e o que nos tornamos. Parabéns, Cristina! Pela pessoa e cientista social com tonalidade fortemente antropológica e literária em que você se tornou. Tonalidade que bem tempera para melhor o que se entende por cientista social, pobre da ciência social que não tem literatura e que não tem antropologia. Tonalidade, qualidade que o seu memorial bem revela. Parabéns finalmente pela sua apresentação.

Muito do que eu vou comentar sobre o memorial que eu li você falou na sua apresentação, então, mas como foi o memorial que eu li, eu vou manter os meus comentários. E esses comentários são principalmente não só pelo que o memorial tem, mas porque ele não tem. E a intenção, o sentido dos meus comentários é te estimular, te incentivar a que você escreva um livro seu, como você disse, para você chamar de seu, que é isso que tá no memorial e que você falou agora que poderia estar.

Adorei o diploma, adorei o diploma do primário, né, do primário. Na verdade, grau de doutor do ABC, é maravilhoso isso, né? Grau de doutor do ABC é um lindo diploma, né? E a caligrafia, né, é caligrafia o que temos ali, né? Você é maravilhoso, né? Então espero que você escreva esse livro, que os meus comentários estão estimulando. Esse Carolina das Teresas, Carolina Cristina e Fortaleza. Eu tive dúvidas sobre a qual memorial ou em qual memorial eu me reteria nessa nossa conversa.

No início, na imagem sombreada que abre o seu texto, na foto bordada que o fecha, as 10 últimas páginas pelo tema me evocaram Luciano Desprez, a do livro Au Bonheur des Morts. Nessas páginas você nos encanta também como artesã em cortar histórias, ou seja, de fabricar ficção com efeito de real, ou talvez o inverso, um real com efeito de ficção. Uso aqui a noção de ficcional porque o desfecho da história contada e mostrada nessas 10 últimas páginas nos deixa a dúvida: será que aconteceu o que foi contado?

Para em seguida me recusar a essa pergunta, pois não é próprio da história contada que essa pergunta permaneça. Também me inspiro no que diz Sontag em um curto artigo sobre o escritor Sebald. Diz ela que falamos de ficção quando há boas razões para se supor que no que é contado há muito de inventado ou alterado. Mas também de que sucedeu de fato. Nomes, lugares, fatos, etc. Uma ficção, ao produzir o efeito do real, anula a dicotomia entre uma e outra.

No final de seu memorial, eu diria, você produz o efeito de ficção. Mas eu falava sobre a dúvida de qual memorial comentar. E pensei: e se eu me concentrasse, então, nas páginas que antecedem estas últimas, nas quais estão entretecidas ciências sociais, literatura e vida? Entretanto ainda em dúvida, na segunda leitura me dei conta de que apenas de um memorial que se trata. E que se multiplica estilos é porque a experiência nele narrada se faz, para dizer com Manuel de Barros, nos deslimites das palavras.

As primeiras 35 páginas fluem e, ao ler o seu relato, caminhamos com você em seu percurso acadêmico, da graduação ao doutorado e o início da sua vida profissional na UFC. Nessa cama de gato que você teceu, a sua experiência vai se mostrando como um tecido de pessoas, lugares, instituições, afetos. Eu li com muito gosto, Cristiana, e muito agradecida por estar nesse jogo de barbante que você armou em sua vida e em sua experiência narrada.

As fotos foram muito bem escolhidas, nota-se a importância do seu doutorado em caminhada. Adorei as fotos porque inclusive eu estou pelo menos em uma delas, né? Você criou um acervo com anotações de curso, programas de curso, etc. As fotos, as duas que se referem ao doutorado, me despertaram boas lembranças. Aliás, que dosagem impecável de fotografias! Não há excesso de fotos no texto, elas se insinuam como a outra grafia que, ao lado da escrita, compõe o seu relato.

Pelo seu relatório e pelo memorial, sabemos que você coordena o grupo de estudos e pesquisa Rastros Urbanos, cujo objetivo seria o de compreender do ponto de vista socioantropológico os modos de vida na cidade, as práticas urbanas, tomando como eixo central reflexões sobre memória, narrativas e imagem. Belíssimo projeto! O tripé memória, narrativas, imagens comporia com a cidade urbana a sustentação do grupo de pesquisa ao qual você deu existência.

Parabéns por isso, uma vez iniciada a sua carreira como professora e pesquisadora da Universidade Federal do Ceará. Cito você na página 29 a 31, no 31, no PDF digital. É 29, 31, PDF digital. Cito: meu projeto de atuação na Universidade Federal do Ceará, que fundamentou a criação do Rastros Urbanos, buscou desde o início pensar as cidades na contemporaneidade para além de sua estrutura urbanística ou a crise de seus projetos civilizatórios, e observá-la em suas geografias cotidianas acompanhar as narrativas que a fazem silenciosamente nas diferentes formas de experimentá-la.

Lancei como hipótese que as políticas públicas na constituição das cidades não necessariamente partem de uma visão etnográfica da realidade social. Desde aí, no memorial, fim da citação, desde aí no memorial O nome Rastros Urbanos torna-se o eixo da experiência narrada, mantendo-se como título inclusive nas 10 últimas páginas. Curiosamente, um grupo de pesquisa estende e estende-se e estende os seus sentidos, compondo-se também nessas páginas de efeito ficcional.

Mas o grupo de pesquisa, o Rastros Urbanos, que eu sei agregou pessoas e temas de pesquisas e contribuição ao conhecimento, que são admiráveis, não teria mais permanecido um eixo estrutural da narrativa, para falar com Victor Turner, do que como a concretude de seus efeitos. Só agora, na sua apresentação, você apresenta aquilo que eu senti falta. Se eu não conhecesse o seu trabalho de rastros urbanos, O que eu saberia dele lendo o seu memorial?

Pois não nos é dito, você disse agora, se o grupo de pesquisa tem uma sede física. Belíssima ideia de que Fortaleza é a sua sede, digamos assim, né? Mas você não diz isso no memorial, né? Se reúne e como e quando, você acaba de dizer na sua apresentação, mas não disse no memorial. Você não nos apresentou Não deu substância aos rastros urbanos no seu material. Que pesquisas realizaram? Você acaba de nos mostrar em que essas pesquisas contribuíram para a compreensão de Fortaleza como cidade e sobre como diálogo com as teorias sobre a cidade e urbano que você nos apresenta no seu memorial.

Sabemos que o Poço da Draga— agora sabemos que não só o Poço da Draga A Ousa acolheu. Mas quem é Poço da Draga? No seu memorial há uma foto da ponte metálica, nada mais é dito. Precisei fazer uma busca rápida na web para saber, ou continuar ignorando talvez, porque foi na web, que se trata de uma comunidade com pouco mais de 1000 pessoas que está na praia de Iracema e que nela ocupa o lugar que foi o primeiro porto da cidade. Principalmente que seria uma comunidade ameaçada de remoção e com uma resistência organizada.

Isso seria importante dizer no material, no memorial, tendo em vista os pressupostos, principalmente, que fundamentou a criação de Rastros Urbanos e do que afirma na sua discussão teórico-bibliográfica. Porque Poço da Draga aparece tão fantasmagoricamente no seu memorial e a linha com menos densidade do meshwork que você desenhou, isto é, narrou, isto é, deu a conhecer a sua experiência. Onde estão? Quem são as pessoas, os lugares, as instituições, os autores, os países e os livros em que poços de draga se mesclam e dialogam?

Que socialidade foi com ela rastreada? Que conexões e contrapontos nessa sua experiência de rastrear a cidade com as instigantes pesquisas, as suas pesquisas e seus alunos, em busca da socialidade na cidade, como você já fizera com os romances em sua tese de doutorado e continua a fazer com a literatura africana? Poço da Draga, Fortaleza, o que rastros urbanos pode nos contar sobre essa comunidade na cidade. Melhor ainda, a questão seria: por que não nos contou?

Fundamentalmente, espero que você conte no livro que eu estou aqui cobrando que você escreva. Mesmo eu indagaria sobre os seus projetos de extensão. Você acaba de nos contar belíssimos projetos, projetos de extensão que são também pesquisa. Você, aliás, mostra muito bem esse tripé no seu percurso, né? A sala de aula, os cursos de extensão e as suas pesquisas. Aliás, quero cumprimentá-la pelo seu empenho e pela importância e significado político que você atribui à extensão.

Pois bem, essas experiências de pesquisa, isto é, essas atividades de extensão, isto é, a sala de aula, inclusive não poderia estar presente nas indagações teóricas que você discute a partir da página 33 até a página 43? Pois é, pois sim, como me parece, há uma relação intrínseca entre seus cursos, suas pesquisas e projetos de atenção, de extensão. Eu gostaria de ver alguma reflexão sobre isso em seu memorial, em como essas distintas experiências alimentam as suas formulações teóricas, pois você reconhece, um tanto de passagem, como essas inter-relações se dão na página 31.

Cito você: mergulhar nesse universo literário me fez perceber que, escutando essas escritoras, eu poderia fortalecer mais ainda o meu trabalho na extensão. Desse modo, as escritas literárias, as narrativas das minhas autoras, e a composição narrativa da montagem do álbum fotográfico com as imagens da minha avó foram se configurando para mim simultaneamente. Ainda na página 43, cito você: todo o meu trabalho de ensino e pesquisa se reconfigura pela força do trabalho de extensão.

Ainda diz você, aspas, um tempo fundamental para amadurecer as minhas relações com a cidade com as pessoas e comigo mesma. Rastros Urbanos contém em seu nome o que é uma questão para você, para suas pesquisas e as discussões que se mostram na discussão teórico-bibliográfica do memorial, que eu resumiria, muito resumindo, muito, como um embate entre um possível povo ou comunidade e o Estado. Os habitantes da cidade e/ou versus as políticas de planejamento urbano, partindo do suposto de que as segundas, as políticas de planejamento urbano, que você categoriza um tanto generalizadamente como políticas públicas, ignora os primeiros, o povo, mesmo que seja por vir, ou as comunidades.

Pergunto-me então, né, como a experiência de rastros urbanos, os projetos de extensão em Fortaleza, em Poço da Braga, etc., não aparecem no material, no memorial, conversando com Ginsburg, com Harvey, com De Certeau, com Foucault, com Manhane, com o professor Lee, com Marcos, o Antonioni, enfim, como não conversam sobre a cidade que habitam e o urbano que tensamente tentam inventar? Você nos apresenta o que esses autores dizem sobre a cidade urbana, o que você acha que deve ser os estudos e as políticas públicas nas e para as cidades, ambas as perspectivas, aliás, em todo projeto, mas nada nos é dito sobre o que os habitantes do Poço de Draga como exemplo, dizem sobre os mesmos temas.

Além de ignorar, agora aparece, apareceram na sua, nas fotos inclusive, né, na sua apresentação. Além de ignorar, talvez aí então o tom normativo, as experiências de movimentos políticos nas cidades e a bibliografia dos que pensam a cidade no Brasil, pesquisas, literaturas imensas Levanto tal questão porque você mesmo ajudou a criar essa expectativa nas páginas 39 e 40. Cito você: o método no qual me inspirei foi recriar a cidade como esse lugar praticado, através das caminhadas, entre aspas, que fiz pela cidade e por suas narrativas, e pelo que na cidade se traduz como arte e está envolta em saberes.

Um percurso de passos que se perdem saindo do conceito de cidade às práticas urbanas e culminando no acompanhar de procedimentos, aspas, multiformes, resistentes, astuciosos e teimosos, que escapam à disciplina sem ficarem mesmo assim fora do campo onde se exerce e que deveria levar uma teoria das práticas práticas cotidianas, do espaço vivido e de uma inquietante familiaridade da cidade. Perfeito, né? Eu tenho certeza que foi isso que você fez.

O que eu tô te dizendo é porque isso não foi para o memorial, né? Parei várias vezes na sua discussão com os autores, na explícita citação dos seus projetos, como associação entre narração Configuração da cidade e autobiografia, um conceito que valeria a pena ter parado porque é interessante. Ou seja, diz você, porque parece um oxímoro, né, autobiografia, ou talvez não seja, mas enfim, vale a pena discutir, diz você, a configuração múltipla de narradores na constituição das cidades.

Belíssima essa formulação. Ou ainda, você parava em afirmações misteriosas que me provocavam dúvidas, como, cito você: pensar o contexto como lugar onde as relações ganham sentido é necessário para compreendermos o porquê de como as cidades se tornaram o que são. Outra boa formulação. Finalmente, né, o belíssimo trabalho de revelação com palavras e imagens de sua avó bem poderia ter convivido com a revelação de Posto da Draga, Fortaleza, e quem sabe, não sei, as cidades da literatura africana que você leu.

Li com interesse, fiz muitas paradas que eu vou ignorar aqui, nas sucessivas projeções conceituais sobre cidades e urbano, mas também nessa leitura procurei um tanto inutilmente no memorial a invisível Poço da Draga, as memórias afetivas de um dos projetos, as Carolinas descobertas, a concepção etnográfica de descrição e observação, o de perto e de dentro, os deslocamentos e escritos que você cita referindo-se ao Maiane. Finalmente, um conceito me incomodou.

Agora compartilho esse incômodo com você: a tradução de seus atuais interesses pela genealogia. Ora, ao falar de sua avó, você falou da tia, falou da mãe, falou de dois nomes, Falou de fotografias e do bordado, falou de viagens e de literatura. Linhas distintas e conectadas que mais lembram um meshwork do que uma genealogia. Esse traçado, genealogia de linhas retas, que recria ancestrais ascendentes e descendentes e assim omite a multiplicidade.

E as relações laterais, as afinidades, digamos, o entretecer das linhas. Aqui, como você vê, estou me inspirando em Ingoth. O aconchego das primeiras páginas, o onírico das últimas, me fizeram imaginar um encontro para preencher esse meio. Neste encontro imaginário, estaria conversando com você. Como fizemos tantas vezes, mas desta vez sentadas na praia de Iracema. E você me pediria que esquecesse o que eu li ou leria em guias turísticos sobre Fortaleza ou em textos oficiais e me contaria o que você aprendeu sobre a cidade, sobre memória, experiência, narrativa, invisibilidade, imaginação, com o povo, ou como você quer, com os habitantes de Poço da Drago.

Me falaria de pessoas e nomes e vidas em Fortaleza para mim desconhecidas. Este encontro se prolongaria em torno das fotos que depois, já longe das praias, você me mostraria abrindo os baús dos projetos de extensão. Um encontro improvável, Cristina, mas em seu lugar tome esse encontro imaginário e os meus comentários como um projeto de livro e como um estímulo para que você escreva, como se você estivesse sentado comigo na praia de Iracema.

Depois desse memorial e daquela coletânea importante que você organizou com o Lucas Tenório, Arrastros Urbanos: Experiências Narrativas e Memórias na Cidade, o seu último parágrafo nesse livro, naquela coletânea, Evoca uma combinação do Wayfaring do Ingrid e a sacola ou mochila de Ursula Le Guin. Tudo que eu disse, enfim, até aqui foi para te estimular, para repetir, a que você escrevesse esse livro, que eu lerei com muito gosto, como eu li o seu memorial. Muito obrigada pelo convite.

?Voz B

Obrigada, professor. Agora, né, vamos ouvir a Cristina rapidamente, né?

CMCristina Maria da Silva

Sueli, muito obrigada pela leitura atenta, como sempre, né? E talvez um momento importante para dizer que durante o doutorado você foi uma presença Sempre atenta, cuidadosa, né, lendo todas as minhas páginas, que são páginas que eu guardo até hoje, né, eram anotações manuscritas e guardo com muito carinho junto com os programas e todo o material dos cursos que eu fiz com você, porque isso alimenta ainda muito o meu trabalho. Muitas questões que você colocou aqui eu acolho, e eu sei que elas não foram ditas, né, no meio da escrita desse memorial.

Como eu disse, né, foi uma luta escrevendo esse texto, e o que entrava, o que não entrava, o que era o presente o que era o passado, o que tinha que ser dito, e o cansaço também. E aí o cansaço, ele já estava realmente muito grande. Então muita coisa eu sei que não entrou, e você formulou isso muito bem quando disse o que não nos contou, né? Eu contei que muita coisa já estava no relatório e nos arquivos, que estão juntos a esse processo, mas sei que é importante para quem lê minimamente ter esse acesso.

E aí eu penso que é importante eu retomar, eu fiz uma pausa brusca aqui na minha apresentação, eu vou voltar algumas imagens que eu falei aqui da minha avó, e talvez nisso eu consiga fazer uma mediação com a importância que foi chegar ao Poço da Draga e esse processo que tem sido principalmente de escuta dessas narrativas e de acesso dessas memórias. Então, olhar para Teresa, né, foi também olhar para um arquivo vivo que é ao mesmo tempo nebuloso.

Esse recorte aí dessas marcas do tempo, dos fungos, que tomam essa fotografia me fez perceber, pode ir, pode passar, algo que a Tuani Egas, através do trabalho dela sobre a poética dos fungos, me ensinou, né? Até mesmo os fungos, eles atuam, né, na sua própria ontologia, né, enquanto todos dormem, como organismos de interação entre a vida e a morte. Depois do momento de contemplação, o meu impulso seguinte é fotografar. Foi isso que ela fez, né?

E ela vai dizer que decompôs, recompôs. Então, me inspirando muito no trabalho dela, eu comecei a olhar para essas fotografias que ficaram durante muito tempo nas paredes da casa dos meus avós, e as marcas desse tempo, né, e fui encontrar neles a possibilidade de tecer, de refazer. E aí foi muito como o trabalho da criança, né. Eu peguei uma dessas fotografias, fiz uma cópia e fui ali cortando, recortando. O encontro com essa segunda pessoa, que é minha tia-avó, A tia, que depois eu vou descobrir que tanto a minha avó, o nome mais próximo, e talvez aí onde a genealogia entrou.

Eu no semestre passado fiz uma formação em genealogia e foi interessante para mim. Me aproximei, já me afastei, então não se preocupe, foi tudo muito rápido, né? Porque eu acho que depois de ter sido sua aluna, de ter lido o Inglot e continuar lendo o índole, não dá para ficar muito tempo com a genealogia. Mas foi importante para mim porque eu encontrei nesse movimento um dos documentos mais antigos, que é onde tem o nome que talvez seja o nome mais próximo da minha avó, porque até agora é o documento mais antigo, de 1932, que é o registro do casamento dela na igreja, que é Teresa Maria de Jesus.

E isso me mexeu muito comigo porque lá estou eu com a Carolina Maria de Jesus. E no encontro familiar, um parente que eu não via há muitos anos se aproximou de mim e disse que não sabia das pessoas que estavam na casa, ele não sabia quem eu era. Mas olhando para mim, eu parecia muito com a Tia Tônia. E aí eu não sabia quem era a Tia Tônia. E aí fui vasculhar nos arquivos e descubro que a Tia Tônia é irmã da Teresa. E recentemente também, cavando nos arquivos, na memória dos familiares, eu descubro que a Tia Tônia é chamada— o nome dela é Antônia Maria de Jesus.

Mulheres, né? Então encontrar essas mulheres e esses vínculos, né, e essas linhas familiares me ajudaram a pensar muitas coisas. Pode passar, né? Pode ir, pode ir. E me aproximar de muitas mulheres dessa cidade, né? Essa é uma delas, é que veio através do A Helena, né, mas pode ir. A Mirtes, que veio através da Tinale. A Cilda, que veio através da Letícia. E pode passar. E aqui as mulheres do Descobrindo Carolinas, né, que são as mulheres que a gente tá escutando mais recentemente É não só um processo de escuta, mas é também um processo em que a gente tem que aprender a ler o que as linhas do bordado nos colocam diante dos nossos olhos, né?

Então, tudo isso para dizer, para voltar para sua pergunta, não vou fugir dela: quem são essas pessoas, né? Como foram essas conexões? Então, em 2016, é o primeiro local que nos acolhe no Poço da Draga. É o primeiro acolhimento foi através do Sérgio, que é um guia local, e ao falar para ele do que nós estávamos fazendo, ele, a nossa intenção, que não tinha nada ainda, era apenas um projeto, mas eu já apostava que conhecer Fortaleza através das fotografias iria me dar acesso a muitas coisas.

E depois fui confirmando isso ao longo do caminho, não só das narrativas, mas das memórias dessa cidade. E mais para frente acabei formulando a ideia de que ela também me dava acesso à biografia dessa cidade. A parte dessa biografia aqui não se fecha, mas é algo que tá sempre sendo reconstituída, recomposta, né, assim como o trabalho dos fungos. E nesse encontro com a Ivoneide, é um daquele, o livro que eu apresentei aqui, o Territórios da Memória, é um desses trabalhos em que para mim foi muito forte esse encontro.

Livro, é porque a Ivoneide guarda na casa dela nesse álbum, porque ali nós temos o— ali já é o livro, mas nós temos o álbum, né, que é o álbum dos santinhos dos mortos do Poço da Draga, né. E aí é um trabalho que foi atravessando não só ali o mundo dos vivos, né, um processo muito vivo, mas também uma conexão profunda com os mortos daquele território. Nos álbuns da Ivoneide, eu fui me conectando também com os quintais. Os quintais, eles vão ter uma importância muito grande no Poço da Draga.

Eu fui conhecendo as mulheres através das fotografias, e só em 2017 é que eu começo a acessar esses quintais É depois desse contato com a Ivoneide que eu começo a ser convidada, começo a entrar nesses quintais, a participar das festas, das celebrações, dos aniversários, né, das atividades que acontecem lá até hoje e do próprio sarau. E com isso, quando em 2023 nós fizemos a Guardiãs das Memórias, Tava muito claro para nós no início dois movimentos.

Eu digo nós porque quem me ajudou a pensar nesse processo foi a Alana, que está aqui. Então ela foi curadora junto comigo. E para mim era muito importante falar das águas.

ASAndrea Saad Hossne

Por quê?

CMCristina Maria da Silva

Porque como você fez aí essa pesquisa rápida, o Poço da Draga é um espaço que tá ali na Praia de Iracema, no primeiro porto da cidade, onde está a Ponte Metálica, do lado do Dragão do Mar, do lado da Caixa Cultural, né, protegido pelas muralhas da Caixa Cultural, que é a antiga alfândega de Fortaleza, mas ao mesmo tempo muito vulnerável à especulação imobiliária e uma luta pela permanência até hoje. Né, então essas pessoas, não só os mais velhos como hoje os mais novos, que a Ivoneide me ensinou, eles têm uma denominação muito bonita, os Filhos do Poço.

Então os Filhos do Poço hoje trabalham produzindo trabalhos cinematográficos para contar essas memórias, fazem filmes nos quintais dos seus avós, né. Fazem diferentes trabalhos também assessorando outros pesquisadores, né? Nós temos na universidade muitos pesquisadores que foram para o Poço da Draga, fizeram trabalhos muito importantes, não só das ciências sociais, mas de outros cursos. Então as águas, elas tinham essa importância por estar ali às margens do Oceano Atlântico, Mas também porque a questão tinha outras questões, a questão do acesso à água, né, da água potável.

Até hoje ainda é uma luta, apesar de estar colada com a Praia de Iracema, não tem saneamento básico. Então a gente percebe aí essa luta pela defesa do território, como ela ainda é presente, e E ao mesmo tempo a relação, aí onde entra a literatura africana, quando eu tenho acesso ao Mia Couto, mas há muitos contistas da literatura africana, eu vou me conectando muito profundamente com a relação entre a memória e as águas, né? Então isso vai ser uma conexão muito importante para mim.

E dentro da montagem da exposição nós fizemos a Sala das Águas e a sala seguinte se chamou a Sala das Pedras. A Sala das Pedras, por quê? Porque uma das primeiras coisas que eu escutei da Ivoneide é que na Praia de Iracema, do lado da Ponte Metálica, um pouquinho depois, tinha umas piscininhas que se formavam ali por conta de um acúmulo muito grande de pedras e que foram removidas na década de 90 por conta de uma série de projetos de intervenção na Praia de Iracema, para fazer o grande aterro da Praia de Iracema, por conta de shows, de eventos, e também por conta do avanço do mar, que na verdade o mar tomando o que é dele, né?

Mas a especulação imobiliária sendo maior. E aí, com isso, a Ivoneide me disse uma coisa que foi muito importante para o que a gente organizou, em que ela dizia que cada morador tinha sua pedra. Então eu associei isso ao direito que cada um tem à cidade, né? Então isso foi muito forte. E o terceiro movimento foi, né, até por sugestão do Saulo, nós fizemos a Casa da Avó.

ASAndrea Saad Hossne

Por quê?

CMCristina Maria da Silva

Em respeito às mais velhas do Poço da Draga, o acúmulo de fotografias que nós tínhamos delas, mas também há uma sugestão do Saulo, uma orientação dele antes da exposição. Nós fizemos um movimento de fotografia e bordado e muitas pessoas foram para esse momento para que a gente fotografar, para que a gente bordasse fotografias dos avós. E aí foi um trabalho que deu tão certo que nós montamos uma sala inteira. E nesse momento da defesa, da defesa, é muita defesa, no momento da exposição foi a sala que teve a maior repercussão durante o período da exposição, de conexão mesmo do público, né?

Sobre o encontro, não vejo como um encontro improvável esse encontro em Iracema. Eu acho que hoje nós temos muitas formas de fazer esse encontro com a sua presença e para que essa conversa não se esgote aqui. Né, anotei muita coisa, né, vou escutar novamente a gravação. E essa cidade que você pergunta, né, que cidade, que sociedade que foi com ela encontrada, é essa sociedade que é dessas pessoas que, ao contrário do que as políticas e do que os gestores dizem, não está à margem, assim como Carolina não está à margem.

Essas mulheres trabalham, essas mulheres cuidam dos filhos, cuidam das avós, elas cuidam dos vizinhos, né? E o que mais eu tenho aprendido no Posto da Draga: cuidam como família, né? Porque cuidar como família não é— mas é família mesmo, não é família de enfeite, né? Cuidam em todos os sentidos, né? Então essas são essas pessoas, as pessoas que estão não só no posto da draga, mas as pessoas com as quais a gente tem se conectado durante esses anos.

E uma última coisa sobre as argumentações, talvez está nos arquivos do processo, no relatório, mas não veio para o memorial. Teve muita coisa que eu fui confiando que estava no relatório, porque são dois documentos. No relatório estão os artigos. Então, durante esses anos, nós escrevemos muito. Foi algo que eu me preocupei muito, da gente ir documentando o caminho. Então, o primeiro artigo, quero dar ênfase a isso, 2019, que foi publicado pela Ponturbi em São Paulo, na USP, foi quando a gente pela primeira vez formulou a questão de a possibilidade de pensar a biografia da cidade Fortaleza a partir da união aí de todos esses relatos, de todas essas memórias, né?

E os artigos que se seguiram ao longo desses anos foram em alguns momentos pensando essas guardiãs, apresentando e comparando algumas delas. E um dos últimos que nós escrevemos, nós formulamos um trabalho sobre peças acessíveis, peças táteis, né, a possibilidade também de pensar a fotografia e acessibilidade, que foi por conta do nosso contato com a museologia e E o que é uma preocupação de também tornar esse trabalho acessível, já que nós estamos lidando com imagem, né? Então foi esse um pouco o caminho. Sei que não respondi tudo, mas está aí.

AMAna Maria César Pompeu

Muito obrigada, Cristina.

?Voz B

Então agora nós vamos ouvir a professora Andréa, né, da USP. Professora, 20 minutos também.

ASAndrea Saad Hossne

Eu vou iniciar aqui uma contagem porque eu tendo a ser muito prolixa, eu não quero passar aqui. Eu queria te agradecer muito, Cristina, porque esse reencontro com você, ele teve um impacto muito grande em mim. E te ouvindo agora, vendo a apresentação que você fez, as respostas, né, que você deu para as coisas que a Sueli levantou. Também foi bom reencontrar a Sueli. Eu me lembro daquela banca, me lembro muito bem. Eu acho que você é uma poeta.

Eu acho que a poesia é uma coisa tão presente em você, ela é você é um pensar-sentir, para usar uma expressão que a Clarice Lispector usa na voz da personagem Ângela no Sopro de Vida, que você cita também no memorial. É a maneira como você aproxima as coisas, é uma maneira que é própria da poesia, e sempre há algo de intervalar ou lacunar quando isso acontece. Existe uma aproximação, mas também existe uma evidência dos hiatos, dos espaços, das frestas.

E eu senti isso lendo o seu memorial e te ouvindo aqui. E eu fiquei muito preocupada. Eu gostaria de ter feito o que a Sueli fez, de escrever e de colocar, de organizar, mas eu tive uma dificuldade para fazer isso porque eu percebi que toda vez que eu tentava escrever alguma coisa para você, eu tava escrevendo alguma coisa para mim e sobre mim. Então eu queria te dizer que a minha impressão é que o seu memorial, que se completou agora com a sua apresentação, é mais um desdobramento dos rastros urbanos.

Ele provoca em nós, esta, o querer narrar. Ele traz à tona alguma coisa da nossa experiência que a gente quer falar com você, mas ao mesmo tempo a gente quer contar para você alguma coisa que é muito nossa. Então eu notei também algumas coisas parecidas com o que a Sueli falou, alguns pontos em que ela parou ali, algumas páginas, algumas citações. Eu tinha separado aqui, até fui marcar. Opa, aqui a Celine falou. Mas eu vou fazer um pouquinho diferente, porque como eu sou da literatura, e eu fico tão feliz que você também é, porque você é, e não só da literatura, Moura, tem um momento que você cita quando você conheceu pessoalmente o Edgar Monroe, que faleceu recentemente.

E eu vendo a maneira como você foi criando, é você é que vai fazendo a aproximação entre coisas que eu não sei porque as pessoas teimam em manter separadas como áreas de conhecimento. Eu não pude deixar de lembrar do Edgar que fala sobre isso. E aí, o que eu vou fazer, o que eu consigo fazer sem contar, sem falar de mim, sem transformar isso numa narrativa minha, é trazer aqui para você algumas, deixa eu ver, 1, 2, é 1, 2, 3, talvez 4 pontos em que eu gostaria de te ouvir um pouquinho mais, onde eu percebo poético e ao mesmo tempo a lacuna.

E a lacuna me deixa, me instiga, e eu gostaria de te ouvir. No capítulo 3, se é um capítulo, eu não sei exatamente como você enxerga isso, mas vamos chamar de capítulo, acho que é lá pela página 25, você fala da sua não adaptação à cidade de Fortaleza quando você volta. E eu anotei do lado enquanto eu tava lendo: para quem estuda cidades e pois reticências. Pensei isso. Quando chega na página 37, você dá forma também novamente para essa relação meio refratária entre você e a cidade, entre a cidade e você.

E aí você começa uma parte que eu chamei de ensaio, e que a Sueli aqui falou das suas formulações teóricas. Começa um pouco depois disso, e de fato é ensaístico. E eu acho que a Sueli mostrou muito bem algumas coisas que a gente pode sentir faltas se a gente ler como ensaio. Mas eu aí não tava lendo tanto como ensaio, eu tava lendo como uma aproximação entre isso que não se encontra, essa coisa que não se encontra. Aí quando chega na página 47, você conta que uma aluna te disse, mas é realmente, só podia chamar Rastros Urbanos o grupo que você criou?

E ela vai, ela vai estabelecer essa relação, ela vai insinuar essa relação entre a pesquisa que você faz o mundo que você abre, você abre um universo de possibilidades com rastros urbanos. E o que há de narrativa e o que há de biográfico da cidade seu também, ela te diz isso, você, você reporta isso. E aí eu gostaria de te ouvir um pouco porque você não esclarece de que teor é essa relação meio refratária, essa vontade de ir embora no que diz respeito à cidade.

Você fez exatamente o contrário, você entrou mais ainda, você foi fundo, né? Então eu queria te ouvir um pouquinho sobre isso. O segundo ponto, isso se você quiser falar sobre isso, o segundo ponto ele tá ligado a esse primeiro. Mas ele já não é exatamente a cidade, mas é ainda a cidade e é a universidade. Você começou a sua fala aqui, e você fala disso no seu memorial, dizendo que você adoeceu. Eu também, eu também adoeci na universidade, eu também quis sair.

CMCristina Maria da Silva

Em muitos momentos.

ASAndrea Saad Hossne

Você foi testemunha da minha tentativa de ficar quando você foi minha aluna em 2006, naquele curso. Vocês lembram de 2006? Foi o primeiro curso de literatura contemporânea que eu dei na pós-graduação. Foi ali que eu tentei uma coisa que você chamou na página 29, de desistir de andar entre pares. Você usa essa expressão na página 29. Você disse que você percebeu que você tinha que soltar a mão de algumas pessoas para fazer as suas escolhas.

Na página 48, bem mais adiante, você diz assim: já não deixo o outro me tirar do meu lugar pelo que ele não vê. E eu vi nessa frase alguma coisa que tá relacionada à universidade, que tá relacionada a rastros urbanos, que tá relacionada à cidade, mas que também para mim esse desistir de andar entre pares, o que não significa querer andar sozinho, isolado. Não é isso, né? Não é isso que você faz. A Sueli falou de uma maneira tão bonita agora há pouco que você entretece encontros, e você faz mesmo isso.

Então não é desistir de andar entre pares, é outra coisa, é de outra natureza. Se você se sentir à vontade, eu gostaria de te ouvir um pouco sobre isso. O terceiro ponto que eu coloquei aqui é essa coisa muito bonita, que é a extensão, tá unindo a pesquisa e a docência para você. No lugar em que eu ainda estou de onde eu ainda não fui embora, e pelo visto vou embora só com aposentadoria daqui 2 anos, existe agora um movimento de tentar separar aquilo que durante muito tempo foi um fundamento do nosso trabalho na universidade, o tal tripé: extensão, docência e pesquisa como coisas que são aspectos de uma mesma coisa.

E há uma tendência agora de separar isso, isolar, inclusive, o que eu acho muito estranho. Então eu vi uma beleza muito grande no modo como você colocou a extensão, a pesquisa e a docência. E quando você faz isso entra também a sua ação social. Você, me parece, Cristina, eu posso estar errada, mas eu te vejo como uma agente, aquela que age, aquela cuja pesquisa, docência e extensão não é separada de um agir no mundo. Não para tornar o mundo à sua imagem e semelhança, mas para ver o que que esse mundo pode ser, que potencialidades ele tem, como ele pode se constituir, até na diferença com você, se for o caso.

Eu diria que você, nesse sentido, você é uma espécie de ativista, não uma ativista de plataforma, forma, não uma ativista de um programa para algo, mas uma ativista cultural e da inserção social no próprio modo como você coloca a sua relação com o mundo a partir da universidade. O dentro e o fora para você não dá para eles se separarem. E eu acho isso tão precioso, tão precioso. E fiquei me perguntando se isso também pode ter a ver com soltar algumas mãos para poder não andar entre pares, mas fazer um caminho que você sente que vale a pena.

Mas como alguém que é da literatura, eu não posso deixar de fazer uma relação entre isso E a questão do bordado, da renda, você fala de narrativa, você fala de memória, você fala de trama, você fala em trama imagem, né, como uma coisa, né, entra a questão da fotografia, mas também você vai falar um pouco mais adiante no capítulo ou na parte G4, da questão da literatura, testemunho, trauma, vida, como isso tá dentro de você, como a literatura se põe para você nesses termos.

Olha, como alguém que é da área da literatura, como alguém que tem estado ali de um jeito ou de outro, eu não pude deixar de pensar a relação entre literatura e trama, não só no sentido de trama, o enredo, a ficção, a história que se conta, mas a metáfora primeira que a gente tem da narrativa é justamente o tecer, né, a tecidura, o tecido. E eu, portanto, e o que você E eu vi o que você apresentou como poesia, mas também como tecidura, como esse tecido que vai surgindo e que culmina com a Cristina artista, com a Cristina que borda na fotografia, na fotografia, no acontecido, e que começa com aquela foto esmaecida, mas vai fazendo todo um percurso e termina com você artista.

Como a Sueli, eu também sinto e te convoco a escrever essa narrativa. Eu sinto que você talvez tenha ido procurar genealogia Porque te pareceu em algum momento que ela te daria essa narrativa, mas essa narrativa ela já tá no modo como você escreveu o seu memorial, no modo como você apresentou as coisas aqui, no modo como você fala, no modo como você se relaciona com a cidade, com a universidade, com os seus alunos. Eu acho, Cristina, que tem uma narradora literária e que tem também uma biografia, não sei de que jeito, que tá te pedindo, por favor, me deixa sair, me deixa ganhar forma.

E eu sinto que não poderia haver nada de mais bonito a essa altura do seu percurso em que você tá pleiteando essa promoção para o cargo de titular, do que trazer uma coisa tão viva. Eu senti o adoecimento em momentos do seu texto, mas eu também, eu senti um cansaço em vários momentos do seu texto, mas eu senti uma vitalidade, Cristina. Que tá pedindo. Eu acho que tudo que você fez em Rastros Urbanos, a sua próxima escrita ou desdobramento, e eu já vou terminar, será dessa.

Eu não sei se vai ser exatamente a palavra, vai ser palavra, imagem, eu não sei, Mas eu sei que tem uma coisa pedindo para ser e que faz parte de você. Eu falei que ia terminar, mas só tem uma outra coisa que eu anotei enquanto você apresentava e que a Sueli também retomou. A Sueli falou que a sua experiência vai se mostrando como tecido. Eu anotei aqui, Sueli, e você falou dessa desses encontros, né, que ela enriquece. Eu anotei aqui e vou ler exatamente o que eu anotei: Cristina nunca vem sozinha, ela traz muita gente viva ou morta com ela.

E aí pus do lado uma coisa que eu me lembro de um livro do Ailton Krenak, em que ele diz que ali não existe isso de andar sozinho, Porque os Krenak, e como muitos outros povos indígenas, andam em constelação. E é isso, você trouxe uma constelação, você trouxe muita gente com você, e isso é muito bonito. Eu queria te dizer que além de tudo o seu percurso é muito bonito.

CMCristina Maria da Silva

Agora sim, Muito bem, né, professora?

?Voz B

Obrigado. Então vamos passar para a palavra da Cristina, né?

CMCristina Maria da Silva

Tô respirando um pouquinho, não vou chorar agora. Andréia também sempre muito cuidadosa, né, muito generosa. Foi um dos encontros mais felizes que eu tive durante esse doutorado. Uma das coisas que eu mais digo para os meus alunos, principalmente porque eu ainda vejo a universidade como via quando eu era estudante, só estudante, porque me sinto estudante até hoje, é que é possível ser feliz na universidade, né? E tanto no mestrado quanto no doutorado eu fui muito feliz.

E é uma das coisas que eu mais digo para os meus alunos e tento tornar a vida deles feliz também, não infernizar tanto, né, os coitados, porque o processo em si já é tão árduo, tão pesado. Então conviver com a Andréia foi um desses momentos muito felizes. Já contei inúmeras vezes aqui na pós como eram as suas aulas. Eram aulas que, na minha cabeça, eu fecho os olhos, eu ainda consigo lembrar de um momento em que você percebeu que já não daria muito tempo a gente se dedicar muito aos textos teóricos, e você nos disse: vocês têm os textos, tá aí a teoria.

As próximas aulas nós leremos os escritores. Então as aulas seguintes, que eram livros inteiros, nós líamos. E a sensação que eu tinha era que eu estava num sarau literário, porque— e naquela época eu fiz muitos amigos africanos e a gente fazia trocas muito bonitas.

?Voz B

Né?

CMCristina Maria da Silva

Alguns não podiam comprar os livros, então a gente emprestava, fazia um intercâmbio de livros para chegar na aula com os livros lidos. E era tudo muito bonito porque André conduzia isso de uma maneira fascinante, né? Nos colocando em contato com uma literatura que eu então chegava, que era a literatura contemporânea, E foi sobre isso o meu doutorado. E foi ali que eu conheci muitos escritores que me ajudaram na definição do meu tema de tese.

Eu queria falar de todo mundo, e aí ainda bem que a Sueli— não pode ser todo mundo, tem que escolher. E aí acabei fazendo a minha tese sobre o João Gilberto Nol e o Luiz Rufato. Mas ainda não contente, eu li todos os romances que eles escreveram e tentei falar sobre todos. Era uma sede muito grande de falar sobre tudo. Então foi um encontro muito bonito e segue sendo um encontro muito bonito. Agradeço imensamente as suas palavras e as suas questões.

Não vou fugir delas porque são questões importantes nessa trajetória até agora, né? Essa não adaptação à cidade, né? Também foi uma luta no memorial. A gente se pergunta, será que vale a pena dizer, ficar ali nas minúcias? Então eu fui falando de uma maneira que, de certa forma, como você disse aí sobre esse meu lado poético, poetizasse o caminho, né? Porque no final das contas é isso, como é que a gente elabora, como é que a gente consegue lidar com tudo que nos aconteceu.

Mas não foi fácil. Quando eu voltei para cá, a cidade não era a mesma e eu também não era a mesma. Eu tinha passado, eu penso que 8 anos fora daqui. Vim algumas vezes, mas é completamente diferente de você tá conectado com o cotidiano da cidade. A cidade já está como está agora, né, quase 3 milhões de habitantes, né. A cidade que eu tinha deixado era outra. Eu não conseguia, né, o trânsito da cidade, as conexões da cidade naquele momento estavam muito confusas para mim.

Culturalmente também foi um impacto muito grande. Eu tava muito habituada, já tinha me habituado a uma tranquilidade que até hoje eu aprecio muito de Campinas, que eu sei que não tá tão tranquila, mas tive a oportunidade de morar em alguns lugares que me trouxeram muito essa tranquilidade. Então voltar para cá foi muito difícil, as relações familiares também. Né, eu volto, eu saio de Fortaleza solteira e voltei casada, né. Então isso foi muito difícil, foi um casamento muito difícil também, né, então que durou 8 anos.

E uma das mãos que eu tive que soltar para poder finalmente abraçar essa cidade foi desse vínculo, desse casamento. Então em 2016 que eu falo no memorial, foi esse momento crucial para mim, porque eu sendo convocada fortemente, não só internamente pela instituição, mas também os trabalhos que eu queria fazer, e eu não conseguia me conectar muito porque na época esse companheiro ele não se adaptou a essa cidade. Então eu tomava muito que essa não, adaptação era minha.

Até eu conseguir elaborar, eu disse, opa, quem não tá se adaptando é você, não sou eu, né? Até porque eu estava na universidade, que é um lugar onde eu me sinto em casa em qualquer lugar do mundo, né? É incrível como isso eu aprendi com o Eduardo Said. A universidade é esse lugar, e por isso que eu aconselho muito aos meus alunos, viajem, conheçam outras instituições, Porque a gente pode ir a qualquer universidade do mundo e a gente tem essa sensação familiar de estar em casa, né?

Pelo menos para mim, até hoje tem sido muito fortemente isso. E aí também tem outras questões, é o de departamento também, né? Eu entrei num departamento que é um dos departamentos mais antigos dessa instituição, um departamento com muito muitos professores já mais antigos que de certa maneira não entendiam muito. E aí nós tivemos uma questão que aí nós que gostamos das diferenças, foi muito onde eu aprendi sobre a questão geracional, os conflitos geracionais, das dificuldades desses colegas de entenderem os projetos dos mais jovens.

Nas assembleias, nas primeiras greves que nós enfrentamos, uma muito forte, a de 2012, nós tínhamos colegas indo para os jornais escrever que não entendiam esses novos. Nós éramos chamados de novos professores. Alguns colegas até brincavam, diziam que nós éramos os novos baianos, né, porque tudo era os novos professores. Criaram essa nomenclatura para nós. Então, às vezes a gente era excluído, muitas vezes nós éramos excluídos de várias coisas.

Por muitas vezes não foi à toa que eu comecei fortemente pela extensão. Eu passei muitos anos sendo excluída dos processos de bolsa de iniciação científica, porque depois eu descobri que eram os meus pares que estavam à frente dos processos de avaliação e distribuição dessas bolsas. E a gente precisa falar dessas coisas porque a universidade é atravessada por isso. Até eu perceber, a própria Proreitoria de Extensão começou a redigir alguns documentos dizendo que as bolsas da extensão estavam voltando por falta de projetos.

Eu não seja por isso. Vamos já começar a resolver. Então, de 2016 até hoje eu não parei. Todas as ações, por isso essa pró-reitoria tão importante para mim, porque todas as ações que a Aprex nos solicita eu tô sempre à disposição para colaborar. Porque eu já tive momentos de ter tantos bolsistas que eu tinha até dificuldade de saber quem eles eram. Vindo não só da Proreitoria, mas vindo das parcerias interproreitorias, né? Então a PREX fez um trabalho muito forte nessa instituição que nos ajudou muito nessa fixação aqui na cidade.

Então esses adoecimentos vieram muito disso. No início eu não sabia nomear, nem os médicos sabiam começar a comer. Eu comecei com alguns sintomas, porque isso vai para o corpo, não tem como, né? Não só comigo, mas com vários colegas isso aconteceu também. Adquiri uma doença autoimune que uma junta médica— tive que voltar para Campinas para conseguir chegar num diagnóstico, e um diagnóstico que dizia, olha, clinicamente você não tem nada, mas no geral você precisa descansar e não se estressar.

Opa, início da carreira! Então assim, já foi o meu primeiro desafio. Como é que eu vou estar na universidade, construir uma carreira, descansar e não me estressar? E aí esse foi o grande desafio A partir de 2016 foi um pouco isso que comecei a fazer com essas mãos que eu comecei a soltar. Mas posso dizer com convicção que foi quando eu fui acolhida aqui no Programa de Pós-Graduação em Letras que isso se tornou mais forte para mim, porque eu senti esse apoio institucional A gente precisa dele, não tem como fazer as coisas se não tiver o apoio de colegas, de uns de secretaria, né?

Aqui no programa de pós-graduação, os nossos secretários são maravilhosos. O Vitor é um verdadeiro anjo da guarda, né, que não só cuida da parte acadêmica, mas antes da gente ter um problema, ele já apresenta a solução. E muitas das minhas dúvidas do dia a dia é a ele que eu recorro. Então assim, esses apoios, esse suporte é extremamente importante, e isso eu tive aqui, né? E nos poucos colegas que eu posso chamar de amigos do meu departamento, e um deles está aqui secretariando essa banca, que é o professor Martinho Tota, que é poeta também, então não é à toa que ele tá aqui.

Ele tem uma relação muito forte da antropologia com a poesia, escreve, e foi para mim um dos principais apoios. Eu digo que foi assim, na época que o Martinho chegou, ele chegou com mais dois colegas, que foi o professor Cleiton Hartz e o professor Romain, que o professor Romain voltou para França, professor Cleiton Hartz continua lá. Mas eu brincava que eu dizia que eram os 3 Reis Magos, porque cada um trouxe um presente, né?

E o Martinho é essa pessoa maravilhosa que continua ao meu lado. Mais cedo eu disse para ele, eu disse assim: você não tá nessa banca à toa, é principalmente porque eu queria que você estivesse nessa defesa. E essa foi a maneira que eu encontrei de você estar aqui, porque senão estaria ocupado com outras coisas e não ia poder estar aqui. Mas eu queria, respondendo ainda a Andréia, mostrar 3 imagens. Mostra da Tia Antônia, ela sozinha.

Não é uma anterior essa. A Tia Antônia, a foto original não é essa. A foto original, vou tentar responder algumas coisas que Andréia falou. A foto original É a foto. Quando disseram que eu era muito parecida com ela, eu fiquei curiosíssima. E aí eu queria, gente, mas alguém tem foto? Ah, impossível. Mas vocês também tinham dito isso da minha avó, que não tinha nenhuma foto dela. E hoje eu tenho mais de 25 imagens da minha avó capturada aí dos acervos familiares.

E aí eu consegui encontrar Uma tia minha me ajudou a encontrar na casa de uma filha dela é uma fotopintura na parede em que ela está ao lado do marido. E era um marido que aí fui procurar, essa imagem foi enviada para mim, e quando eu olhei eu comecei a perguntar para as mais velhas, as minhas tias mais velhas, minha mãe, minhas dias, ninguém sabia nada da tia Tônia. Não, a gente já tinha saído de casa, a gente não tinha acesso, a gente não sabia.

E foi a irmã mais nova que me deu notícias sobre as narrativas de vida dessa tia. Ela disse, ah, eu ainda estava em casa e eu é que ia com a mamãe visitá-la. E o que ela me contou? Que era uma Foi uma mulher que sofreu muito, um casamento de muitos anos com uma pessoa muito ruim que a espancava. Ela se escondia embaixo de um fogão a lenha e ele, não tendo como conseguir chegar até ela, ele socava ela com a lenha. Quando não, ele a expulsava de casa e deixava ela dormir do lado de fora.

E aí ela dormia debaixo de um pé de juazeiro. Por isso que na exposição do Museu de Arte da UFC eu pedi a uma vizinha, se ela conseguia, várias pessoas, se alguém conseguia galhos de juazeiro para mim. E aí uma vizinha, não, levou no interior e volto. Era uma Semana Santa antes da exposição e volta. Ela trouxe tanto galho que eu ainda tenho em casa até hoje. E aí eu coloquei esses galhos junto com ela e foi um dos primeiros ensaios meus assim tentando fotografar, tentando bordar em fotografia.

Né, sob a supervisão da Alana, né, porque ali eu não sabia nem passar a linha direito. E aí a mão toda tremendo, porque não era só— é uma escrita, e é uma escrita. E hoje, quando eu ensino alguém a bordar, eu percebo a mão das pessoas tremendo, e eu lembro de mim, porque é a mesma dificuldade que a gente tem quando a gente tá aprendendo a escrever, né. É uma forma de escrever, uma forma de grafar, é forma de ler a vida. Passa para as duas últimas, por favor.

Aqui, né, por que que essa imagem é importante para mim? Aqui eu fiz o mesmo movimento, né? Tem uma foto que já passou aqui, pode ser que depois eu volte. Em que a gente fez a minha avó era rendeira, mas não ficou nada desses, dessas rendas, né? Então, na exposição do mal que a gente fez essa tentativa, essa fotografia ela foi passada para o tecido. A Lana fez esse trabalho e a Lana fez aquele suporte das rendeiras né, que trabalham com a renda de birra.

Isso ficou ao lado de uma peça em ferro do Zé Pinto, artista daqui de Fortaleza, que é acervo permanente do Malk, mostrando a força dessas rendeiras. E essa rendeira do invisível, que é a minha avó, é o que que eu fiz? Fiquei durante todos esses anos olhando esses álbuns E eu não mexia nessas fotografias, e eu comecei a mexer nelas recentemente. E uma delas foi esse movimento em que essa fotografia, ela está do lado do meu avô, e eu tirei ele daí, né?

E tirar ele daí foi um movimento que também acabou falando muito de mim, né? Dessas mãos que eu soltei, porque eu tirei É, pensando muito nas narrativas sobre ela. A minha avó, ela passou 50 anos da vida dela vivendo numa casa que ela detestava por conta da obrigação de ser casada, numa cidade que ela não queria ter morado. Minha avó era do sertão e foi obrigada pelo casamento a morar na serra, no frio, e muito frio, numa casa que ela também detestava.

São as narrativas que eu recolhi das minhas tias. Uma casa, uma casa de barro em que ela dizia que toda vez que meu avô colocava um pedaço de barro, ela tinha vontade de derrubar dois. Mas foi nessa casa que ela teve que morar. Essa casa que também foi onde ela teve os filhos, mas foi onde ela sofreu muito, né? O que é muito bonito também é que, até por conta da tecnologia, a maior parte das fotografias dela é do lado de fora, do lado das flores.

E aí, por isso que eu quis de alguma forma fazer um pouco esse movimento e pensar também nesse vazio, pensar nessas lacunas. Então agradeço quando você diz, né, de alguma forma você me ajuda a responder a Sueli. Essa questão das lacunas, porque é isso, né? Eu acho que tem muita coisa que eu não consigo realmente trazer ainda em palavras, mas tem uma coisa que eu preciso dizer: eu queria muito ter chegado nessa defesa já pelo menos com um livro, que era o livro sobre a Teresa, porque nesses 10 anos já deu tempo.

Tempo assim, tempo de ter coisas para colocar no livro. Muitos dos meus alunos, inclusive um que tá aqui, o Alex D'Arce, ele, professor, escreve esse livro, ele tá aí, tá gritando, né? E aí, durante esses 10 anos, isso já veio de muitas vozes de colocar esse livro da Teresa, e até agora eu não fiz. Pensei que daria tempo fazer memorial, relatórios, arquivos do processo e trazer o livro tudo junto, não deu, mas virá, né? E agora você, pelo menos na fala da Andréia, percebi um outro aí, o biográfico, né?

Então é muita coisa, mas de alguma forma isso vai vir. E aí uma forma de conversar com esse vazio foi de alguma forma fazer esse movimento que a Andréia chamou de artístico, né? Agradeço. Pelo artístico, que foi, eu tinha aprendido com a Alana a fazer esse buganville, que eram as flores que ficavam no entorno da casa da minha avó. Alguns alunos estão vendo agora, né? Eu tinha colocado essa fotografia, esse, eu tinha, eu aprendi a fazer no tecido E aí me coloquei o desafio de trazer para essa fotografia, só que agora Teresa sozinha, né?

E trazer Teresa sozinha é também, de alguma maneira, pensar também nessa minha escrita, nessa minha biografia, na minha trajetória do que eu fiz até aqui. Ano passado eu fui convidada pela Elizabeth Etayo para fazer uma uma conferência para um grupo de mulheres na Colômbia. E aí fiz essa conferência, falei sobre todos esses acervos, sobre essas imagens, tudo isso que essas imagens têm me dado. Mas o que mais me espantou não foi o que eu falei ou aquela discussão.

Depois, dias depois, eu recebi um relato Uma das alunas da Elisabeth fez um relato e colocou no site da universidade sobre o que tinha sido a minha fala. E eu me surpreendi muito com o texto, é tanto que até agora eu não consegui reler. Essa aluna falava várias coisas, e entre essas várias coisas ela dizia: fala sobre a a sua fala sobre as mulheres da cidade de Fortaleza e de outras cidades, mas também dos seus acervos familiares, da sua tia-avó e dos assédios que ela sofria em relação ao marido, e também do seu avô, que também assediou a sua avó, que também foi uma pessoa que maltratou essa mulher.

E foi a primeira vez que eu notei isso. Até então eu não tinha, não via o meu avô assim. Eu vi ainda o meu avô como aquele que cuidou de mim durante a infância, porque foi com ele que eu acabei convivendo mais tempo, até o início da minha adolescência, quando ele faleceu. Então foi quando eu me dei conta do quanto esse homem fez mal a essa mulher, né? A essa mulher que até então Eu olhava e só agora que eu tô conhecendo, né? E aí, para fechar essa parte, de novo eu recorro a Lisa Alves, no Pequena Biografia de Mulheres Mortas: não, vó, nem sempre ficamos inteiras.

Muitas vezes só restam as partes estragadas. Então temos que lidar com o nosso pior, pois o nosso melhor foi devorado pelos anos e pelo paladar de quem nos amou. É isso.

?Voz B

Então vamos continuar, né, dar continuidade aqui ao segundo espaço da nossa defesa. Vamos ouvir então a professora Neuza Gusmão, da Unicamp. Bem, professora, Bem-vindo.

NMNeusa Maria Mendes de Gusmão

Boa tarde a todos, a todas. Eu tô aqui bastante emocionada por esse momento que a Cristina tá passando com pessoas que fazem parte de uma trajetória viva dela, né? E que nesse momento vem trazer, vamos dizer assim, memórias de trocas, de compartilhamento, dessa vida acadêmica, mas não só, porque como ela mesmo mostra, há muitas vidas entrelaçadas, muitas experiências, muitos desafios. E aí eu tô me vendo, após ouvir a Sueli e a professora Andréia, que eu tô num desafio como participante desta banca, porque institucionalmente sou uma componente do banco externo.

Mas percebo pela história de vida vivida pela Cristina com a professora Celi, que foi sua mentora no mestrado, doutorado, e da convivência com a professora Andréia, que também é do campo da literatura, que é o campo por excelência das discussões acadêmicas da Cristina, que eu realmente não sou especialista em análise literária, não fui mentora orientadora da Cristina, e de fato sou externa, né, nessa banca, no sentido de ser uma honra estar com a Cristina nesse momento, mas ao mesmo tempo um pouco apavorada, porque eu não tenho essa convivência intensa com com a Cristina.

Nossos encontros foram encontros pontuais ao longo de alguns anos na Unicamp, nos eventos, nos congressos, em que sempre ela me acolheu com muita gentileza, com carinho, educação, e a gente sempre teve uma troca gostosa de acontecer. Mas eu nunca tive o, vamos dizer assim, a compreensão intensa, interna, profunda da trajetória acadêmica da Cristina. Então vocês vão me ouvir com essa limitação que é minha, e é nesse sentido eu também sou antiga, eu gosto de fazer escrita para falar nas bancas, embora eu nunca fique totalmente presa ao que eu escrevo.

Acabo falando demais, como vocês começam a perceber, né? Mas então vou falar com essa situação de ser externa a essa vivência intensa da Cristina, com quem me antecedeu, mas falando evidentemente de uma trajetória acadêmica que ela partilha com todos nós, né? Então, o que que eu posso falar do memorial e do percurso acadêmico que ela nos traz? O que eu sinto é que o memorial da Cristina revela um campo profissional que não se faz separado da vida pessoal, como acadêmica, pesquisadora e docente que ela é.

Então, esse percurso pessoal e acadêmico traz para mim uma sensação de que a Cristina consegue concretizar no seu fazer, né, a relação entre prática e teoria, na medida em que ela assume a experiência que ela viveu ao longo desse percurso e que ela refletiu, pensou, como um motor, né, de levá-la a pensar, refletir, compreender intervir na perspectiva de criar novos mundos mais inclusivos, mais equânimes, novas possibilidades, novas alternativas em cada um dos campos de atuação.

E nesse sentido, eu penso que o memorial da Cristina evidencia que os eixos estruturais da vida acadêmica— docência, pesquisa e extensão— se mesclam num compromisso de ensinar e aprender no âmbito institucional, mas também revela o compromisso político e público que ela tem em contribuir para o desenvolvimento não só de novas práticas educacionais, mas daquilo que é a constituição dela como sujeito, como pessoa, e de todos esses que tramam a vida em torno do seu percurso.

Então, a atuação no campo da pesquisa, ao meu ver, e mesmo na extensão universitária, no caso de Cristina, tem proporcionado uma imersão qualitativa e crítica de seus estudos, como ela vai desenvolvendo ao longo do memorial. Mas como o nosso tempo nesse ritual é bastante limitado, eu quero destacar algumas passagens do memorial, desse caminho, para que a gente possa conversar. E que quero também ressaltar o que significa chegar a esse momento da carreira, ou seja, da titularidade.

Quando a Cristina dá um título ao seu memorial, que ela chama Nos Rastros das Narrativas, já se revela aí que rastrear passos que moveram a sua trajetória e a conduziram por esses caminhos que ela mostra o ato de ensinar e de aprender de forma a se mover e a mover outras pessoas à sua volta, seus alunos, seus contatos ao longo das pesquisas e tudo, se faz como uma trilha de conhecer e produzir conhecimento no qual é importante reconhecer, e ela reconhece o tempo todo, que ela não fez o caminho sozinha.

E em suas palavras, cito: a Cristina, ela diz: vivo e ensino o que aprendi com mestres e mestras que me ajudaram a chegar até aqui. Isso me lembrou muito um grande amigo meu, antropólogo como eu e Sueli, que é o Brandão, Carlos Rodrigues Brandão, que dizia que a educação— e nós estamos falando do campo educacional, não é— se faz sempre com, nunca sozinha, pois que o fazer educativo é sempre partilhado, já que não estamos sós no mundo e isso constitui a base de toda aprendizagem.

Eu acho que o memorial da Cristina é um exemplo claro desse contexto que nós estamos falando aqui. E aí eu quero ressaltar essa dimensão porque não apenas a Cristina fala dos muitos contatos que ela vai fazendo ao longo da caminhada, Mas impressionante para mim foi perceber como é que ela cita, nomeia, e desde o primário, não é? Desde lá de quando ela é alfabetizada dentro de casa e posteriormente em cada etapa, como ela nomeia um a um dos que fazem parte desse percurso.

É impressionante sua memória, mas mais impressionante para mim, o que me impressiona de fato nisso que a Cristina nos conta, É a gratidão que acompanha a cada lembrança, a cada pessoa com quem ela caminhou, e que mostra uma imensa capacidade de reconhecimento, de gratidão, que diz muito sobre quem é a Cristina como pessoa, né, como um ser que assume a sua condição como sujeito, mas como sujeito que que também partilha a vida com outros sujeitos num aprender constante e que faz com que ela transforme, né, o seu trajeto, ela transforme a sua trajetória de formação e docência nesse compreender e ensinar os outros com os outros, com todos, como afirma Godelier, que é também um antropólogo, com relação ao trabalho do antropólogo.

Você nunca está sozinho, né? E a Cristina é um exemplo em outra área, em discussões relativas a isso, de como que a gente não anda só, né? E não andar só significa não apenas ser isso no campo educacional, mas ser isso para se levar na vida como um todo, como um projeto, como um objetivo. E a Cristina mostra isso porque ela destaca propositivamente a sua atuação na universidade para além dela, né? Quando ela traz como significativo no seu processo a questão da extensão como possibilidade de transformar.

Eu penso, e aí eu, é uma coisa que eu tenho pensado muito, tenho alguma coisa escrita a respeito ainda, quero pensar, amadurecer muito isso, que a extensão como possibilidade de transformação estrutural da universidade que temos, a universidade branca, de elite, cristã, enfim. Há hoje uma série de atividades de extensão de diversos tipos que ocorrem em diferentes universidades no Brasil, algumas delas extremamente interessantes, Não tô falando apenas dessas que aproxima mestres e mestras da vida cotidiana das comunidades tradicionais ou mesmo indígenas com a universidade, mas que aproxima também a universidade de um outro modo de trazer sujeitos que nunca estiveram na universidade a partilhar um conhecimento, um saber, e a fazer uma mudança estrutural na universidade que temos.

Isso ainda tá por ser feito e eu acho que quando tanto a Andréia quanto a Cristina dizem que a universidade nos adoece e que muitas vezes se tem ganas de sair desse espaço, mostra que não se sai porque aquilo que incomoda é aquilo que nos faz refletir. E eu acho que enfrentar o mundo da universidade com sua institucionalização, com suas suas limitações e de relações de poder, etc. Assim como enfrentar o mundo lá fora da universidade e compreender os saberes que se constituem como verdadeiro conhecimento é um desafio maravilhoso que a Cristina traz com intensidade em situações, em relações com pessoas, aprendendo e transformando isso em disciplinas, construindo portanto cursos, congressos, participando, publicando desde as primeiras experiências da graduação e construindo principalmente uma atitude de abertura, de troca partilhada, e até se deixar impregnar pela literatura na graduação e na pós-graduação.

É muito importante isso porque o diálogo entre áreas diferentes não é uma coisa tranquila, nem no campo das ciências sociais, nem no campo da antropologia, nem no campo da educação. É um desafio porque se trata de estruturas de conhecimento diversas, com paradigmas também diferentes, com trajetórias de constituição diversas. Então aproximar áreas de conhecimento como ela faz entre as ciências sociais, marcadamente antropologia, e a literatura é para mim algo que mostra que essa trajetória se dá numa produção reflexiva em que aproxima as obras literárias e a ciência.

E ela diz num certo momento do seu texto, com muita felicidade, eu não vou dizer a página porque não anotei, ela diz que os textos escritos não dão conta do que transborda, é a palavra delas, em experiências. Isso me lembrou um escritor, Vargas Llosa, que diz que os acontecimentos traduzidos em palavras sofrem uma profunda modificação, né? Ou seja, que o que é escrito se transforma no que tá escrito. Isso diz da limitação que não dá conta do que vem junto com nossas vivências, com nossas experiências.

E também Humberto Maturana, que também fala dessa, dessas limitações, ele diz que não há ação humana que não envolva emoção e subjetividades. E essa é a dificuldade da tradução em palavras escritas ou não. A poesia, a literatura, a música nos ajuda a ganhar mais espaço para além da palavra escrita, mas ainda também torna-se muito difícil trabalhar no âmbito das subjetividades, que é o campo da antropologia, né? E acredito que essa dimensão da emoção, da subjetividade, doe no trabalho de docência e pesquisa e extensão, bem como no trabalho de campo.

Ela nunca está plenamente contemplada em nossos escritos, publicações, teses. Por isso, se há limitação no memorial da Cristina, como foi apontado pela Sueli e foi apontado pela Andréia, de que ficou um vazio, eu também senti que tem um, que o memorial da Cristina tem duas partes, e eu já vou falar sobre ela. Mas o que eu quero dizer é que na verdade isso acaba acontecendo porque as descobertas que nós fazemos nas nossas experiências vividas, seja no campo da pesquisa, seja nos caminhos que trilhamos ao viver, né, e que sentimos como vivências, experiências que nos movem, elas nos levam a caminhos paralelos.

Eu até usei aqui uma imagem tem um quadro do Paul Klee num museu da Alemanha que se chama Rua Principal e Ruas Laterais. Nós trilhamos uma rua principal: escolas, cursadas, universidade, pós-graduação, docência universitária, pesquisa. Mas são certamente as ruas laterais, os caminhos curvos, que nos desafiam a construir pontes com a rua principal. E é o que o Memorial da Cristina faz desde a primeira hora. São muitas as ruas laterais que se dispuseram diante de Cristina e que a conduziram a descobertas que sua escrita narra.

Fico a pensar no muito que ainda terá a dizer. Então, o desafio da Sueli é muito bem-vindo: escreve um livro, por favor, Cristina. Sobre essas mulheres todas que você encontra pela frente, por essas fotos, por esses arquivos, enfim. E que você certamente terá, fazendo outras imersões, terá a nos dizer muito mais ainda sobre sua trajetória e sobre a trajetória de muitos outros, porque nós não somos apenas indivíduos, nós somos sujeitos coletivos, e a história de um ter passa a história de muitos.

Então, Cristina, eu penso que foi pelas ruas laterais que você descobriu e tramou seus sujeitos acadêmicos, seus lugares, as pessoas construindo a narrativa de seu percurso e aprendizagem. Entre a rua principal e as ruas laterais que formam sua bagagem em termos de conhecimento, constrói também, você constrói uma rede de afetos que integra uma vez mais seu processo de aprendizagem. Isso você demonstra ao citar a Sueli. Tem uma frase da Sueli que quando você diz assim, você reproduz ela: reconhecer todos aqueles que nos constituem é sinal de liberdade.

Seu memorial honra a mestra que você teve e é a mais eficiente concretização dessa citação da Sueli, aos meus olhos, né? Até porque admiro muito a obra da Sueli também e acho que você teve uma mestra e tanto a seguir nesse caminho. Portanto, eu dou já parabéns por tudo isso que você nos mostra. Quero também dizer que a escrita não linear do memorial, e você citou depois na sua apresentação, nesse vai e vem, que você não sabia muito bem por que que, né, presente, passado e enfim.

Mas isso é o que dá forma à narrativa que você assume, e esse mostra a tua imersão profunda no trabalho de pesquisa, de leitura, de publicação, e permite que leigos como eu— eu comecei dizendo, não sei, não conheço análise literária ainda, ter compartilhe com a Sueli o campo profissional de antropóloga. Também não sou versada na antropologia urbana do jeito que você mergulha no campo da cidade, enfim, o que a cidade representa.

Mas você permite na sua escrita a um leigo como eu resgatar o olhar das ciências sociais multifacetados por campos de saber na construção do concurso e da literatura ficcional e acadêmica. Creio, Cristina, que até aqui tá tudo claro, tá muito claro quanto o seu memorial me seduziu, né? E eu quero agora retomar uma dificuldade que eu senti com o seu memorial, assim como as colegas que me antecederam, né? Eu acho que seu memorial é dividido claramente em duas A primeira está presente no que eu disse até aqui, tramando essa história pessoal acadêmica, tantos sujeitos, etc.

A segunda acontece quando você deixa de ser protagonista e expõe um texto analítico sobre a cidade, se distanciando de si mesma, apesar de estar presente, né? Essa segunda parte que é ali pela página 30 e alguma coisa, ainda que seja um excelente texto acadêmico reflexivo que mostra por onde caminha a sua preocupação de pesquisa, ela me trouxe uma certa inquietude para uma pessoa de fora que leva, porque já que Sueli e Andréia são de dentro da sua formação e trajetória, eu sou de fora.

Ela me disse, será que a Cristina, com esse texto, ela quer provar para banca o seu conhecimento? E com isso mergulhou no debate acadêmico, nos autores, se ausentando do debate. Porque até então você tinha construído uma trama tão rica, trazendo você misturado com as pessoas do seu percurso, com os autores, com seus cursos, com os seus congressos, enfim. Então me perguntei isso. Eu acredito até que não é provar à banca seu conhecimento, porque chegar numa banca de titularidade prova que você fez tudo aquilo que é exigido para estar nesse momento agora da sua carreira, né?

Então eu falei, aonde será que a Cristina vai voltar a fazer parte do texto escrito. Isso reaparece ali pela página 37, quando você diz que se inspirou, de como se inspirou para recriar a cidade. E aí você se insere novamente, mas aí cadê seus acompanhantes? Cadê seus alunos? O percurso no percorrer as ruas da cidade, eu senti falta disso. Então quando eu eu vejo as duas professoras que me antecederam dizer que falta alguma coisa, que tem um vazio tal.

Eu compreendi, eu percebi por esse caminho. Eu queria, Cristina, penso que todo que se segue muito bem, consistentemente argumentado e tudo, eu queria que é um diálogo seu com você mesmo, mas eu queria que Queria saber um pouco como foi trazer esses outros sujeitos, seus alunos, como você fez na primeira parte trazendo quem te formou. E isso não tá aqui. Talvez seja que não tá aqui porque, como disse a Sueli, ou como é que chama, agora perdi o nome, o Poço da Draga não tá presente.

Talvez seja por isso que não tá. E eu fiquei ansiosa querendo saber disso. Eu acho que você deve teria muito para dizer sobre isso. Eu tô colocando essa situação porque no final do item 3 você diz que a maior parte desse texto analítico foi escrito para um projeto de atuação de 2010. Aí sim caiu minha ficha. Se eu entendi, foi anterior à sua atuação com os alunos, porque era o projeto de ingresso na universidade. Né? Mas você já tá numa fase muito à frente de tudo isso, poderia retomar isso não apenas como projeto de atuação daquele momento, mas com o que efetivamente se desdobrou a partir dele, né?

Então assim, é só mais para uma troca de conversa. Se você pudesse contar um pouquinho, eu ia ficar bem contente. Por outro lado, nesse mesmo parágrafo, ao final do item, você se coloca, se indaga com base nos autores apresentados e sugerem que o item seguinte, o item 4, Seus Rastros Tomem a Cena, você afirma que buscou amadurecer as suas relações com a cidade, com as pessoas, consigo mesmo. Isso não tá no memorial, só tá dito que você fez isso, mas como isso aconteceu, enfim.

Você mostra que o ensino e extensão foram caminhos desse favorecer na descoberta das mulheres da família, dos seus retratos e memórias. Acho, Cristina, que esse item evidencia o que somos e o que fazemos tem a ver com que as nossas histórias de vida se entrelaçam em outras histórias e faz com que os temas que investigamos na academia não seja por acaso. Eles não se dão ao acaso, não é assim, ah, o que que eu vou estudar? Qual é o meu tema?

Não, né? Por quê? Porque o que nós fazemos, acredito, resulta da vida vivida, não se separa dos processos de constituição de saberes e conhecimentos, daquilo que nós somos ou acreditamos que somos. E isso expõe imensamente na sua narrativa, está presente na sua narrativa, nessa, nesse caminho para ir além de si mesma e se concretizar nas posturas, nas atividades que são exigidas pelo fazer acadêmico. Mas eu acho que você ainda pode trazer para nós nesse trilhar, se permitindo cruzar também com seus alunos, com esses sujeitos, seja do Poço da Draga e de tantos outros lugares que você cita, os patamares desse, dessa trama, desse tecido tão bem descrito pela Sueli e pela professora Andréia.

Eu acho que só por isso você já dá consistência e atesta a sua legitimidade em alçar o patamar da titularidade. Então, Cristina, eu não tenho perguntas, não tenho uma reflexão mais profunda, porque é seu campo, não é, vamos dizer, do meu conhecimento e domínio. Mas quero dar parabéns por essa sua caminhada, pela sua sensibilidade que explode na história que nos conta, na foto dessa avó. E espero que você continue a lidar com as ruínas e restos, e com eles aprender e remontar existências, que é o dizer do outro diz de quem você é e como você pensa e sente como pessoa, como docente.

Obrigada por partilhar o seu caminho com essa banca, por me escolher apesar de ser tão externa. Foi um prazer estar aqui e aprender com você, aprender com minhas colegas e entender esse fazer, compreender e partilhar como educação que todos nós defendemos, como um ato coletivo que deve estar agregando, deve estar sempre acrescendo, como diz o bispo, e fazendo-nos ser nós mesmos e ao mesmo tempo sermos acrescidos com as histórias, memórias, fazer conhecimentos de tantos outros.

Muito obrigado, é isso que eu tinha para te dizer, e estou à disposição para nós trocarmos outras ideias em outros momentos.

CMCristina Maria da Silva

Professora Neuza, muito obrigada pelas suas colocações, pela leitura tão atenta. Apesar desse seu estranhamento, eu fiz uma escolha, né? Tanto Sueli quanto Andréia tocaram nesse ponto, digamos, desses alinhavos que eu faço dos encontros eu quis duas pessoas externas, totalmente externas. Eu queria realmente esse, mais esse desafio, né? Eu queria que duas pessoas que não conviveram ao longo da minha carreira me avaliassem. Você nesse, por conta da sua trajetória como educadora, de alguma forma olhando para o que eu fiz e percebendo os traços, se de alguma forma, ou como eu fui me vinculando também à responsabilidade como educadora.

Então essa escolha foi muito nesse sentido. E da professora Ana, que preside essa banca, que é, apesar de ser minha colega do PPG Letras, a gente não tem um um convívio de departamento. Ela é do departamento, é uma atuação toda no departamento de língua estrangeira, no grego, e nos encontramos aqui, né? Então eu quis essas duas interlocutoras que não tiveram esse conhecimento de dentro, né, para esse momento de avaliação. Eu vou me concentrar algo que fiquei muito feliz da sua lembrança do professor Brandão.

Fico muito feliz de você ter trazido a memória dele para esse momento, alguém que é tão importante para todos nós que nos formamos na Unicamp. A questão do dentro, do fora, né, eu acho que essa é uma questão que a gente tem discutido muito ultimamente. E para mim é muito caro, né? E me lembro muito do Ingo, né? O Ingo fala de um conhecimento, quando um conhecimento é de dentro, vinculado, né, percebendo não só ali toda a trama e todos os enredos, né, faz com que a gente não escorregue aí, digamos, numa de convicção do saber.

Eu acho que a construção desse caminho vai muito nesse sentido. E falando sobre as lacunas, né, é, os cursos e tudo que eu planejava ali no projeto de atuação em 2010, isso que você sentiu desse trecho sobre a cidade foi exatamente um trecho aí, talvez de 7, 8 páginas, que veio do primeiro texto, né? Isso veio de lá, eu decidi manter de alguma forma, porque de alguma forma nortearia como é que eu tava pensando a cidade. Mas ali no projeto inicial eu já apostava o que que os alunos trariam para mim.

Sobre essa cidade e como eles também, como fabuladores dessa cidade, o que que eles trariam. Então eu tive muita sorte, né? Até hoje os alunos de graduação que se formaram comigo fizeram trabalhos não só de pesquisa, mas também na extensão, incríveis. Me ensinaram muito. Fizeram trabalho sobre, de cunho literário, dentro da graduação em Ciências Sociais. Tem um muito bonito do Bruno Duarte sobre a Clarice Lispector e a questão biográfica.

É um trabalho que eu lembro sempre muito dele, que foi muito forte para mim. Mas grafite, pessoas em situação de rua, né? O Mário Luiz fez um trabalho incrível que eu tive a oportunidade de acompanhá-lo como orientadora. E ele demorou muito para fazer esse trabalho porque ele foi para as ruas de Fortaleza conviver com essas pessoas. E eu compartilhava com ele todas essas angústias, todo esse sofrimento. E ele demorou muito para defender esse trabalho porque nessa convivência na rua ele encontrou um amigo de infância, e para eles foi um choque muito grande.

Então foram todas essas vivências, né, a escuta também das pessoas do Poço da Draga. Então vários alunos fizeram trabalho. Mais recentemente, uma orientanda da pós que fez um trabalho comparando a história de 3 mulheres e com 3 protagonistas da Conceição Evaristo, do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres, um trabalho muito bonito que foi defendido no início desse ano. Mas dessa vivência, principalmente da graduação, algo que foi muito forte para mim em todos esses encontros, na criação do Rastros, algo que Eu lembro que os nossos encontros eram aqui no bosque, no Centro de Humanidades.

A gente não tinha sala, então a gente vinha para cá, para essas mesinhas, e ficávamos aqui embaixo das árvores. As reuniões eram principalmente no final da tarde, porque, como todos sabem, aqui é muito quente. Então a gente esperava o cair da tarde para as reuniões do grupo. Então assim que o Rastros Urbanos foi criado. E nós sempre tínhamos um texto, né, para ser discutido. Em alguns momentos sugerido por mim ou sugerido por eles, coisas que eles queriam ler sobre cidade, sobre narrativa, sobre memória.

E mais para frente foi entrando a fotografia e mais recentemente o bordado. E esses alunos, eles chegavam para mim com muita vontade de estudar literatura. Alguns olhavam para mim e diziam, professora, é possível estudar literatura dentro das ciências sociais? Eles achavam, porque era o que eles escutavam sendo negado em outras disciplinas. Alunos da pós-graduação, eu não sou do programa de pós-graduação em sociologia, mas por ser do departamento da área de antropologia, por ter sido coordenadora do curso de ciências sociais junto com o professor Luiz Fábio, convivo com as angústias dos alunos.

Convivi e convivo até hoje, os alunos quando vão tentar as pós-graduações, eles olham para as linhas, olham para os professores e querem estudar outras coisas e se sentem muito limitados. E muitos me procuravam: professora, eu vou arriscar, mas eu queria muito que a senhora lesse. E eu leio, mesmo que não venha para outros colegas, leio, porque eu acho que ali não são só projetos acadêmicos, são projetos de vida, são seus sonhos.

E eu fico muito feliz porque eu recebo até hoje e-mails, muitos não passam aqui, mas passam na UESP, que é a estadual do Ceará, passam em outras federais, e eu fico muito feliz de receber esses relatos, né? Fico muito feliz também, né, os alunos de outros cursos, eu, os cursos que eu ministrei, algo que eu Podia ter aparecido mais no memorial também, não apareceu. Nós temos introdução à sociologia em torno para 12 cursos da universidade, talvez mais, não sei, acho que é mais ou menos isso.

E todo semestre foi uma escolha minha, a cada semestre eu quero estar num curso diferente. Então eu já fui para enfermagem, para história, para psicologia, biblioteconomia, Economia, Geografia, Ciências Contábeis. Ciências Contábeis e Administração era uma coisa que ninguém queria estar lá. E eu, gente, eu quero, nunca fui, vou. Eu fiquei um ano e meio na faculdade de Economia e foi uma experiência incrível, porque os meninos, eles olhavam, diziam assim, professora, essa é a única disciplina em que a gente pode conversar, a gente pode falar da vida.

A gente pode ver imagem. E aí era onde aparecia também os talentos. Me lembro como se fosse hoje, um dia que eu levei para eles, era trabalho final, eles lerem o Norbert Elias, né, Mozart, Sociologia de um Gênio. E aí apareceram os músicos da sala. Um dos alunos chegou com um teclado, veio vestido de Mozart, e o trabalho final dele, antes da apresentação, foi tocar a música do Mozart, né? Foi assim, mais feliz que vários, entre vários que eu tive em sala de aula.

E hoje também isso se estende ao que a gente tem construído aqui na pós-graduação. Eu ministrei uma disciplina pela primeira vez em 2017, logo que eu cheguei aqui na universidade. Quando as pessoas olhavam e viram, né, os meus meus trabalhos, né, todo mundo achou, pronto, essa daí só vai falar de literatura. E eu fiz o contrário, eu fui para onde nós tínhamos as carências, até porque eu cheguei, o meu concurso foi para suprir a necessidade, a criação na verdade do curso noturno de ciências sociais.

Isso foi um impacto muito forte nessa cidade. Muita gente queria fazer Ciências Sociais, mas não tinha disponibilidade de fazer isso durante o dia. Por décadas foi um curso profundamente elitista, não conseguia contemplar as pessoas que viviam nessa cidade porque são trabalhadores, trabalham o dia inteiro, não podiam fazer Ciências Sociais. E a partir de 2010 foi criado o curso noturno, e foi para isso que o nosso concurso foi feito.

Nesse concurso de 2010, é para teoria e ensino em sociologia, entramos o professor Leonardo Sá e eu, e nós fomos para o curso noturno e fizemos um trabalho que eu considero, pelo menos nos primeiros 10 anos, aquele trabalho de formiguinha mesmo, né? Porque quem era que vinha para o curso noturno? Os trabalhadores dessa cidade, policiais militares, trabalhadores do IBGE, pessoas que já tinham uma graduação e queriam, tinham um sonho da época de estudante de fazer ciências sociais.

Então eram essas pessoas que a gente tinha aqui, mas a gente escutava também muitos Tinha colegas que diziam que se recusavam a dar aula à noite, diziam que esse curso tinha sido criado à revelia do departamento, né, que jamais viriam sair das suas casas à noite, essa cidade tão perigosa, tão violenta, não se submeteriam a isso. Isso era um projeto que tava fadado ao fracasso. Hoje o curso noturno é um dos que dá mais resultado ao programa de sociologia, talvez Martinho até me corrija, mas ao de antropologia também, porque tem muita gente que trabalha e consegue se organizar de alguma forma.

E começou a chegar essas estatísticas, os melhores projetos vindo do noturno. Os meus melhores orientandos foram do curso noturno, todos que estudavam. Eu vinha para cá nos horários que que eles podiam. Tinha aluno que trabalhava em shopping center, esses horários é cortados. Aí o aluno me dizia: professora, eu posso estar a hora? Eu vinha para cá. Professora, eu não posso ir até aí, tem que ser por telefone. Hoje tá mais fácil, mas por muito, muito tempo: professora, eu posso por telefone?

Eu: depois vamos fazer por telefone, né? E foi assim que a gente construiu muitos desses caminhos. Eu tinha alunos na graduação que me pediam horário, e não era muito para construir projeto não, gente, era me pedir um horário, entrava, sentava, eu fechava a porta e o aluno chorava copiosamente. Porque se tem uma coisa também que muitas pesquisas nas ciências sociais e na antropologia apontam, é que junto com toda ampliação das universidades federais, com com esses concursos que foram feitos, a gente também trouxe todas as vulnerabilidades desses alunos, todas as situações estruturais que esses alunos, as lacunas dessas vidas e as lacunas da própria cidade que vieram para dentro da universidade.

E a universidade não tem condições mesmo de atender, as pró-reitorias não dão conta e os recursos são cada vez mais escassos. Para que a gente dê conta. Então, até mesmo suporte terapêutico. Então, nós professores, não é à toa a questão do adoecimento, nós estamos dando apoio psicológico muitas vezes sem nós nem termos para nós mesmos, né? Então eu tive muitos alunos que pediam horário e era simplesmente porque sabiam que ali eles podiam confiar, ali eles podiam respirar, ali eles podiam poderiam falar das suas angústias, né, poderiam falar das suas questões.

E aí sim, eu acho que realmente, como a senhora coloca, foi um caminho pelas laterais, pelas curvas, seguir os rastros, como eu cito a Sueli. Mas talvez tenha sido muito pelas linhas tortas mesmo, né, pelos caminhos tortos. E aí, no meio de tudo isso, né, eu penso que, como vocês todas já disseram, é de fato uma onda só, né. E aí, em 2017, eu crio uma disciplina na graduação. Muita gente pensou que eu ia chegar só falando de literatura e resolvi criar uma disciplina Né, aí honrando a minha mestra Sueli Koffis, trazendo as narrativas, as grafias e as trajetórias, porque eu sabia que vinha muito mais do que a literatura.

E aí essa disciplina alimenta os cursos que eu vou depois ministrar aqui na pós, principalmente Estudos de Narrativas, Arquivo e Memória, que são as principais disciplinas com as quais eu tô responsável agora. Literatura africana também, e que isso tem alimentado o trabalho dos alunos que estão me procurando, né? Nesse momento é difícil até receber mais alunos, tem uma cota, né, de quantos alunos a gente pode receber. Eu já passei de todos esses limites.

ASAndrea Saad Hossne

Né?

CMCristina Maria da Silva

Então tá difícil, né, até conseguir administrar isso. É muita gente na pós-graduação, mas ao mesmo tempo eu fico muito feliz porque é muita gente querendo pensar coisas bonitas, né, nessa cidade, e via literatura, mas também nesse pensamento que me é muito caro que é pensar a literatura comparada conversando com outros saberes. É isso.

?Voz B

Então, gente, só para concluir aqui, né, vou só arrematar, na verdade, porque como as professoras, eu sempre brinco, eu sou na verdade da comédia antiga, né, eu trabalho com comédia antiga, por isso que eu gosto tanto de brincar, de vez em quando fazer uma horinha. Eu trabalho, eu sou tradutora de Aristófanes, né, primeiro, como é geógrafo aqui do Ocidente, grego, né? E eu fiz realmente algumas coisas, até me lembrei de algumas coisas minhas através do trabalho aqui do memorial da professora Cristina, né?

Mas assim, eu sempre brinco com as pessoas dizendo assim, eu sempre fico para o final porque eu sou, quando eu sou interna, né? Quando a gente é externo, você é a primeira também. Como eu sou interna, sou aqui da UFC, ainda que eu não seja tão interna assim, que eu estou aposentada, graças Graças a Deus. Mas eu continuo na pós e na extensão. Só a graduação foi deixada, né, dá 2 anos e pouco que eu me aposentei. Então assim, eu sempre digo assim, olha, meu discurso vai ser igual do discurso injusto lá das nuvens de Aristófanes, que ele leu o discurso injusto, é o último.

Ele só vai rebater os outros e fazer em cima dos outros, do outro discurso que era o justo, né? É uma graça. Por exemplo, digo assim, até tem gente aí que já cita isso, do mesmo jeito que cita quando eu chamo o meu pessoal que qualifica de agora você não é mais um desqualificado. No final eu digo isso, aí todo mundo já ficou também, né? Já virou a fórmula. Se eu não disser isso, acho que o pessoal vai reclamar. Então dizer isso no final da banca, tá, de qualificação.

Então eu me reconheci em algumas coisas, algumas questões aqui da Cristina, né? Especialmente as professoras foram excelentes professoras, gostei muito de todas, viu? Vocês compuseram muito bem o meu discurso. Então, né, agora é só arrematar, né? Então, o que que eu achei interessante? Aquele seu certificado, né, que todo mundo comentou aqui, é muito interessante porque eu também coloquei lá no meu memorial, meu Memorial foi 2020, viu?

Eu fui muito bom, que era na época da pandemia, precisei chamar todo mundo, foi online, gente de Portugal inclusive foi online, né? Não precisava de trazer ninguém. Bom, então o que que eu fiz, né? Lá no meu, no meu, em vez de um diploma, tem uma foto minha do ABC. De beca e tudo, tá, segurando aquele canudinho e tudo. Não é graça? Pois é, você viu? Pois é, uma graça. Aí eu achei muito engraçado que eu coloquei assim: agora eu verdadeiramente conheço, eu não sou mais analfabeta, eu conheço o alfabeto grego, que é alfabeto, né?

Palavra alfabeto vem do grego, alfabeto, gama, etc. Então eu brinquei com isso e realmente eu brinquei também com essa questão nossa, da nossa vida, né? Porque o meu último trabalho de acadêmica, vamos dizer assim, como estudiosa mesmo, foi no pós-doc que eu fui fazer lá em Coimbra, em Portugal, e eu traduzi uma peça de Aristófanes em cearense. Então foi a coisa de aproximar de mim mesma. Até eu digo assim, olha, para eu falar de mim mesma, eu precisei sair sair daqui, para ir lá para Portugal para falar de mim mesmo.

Então acho incrível o seu trabalho nessa ideia todinha. Quando eu tava lendo o seu memorial, passei por partes assim, parecia um memorial no início, daqui a pouco parecia uma tese, inclusive, nossa, tá quase uma tese, né, do seu estudo, né, da sua pesquisa, e daqui a pouco parecia um romance por causa, né, da avó, da tia, aquelas aquelas narrativas todas de família, né? Então, muito, muito interessante, né? Aí eu tinha até anotado aqui uma coisa, mas vocês, na primeira, no primeiro questionamento, você pôs as outras fotos.

E aí eu achei interessante que era a questão das fotos com fungos, né? Como isso se torna interessante, a ideia do vivo, né, de algo que tá vivo como fungo. E para pensar em cupim, outras coisas desse tipo também, né, que acabam até sendo uma, até uma arte, né, em cima de outra arte. No caso de uma foto de outro lugar, cupim é complicado, né, que ele derruba as coisas. Mas fungo também, né, a destruição. Tem uma cena lá, um colega meu também fez uma descrição da bugonia lá na Eneida do Vigia, filho.

É um boi morto cheio de vida nele, que é os germes todinho, né, tudo que nasceu da podridão, né, do apodrecimento. Então é bem interessante isso aí. De qualquer coisa, você quiser falar sobre isso um pouquinho, pode. Mas para, por que desses fungos, como vida, se eles não destroem a foto, alguma coisa assim, né, nesse sentido? Só eu fiquei pensando nisso. E a outra questão foi, como eu já falei, é a outra questão da sua pesquisa e da sua extensão.

São muito, né, estão assim cadeadas mesmo, né? Eu achei isso. Eu fiquei até procurando esse projeto é de extensão ou de pesquisa. Então você faz as duas coisas com os projetos, não é isso? Porque eu também acabo fazendo isso com o Núcleo de Cultura Clássica, né? Nós temos extensão dando aula de grego, etc. E temos a pesquisa, que é o nome do nosso grupo de pesquisa lá no CNPq, Núcleo de Cultura Clássica, também. Então, assim, eu vi muito arraigadas as duas, né, pesquisa e extensão.

Aí eu tenho só uma pergunta, que até para ver a questão mesmo da avaliação depois do relatório, que você não fala de prêmios. Mas por que não tem nesses 2 anos? Você, mas você podia relatar alguma coisa de prêmios, tanto acadêmicos de modo geral, como de trabalhos acadêmicos dessas tuas, né? Que você realmente, né, ela faz isso aqui com ensino, pesquisa e extensão, né? Estão totalmente unificados. Eu acho bem interessante isso, né?

Por isso que você tem tantos orientandos, o desorientador. Eu brinco mesmo, viu? Eu brinco Não, meu, tô brincando. Os meus desorientados estão perturbando aí. Brincadeira da pá, mas eu brinco mesmo, não tem como. Tanto é que meu memorial foi memorial de uma aristofânica, né? Aí um professor meu, que foi meu orientador de mestrado, doutorado lá da USP, professor Torrano, ele ficou assim: é para você botar aristofanista, que você é especialista em Aristófanes.

Aí eu pensei, mas não falei na hora. Na hora eu fiquei só: ah, é, é. Mas assim, eu pensei assim, não, eu não sou aristofanista, eu sou aristofana, que é como eu levo a vida, brincando. É um modo de vida, não é só um estudioso de Aristóteles, né? Tanto que eu fiz o meu trabalho também antropológico, viu? Lá, Dionismo Matuto, eu trabalho com as festas juninas comparando as festas dionisíacas da Grécia e Atenas. Por isso eu chego à conclusão de traduzir em cearensejo o Comédia de Aristóteles.

Mostrando, tem tudo a ver o nosso bom humor aqui do Ceará com o aristofane, tá? Então vocês viram aí que eu acabei falando mais de mim do que dela, mas é porque eu achei muito próxima as ideias, o que foi aparecendo. E essa ideia de fazer do seu estudo, né, parte, mostrar uma parte da sua vida, essa questão do matuto, do cearense, essas coisas, para mim Foi a, né, foi onde eu coroei meu estudo com isso. E realmente até hoje é o que é mais apreciado, né, essa tradução em cearense.

Tá, ficou como modelo, uma coisa do tipo, e todo mundo quer fazer. Já tem pernambuquês, baianês, um monte de coisa por aí assim também, tá. Então é isso. Aí você pode falar o que quiser também, tá. Eu dou parabéns a você pelo seu trabalho e as professoras Por ter me ajudado também.

CMCristina Maria da Silva

Sobre o memorial, Ana, primeiro agradecer, né, mais uma vez por você ter aceitado a presidência dessa banca. E isso, essa também não foi uma escolha às escuras, né, foi uma escolha. A Ana é mundialmente conhecida conhecida por esse humor maravilhoso dela. De todas as vezes que a gente fez trabalho junto, é sempre essa alegria. As bancas também. Então eu queria esse humor presente nesse momento, né? E sobre a questão do texto, né, dessa mistura do memorial, uma tese, um romance, quando eu pensei um pouquinho lá atrás, alguns anos, como é que seria esse memorial, eu ficava um pouco na dúvida também.

Eu queria meio que fazer as duas coisas, só que aí chega ali no final, no formulário, diz: é memorial ou é tese? Aí você diz: vale agora, né? Tem que dizer. O SEI pergunta, né? É igual essas perguntas: o que que você tá fazendo? Que são o que eu as redes nos pedem hoje. Aí o SEI olha para gente e diz, que é o nosso sistema de informações, né, que nos demanda as informações: você vai defender um memorial ou uma tese? E eu disse: tá bom, é um memorial.

Mas a escrita vem aí permeada de tudo isso, né? Vem o sentido de uma tese, que é o que eu apontei antes, de que eu queria muito ter trazido já pelo menos o livro da Teresa. Que para mim também não é um fotolivro. Eu quero trazer as imagens que eu consegui reunir até agora e as desmontagens, mas as narrativas também junto. E acho que a autobiografia de alguma forma vai aparecer, porque olhar para ela é olhar para mim, olhar para minha trajetória.

E sobre os fungos, é nada mais importante do que olhar para fotografia, porque os fungos eles não destroem. Como eu aprendi com a Tuani Egas, os fungos eles são guardiões da natureza, então eles estão compondo e recompondo a vida. Aqui parece uma destruição da imagem, parece que eles não estão deixando nada, Mas vocês viram a imagem completa? Aqui eles vão borrando os rostos dessas mulheres que fazem parte da minha história. A de vermelho já tá falecida, que é a Tia Assunção.

A Tia Dora ainda está viva. Minha avó que já se foi. Mas percebam que o meu rosto Não tem nenhuma marca deles. Então eles também falam, eles também narram, e parece que eles vão borrando, mas ao mesmo tempo esse borrar é um revelar, tem algo sendo contado. Então, ao contrário de pensar que os fundos destroem, pelo contrário, eles abrem. Aí a gente pode ver as imagens seguintes. Eu fui aprendendo muito esse movimento com a Fabiana Bruno, porque eu comecei a olhar com ela e o Éder, que eu deto, essas imagens.

E lembro como se fosse hoje, é muito vivo para mim, é o Éder do fotor editorial olhando junto comigo e dizendo, Cristina, isso aqui é vida. O que os fungos estão fazendo aqui é mostrando— isso aqui é sangue, isso aqui é plasma, né? É toda uma vida. É, professora Neuza usou a palavra, é toda uma sensibilidade que explode aqui, é uma vida que explode. O que que tá atrás da Teresa são os buganviles, que eram as plantas que ela mais gostava.

E quase todas as fotografias são com esses buganviles. Os fungos vão lá nos buganviles e começam a borrar apenas os buganviles. Percebam que nessa fotografia, que é outra, o rosto dela está aí, ainda que com pouca nitidez, mas os fungos borram um pouco esse vestido E aí o que eu faço? Eu decidi no período das Guardiãs das Memórias acompanhar esses fungos. Essa foi a primeira fotografia que a Alana me ensinou a bordar. Então foi a primeira agulhada, literalmente.

E eu disse para Alana, Alana, eu nem tinha linha, não tinha nada. Eu olhei para Alana e disse assim, Alana, eu quero bordar junto com esses fungos, eu quero segui-los, eu quero compor e recompor junto com eles. Então eu comecei a fazer esse movimento e a imagem que foi para exposição foi uma desse tamanho e eu bordei todos esses movimentos dos fungos na fotografia. Eu fiz com a linha da mesma cor do vestido dela, porque na verdade é um movimento que é o que eu aprendi com a Tuane, mas com outros, com a Anne Tsing, com outros que estão trabalhando também com esse movimento dos fungos.

É todo um movimento que é vivo, né? Por isso que a questão dos arquivos para mim não se concentram apenas em arquivos institucionais. Eu vou vendo todo esse movimento também como arquivos, como formas de arquivar a vida. Então, em um momento do memorial, eu já estou quase terminando, eu digo que em 2023, né, realizar as atividades com as fotografias, o bordado entrou como uma das formas de grafia na luta das narrativas. Eu tive que aprender a usar agulha e linha para falar também, só as palavras já não dava.

Inserir essas fotografias, né, e muito nesse movimento. E aí, pensando que a Teresa, ela sempre gostou das cores dos buganviles que cercavam a sua casa e suas roseiras, as fotos em que ela aparece tem sempre as cores dos buganviles por perto, ou os borrões que os fungos fizeram. Assim, coloquei-me como desafio aprender a bordar as flores de um buganville. Primeiro aprendi em tecido, depois voltei para o papel fotográfico e tentei trazer as suas cores para a imagem que quase se apaga pelo tempo de Teresa.

Uma das imagens que mais me cercou, ela não está aqui, mas vai vai para o livro, né? Agora eu tenho que fazer igual a Carolina, vai para o livro. É a imagem que marca o início desse trabalho sobre a Teresa e que é o trabalho que vem sobre todas essas mulheres. A lembrança da minha infância é a fotografia do dia que a minha avó faleceu. Então na parede tava passado. Ela no caixão e todos os filhos ao redor, né? Eu não fui para o enterro da Teresa, mas eu estava no velório, porque o velório foi em casa.

Eu tinha 4 anos de idade. Esse dia é nítido na minha memória. Eu consigo me lembrar do momento que disseram: a tua avó morreu. E aquilo era algo estranho para mim, porque eu nunca chamei ela de vó. Ela era mãezinha. Então ela nunca morreu para mim, porque aquela palavra avó era estranha. E eu lembro que eu andava pela casa, vi todo o movimento das pessoas indo para uma sala reservada para colocar tralha para arrumar caixão, e eu perambulando pela casa.

Minha mãe e as minhas tias que moravam aqui, isso lá em Meruoca. Minha mãe e minhas tias chegaram nessa época, eu morava com os meus avós, e a minha mãe chegou. Então quando a minha mãe chegou, eu fui para perto dela e eu via todo mundo chorando, e eu estava sentadinha na cozinha junto de todo mundo, dos filhos que estavam chorando muito. E eu, sem entender muito o que que tava acontecendo, perguntei para minha mãe: eu também tenho que chorar?

E eu demorei muito tempo para ir elaborando isso. Em 2016, quando eu escrevi esse texto que tem aparecido nos meus cursos, que é composição de um álbum fotográfico, Os Rastros de uma Avó Materna. Foi um texto publicado na revista de pesquisa autobiográfica e foi um trabalho bem interessante porque os editores eram muito cuidadosos. Então eu tive uns 4 retornos para elaboração final do texto E quando eu estava fazendo a última versão, a sensação que eu tive foi que eu realmente me encontrei com a Teresa.

Porque quando eu estava escrevendo os últimos trechos, foi, eu chorei a morte da Teresa em 2016. Eu chorava tanto que eu não conseguia enxergar, mas eu também não parava escrever. E hoje eu considero esse um dos principais trabalhos que eu fiz até aqui, porque esse foi um trabalho que não só colegas, os meus alunos leram, mas foi talvez o primeiro trabalho que a minha mãe, as minhas tias leram. E eu fiquei muito surpresa porque eu dei, entreguei para elas, mas pensei assim, não, vai ser mais uma coisa que vão olhar, achar bonitinho, né?

Eram todas ligando, dando retorno. Como é que tu sabia de tanta coisa? Eu disse, porque eu estou escutando vocês. Então, para mim, esse trabalho é um dos trabalhos mais importantes por isso, porque foi lido por elas. Elas que me introduziram às letras e elas que me permitiram estar aqui hoje.

NMNeusa Maria Mendes de Gusmão

Obrigada.

?Voz B

Nós vamos só, né, anunciar aqui o resultado, que a ata ainda está em execução aqui, vai algumas questõezinhas, né? Mas só para divulgar aqui, declarar. Você quer falar? Nossa secretária aqui. Então, né, hoje nós, como vocês viram, nós fizemos, né, aqui nós tivemos a sessão de defesas memorial para promoção a classe para o professor titular, da professora doutora Cristina Maria da Silva, Os Rastros das Narrativas, né? Vocês viram que nós começamos um pouquinho atrasado, mas foi 15 minutos só, né?

Às 16:12, 15:12, né? 15:15, exatamente. E agora concluímos o trabalho, tá? 17:30, né? Nós nos reunimos aqui, a banca se reuniu, né, aqui, e todos chegamos à conclusão. Acho que vocês já viram, né, antes de tudo, né, que a professora Doutora Cristina Maria da Silva está apta, né, à promoção para classe professor titular. Professora, parabéns! Ainda houve, claro, comentários, né, que a defesa foi excelente.

AMAna Maria César Pompeu

Onde que eu mando essas, essas coisas festivas bonitinhas?

ASAndrea Saad Hossne

Na parte de baixo, onde tá aquela, aquele emoji sorrindo, aquela carinha sorrindo.

CMCristina Maria da Silva

Minha plateia presencial está cronometrando tempo e disse que é só 5 minutos. Então, só mais uma vez agradecer, né, como todas as avaliadoras disseram. E é isso que eu dou muita ênfase ao meu texto e a minha vida acadêmica. Eu cheguei até aqui e não cheguei sozinha, né? Cheguei com as mulheres da minha família que estão aqui junto junto comigo, não só as que ainda estão vivas, mas as que já se foram, que eu sei que estão aqui, os meus colegas, os meus amigos, os meus orientandos que estão aqui, né, que seguem comigo, e que daqui para frente seja mais leve né, como tem que ser.

Então, muito grata por esse momento que não é só acadêmico, é de vida, né, e de ter as melhores companhias que eu poderia ter encontrado nessa cidade. Muito obrigada por tudo, Andréia, Sueli, vocês, professora Neuza, Vocês são grandes referências nesse país como educadoras e é uma alegria muito grande ter vocês na minha vida, né? Ter sido aluna da Sueli com certeza é uma das maiores honras que eu tenho na minha vida, de ter sido sua orientanda, todos os puxões de orelha.

Eu acho que até hoje ainda sinto porque os seus ensinamentos, eles nunca foram apenas para sala de aula, eles foram para a vida inteira. Assim como Andréia, que também para mim é uma professora e uma referência para a vida toda, né? Que bom que nós nos encontramos na Universidade de São Paulo, que honra para esse país ter professoras como vocês. E que bom que as salas de aula, as universidades me permitiram chegar e encontrar todas vocês, assim como também a professora Antonádia e a professora Inês Vitorino, que são suplentes dessa banca.

E aos meus colegas, professora Ana, que está aqui, presidente dessa banca, e ao Martinho. Que bom, que bom que a gente se encontrou, e que bom que hoje a minha sala de aula tem essas pessoas tão maravilhosas que estão aqui nessa defesa presencialmente. Muito obrigada por tudo, só isso.

[Ep.24/2026] Nos Rastros das Narrativas: Memorial para Professor Titular | Castnews Index — Castnews Index