Afonso Borges: "O lugar da leitura tornou-se o meu lugar de residência."
Afonso Borges é programador cultural, jornalista, escritor, poeta, nascido em Belo Horizonte, em 1962.
Criou o projeto Sempre um Papo há 40 anos - um festival literário em Belo Horizonte, por onde passaram e passam muitos autores brasileiros, mas também portugueses. Intimamente ligado à leitura, acredita na possibilidade de transformação através dos livros, mas também dos encontros, e partilha algumas dessas histórias connosco.
Esteve em Portugal para lançar o livro Noites Brancas pela editora Nós, um dos temas da conversa no podcast para onde, como costuma acontecer, trouxe alguns dos poemas de que mais gosta.
Poemas:
"A Máquina do Mundo", Carlos Drummond de Andrade
"Breve Elegia", Mário Faustino
"Chega um dia", Thiago de Mello
"Poema sujo", Ferreira Gullar
"Que país é este?", Affonso Romano de Santanna
- Poesia e LiteraturaAnálise de 'A Máquina do Mundo' de Carlos Drummond de Andrade · Discussão sobre 'No Meio do Caminho' de Carlos Drummond de Andrade · Interpretação de 'Breve Elegia' de Mário Faustino · Análise de 'Chega um dia' de Thiago de Mello · Reflexão sobre 'Piscina do Mundo' de Afonso Borges · Discussão sobre 'Poema sujo' de Ferreira Gullar · Análise de 'Que país é este?' de Afonso Romano de Sant'Anna
- A vida e obra de Afonso BorgesInício da vocação literária · Trajetória no jornalismo · Poesia como dom e sustento · O livro 'Tardes Brancas' · A relação com a leitura
- Sempre um PapoOrigem e evolução do projeto · Realização de eventos literários · Profissionalização do lançamento de livros · Impacto e legado do projeto
- Literatura e CulturaConceito e temática dos festivais · A importância do encontro entre autores e público · O papel dos festivais na promoção da leitura e transformação · Exemplo do festival em homenagem a Milton Santos
- Importância da LeituraCrítica à superficialidade da informação · A ausência de reflexão na sociedade · O papel da leitura na formação humana · A relação entre ética, empatia e leitura
- O Papel da Arte e da CriaçãoO poder da palavra e da narrativa · Histórias de transformação pessoal através de eventos literários · A arte como ferramenta de educação e mudança
- Literatura BrasileiraInfluência da literatura portuguesa no Brasil · Recepção da literatura portuguesa no Brasil · Publicação de autores portugueses no Brasil · Diferenças entre escritores brasileiros e portugueses
- Desafios e Lições na CarreiraDependência de patrocínios e a Lei Rouanet · A falta de patrocínio atual · A busca por equilíbrio e resiliência
- A vida de José SaramagoAmizade com Afonso Borges · Lançamentos de livros no Brasil · A história do aplauso no Palácio das Artes · A relação de Saramago com o Brasil
Falou do José Saramago, sei que o José Saramago esteve em dois eventos seus duas vezes, ou quatro vezes, mas esteve antes de ganhar o Nobel e depois de ganhar o Nobel. Foi um grande amigo, José e Pilar, né, sempre foram grandes amigos porque naquele momento que ele...
começou a fazer os lançamentos, estou falando de 88, 89, lá no Brasil, junto com a Companhia das Letras. O Belo Horizonte está no circuito de lançamento da Companhia, por sinal, a Companhia das Letras tem a mesma idade do Sempre um Papo. As duas têm 40 anos. Nós crescemos juntos. E José foi lançar os seus livros comigo. E a primeira vez que ele fez, da primeira, foram quatro.
Eu entrei, o Palácio das Artes em Belo Horizonte tem quase dois mil lugares. Pois é grande, eu fui ver as fotografias, sim. É grande, né? E estava lotado. Eu entro primeiro, apresento o autor e depois o autor entra. Só que o palco é aquele palco de 16 metros, faz ópera. É muito grande. É grande. Então eu apresentei, na hora que ele entrou, as pessoas se levantaram rapidamente, mas ela bateu palma e o José parou.
Eu não estava lá, estava na entrada. Entra. Eu falei, entra. Ficou separado. Fui lá. José, vamos. Está parado aí. Ele ficava cumprimentando as pessoas ali, agradecendo. Ele pegou o meu braço forte e falou assim, Afonso, é a primeira vez que eu sinto o vento das palmas. Ah, que bonito, não é? Que bonito, não é?
O poeta norte-americano Lawrence Ferlinghetti dizia que a poesia é a distância mais curta entre duas pessoas. É essa proximidade que procuramos aqui no podcast O Poema Ensina a Cair, da autoria de Raquel Marinho e com música de Mário Lajinha e design de Joana Batista.
A cada episódio convidamos as pessoas que vêm juntar-se a nós a escolherem alguns dos poemas de que mais gostam para, através dessas escolhas e dessa conversa, as conhecermos melhor. O poema ensina a cair, sim, como diz Luísa Netgeorge, a poeta a quem vamos buscar este verso.
que dá nome ao podcast, mas acreditamos que além de ensinar a cair, ensina muitas outras coisas e é isso que vamos aprendendo ao longo destas conversas. O nosso podcast pode ser ouvido e subscrito em qualquer aplicação Android ou iOS no Spotify, Apple e Google Podcasts.
Hoje temos connosco Afonso Borges, escritor brasileiro, mas não só. Nasceu em 1962 em Belo Horizonte. É jornalista, escritor, poeta. Criou um projeto chamado Sempre um Papo. Que nasceu este projeto em 1986. Já vamos saber o que é aqui para os nossos ouvintes portugueses conhecerem melhor. Criou vários festivais literários que mantém. Vai de resto ter um.
já muito brevemente no mês de maio para onde vai, por exemplo o escritor José Eduardo Agrolusa conheceu José Saramago no âmbito de festivais que organizou também já vamos saber, até há uma história bonita sobre o aplauso longo que José Saramago ouviu num dos seus festivais e o comentário que ele fez que é uma frase muito bonita, já vou perguntar
promove, portanto, este encontro entre leitores, autores, público, na promoção da leitura, do diálogo entre vários escritores e é pai de três filhas. É também um dado biográfico importante que vale a pena referir.
Afonso, obrigada por vir aqui ao podcast do Poema Ensina a Cair. Gosto muito que esteja aqui. Também porque o Poema Ensina a Cair tem muita expressão no Brasil. Temos muita gente que nos ouve no Brasil e que nos segue nas redes sociais. Muitos seguidores brasileiros e, portanto, é sempre bom, digamos, aproximar, não é, o oceano. Fazê-lo desaparecer e estar assim com autores brasileiros ao vivo. Afonso, acaba de lançar um livro.
aqui em Portugal, de contos, chamado Tardes Brancas, da edição Nós. São 26 contos e 5 poemas. Eu gosto de, nestas conversas que tenho aqui no podcast, às vezes, nem sempre, mas às vezes começar pelo princípio. E o seu princípio começa logo de pequenino a escrever um texto a propósito do Dia Internacional da Criança, certo? Certo. Como é que isso aconteceu?
É uma cidade do interior onde a minha mãe nasceu e o dono do jornal do interior, naquela época eu com 15 anos, soube que eu gostava de escrever e pediu um texto. E ali começou a minha vida através desse jornal, de uma cidade pequena que se chama Muri Aé. E dali nasceu e começou a minha vocação literária.
E esse conto era sobre o quê? Ou seja, o que é que escrevia? Era sobre as crianças? Era o ano internacional da criança pela Unicef.
que é de onde surgiu em seguida minha vocação para jornalismo no qual me formei até hoje está até hoje ou seja, já vamos falar deste projeto sempre um papo e também dos festivais mas há esta aproximação ao jornalismo trabalhando com jornais na casa e na televisão entrevistando autores podia ter sido outra área do jornalismo porque é que foi essa?
Mas o início não foi. O início foi como qualquer jornalista. Eu trabalhei na área de polícia, alguns contos. Pois é, pois é. Esse livro fala desse jornalismo de polícia. Na redação, sim, sim. Que eu trabalhei. Ao mesmo tempo, quando você está num jornal, você trabalha em várias áreas, cobre várias áreas. Eu, por exemplo, me especializei em algum momento em cinema. Eu fui crítico de cinema há muito tempo, antes de ser crítico literário. Em generalidades, na área de cultura. Em seguida...
é que surgiu o Sempre um Papo. Mas quando eu comecei o projeto Sempre um Papo, em 86, eu já tinha três livros de poemas publicados. Diria que é antes de qualquer coisa poeta, é isso? Sem dúvida. A sério? Por quê? Porque foi o meu primeiro dom. O dom que surgiu inicialmente em mim era música e poesia. E na música eu encontrei uma fonte de sustento.
Eu trabalhava tocando em bares e em televisões durante a noite e dando aula de dia. Dava aulas de dia. Conciliava com, logo em seguida. Tocava violão? Tocava violão de 8 da noite às 3 da manhã. E dava aulas de dia? E dava aulas de dia. De quê? Violão. De jornal? De violão. Violão. Ah, dava aulas de violão de dia. E à noite tocava nos bares. Eu vivi durante um período entre 16 e 22 anos, eu vivi disso.
Eu sobrevivi dando aulas e tocando à noite. Tocava de quarta a domingo, de oito às duas da manhã, todo dia. E nessas noites musicais havia também alguma coisa de literatura, alguns encontros? Pois é, a pergunta é perfeita, porque foi destas noites musicais que surgiu sempre um papo.
Eu estava num bar tocando quando dois grandes amigos, dois grandes escritores, Oswaldo França Jr. e Fernando Branche, Oswaldo França Jr., para quem não se lembra, escreveu Jorge, um brasileiro que gerou a série Carga Pesada, estreada pelo Antônio Fagundes e Eustênio Garcia.
Foi exibido aqui em Portugal, todo mundo conhece. E o França virou para mim e falou, olha, por que nós não fazemos, junto com a sua música, um bate-papo literário? E nesse dia, em março de 1986, já estamos fazendo 40 anos, começou o projeto Sempre Um Papo. Que é o quê? É um encontro ou é o quê? O projeto é isso, um papo, uma conversa informal com autores.
em um ambiente informal, na época, bar. No entanto, eu só vivi dois anos da minha vida nesse ambiente. Por quê? Porque conversas...
às vezes rumam para a política em cerveja, terminam em cadeiras voando. É sério? E as cadeiras tomam asas. E quando elas voam, acerta alguém. Ainda mais em 86, a ditadura tinha terminado há pouco tempo. Se calhar o país estava muito politizado, não é? Muita vontade das pessoas conversarem.
anos de ditadura, né? E aquele projeto surgiu nesse momento de necessidade de diálogo. Então, logo depois, eu entendi que o mercado editorial brasileiro, talvez mundial, necessitava de um plano profissional, horizontal.
seguindo todas as técnicas de comunicação para viabilizar um lançamento. Então, eu saí do bar e fui para teatros. E a partir de então... Com público. Com público, teatro, auditórios, em vários auditórios, em vários teatros. Inicialmente em Belo Horizonte, depois em mais de 40 cidades brasileiras, pelo país inteiro eu fiz eventos. E aí sim, a coisa tomou o rumo que é até hoje.
O autor apresenta a sua obra em diálogo com as pessoas presentes. Nesse curso de trabalho eu fiz mais de 9 mil eventos. São não só eventos simultâneos em várias cidades. Eu cheguei a fazer uma semana. Uma semana eu fiz oito eventos. Sendo que uma vez eu consegui fazer em três cidades simultâneas. O que de certa forma é fácil. Basta você ter um esquema bom de produção.
E essa brincadeira de palco, música e conversa transformou-se na minha vida. Pois, acredito que sim. E manteve alguma coisa da música nas suas produções literárias? Só quando a gente for conversar sobre os festivais. Nas produções, ali é claro, e eu me dediquei...
extensamente em profissionalizar o que nós chamamos de lançamento de livro. O que é isso? Vamos fazer uma comparação com a própria música. Se um músico quer lançar o seu show, ele usa alça-mão de anúncios, spot em rádio, às vezes VTs em televisão, grande divulgação. O lançamento de livro nunca teve isso. O meu tinha.
O meu evento, quando eu faço um lançamento, tem anúncio em jornal, tem spot em rádio, tem divulgação, tem cartazes sendo pregados. Mas para convidar as pessoas a vir, né? Para convidar as pessoas a vir, mas também para divulgar o livro. Porque o cenário que eu apresento para o autor é o seguinte, olha, sempre que você sair da sua própria casa e for para uma outra cidade divulgar, não importa o número de pessoas presentes, importa que o livro esteja bem divulgado.
Que é para isso que a gente sai de casa. E disponível também, não é? Para quem quiser comprar. Tanto está disponível. Você tem que estar nas livrarias.
outra. Se tem ali uma divulgação naquela cidade do livro ser lançado o livreiro, e a gente também visita as livrarias. É um evento realmente institucional e comercial ao redor do livro. Que funciona, senão não continuava. Não durava tanto tempo. Já vamos aos festivais. Ainda antes fixei-me numa palavra que o Afonso usou chamada dom. É o meu dom, a poesia. Quando é que soube que tinha o dom da poesia?
Olha, eu sou um pouco esotérico, pode? Eu sou peixes. Então, o peixe, o signo de peixes, tem essa natureza um pouco mais próxima da natureza mesmo, das pessoas, do carinho, do chego. E eu fiz poemas desde que eu me entendo por gente. Eu faço poemas. Mas fazia em casa, a mão, mostrava alguém? Uma coisa.
Nós tínhamos um grupo de poetas em Belo Horizonte, e até hoje muitos, hoje tem alguns muito importantes, que trocavam muito entre si, até chegando à materialidade. Por exemplo, a gente publicava um livro...
ficava devendo a gráfica, saia para vender no meio da rua, nos bares. Também li isso, vendia uns bolsos livres nos bares, não é? E depois não conseguia pagar a gráfica, e o nome ia para o SPC. O Samarro Biólogo Brasil é SPC, que é o serviço de proteção ao crédito, o nome ficava sujo. Normalmente até conseguia pagar a gráfica. Era muito divertido.
E por que faziam isso? Qual era a sua urgência, a vontade de vender os vossos poemas? Por que queriam fazer isso? Vamos contextualizar. Eu estou falando deste assunto de 78, 79, 80. Plena ditadura militar. Você fazer isto em plena ditadura era um gesto de resistência. Era um movimento de resistência. Os próprios poemas eram muito sociais também. Pedindo liberdade, pedindo... Claro que fazia uma...
uma conciliação com os momentos mais intimistas, mas dali era uma forma de resistir à ditadura militar naquele momento. Que é também, julgo saber, Afonso, uma das funções que o Afonso atribui à arte, não apenas à literatura, mas à arte, a todas as manifestações de arte, que é esta ideia de resistir, mas também, sobretudo, de refletir, as pessoas conhecerem-se. Você falou um ponto muito importante que hoje...
na minha opinião, define e explica até o contexto de direita que esse mundo anda. As pessoas estão refletindo pouco. Porque se há um ponto de reflexão na análise do contexto literário, político, social, a coisa anda melhor.
Não está acontecendo a reflexão. Estão refletindo pouco por quê? Em primeira velocidade, a velocidade das informações. O mundo está muito rápido. Em segundo, há uma análise superficial de contextos provocada pela ausência de leitura. E aí sim tem um ponto importante para a gente discutir. Eu chamo essa geração de geração de leitores de títulos.
Você passa o Instagram, passa todas as notícias, o scroll, e só lê os títulos. E dali você compõe a sua opinião através dos títulos. As pessoas não leem o contexto, não leem a fala, não leem o que está escrito e não refletem. Então, o que falta, na minha opinião, mundialmente, em análise, é reflexão. Porque a reflexão puxa métodos e conceitos associados a outras palavras tão importantes quanto ética.
responsabilidade, solidariedade e empatia. Quando você reflete sobre a sua realidade, a realidade que o cerca, seja poeticamente, literariamente, seja de qualquer coisa, você traz essas palavras. Se o resultado é um ou outro, não importa. O importante é que essas palavras estão contextualizadas, e em especial ética. Como é que se inverte esta tendência?
Olha, você me permite a fala de uma coisa que eu tenho dito sempre? Eu não sei. Pode. Eu acho que o não sei está faltando nas análises hoje. Todo mundo sabe. Está lotado de verdades. Certezas, não é? Você não tem uma pessoa que você faça uma pergunta, ela não faz um discurso a respeito da pergunta. Eu não sei. Não sei principalmente porque essa tendência não se inverte.
A tendência de aumento da direita no mundo inteiro e do pensamento de direita que traz toda essa falta de humanidade, eu não sou contra pensar ser uma pessoa sem conservadora. Ao contrário, sei que existem os conservadores, que existem as pessoas liberais, os democratas. Não pode haver falta de empatia, solidariedade e ética.
Sim, às tantas, reduzirmos isto à esquerda e direita pode ser redutor, passando o pleonasmo, porque uma coisa é a direita mais conservadora ou a esquerda, outra coisa são os extremos, não é? Exato. Se calhar o que pode preocupar-nos é o avanço destes extremos.
E ainda sobre esta questão do acesso à informação, que o Afonso dizia que as pessoas passam rapidamente, há também uma outra questão, que é, não há filtros, não é? O Afonso é jornalista, eu também fui muitos anos jornalista, e nós temos regras para fazer jornalismo, quer dizer, existe um código deontológico.
E o que se passa é que há muitos conteúdos disponíveis para muitas pessoas que vão diretamente da fonte ao público, sem passar por nenhuma regra, nenhum código, e às tantas as pessoas não conseguem confirmar se aquilo é verdade, se não é, qual é a veracidade, o tal contexto de que falava, não é? Nós vivemos o tempo da morte da verdade, da chamada pós-verdade. E este sim é um ponto que eu considero irreversível em certo momento.
Por isso é que eu gosto de dizer a palavra não sei. Porque não sei mesmo. E não me atrevo a fazer nenhum tipo de conjectura dessa natureza. Eu só sei que falta ética. Se houvesse nas análises, nas leituras, no contexto, ética e empatia, a ética e empatia traz a dúvida.
E a dúvida traz a sabedoria. Porque é a procura. Agora, onde mora tudo isso, na minha opinião? Mora tudo na leitura. E é por isso que continua a organizar o que continua a organizar. Porque a leitura pede, Afonso, pausa, tempo, concentração. A relação é de um para um. Portanto, não é possível fazer muitas coisas enquanto estamos a ler. Eu tive a oportunidade de ler algumas entrevistas suas e ver...
Isso é que há histórias muito curiosas decorrentes dos seus eventos, daquilo que organiza, até de transformação de pessoas. Portanto, não é lirismo dizer que a leitura ou a literatura podem alterar a nossa vida. Não, é real. É fato. Eu tenho dezenas de histórias para contar, mas vou contar uma ontem. No lançamento do livro, do meu livro com o João Gabriel e o Rafael Galo, apareceu um menino que se chama Pedro.
Este menino, Pedro, em 2018, quando eu fazia o Festival Literário de Araxá, o Fili Araxá, ele me passou um e-mail. Ele morava numa cidade do interior e tinha 14 anos e se mostrou um grande leitor. No Brasil. No Brasil. Ele disse, eu tenho 14 anos e até agora, nesse mês, já era o quarto mês do ano, já li 20 livros. Eu falei, duvido, escreve sobre eles. Ele escreveu sobre os 20 livros.
Esse menino tinha 14 anos, eu falei, você tem vontade de vir ao meu festival? E nesse ano estava o Mia Couto, o Valtero Gumae, nesse ano. Ele falou, tem, então vem, eu pago tudo. Ah, mas eu não posso ir, eu sou minha nova, traz seu pai. Mais ainda, vem trabalhar comigo. Ah, que giro, é sério. Esse menino saiu da casa dele, chegou, esconde contato com todos esses autores, fotografou, leu, conversou, depois voltou no ano seguinte.
E, a partir de então, tornou-se um leitor de 50, 60 livros por ano. Uau! Esse menino estava ontem lá, ele mudou para Portugal, veio tentar a vida aqui. E está se formando, está aqui. É um menino muito especial. Esse é um exemplo de ontem. Mas eu tenho dezenas e dezenas de exemplos para te dar. Não vai dar nem para... Não vai dar tempo para explorarmos o efeito que a literatura pode ter.
na vida das pessoas, na sua, quando é que percebeu que através dos livros podia ser outras pessoas, fazer muitas coisas, experimentar outras vidas? Quando é que percebeu isso pessoalmente? Olha, o livro sempre teve presente na minha vida. Tinha livros em casa? Tinha livros em casa, minha mãe sempre foi uma excelente leitora, meu pai nem tanto, mas minha mãe muito. E a partir da universidade, um pouco antes da universidade, na escola.
Eu fui educado pelos maristas e ali o livro sempre esteve presente, eu sempre fui um excelente aluno de português, de língua portuguesa. Daquele género que não precisava muito estudar para ser bom no português, não é? Exatamente. Talvez por ser leitor. Surgiu essa sequência provocada pela poesia, mas aí eu me tornei um leitor.
absolutamente desesperado. Eu chegava, eu lia no ônibus, andando, quase fui atropelado, andando na rua. Eu, quando cheguei na universidade, muito novo, eu nem tinha completado 18 anos quando entrei para a Católica, para a PUC.
E eu lia por prateleira. Eu falava, vou ler todos os latino-americanos, Gabriel Garcia Marques, agora vou ler todos os russos, Gorky, Nicolau Dostoyevsky, agora vou ler todos os espanhóis. Eu lia por prateleira. Por país, não é? Por zona do mundo. Tudo que tinha nessa biblioteca pública.
Ia buscar à biblioteca pública da sua universidade. E levava para casa. Levava para casa, devolvia dois dias depois e ia fazendo uma sequência. E tornou-se um ambiente de leitura muito concentrado ali na faixa de 16 até 25 anos. Mas porquê gostava de ler? Porquê queria ler as prateleiras? Porquê gostava de ler? Eu encontrei uma morada neste lugar.
No lugar da leitura, tornou-se o meu lugar de residência. Murei ali. E continuo. Minha vida até hoje, eu sou uma pessoa que lê oito jornais por dia, todos os dias, desde 18 anos, oito, sete jornais por dia. Não consigo acordar sem ler jornal. Tenho uma coluna de livros há 26 anos diária, em uma rádio muito importante de Belo Horizonte, no entanto, ela se transporta para a internet para o mundo inteiro.
E é sempre um papo que tornou-se a minha vida. Mais do que isso, eu não só lancei livros, eu acompanhei carreiras. Autores. Autores, assim, todos os anos que um autor lançava o livro, ia para Belo Horizonte. Rui Castro, Fernando Moraes, Lenin Ventura, e uma sequência gigantesca.
de autores brasileiros que encontravam no meu trabalho em Belo Horizonte uma forma de divulgar. Casa também, uma murada também. Até que encontrei os escritores portugueses no meio do caminho, né? Eu levei o Mia.
Couto a Belo Horizonte, quando ele tinha um livro publicado, tinham pouquíssimas pessoas na plateia. E agora, imagino. Depois veio Walter Hugo, Zé Luiz Peixoto, Afonso Cruz, Walter Hugo e todos e todos os grandes escritores. Agualusa. Vieram nessa corrente, porque não por minha causa, mas porque o público brasileiro recebeu de braços abertos os escritores portugueses da contemporaneidade. No entanto...
Tem explicação. As pessoas às vezes me perguntam, mas por quê? Porque nós fomos educados com essa de Queiroz. Também, não é? Eu li Camões na minha escola primeira, não é? Fernando Pessoa logo depois. Então, nós temos esse traço da mentalidade da literatura portuguesa na nossa natureza. Porque o escritor português é mentalmente diferente do escritor brasileiro. É incrível. Entendeu?
Ele tem o brinco que é vida interior. O vida interior é uma brincadeira, uma metáfora de brincadeira. Mas ele tem uma vida interior interessante, na qual ele consegue escrever sobre uma história, como o Saramago fez milhões de vezes, mas também se dedicar ao seu contexto interior. Já o escritor brasileiro é bom de contar a história.
o Grano de Sertão Veredas, Graciliano Ramos, o próprio Machado de Assis. Apesar de que eu brinco que Machado de Assis não é um escritor brasileiro. Eu acho que Machado de Assis é um escritor europeu. É por isso que ele é tão aceito no mundo inteiro. Por quê? Porque a estrutura...
O edifício do livro que se forma em Machado de Assis é influenciado totalmente pela literatura europeia. Europeia. Em geral, franceses e tudo. Por isso que ele tem tanta facilidade. Ele é tão facilmente lido. Ele também é mental.
A chave de Assis é mental. É mental também. Falou do José Saramago. Sei que o José Saramago esteve em dois eventos seus duas vezes, ou quatro vezes, mas esteve antes de ganhar o Nobel e depois de ganhar o Nobel. E esta história do aplauso que eu referia no início, quero contar-nos. José foi um grande amigo, José e Pilar, sempre foram grandes amigos, porque naquele momento que ele começou a fazer os lançamentos, estou falando de 88, 89, lá no Brasil, junto com a Companhia das Letras.
O Belo Horizonte está no circuito de lançamento da Companhia, por sinal, a Companhia das Letras tem a mesma idade do Sempre um Papo. As duas têm 40 anos. Nós crescemos juntos. Eu tenho o Luiz Schoar, que é sempre um grande parceiro de vida e de trabalho. E José foi lançar os seus livros comigo. E a primeira vez que ele fez, da primeira, foram quatro.
Eu entrei, o Palácio das Artes em Belo Horizonte tem quase dois mil lugares. Pois é, grande. Eu fui ver as fotografias, sim. É muito grande, né? E estava lotado. Eu entro primeiro, apresento o autor e depois o autor entra. Só que o palco é aquele palco de 16 metros, faz ópera ali. É muito grande. Isso é grande. Então eu apresentei e na hora que ele entrou, as pessoas se levantaram rapidamente, mas ela batei palma e o José parou.
Eu não estava lá, estava na entrada. Entra. Eu falei, entra. Ficou esse parado. Fui lá. José, vamos. Está parado aí. Ele ficava cumprimentando as pessoas ali, agradecendo. Ele pegou o meu braço forte e falou assim, Afonso, é a primeira vez que eu sinto o vento das palmas. Ah, que bonito, não é? Que bonito, não é? Que bonito. Aí eu levei ele para a mesa e ali começou.
O debate. O debate. Mas o José era uma pessoa muito amiga. Tanto que depois que ele ganhou o Nobel, a primeira vez que ele falou, falou que quer ir ao Brasil, mas o primeiro evento vai ser lá com o Afonso em Belo Horizonte, onde ele lançou a caverna. Mundialmente foi o primeiro evento. Mas eu tenho muita história muito engraçada com o José. A primeira vez que ele chegou em Belo Horizonte, eu tinha um carro muito ruim, um gol dupla carburação, álcool, aquele que explodia durante o caminho.
E aí sentou, cheguei no aeroporto, pegou, sentei ao lado. Sentou-se José. E eu tinha um telefone celular daqueles que matavam alguém grande, Nokia, lembra? Sim, claro, claro. O que parecia um tijolo? É, um tijolo. E eu tinha já um auricular. O primeiro auricular que apareceu, você colocava ali, colocava no ouvido e tinha um microfone.
Ninguém tinha filho, mas eu já tinha. Aí entrou no carro ele, boletou-se a Rutilana, que é hoje mulher do Milton Atum, que era assessora de comunicação, o Schwartz. Tudo mundo pequeno, apertado. Mas e aí, toca o meu telefone e era para o José. Aí era urgente o José. Eu peguei o telefone, eu estava dirigindo, falei, põe no ouvido e fala.
Ficou olhar para o auriculo. Olhar para aquilo. Falei, põe no ouvido que eu estou dirigindo. Estou aprendendo a dirigir. Depois do teu ouvido, falou. Era realmente um assunto bem urgente. E depois que terminou, falou. Mas Afonso, o que é isto? É milagre? Aí eu falei, ô José, você é ateu como é? Perguntando se existe milagre? Me poupe, né? Aí o pessoal que estava dentro do carro deu aquela gargalhada.
Ficou um pouco assim, amuletado e virou para mim e falou assim, mas devia ser um milagre. Eu falei, ah meu Deus do céu, eu vou fazer aquela pergunta que não se faz. Por quê? Não pode fazer pergunta por quê, porque se sabe que você vai tomar uma resposta mal criada. Ele falou, porque se fizéssemos este, faríamos outros.
Exatamente. Todos calados dentro do carro. Todos calados, claro, silêncio, não é? Afonso. Uma das muitas e muitas histórias. Uma das coisas boas que a internet e as redes sociais trouxeram foi esta proximidade também entre autores e entre escritores e poetas. Nós temos muita noção aqui em Portugal que, por exemplo, o Instagram é um veículo de cruzamento entre...
a poetas brasileiros e poetas portugueses. Há muitos poetas portugueses a publicar no Brasil atualmente, até em pequenas editoras, e vice-versa a mesma coisa. Há autores brasileiros a publicar em Portugal, em várias editoras de poesia, e com os escritores de ficção a mesma coisa. Tem noção de que o público brasileiro conhece cada vez melhor a literatura portuguesa? Tem, cada vez melhor.
Não só porque as redes sociais tentando criar um espectro bem positivo, elas funcionam muito bem para divulgar a literatura, como não funcionam para divulgar qualquer coisa. Mas sabendo bem divulgar, sabendo bem fazer um contexto de divulgação de literatura de qualquer natureza, funciona muito bem.
E você disse bem, não só as grandes editoras, mas a Dublinense, por exemplo, que é uma editora do Rio Grande do Sul, uma editora, de certa forma, pequena, publica Afonso Cruz. Todos os livros do Afonso Cruz estão lá. O Afonso é muito gostado no Brasil, não é? Sim. Como o Walter Ugman também, não é? Publica Peixoto, publica outros autores novos portugueses que estão sendo...
colocados lá. Também a Editora Nós, lá do Brasil, tem publicado também alguns autores, agora publicou dois livros do Gonçalo. O Gonçalo Leme Tavares. Acabou de publicar dois e publicou a Ruth Simões Ribeiro, que é a minha editora daqui da Editora Nós Portugal já há muito tempo. Ruth é uma escritora premiada e tudo. E vem publicando de forma bastante...
brasileira quer publicar um bom autor português. Mas sente que o público recebe bem a literatura portuguesa? Sim. Lá nos seus festivais tem essa ideia? Sim, sempre. Todos os autores que eu me referi agora já foram aos meus festivais. Todos. Em momentos mais longevos, como o próprio Agualuza, que foi lá em 2011, 2012, quando eu comecei o projeto em Araxá, como até recentemente. Ano passado, o Walter U, foi homenageado para Catur, depois Mia Couto.
E sempre vão. São mais do que isso, são bons amigos. Não é só uma relação... Isso é que eu acho que é, que eu fico brincando, que o meu patrimônio não é financeiro nem físico. O meu patrimônio é absolutamente abstrato. Imaterial. São os meus amigos. Sim. E todos esses escritores pelo mundo afora, especialmente no Brasil, é o meu patrimônio. Esses festivais, como é que falaríamos deles para o público português que não os conhece?
Bem, meus festivais são festivais caracterizados por forte tendência conceitual. Não são festivais como alguns que simplesmente apresentam autores e livros. Não. Eles trazem contextos, trazem conceitos, tem tema. São temáticos, não é? São temáticos. Não que o autor tenha que chegar lá e falar do tema, não. Mas ele sabe para onde vai. Vou dar um exemplo concreto.
O festival agora, que vai acontecer em 14 de maio, é só o exemplo que ilustra tudo que eu faço. Vai ser uma homenagem ao geógrafo Milton Santos, um dos maiores geógrafos da história da geografia mundial, que comemora 100 anos, falecido já. E o tema é Meu Lugar no Mundo, derivado de uma frase dele geográfica.
Então, eu convoco os estudantes nas escolas de 4 a 18 anos a fazer uma redação sobre o seu lugar no mundo. Entende? Quer dizer, o autor que sai de onde for, como vai o Agualuza, para lá agora, ele é o autor homenageado dessa edição, ele já sabe para onde vai, já sabe como caminhar, já sabe que quando sentar na cadeira e tiver o público à frente, ele tem um ponto.
de fala, mesmo divulgando o seu mais recente livro, Tudo sobre Deus, que agora vai ser lançado. Claro, ele vai divulgar, ele vai falar sobre o livro, mas ele sabe o que tem. Além disso, tem alguns pontos que eu não abro mão, que é o cuidado e a atenção e o respeito ao autor. Não é um festival no qual o autor vai, faz uma palestra e vai embora. Essa pessoa não me interessa. Ele tem que ficar os quatro dias, tem que conviver conosco.
e ali receber todo o carinho e afeto e atenção que nós temos para dar para ele. Você pode perguntar para todos os autores brasileiros, ou nacionais, ou portugueses, o que é participar de um evento. Meu, não tem improviso. É cuidado do início ao fim. Todos recebem honorários.
Todos. E é uma ideia, como dizia agora, que promove o encontro. É mais do que uma exposição da obra ou do autor. É uma troca, não é? E aí saem livros conjuntos, ideias conjuntas, momentos. Projetos, saem outros projetos. Os autores se conhecem, se entendem, saem dali e são amigos para a vida toda. Se encontram ali.
Não é uma feira literária, não é um lugar de venda de livros, apesar de acontecer a venda de livros. Claro, faz sentido. É mais do que isso. O festival literário, na minha opinião, é um evento no qual se comprova que é possível incentivar a leitura e mudar vidas. Mudar vidas. Sem dúvida. E eu vejo isso a cada edição desde que eu comecei a fazer mais do que isso, sempre um papo. Um exemplo.
Exemplo, o momento mais interessante. Eu não sou uma pessoa que fica escondida. Eu fico no palco, faço a apresentação e depois, às vezes, vou lá para fora cumprimentar as pessoas. Todas as pessoas do auditório, ou seja, tenham 40 lugares ou mil, saem me agradecendo. Muito obrigado por sair daqui. O meu prêmio é o olhar das pessoas no final.
É perceber que custaram, não é? Que aprenderam qualquer coisa. Que aprenderam qualquer coisa. Ficaram curiosas em relação a qualquer assunto. Estava eu fazendo o lançamento de um livro em Belo Horizonte há alguns anos.
uma professora conhecida em Belo Horizonte da Letras, pós-graduada. Ela veio e falou assim, Afonso, há muito tempo que eu quero fazer isso, eu consegui fazer agora. Este é meu marido e esses são meus dois filhos. Eu era professora da rede municipal em 1988.
quando assisti o debate de Zuenir Ventura e Herbert de Souza, no Palácio das Arças em Belo Horizonte, onde ele lançou 1968, um ano que não terminou. Naquele momento, ouvindo Zuenir Ventura, eu saí dali, fui fazer pós-graduação, fui fazer mestrado, entrei na universidade, conheci meu marido, e estão aqui meus dois filhos, eu vim aqui te apresentar. Essa pessoa decidiu fazer uma coisa depois de assistir a uma conversa que o Afonso organizou. O que é isso, no fundo?
É a ancestralidade do poder da fala. Eu não inventei nada. Sim. Entendeu? Contar uma história. Contar uma história, falar na sua vida, explicar o que aconteceu na sua vida, ou mesmo falar do livro. Existe ali algum momento, na fala do autor, que dispara um...
uma sinapse, um sensor, uma sensibilidade que estava guardada, ou adormecida, faz a pessoa mudar. É incrível isso, e eu posso até extrapolar para qualquer coisa. No fundo, é uma sala de aula. No fundo, é educação. Também é verdade, no fundo, é educação. O que é que esse si o fez mudar? O rumo?
Eu? Sim, estava no jornalismo, chegou a fazer matérias normais. Eu acho que a vida me fez mudar o rumo naquele momento em que eu estava tocando violão para sobreviver. Eu vivia disso, eu não era informado no jornalismo. E ali surgiu a oportunidade de conversar com o autor. Então, nesse momento do contato com o autor, não só com o livro, eu vislumbrei uma possibilidade até mesmo financeira.
de carreira, diferente daquela que eu vinha estudando. Porque em Belo Horizonte, na cidade, capital de Minas Gerais, é conhecida pelos autores que saíram de lá. Você imagina, Carlos Drummond de Andrade fez o curso de farmácia em Belo Horizonte e foi para o Rio de Janeiro trabalhar em 1930. E aí eu posso fazer uma sequência incrível de escritores que saíram de Belo Horizonte para se formar.
20.
Falou no Carlos Drummond de Andrade e um dos poemas que o Afonso escolheu para termos aqui conosco na conversa é o poema A Máquina do Mundo. Ele ainda é um bocadinho grande. Quero escolher alguma parte para ler, Afonso? E depois dizemos porquê que gosta. Nossa, eu conheço esse poema quase de cor. Para mim é o maior, é o melhor. Eu vou exagerar. Para mim, Máquina do Mundo é o melhor poema da língua portuguesa. Ah, é? Escrito em 1952.
no livro Claro Enigma, onde Drummond prepara o autor, o leitor, o livro inteiro para este ser o último livro, onde ele faz, como o próprio livro, o título diz, uma espécie de previsão, previsão em 1950, que o mundo estaria à mercê das máquinas. Vamos ouvir, vamos ouvir. É um livro maravilhoso, um poema maravilhoso.
E é um poema muito difícil de ser falado. Vamos ver se eu consigo aqui, vou ler o final. E é um poema mineiro, é de Minas Gerais. Mas como se eu relutasse em responder ao tal apelo assim maravilhoso, pois a fé se abrandara e ao mesmo tempo o anseio, a esperança mais mínima é esse anelo de ver desvanecida a treva espessa que entre os raios do sol ainda se filtra.
como se defuntas crenças convocadas presto e fremente não se produzissem, a de novo tingir a neutra face, que voo pelos caminhos demonstrando, e como se outro ser, não mais aquele habitante de mim há tantos anos, passasse a comandar a minha vontade que, de si volúvel, se cerrava semelhante a essas flores reticentes, em si mesmo abertas e fechadas, como se um dom tardio.
Já não for apetecível, antes despiciendo. Baixei os olhos, incurioso, laço, desdenhando colher a coisa oferta, que se abria gratuito ao meu engenho. A treva mais estrita já pousaram sobre a estrada de Minas pedregosa, e a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente recompondo, enquanto eu...
avaliando o que perdera, seguia vagaroso de mãos pensas. De mãos pensas. Quer dizer, esse poema contém uma profundidade literária, poética, e ao mesmo tempo é uma profecia.
sobre o que vem por aí, de uma pessoa que escreveu isso em 1950, quantos anos depois? Nossa, sei lá, 75 anos depois. E eu estou dizendo isso não por mim, houve votações por aí que elegeram a Máquina do Mundo no meu lado dos poemas.
Há um poema do Carlos Drummond de Andrade, que é também muito conhecido, que é o No Meio do Caminho, e eu ouvi uma história sobre o que se pensa que pode estar na origem desse poema, que tem a ver com Belo Horizonte e com o percurso que o Carlos Drummond de Andrade fazia, não é? Ele morava em Belo Horizonte na época, ele saiu de Itabira, novo, casou, morou em Belo Horizonte, formou-se em farmácia em Belo Horizonte e dali saiu em 1930. Então, esse poema seguramente foi feito, escrito.
quando ele estava em Belo Horizonte. Então tem umas versões divertidas, como Humberto Werneck, que possivelmente você vai conhecer, é o biógrafo dele, está terminando a biografia, dizia que no fundo o meio do caminho era uma pedra nos rins que ele tinha. Outro era no meio do caminho, porque ele morava num bairro que chamava Floresta e trabalhava na imprensa oficial do Estado, que é um percurso que ele fazia a pé. E nesse percurso...
do viaduto normalmente descia durante o dia altíssimo. Mas no arco, portanto, uma espécie de arco mesmo construído... Construído, um arco do viaduto, da estrada. Em cima do nível do viaduto e ele subia. Então, assim, existe também uma brincadeira que foi nesse percurso que ele inventou essa pedra no meio do caminho aí.
Mas não importa, é um poema perturbador, escrito possivelmente em 1914, 1915, e que até hoje perturba. É, até hoje perturba e faz refletir, não é? Porque todos nós encontramos pedras no caminho. O seu percurso é um percurso bem-sucedido, digamos assim, a vida está a correr-lhe bem, não é? Teve pedras no caminho? O tempo inteiro. Então? Porque, veja bem.
caindo a realidade, independente do que hoje eu consigo. Eu faço eventos com entrada franca, não cobro nada de ninguém, desde 1986. Então eu dependo de patrocínios, dependo das empresas, e hoje no Brasil existe a Lei Rouanet, que as empresas deduzem do seu imposto de renda a pagar um valor e investem em projetos culturais. É uma lei...
exitosa, perfeita, a cultura brasileira só trabalha com ela praticamente há tantos e tantos e tantos, mais de 30 anos. Então, todo ano eu brinco com o comércio de novo. Porque nunca se sabe, não é, se vai ter patrocínio. Não existe continuidade porque é uma lei que trabalha com o exercício fiscal da empresa, o exercício fiscal é anual.
Então, todo ano a empresa, ao final do ano, faz uma avaliação fiscal das suas rendas. E se tiver lucro, patrocina. Se não tiver lucro, não patrocina. Entende? Portanto, por exemplo, como ilustração, estou dando essa fala a primeira vez que eu falo isso. E agora, aos 40 anos de trabalho em Belo Horizonte, eu estou sem patrocínio.
Não estou fazendo pela primeira vez em 40 anos. Porque não tem uma empresa. As empresas que me patrocinavam não patrocinam mais. E agora como é que vai resolver? Olha, eu sou budista. Ah, e é budista? Eu sei que tem três oratórios em casa, não é? Tem. Então. Um de cada natureza. Mudista, um católico e um banto. Banto. Banto é macumba. Macumba, muito bem. Um banda, candomblé. Sim, candomblé. Eu sou um pouco de tudo.
Sou um pouco de todos misturados, me dou muito bem com todas as tradições. Mas eu gosto muito do budismo nesse momento. É aquela parábola budista, né? Que o budista, quando brigou com o vizinho da parte de cima, que colocou veneno na sua água, envenenou todo o seu pote, ele sentou na beira do rio e esperou o cadáver do inimigo passar. Então eu continuo sentado ali, esperando os acontecimentos.
A ver o que acontece Outra das suas escolhas, Afonso Aqui para a nossa conversa é do Mário Faustino É um poema bonito Pequenino, chamado Breve Elogia Eu vou ler, pode ser? Posso terminar ele? Pode, claro
Entrega-me nos sonhos recifes, reais onde divisa a tua fuga. Nenhuma madrugada traz nos braços relíquias de uma lua que adoramos. Nenhuma madrugada traz nos braços relíquias de uma lua que adoramos. Você entende essa frase? É aquela coisa de você, às vezes, sonhar com coisas que nunca viveu.
Isso, se você traz a materialidade da sua vida, é uma reflexão fundamental, porque às vezes a gente entra num processo de esquizofrenia, de querer coisas na vida que não são reais à sua maneira, mas você vive aquele luar que você nunca vai viver. E isso, se você transporta para o amor, é totalmente explicado. Tem gente que gosta de gente que não gosta dela.
Tem dias de casamentos que duram 40 anos, a pessoa sabendo que não gosta, mas continua vivendo com a pessoa. Quantas pessoas você já viu isso na nossa vida, né? É isso, a pessoa... Olha o tanto que um poema pode contribuir para a sua formação. Pode ler. Vamos lá. Só ardem neste sono os sírios da memória e do desejo, e turvos, na memória revolta, são teus gestos, os únicos repletos de perdão.
É preciso esquecer tanto amar, tanta amarga expiação de tudo o que guardamos, por não sabermos dar. E obscura pelas vagas do leito, tua sombra, nenhuma outra é digna deste abraço. Pudesse eu divagar pelos bosques teu reino, mergulhar contigo em tua fonte, ou ascender ao teu éter contigo, ao teu mistério, mas não há via larga rumo à noite.
Então, luz após luz remota, um sol atroz atira-me do sonho aos recifes reais, de onde diviso tua fuga. Jamais, a madrugada traz nos braços relíquias de uma lua que adoramos. Sua cara. Deu para entender? Sim. Uma luz. Sol atira-me do sonho aos recifes.
Olha que coisa interessante, o sol não é a noite, não é a dúvida, não é o momento, é o sol. Fica emocionado, fica emocionado, Fonso. Emocionas com a letradura? O Fosso Tino morreu em 1962, no ano que eu nasci, no acidente de avião. Antes teve uma trajetória brilhante, ele é do Piauí, no estado do Nordeste.
Brilhante no jornalismo, ele fundou alguns cadernos literários durante a década de 50, final de 60, trabalhando no Rio de Janeiro. Tem pouquíssima produção literária, dois livros de poema só, alguns artigos de jornal, que lamentavelmente morreu muito cedo. Mas tem uma poesia que traz a marca de Fernando Pessoa, para ele, não preciso dizer, as metáforas de um surrealismo todo presente.
Ao mesmo tempo agarrado no real. Gosta dessa poesia agarrada no real, para usar a sua expressão. Gosta. Vamos continuar nas suas escolhas. Agora, o Afonso escolheu um poema de Tiago de Melo Chega um dia. Sabe um bocadinho, não é? Para nos dizer. Sim, eu gosto muito desse poema. Ele é curtinho. Mas o final dele traz uma coisa que me marcou muito. A poesia, exaustivamente, mundialmente, tem até... Já disse.
e tantos e tantos outros ficam nessa tentativa. E, obviamente, nenhum deles consegue e nem conseguirá. No entanto, o poeta Tiago de Mello, autor dos Estatutos do Homem, um poeta amazonense, um grande, gigante, que, por sinal, completaria 100 anos esse ano, Tiago de Mello, ele fecha um poema dele com esse conceito que não é de amor, mas é de força.
Ele diz que força é saber amar doce e constante, com encanto de rosa alta na haste, para que o amor ferido não se acabe na eternidade amarga de um instante.
Ou seja, no fundo é um apelo à ideia, é uma proposta para continuar a amar. O difícil é continuar a amar, é isso? Mais do que isso, ele faz uma revelação ao final que é o seguinte, não sei se você teve essa experiência, mas eu já tive. Às vezes um instante acaba o amor. Claro.
Em um instante Um outro poeta Cassiano Ricardo Poeta importantíssimo Pena que muito pouco valorizado no Brasil Falava também dessa coisa do instante Que eu vou tentar lembrar Ok, daqui a pouco já se lembra Há esta O Lawrence Ferlinghetti da geração beat norte-americana Tem um livro que são só assim Pequenos versos ou pequenos aforismos Não foram os anos Não Não
que me envelheceram lentos, tristes, sem frutos. Foram alguns minutos. Ah, lá está. Cassiano Ricardo. É bonita essa ideia? É bonito. Francisco Iglesias, um grande historiador, primeiro de Belo Horizonte, ele falava, Afonso, não foram os anos não que me envelheceram, longos, lentos, sem frutos. Foram alguns minutos.
alguns minutos. Você se lembra, às vezes a gente enferece em instantes. Sabe qual é o minuto? Às vezes até sabe, não é? Enfilece em instantes. Eu fiz uma entrevista com o Chico Buarque, raríssima entrevista, lá na década de 80. E na brincadeira da entrevista, vários jornalistas fazendo a entrevista e brincando sobre essa coisa da delícia. Aí o Chico contou que ele lembra a hora que ele envelheceu. Sério? Ele falou que foi a primeira vez que a Silvia, filha dele.
Chegou tarde, não dormiu em casa, dormiu fora de casa. Ele e a Marieta ficaram na sala esperando ela até de manhã e disse que ouviu o primeiro cabelo branco dele nascer.
E faz sentido, não é? Eu tenho três filhas, o meu é muito. Faz muito sentido essa espera, envelhece, claro. Mas há outras. Lawrence Ferlinghetti, o poeta norte-americano da geração Beat, tem uma frase, um verso que diz, tal como a poesia... Tal como...
Algumas pessoas os poemas têm falhas fatais Concorda com isto? Isto às vezes pode ser Uns minutos e pode ser uma falha Que o amor pode acabar É por isso que tem um encanto Da poesia interminável Por que se faz poemas até hoje? Gente, se você lê Fernando Pessoa Você não tem vontade de escrever mais não Pois, pode ser desanimador Ainda mais todas as frequências Sim, os heterónimos Que o Fernando Pessoa É por isso que o Fernando Pessoa
lida, convive. Então, o grande segredo está aí. Essa fatalidade. É o que nos move. É o que faz a gente conseguir escrever. Mas concorda com esta ideia que, tal como as pessoas, os poemas têm falhas fatais? Concordo. Pode acontecer, não é? Pode acontecer. E ainda bem. Por quê? Porque se não fosse essa fatalidade, a gente não escreveria.
Continua a escrever poesia. Este livro que trouxe, que também tem poemas, este livro que acaba de publicar em Portugal. Muito estranho, né? Porque aconteceu o seguinte, tem contos, mas tem poemas, então. Porque eu escrevo, como eu te disse, desde 16 anos, então um dia um editor me vinha e me dizia, Afonso, você já está no momento de publicar uma antologia poética, 40 anos de poesia, 45 anos. Eu falei, muito boa ideia. Vou reler os meus poemas, eu já tinha 7 livros publicados, e vou fazer uma coletânea.
Ótimo, pois eu relio os meus poemas. Quatrocentos, quinhentos poemas, afora os livros.
Um horror. Não gostou. Um horror. Como poderia, como eu tive a capacidade de escrever tanta coisa ruim. A cada um que eu li, eu rasguei 500 poemas. É sério? Queimei no computador para ninguém ter problema. Para ninguém encontrar. Mas separei cinco. Guardaram este. Esses cinco poemas eu assino. Mas também, se você vai olhar, tem poemas aí que eu escrevi quando eu tinha 17 anos. É sério? Esse Piscina do Muro.
Eu tinha 17 anos. Vamos lá procurar o Piscina do Mundo. Convive comigo desde então. Ah, é bonita essa ideia. Quer ler, por favor? Vou ler você. Então, vou ler, como é que se diz? Sem ter treinado antes. Piscina do Mundo. E fico reinventando sonhos morosos, planos de conquistas em gerúndio, à noite, tempo, solidão, não passam. Fico abstrato como leito de rio, manso,
Cavando olhares na turba, envelhecendo na província de Marquises. Assentando meus cadáveres lado a lado, aguardo sereno fugirem de mim, a rede, o traço, e entre luas continuo retirando corpos esbranquiçados da piscina repleta. Suscitando lembranças vagas, os dias passam sobre o meu corpo.
pele sobre ossos. E, Deus, quero, enfim, solidão e marasmo das ilhas do Atlântico Sul, dos navios de guerra, frações de segundo, antes do bombardeio. Sabendo a criação, a serção do desequilíbrio, faço versos em moto contínuo e avanço, tácito, à piscina do mundo.
Depois, descansar nos versos de Cardenal, tubérculos da inconsequência. É isso. É este? É este que eu gosto. Este gosta? Escreveu quando era jovem? Ernesto Cardenal, né? Sim, sim, Ernesto Cardenal, claro. O ueta do ueta, claro. Escreveu este quando era jovem? Pois é. Agora, o que é que tem isso? Se você faz uma contextualização, era um momento de guerra no mundo. Eu acredito que...
foi uma das guerras, não o Vietnã depois, uma das guerras dos Estados Unidos, destruindo. E essas referências que eu faço são resultado de leitura mesmo das piscinas repletas de corpos, dos túneis nos quais as pessoas fazem até hoje no Irã para sobreviver. E tem essa carga, já que você falou da questão de fatalismo, tem essa carga fatalística.
de fim de mundo mesmo. De fim do mundo. E é como esses poemas que eu escrevi naquela época, onde a questão da guerra fria colocava muito à nossa frente a questão do nuclear. Eu tenho vários poemas nessa faixa. Está presente hoje na vida da gente. Fico abstrato como leito de rio manso.
Cavando olhares na turba. Você percebe isso? Você já olhou andando na cidade, procurando olhares das pessoas e vendo os olhares das pessoas? E que cada pessoa tem um olhar que pode representar um novo universo? Sim, claro. Incrível isso, não é? O António Ramos Rosa tem um verso que diz Um encontro é um princípio de universo. Que legal. É muito bonito, não é? É muito bonito isso. É muito bonito.
Vamos continuar nas suas escolhas, estamos a aproximar-nos do fim. Agora, o Afonso escolhe o poema sujo de Ferreira Goulart. Temos de dar contexto, não é? Foi escrito quando Ferreira Goulart estava no exílio, na Argentina, em plena ditadura. Ele estava no exílio por causa da ditadura. E é sim um poema bandeira também, do Brasil, não é? É muito grande um poema, um poema muito grande, mas que ele representa um momento...
digamos recortado da vida brasileira um recorte da vida brasileira mas é a Ferreira Goulart sendo Ferreira Goulart um adeus é assim um poema muito grande mas podemos escolhe um pedacinho mais para o fim porque ele é um poema livro é um livro vamos então aqui ao fim se calhar escolher só um bocadinho porque é uma espécie de viagem que este poema nos propõe
A cidade está no homem, mas não da mesma maneira que um pássaro está numa árvore. Não da mesma maneira que um pássaro, a imagem dele, estava na água. E nem da mesma maneira que o susto do pássaro está no pássaro que eu escrevo. A cidade está no homem, quase como a árvore voa no pássaro que a deixa. Cada coisa está em outra, de sua própria maneira e de maneira distinta de como está em si mesma.
A cidade não está no homem do mesmo modo que em suas quitandas, praças e ruas. É muito bonito. É interessante que o Afonso Ávila, grande poeta mineiro, dizia que a grande lição de escritor é criar o próprio estilo.
A criação, a invenção. Nós sabemos, lemos e sabemos, é daquela pessoa. Este Ferreira Goulart não precisa dizer. Já se sabe que é dele. Você leu e ouvia Ferreira Goulart falando. A dizer. E para terminar, Afonso, traz um poema de Afonso Romano de Santana, chamado Que País é Este? Que também é um poema grande, não é?
Muito grande. Mas quer ler só o início? Sim. Por exemplo? Não sei se você viu, a ministra Carmen Lúcia, no seu voto para a prisão do Bolsonaro, citou este poema. Porque eu a convidei uma semana antes para falar sobre um projeto que eu tenho em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, no Museu do Amanhã, que se chama Palavra Acesa. O que é esse projeto? Eu gostaria muito de contar isso para você. Claro que sim. O projeto Palavra Acesa...
Ele não fala de autores nem de livros. O que eu faço normalmente. Você for ao Brasil, eu quero lançar o seu livro. Não. É um projeto que fala de um poema. Então, eu escolhi, por exemplo, que país é esse, e convidei Chico César, cantor, e a ministra Carmen Lúcia, para conversar sobre esse poema.
Que bonito! Essa ideia é muito bonita. Ele está no meu YouTube do Sempre um Papo. Os quatro eventos que eu fiz ano passado lá, todos sobre poemas. Vinícius de Moraes, Afonso Romano de Santana, Drummond, que é no meio do caminho. No meio do caminho. E um poema sobre Conceição Evaristo. Ah, da Conceição Evaristo. Está lá. Aliás, faço até um chamado.
O meu YouTube do Sempre um Papo hoje tem 1.800 programas de TV gravados em vídeo, de uma hora a cada, disponíveis para ser assistido. Podemos ir lá ver muitas conversas, não é? Maratona é a vida inteira, que é a maior, seguramente, o maior acervo de literatura brasileira e portuguesa que se tem notícia no Brasil. Tudo lá. Então, só o início deste poema. Uma coisa é um país, outra coisa é um ajuntamento.
Uma coisa é um país, outra um regimento. Uma coisa é um país, outra um confinamento. Mas já soube datas, guerras, estátuas, usei caderno Avante e desfilei de tênis para o ditador. Vinha um berço esplêndido para um futuro radioso e éramos maiores em tudo, discursando rios de pretensão.
Ou seja, é um poema que faz uma crítica à ditadura em plena ditadura. Esse é um poema de 1974, o auge da ditadura. É um poema longo, que Afonso Romano, que é mineiro, de Juiz de Fora, mais um mineiro, faz uma longa reflexão sobre a repressão, sobre a opressão e a importância da poesia.
Só mensagens que nos deixa aqui, não é Afonso? Mesmo antes de terminarmos como é que apresentava este seu livro de contos aos ouvintes portugueses aqui do podcast e brasileiros também, que também ouvem.
É um livro de contos no qual todas as histórias têm uma base real. É muito curioso, porque é uma estrutura em histórias que eu vivi desde o momento que eu fui no interior de Minas, eu sofri uma emboscada e mataram as pessoas e colocaram no chão, até quando eu trabalhava no jornalismo, no Instituto Médico Legal, fazendo cobertura, até momentos extemporâneos, como fui à Turquia, nas grutas de Gerem e ali.
ouvi uma história da pessoa que pintou as grutas de Goreme, os bárbaros quando invadiram não tiveram coragem de destruir pela beleza, mas riscaram todos os olhos. Até outra em Cartagena? Até em Cartagena. E até um pensamento que está em um sinal, quando está em um sinal vermelho, não é? Está em um ônibus. Exatamente. Eu gosto muito desse conto. É a coisa do instante. Um segundo parado olhando. Mas esse é curioso, porque a moça que estava ao meu lado...
Eu ia abordar ela porque eu conhecia ela. Eu sabia que conhecia quando eu vi um outdoor era ela.
E ela estava ao seu lado. Mas ela estava ao seu lado. Sempre precisa fazer da memória, como é que a memória te trai. Para quem não o conhece, podemos dizer, Alexandre não conhece a sua escrita, que são contos, eu acho, que, digamos, herdam alguma coisa do jornalismo, no sentido em que são incisivos, frases curtas, muito objetivos e rápidos. Há aqui uma ideia de rapidez, mesmo a ler, não é? Síntese ao máximo. Sintética, é verdade. O nosso prof.
Profundamente trabalhados. Sim, acredito. Anos e anos. Acredito. Reescrevendo para chegar a essa carpintaria, essa lapidação de palavras. Eu brinco porque eu sou um lapidador de palavras. Vou só ler o início de um, o nove, que se chama O Calor, as pernas de Luísa e o segredo do jagunço, entre parentes, como a praia da paixão trouxe as almas e os asteriscos do mar.
Eric entrou no salão de beleza meio sem graça e foi logo se sentando. Instalado perguntou, posso ficar aqui um pouco? Preciso terminar a leitura deste livro. As oito ou nove mulheres se entreolharam espantadas. Mudas estavam, mudas ficaram. Até que uma senhora alta, obesa e oleosa a sentiu com a cabeça, nem um pouco satisfeita.
Com a cara enfiada no livro, passaram-se uma, duas horas. Tinha que sair dali, pegar uma carona. Duas semanas na Praia da Paixão, olhando Luísa, sem poder fazer nada, era insuportável. Duas semanas comendo sopa de tartaruga no jantar e bife no almoço. A carne de tartaruga é macia, saborosa e elegante. A carne de Luísa também. Mas são ambas incompreensíveis.
história que exatamente aconteceu assim na Praia da Paixão, lá na Bahia perto de Prado já adoro entrar num cabeleireiro para aproveitar o ar condicionado e poder ler era insuportável o calor numa cidade próxima, eu tinha que entrar naquele cabeleireiro
Mas para ler, entrar num sítio... Como fiquei muitas horas lá, eu terminei e falei gente, já que eu estou há muito tempo aqui, eu vou começar a contar a história para você. E contei as histórias de Grande Sertão Veredas. Exatamente, eu sei, percebe-se isso no conto. É belíssimo, essa ideia é belíssima. Tudo isso é real. Para terminar, Afonso, eu faço aqui umas perguntas sempre fixas no podcast e vou fazer-lhe também. A poesia serve para quê? Para nada, graças a Deus.
Graças a Deus por quê? Para nada. Mas graças a Deus, por que diz graças a Deus que não serve para nada? Porque só assim ela consegue invadir a alma da gente. Para si o que é um bom poema? O que tem a capacidade de te surpreender. Se eu lhe pedisse um verso de cor, qualquer poeta, qualquer poema, qual é o primeiro verso que lhe vem à cabeça? No meio do caminho tem uma pedra. Ah, Drummond.
Além da poesia, a arte e a cultura servem para quê? Serve, no meu entender, para transformar as pessoas. E transformam. E transformam. Última pergunta, o que é que o comove? Hoje, empatia. Está cada vez mais difícil. Obrigada, foi muito bom tê-lo cá. Eu que agradeço, foi uma delícia.
Este episódio teve autoria de Raquel Marinho, música de Mário Lajinha e desenho de Joana Batista.