Português com o timorense Pascoal 🇹🇱
Quais são as particularidades do português falado em Timor-Leste? 🇹🇱 Neste episódio, conversamos com Pascoal Soares Madeira, pedagogo timorense que estudou no Brasil, para entender os sotaques, as influências locais e as diferenças entre o português timorense, o brasileiro e o português de Portugal.Além da língua, mergulhamos na rica cultura do país: falamos sobre as famosas casas sagradas (uma tradição arquitetônica e espiritual única) e a visão dos timorenses sobre casamento e morte. Uma conversa imperdível para quem ama a diversidade da lusofonia!📚 Livros do Pascoal:- Pensamento Pedagógico na realidade da educação timorense- Reflexão Pedagógica - Atitudes e Ciências são fundamentos da educação profissional📱 Instagram: www.instagram.com/pascoalsoaresmadeira🎥 Episódios citados:- Discover Indonesia: https://open.spotify.com/episode/6kq9sl5QOVsIO9qIL9bCT4?si=8XkNjsdMTdGAwdQGkX0Wjg- Português de Timor-Leste: https://open.spotify.com/episode/33J7FxPpH91JDu1DIOKGlV?si=JM3AK9OZT5KRgzTiSORuxg🎙️➡️💸 Apoie nosso podcast no Patreon e tenha acesso a conteúdos exclusivos: https://patreon.com/diversilingua✉️ Lista de e-mail: https://forms.gle/MZkGhWvAKeWDTMEB8📚 Aprenda um novo idioma com aulas particulares no iTalki, ganhe $5 para suas aulas e ajude o Diversilíngua: https://www.italki.com/en/i/ref/Afeacc✈️ Grupo do Telegram do Diversilíngua para os encontros de prática de inglês: https://t.me/diversilinguapod😊 Canal no Whatsapp: https://bit.ly/4ajxq7lSiga-nos nas redes sociais:📺 YouTube: https://www.youtube.com/@Diversilingua👋 Facebook: https://www.facebook.com/diversilingua/📷 Instagram: https://instagram.com/diversilingua/#diversilingua #timorleste #portuguesetimorense
- Aprender português no Brasil e as dificuldades de pronúncia e compreensãoMambai·Tetum·Língua indonésia·PUC Minas·Literatura brasileira
- O papel das casas sagradas na cultura timorense e sua importânciaIdentidade cultural·Trabalho coletivo·Topway·Regoa
- A visão timorense sobre casamento e morte e os rituais tradicionaisLiamate·Liamores·Barlaque·Dote·Fetuça·Animismo·Catolicismo
- Particularidades do português falado em Timor-Leste e suas influênciasPortuguês de Portugal·Português do Brasil·Lianai·Cacique·Luiz Cardoso
- Rituais fúnebres em Timor-Leste e a importância dos sonhosDesenterrar os mortos·Sonhos·Cerimônia ritual·Thaiz
- Sugestões de livros sobre a cultura e história de Timor-LesteO Menino e o Crocodilo·Vicente Paulino·História de Timor-Leste
Vamos agora conversar com timorense em português, né? Agora a gente vai saber aqui na prática como é que é conversar em português com uma pessoa de Timor-Leste. E para falar comigo eu convidei o meu amigo Pascal, que é timorense. Olá, Pascal, tudo bem?
Olá, Diego, bom dia aí, boa tarde aqui em Timor-Leste. Eu estou bem, graças a Deus.
Muito obrigado por ter aceitado o convite, Pascal. E para você que tá nos ouvindo ou nos assistindo e caiu aqui de paraquedas, você está no Diverse Línguas, seu podcast de idiomas, viagens e cultura. Se você não sabe por que que a gente tá falando aqui em português com timorense, você vai saber. Você pode ir atrás dos nossos episódios no qual a gente já falou sobre o português falado no Timor-Leste, que a gente entrevistou a antropóloga Renata Silva, que já esteve em Timor.
E também a gente teve um outro episódio no qual a gente falou de, a gente mostrou alguns vídeos de algumas pessoas de Timor a falar português, como por exemplo o grande poeta Abé Barreto, né, e que também é músico, né. Não é isso, Pascal?
É verdade.
Então fiquem ligados e não deixe de já deixar o like e de compartilhar esse assunto se você acha relevante. Então vamos começar nossa conversa, Pascal. Essa é a segunda vez que a gente tá aqui tentando gravar essa conversa, porque na primeira tivemos problemas técnicos, mas agora vai dar certo. E eu queria saber, Pascal, primeiro, quantas línguas você fala?
Bom, obrigado pela oportunidade, Diogo. Eu vou falar que eu praticamente estou conversando com 4 línguas. Por exemplo, primeira língua que eu falo, isso é a minha língua materna, que se chama mambá. Depois disso eu falo também tetim, que é a língua oficial do país também, além português. E eu falo a língua indonésia, língua indonésia, que eu aprendi também na Indonésia alguns anos atrás. Aí eu falo bem língua indonésia e agora eu falo também língua portuguesa porque eu estudei lá no Brasil ao longo de 5 anos e meio e também um pouco de inglês, mas o inglês não é muito, é apenas para conversar.
Ok, mas eu posso dizer que o Pascal é poliglota porque já sabe falar vários idiomas. Olha, olha, Pascal, eu esqueci de um detalhe, esqueci de te deixar uma oportunidade de se apresentar, né? Porque eu sei que você é pedagogo, já escreveu um livro, então pode falar um pouco sobre si.
Tá bom, então muito obrigado. O meu nome é Pascal de Sérgio Madeira, eu sou timorense e que eu estudei também no Brasil no curso da pedagogia. Uma universidade se chama PUC Minas, Pontífice Universidade de Minas Gerais. Aí, a partir do meu estudo, me ajudou muito nesses conhecimentos pedagógicos. Quando eu voltei ao Timor-Leste, eu comecei a desenvolver. Então, no momento, eu escrevi 2 livros em pedagogia. O primeiro livro que se chama Pensamento Pedagógico na Realidade da Educação timorense.
E o segundo, que é a reflexão pedagógica, dois pontos, ciência e atitude são fundamentos da educação profissional. E outro livro que se chama Mariologia, isso é inteiro, também eu escrevi, é juntamente com alguns artigos publicados na Indonésia sobre a trajetória da educação timorense, E também a equidade e de administração, um ponto de vista da liderança na educação também.
Muito bem. Olha, você já realizou um sonho que eu tenho, que é escrever um livro. Quem sabe um dia, quem sabe um dia eu escreva também.
Eu acredito que você vai escrever também, né?
É, aliás, eu escrevi um juntamente com alguns amigos, eu vou até citar isso aqui, que é um livro que a gente fala sobre o poliglotismo, movimento poliglota no sul global. A gente fala principalmente do Brasil e de alguns países de África. Eu acho que nessa edição a gente não falou de Timor, mas quem sabe na próxima edição do livro a gente possa falar de Timor. É, foi uma iniciativa de dois amigos meus, o Otto e o Jurobola, que foram os idealizadores.
E o Jurobola, esse a comunidade poliglota no Brasil conhece, que ele fundou os clubes poliglotas pelo Brasil. E pronto. E que se você tiver interesse, curiosidade, vou deixar o link também afixado aí nos vídeos no YouTube sobre mais informações sobre esse livro. Pascal, agora vamos voltar para o time, para a Timoleste. Olha, olha, Pascoal, é agora eu queria saber de ti como foi que foi o teu primeiro contato com a língua portuguesa.
Foi um processo muito, para mim é muito complicado porque eu nasci, a minha história que eu queria contar para você. No início nós tivemos uma formação, porque aqui depois da independência nós tivemos na educação que a língua portuguesa se tornou língua oficial. Pronto, na escola nós aprendemos, mas por causa da situação Alguns professores que eram, não dominham muito bem a língua portuguesa, basta pegaram alguns livros para ensinar na escola.
Depois, o que que eles explicaram também, nós não entendemos muito bem, e por isso eu não me aprofundei tanto. Então, depois que eu terminei a escola O meu estilo de vida, eu fui para a Indonésia, eu fui estudar na Indonésia. Praticamente eu me apaixonei com a língua indonésia, que é uma língua mais fácil, dá para compreender. Então aprendi isso. Agora, o que tive a oportunidade de estudar no Brasil Eu cheguei no Brasil, enfrentei uma dificuldade imensa porque a questão da pronúncia, o português que às vezes em Quito nós escutamos algumas palavras, algumas palavras assim, algumas palavras em português que nós utilizamos em Quito, mas Essa questão, assim, para construir algumas frases, algumas falas que para as pessoas entendam, foi muito difícil.
Mas assim, eu sou uma pessoa que eu gosto muito de enfrentar esses desafios. Para mim, para ter um sucesso no início, deveria enfrentar alguns desafios para Conseguir chegar ao objetivo que eu queria. Então eu fiz muitas, muitas aulas de português no Brasil, conversei todos os dias com alguns brasileiros e li muito também para melhorar a minha língua portuguesa. Mesmo assim, eu entrei na faculdade também, eu tive esse grande problema em questão de entender os conteúdos acadêmicos.
Isso quase me decepcionei nessa questão. Eu até escrevi também no meu livro sobre essa experiência, mas dentro do meu pensamento, que mais profundo, eu insisti para saber alguma coisa. Eu até, eu falei mesmo Para entender uma língua não foi fácil. Então, através desse processo, eu insisti, insisti, e depois no final assim eu consegui conversar mesmo. É bem diferente. Às vezes vocês escutam como se fosse uma— eu tô falando português como se fosse um pouco esquisito, né, assim também, mas Tô chegando agora no momento, consigo falar bem a língua portuguesa em termos de escrever também.
E no momento eu estou lecionando num instituto timorense jesuíta aqui em Timor-Leste. Eu estou lecionando matéria de didática e também currículo do ensino secundário. E mesmo que eu não sou, eu não sou pessoa que terminou na literatura, mas aqui como é uma oportunidade para mim, o instituto me pediu para lecionar também a literatura brasileira, porque o time faz parte da CPLP, é da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Muito bem. Antes de prosseguir, eu só gostaria de te pedir para nos apoiar no Patreon. É muito fácil, patreon.com/diversilinguas. Agora, Pascal, que tu falaste um pouco de como é que tu aprendeu português, e o Brasil foi, teve um papel importante, né? Porque acho que, acho que tu aprendeu muito mais o português do ponto de vista do Brasil do que de Portugal. Mas assim, há alguma particularidade Tu acreditas que em Timor há muito mais palavras que são usadas de Portugal ou do Brasil? E se existe alguma palavra diferente no português falado aí?
Aqui em Timor-Leste nós temos diferenças, diferentes coisas dependendo da situação. Por exemplo, os nossos estudantes timorenses que estão estudando a maioria em Portugal. Alguns estão estudando no Brasil e fora do Brasil também, Cabo Verde, Cabo Verde, por exemplo. Então cada um vem com a pronúncia diferente de acordo com a fala de cada país, já que aqui em Timor-Leste também nós temos uma a aula de língua portuguesa que é administrada na Universidade Nacional de Timor-Leste, que é a UNTL, isso também leciona português.
Agora, e por isso que quando nós nos encontramos, nós temos diferentes pronúncias, mas a questão do entendimento em português é semelhante. A diferença das palavras também tem. Por exemplo, eu que estudei apenas no Brasil, mesmo aqui em Timor-Leste eu nunca falo raparigas, eu falo as meninas. É uma coisa bem diferente, né? Então, como os timorenses que estão estudando aqui, eles adotam mais contexto português, Portugal, e eles falam isso é uma coisa normal.
Aí eu não posso falar que isso está errado. Eu entendo esse gestão aí, eu entendo esse foco. E também aqui em Timor-Leste, como se perguntou hoje, mesmo que português Portugal, português timorense, português do Brasil, mas aqui em Timor-Leste existe algumas palavras próprias que de vez em quando é difícil de explicar, difícil de fazer a tradução em português. Por exemplo, nós temos isso que se chama lianai, aliás, em português Guardião das Palavras, alguma coisa assim.
Quase o sentido é um pouco estranho, mas isso é uma palavra que caracteriza a nossa identidade. E depois disso nós temos também uma, por exemplo, cacique. Se for traduzir literalmente em português, nós vamos entender isso que é boca do mar, mas essa palavra Você sabe, né, Luiz Cardoso, que é grande poeta timorense, ele utiliza essa palavra. Ele fala que não, nesse palavras originárias do nosso país aí que demonstra nossa identidade, desde nós vamos fazer essa tradução literal, que é a boca do mar mesmo, não é a praia.
Então quais são as duas palavras? Poderia repetir as duas palavras?
Como é que é?
Poderia repetir as duas palavras que tu falaste agora? Foi Kisabu, é guardião das palavras, guardião das palavras.
E depois, e boca do mar, que é a praia, e boca do mar é teto, seria Tá, mas vocês falam isso, se for falar português vai falar isso, tá, Sibo? Em português, por exemplo, nós queremos conversar, e a maioria dos senhores que acabam de aprender português, eles automaticamente eles vão fazer uma tradução literal, sempre literal, ou às vezes eles vão fazer uma tradução literal. Eu quero sair professor. Que é sair, é sai, sai. Agora, se for fazer a tradução, eu quero sair, português, sentido muda completamente.
Ele está querendo ser professor, mas naquilo que ele tá falando, ele quer ser professor, não é quer sair professor. É duas coisas diferentes. Então, isso de vez em quando nos nos faz entender de outra forma daquilo que a pessoa mesmo fala, mas nós entendemos o conteúdo. Agora, aqui está surgindo de que algumas palavras originárias que demonstram nossa identidade é melhor nós vamos manter, mas a questão é que nós precisamos cuidar explicando para as pessoas que não conhecem bem sobre essas falas, porque senão as pessoas entendem de uma outra forma.
Sim, sim, é, mas eu acho importante isso, né? Eu até, quando tu começaste a falar dessas palavras, eu imaginei algumas palavras que tem no Brasil, no português, que são de origem africana e de origem indígena, né? Então tem muitas palavras no português, como por exemplo, eu vou citar algumas, é tapioca, Tapioca é uma comida, né? Então é também algumas palavras que a gente usa no dia a dia, porque agora eu não tô me lembrando das palavras, mas tem algumas palavras que a gente usa no dia a dia que tem origem indígena.
Então a língua vai evoluindo. Então o português de Timor tem suas particularidades também, né? É muito, muito bom, muito legal. Agora eu vou entrar um pouco no assunto que a Renata comentou lá no episódio, que eu fiquei bem interessado, que é uma coisa mais cultural de vocês, que é a questão das casas sagradas, né? Então eu achei bem interessante, fiquei Fiquei com muita vontade de visitar o vosso país para conhecer, para conhecer, para conhecer a vossa cultura, porque eu achei muito interessante.
E eu, para quem não, para quem tiver assistindo aí, vai aparecer algumas imagens das casas sagradas que a gente vai colocar. E eu queria saber, Pascal, qual é o papel da casa sagrada assim? Tu pudesse resumir assim. Eu sei que deve ter muita história, mas é verdade.
É isso que demonstra a nossa identidade, a nossa característica de um país, de um local, que aqui em Timor-Leste, desde muito tempo atrás, nós, os nossos ancestrais, viviam dessa forma. Cada um tem uma casa sagrada, E por isso eu, quando estou falando sobre essa casa sagrada também, de vez em quando as pessoas que nunca entendem sobre essa cultura, como se fosse uma coisa estranha, né? Que a casa sagrada, como eles entendem, como a igreja, eles com a casa que nós moramos é a casa sagrada, eles entendem de uma forma teológica, mas não, nós temos isso que demonstra a nossa identidade.
Nós temos a casa, que é a casa da família, onde todos, cada família moram, sim. Mas nós temos uma casa sagrada, isso, que acumula todas as pessoas dentro de uma geração. Por exemplo, eu sou uma pessoa, primeira pessoa. Agora eu tenho, por exemplo, 4 filhos, ou 4 filhos e 4 filhas. Quando eu vou morrer, eles vão, eles vão casar e eles vão ter mais filhos. Quando eles vão morrer, os filhos também vão gerar mais pessoas. Essas pessoas já conhecem que nós viemos de uma geração, e essa geração construiu uma casa que acumula a nossa identidade, e também para que nos conhecer, nos faz conhecer sobre a nossa geração.
Isso é uma relação muito forte aqui em Timor-Leste, que Eu, pelo menos na minha fala também, alguns outros tempos eu digo assim que nós precisamos apenas cuidar com essa especulação, porque hoje em dia nós sabemos que a especulação sobre a questão política entra muito nessa questão da cultura. De vez em quando pode especular algumas coisas que no fim desvalorizar a nossa identidade. Mas nós temos que cuidar com o nosso valor, porque esse valor cultural acumula, que acumula as pessoas de geração na geração, mesmo que já muito tempo atrás os nossos avós, os nossos tataravós, nós não conhecemos, mas nós ainda lembramos que essa pessoa vem dessa linha.
Essa geração. Então isso aqui em Timor-Leste é muito comum, que cada pessoa está valorizando essa casa sagrada. A nossa casa sagrada tem um nome próprio, um nome próprio. Por exemplo, eu, a minha casa sagrada que se chama Topway, isso significa na língua mambai, isso quer dizer que ir É, tô querendo dizer que cortar, cortar árvore, então isso faz um sentido. Por exemplo, uma casa sagrada, qualquer casa sagrada que ao redor do meu município eles vão construir uma casa, nós temos que ter esse processo de cortar madeira, de cavar terra para construir os pilares importantes.
Então quem corta a madeira, eles têm que chamar a nossa pessoa que totou para cortar a madeira, porque isso já foi determinado desde muito tempo atrás. Depois tem outra casa sagrada que se chama Regoa. Regoa, isso significa aquele que cavar a terra para construir o pilar importante das casas, da casa sagrada. Beleza? Não é qualquer pessoa que vai cavar, é a própria pessoa que vai cavar isso para construir a casa.
Ah, então são as próprias pessoas da casa que constroem a casa, é isso?
As próprias pessoas da casa organizam e depois cada pessoa, cada casa sagrada que tem um sentido, que tem a responsabilidade de trabalhar nessa questão, nesse trabalho para construção, eles que vão fazer. Por exemplo, uma, você, vamos supor que você é um timorense, você não é de casa sagrada Totói nem de Ireguá, você é de outra casa sagrada, você quer construir uma casa sagrada, você já sabe que quem vai cortar madeira para construir é, tem que nos convidar, tem que me convidar.
Ah, entendi. Então, mas assim, como é que, mas como é que isso, porque assim, eu acredito que a casa sagrada bem antigas, né, e há outras que são novas.
Sim.
E qual é a decisão que ocorre para agora vamos ter que construir uma nova casa sagrada? Quando é que isso acontece?
Entendi. Essa aqui, aqui, as casas sagradas que estão existindo aqui em Timor-Leste são casas sagradas muito antigas. Agora, eles não têm nova casa sagrada, mas eles têm assim como se Porque se tiver uma casa sagrada que já tem muitas pessoas, muitas gerações, por exemplo, alguns vão morar na parte leste, alguns moram na parte oeste. Então a distância, a distância nos separa. E como eles não conseguem voltar ao próprio local onde eles, os ancestrais, nasceram, deixaram as lembranças culturais.
Então eles vão construir outro lá, mas isso em nome da casa sagrada antiga, não deveria ser um nome novo.
Então as pessoas da casa ficam mais distribuídas assim no território, e aí quando vai Quando vão decidir construir a casa, aí tem que chamar, por exemplo, os totós para cortar madeira, tem que chamar o outro que vai cavar. E é isso, é um trabalho muito comunitário, né?
Isso é um trabalho, não é um trabalho individual, mas é um trabalho coletivo. Isso que está acontecendo até agora. Então, no sentido dessa coletividade, é para reunir as pessoas. Então, no nosso, na nossa vida diária, no nosso costume, nós quase, nós nos conhecemos, mesmo que as pessoas estão longe. Basta dizer que a minha geração vem daqui, aí nós vamos fazer algumas pequenas conversas, nós vamos conhecer. Ah, é você? A nossa geração ainda tem uma geração de uma linha. É isso, é mais fácil de identificar.
E aí, num aspecto mais assim da vida cotidiana, qual é o papel da casa sagrada, por exemplo, com relação a casamento e a morte?
É uma pergunta muito interessante. Eu queria dizer que nós temos costume aqui que que fala sobre uma, umas questões que chama liamate e liamores. Depois eu vou explicar aqui, porque a questão do liamate, isso significa que nós vamos tratar sobre os falecidos. A questão dos liamores, nós vamos tratar sobre a questão do casamento, da da Barlaque. Você sabe que a Barlaque, né, é o Dodge.
O Dodge, é que a gente falou da outra vez.
É isso, nós temos que tratar. Agora, quem vai organizar essa festa, nós temos que— o que que eu falei hoje? É guardião da palavra, ele que vai decidir, ele que vai decidir. Por exemplo, uma pessoa morre dentro da minha casa, da minha família, nós temos que chamar esse Elianaim para sentar e para decidir. Essa decisão que ele vai, ele vai tomar é para mandar os recados para as pessoas. Por exemplo, as minhas irmãs que casam com os filhos de outro, de outra cidade, e nós vamos mandar um recado para ele.
Nesse caso de Leiamate, eu vou considerar a minha irmã como fetuça. Em teto se chama fetuça, mas em português uma tradução que chama a família da, da família da, como que Da noiva, família da noiva. É a família da noiva, sim. Então depois eu também vou mandar o Lianain, já decide isso. Depois o Lianain manda também, algumas pessoas vão mandar recado para a família da minha mãe, porque a família da minha mãe, isso é considerado humano.
Isso. Então, para sentar, para decidir nessa questão, para enterrar um falecido, o processo é um pouco diversificado. Diversificado em termos de, antes de nós vamos entrar na questão da fé, porque aqui é de Morroleta, a maioria católica, as pessoas Acredita nisso.
Nós estamos também tratando, e assim, tanto essa questão das casas sagradas quanto a questão— isso não impede da pessoa, por exemplo, ser católica, né? Então a pessoa é católica, mas tem a tradição da casa sagrada que ela vai seguir.
Isso não impede, não impede Porque, e por isso que muitas pessoas nos chamam de país animista. Em vez de nós temos uma fé católica, mas nós temos essa crença tradicional que já existiu bem antes da entrada dos católicos em Timor-Leste. E essa é a nossa cultura, ainda existe até hoje em dia. Mas se for entender, os dois, um ligado do outro. Porque, por que que eu digo isso? É o que que eu lembro assim, os nossos tataravós, desde antigamente, que antes da entrada da religião católica, Eles fizeram uma oração, né, uma oração.
Em teibum nós chamamos isso hamulak. Isso, em português seria o culto que eles rezam. Eles chamam de o pai, o meu pai lá do céu e a minha mãe em terra. Então nesse o ensinamento, a doutrina católica também é a mesma. Mesma coisa, ensina a mesma coisa que o nosso pai que lá em cima e a nossa mãe em terra. Como o grande escritor brasileiro Leonardo Boffi bem fala sobre a mãe em terra, aí isso tem essa ligação muito próxima. Então nós podemos entender que o encaixamento dessa, da fé católica dentro da nossa cultura não tem nenhuma grande diferença.
O trabalho, atividade, como nós vamos organizar na parte da cultura, que é um pouco diferente, mas na questão de entendimento que nos leva à fé é a mesma coisa.
Mas aí, voltando um pouco só para a questão do casamento e do, e da morte, né, eu queria Fazer um resumão assim. Então, no casamento, no casamento, o casamento, ele assim, uma questão, ele é arranjado ou não? Ou você, as pessoas podem escolher os parceiros, mas tem que ter essa, esse, essa, como é que se diz, essa, esse acordo entre as casas sagradas?
Muito bem. Isso que nós chamamos de liamores, em teto chamamos de liamores. Se for traduzir para o português, é muito bem estranho. A palavra viva, a palavra viva significa tratar sobre a questão da vida. Diamantes trata sobre a questão de morte. Então isso faz sentido também.
E o liamores vai ser, vai ser, volta uma pergunta, é casamento arranjado ou você pode escolher o parceiro ou a parceira e depois as casas sagradas tem que ter um acordo?
Isso, nós temos também esse liamores que trata sobre o casamento. Antigamente aqui em Timor-Leste, quando uma pessoa for casar não é aquela, daquele gosto que ela pretende escolher, mas os pais que escolheram para ele, por exemplo, para um menino, um filho. É porque nós temos a casa sagrada que já todos sabem, eles sabem que, ah, esse aqui pode casar com o nosso filho, e outra casa sagrada não, não pode, porque a nossa geração nós temos que obedecer alguma coisa assim.
Aí nós sabemos que algumas certas casas sagradas, que as filhas dessas casas sagradas, nós podemos casar com a filha, mas o filho deles não pode casar com as nossas filhas. Isso, nós temos essa regra bem tradicional. E o que que nós vamos tratar se for um casamento entre duas famílias concordam primeiro. Por exemplo, a família do noivo e a família da noiva, os dois concordam, mas tem que passar através da questão de dote, porque aqui na maioria de Malesse, para casar, questão de dote é fundamental, tem que resolver isso em termos de dinheiro, e animais.
Depois de resolver isso, nós podemos se registrar na igreja para ter doutrina, ter algumas informações para casamento da igreja. Aí isso também nós temos que considerar aquilo que eu falei: a família do noivo, a família da noiva, e também a família do meu pai e da mãe. Isso que nós chamamos de fetichário.
Isso tem de ter um acordo, não é isso?
É, tem que ter um acordo entre duas famílias. Quem vai organizar isso é a Yanain, Yanain da guarda-sala, guardiã da palavra, que foi, ok.
Assim, eu queria muito continuar essa conversa sobre isso, mas senão a gente não vai ter tempo para falar outros assuntos. Agora eu queria voltar para a questão da morte, né? Porque no episódio com a Renata eu falei lá que eu já tinha entrevistado uma garota da Indonésia, e lá tinha um ritual fúnebre na ilha de Sulawesi. Que é a cerimônia da limpeza dos corpos, que a cada 3 anos, por mais de 900 anos, o povo da vila, vila Lembang Patong, desenterra os corpos mumificados de seus entes queridos para limpá-los, vesti-los em roupas, em novas roupas, e enterrá-los novamente.
E aí eu fiquei curioso, como é que Existe algum ritual parecido em Timor, ou como é que é o ritual fúnebre?
Bom, Diego, aqui em Timor-Leste nós temos também esse ritual, desenterrar os mortos. Isso nós temos, só que o nosso costume é um pouco bem diferente, porque nem sempre nós vamos desenterrar todos os mortos. Nem sempre. Apenas duas pessoas que nós vamos fazer isso. Por exemplo, os nossos ancestrais que foram enterrados em alguns lugares que nós não sabemos, porque nós somos novas gerações, que nós não sabemos mais, mas nós escutamos isso.
Então o nosso costume, nós acreditamos muito no sonho. Por exemplo, uma pessoa sonha que ontem à noite eu sonhei que os nossos o nosso, os nossos avô que morreu muitos anos atrás, que foi enterrado num lugar que nós procuramos até agora, nós não sabemos. Ele me lembrou que ele está deitado nesse lugar aí. Aí nós acreditamos nesse sonho, nós precisamos realizar. Por exemplo, ele morreu na parte leste, nós moramos na parte centro.
Então nós temos que ir para lá, para leste. E mesmo que nós não conseguimos, às vezes nós achamos o esqueleto, mas às vezes não, nem sempre isso. Mas quando não for achar, nós vamos pegar uma pedra, por exemplo, e representa o esqueleto dele, e vamos trazer para centro onde nós moramos, e nós vamos fazer uma cerimônia ritual para enterrar ele de novo, para construir isso, construir a casa dos mortos. Nós vamos fazer isso. No caso, nós achamos o esqueleto, então nós vamos pegar isso, colocar dentro de uma thaiz, um thaiz que é cachecol, que é uma, é um tecido daí de Timor, né?
Isso, o tecido de Monroi. Nós vamos colocar isso, vamos convocar mais uma reunião entre família, para que saia a família do noivo, da noiva, do pai, da mãe, e a família dos avós que estão ainda vivos. Nós vamos convidar tudo, vamos tratar de uma forma cultural. Reconhecemos que ele é parte de parte da família do noivo, a parte de família da noiva. Nós vamos convocar essa reunião, depois vamos fazer uma cerimônia ritual comemorando uma cerimônia, uma ou duas noites assim.
Depois nós vamos enterrar e nós vamos, vamos, cada um vai voltar para casa. Isso que é o nosso processo. Mas se nós não temos esse costume, sim, eu conheço também algumas partes da Indonésia que eles vão desenterrar e vão limpar, cuidar, vestir de novo, e depois assim que eles fazem. Mas nós não fazemos para todas, todos os mortos, né?
Apenas uma, duas pessoas que é mais interessante tu ter mencionado essa, como vocês lidam com a morte, né? E como, e como sonhos são importantes, né, na sua cultura. É bem interessante isso. Às vezes até acho que às vezes nós do Ocidente estamos perdendo um pouco essa questão comunitária, que eu pelo menos eu percebi muito em sua fala sobre sua cultura, que parece que no Ocidente estamos perdendo um pouco isso. Então muito, muito bonito.
É, Pascal, a gente já tá chegando ao fim do episódio e a gente sempre pergunta para os nossos entrevistados para sugerir algum, alguma, algum livro ou um filme. É o nosso momento cultural, né, do Diversilingua. Então, se o amigo tiver alguma sugestão de algum livro para os nossos ouvintes, os nossos telespectadores, Por favor, agora é o seu momento.
Muito obrigado, Dili. Eu sugiro que os telespectadores, se tiverem tempo, eles vão ler uma lenda muito famosa sobre o Timor-Leste, que é o Menino e o Crocodilo. Isso é uma lenda. Agora, na parte da cultura, Quem escreve muito bem sobre isso, como a antropóloga Renata falou, né? Eu conheço também um grande escritor aqui em Timor-Leste, o nome dele é Vicente Paulino. Também ele também é um docente convidado, Universidade de São Paulo, Mackenzie.
Ele fala muito bem sobre essa questão da cultura e ele tem muitos livros sobre essa sobre a cultura timorense. Aí vocês podem ler e entende bem sobre a questão da cultura timorense. Outra questão, eu acho que é bom também de os telespectadores vão ler também sobre a história timorense, que ao longo da colonização e a invasão Nós, o Timor-Leste sofreu tantas dificuldades, problemas e desafios, e chegou até o momento. Mas isso, basta ler para ter a experiência.
Eu acho que é muito bonito sobre essa história, a história do Timor-Leste. O Vicente Paulino também tem esse livro aí, pode ajudar os teus espectadores.
Ok, muito obrigado. Até porque recebemos algumas perguntas no outro vídeo sobre história de Timor. Ah, que vocês não falaram da história, pessoal. Esse podcast não é sobre história. Se vocês quiserem se aprofundar no assunto, porque eu não sou professor de história, não sou, não sou muito, eu leio coisas de história, mas não sou um estudioso de história. Então se vocês quiserem se aprofundar no assunto da história de Timor, tá aí.
A dica do Pascoal. E também vocês podem, sei lá, procurar no YouTube, deve ter um canal que vai falar mais, é, de forma mais aprofundada sobre a história do país. E agora, para fechar, o Pascoal, eu queria saber o que que tu mais gosta, o que é que você mais gosta de Timor?
É que eu gosto, em termos de qualquer forma ou alguma coisa específica?
Pode falar do que vier na cabeça.
Ok, muito bom. É o que que eu sinto muito diferente é a questão da vivência, porque nós temos essa preocupação social, é muito grande, e nós somos pessoas acolhedoras. Como no outro momento que nós falamos. Isso é verdade. Por que que eu acho isso muito importante? Porque se você, por exemplo, você é uma pessoa que é nova num local onde eu estou, as pessoas se preocupam muito. Parece que ele está precisando de alguma coisa, está precisando de ajuda, e nós perguntamos isso.
Se for precisar de ajuda, nós vamos ajudar. Se for precisar de pedir alguma ajuda para indicar a direção, nós vamos fazer isso. Isso que eu acho é muito bonito do meu país.
Que bom, que bom! Eu tenho muita vontade de visitar, quem sabe um dia, e quem sabe eu te conheça pessoalmente, né?
Seja bem-vindo, né? Aqui sempre o Timor-Leste está sempre abrindo, abre a mão para receber qualquer pessoa que tem interesse.
Que bom!
Você vive em Dili? Eu atualmente moro em Liquiçá, é um país, é um município, nós chamamos de município, perto de Dili.
Ah, ok, muito bem. É, Pascoal, Pascoal, eu gostei muito, gostei muito de conversar contigo, de saber um pouco mais sobre o vosso país. Espero um dia poder conhecer Pessoalmente. Vi que tu tens algumas expressões no Brasil como beleza, né?
Gostei.
Essa é uma forma bem informal de a gente dizer tudo bem, né? É beleza, é beleza. E para assim, ainda eu tenho uma última pergunta que é: tem vontade de visitar o Brasil novamente?
Eu tenho grande vontade, só que a distância que é incomparável, já que eu tenho uma questão financeira muito limitada. Mas o meu sonho é muito grande, isso sem duvidar.
Ok, olha, obrigado pelo carinho, Pascoal. Desejo para ti tudo de bom na sua vida e que Quem sabe a gente possa falar mais coisas sobre o Timor futuramente.
É verdade, eu também agradeço imensamente pelo convite, porque nunca imaginei, de repente esse convite chegou a mim, aí fiquei tão feliz, né, porque é feliz de fazer a conversa. Mas é uma questão que eu queria colocar aqui, não sei se você entendeu bem o meu português ou é difícil, é isso que eu queria saber também.
Tranquilo, tranquilo. Acho que todo mundo vai entender, vai perceber bem. Olha, muito obrigado, Pascal. Até a próxima oportunidade.
Tá bom, muito obrigado e tchau.
Patreon
Apoio ao podcast