O mapa do poder | MASTER FRAUDE | Episódio 002
Um banco que saiu de R$ 200 milhões para R$ 63 bilhões em 5 anos.
CDBs vendidos como investimentos seguros.
Plataformas gigantes distribuindo o produto. Um regulador que sabia há anos e um ministro do Supremo que, segundo a Polícia Federal, tinha negócios com o dono do banco investigado.
Esse é o caso Banco Master - um dos maiores escândalos financeiros recentes do Brasil.
Neste episódio, trazemos as descobertas que saíram com base no histórico de convesar do celular de Vorcaro, que virou um fio condutor até grandes nomes da Brasília.
Senadores, deputados, ministros do STF, ministros, presidentes da República.
Um rápido resumo de como ele construiu uma rede por completo nos três poderes, independente de quem era posição ou oposição.
Nessa série especial do the news, você irá entender o caso com mais profundidade.
- Banco MasterFraude financeira · Mensagens de Vorcaro · Rede de contatos · Ciro Nogueira · João Barradas · Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes · Delação premiada
No episódio anterior, a gente contou a história do Banco Master por dentro. A fraude financeira, os precatórios, o Banco Central que sabia, o ministro do STF que travou a investigação. Mas, enquanto a gente editava aquele episódio, a Polícia Federal abriu o celular e divorcaram. Os celulares foram apreendidos nas duas primeiras fases da Operação Compliance Zero.
Com um software israelense, a PF conseguiu recuperar mensagens que ele tinha deletado. O que estava lá dentro mudou o tamanho desse caso. Porque não era só uma fraude financeira, era uma rede. Uma teia de contatos que alcançava o Senado, a Câmara, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. Então hoje a gente abre esse celular juntos. Nome por nome, mensagem por mensagem.
Antes de começar, um aviso importante. A própria Polícia Federal deixou claro que menção nas mensagens não significa, por si só, irregularidade das autoridades citadas. Algumas negam os encontros, outras não comentaram. Mas se a gente vai apresentar o que está nos documentos e o que cada um disse, aí você tira suas próprias conclusões. A PF apreendeu o celular de Vorkar em novembro de 2025.
quando ele ainda foi preso tentando embarcar para Malta. O problema. Boa parte das mensagens tinha sido deletada. Então, a Beth usou um software forense israelense para recuperar o que havia sido apagado. O material foi enviado à CPMI do INSS, a comissão parlamentar que investiga fraudes no sistema da Previdência.
E bom, partes dele vazaram para a imprensa em março de 2026. O que estava lá? Mensagens trocadas principalmente com a então namorada de Vorcaro, Marta Graef. Ele usava as conversas como um diário informal, contava onde estava, com quem se reunia, como tinha ido cada encontro. Tem também mensagens de cunho...
pessoal, eu diria, bem pessoal, que viralizaram bastante nas redes sociais. A gente leu, você leu. Eu ficaria muito desconfortável em ler aquilo em voz alta. Então peço licença aqui pra pular essa parte.
O que importa pra esse episódio são mensagens sobre poder. E essas são reveladoras. Antes, vamos fazer uma coisa rapidinho. Quais foram as últimas pessoas com quem você trocou mensagem no WhatsApp? Aqui pra gente é mais ou menos assim. Dentista, família, grupo de amigos mandando bobeira e galera do trabalho. E tem também minha tia mandando aqueles bons dias clássicos. Bom dia, avô!
A gente fez isso aqui pra reforçar o impacto na diferença dos destinos das mensagens que um banqueiro tinha no WhatsApp. E porque eu tava precisando dar uma olhada rapidinho aqui no meu celular também. A agenda de Vorcaro tinha 84 contatos.
Entre eles, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Viviane Barsi de Moraes, esposa de Moraes, Cássio Nunes Marques, Ricardo Lewandowski, o presidente e diretores do Banco Central, o presidente da Câmara dos Deputados, o presidente do Senado Federal. Ter o número de alguém no seu lar não é crime.
Mas a diferença entre a minha lista de contatos e a do Vorcaro não é só de nobres, é de mundos. E o que as mensagens mostram vai muito além de uma lista de contatos. Vamos começar pelo congresso, porque é onde as mensagens são mais concretas.
Em maio de 2024, Vorcaro manda uma mensagem para a namorada. Ela pergunta sobre um senador e ele responde, abre aspas, Ciro Nogueira é um senador, muito amigo meu, quero te apresentar, um dos meus grandes amigos de vida, fecha aspas. Ciro Nogueira é presidente do Progressistas, um dos maiores partidos do Centrão. Treze meses depois, em agosto de 2024, De novo.
Nogueira apresenta uma emenda ao Congresso propondo aumentar o limite do FGC, é o seguro bancário, isso de 250 mil reais, para 1 milhão de reais por CPF. A emenda foi criada às 5h57 da tarde, modificada pela última vez às 6h09 da tarde. E às 7h44 do mesmo dia, Gorkaro já tinha mandado mensagem para a namorada. A mensagem dizia, abre aspas, Sirus outou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro.
Aqui tem um erro, mas é dele. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Inclusive, Está Todo Mundo Louco é um belo filme de comédia. Não acho que ele se referia a ele, mas continuando. 5h57 da tarde, 7h44 da tarde. É 1h47 de diferença. É o tempo que ele voa entre a emenda existir e o dono do banco que ele beneficiaria saber da notícia.
Inclusive é o tempo necessário para ele já estar comemorando com a namorada. Para quem não lembra, o FGC era o argumento central de venda do Master. Garantindo pelo FGC, quanto maior o limite, mais dinheiro o banco poderia captar com essa garantia. A emenda, se aprovada, seria diretamente favorável ao Master. Inclusive ela ficou conhecida como a Emenda Master, não foi aprovada.
Ciro Nogueira disse que conhece Vorcaro como conhece centenas de empresários, que mantém diálogo com muitas pessoas, e que existem mais de 11 mil pessoas chamadas Ciro no Brasil, incluindo um dos advogados de defesa do próprio Vorcaro. Mas, olha, além da emenda, a APF também encontrou mensagens com ordens de pagamento dadas por Vorcaro a alguém identificado apenas como Ciro. O senador nega que a referência seja ele. Deixemos desta política. Deixemos desta política.
Em fevereiro de 2025, Vorcaro manda mensagem para a namorada. Ele escreve que está num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários. Hugo, sendo fontes ligadas à investigação, é Hugo Mota, eleito presidente da Câmara dos Deputados em fevereiro de 2025. No mesmo mês em que Mota assumiu a presidência da Câmara, Vorcaro estava jantando na residência oficial com ele e também um grupo de empresários.
E não era o único encontro, tá? As imagens registram pelo menos mais uma reunião, dessa vez na residência oficial do Senado, que Vorcaro descreve como tendo durado até a meia-noite. E como nossas mães já diziam, nada de bom acontece depois das 11. Tem uma terceira mensagem que junta tudo isso. Em março de 2024, à meia-noite, Vorcaro escreve para a namorada, abre aspas, acabou chegando Hugo e Ciro aqui para falarem com Alexandre, fecha aspas.
Hugo Mota, Ciro Nogueira e um Alexandre, cujo sobrenome não aparece na mensagem, mas o contexto da investigação sugere que seja Alexandre de Moraes.
Hugo Mota foi procurado múltiplas vezes, não se pronunciou sobre nenhuma das mensagens. Vale registrar que Mota tem mantido indefinição sobre a abertura de uma CPI do Master no Congresso. Uma das pessoas apontadas como obstáculo para a instalação da CPI é o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, que inclusive foi citado nos mesmos e-mails de aviação que envolvem Ciro Nogueira. Rueda também não respondeu as reportagens.
Em 4 de dezembro de 2024, Vorcaro foi ao Palácio do Planalto. Esse encontro já era conhecido. O próprio presidente Lula confirmou publicamente em entrevista ao portal UOL que recebeu Vorcaro a pedido do banqueiro, articulado por Guido Mantega.
O que não era conhecido era o que Vorcar escreveu para a namorada logo depois. Abre aspas. Ótimo, muito forte. Fecha aspas. Segundo as mensagens, estavam na reunião Lula, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, Gabriel Galípolo, que há meses depois assumiria a presidência do Banco Central, e Guido Mantega. O que chamou a atenção é que a reunião não constava na agenda oficial da presidência da República. O que foi discutido?
Segundo o próprio Lula, Vorcaro reclamou de perseguição, disse que havia pessoas interessadas em derrubá-lo. Lula contou que orientou o banqueiro a resolver a questão com o Banco Central. Mas, gente, o contexto é importante. Essa reunião aconteceu um mês depois de Vorcaro assinar um termo de compromisso com o Banco Central, prometendo regularizar o banco em 180 dias. Isso foi cinco meses antes do banco ser liquidado e ele ser preso.
Agora a gente chega na parte mais complexa e mais grave desse episódio. Inclusive, vamos reconstituir aqui o dia 17 de novembro de 2025 em tempo real, porque os horários, olha, importam. São 7 e 19 da manhã. Vorcaro acorda e manda a primeira mensagem do dia para o contato identificado pela Polícia Federal com Alexandre de Moraes.
Ele diz que a situação está começando a vazar para a imprensa. Que seria péssimo nas palavras dele, mas que poderia ser um gancho para entrar no circuito do processo. Agora são 9 da manhã. A operação Compliance Zero está em andamento. Mandados sendo cumpridos, o cerco se fechando. São 5h22 da tarde. Vorcaro manda uma mensagem.
Abre aspas. Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fecha aspas. São 5h26 da tarde. O inquérito sigiloso está em andamento há horas. Vorcaro manda outra mensagem. Abre aspas. Alguma novidade? Conseguiu ter notícias ou bloquear? Fecha aspas. O outro lado responde. Também por mensagem de visualização única. Aquelas que somem depois de lidas. Agora são 8h48 da noite. Última mensagem de Vorcaro nessa conversa.
São 10 da noite. Borcaro é preso no aeroporto de Guarulhos tentando embarcar para Malta. 13 horas. Do primeiro tá vazando até a prisão.
com mensagens para um contato salvo como Alexandre de Moraes permeando o dia inteiro. E agora a gente veio para uma parte que, pelo amor de Deus, não é um tutorial, tá? As mensagens foram enviadas de uma forma incomum, vamos entender. Borcaro anotava o texto no bloco de notas do celular. Ele tirava um print e mandava a imagem via WhatsApp, um método que dificulta o rastreamento automático.
Lembrando que esse não é um tutorial. Borcaro também parecia saber com antecedência de movimentações contra ele. Numa das mensagens ele cita que, abre aspas, amanhã começam as batidas do Esteves, fecha aspas, claro se referindo ao banqueiro André Esteves. A mensagem sugere acesso a informações sobre operações em andamento. Alexandre de Moraes negou vementemente ser o destinatário dessas mensagens.
O STF emitiu nota dizendo que uma análise técnica concluiu que as mensagens não conferem com os contatos do ministro na memória do celular. O Globo replicou dizendo que a PF periciou o material com um software diferente, que permite visualizar simultaneamente a tela do WhatsApp e os arquivos enviados.
e que o número e o nome do ministro constam sim no envio. Segundo o jornal, o número respondeu quatro vezes as mensagens de Vorcaro. O presidente da CPMI do INSS, senador Carlo Viana, foi além, disse que o número para o qual a mensagem foi enviada é um número funcional do STF, e que caberia ao próprio Supremo responder com quem estava esse número naquela data. Até agora o Supremo não respondeu essa pergunta.
O caso de Astofoli já foi contado em parte no episódio anterior, lembra?
Ele era o relator do Caso Master no STF, travou a investigação por meses com decisões contraditórias e renunciou à relatoria depois que a PF entregou um relatório apontando o possível conflito de interesses. Mas, olha só, tem mais. Toffoli é sócio do Merish, uma empresa familiar. O Merish vendeu sua participação em um resort de luxo no interior do Paraná, o Tayaya, para um fundo de investimentos.
Esse fundo tinha ligação com Fabiano Zetel, cunhado de Borcaro e um dos investigados na operação Compliance Zero. Toffoli confirmou ser sócio da Marit, negou ser o administrador e negou qualquer relação de proximidade com Borcaro. O Congresso tentou investigar isso. A CPI do Crime Organizado aprovou a quebra de sigilo da Marit para entender essa transação.
O ministro Gilmar Mendes anulou quebra de sigilo, dizendo que o caso não era objeto da CPI. O ministro Flávio Dino, por sua vez, anulou 87 quebras de sigilo aprovadas pela CPMI do INSS, que também tentavam investigar o Master. Ou seja, as duas vias parlamentares de investigação foram travadas por decisões do próprio STF.
O cientista político Vinícius Carneiro resumiu a situação assim para a Gazeta do Povo. O comportamento do Supremo tem sido marcado por uma combinação de isolamento sem defesas públicas enfáticas dos ministros citados, e ao mesmo tempo uma postura de proteção institucional que dificulta investigações formais. E olha, os números estão chegando para a corte, tá? A pesquisa realizada em março de 2026 mostrou que entre os brasileiros que conhecem o caso Máster, 69,9%, ou seja, 70% A pesquisa realizada em março de 2026 mostrou que o caso Máster, 70% de proteção institucional que conhecem o caso Máster,
avaliam que a credibilidade do STF foi sim impactada negativamente. Economistas e analistas políticos começaram a usar uma expressão para descrever Vorcaro. Banqueiro da República.
Não, não é um elogio, é uma descrição. Significa alguém que atravessa linhas partidárias, que tem acesso simultâneo a governistas e oposicionistas. Que dificulta relações nos três poderes, não por ideologia, mas por estratégia. O celular mostra isso com clareza. Em 2022, Borcaro doou 3 milhões de reais para a campanha de Bolsonaro. Em 2024, se reunia com Lula no Planalto. Em 2025, juntava com o presidente da Câmara.
Ele era aliado de todo mundo. E essa é em si uma das perguntas centrais desse caso.
Como que um banco investigado por fraudes bilionárias conseguiu construir uma rede que alcança o topo dos três poderes? A Polícia Federal ainda está analisando o material. Dois terços dos dispositivos apreendidos nas duas primeiras fases da operação ainda não foram periciados. E houve uma terceira fase em março de 2026. O que ainda vai aparecer nesses celulares é uma das grandes incógnitas do caso. Então, olha só o que a gente ouviu hoje.
um senador que o banqueiro chamava de um grande amigo da vida, que apresentou uma emenda favorável ao Master horas antes de Vorcaro saber da notícia. Um presidente da Câmara que jantou na residência oficial com Vorcaro e outros empresários. Um encontro no Palácio do Planalto, fora da agenda, que o banqueiro descreveu como ótimo, muito forte. Mensagens no dia da prisão para o número que o STF ainda não explicou quem atendia.
um relator do STF que deixou em relatoria depois que a PF apontou ligação financeira com o caso e decisões do próprio Supremo travando as investigações parlamentares. Cada um desses fatos, isolado, tem uma explicação. Reuniões com banqueiros fazem parte da rotina política. Contatos de celular não são prova de nada. Decisões judiciais têm fundamentos técnicos. Mas juntos, e é isso que o celular do Vorcaro mostra,
formam o retrato de um sistema onde o acesso ao poder não é cessar, é o produto. E tem mais uma camada nesse caso que a gente ainda não explorou. O Banco Master não fraudou só investidores, não fraudou só fundos de pensão. Segundo as investigações, fraudou aposentados do INSS, pessoas que acordaram com descontos em benefícios que nunca pediram. O mesmo escândalo que tomou conta do país em 2025 tem raízes fincadas no Master.
Mas espera um pouco enquanto a gente editava esse episódio, aconteceu uma coisa que pode mudar todo o rumo dessa história.
Vorcaro firmou um acordo de colaboração premiada envolvendo tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República. Como parte desse acordo, ele deve fornecer datas, documentação e descrições detalhadas de como teria ocorrido a coordenação com agentes públicos. As negociações começaram logo após a primeira prisão, em novembro, e a equipe jurídica ainda discute os termos finais, que podem, claro, incluir tornozeleira eletrônica e prisão domiciliar.
Então, quando os depoimentos forem concluídos, a Polícia Federal vai enviar tudo isso para o ministro André Mendonça para homologação. Sim, delação premiada. Uma delação de Vorcaro seria diferente de qualquer outra que o Brasil já viu, porque ele não era um operador, não era um intermediário. Segundo a própria investigação, ele era o topo da estrutura.
E o que ele sabe sobre senadores, ministros, presidentes ainda não foi dito em público. Pra você ter uma ideia, nos bastidores já chamam de a delação do fim do mundo. Se essa delação realmente acontecer, tudo o que você ouviu nesse episódio pode ser só o começo. E isso a gente confere no próximo episódio, então confere aí se você já tá seguindo a The News aqui no Spotify pra não perder a continuação desse caso. Eu sou o Alan Blanco e esse episódio foi editado por Lurian Queiroz.
Você confere os bastidores e mais conteúdos em arrobaoprimoalan lá no Instagram. E esse é o podcast especial do The News sobre o caso Master. A gente se encontra no próximo episódio.