Começar a semana com poesia: Ricardo Reis/Fernando Pessoa
Ricardo Reis é um dos 3 principais heterónimos de Fernando Pessoa, e são dele os 3 poemas que vos leio para começar(mos) a semana com poesia. São belíssimos.
Bom dia!
Raquel Marinho
- Poesia de Ana Luísa AmaralPoema 'Vem sentar-te comigo, Lídia' · Poema 'Prefiro rosas, meu amor, à pátria' · Poema 'Para ser grande se inteiro' · Ricardo Reis como heterônimo de Fernando Pessoa · Lídia, figura feminina em poemas de Reis
- Características de Ricardo ReisNascimento e profissão · Formação acadêmica e ideologias
Olá, bom dia. Venho aqui a ler-vos um ou dois poemas para começar a semana com poesia. Lembrei-me de o fazer porque tenho andado a ler Fernando Pessoa e estava há pouco com o livro da poesia do Ricardo Reis e lembrei-me de vir aqui partilhar um ou dois poemas convosco. É um dos três principais heterónimos de Fernando Pessoa. Nasceu em 1887.
e vivia no Brasil, era médico, e era também monárquico, e tinha formação num colégio de jesuítas, e também tinha formação latinista e semi-elenista, e tem muitos poemas bastante conhecidos, eu vou ler dois ou três, alguns pequeninos, mas este primeiro, que tem uma figura feminina, que aparece em vários poemas de Ricardo Reis, que é a Lídia.
Esta edição de onde eu estou a ler é uma edição chamada Fernando Pessoa Poesia de Ricardo Reis, editada pela Assírio Ialvim. E posso também dizer, talvez, que a edição é de Manuela Parreira da Silva. Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendemos que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas. Enlacemos as mãos.
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa, vai para um mar muito longe, para ao pé do fado, mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos porque não vale a pena cansarmo-nos, quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
mais vale saber passar silenciosamente e sem desassossegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, nem invejas que dão movimento demais aos olhos, nem cuidados, porque se os tivesse, o rio sempre correria e sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o o
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias, mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro, ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega-te unelas e deixa-as no colo e que o seu perfume suavize o momento. Este momento em que sossegadamente não cremos em nada, pagãos inocentes da decadência.
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois, sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijamos, nem fomos mais do que crianças. E se, antes do que eu, levares o óbulo ao barqueiro sombrio, eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti. Ser-me-ás suave à memória.
Lembrando-te assim, à beira rio, pagã triste e com flores no regaço. E agora vou ler-vos mais um poema que tem um verso muito conhecido, que é logo o primeiro, e que diz assim. Prefiro rosas, meu amor, à pátria. E antes, magnólias, amo que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo que a vida por mim passe, logo que eu fico mesmo. Que importa àquele a quem já nada importa que um perca e outro vença, se a aurora raia sempre. Se cada ano com a primavera aparecem as folhas e com o outono cessam. E o resto, as outras coisas que os humanos acrescentam à vida, que me aumentam na alma.
Nada salvo o desejo de indiferença e a confiança mole na hora fugitiva. E para terminar, estou só aqui à procura no livro, para terminar um outro poema muito conhecido do Ricardo Reis. Para ser grande se inteiro, nada teu exagera ou exclui. Se todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim, em cada lago, a lua toda brilha, porque alta vive. Este episódio teve a autoria de Raquel Marinho, música de Mário Lajinha e desenho de Joana Batista.