Dia da Mãe: poema de Jorge Sousa Braga lido por Raquel Marinho
Para assinalar o Dia da Mãe, Raquel Marinho lê o poema Diário de Bordo, de Jorge Sousa Braga, publicado no livro O Poeta Nu, edição Assírio & Alvim.
É um diário, como o nome indica, do que pode ser a viagem do bebé dentro da barriga da mãe.
Raquel Marinho
- Poema Diário de BordoVisão do bebê dentro do útero · Sensações e desenvolvimento fetal · Relação mãe-bebê · Jorge Sousa Braga · Madalena
- Dia da MãeCelebração do Dia da Mãe
O dia da mãe assinala-se no primeiro domingo de maio, e este ano calha hoje, dia 3 de maio, e eu lembrei-me de vos ler um poema do poeta Jorge Sousa Braga, que está publicado no livro O Poeta Nú, edição Assírio e Alvim.
E o poema chama-se Diário de Bordo, está dedicado à Madalena e conta-nos uma espécie de diário intrauterino, portanto, do bebê dentro da barriga da mãe. É muito bonito. Diário de Bordo, à Madalena. Mãe, hoje abriu-se uma janela pela primeira vez, mas tudo o que pudeste ver foi um pequeno lago de águas adormecidas.
rodeado por margens de areia brilhante, um pequeno lago alimentado por inúmeros afluentes. Mãe, passou uma semana e o meu minúsculo coração agita já as águas desse lago. Estou agarrado à margem, vejo ao longe uma pequena boia, mas o medo impede-me de me afastar.
Mãe, porquê que andas tão enjoada? Passas a vida a correr para o quarto de banho, não toleras o cheiro a fritos nem o aftershave do pai. Espero que não enjoes do cheiro a jasmin. Por favor, não me confundam com um girino, embora não tenha nada contra as rãs e muito menos contra as libélulas que povoam os outros lagos.
Mãe, estou a ficar velho. Disseram-me que já deixei de ser embrião. Mediram-me a translucência da nuca e eu aproveitei para realizar algumas pequenas acrobacias.
Hoje, fiquei finalmente a saber que tinha ventrículos, pulmões, estômago e uma série de coisas mais, incluindo uns grandes lábios que quase pareciam bolsas escrutais. E eu que pensava que aquilo que tinha entre as pernas era uma rosa. Mãe, por que é que o meu coração bate tão acelerado? Por mais que tente, não consigo sincronizá-lo com o teu.
Mãe, só conheço a cor do crepúsculo. Estou morto por conhecer as outras cores do arco-íris. Mãe, hoje surpreendi-te quando te olhavas nua ao espelho, as mãos sobre o pubis segurando a barriga enorme. Mãe, às vezes os dias são um pouco monótonos, de forma que me entretive a fazer nós com o cordão umbilical.
Mãe, estás com umas olheiras enormes. Pelos vistos, não te deixei dormir. Passei a noite toda a deambular pelos recantos mais sinuosos do teu útero, a ver se descobria alguma água marinha. Mãe, podias ter colocado alguns peixinhos no líquido amniótico, já agora um beta e alguns escalares. E por que não alguns nenúfares?
Mãe, apetecia-me uma bebida diferente que não a minha dose diária de urina. Mãe, esta noite tive um pesadelo horrível. Sonhei que te tinham cortado os mamilos com uma lâmina de bisturi. Mãe, apetecia-me chorar, mas é difícil chorar assim debaixo de água.
Mãe, o que está a acontecer? O teu útero começou a contrair-se e as contrações vão se tornando cada vez mais frequentes. Mãe, o que é que eu fiz para me expulsares desta maneira? Mãe, a distância entre mim e ti não se mede em centímetros, mas em relaxes.
Este episódio teve autoria de Raquel Marinho, música de Mário Lajinha e desenho de Joana Batista.
Assírio & Alvim
O Poeta Nu