Ele era só um laranja? | MASTER FRAUDE | Episódio 04
Neste episódio, explicamos quem é Daniel Vorcaro de verdade e suas "imediações", ou seja, as pessoas próximas a ele e como operavam.
Um banco que saiu de R$ 200 milhões para R$ 63 bilhões em 5 anos.
CDBs vendidos como investimentos seguros.
Plataformas gigantes distribuindo o produto. Um regulador que sabia há anos e um ministro do Supremo que, segundo a Polícia Federal, tinha negócios com o dono do banco investigado.
Esse é o caso Banco Master - um dos maiores escândalos financeiros recentes do Brasil.
Nessa série especial do the news, você irá entender o caso com mais profundidade.
- Banco MasterDaniel Vorcaro · Operação Companhia Zero · Corrupção no Banco Central · Delação premiada de Vorcaro · Ministros do STF envolvidos
Bom, nos três primeiros episódios a gente construiu um retrato do Banco Master camada por camada. Um mecanismo de fraude, né? Precatórias, usinas falidas transformadas em produto financeiro para aposentados. A teia de contatos, um banqueiro com 84 nomes de ministros, senadores e presidentes na agenda do celular. E o que a gente chamou de Os Invisíveis.
240 mil aposentados do Rio de Janeiro com dinheiro exposto sem garantia. Mas tem uma pergunta que ficou sem resposta. E é a mais importante. Quem é Daniel Vorcaro de verdade? A Polícia Federal descreve uma organização criminosa com quatro núcleos.
Fraude financeira, corrupção de servidores públicos, monitoramento de adversários e intimidação. Convocar no topo de cada um.
Mas o jornalista Bruno Caraza, em uma coluna publicada no Valor Econômico em abril de 2026, levantou uma hipótese diferente e desconfortável também, e que dependendo de como as investigações avançarem, pode mudar completamente o tamanho desse caso. Antes de apresentar essa hipótese, eu preciso mostrar o que está nos documentos, porque a hipótese só vai fazer sentido quando você vê o que está em volta.
A terceira fase da Operação Companhia Zero, deflagrada em 4 de março de 2026, revelou uma estrutura que vai muito além de um banco com problemas de liquidez. Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado tinha quatro funções operacionais distintas. Vorcaro como líder, Fabiano Zetel, seu cunhado e segundo a PF, maior doador das campanhas de Bolsonaro e Tarciso em 2022, como operador financeiro, responsável por pagamentos e transferências.
Luiz Felipe Mourão, o famoso sicário que apareceu nos episódios anteriores, inclusive, como coordenador das operações de monitoramento e intimidação. E Marilson Roseno, policial federal aposentado, no núcleo de coleta de informações e vigilância.
O que esses quatro faziam segundo as investigações? O grupo denominado A Turma recebia um milhão de reais por mês pelas suas atividades. Acessava indevidamente sistemas restritos da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais, como FBI e Interpol. Obtinha informações sigilosas usando credenciais funcionais de outras pessoas.
Monitorava adversários, testemunhas e também jornalistas. E segundo as mensagens recuperadas, simulava assaltos para intimidar pessoas consideradas ameaças ao grupo. Agora um detalhe que não estava nos episódios anteriores. Segundo as investigações, um dos servidores do Banco Central Afastados participava de um grupo de WhatsApp com o Vorcaro.
no qual eram discutidas estratégias e interesses do Master, e no qual o Vorcaro dava ordens para coagir e ameaçar testemunhas. O mesmo grupo de mensagens, o regulador e o banqueiro no mesmo chat. Isso não é imagem de um banco que cresceu rápido demais e cometeu erros, é imagem de uma operação planejada. Mas aí vem a pergunta do Bruno Carazza.
Em uma coluna de opinião publicada no Valor Econômico em abril de 2026, o jornalista e economista Bruno Caraza faz uma distinção que merece atenção. Tá, mas antes de apresentar essa distinção, eu preciso fazer uma coisa aqui rapidinho. Eu vou escrever uns nomes no papel, porque essa parte fica mais clara se a gente visualizar juntos, mesmo que mentalmente. Porque é só áudio, eu sei.
Primeiro nome, Marcelo Odebrecht. Ele construiu um império real, obras, contratos, dezenas de milhares de funcionários. A Odebrecht era uma empresa que existia de verdade e usava a corrupção como ferramenta para proteger e, claro, expandir esse império. Agora, segundo nome, Marcos Valério. O publicitário do Mensalão.
Não tinha um negócio de escala comparável, o que ele tinha eram conexões, operações financeiras complexas e também a capacidade de ser útil para quem tinha dinheiro e precisava movimentá-lo de formas que não podiam aparecer em lugar nenhum. Ele não era o topo, era o canal. A pergunta do Carasa, em síntese, é... Vorcaro era o Marcelo Debreche ou o Marcos Valério desse caso? Daniel Vorcaro
Se for o primeiro, o empresário que construiu algo real e usou corrupção como ferramenta, ele, sim, está no topo, a organização é dele. Se for o segundo caso, um operador, um intermediário, alguém que prestava serviços para quem tinha dinheiro e precisava de acesso, então a pergunta muda completamente. Quem contratava os serviços dele? De quem era o dinheiro que circulava por essa estrutura? E quem, de fato, estava no andar de cima?
Olha, é importante deixar claro que isso é análise de um colunista, claro, não é uma conclusão de investigação. A própria PF descreve o Vorcaro como líder do grupo, mas a pergunta que o Karasa levanta não contradiz essa descrição, ela acaba expandindo ela. Ser o líder operacional de um grupo não significa ser o beneficiário final de tudo que esse grupo faz, e tem detalhes das investigações que tornam a pergunta perturbadoramente relevante.
Segundo a reportagem do O Globo, com base em informações da Coaf, empresas ligadas a Vorcaro repassaram mais de R$ 700 milhões em ativos do Banco Master para um offshore nas ilhas Caimã, de qual o próprio banqueiro é sócio. E anotações encontradas na quebra de sigilo de Vorcaro mostram que uma empresa ligada a ele fez remessas de mais de R$ 165 milhões para fora do Brasil.
O dinheiro saía do Brasil. A pergunta é, pra onde? E pra quem? Agora deixa eu contar uma história de dois homens que deveriam ter parado tudo isso antes, tá? Paulo Sérgio Neves de Souza e Beline Santana. Paulo Sérgio foi líder de fiscalização do Banco Central entre 2019 e 2023.
que é, claro, exatamente o período em que Vorcaro recebeu autorização para comprar o banco máxima e rebatizar ele como Master. Exatamente o período em que a estrutura de captação com Precatóris começou a crescer de forma bem acelerada.
Belini chefiou o departamento de supervisão bancária entre 2019 e 2024, o setor claro responsável por monitorar capital, liquidez e práticas de gestão dos bancos. Em 4 de março de 2026, o ministro André Mendonça, do STF, descreveu os dois publicamente como uma espécie de consultores privados de Daniel Vorcaro. Determinou o afastamento judicial de ambos.
Segundo as investigações, o que eles faziam? Forneciam orientações estratégicas sobre como o Banco Central atuaria em processos administrativos do Master, revisavam documentos que o banco enviava ao BC e sugeriam ajustes para fortalecer as defesas, basavam informações para que Vorcaro pudesse se antecipar a possíveis medidas do regulador, usavam a influência interna para favorecer o Master em análises e recebiam propina.
segundo as investigações por meio de contratos simulados e pagamentos feitos por terceiros. Um dos itens listados pelo ministro Mendonça era uma viagem à Disney paga por vorcaro para Paulo Sérgio. Espera, é uma viagem à Disney, não é uma transferência bancária, não é um apartamento em Miami, é uma viagem à Disney. O homem que supervisionava a fiscalização do maior escândalo financeiro do país recebeu Mickey Mouse como propina.
Tô tentando imaginar aqui o Vorcaro fazendo a reserva do site. Adultos? Zero. Crianças? Zero. Diretores de fiscalização do Banco Central? Um. Os dois já haviam sido afastados administrativamente pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, no início de 2026. A decisão de março foi judicial e acrescentou a tornozeleira eletrônica. Existe um detalhe que resume o problema de forma...
muito concreta. Em um ofício assinado por Bellini Santana e encaminhado ao Ministério Público Federal, ele relatou que uma operação considerada atípica, que seria a aquisição das carteiras de crédito que levantaram suspeitas no fim de 2024, havia sido revertida no início de 2025, e que até aquele momento o BC não havia identificado indícios de irregularidades.
Esse ofício foi depois citado pela defesa de Vorcaro em manifestações da justiça. O regulador, segundo as investigações, produzia documentos favoráveis ao banco que depois eram usados para defendê-lo. A questão que fica não é só jurídica, é sistêmica. Se os dois principais responsáveis pela supervisão do Master dentro do Banco Central estavam, segundo as investigações, trabalhando para o Master, o que isso significa para todos os outros bancos que esses mesmos servidores supervisionaram no mesmo período?
Olha, em novembro de 2025, na mesma semana em que decretou a liquidação do Banco Master, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tomou uma decisão que passou quase despercebida. Ele classificou como secretos todos os documentos relacionados à liquidação. Por oito anos, tá? Até novembro de 2033. Novembro de 2033, deixa eu calcular aqui.
Isso é depois das eleições de 2026. Depois das de 2030, dois ciclos eleitorais completos. Quando esses documentos abrirem, o iPhone vai estar na versão 27. A inteligência artificial vai estar escrevendo o roteiro de podcast melhor do que eu. E o Brasil vai ter passado por mais dois maiores escândalos da história. Eu acredito. Brasil!
pode ser protocolo legítimo. Sigilo em liquidações bancárias existe por boas razões, proteger investigações em andamento, evitar pânico no mercado. Mas a coincidência do arquivo fechar exatamente durante dois ciclos eleitorais vale pelo menos um levantamento de sobrancelha. A justificativa oficial do Banco Central em resposta a pedido via lei de acesso à informação foi dupla.
Primeiro, a divulgação imediata contrariaria o interesse público na preservação da estabilidade financeira, econômica e monetária do país. Segundo, os documentos podem comprometer atividades de inteligência e investigações em andamento. Esses são dois argumentos legítimos, tá? E o sigilo sobre processos de liquidação bancária tem precedente e respaldo legal. Mas existe uma atenção que vale nomear.
O regulador que classificou os documentos como secretos é o mesmo regulador cujos dois principais surprevisores no caso estavam, segundo as investigações, trabalhando para o lado errado. A mesma instituição que tem interesse em mostrar que agiu certo é a que decidiu fechar o arquivo por oito anos.
E tem um detalhe que conecta esse sigilo a tudo que a gente viu antes. Uma minuta de despacho do próprio Tribunal de Contas da União foi encontrada nos celulares de Vorcaro, um documento interno de um órgão de controle, aparentemente antes de ser formalizado no aparelho do banqueiro investigado. Não se sabe ainda como esse documento chegou lá, nem de quem ele veio.
A investigação está em andamento, mas a imagem é perturbadora. O Estado tenta fechar a torneira da informação, decreta oito anos de sigilo. E ao mesmo tempo, documentos internos dos órgãos de controle aparecem no celular de quem estava sendo controlado. Em março de 2026, o ministro Jonathan de Jesus, relator do caso do TCU, pressionou o Banco Central para detalhar exatamente quais documentos precisam continuar restritos, ou se todos podem ser liberados. A resposta do Banco Central ainda não veio.
Quando vier, será um teste. O regulador que travou o arquivo vai explicar porque cada peça precisa ficar guardada, ou vai manter tudo fechado até 2033 e esperar que o mundo esqueça. Bom, já falamos sobre o STF nos episódios anteriores, mas nesse episódio eu preciso ser mais direto sobre o estado da instituição.
Uma pesquisa realizada em março de 2026 mostrou que, entre os brasileiros que conhecem o caso Master, 69,9%, 70% basicamente, avaliam que a credibilidade do STF foi impactada negativamente. Esse número não é só uma curiosidade de pesquisa, é o resultado de uma sequência de eventos que a gente pode listar com precisão.
Toffoli assumiu a relatoria do caso, tomou uma série de decisões que restringiram o acesso da PF às provas, incluindo colocar dispositivos eletrônicos sob sigilo do Supremo. E só saiu após a Polícia Federal apresentar ao presidente Fachin um relatório apontando ligações financeiras entre ele e o caso. A empresa familiar de Toffoli, a Maridit, vendeu participação em um resort para um fundo ligado ao cunhado de Vorcaro.
Toffoli nega proximidade com Vorcaro e nega irregularidades. A CPI do Crime Organizado aprovou a quebra de sigilo da Marit para investigar essa transação. O ministro Gilmar Mendes anulou a quebra do sigilo. O ministro Flávio Dino anulou 87 quebras de sigilo aprovadas pela CPMI do NSS que investigavam o Master.
Agora quanto ao ministro Alexandre de Moraes, o escritório da família Moraes recebeu R$ 129 milhões em contratos do Banco Master, pagos em parcelas de R$ 3,6 milhões por mês até a liquidação do banco. As mensagens do celular de Vorcaro incluem comunicações com o número que, segundo o relatório da Polícia Federal enviado a faixim, seria de Moraes. Moraes nega que o número seja dele, e o contrato foi com o escritório da esposa Viviane Barcy de Moraes.
Cada um desses fatos tem contexto e cada pessoa citada nega irregularidades. Mas o conjunto, apresentado como conjunto, explica o número da pesquisa. E levantam a mesma pergunta que organiza esse episódio inteiro. Quem estava olhando? E quem estava olhando para quem estava olhando?
Em 19 de março de 2026, Vorcaro assinou um acordo de colaboração premiada envolvendo a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Segundo a Bloomberg News, com base em fonte que pediu anonimato, o depoimento de Vorcaro pode implicar uma ampla gama de indivíduos, incluindo funcionários de alto escalão do governo e membros do próprio FGC.
Fabiano Zetel, cunhado de Vorcaro, também negocia uma delação separada. Como eu já comentei antes, nos bastidores chamam de a delação do fim do mundo. Não sei se esse nome vai se justificar, delações prometem mais do que entregam. É uma característica do gênero. Mas o que Vorcaro tem pra contar, se quiser contar, né? É diferente de qualquer outra coisa que o Brasil já viu nesse tipo de acordo. Porque ele não era um operador que passava recados.
Segundo a própria investigação, ele estava nas reuniões, nos jantares, nos grupos de WhatsApp.
Nos palácios. Agora voltando à pergunta do título. Seria Vorcaro só uma peça? A resposta honesta nesse momento é... Não sabemos ainda. As investigações apontam para um líder operacional de uma organização criminosa complexa. A análise do Carasa levanta a hipótese de um operador de interesses maiores. As duas reituras existem, têm evidências que a sustentam parcialmente. E são incompatíveis entre si.
O que a delação pode fazer, se avançar, é resolver essa tensão. Ou, quem sabe, aprofundar ela mais ainda. A investigação não acabou, o que você ouviu nesse episódio é o que já veio à tona. O que ainda está aguardado nesses arquivos e no acordo de delação que está sendo negociado, pode ser a resposta para uma pergunta que a série inteira tenta responder.
Então, olha o que a gente ouviu hoje. Um grupo operacional com quatro funções, fraude, corrupção, vigilância e intimidação e R$ 1 milhão por mês de orçamento. Dois servidores do Banco Central que, segundo as investigações, funcionavam como consultores internos do banco que deveriam estar fiscalizando. Um sigilo de oito anos imposto pelo regulador sobre os documentos da liquidação, enquanto documentos internos de órgãos de controle apareciam no seu lado investigado.
O STF com dois ministros envolvidos em questionamentos sobre ligação com o caso e duas vias parlamentares de investigação travadas por decisão da própria corte. E o mais interessante, uma delação em andamento que nos bastidores já chamam de explosiva.
A pergunta central desse caso sempre foi sobre responsabilidade. Não só a responsabilidade criminal, quem fez o quê, quando, com qual intenção, mas a responsabilidade sistêmica. Quem deveria ter parado isso? Quem sabia e ficou quieto? Quem sabia e pior, ajudou? Esse episódio ainda não responde essas perguntas, porque as investigações ainda não as responderam.
Mas no próximo episódio a gente chega no desfecho. O que a delação pode revelar? O que o caso Master mudou? Nas regras, nas instituições, na forma como os brasileiros olham pro sistema financeiro e pro sistema político. E o que, apesar de tudo, ainda não mudou. Eu sou o Alan Blanco, você confere mais conteúdos e bastidores no Instagram oprimoalan, arroba oprimoalan com um L só. E o episódio foi editado por Lohian Queiroz. Esse é o podcast especial do The News sobre o caso Master e a gente se encontra no próximo episódio.