Francisco Pistoresi: o luthier que São Paulo esqueceu - Epsódio 3 - temporada 2 - Flavia Prando
Olá, pessoal, muito bem-vindos.
Neste episódio, em vez de falarmos de uma música ou de um compositor, vamos falar de materialidade sonora. Vamos conhecer a trajetória de um homem que passou quase cinquenta anos em São Paulo construindo violões e que, por muito tempo, foi lembrado apenas por uma invenção curiosa.
Seu nome: Francisco Pistoresi.
E a história que você vai ouvir começa com um engano.
Durante décadas, textos especializados apresentaram Pistoresi como português. A informação circulou em periódicos, passou de boca em boca e acabou se fixando como verdade. Mas sua certidão de óbito revela outra história: Francisco Pistoresi nasceu em Lucca, na Itália, em 1868.
Esse tipo de equívoco não é casual. Ele revela como parte da história do violão foi construída, muitas vezes baseada em memória oral, sem confronto com documentos. Casos semelhantes ocorreram com outros personagens, como o valenciano Praxedes Gil-Orozco, apresentado durante décadas como cubano.
Corrigir a origem de Pistoresi não é apenas um detalhe. É recolocá-lo no contexto da São Paulo do final do século XIX, marcada pela chegada de imigrantes europeus que traziam seus ofícios, instrumentos e práticas musicais.
Foi nesse cenário que Pistoresi fundou, em 1892, sua oficina de instrumentos de cordas. A cidade passava por transformações profundas: a escravidão havia sido abolida poucos anos antes, a República ainda era recente e a imigração reconfigurava bairros inteiros.
O reconhecimento veio cedo. Em 1902, Pistoresi foi premiado na Exposição Municipal de São Paulo. Dois anos depois, representou a cidade na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, onde seus violões e bandolins receberam o primeiro prêmio.
Em 1914, ele voltou a aparecer nos jornais por causa de um invento curioso: o diamenofone.
Dramatização – Correio Paulistano, 27 maio 1916
"O sr. Francisco Pistoresi (...) apresentou à imprensa um invento denominado diamenofone (...) O sr. Alberto Baltar executou uma valsa de Chopin, um romance de Mendelssohn e várias peças características no violão fabricado pelo sr. Pistoresi, que, além das vantagens produzidas pela nova invenção, muito se recomenda pelo caprichoso acabamento."
A São Paulo daquele momento, assim como outras grandes cidades ocidentais, crescia rapidamente. Os teatros se multiplicavam, os espaços de apresentação aumentavam e o violão precisava projetar mais som.
Pistoresi respondia, à sua maneira, a uma questão técnica que mobilizava músicos e construtores em diferentes partes do mundo.
Os instrumentos de Pistoresi circularam amplamente. Além de Alberto Baltar, foram utilizados por Josefina Robledo, célebre discípula de Francisco Tárrega.
Dramatização – Correio Paulistano, 31 jul. 1923
"Merece também uma referência especial o violão usado pela concertista (...) é de fabricação paulista. Foi feito pelo fabricante sr. Francisco Pistoresi, desta capital."
Dramatização – O Estado de São Paulo, 3 maio 1929
"Os violões Pistoresi, como se sabe, são os mais antigos de fabricação nacional, sendo a sua qualidade pelo menos igual à dos melhores estrangeiros (...)."
A frase é publicitária, mas revela algo concreto. Francisco Pistoresi construiu instrumentos premiados que circularam por salões, conservatórios, rádios e ateliês da cidade.
Inventou soluções para um instrumento que buscava novos espaços. E, ainda assim, foi sendo esquecido.
Décadas depois, um desses violões chegou às minhas mãos, por meio da musicista e pesquisadora Márcia Taborda. Construído há mais de um século, ele mantém seu selo, sua estrutura e sua sonoridade.
Foi com esse instrumento que gravei as peças que vocês ouviram neste episódio.
Muito obrigada e até a próxima história. O podcast, narrado e produzido por Flavia Prando, conta com dramatizações de Artur Mattar, voice-over de Biancamaria Binazzi .Para texto completo, mais histórias, músicas mais informações: flaviaprando.com