UOL Prime #121: O que ninguém te conta sobre Dercy Gonçalves
Dercy Gonçalves, estrela da comédia brasileira, foi testemunha de um século de transformações na história do entretenimento do país. Dezoito anos após sua morte, aos 101, a artista é resgatada por uma geração que não a viu no teatro, no cinema e na televisão, mas se sente atraída por suas opiniões fortes.
Nas redes sociais, cortes de vídeos da artista, repletos de palavrões e com críticas a homens e a políticos, são conteúdos virais. Um trecho de uma entrevista em que a artista diz ser violenta acumula 360 mil curtidas no TikTok.
É sobre a história de Dercy Gonçalves que José Roberto de Toledo conversa com a repórter Adriana Negreiros no novo episódio do UOL Prime. Adriana lança, em maio, a biografia "Dercy, a Diva Debochada" (editora Objetiva, 290 páginas.), em que retrata a personalidade complexa da artista, que teve uma vida marcada pela comédia e pela tragédia.
- Dercy Gonçalves: Biografia e LegadoComplexidade da personalidade de Dercy · Vida marcada pela comédia e tragédia · Críticas a rótulos como 'irreverente' · Origem em Santa Maria Madalena · Infância com perdas e pai violento · Sonho de ser cantora e tuberculose · Transição para atriz e comediante · Habilidade de improviso e adaptação de textos · Sucesso no teatro e ascensão financeira · Carreira na televisão e demissão da Globo · Relação com Boni · Legado como 'Diva Debochada' · Popularidade atual através de memes e redes sociais
- Prostituição Forçada e Exploração SexualDificuldades financeiras e prostituição · Relação difícil com sexo e violência sexual · Experiência com Eugênio Pascoal · Estupro em Londrina · Aversão ao sexo e conservadorismo na intimidade · Críticas ao feminismo · Oito abortos e a não sacralização da maternidade · Frase 'Cada um manda na sua xereca'
- UOL Prime e a Biografia de DercyLançamento da biografia 'Dercy, a Diva Debochada' · Reportagem de Adriana Negreiros no UOL Prime · Entrevista com José Roberto de Toledo · Conteúdo para assinantes do UOL
- Questão de privacidade de celebridades no BrasilExplosão da pornografia brasileira · Surgimento do pornô de celebridades · Alexandre Frota e o podcast 'Brasil para Maiores'
Dersi Gonçalves morreu aos 101 anos de idade em 2008 e ressuscitou 18 anos depois, na forma de memes, de uma peça de teatro de muito sucesso e agora de uma nova biografia.
Dercy sempre foi rotulada com uma palavra, em geral irreverente, alguém que falava muito palavrão, mas, como a biografia escrita pela repórter Adriana Negreiros vai mostrar, era muito mais do que isso. Era uma personalidade muito complexa que teve uma vida marcada não só pela comédia, mas também pela tragédia.
E é sobre isso que nós vamos conversar hoje com a repórter e colunista do UOL, Adriana Negreiros. Muito bem-vinda de volta ao UOL Prime, Adriana. Muito obrigada, Toledo. É sempre um prazer vir aqui conversar com você. Prazer é nosso. Eu sou José Roberto de Toledo e este é o UOL Prime. Toda semana a gente conversa com os melhores repórteres sobre as melhores reportagens do UOL.
Adriana, é muito difícil definir a Dersi Gonçalves numa palavra só, né? Inclusive, você conta na biografia e na reportagem sobre a biografia que você publicou no All Prime, que ela não gostava desses rótulos, né? Tem um especialmente que ela odiava.
Tem um que se você pronunciasse aqui, talvez você ouvisse um palavrão da parte da Desi, que é irreverente. Ela odiava ser chamada de irreverente e a todo momento era classificada assim pela imprensa. Por que exatamente que ela não gostava do irreverente? Era um reducionismo que ela apontava?
Ou a preguiça da imprensa de tratá-la? Era um misto de todas as coisas, Estolida. Era um reducionismo, de fato. Mas o que mais irritava a DC, que era muito irreverente, aliás, era o fato de que a palavra sempre fazia com que o que ela dissesse na sequência não fosse levado muito a sério. Então ela dizia assim, por mais que eu fale a coisa mais séria do mundo, houve uma época em que ela tinha uma...
um problema com o prefeito de Santa Maria Magdalena, que é a cidade onde ela nasceu, na Serra Fluminense, e ela tentava fazer uma série de denúncias contra o prefeito, mas sempre a matéria começava assim, a irreverente desse Gonçalves tem uma questão tal com o prefeito, aí ela dizia, ninguém leva a sério o que vem na sequência um irreverente. Então era uma queixa dela de que ela podia dizer as coisas mais sérias que fossem, mas sempre eram lidas em tom de piada.
Eu sugiro a gente subverter um pouquinho o roteiro e começar cronologicamente, né? Porque a gente conhece, como a Dersi viveu mais de um século, a tendência é as pessoas conhecerem a parte mais recente da vida dela. Mas o começo é um começo que por si só já valeria um livro, uma biografia. Conta um pouquinho pra gente de onde ela veio, por onde tudo começou, o que ela precisou fazer no início da carreira.
A Desi nasceu em Santa Maria Madalena, essa cidade, uma pequena cidade na Serra Fluminense. E ela, de uma família muito extensa, ela tinha nove irmãos, oito ou nove irmãos. E muito cedo, alguns desses irmãos morreram. Então, tanto que eu começo o livro com uma cena que é ela no ateliê do pai. O pai era costureiro, se dizer que era alfaiate, mas era mais um costureiro, em que ela estava velando o corpo de um dos irmãos que havia morrido afogado no rio. Naquela ocasião, ela tinha...
quatro irmãos vivos e quatro irmãos mortos. Portanto, eram nove os filhos ao todo. E a Desci, muito cedo, perdeu a mãe. A mãe resolveu sair de casa para tentar a vida no Rio de Janeiro e deixou os filhos todos com o pai, que era um sujeito muito violento, que cuidava dos filhos, mesmo de qualquer jeito. Então, os filhos eram criados ali uns com os outros, os mais novos sendo cuidados pelos irmãos mais velhos. E, muito cedo, a mãe da Desci, depois de ir para o Rio de Janeiro, morreu.
Então a DC foi criada de qualquer jeito. Só com o pai, pai violento, metade dos irmãos morreram tragicamente ou precocemente, e ela sai de casa com que idade?
Com 17 anos, ela resolve sair de casa. Ela tinha um sonho de ser cantora. Essa é uma história muito confusa, Toledo, porque o que a gente tem de referência sobre isso é o que a própria DC contava. E a DC fantasiava muito sobre a origem dela. O que era muito comum na época com os artistas, que criavam uma espécie de um mito de origem. Então, há várias versões para esse momento em que ela saiu de Santa Maria Madalena para tentar a vida como cantora.
Isso é década de 20, anos 1920. 1924 foi quando ela deixou Santa Maria Madalena.
para tentar ser cantora, e aí ela foi ser uma artista que fazia apresentações em pequenos circos, de pequenas cidades, uma artista mambembe, e ela compôs uma dupla com um cantor chamado Eugênio Pascual, e com ele ela fez uma série de apresentações, e era de forma muito precária mesmo, em circos de lona, nas pequenas cidades.
E o Eugênio Pascoal veio a ser o primeiro marido da DC. Não foi exatamente um casamento, mas foi o primeiro parceiro afetivo dela, logo depois de sair de Santa Maria Magdalena. Quer dizer, ela começa a carreira efetivamente como cantora. Ela, mal ou bem, debaixo da lona ou sobre a areia, estava cantando. E por que ela troca a vida de cantora pela vida de atriz e comediante?
Ela passou um tempo ainda como cantora, até que ela conseguiu chegar ao Rio de Janeiro e ela fazia apresentações ali na Praça de Heradentes, mas a DC contraiu tuberculose. Ela teve uma tuberculose que comprometeu as cordas vocais dela. Então, ao fim do tratamento, quando ela retornou ao Rio de Janeiro para tentar continuar com a sua vida de cantora, ela percebeu que a voz já não era mais a mesma.
Então, restou a ela tentar outras possibilidades. E ela sempre foi muito engraçada e muito rápida. E ela tinha ali, desde sempre, o tempo certo da comédia. Então, ela tinha uma rapidez de criar uma situação qualquer. E ela era um tipo que gostava muito de improvisar. Um pouco da herança dela de artista de circo.
Então, em algumas situações ali, ela inventava um diálogo qualquer ou introduzia um caco no espetáculo e as pessoas adoravam isso. Então, ela começou a perceber que isso era um valor por si só e que ela era realmente muito engraçada. Até o ponto que, depois de um certo tempo, ela começou a ser requisitada justamente para dar graça a esses espetáculos como comediante. Mas, na verdade, a intenção original dela era ser cantora, mas ela, infelizmente, teve que virar uma comediante.
Mais uma tragédia, quer dizer, a comédia entra no meio de uma tragédia dela perder a voz, a voz, pelo menos, a afinação da cantora. Na reportagem, Adriano, você conta vários episódios ao longo da carreira da Dercy em que ela não apenas inclui cacos, que são trechos diferentes dentro do roteiro, como ela chega a mudar o final.
De algumas peças, né? Ou seja, ela é muito mais do que uma atriz, não se endividuiu também o papel de atriz, mas ela é quase uma dramaturga do momento presente, né? Inventando o texto na hora. Qual é a questão de origem em relação a isso, Toledo? A Adécia era uma mulher que tinha habilidades muito reduzidas de leitura.
Ela estudou só até o terceiro ano primário, portanto ela era uma semianalfabeta. Quando o texto chegava a ela, ela não conseguia ler. Ela dizia, ah, eu vou tentar ler e eu durmo. Na verdade ela não conseguia compreender o que estava escrito ali. E qual era o recurso que ela tinha? Ela usualmente pedia para que alguém lesse para ela, ela captava o sentido geral daquela peça e no palco ela interpretava a seu modo.
Obviamente que os diálogos que ela deveria decorar, eles eram muito prejudicados por esse método peculiar da DC. E os atores com quem ela contra-assinava enlouqueciam, porque ela chegava e dizia... Então, tinha as famosas deixas do teatro, em que você diz uma coisa e o outro entra naquele momento, ou faz uma fala na sequência. As pessoas se perdiam completamente, e tinha o que ali era um espetáculo ao vivo e feito no calor da hora.
Quer dizer, ela improvisava não apenas para si, mas obrigando os outros a improvisarem também. Exatamente. Os outros tinham que ter muito jogo de cintura para conseguir trabalhar com a DC. E poucos tinham. A maioria reclamava. Dizia, essa mulher é louca. Ela inventava coisas como, por exemplo, na Dama das Camelhas, a personagem morria. Ela falava, hoje eu não quero morrer.
E aí ela dizia, é muito aborrecido, porque hoje representa uma peça que ontem já foi isso, vocês já viram isso ontem, eu não quero, hoje eu quero fazer outra coisa. Isso era terrível para quem contracenava, para o público era maravilhoso, porque cada espetáculo da DC era um espetáculo novo, mas os autores enlouqueciam, porque eles escreviam ali seus textos muito rigorosos, muitas vezes muito eruditos, e a DC inventava e fazia um outro texto que os autores já não se reconheciam naquilo.
Isso tudo, a seu ver, contribuiu para que ela fosse se consolidando mais como uma humorista comediante do que como uma atriz tradicional? A Deci era exatamente isso, a rainha do improviso, era uma artista da comédia. E do teatro marginal, na definição do crítico, o Sábato Magaldi era a rainha disso. Marginal em todos os sentidos, inclusive no sentido de subverter completamente a ordem natural do que seria o teatro convencional.
E ela não era uma atriz como outras atrizes que cumpriam a risca, que de fato seguiam o texto, que eram muito rigorosas, que eram as atrizes que eram muito caras a uma crítica teatral daquela época, que viam nessas atrizes pessoas que conseguiam de fato transformar aquele texto num espetáculo a desse.
Pouco se lixava para isso. E ela tinha uma questão também que ela dizia para os autores, vocês ficam se queixando aí, mas vocês escrevem esses textos chatérrimos, que ninguém entende, com essas palavras difíceis, e vocês me entregam e transformam num espetáculo de sucesso. E ela tinha razão nisso. De fato, os espetáculos ADC eram um sucesso absurdo de bilheteria. Desde muito cedo?
Desde muito cedo, ela sempre foi muito... Claro que no começo eram espetáculos com bilheterias muito mais baratas, e ela não tinha exatamente como ganhar muito dinheiro com isso. Mas à medida que ela foi amadurecendo na carreira, ela foi se tornando uma atriz muito popular, que atraía multidões para o teatro, a ponto de inclusive ficar rica.
Chegou a ficar rica. Claro que ela ficou rica mesmo com a televisão, mas ela já tinha uma vida muito boa no teatro antes de entrar na Excelsior, que foi quando ela, já no começo dos anos 60, quando ela foi pra TV. Porque aí sim, aí ela realmente começou a ganhar muito bem, ela já entrou na televisão como uma das artistas mais bem pagas do Brasil, mas também em decorrência do sucesso dela no teatro. E aí ela virou uma mulher muito rica, com hábitos muito exuberantes, muito extravagantes. Ela comprou um triplex.
No Rio de Janeiro. E ela morava sozinha nesse triplex. Três andares. Três andares. E na época ela até mostrou o apartamento dela para a imprensa. E eram vários ambientes. Com uma decoração, claro, uma decoração bem DC. Assim, com veludo vermelho, com muito dourado.
E ela dizia, ah, ficam comentando que isso é brega, mas o que seria chique? Porque o que é chique hoje, na semana que vem já está fora de moda, então já vai ser considerado brega. Ela tinha a sua maneira muito peculiar de levar a vida. Mas no começo faltou dinheiro e ela precisou usar recursos para conseguir manter, todo tipo de recurso, eu diria, para conseguir manter a carreira. Mas não conta para a gente agora, só depois do break, por favor.
Brasil para Maiores. A explosão da pornografia brasileira e o surgimento do pornô de celebridades. Um podcast, o Altab. Eu sempre gostei muito de fazer sexo. Liguei lá e falei, pô, eu queria falar com o dono das brasileirinhas, é o Alexandre Frota. Pouco papo. Você pagando o que eu quero, eu vou fazer o filme pornô.
A Alexandre Frota abriu as portas e as celebridades vieram. É muito burro quem fala não. Ela gravou porque ela gostava de transar na frente dos outros. Porque é puta, porque gosta de... Não, gente, eu gravei por causa da grana e eu não me arrependo. Meu pai que ligava pros produtores. Meu filho... O pai era tipo meu empresário, sabe? Não tenho vergonha de falar do que eu fiz ou o que eu deixei de fazer. Só que passou, acabou.
O podcast Brasil para Maiores está disponível no UOL, no YouTube e em todas as plataformas de áudio. Então, Adriana, você estava contando que ela ficou muito rica até mesmo antes da televisão, mas o começo foi difícil, né? O teste do sofá aparentemente esteve na vida da Dersi também.
Sim, o começo foi muito difícil, especialmente nessa época em que ela se recuperou da tuberculose e ficou com problema nas cordas vocais. E logo na sequência ela teve uma filha desse mar. E era uma filha de um homem casado, portanto ela era uma mãe solo. Tinha muitas dificuldades ali para lidar com a maternidade, com o trabalho. E ela fez o que pôde, o que estava ao alcance dela para levantar recursos, inclusive para sustentar desse mar. Incluindo a prostituição.
Ela falou isso em vários momentos da vida, que ela pedia um trabalho para alguém e essa pessoa, esse homem, condicionava esse trabalho a sexo e ela atendia a essa reivindicação. E o sexo sempre, muitas vezes violento, sempre teve presente na vida dela. Você conta vários episódios em que ela foi vítima até de estupro.
Sim, a Deci, ela era uma mulher considerada pornográfica, tida como imoral, tida como uma inimiga dos bons costumes, mas era uma mulher muito careta em relação a sexo, que aliás, ela considerava uma atividade muito exaltada, uma superestimada. Ela achava sexo uma coisa insuportável, ela nunca gostou de sexo, a exceção de uma ocasião, que foi quando ela conheceu um acrobata chamado Vico Tadei.
com quem ela teve uma relação sexual aparentemente satisfatória. Mas tirando essa experiência com o Vicu Tadei, ela sempre foi muito infeliz na intimidade. A começar pela primeira vez em que ela foi para a cama com o Eugênio Pascoal, aquele cantor com quem ela fazia aqueles espetáculos, que não sabendo que ela era virgem, foi muito bruto com ela naquela primeira ocasião. E ela relata, relatou isso por toda a vida, que saiu daquela situação muito ensanguentada.
E aí é quando ela fala uma frase que é muito engraçada, embora tenha uma origem dramática, que é quando ela viu o pênis do Eugênio Pascoal, ereto, ela disse, nunca pensei que aquela merda crescesse tanto.
Mas ela sempre teve uma relação com sexo muito difícil. Depois, quando ela já tinha mais de 70 anos, ela foi à Londrina, no Paraná, para um espetáculo, e ela conheceu o dono do jornal Folha de Londrina, que a levou para um hotel contra a vontade dela e a estuprou nessa ocasião. E ali ela já tinha mais de 70 anos, e foi uma situação realmente muito dramática, porque ela terminou aquilo muito ensanguentada. Nas palavras dela, terminou em petição de miséria.
Porque já não tinha mais lubrificação, já era uma senhora que há muito tempo não fazia sexo e era praticamente virgem nas palavras dela. E a explicação do dono do jornal foi de que ela falava muito sobre o sexo e que, portanto, ele concluiu que ela queria sexo. E, no entanto, não tinha nada a ver uma coisa com a outra. Isso é uma coisa que estava no imaginário dos homens que acabavam entrando na vida dela.
Era muito comum que as pessoas tratassem a DC dessa maneira como se ela fosse uma devassa, coisa que ela nunca foi. Esse empresário João Milanese disse, ela chegou aqui na redação só falando em trepação, foram as palavras que ele usou, então eu achei que ela queria alguma coisa e assim ele a violentou. Mas era muito comum isso mesmo, que as pessoas se dirigissem a DC sempre falando sacanagem e isso pra ela era muito chocante, porque ela considerava que esse era o papel público dela, porque inclusive na intimidade em casa...
A DC era uma mulher que não falava palavrões em casa e não admitia que se falassem palavrões em casa. Ela considerava que o palavrão era alguma coisa do espaço público, que ela usava para fazer uma graça e não para ofender ninguém. E todo esse papel que ela fazia, quando ela falava muito em sexo, era um personagem.
E ela nunca escondeu também que tinha aversão a sexo. E essa aversão se transformava, inclusive, num certo conservadorismo, porque ela achava que na cama a mulher tinha que se comportar como uma dama e que jamais deveria tomar iniciativa no sexo, por exemplo. Achava que mulheres que faziam isso não se davam a respeito e sempre recomendava às jovens que agessem de uma forma mais recatada na intimidade.
E talvez por isso ela não gostava muito do feminismo e principalmente das feministas. Nas palavras da Desi, as feministas eram umas babacas que não tinham o que fazer. Ela considerava isso. Mas ao mesmo tempo, ela era uma mulher que era muito transgressora em muitos aspectos. Foi uma mulher que sempre teve, tirando essas ocasiões em que ela teve muitas dificuldades financeiras, mas sempre foi uma mulher que garantiu seu próprio sustento.
E ao contrário do que era o convencional, era ela quem sustentava muitos dos homens com quem se relacionou. Também foi uma mulher que fez oito abortos. Oito? Oito abortos. E ela dizia que não queria ser mãe. Que mesmo a Decimar, ela acabou por levar adiante a gravidez, não era o desejo dela, e ela nunca escondeu isso, mas ela dizia, eu não quero ser mãe, eu quero ser artista. E a maternidade atrapalhava a Decimar nesse sentido. Então ela não sacralizava a maternidade de maneira alguma.
E ela falava coisas como, por exemplo, tinha uma frase da Desi que poderia ser aplicada hoje no feminismo contemporâneo, que era, cada um manda na sua xereca. Então, era uma figura muito contraditória, porque ao mesmo tempo em que ela pregava esse recato das mulheres, dizia que as mulheres tinham que ser delicadas e que aos homens cabia a possibilidade de alguma iniciativa, ela era uma mulher que também era muito transgressora. É uma personagem, de fato, muito complexa e muito contraditória.
A gente está vendo agora, você descreve até na reportagem, que essa peça sobre a Dersir Gonçalves fez muito sucesso, mais de 100 mil pessoas estima-se tenham assistido a peça. Você fez mais uma biografia, já tinha uma, pelo menos uma anterior, e essa onda de memes, os vídeos se multiplicando. O que aconteceu? Por que se atribui esse ressuscitar da Dersir Gonçalves na sociedade de hoje?
Primeiro, ela é muito engraçada. Então as frases dela são frases feitas para virarem meme. Ela fala muito mal dos homens, por exemplo, o que faz muito sucesso nas redes sociais, como bem sabemos. Fala muito mal dos políticos e de uma maneira muito engraçada e muito peculiar. E tem um aspecto da DC que eu acho muito interessante, que é o fato de que ela teve uma vida muito trágica, mas ela nunca foi uma mulher que vestiu o manto da vítima.
Ela sempre tratou disso de uma maneira a não reivindicar para si algum valor, alguma dignidade, com base no sofrimento que ela enfrentou. Nunca disse alguma coisa do tipo, vocês não sabem o quanto eu sofri. Nunca foi uma mulher que fizesse isso. Então eu acho que isso é algo que talvez nos tempos de hoje possa ser uma característica que chama muito a atenção, que seja muito interessante nesse aspecto.
E ela guardou alguma mágoa profissional, por exemplo, quando parou de frequentar a televisão, de ser chamada para fazer televisão? Ou lidou com isso bem até o final da vida? Qual foi a relação dela, por exemplo, com o Bonnie, que era o todo poderoso da Rede Globo?
Ela guardou muita mágoa da TV Globo até o final da vida pela maneira como ela foi demitida no final dos anos 60, no começo dos anos 70. Ela foi demitida quando a TV Globo já precisava fazer um movimento rumo a uma programação mais refinada, e a DC era tudo menos refinada na programação da Globo. Foi demitida, embora tivesse audiência altíssima. Foi demitida pelo próprio Boni, que alegou que havia uma pressão do governo militar para tirar a DC do ar.
Mas ela saiu muito magoada porque ela dizia que a justificativa para a demissão dela não era verdadeira. Que ela havia sido demitida porque ela estava velha. E ela dizia isso. E ela tinha muita mágoa porque ela falava, eu praticamente pari a TV Globo. Eu amamentei a TV Globo. Estava aqui nos primórdios. E agora resolveram me jogar fora apenas porque eu fiquei velha. Isso em 1970. Ela morreu em 2008. Ela tinha muito chão pela frente.
Mas, curiosamente, mesmo o Bonnie tendo sido a pessoa que a demitiu, ela tinha uma relação de adoração pelo Bonnie que manteve até o final da vida. Tem uma frase que a gente até... Um trecho que a gente reproduziu na matéria do UOL, que ela falava, o Bonnie, se o Bonnie mandar, eu mostro a minha xereca no ar. Ela fazia qualquer coisa que o Bonnie mandasse porque ela tinha uma adoração por ele, a despeito de ter sido ele o algoz dela naquele momento, mas a relação acabou se reconstituindo em outros momentos e eles terminaram bem.
Você diria que essa é a imagem que ficou no final de 101 anos de vida e agora revivida depois de 18 anos da morte? Sim, essa é a imagem que ficou da diva do deboche, da DC. Eu acho que é isso que resume bem quem foi a DC. E a imagem que ficou no nosso imaginário, especialmente quem lembra da DC em vida.
Mas a Deci, obviamente, foi muito mais do que isso. Os grandes críticos teatrais da época em que a Deci estava no teatro reconheciam nela um traço de genialidade que é algo muito raro. Não apenas por ela ser uma mulher que tinha pouquíssima escolaridade e conseguia dominar plateias como mais ninguém, tinha uma rapidez e uma inteligência. E o tempo certo da comédia, como o Marco Nanini sempre disse que aprendeu com ela, ela foi uma mulher que realmente criou uma escola de interpretação.
E há muitas outras atrizes que são tributárias dessa tradição criada pela D.C. O deboche, inclusive, com esse certo beletrismo que envolve o teatro, com uma certa impressão de muitos de que o teatro é uma arte erudita e não uma arte popular. Então, o deboche está, inclusive, na maneira irreverente para irritar a D.C. como que ela ligou com o trabalho. A D.C. Gonçalves não foi a primeira personalidade feminina controversa, digamos assim, que você biografou. É coincidência?
Eu acho que os personagens que são muito bonzinhos, eles não rendem boas biografias. A anterior foi Maria Bonita. Adriana, para quem quiser ler primeiro a reportagem no UOL, onde encontra? Está no UOL Prime. UOL.com.br barra Prime. E a biografia já está nas livrarias físicas e virtuais. De novo o nome qual é?
Desci a Diva Debochada. Pela Editora Objetiva, né? Isso mesmo. Muito obrigado, Adriana Negreiros. Já esperamos você de volta. Não precisa ser com uma biografia, porque essa demora muito, né? Mais que uma...
Nova reportagem em breve. Obrigada, Toledo. Até breve. E obrigado a você que ficou com a gente aqui até agora. Quem assina o UOL pode acessar essa reportagem da Adriana e muitas outras no UOL Prime na íntegra. Assinantes têm acesso a todo o acervo jornalístico do UOL e a opinião e análise dos nossos colunistas.
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Eu sou José Roberto Toledo e faço a apresentação do podcast Wall Prime. Conversei hoje com a repórter Adriana Negreiros. O roteiro é da Clara Realstad. A operação de vídeo é do Henrique Villarrazo. Montagem, Lucas Zacarias. Coordenação, Lígia Carriel e Laura Kapelusznik.
trilha sonora original composta por João Pedro Pinheiro, trilha sonora incidental da Epidemic Sound. Coordenação de operações Danilo Esperandil e Eduardo Bonavita. A foto de capa é da Daniela Toviansky. O podcast é um produto do All Prime e a gerência geral é do Irineu Machado. A supervisão é do Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL. Até o próximo episódio.
editora Objetiva
Dercy, a Diva DebochadaUOL
Assinatura UOL Prime