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Os invisíveis | MASTER FRAUDE | Episódio 003

02 de abril de 202615min
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Um banco que saiu de R$ 200 milhões para R$ 63 bilhões em 5 anos.

CDBs vendidos como investimentos seguros.

Plataformas gigantes distribuindo o produto. Um regulador que sabia há anos e um ministro do Supremo que, segundo a Polícia Federal, tinha negócios com o dono do banco investigado.

Esse é o caso Banco Master - um dos maiores escândalos financeiros recentes do Brasil.

Neste episódio, explicamos como funcionava de fato a fraude realizada por Vorcaro, e como ela se conecta diretamente com as fraudes do INSS.

Um rápido resumo de como o ex-banqueiro conectou mercado financeiro, órgãos públicos e players de Brasília para ganhar em cima de inocentes.

Nessa série especial do the news, você irá entender o caso com mais profundidade.

Participantes neste episódio1
A

Alan Blanco

HostJornalista
Assuntos1
  • Banco Masterfraude financeira · precatórios · CDBs · Fundo Garantidor de Créditos · investimentos de aposentados · histórico de violência política · crédito consignado · regulamentação do Banco Central
Transcrição38 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Uma pergunta, você já recebeu um cheque pré-datado? Se recebeu, você sabe como funciona, alguém te deve dinheiro, te dá um cheque, mas com data pra daqui a uns, sei lá, 3 meses. Você não tem o dinheiro agora, tem uma promessa. Uma promessa de alguém que pode ou não ter saldo quando o cheque vencer. Agora imagina que você vai ao banco com esse cheque e diz... Olha, eu quero usar isso como garantia pra oferecer um investimento.

O banco aceita, emite um produto financeiro com base nessa promessa e vende esse produto para uma professora aposentada como se fosse tão seguro quanto a poupança. Com rendimento melhor que o mercado, inclusive. Garantido pelo governo. Só que essa professora não sabe que a garantia dela é um cheque pré-datado, furada de uma empresa que faliu, sei lá, nos anos 80. Isso, em essência, é o que o Banco Master fez.

Só que não eram cheques, o cheque é uma analogia, caso você não tenha entendido. E não era uma professora, eram milhares de pessoas. Hoje a gente vai entender como que esse mecanismo funcionou, passo a passo. Porque eu confesso que não tinha entendido direito como que esse esquema funcionava. Então eu pesquisei e coloquei aqui de uma forma mais simples, sem jargão. Porque entender o truque é a única forma de entender por que esse caso é tão grave.

Olha, o cheque predatado do Master tem um nome técnico. Precatório. Deixa eu te explicar o que é um precatório. Nos anos 80 e 90, o governo federal controlava o preço do açúcar no Brasil.

Tinha um órgão chamado Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA, que decidia quando cada usina recebia pelo produto. E segundo muitas usinas, o governo pagava menos do que devia. Aí vieram os processos judiciais. Dezenas deles, inclusive. Usinas do Rio de Janeiro, de Pernambuco e de São Paulo, eles entraram na justiça contra a União pedindo compensação pelos prejuízos.

Alguns ganharam. E quando você ganha uma ação contra o governo, o juiz emite uma ordem de pagamento. Essa ordem tem um nome técnico, precatório. Então, um precatório, imagina ele exatamente como um cheque predatado do governo. O governo reconhece que deve, por decisão judicial definitiva, não dá pra contestar. Não é que o governo é bonzinho, mas ele vai pagar na sua vez conforme o orçamento público permite. Pode demorar dois anos, pode demorar dez anos.

Pode demorar inclusive mais, e como a gente viu em 2021 com a PEC dos precatórios, o governo pode simplesmente decidir adiar. E durante essa espera as usinas precisavam de dinheiro, então faziam o que qualquer um faz com um cheque predatado de valor incerto. Vendiam com desconto. Quase que um, olha, me dá 50 hoje que eu te cedo o direito de receber 100 do governo quando eles quiserem pagar. É quando eles puderem pagar.

Esse mercado existe há décadas, escritórios de advocacia compram precatórios, fundos especializados compram precatórios. É um negócio de risco, tá? Mas legítimo, feito porque entende o risco que tá assumindo. Porcaro também comprou precatórios, só que ele fez algo diferente com eles. Lembra do cheque predatado, aquela analogia incrível que eu fiz no começo? Muito obrigado, eu sei. Aqui começa o truque.

O Banco Master comprava precatórios com deságio. Pagava 50 por algo que valia 100 no papel, porque o risco de receber era alto. Então registrava esse precatório no seu balanço pelo valor de face. Não por 50, mas ele colocava 100. Por quê?

Porque as regras contábeis da época permitiam isso. O banco podia dizer, olha, a gente tem esse crédito, o governo vai pagar, tá? Então vamos registrar o valor cheio. O cheque pré-datado entrava no balanço como se já tivesse sido depositado. Tá, mas o truque real vem agora, tá? Com esse ativo de R$100 no balanço, mesmo que tenha custado R$50, o banco tinha base patrimonial para emitir CDBs, o Certificado de Depósito Bancário, aqueles investimentos de renda fixa.

Aquele produto que o seu gerente ou seu aplicativo de investimento provavelmente já te ofereceu 50 vezes por dia. E os CDBs do Master tinham dois atrativos irresistíveis. Primeiro, pagavam mais do que os concorrentes. Enquanto o Itaú, por exemplo, pagava 100% do CDI, o Master pagava 108, 120, às vezes mais, tá? Tem registro de 140%.

Segundo, eram garantidos pelo FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, o seguro bancário que cobra ali até 250 mil reais por CPF em caso de quebra. Pensa só no que isso significa do ponto de vista do investidor comum.

Você entra num app bonitinho ali, vê uma oferta com rendimento acima do mercado e lê garantido pelo FGC. Vamos ser sinceros aqui, qual seria a sua reação? Qual é o risco aparente? Nenhum. É a mesma garantia de qualquer banco. E rende mais ainda. Então, parece um bom negócio. O que o investidor não sabia, o que não estava escrito em um lugar nenhum visível, é que por trás daquele CDB havia cheques predatados de usinas de açúcar falidas dos anos 80.

com data de pagamento indefinida, que o banco tinha comprado com desconto e registrado como se valesse o valor cheio. E as plataformas que vendiam esses CDBs, algumas bem famosas e grandes como eu citei no primeiro episódio, recebiam comissões de até 5% por cada venda. Então, quanto maior a taxa oferecida ao investidor, mais fácil de vender e mais comissão. Olha, ninguém estava mentindo exatamente, mas ninguém estava contando a história completa também.

Tem um detalhe nessa história que vai além da fraude financeira, inclusive, que diz muito sobre a natureza do que o Mácer estava fazendo. Uma das usinas cujos precatórios Vorcaro comprou se chama Cambarriba, fica em Campos dos Guayatacazes, no interior do Rio de Janeiro. Inclusive foi uma das maiores propriedades agroindustriais do estado, são sete fazendas, 3.500 hectares.

A Cambarriba também é conhecida por outra coisa. Durante a ditadura militar, lá nos anos 70, os fornos da usina foram usados para incinerar os corpos de pelo menos 12 opositores do regime. Presos políticos trazidos da Casa da Morte, lá em Petrópolis. O ex-delegado, DOPS Cláudio Guerra, foi condenado em 2023 a 7 anos de prisão por ocultação de cadáver lá no local. A usina está completamente desativada desde 1996.

virou assentamento do MST. E os precatórios dela, a dívida que o governo reconhece ter como os donos originais, viraram ativos no balanço do Banco Master. Segundo o Poder 360, Vorcaro comprou esses precatórios em março de 2021 por R$ 78,5 milhões. Ainda no mesmo mês, transferiu os ativos como dação em pagamento, que é uma forma de quitar dívidas sem usar dinheiro, para o próprio pai, Henrique Moura Vorcaro.

Olha, não é crime comprar precatório da Cambarriba, tá? Mas é uma janela pra entender a natureza do que tava sendo comprado. Dívidas antigas, complexas, de empresas falidas, com histórico de violência política, inclusive, transformadas em produto financeiro vendido como seguro pra aposentados via aplicativo de celular. E eu digo aposentados porque é uma coisa que a gente vai falar logo menos nesse episódio.

Mas bom, a história dos precatórios ainda tem uma segunda camada, porque comprar precatórios com desconto ou registrar pelo valor cheio já era arriscado, mas a Polícia Federal encontrou indícios de algo mais grave ainda. O Master estava comprando os próprios precatórios de fundos que ele mesmo controlava, e pagando preços artificialmente inflados. Olha só esse exemplo.

Em 2020, o Master pagou 320 milhões de reais por precatórios que um fundo chamado Amazonita havia comprado cinco dias antes por 136,5 milhões de reais. Os mesmos ativos, cinco dias depois, o dobro do preço. Por que um banco compraria seu próprio ativo com sobrepreço?

porque o que importava não era o ativo em si, era o número no balanço. Então, quanto maior o valor registrado, mais CDB o banco podia emitir. Então, mais dinheiro entrava e mais CDB podia emitir de novo, e assim por diante. A PF também investigou uma carteira de crédito de 6 bilhões de reais, supostamente comprada de uma empresa chamada Tirreno, que existia apenas no papel.

Então quando os investigadores checaram 30 CPFs dos supostos devedores dessa carteira, olha só, não encontraram correspondência real em nenhum deles. 30 de 30. Carteira fantasma. E essa carteira inclusive foi depois vendida ao BRB por 12 bilhões de reais, o dobro do valor original, depois de uma manipulação na taxa de juros usada para calcular o preço.

não era só um banco com ativos arriscados, era, segundo as investigações, um banco que fabricava ativos para poder captar mais.

E bom, esse modelo funciona enquanto o dinheiro continua entrando. Enquanto novos investidores compram novos CDBs, o banco tem caixa para pagar os CDBs que vencem. É uma lógica de crescimento contínuo. Então quando o crescimento para, a estrutura entra em colapso.

Em novembro de 2024, quando as suspeitas sobre o banco começaram a vazar para a imprensa, o fluxo de novos investimentos secou.

E o Master passou a fazer algo que os investigadores escrevem como estrutura de pirâmide. Emitir novos CDBs para pagar CDBs que venciam. Dinheiro novo cobrindo o buraco velho. O banco chegou a um ponto em que não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais. Aí o Banco Central liquidou o Master. Da noite para o dia.

E a conta, claro, caiu para o FGC, justamente o fundo que os investidores pensavam que os protegia. O rombo foi de R$ 50,8 bilhões, somando o Master, o Eubank e o Banco Pleno. Mais de um terço do patrimônio total do fundo, que era estimado de R$ 122 bilhões.

O FGC é mantido por contribuições dos próprios bancos. Ou seja, os grandes bancos como Itaú, Bradesco, Caixa, são os que mais contribuem. E agora são eles que estão pagando a conta de uma estratégia que consideravam irresponsável desde o começo.

Olha, o título desse episódio é para ser Os Invisíveis. Não sei se ainda vai ser, eu não sei em qual título você apertou aí. Esse é um problema do The News do futuro. Mas eu preciso explicar quem são esses invisíveis. A maioria das pessoas que apareceram nesse caso, os investidores que compraram CDB, as plataformas que distribuíram os fundos que compraram precatórios, são atores conscientes do sistema financeiro. Eles podem ter sido enganados, e foram. Eles podem não ter lido as letras miúdas.

Provavelmente não leram, mas estavam jogando um jogo que escolheram jogar. Os invisíveis são diferentes.

o Master tinha uma operação de crédito consignado, que são empréstimos descontados diretamente do salário ou do benefício. E parte significativa dessa operação era com aposentados e pensionistas do INSS, pessoas que, em muitos casos, nem sabiam que tinham relação com o banco. Segundo dados da investigação, o Master deixou de apresentar ao INSS cerca de 252 mil contratos de crédito consignado o b motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive motive

entre 2021 e 2025, 74% do total firmado no período. Esses créditos foram usados para compor carteiras de 6,7 bilhões de reais que não puderam ser comprovadas pelas autoridades. Ok, um pouco confuso, traduzindo aqui. Havia aposentados com descontos no benefício por empréstimos que o banco não conseguia provar que existiam do jeito que foram registrados.

O desconto era real, saía dinheiro deles, mas o contrato registrado não batia. E tem mais, tá? O Rio Previdência, o fundo de pensão do estado do Rio de Janeiro, com 240 mil aposentados, tinha 970 milhões de reais investidos em letras do Master. Letras financeiras que não tem cobertura do FGC. Dinheiro de aposentados do serviço público estavam expostos sem proteção nenhuma.

Essas pessoas não escolheram investir no Master, não baixaram nenhum aplicativo, não leram nenhuma oferta. O dinheiro delas estava lá por decisões de gestores de fundos, por convênios firmados entre o banco e o NSS, por uma cadeia de intermediários que ficaram invisíveis. E quando o banco quebrou, elas acordaram sem saber o que tinha acontecido com o dinheiro. Enfim, o que foi o caso Master, então, tecnicamente falando?

Foi um banco que comprou ativos de alto risco, precatórios de usinas falidas, créditos de liquidez incerta, pagando valores artificialmente inflados. Registrou esses ativos no balanço como se fossem seguros. Usou esse balanço para emitir CDBs com o selo de garantia do FGC. Distribuiu esses CDBs por plataformas digitais para milhões de brasileiros. E usou o dinheiro que entrava para pagar o dinheiro que vencia. Até que não conseguiu mais.

Cada parte dessa cadeia tinha um incentivo para não fazer perguntas. As usinas queriam vender os precatórios, os fundos queriam lucrar na intermediação. As plataformas queriam a comissão delas. E os investidores queriam rendimento. E o banco queria crescer. O sistema de segurança, o Banco Central, o FGC, tinha brechas. E o Master operou dentro dessas brechas até quando pôde. O que muda a partir de agora?

Olha, o Banco Central anunciou revisão das regras do FGC. O TCU abriu auditoria. O Congresso retomou o debate sobre um projeto de lei que dá mais instrumentos ao Banco Central para lidar com crises bancárias. São movimentos reais, mas lentos e que chegam depois do estrago.

No próximo episódio, a gente volta pra Brasília, porque o mecanismo técnico que você acabou de entender foi possível porque havia uma rede de proteção política funcionando em paralelo. E parte dessa rede ainda tá de pé. Eu sou o Alan Blanco e você encontra mais conteúdos e os bastidores dessa série do The News lá no meu Instagram, arroba oprimoalan, um L só. O episódio foi editado por Lohan Queiroz e esse é o podcast especial do The News sobre o caso master. A gente se encontra no próximo episódio.

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