Entrevista com Rainner Brito, diretor artístico do festival Morabeza LX
No "Repórter Morabeza" desta segunda-feira, o jornalista Selton Monteiro conversa com Rainner Brito, diretor artístico do festival Morabeza LX, que acontece em Lisboa, no dia 9 de maio, para celebrar a cultura cabo-verdiana.
Selton Monteiro
Rainner Brito
- programação de festivaisCelebração da cultura cabo-verdiana em Lisboa · Segunda edição do festival · Importância para a diáspora cabo-verdiana · Programação artística e cultural · Mercado crioulo e artesanato · Mesa redonda sobre 'morabeza'
- Rainner BritoDiretor artístico do Festival Morabeza LX · Visão sobre a cultura cabo-verdiana na diáspora
- Doris MonteiroJornalista e entrevistador
Bom dia Nuno, bom dia equipa da rádio e bom dia si ouvinte da rádio Morabeza. A nossa conversa é com Rainer Brito, diretor artístico do Festival Morabeza LX. Bom dia Rainer e obrigado por aceitar o convite. Bom dia Celton, muito obrigado à rádio Morabeza por nos terem contactado, uma vez que nós estamos aqui do outro lado do Atlântico, mas é sempre um prazer falar aí para as ilhas.
O que é este Festival Morabés LX? Bem, o Festival Morabés LX é um festival que celebra a cultura cabo-verdiana na diáspora, mais precisamente aqui em Lisboa, que é onde nós estamos sediados e onde nós temos estado a fazer coisas acontecerem. Tentimos desde 2023 uma necessidade de celebrar.
Nesta cultura, uma vez que nós, organização, somos todos ou cabo-verdianos, ou filhos de cabo-verdianos, ou netos de cabo-verdianos, mas todos com uma ligação a cabo-verde, que é algo que assenta-me na nossa cultura e no nosso dia-a-dia. Depois do sucesso da primeira edição, o que motivou o regresso do festival?
Basicamente foi dar continuidade ao trabalho que estava a ser feito, mostrar também aquilo que é Cabo Verde na diáspora em Lisboa, quem está a fazer o quê, desde artistas, artesãos, grupos de batucadeiras e associações que trabalham para manter viva a cultura cabo-verdiana na diáspora e muitas vezes para manter viva também dentro das suas comunidades. Acabamos por fazer juntar as várias comunidades em Lisboa que se identificam com a cultura cabo-verdiana.
O que há de novo nesta segunda edição? Bem, nesta segunda edição, acho que o que há de novo é uma melhor organização, talvez mesmo da nossa parte, enquanto produção, uma curadoria melhor feita também, com melhores condições. O ano passado, infelizmente ou felizmente, foi o primeiro evento, portanto, houve muitos pontos a serem alinhados, que depois...
Desse primeiro evento nós conseguimos perceber onde é que estavam alguns pontos a serem melhorados e acho que este ano já vamos conseguir isso. E acima de tudo também termos percebido o sucesso do primeiro evento e a envolvência não só do público cabo-verdiano, mas do público português, do público angolano, mesmo estrangeiro, muitos estrangeiros que tiveram presentes na primeira edição. Isto pelas palavras do Museu de Lisboa, que foi quem acolheu o festival.
passaram cerca de 2.179 pessoas no evento do ano passado, sendo que foi um evento com muita chuva nesse dia, mas apesar disso que levou muita gente ao museu, não rodaram pé mesmo com a chuva que se fez sentir. De que forma o festival afirma a cultura cabvardiana como parte viva da cidade?
Lisboa em si foi construída também sobre o trabalho e o suor de muitos imigrantes cabo-verdeanos. Não só de outros países de Palopes, mas nós sabemos que entre a década de 70 e ali os inícios de 2000, Lisboa sempre acolheu muitos cabo-verdeanos e continua a acolher muito a comunidade cabo-verdiana. Portanto, é mais do que intrínseco esta presença da cultura cabo-verdiana também na cultura lisboeta, que de certa forma foi entrando.
não só através da música, como da arte urbana, mas principalmente através da música e também da gastronomia, porque hoje em dia é impossível andar em Lisboa e não o ver espalhado pelos bairros, seja no centro de Lisboa, seja nas periferias, bairros onde existe sempre um restaurante cabo-verdiano, onde há sempre uma morna, onde há sempre uma cachupa e onde até se possa beber um groco.
Portanto, eu acho que a cultura cabo-verdiana está bem prínseca naquilo que hoje em dia também é Lisboa. Portanto, hoje em dia temos uma Lisboa crioula e faz mais do que sentido, e fazia mais do que sentido para nós, enquanto descendentes ou filhos de cabo-verdianos, fazermos sentir também esta cultura no centro de Lisboa. Qual é a importância deste evento para a diáspora cabo-verdiana?
Eu acho que para a diáspora é tentar perceber que, apesar de muitas vezes estarmos longe das ilhas, continuamos a sentir o calor, o calor de Cabo Verde, espalhado pelo mundo, seja na Europa, seja nas Américas, até mesmo na própria Ásia, não é?
Mas principalmente aqui na Europa, que é para onde emigram muitos cabo-verdianos, é importante saber que a sua cultura é celebrada no centro das cidades, em sítios de importância histórica, como é o Palácio Pimenta, onde está situado o Museu de Lisboa. E acima de tudo é isso, é sentir Cabo Verde aqui ao lado, sentir esse calor e esse bem-receber mesmo no centro de Lisboa. Como está organizada a programação deste ano?
Então, este ano vamos continuar a ter algumas das coisas que tivemos o ano passado. Vamos ter histórias de Cabo Verde contadas em crioulo pelo Adriano Reis e pela Flor Porto, dois autores, escritores, poetas caboverdianos. Vamos ter um workshop de cerâmica dado pelo Ateliê O Barro, basicamente que é composto por senhoras que vieram de Cabo Verde e que continuam a manter acesa.
Aqui a tradição de fazer os potes e fazer a olaria com o barro. Então vamos ter esse workshop. Vamos ter dois documentários a passar, o Hora de Bay e o Maio. Para além disso vamos ter depois dois grupos de batucadeiras, as batucadeiras panafricanistas do Casal da Boba em São Brás e vamos ter as batucadeiras das Olaias. Vamos ter também, este ano temos uma parceria com uma empresa camarária que é a Jebalis, que já tinha um programa que eram os talentos do bairro.
e nós vamos incorporar alguns desses talentos do bairro no nosso programa, jovens de descendência cabo-verdiana, que vão também fazer parte deste espetáculo.
Vamos ter também a atuação do grande artista Memel Andin, que está aqui em Portugal já há muitos anos, que vai trazer para Moribés o seu cachipó, a sua energia em cima do palco. E para terminar, teremos John Freedom, que é hoje em dia um dos novos nomes da música cabo-verdiana. O John Freedom, se não estou em erro, é um cabo-verdiano.
que tem residência nos Estados Unidos, mas que tem tentado fazer uma tour pela Europa e pelo resto do mundo, trazer aquilo que também são as novas vibrações da música cabo-verdiana, por assim dizer. Praticamente é isso, teremos cachupa, teremos mercado cabo-verdiano, teremos dança, teremos um workshop de dança, Funaná e Kizomba. O que o público pode encontrar no mercado creoulo?
Pode encontrar desde petiscos, roupas, capolanas, vamos dizer um tiar, artesanato, voltamos a contar com um projeto muito interessante que tivemos o ano passado que é Arte em Palha, o Steve e a Maria Vitória que são dois artesãos que trabalham muito.
folha de milho e fazem peças de artesanato com a folha de milho. Vamos ter livros de Cabo Verde através da Livraria Lulendo. Portanto, há muita coisa para procurar e encontrar neste mercado. Que reflexão pretendem promover com a mesa redonda a morabeza que nos falta?
Isto foi um desafio que nós lançamos à Bantumen, enquanto parceiros. A Bantumen tem estado connosco há vários anos, com que nós colaboramos. Tem feito um trabalho fenomenal naquilo que é partilhar também o que é ser africano na Europa e no resto do mundo. E foi um desafio que foi criado para a Bantumen e decidiram falar sobre o que é esta morabesa, o que é este acolher, Cabo Verdeano e não só, não é? Às vezes também está intrínseco ao povo africano, não é? Ao povo africano, se vê...
saber acolher, saber receber, mas o que é que é realmente a reflexão que eles fazem é, o que é que é saber receber, não estando no seu país de origem, estando em Lisboa, como é que nós podemos receber e transmitir essa moraveza, mas isso é algo que irá ser debatido durante cerca de uma hora no festival e espero que as pessoas venham ao festival e saiam de lá.
a perceber melhor o que é este sentimento de moraveza que nós queremos transmitir com este festival. Como o festival pode aproximar diferentes gerações e comunidades? Eu acho que já o tem feito. O ano passado foi uma prova viva disso. Tivemos um ambiente familiar, desde crianças a novos, velhos.
jovens, casais, tivemos tudo e volto a dizer não só a comunidade de Cabo Verdeana, mas também comunidade portuguesa, outras comunidades dos Palopes e muitos estrangeiros, muitos estrangeiros que sentem essa curiosidade em conhecer a cultura Cabo Verdeana. E este ano se calhar vai haver essa maior aproximação.
devido à própria programação. Temos programas para novos, temos programas para jovens, temos programas para adultos, temos programas para mais adultos. Portanto, acho que dá para toda a gente. Rainer, muito obrigado pela sua disponibilidade.
Celton, muito obrigado eu pela chamada e pela entrevista, apesar de estarmos parados, como volto a dizer, por muito mar, é sempre bom poder falar também por uma rádio em Cabo Verde e poder chegar a outras pessoas, ok? Portanto, mais uma vez, muito obrigado pela chamada.
Assim foi a nossa conversa com Rainer Brito, diretor artístico do Festival Morabeza LX, que acontece em Lisboa, no Palácio Pimenta, no dia 9 de maio, para celebrar a cultura capo-verdiana. Obrigado aos ouvintes e até a próxima.