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PORTUGUÊS DO TIMOR-LESTE: como é falado na Ásia? | Entrevista com Antropóloga

11 de agosto de 202653min
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Você sabia que no coração do Sudeste Asiático existe um país onde o português é língua oficial? 🗣️No episódio de hoje, embarcamos em uma viagem linguística e cultural pelo Timor-Leste – a única nação da Ásia com o português como idioma oficial ao lado do tétum. Mas será que o português falado lá é igual ao nosso? Quais sotaques, expressões e influências locais moldam essa variante única da língua?Para responder a essas e outras perguntas, conversamos com a antropóloga Renata Silva, que viveu e pesquisou o país por anos. Durante o bate-papo, exploramos:🏠 As casas sagradas (Lulik) – o coração espiritual e social das comunidades timorenses, onde rituais ancestrais ainda são preservados, como os que são realizados no dia dos mortos.🚐 A microlet – o icônico transporte urbano que revela o dia a dia nas cidades do país, onde a música alta é uma realidade.🍛 A culinária local – sabores que misturam influências asiáticas e portuguesas em pratos surpreendentes.Se você tem curiosidade sobre a diversidade da língua portuguesa, ama antropologia ou quer conhecer um dos países mais fascinantes e pouco explorados do mundo, este episódio é para você!Gostaria de saber mais sobre o trabalho da antropóloga Renata Silva?- Instagram da Renata: @rerenog - A vida social das casas sagradas no Timor-Leste pós-colonial | Editora AIA-SEAS https://press.aiaseas.org/main/catalog/book/livro1- Tese de doutorado da Renata Silva: https://repositorio.unb.br/handle/10482/37659- Livro mencionado sobre a Renata em referência as casas sagradas: https://www.academia.edu/32967245/As_uma_lulik_de_Ainaro_Identidades_sociais_e_rituais_em_Timor_Leste🎙️➡️💸 Apoie nosso podcast no Patreon e tenha acesso a conteúdos exclusivos: https://patreon.com/diversilinguaEpisódios mencionados:- Discover Indonesia- Português do Uruguai- Português do Uruguai com um nativo- Existe um português puro?✉️ Lista de e-mail: ⁠https://forms.gle/MZkGhWvAKeWDTMEB8📚 Aprenda um novo idioma com aulas particulares no iTalki, ganhe $5 para suas aulas e ajude o Diversilíngua: https://www.italki.com/en/i/ref/Afeacc✈️ Grupo do Telegram do Diversilíngua para os encontros de prática de inglês:https://t.me/diversilinguapod😊 Canal no Whatsapp: ⁠https://bit.ly/4ajxq7l⁠ Siga-nos nas redes sociais:📺 YouTube:https://www.youtube.com/@Diversilingua👋 Siga-nos no Facebook:https://www.facebook.com/diversilingua/📷 Siga o Diversilíngua no Instagram:https://instagram.com/diversilingua/#PortuguesTimorLeste #TimorLeste #LinguaPortuguesa

Participantes neste episódio2
D

Diego

Host
R

Renata Silva

ConvidadoAntropóloga
Assuntos6
  • Casas Sagradas Timor-Leste· ReligiaoCasas cerimoniais·Vida social e coletiva·Rituais de nascimento e casamento·Rituais de luto·Casas Sagradas de Ainaru
  • Português em Timor-Leste· InternacionalComunicação cotidiana em português·Português de Portugal·Português brasileiro·Variantes linguísticas
  • Linguas e Poliglotismo em Timor-Leste· CulturaTétum como língua oficial e de comunicação·Influência do malaio e indonésio·Aprendizado de línguas locais·Estratégia de preservação linguística
  • Sacerdócio de todos os crentes· ReligiaoCatolicismo como religião predominante·Práticas culturais locais e catolicismo·Presença evangélica·Missas e rituais religiosos
  • Cultura Pop e Música em Timor-Leste· CulturaMúsica brasileira em transporte público·Música 'Secretária' de Amado Batista·Novelas indonésias·Circulação cultural
  • Gastronomia Timorense· CulturaCatupa·Peixe fresco·Comida local
Transcrição49 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
DDiego

Você sabia que existe um país na Ásia onde o português é língua oficial? Estamos falando do Timor-Leste, a nação mais nova do mundo a ter o português como idioma oficial, ao lado do tétum, que é uma língua local, né? Este país conquistou sua independência em 2002 e hoje faz parte dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP. Mas será que o português falado em Timor é mais parecido com o de Portugal? Será que os timorenses se entendem, entendem bem os brasileiros, conseguem entender os brasileiros?

Para nos ajudar a compreender como o português chegou ao Sudeste Asiático e como ele vive no dia a dia dos timorenses, convidamos a antropóloga Renata Silva, que já estudou e visitou o Timor várias vezes. Fica conosco para esta conversa fascinante sobre a língua, identidade e resistência. Aqui é o Diego e você está em mais um episódio do Diverse Língua. Gostaria de agradecer a sua presença, Renata, você que foi uma indicação de uma ouvinte nossa, Denise, que também já participou desse podcast.

E gostaria que você se apresentasse um pouquinho e falasse de quem é a Renata, né, e qual é a sua relação com o Timolex.

RSRenata Silva

Bem, obrigada, Diego. É um prazer estar aqui conversando com você sobre Timor-Leste, a língua portuguesa em Timor-Leste. Agradeço também a indicação da Denise, minha amiga, né? Fizemos mestrado junto na UNB, né? Então, eu sou Renata Nogueira da Silva, eu sou antropóloga, eu sou professora da Secretaria de Educação do Distrito Federal. E trabalho com educação para as relações étnico-raciais na formação de professoras e professores.

E o Timor-Leste chegou na minha trajetória ainda durante o mestrado, né, na Universidade de Brasília, quando eu conheci a professora Kelly Silva, né, e tive a oportunidade de conhecer um pouco sobre as pesquisas que ela desenvolvia sobre Timor-Leste. Né, e anti-morleste, né. Então, no mestrado, eu me aproximei dos estudos sobre isso, do Sudeste Asiático. Nesse momento, eu pesquisava a festa da Congada, que é uma festa que acontece no interior de Minas Gerais, uma festa em louvor a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário.

Mas ainda no mestrado, eu fiquei seduzida pelas casas sagradas, que são casas cerimoniais, é que organizam muito da vida coletiva em Timor-Leste. E preparei o meu projeto de doutorado para entender a vida social dessas casas sagradas no Timor-Leste pós-retomada da independência, né. Então foi assim que eu cheguei em Timor. Eu estive 3 vezes em Timor, né? A primeira vez para desenvolver a minha pesquisa de doutorado, fiquei lá 15 meses, visitei vários municípios, né, do país.

Depois eu voltei em 2023, fiquei 45 dias, e aí essa já foi para uma consultoria sobre a educação e língua portuguesa em Timor-Leste. E voltei ano passado para desenvolver pesquisa, né? E aí, já numa mudança de objeto de pesquisa, né, deixando de estudar as casas sagradas e começando a me enveredar pelos tais, né, que é o tecido tradicional de Timor-Leste, que se tornou o primeiro bem reconhecido pela UNESCO, né, o primeiro bem imaterial reconhecido pela UNESCO é de Timor-Leste, né.

Então foram 3 visitas em 3 momentos distintos, né. E enfim, essa é a minha relação com Timor, né.

DDiego

E aí eu gostaria já de entrar aqui nas perguntas, né. É, antes de começar assim as perguntas sobre o português do Timor-Leste, eu gostaria de convidar você, ouvinte, a também assistir a outros episódios que a gente falou sobre o português. Então tem um que a gente fala sobre o português do Uruguai, né, que a gente também falou com a professora que estuda isso e que é professora numa universidade americana. Professora Ana, se eu não me engano.

E também já falamos do português do Uruguai com um morador de lá, da fronteira do Uruguai com o Brasil. E a gente também já falou sobre se existe isso de um português puro, né? Também é outro episódio, vai estar aí nos cards se você tiver assistindo no YouTube. Ou na descrição deste episódio. Mas e aí, Renata, antes de falar um pouco, né, eu gostaria de te perguntar como é que é esse português, como é que soa o português do Timor-Leste, né? Foi fácil se comunicar lá no Timor-Leste? Conta aí para nós.

RSRenata Silva

Bem, a comunicação com português ela acontece muito pouco, né, porque as pessoas, embora seja uma língua oficial do país, as pessoas se comunicam muito pouco em português, né. As pessoas que dominam o português são as pessoas mais velhas, né, aquelas pessoas que foram alfabetizadas, né, antes da invasão indonesa, né? Então são as pessoas que falam português, né? Os mais novos, eles têm sido alfabetizados em português mais recentemente, né?

Mas junto com o teto, que é a outra língua e a língua de comunicação do país, né? Vamos assim dizer. Então o português, ele aparece em algumas palavras né, que também estão presentes no teto, né. Mas não, não é uma língua que você desenvolve uma comunicação muito fluida com qualquer pessoa no país. Você não vai chegar e no mercado, por exemplo, a atendente não vai falar português com você, né. Ela, as pessoas entendem o português, mas as pessoas têm ainda tem bastante dificuldade de se comunicar em língua portuguesa, né?

O que vem mudando, porque hoje, né, a partir de uma certa idade nas escolas, as crianças começam a ter o português também juntamente com o teto, né? Mas esse é um processo muito lento, né, de apropriação de uma língua, né, para que essa língua ganhe vida. Na sociedade, né? Então é muito comum numa tentativa de interação as pessoas se comunicarem em diferentes línguas, né? Em português, indonésio, em inglês, em teto, né? Então escutar essas várias línguas no cotidiano é muito comum, né?

E agora ainda a gente também tem a presença de muitos chineses também no país, né? Então mistura, né, essas várias línguas que estão presentes na sociedade leste-timorense, né? Mas o que é interessante é um desejo de comunicação, né? Então se não se consegue comunicar com teto, eles acionam outras palavras, outras línguas para tentar a comunicação, né? Então isso é uma coisa que me chamou muita atenção em Timor, né? E uma das coisas que era muito interessante era porque de onde eu venho, do Brasil, a gente fala, por exemplo, bom dia, né?

E isso não era muito sonoro lá, né? Então, porque era o bom dia, era o boa noite, né?

DDiego

Então já é uma coisa mais parecida com Portugal, é isso?

RSRenata Silva

É isso, né? É mais parecida nessa questão do som, né, de algumas palavras, né? E rapidamente também você já é nomeada, né? Então eu chegando como uma pesquisadora brasileira, nenhuma pessoa que chega de fora, de outro país, eles, os colegas timorenses, nos nomeiam de malai, né? Que malai é uma pessoa estrangeira, né? E isso dura por um tempo. À medida que você vai se adentrando nas relações que você vai fazendo relações, né, esse malai ele vai ganhando lugar para uma forma muito carinhosa, né, que a gente tem de se comunicar, que é o mão e a mana, né, que são palavras em teto que poderiam ser traduzidas como irmão e irmã, né, principalmente quando se trata de pessoas que têm mais ou menos a mesma idade, né.

Então é uma forma muito carinhosa e muito gentil, né, que as pessoas utilizam para comunicar, né. Primeiro, o malai, para dizer que você não é dali, né, para dizer que você é um estrangeiro. E esse estrangeiro é principalmente, né, então os brasileiros, os portugueses, né, eles são chamados de de malai. E depois, à medida que você vai entrando nas relações e que você vai criando relações, você já começa a ser chamado de mana ou de mão, no caso de homens, né?

E isso é muito legal porque você tá andando na rua, você escuta mana, mana, mana, ou você pode escutar também malai, malai, malai, né? Então isso é uma coisa muito especial de Timor-Leste.

DDiego

Parece o mano e a mana de São Paulo. É interessante. E assim, eu fiquei curioso enquanto tu falava que eles têm essa tendência de falar vários idiomas às vezes quando vai se comunicar. Tu achas que eles têm uma propensão para serem poliglotas, digamos assim? Eu faço essa pergunta porque quando eu fui servidor público na Unilab, a gente recebia muitos estudantes de África e também do Timor. E uma coisa que eu percebi, pelo menos a parte dos africanos, é que muitos deles, eles ainda têm o crioulo como língua-mãe, né?

E aí, por ter esse contato desde cedo com crioulo, português, aí depois vai atrás de aprender outros idiomas, parece que fica até mais fácil para eles lidarem com diversos idiomas. E eu queria saber tua opinião sobre os timorenses.

RSRenata Silva

É algo muito parecido, né, Diego, com que você tá dizendo que acontece com os países, com alguns países africanos, né? Então Vamos dizer assim, o português já seria o contato com uma terceira língua, né? Então você tem a língua que geralmente, a língua do pai, a língua da mãe, né, que são, que pode não ser o teto, na maioria das vezes não é o teto, né? Então você já vai ter ali é um contato com essa língua, pode ser macaçai, pode fazer, fala louco, né?

Vai depender da combinação ali dos casamentos, né? Então, se são pessoas que vêm de lugares distintos, a possibilidade da criança já ser inserida em pelo menos duas línguas é bem grande, né? Então ela vai conhecer, mesmo que não fale fluentemente, as línguas dos pais. Elas vão, elas vão serem alfabetizadas e comunicar, né, por meio do teto, né. Depois o português chega na escola, o indonésio chega muito pela televisão, né. Então a facilidade que eles, que principalmente os mais jovens têm, né, para falar o bahasa indonésia tem a ver com a televisão, com as músicas, né.

Então Essa, esse passeio em várias línguas é muito comum, né? E é também uma estratégia que eu vejo que é uma estratégia de preservação de várias coisas, né? Então é algo semelhante ao que você trouxe da sua experiência na Unilab. Eu vejo que acontece também com o caso de Timor, né? Porque as línguas locais, elas, elas são vivas ainda, né, em certa medida, né. Elas são utilizadas em casa, né, elas são utilizadas na família, né.

O tétum, ele é utilizado, por exemplo, no mercado, ele é utilizado na escola, ele é utilizado para uma comunicação entre diferentes grupos que falam línguas diferentes, né, e que usam o teto como uma língua de comunicação, né? Eu te digo que eu fiquei com muita vergonha quando eu cheguei em Timor, porque eu brincava que eu mal sabia falar português, né? E aí as crianças falavam o teto, falavam algumas palavras em português, falavam inglês, cantavam em indonésio, e sabia ali algumas palavras das línguas dos pais e tal.

E eu fiquei— isso me fascinou muito. Talvez pela dificuldade que eu tenho com língua estrangeira, né, isso tenha me fascinado assim, né. E uma brincadeira que as crianças faziam para aprender português e que eu achava muito interessante: elas pegavam um dicionário e abria o dicionário, e aí escolhia uma palavra daquele dicionário, né, e pegava a palavra em português, e aí elas ficavam repetindo o significado daquela palavra em português, né.

E aí uma explicava para outra do que que era aquela palavra em teto, né? Então várias noites eu fiquei brincando com as crianças, né? Porque eu acho que eu tinha esse lugar de criança, né, pelo tanto que eu sabia de teto, com as crianças treinando, né? Elas ficavam abrindo o dicionário e várias vezes eu explicando para elas o significado daquela palavra em português e o que que era diferente, por exemplo, no Brasil e tal, né. Então, e aí aparecia as curiosidades, né, o pequeno-almoço, né, que para a gente é café da manhã, então lá era pequeno-almoço, o mata-bicho, né.

Aí a questão, por exemplo, do carro que era careta, né. E eu falo, e aí a questão do R era muito complicado porque eu não conseguia pronunciar aquele R, né. E aí era carreta estado, né, que era os carros grandes que era do estado e tudo mais, né. O celular, eu cheguei falando celular, ninguém sabia o que que era celular, né, porque telemóvel também lá, telemóvel, né. E aí são essas, essas diferenças. E aí a gente acabava aprendendo junto, né, por meio desse dicionário que muitas das vezes vinha na tradução de um português de Portugal, né?

E ali dialogando com uma pessoa que falava um português que não era, não era, né, um português de Portugal. E ao mesmo tempo eles também têm convivido com outros tipos de português, né? Porque hoje também tem a presença de africanos, né? Agora tem uma entrada da Angola, tem países de Cabo Verde, tem tem algumas pessoas de Cabo Verde, né, que chega também com outro português, né. Então essa convivência, inclusive de pessoas falantes de diferentes portugueses, também tá presente em Timor hoje, né.

DDiego

É uma coisa que eu sempre, assim, eu conheci um, eu tive um colega de trabalho cabo-verdiano aqui em Portugal e E uma coisa que eu invejava um pouco dele é porque ele tem a língua-mãe dele, né, que é o crioulo. E aí às vezes eu ficava, pô, mas nós brasileiros aí não tem a nossa, não preservou, né, não ficou, não ficou assim as variantes do tupi, né. Então hoje é uma língua que poucas pessoas falam. Nós brasileiros, a gente só conhece o português.

E aí, nesse aspecto, eu tinha uma certa inveja dele porque ele tinha a língua lá, mãe dele, né? E aí é o que é que acontece no último O Leste também, né?

RSRenata Silva

É isso, né? E é bem isso que você falou, dava uma certa inveja, né? E quando as pessoas me perguntavam, né, qual a língua do seu município, da sua aldeia, Né? Qual a língua do seu pai? E aí eu, português, português, né? E aí, e aquilo era muito diferente para eles, né? Pensar que eu só falava português, que meu, que a aldeia do meu pai não tinha uma língua, que a aldeia da minha mãe não tinha uma língua, né?

DDiego

E é outra realidade, né?

RSRenata Silva

É outra realidade. É outra realidade.

DDiego

Eu queria agora perguntar, porque tu deve ter ouvido muita, muita coisa diferente do português do Brasil, né, como também já relatou aí coisas mais próximas do português de Portugal. Mas qual foi, qual foram as palavras mais estranhas que ouviu lá no português do Timor que causou que, por exemplo, te causou confusão? Você já mencionou o telemóvel, mas será que tem alguma palavra que é mais mesclada assim, que nem é, nem é tanto português de Portugal, né, nem é tão perto do português brasileiro, é uma coisa mais local? Não sei, eu não, não, a forma de falar alguma palavra.

RSRenata Silva

Bem, eu vou trazer uma curiosidade que é algo bem interessante, que tem uma praia, né, é uma praia urbana, e lá tem um garçom e ele fez muitas amizades com os brasileiros, né, e ele fala um pouco de português. E teve um momento, e aí é uma coisa que também me chamou atenção, né, tipo Provavelmente lá eles iam falar naquela altura, né, que para mim também foi uma surpresa, né, naquela altura, né. Então em algum momento ele conviveu com professores brasileiros, né, que iam sempre lá tomar água de coco na praia Areia Branca.

Então a gente disse que depois que você toma a água de coco na Areia Branca você vai voltar, porque é uma coisa assim inesquecível, né? E eu não sei em que momento alguém ensinou para ele beleza, né? E ele aprendeu isso, né? E ele começar— e é o Dino, né? Então o Dino é um ícone, né? Eu falo, eu brinco que o Dino é um patrimônio da Praia Areia Branca, né? E aí ele chega e vê que você é brasileira, e ele pega e fala: beleza, tá beleza, né?

E ele fala de um jeito muito próximo do nosso brasileiro, né? E aí dessa vez eu falei para ele assim, Dinho, eu vou te ensinar uma outra coisa agora, tá de boa na lagoa? Aí ele me perguntou o que que era, o que que era lagoa. Eu expliquei para ele, né? E aí ele aprendeu isso, né? E aí quando chegava alguém que ele sabia que era brasileiro, ele falava, beleza, tá de boa na lagoa, né? Então São essas, essas curiosidades, né? Mas a coisa que me chamou atenção, e talvez pelo lugar do Brasil que eu sou, sou de Minas, né?

Hoje eu moro em Brasília, mas eu sou mineira. É a palavra ribeira, né? Às vezes as pessoas falavam que iam tomar banho na ribeira.

DDiego

Aqui em Portugal, pelo menos no Porto, É a margem do rio, assim, próximo ao rio.

RSRenata Silva

Lá é sentido também de tomar banho no rio, né? Era mais próximo de rio assim. Então eles falavam que ia tomar banho no rio, né? Então isso foi algo que me chamou atenção assim, né? Demorei um pouco para entender o que que era e tal. E a ribeira era algo sempre acionado, tanto para tomar banho, para fazer rituais, né? Então talvez a ribeira tenha sido algo que, como eu falei, né, talvez pelo lugar do Brasil que eu sou, né? Acho que é isso assim.

DDiego

E assim, o que é que que te chamou mais atenção na cultura deles assim? Já falando aspecto cultural, né, o que é que tu achaste? Porque tu mencionaste aí a questão religiosa, né? Qual foi a coisa mais diferente ou algo que te tocou nessa experiência lá no Timor?

RSRenata Silva

Olha, a hospitalidade, né? Da população é uma coisa que me tocou muito assim, né? E a forma como eles lidam, com o cuidado que tem com o outro, né? Então, uma coisa, por exemplo, curiosa, que as pessoas falam assim, por exemplo, fala o bom dia, boa tarde, boa noite, eles perguntam assim, Banri Way, né, pergunta para onde você tá indo, né. E aí, para nós, inicialmente parecia algo assim, nossa, mas que curiosidade, quer saber para onde eu tô indo, né.

Mas assim, é um cuidado, né, para saber para onde você tá indo, é um cuidado na recepção, né, em te oferecer o melhor, né. Então é tudo muito comunitário, né? Além de ser muito comunitário, é tudo muito bonito, né? Então, no sentido de que vai te oferecer um café, né? Aquele café vai vir numa bandeja forrada, né, que vai vir tampado, né? Isso tudo me chamou muita atenção, esses detalhes, né, da vida, da vida cotidiana e tudo mais, né?

Eu acho que é um povo muito cerimonioso também, né, no sentido de que quem vai comer primeiro, né. Então o estrangeiro, eles vão oferecer o melhor prato, eles vão oferecer a melhor cama, né, aquela pessoa que tá visitando, né. E essa questão de oferecer o mais bonito, de oferecer o melhor, né? E geralmente isso vem sempre com café, o cigarro, e o cigarro sempre, né? E também é o buamalus, que é uma folha, né, e uma noz, que é utilizado também para dar boas-vindas, né?

Então Então geralmente vem a bandeja com café, cigarro e um cestinho com buamalos, que é uma forma de te desejar boas-vindas, né? E aí você vai mascar aquilo ali junto com a família que tá te acolhendo, né? Então isso foi algo que me chamou muita atenção assim, essa acolhida, né?

DDiego

Isso aí tá me lembrando um pouco que a gente também já teve um episódio aqui que a gente falou com a menina da Indonésia. Ela falou de algumas questões da cultura da Indonésia, que é ali próximo, né? E que me parece um pouco parecido. Tem uma coisa lá que eu achei um pouco bizarro, porque era um, tinha um ritual na Indonésia no qual eles desenterravam pessoas mortas, ou é depois que a pessoa morreu eles ainda ficam a preparar?

Aí não, acho que se eu não me engano eles desenterravam e tinha tipo uma celebração que era com aquela pessoa morta ali, tá? Aí foi uma coisa meio bizarra que ela falou, que tinha um negócio de você fazer, preparar alguns alimentos para estar ali e tal. Mas que ela disse que é para uma região específica da Indonésia também, né, todo lugar. E uma coisa que ela falou que também me chamou atenção, que eu não sei se tu conseguiste ver alguma coisa do tipo lá no último, é que na Indonésia, por exemplo, tinha algumas músicas brasileiras que chegavam lá e eles cantavam com a bahastra indonésia.

Então eles pegavam a música, mesmo ritmo. Ela até citou umas músicas, acho que era do Zezé de Camargo e Luciano. Então aí eu fiquei, eu achei bizarro, porque eu jamais ia pensar que a música brasileira chegava tão longe assim, né? Conseguiu perceber alguma coisa assim lá?

RSRenata Silva

Eu lembrei aqui agora de uma coisa que era a música Secretária, sabe qual?

DDiego

Sei, sei, é do Amado Batista.

RSRenata Silva

Isso, essa música ela tá em todo lugar, todo lugar, e todo mundo canta a Secretária, né? E é muito, e aí foi interessante que aí os mais jovens, às vezes convivendo com alguns na universidade, aí eles queriam entender o que que era, né? O que que era a música secretária, né? E aí quando eu falei que a música podia estar relacionada a uma questão de assédio, né, isso foi muito interessante porque eles ficaram muito decepcionados, né, de saber que aquela música, né, que é uma coisa interessante, que no transporte coletivo tem sempre uma música muito alta, né, que é a Microlet, que é uma espécie de micro-ônibus, né, uma van, que é o transporte coletivo, né? E aí ela tem sempre uma música alta, né? Muitas músicas brasileiras, né?

DDiego

Então a secretária para mim é um ícone assim, mas tocando, tocando original, não era original.

RSRenata Silva

E eles cantam, né? E cantam a música. E também chega Zezé de Camargo Luciano, Roberto Carlos, né? Essas músicas chegam lá, algumas novelas também chegaram lá, né? Agora, agora a maioria realmente são as novelas indonésias, né? Mas a música na Microlét é algo bem curioso assim, né? E assim como os jogadores, né? Os jogadores. E aí esse, essa circulação, né, cultural, né. Às vezes as crianças me perguntavam se eu morava numa aldeia próxima do Neymar, por exemplo.

Eu falava que ainda bem que não, né. Se quiser cortar isso depois, e aí explicar por que que o Neymar não era uma boa referência, né. Essas questões assim de um país pequeno, né, tipo 1 milhão e poucos.

DDiego

Eles não têm a noção da grandiosidade do Brasil, né? Eu percebo isso aqui em Portugal muitas vezes. Amigos portugueses que viajam pouco, eles sabem que o Brasil é grande, mas não sabe o quão grande é. E aí eles tomam um susto quando eu digo assim, não, ó, eu moro na zona Eu morava na zona norte assim do Brasil, no Nordeste, assim na zona litoral. Quando eu fui visitar lá última vez, eu fui a Manaus, e um voo de Fortaleza para Manaus é 3 horas.

RSRenata Silva

Aí, 3 horas! Mas essa questão que você trouxe, né, do episódio com algumas práticas práticas culturais da Indonésia. Tem algumas, é um país, né, que tem muitas práticas culturais locais que combinam com o catolicismo, né. Eu acho que, eu acho que em proporção, se eu não tiver enganada, talvez seja o país mais católico do mundo, né. A ida do Papa foi um um fenômeno assim, né? Então, um país com 1 milhão e meio, né, de pessoas. A estimativa que tinha 700 mil pessoas na missa que o Papa celebrou na capital, né?

DDiego

Então é um país, era um país tão católico.

RSRenata Silva

É um dos países mais católicos do mundo, mas que combina, e que também agora tem uma presença evangélica grande também, mas mais, e de muitas, e de muitas denominações evangélicas também, né. E aí muitas chegam também com missionários brasileiros, né. Você tem muitos missionários brasileiros lá e que levam, por exemplo, Assembleia de Deus, que levam outras também, né. A Assembleia é uma das que tem uma visibilidade maior, principalmente em Ataúro, que é uma que é uma ilha que, diferente dos outros locais de Timor, lá você tem uma predominância, por exemplo, da Assembleia de Deus, enquanto nos outros você tem uma predominância católica muito grande, né.

Então, num país em que mais de 90% da população é católica, é um país que convive com práticas locais também, né. E essas práticas locais, elas vão desde, por exemplo, rituais que acontecem no nascimento, né, em que você tem, como eu falei para você, né, eu estudei as casas sagradas, né, que são casas cerimoniais, né, casas que vinculam e relacionam não só uma família nuclear, mas também uma família estendida, né. É o que gera pertencimento às pessoas, né.

Então elas vão dizer, por exemplo, eu estudei, eu estudei e vivi numa casa que se chama Mão Aço, né? Então isso as pessoas vão dizer, eu sou, eu sou de, por exemplo, do município Manufarre, moro na aldeia tal e a minha casa sagrada é a casa X, né? E essa casa sagrada ela vai mobilizar, né, relações. Então nasceu uma criança, aí aquela criança vai ser apresentada para casa sagrada. Aí você tem, por exemplo, as autoridades rituais que vão fazer determinados rituais para que aquela criança seja apresentada.

Depois a mesma coisa acontece no casamento, né? Você tem trocas matrimoniais, né? A família do noivo, que é de uma casa, e a família da noiva, que é de outra casa. Você tem bens que são trocados, né, animais que são trocados, você tem dinheiro que é trocado, né, você tem um gás.

DDiego

Casa sagrada é necessariamente a casa da pessoa?

RSRenata Silva

Não, a casa que ela nasceu, que é uma casa cerimonial, não necessariamente é a casa que as pessoas vivem, mas alguém vive lá. Em alguns casos sim, outros não. Em alguns casos a casa tem pessoas que moram, que pode ser a família, né? Em alguns casos você tem o guardião, né, que é uma pessoa que vive ali. Em outros casos você tem uma pessoa que cuida, né, que não necessariamente mora na casa, mas que vai, por exemplo, acender o fogo quando é necessário, a depender do lugar do país.

DDiego

Mas aí eu te pergunto, isso tem alguma relação institucional com a Igreja Católica? É uma coisa comunitária deles lá, é uma prática local. Ah, sim, né?

RSRenata Silva

Antecede a Igreja Católica, antecede a colonização portuguesa, né? É cultural, né? E deixa eu ver se eu tenho. Depois eu vou te mandar um link para você colocar no final para que das pessoas terem noção do que que são essas casas, né? Essas casas são, são muito bonitas do ponto de vista arquitetônico. Elas, elas têm padrões diferentes a depender do município, né? Elas têm regras diferentes, como eu falei. Tem município que você precisa ter alguém morando na casa porque aquilo que vai garantir a vitalidade da casa. Não, né? Mas é um lugar de reunião.

DDiego

Né?

RSRenata Silva

Então morreu uma pessoa, por exemplo, aí aquela casa vai promover uma série de rituais e as pessoas relacionadas àquela casa, que podem ser de casas diferentes, também vão estar presentes naquele momento. E aí é nesse momento, por exemplo, que você trouxe a questão da morte, né? A morte, ela existe um ritual, né? Então a pessoa morreu, ela vai ficar ali naquela casa, enfim, durante 1, 2 ou 3 dias, né? Ela vai receber as pessoas que vêm de outras casas, de outros municípios, para prestar deferência àquela pessoa, né?

Depois você tem rituais, depois que acontece o enterro, por exemplo, Aí você tem rituais que vai 15 dias, 1 mês, 45 dias, 3 meses e 1 ano. Depois desses rituais, aí acontece, aí você encerra o período do luto, né? Então as pessoas mais próximas, né, no caso pai, no caso filho, a esposa, fica 1 ano inteiro com algumas com alguns preceitos, né? Então, usando só preto, não podendo participar de festa, não podendo dançar durante um ano, mais próximos, né?

E aí, depois de um ano, você tem um ritual que se chama desluto, né, que é onde você vai finalizar aquele luto, né, vai findar aquele luto. E aí aquelas pessoas vão poder voltar a participar participar da vida social.

DDiego

Se eu não me engano, no episódio com a garota que é a Yesti, da Indonésia, né, eu posso até depois deixar na descrição aí do episódio para quem tiver curiosidade. Se eu não me engano, ela fala que nesse ritual lá que eles meio que desenterram a pessoa é depois de um ano e depois nunca mais, tá? Tem esse esse ritual que parece que é numa data festiva, não sei dizer muito bem, teria que ouvir o episódio novamente. E aí eles parece desenterram, aí tem todo um ritual e depois pronto, aí acabou. Aí é quando realmente se encerra o ciclo.

RSRenata Silva

Lá em Timor eu não escutei relatos de desenterrar, mas só que muitas das vezes esse ritual acontece, ou depender do pode ser tanto no cemitério quanto na casa sagrada, né? Então você tem ali, é como se fosse, as pessoas vão tirar aquela roupa preta, vão rasgar, vão queimar, né? E aí tá autorizado a participar das festividades e tudo mais, né? Então, mas são processos que vão durar a vida toda. Depois, quando aquela casa sagrada tiver cerimônias, né, aquela pessoa vai ser lembrada, né.

No Dia dos Mortos, no dia 2 de novembro, acontece cerimônias também que esses mortos são lembrados, se oferece comida, né. Então se oferece comida nas casas sagradas para alimentar esses mortos, né. E é alimentar a memória desses mortos. Alimentar as relações das pessoas que são mobilizadas em função daquelas, da memória daqueles mortos, né? Então a casa sagrada, ela alimenta, ela permite que as relações sejam alimentadas, né?

Ela permite que a vida continue, né, e que as relações sejam renovadas, construídas e reconstruídas.

DDiego

É interessante que para mim me parece que nós como sociedade moderna estamos nos afastando disso. E a gente tá cada vez mais ligado às máquinas e tá perdendo a sensibilidade humana e as relações humanas. Eu acho que nesse aspecto até parece que eles estão mais evoluídos do que nós, a sociedade ocidental. Mas é, vamos, antes de concluir, porque a gente já tá um bom tempo aqui conversando, eu queria te pedir É porque a gente aqui no Diversilingua, nós temos um momento cultural com os nossos entrevistados, que é o momento no qual a gente pede uma dica, né?

Então geralmente a gente pede um livro, né, uma dica de livro, mas pode ser também um filme ou sei lá, uma produção cultural. Qual é a dica que a Renata pode deixar para os nossos ouvintes?

RSRenata Silva

Bem, eu vou deixar aqui É, na poesia eu vou deixar o poeta timorense Abé Barreto, né, que tem uma produção muito bonita, né, que traz diferentes perspectivas de Timor, né. Ele no período da invasão indonésia ele tava fora do país, né, e E ele viveu muito tempo no Canadá. E durante todo o período da— durante boa parte do período da invasão à Indonésia, ele fala que teve várias frentes, né, em Timor, e que a frente dele de resistência foi primeiro das palavras, né.

Então ele fez poesia, né, e a poesia dele é de uma sensibilidade que une o moderno, une a força da montanha, né, une a memória da resistência, né. Então, e traz a beleza das casas sagradas como esse ícone, né, que permitiu que Timor resistisse durante 24 anos, né. Na literatura, eu acho que você tá em Portugal, provavelmente você deve ter escutado falar do Luís Cardoso, né. Que também tá fora de Timor há muitos anos, vive em Portugal há muitos anos, né?

E Luís Cardoso é a literatura que eu acho que permite Timor ser acessado, né, inclusive fora do Timor-Leste, porque ele escreve em português, né? Então, e é interessante que eu já encontrei livros do do Luiz Cardoso em bibliotecas aqui do Brasil, em bibliotecas de escolas aqui do Distrito Federal, né. Então eu acho que isso é uma coisa que faz com que as pessoas conheçam Timor, né. Então aí tem a Crônica de uma Travessia ou Plantador de Abóboras, né, que é, que são obras, né, de Timor, do escritor timorense, né.

E aí o cantor e ativista ambiental é Glenn, que também que tem a sua produção em teto, né, e que fala sobre a terra, que fala, enfim, sobre essa tradição, né, timorense do cuidado com agricultura e tudo mais, né. Eu acho que são 3 referências aí que podem permitir com quem tá escutando conhecer o Timor a partir de uma produção intelectual, acadêmica e musical timorense, né?

DDiego

Muito bem. E antes de terminar, eu gostaria de perguntar para ti se tu aprendeu alguma coisa do teto. E aí, conseguiu aprender alguma coisa, falar com eles em teto?

RSRenata Silva

Eu aprendi algumas coisas de sobrevivência, né? Então assim, Perguntar então jacalai, né? O jacalai é como é que você tá, né? Perguntar o banebê, para onde você tá indo, né? Perguntar o preço das coisas. Aprendi a falar, por exemplo, peixe, que eu peixe era uma das coisas que eu mais gosto de comer em Timor. Então, ícam, né? E na hora do aperto saía, saía coisas muito, saía coisas erradas inclusive, mas que era utilizado como brincadeira, né?

Porque como eu falei, né, eu viajei bastante, né? Então uma das coisas que eu aprendi era, eles falavam para mim, Labelle, Labelle, não pode, não pode. E aí perguntava por quê, né? Então passar. Aí eles falavam, Luli, que às vezes para que eu não criasse caso, eles falavam para mim que era sagrado, que tava interditado, que não queria saber e tal, né? Então o obrigado, barak, né, que é um muito obrigada, né? Então aprendi algumas palavras, né?

Mas como eu falei, Eu acho que o teto para mim foi uma língua de afeto, né, que me fez, por exemplo, como eu falei, né, da minha dificuldade com língua estrangeira, tá na Indonésia indo para estar em Bali, por exemplo, indo para Timor. E aí eu escuto, né, escuto alguém falando jakalai, e aí rapidamente eu já me aproximo ali daquela pessoa porque eu sei que é um timorense e a possibilidade de ser acolhida é bem grande.

DDiego

De acalai é sagrado? Bem, tá tudo bem, tudo bem.

RSRenata Silva

Como vai? Tá tudo bem, né? E na minha última ida para Timor aconteceu isso, eu tava, tava muito afobada para embarcar em em Bali. Eu tinha tido problema com a bagagem e tal. E aí eu escutei uma pessoa falando em teto, e aí eu me aproximei dele e falei que eu tava indo para Timor. E aí, e aí comecei a conversar com ele e me acalmou assim, né? Na volta também eu voltei com um rapaz que tava indo tentar a vida em Portugal Né? E aí eu fui com ele até Bali.

E então, para mim, embora não seja uma falante, né, é uma fluente em teto, o teto é uma linha, é uma língua para mim de afeto, né? Então ele me, as poucas palavras que eu sei, as poucas frases que eu sei, me permitiram acessar espaços e lugares de afeto É uma coisa para fechar, é como é que é a viagem Brasil para lá?

DDiego

E aí então aproveito para contar assim, se eu tô ouvindo esse episódio agora, eu agora fiquei curioso, quero conhecer esse lugar exótico no mundo que é o Timor-Leste, o que é que tu recomendaria para pessoa vir? Então me diz como é que é a viagem do Brasil até lá e qual é o local que que você recomendaria de visitar?

RSRenata Silva

É, então, saindo de Brasília, Brasília-São Paulo, São Paulo-Doha, Doha-Bali ou Jacarta, depende, né? E aí depois Timor-Leste, né? Então aí tem outras possibilidades, né? Mas para quem tá saindo do Brasil, esse é um trajeto mais barato. Você pode ir pela Austrália também, né? E a depender, vai, alguns colegas já foram via Portugal também, mas geralmente é isso, né? Você passa por, necessariamente você vai passar pela Indonésia e de lá vai seguir, né?

O que que eu recomendo, né? Timor-Leste tem belezas naturais que são únicas, né? E são inesquecíveis assim, né? Então você tem, por exemplo, a Praia Areia Branca, que é em Dili, na capital. Você tem o Monte Ramelau, que eu não subi ainda. Porque no período que eu fui eu não tinha a roupa adequada, porque é muito frio, né, e é bem perigoso. Você tem Malbice, que é onde você sente frio em Timor, porque Timor é um país muito quente, né, mas Malbice é de clima ameno.

Você tem casas sagradas muito bonitas, com paisagens muito bonitas. Tem Ataúro, né, que é conhecida pela biodiversidade, né. Você tem um mergulho que é inesquecível em Ataúro. E eu vou dizer que o que mais me chamou atenção, inevitavelmente, sem sombra de dúvida, são as casas sagradas, né. As casas sagradas é algo que eu conheci, as casas sagradas, por um livro, né, que são as Casas Sagradas de Ainaru. Foi assim que eu tive acesso às casas sagradas, e foi por ela, e foi por isso, e por isso que eu resolvi estudar as casas sagradas, né?

É uma beleza inexplicável, né? Mas você precisa andar de microlete, escutar música alta, sentir a fumaça do cigarro dentro da microlete, porque isso também é algo que depois marca. Visitar os mercados, principalmente o mercado de Taibesi, que é onde você encontra verdura fresca, roupa de segunda mão, que é os brechós, né, que lá eles têm outro nome, é um brau. E mais que, e o mais importante, né, é comer uma catupa, que é uma comida, é uma comida local, né, que é um arroz que eles colocam, eles fazem um Tipo um copinho de folha, e aí coloca o arroz.

Lembra, lembra pamonha, né, mas trançado. E aí cozinha na água de coco e come com peixe fresco. É uma coisa assim. Então a dica é essa: coma catupa, peixe fresco, visite os mercados e converse com as pessoas, que esse é o patrimônio mais rico de Timor-Leste que são as pessoas.

DDiego

Olha, muito, muito obrigado, Renato, por ter aceitado o nosso convite, né? E demorou, mas saiu esse episódio. E assim, você gostaria de deixar alguma palavra final, sei lá, é partilhar o seu trabalho, deixar algum contato aí? Aproveita, esse é o seu tempo.

RSRenata Silva

Então eu vou, o meu Instagram é @rerenog, né? Eu vou depois te mandar o meu livro, que é a tese que foi publicada. Eu tô aqui olhando, mas não tô achando ela aqui.

DDiego

Eu coloco escrito aí no vídeo, tá bom?

RSRenata Silva

Vou colocar depois, vou te mandar depois, né? E agradecer, eu acho que eu preciso muito agradecer a professora Kelly Silva, que foi minha orientadora e que me levou para Timor-Leste em todos os sentidos, né, que me apresentou Timor-Leste, que me orientou durante o mestrado, doutorado, e agora tô indo para um pós-doc também. Então, é, e que ela que começou essa pesquisa pesquisa, né, sobre o Timor-Leste. Sobre Timor-Leste, tem uma coisa que é muito importante em Timor, que é a precedência, né, que é reconhecer aqueles que vieram antes, né.

Então é preciso reconhecer esse trabalho da professora Kelly, que começou em 2002, né, desenvolver pesquisa sobre Timor-Leste e em Timor-Leste. Professor Daniel também, Simeão, Que são aqueles que me antecederam nessa, nessa pesquisa etnográfica, né, e que me apresentaram a possibilidade de conhecer esse país e desenvolver pesquisas em Timor e com os timorenses, né. E é isso. Depois a gente pode falar sobre o TICE, que é a pesquisa agora sobre Timor, porque não deu tempo, né.

DDiego

É isso, muito obrigado, Renata. Você que tá nos ouvindo, nos assistindo, sabe que você também pode sugerir. Este episódio foi uma sugestão de um de nossos ouvintes, que ele ouviu sobre o português do Uruguai e disse, ah, por que que não falam do português norte-moleste? Pronto, tá gravado, tá aqui. Então você também pode sugerir, pode deixar aí um comentário que a gente vai a gente lê os comentários, ou enviar um email para diversilingua@gmail.com.

E não esqueça de que vai ficar uns vídeos aí no final desse episódio. Você também pode estar assistindo outros episódios. E não deixe de papocar o dedo no like, eu vou falar assim, que é na linguagem cearense. E até a próxima aventura do Diverse Língua. Um abraço, tchau!