#4 Sapiência - Armando Costa
A cada episódio, Sapiência apresenta entrevistas com acadêmicos, profissionais da indústria e especialistas em diversas áreas, explorando como as pesquisas desenvolvidas nas universidades têm o potencial de transformar a sociedade. O podcast oferece uma visão detalhada sobre o percurso do pesquisador, desde as fases iniciais de ideação e financiamento até a implementação prática dos resultados no mercado.
Com uma abordagem acessível e envolvente, "Sapiência" é uma fonte valiosa de conhecimento para estudantes, pesquisadores, empreendedores e todos aqueles interessados em entender como a pesquisa científica pode impactar o mundo real. Além de explorar as trajetórias individuais, o podcast também aborda temas como inovação, empreendedorismo acadêmico, desafios de financiamento e as tendências atuais no mundo da pesquisa.
FICHA TÉCNICA:
Apresentador: Bruno Lessa
Produção: Ana Beatriz Casseb, Beatriz Barros, Clara de Assis, Fellipe Ferreira, Isabela Fortaleza, João Pedro Moreira, Luana Gonzaga, Matheus Pinheiro e Wivyna Santos.
Imagens: André Souza, Ermesson Ferreira, Leandro Pozo, Marcelo Falcão, Priscilla Souza e Ricardo Ventura
Edição: Marco Savi
Operações de Master e Suporte Técnico: Robson Barbosa, Lindemberg Narciso, Marcelo Gomes, Cícero Alexandre, Francisco Guedes, Guylherme Bezerra
Coordenação Técnica: Hélio Viana
Coordenadores de produção de podcast: Ana Paula Farias e Max Eluard
Direção Geral: Max Eluard
- Desafios da profissão jurídica modernaInfluência familiar na escolha profissional · Descoberta da vocação através do júri simulado · Preferência por direito penal e processo penal
- Mudanças no perfil do aluno de direitoDiversificação de áreas de estudo no direito · Dificuldade dos alunos em identificar vocação · Impacto da inteligência artificial na formação
- Projetos e iniciativas na UniforProjeto Meu Primeiro Júri · Competições de debate da ONU · Criação de ligas acadêmicas
Olá a vocês que nos acompanham aqui na TV Unifor, seja pelas redes sociais ou pelo canal 14 Dalares. Sejam todas e todos bem-vindas e bem-vindos à terceira temporada do Sapiência, esse programa que tem como objetivo desvendar os mistérios do mundo acadêmico, desde a concepção da pesquisa até sua aplicação no mercado. Eu sou o professor Bruno de Souza Lessa, professor do programa de pós-graduação e administração aqui da Universidade de Fortaleza.
E hoje eu conto com a honra de receber o nosso querido professor Amando Costa Júnior, advogado, professor universitário, escritor, podcaster, apresentador do meu Ludipotti aqui na nossa TV Unifor, bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza, onde se formou há 32 anos e atua principalmente na área criminal. Leciona aqui há mais de 22 anos. Na verdade, ele é praticamente fundador dessa...
Como docente, ele ministra as disciplinas de direito penal e processo penal. Ele é também autor do best-seller Dramas de um Advogado Criminalista, uma coletânea de crônicas inspiradas em vivências reais da advocacia criminal que revela os desafios, os dilemas e emoções do exercício da profissão. É pai também da Bebezona, como é que chama? Do Bebezão e do Nenezão, que é a Luísa Maria e a Lara Maria.
Eu chamo de bebezão, as pessoas pensam que são meninos, elas são duas meninas. Bebezão e nenenzão. Luísa Maria e Lara Maria. As Marias. Então, Armando, para começar, o que te levou a escolher o direito penal lá atrás, ainda que na graduação na Unifor? E permanecer nessa área durante esses 30 anos de atuação?
Cara, é o seguinte, tudo bom, galera? Legal estar aqui, né? Em outra condição, né? Embora eu esteja aqui sempre no espaço que eu sempre ocupo, do miolo de pote. Mas, cara, é o seguinte, eu não era um cara muito estudioso, não, sabe? Na época de colégio. Eu gostava muito de jogar bola.
futebol, vôlei e tudo mais. Eu gostava mais de futebol, mas não jogava tão bem assim, embora não fosse ruim. Na verdade, eu era fazedor de gol. E por causa do meu tamanho, eu aproveitava para jogar vôlei, basquete e tudo mais, mas vôlei.
E quando eu cheguei naquela época de escolher o que eu iria fazer, na minha cabeça eu queria fazer educação física, porque eu gosto de esporte e tudo mais e tal. E quando eu fui falar com meu pai, meu pai disse, não, meu filho, aqui em casa só tem médico, engenheiro ou advogado. Preção pouca. Eu não sei se ele falou brincando, não sei se ele falou brincando, mas ele disse isso, para não pensar nessa coisa de educação física. Mas rapidamente eu nem fiquei muito chocado com isso não, sabe?
Eu resolvi fazer direito porque ele era delegado de Polícia Federal, então formado em direito, eu pensei, poxa, pelo menos é algo que já tem uma facilidade dentro de casa, porque eu não sabia exatamente o que fazer, eu nunca tinha encontrado a minha vocação. Aí fui fazer direito e, cara, no primeiro semestre logo, no primeiro semestre, eu já me encantei, engraçado.
Me encantei. E mais por causa de uma disciplina, que era a introdução ao estudo de direito, que falava do explorador de caverna. E o professor fez um júri simulado sobre aquele negócio, tá entendendo? E eu disse, é esse que eu quero. E olha que eu era tímido.
Era muito tímido, tá entendendo? Mas não, eu vou fazer aqui, eu vou fazer. E evidentemente que o júri dos exploradores de caverna, né? Leva a questão criminal, né? Processual penal e tudo mais. E desde o primeiro momento eu decidi, não, não sei o que é que eu gosto, mas que eu quero ser um advogado que vai atuar fazendo defesa do tribunal do júri, eu não tenho dúvida nenhuma. Desde o início penal, já foi atuário. Na verdade é porque a gente não tem cadeira de penal.
Mas como eu fiz o júri dos exploradores de caverna...
depois, porque o penal era só lá no terceiro semestre e tudo mais. Aí eu vi que o júri é algo só da área penal. Está entendendo? Então, já que eu gosto disso, eu já vou começar, por antecipação, gostar de direito penal. E, na verdade, eu acabei gostando muito mais de processo penal do que de direito penal. Mas foi antes até mesmo, engraçado, foi antes até mesmo de atuar na área, de ter a primeira aula de direito penal.
Porque eu queria fazer júri, júri relacionado com direito penal, diante de processo ao penal. Então, antes de ter a primeira cadeira, eu já estava encantado e decidido que ia atuar nessa área. E hoje, como professor, e você atuou há 20 e tantos anos, e o que você sente, Armando, que mudou no perfil do aluno, que escolhe a carreira que você escolheu? Porque a gente pensa muito frequentemente que o direito é muito estático, paradão e tal, demora. Mas as pessoas não são. As pessoas mudam. E qual o perfil?
O perfil do aluno que mudou quando você começou, lá 20 anos atrás para agora, nessa época de IA e tudo mais. Cara, na verdade é o seguinte, o que eu percebo é que hoje em dia os alunos estão com mais... Na minha época era mais fácil decidir. Em 1993, quando eu me formei, entrei na Unifoc em 89.
Já 35 anos que eu estou aqui. 36, né? 89, 36. A ideia da minha irmã. 89 aqui. A primeira vez que eu entrei na Unifor foi para fazer o vestibular em 88.
e passei a frequentar em 89. E naquela época, embora o curso de Unifol já fosse um curso bem volumoso, com muitas pessoas, naquela época você decidia de maneira muito tranquila ou você vai gostar da área penal ou da área civil.
A lei de defesa do consumidor é de 89. É tudo muito novo. Então, as coisas são mais recentes. E a gente já enxergava que os alunos tinham essa identificação com direito penal ou com direito civil. Empresarial que já existia não era tanto assim como não é até hoje. Mas hoje em dia a gente vê que eles têm muito mais opções.
direito de informática, enfim, o leque é muito maior hoje em dia. E isso me causa um certo desconforto e uma certa chateação, porque eu fico perdendo os alunos do penal para a informática, para as outras áreas que a gente fica, poxa, aquela coisa, o penal é melhor do que o civil, o penal é melhor do que tudo e tudo mais. Mas, por outro lado, eu vejo que é...
Os tempos mudam, naturalmente, e é legal que eles tenham essas opções. Então, o perfil não mudou muito, não. Mesmo porque eu percebo que o aluno tem muita dificuldade para ir se identificando com a área. Eu lembro que direito penal, no primeiro semestre, eles saem encantadíssimos com as aulas do primeiro semestre, que agora o direito penal está no primeiro semestre.
E comigo, né? E aí eu vejo que, poxa, conquistei, mas não. Logo depois eles têm uma cadeira de engenharia jurídica, depois tem uma cadeira tal e não sei o quê, e eles vão ficando com aquela coisa. E é difícil você perceber essa vocação deles. Nem eles, no último semestre, pode ser que eles encontrem efetivamente o que eles gostam. Mas o direito penal continua sendo o mais mais.
Deixa eu começar a te fazer uma pergunta mais difícil, mais cabeluda. É o seguinte, vamos pensar. Você falou que a universidade teve que se diversificar. A gente tem um dos melhores cursos de direito do Brasil, da graduação até o doutorado. Mas o que você vê, considerando toda essa fauna e flora que emergiu no direito, que a universidade precisa entregar? Uma coisa que está faltando, uma lacuna que precisa ser preenchida.
Cara, eita, pergunta acabou, tá vendo? É, acabou. Cara, na verdade, no direito, eu vejo pouquíssima coisa, tá entendendo? Verdadeiramente, se a Unifor, se no curso de direito da Unifor, se no CCJ, não tem algo...
é porque ainda não foi apresentado a opção. Um professor não provocou. Eu lembro que eu tenho um projeto aqui na Unifor, que é o projeto Meu Primeiro Júri. Eu sempre fui um aluno, como eu gostava dessa coisa, em vez de que o aluno gosta, eu fazia sempre os júris simulados e tudo mais e tal, para o aluno ir treinando e tudo mais. E eu percebi que isso é muito legal e tudo mais, mas...
A gente podia ir mais longe, tá entendendo? Aí nós temos um projeto agora em que o aluno atua em júris reais, tá entendendo? Ou seja, a gente pega um processo, estuda o processo e o aluno vai, juntamente comigo, ou eventualmente com outro professor, atuar. Ou seja, esse projeto só tem aqui na Unifor a...
Foi 2022, logo depois da pandemia. Mas, poxa, eu estou na Unifor há 22 anos. Só não existia antes porque eu não tive a ideia, está entendendo? Porque se eu tivesse tido a ideia há 10 anos atrás, isso existiria há 10 anos atrás. Se eu tivesse essa ideia há 20 anos atrás, quando eu entrei, teria.
E o que eu vejo aí, lá no CCJ especialmente, é que quando o professor tem uma ideia, e a ideia é legal e tudo mais, rapaz, a direção do CCJ, imagino que todos os centros aqui a galera entrega. Então nós temos projeto de juros simulado, nós temos... Ano passado a Unifor mandou, o CCJ mandou uma galera para uma...
uma competição, como é que chama? Negócio da ONU e tudo mais. Nos debates, né? Nos debates e tudo mais. Ou seja, a Unifor levou essa galera para passar uma semana no exterior tratando desse assunto. Ou seja, a gente tem tudo, né? O que não tem é porque alguém ainda não levou a ideia para colocar em prática.
que é uma das vantagens de a gente trabalhar num lugar de excelência. Porque você, desde a graduação até o doutorado, para depois disso, você tem tanto uma equipe que tem liberdade para trabalhar quanto para entregar e preencher essas lacunas. E aí vem uma pergunta que vai na direção contrária. O que você vê na formação que você teve à época que criou esse diferencial que te tornou o Armando Advogado Criminalista que tu é, assim, conhecido e amado e aclamado?
Que zero era eu, que zero era eu. Cara, o que é que me tornou, o que é que... Que te tornou dentro do curso, assim, que você viu, não, Bruno, foi isso aqui, isso aqui, isso aqui, e que, ou assim, que mudou, mas ou existe, mudou de alguma forma e tal, que te fizeram, que te construíram, assim, que te galvanizaram como o advogado que você é. Cara, na verdade, eu fiz o meu segundo grau...
Eu sou cearense, meu pai é cearense e tudo mais, mas ele é delegado de Polícia Federal e a gente sempre era transferido, tá entendendo? Eu nasci em Fortaleza, onde a gente, eu sou mais velho, lá de casa, mas o meu irmão, depois de mim, nasceu em Natal. Outra irmã nasceu em Fortaleza, quando a gente tinha voltado. Outra irmã nasceu em João Pessoa e depois de João Pessoa nós moramos em Teresina, moramos no Rio de Janeiro, moramos em Brasília, moramos em Salvador e tudo mais e tal. E eu só voltei pra Fortaleza.
aos 18 anos para fazer faculdade. Então, os meus amigos mais antigos são os amigos de faculdade. Tu estudou aqui em Fatalese, então tu deve ter amigo da escola e tudo mais. Eu não tenho, porque esses amigos estão em outros estados onde eu conheci quando eu tinha a respectiva idade.
E os meus melhores amigos são, os meus amigos da faculdade são aquele grupo de pessoas que a gente se identificou logo no primeiro momento. O meu maior amigo, o meu amigo mais antigo é o Marcelo Ponte, que é professor aqui da Unifor, mas ele é de outra área.
mas como as nossas carreiras se coincidiram, acaba que a gente é mais próximo. Mas os meus colegas e amigos da faculdade, o Hernando Sobrinho, o Leandro Vasques, o Aldir Xavier, o Hélio Góes e tudo mais... São medalhão, né? Tua turma é... É, mas a gente já tem 30 anos, cara.
Uma coisa que me irrita aqui na Unifor é os alunos que me chamam, sempre me irritou, é os alunos me chamarem de senhor. Te chamam de senhor, né? Senhor, senhor, senhor, senhor. Só que há 22 anos atrás eu ficava irritado porque eu não me sentia um senhor. Agora eu me irrito porque eu me sinto.
Agora sou o senhorzão. Então, a Unifor, a universidade, especialmente a Unifor, ele foi o local onde a gente pôde se encontrar, onde a gente pôde coincidir com as ideias, com as vontades, com os projetos. Porque aqui é muito mais do que a sala de aula, não é isso? Isso. Aqui é muito mais do que a sala de aula. E, aliás, por mais que seja um curso de excelência desde sempre, quando eu lembro da época da faculdade, eu não lembro de uma aula.
Eu me lembro conversando com meus colegas no intervalo, eu me lembro saindo aqui da universidade para ir assistir um júri de um processo famoso com a galera, eu me lembro fazendo um almoço com a turma, a gente se lembra dessas. E o que me formou isso foi esses contatos que eu tive a oportunidade de ter. E que eu vejo que hoje em dia também acontece, sempre aconteceu.
A gente nota que os alunos vão se identificando, tem aquele aluno que gosta de engenharia jurídica, ele consegue reunir-se em volta de outros que gostam disso, a galera do penal e tudo mais. Não sei se você percebeu, ultimamente cresceu uma série de ligas aqui na Unifor. Isso, é verdade. Não tinha. E eu fico até orgulhoso porque a primeira liga, se eu não me engano, é de medicina legal.
que é uns, sei lá, uns 5 anos atrás, o professor Vitor Hugo é o coordenador, é o professor que colabora lá. E agora, mais recente, foi a Liga de Direito Penal, que eu sou um dos colaboradores. E a gente fez uma coisa tão legal, né? Tão legal, né? Os alunos tão envolvidos e tudo mais, o Medina, a Sara, enfim, o Lucas e tudo mais, que os outros alunos viram...
e se inspiraram nisso. Ou seja, de um ano e meio para cá, nós tínhamos uma liga, fez a de penal e processo, mas tem liga de civil, liga de tributário, liga de tudo. Acho que tem bem umas oito ligas aqui na universidade, ou seja, os alunos se socializando em torno de um determinado assunto. Isso é muito positivo.
Isso fomenta o networking, que é algo que para qualquer área é muito importante. Falando dessas demandas da modernidade, da contemporaneidade, Armando, algo que tanto na engenharia quanto na administração, no direito, fala-se muito que o aluno tem que ter a chamada soft skills. Quais seriam, ao teu ver, as soft skills que seriam necessárias para ser um bom advogado criminalista hoje?
Mas o que seria uma soft skill? Essas habilidades, como pode ser ser resiliente, a capacidade de superar traumas, de persistir, a capacidade de ser boa inteligência interpessoal, comunicação. É, eu acho que na área criminal, especialmente para aqui, porque é o seguinte, se você se forma em direito, você tem um mundo aí de um leque de oportunidades para você.
para você exercer a sua profissão. Você pode ser advogado, que é o que a maioria acaba sendo, mas você pode ser juiz, você pode ser promotor, você pode ser defensor, você pode ser procurador de Estado, município e tudo mais, advogado da União e tal. Eu vou falar especificamente da advocacia privada, que é...
que é onde eu convivo e vivo. Essa coisa da comunicação é fundamental. E sempre foi, sempre foi. E hoje em dia, mais ainda, porque você não se comunica só com as pessoas com quem você está próximo.
você se comunica agora com o mundo, você se comunica com o mundo, através das redes sociais e tudo mais. Nós temos aqui um ex-aluna que ela se formou, e quando ela estava fazendo a prova da OAB, ela criou um mecanismo de fazer mapas mentais para estudar para as provas. Está entendendo? E ela não exerceu mais o direito, ela está vivendo disso.
E pelo que eu soube, ela está muito bem financeiramente, porque ela conseguiu alcançar um espaço que ninguém tinha. Então, essa facilidade de se expor, essa facilidade de se comunicar, é fundamental, porque como advogado você precisa de alguma forma se vender.
Você precisa se apresentar para que as pessoas lembrem de você. Antigamente era o boca a boca. A advocacia criminal fundamentalmente era boca a boca. É porque você não pode fazer muita marketing, né? Mas hoje em dia tem as redes sociais onde você tem...
se apresenta, se manifesta, você pode fazer uma postagem sobre determinados assuntos e tudo mais. Eu queria ter mais essa facilidade. Na facilidade para fazer, eu tenho mais essa responsabilidade de fazer de maneira mais...
mais rotineira consistente, né? Eu até fico cobrando meus alunos. Cara, desde cedo, vocês precisam saber utilizar as redes sociais de maneira adequada, ética e tudo mais e tal, porque isso aí é que vai lhe tornar um bom...
O profissional requisitado, não. Porque às vezes você pode ser bom, mas se você não for requisitado, aí não dá mesmo que nada, né? E falando sobre comunicação, algo que você é muito conhecido aqui na Unifor é como você traz os casos reais para a sala de aula. E claro, respeitando o sigilo, como é que você faz para aproximar o aluno dessa realidade em sala? Que é ser uniformemente conhecido por essa habilidade.
Pois é, na verdade não há muito problema sobre isso, porque os casos, a maioria deles são públicos, né? Tá entendendo? A maioria dos casos são públicos, então não há nenhum problema em você tratar. E mesmo os casos que são sigilosos, não há problema nenhum em você trazer o caso para mostrar, evidentemente, como é que foi a solução dada para aquele caso e tudo mais e tal, né? Então não há problema. E o que eu vejo é que...
A gente precisa mostrar para os alunos como é que funciona aquela teoria que a gente está em sala de aula. Entendeu? E nada mais interessante do que você vincular a um caso concreto. Por isso que o projeto Meu Primeiro Júri é muito interessante, porque o aluno, se fosse só um júri estimulado, já seria massa. Atuar num processo real.
que ele vai ter aquela responsabilidade. E eu fico achando interessante, e às vezes sofro bastante, porque os alunos vestem a camisa como se fosse o advogado mesmo. E fica indignado quando o promotor de justiça fala uma coisa que ele acha que não deveria falar, que é anti-édica, não sei o que e tal. Então você nota que trazer essa realidade mesmo do mundo...
concreto, da vida cão que existe e tal, deixa os alunos completamente embevecidos, eles ficam naturalmente cada vez mais empolgados. E evidentemente que a gente traz outros casos para sempre mostrar, embora, eu fico dizendo, o direito penal, o direito processual penal está todo dia no Jornal Nacional.
Porque sempre tem um problema novo para você. Por isso que eu digo, o aluno que não gosta de direito, você pode até não amar direito penal, pode até não amar direito processual penal. Mas você não tem o direito de, de alguma forma, não conviver com ele, porque todo dia está... é, o processo da trama golpista. Eu ensino em sala de aula como é que se dá o procedimento até chegar àquele julgamento.
E quando você faz o link, está acontecendo isso, no processo está aqui, foi justamente o que aconteceu. Esse momento é o momento final, o momento da sustentação oral e tudo mais. Ou seja, é o direito mais fácil de você aprender. Porque você tem o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo, algum caso que está acontecendo aí, que você pode fazer uma lincagem direta com a sala de aula.
Tem algo que eu, como o leigo costumo ouvir falar, é que o direito penal seria mais pesado de se lidar. E o que você diz para o estudante quando ele chega? Eu imagino que o estudante já deve ter ouvido isso. Já, já. E o que você fala? Qual é a sua réplica nesse sentido?
Não, não tem réplica, não. É isso mesmo. É verdade, né? É verdade, é verdade, é verdade. Inclusive, é porque você se depara com esse mundo de crime. O crime aconteceu.
O crime aconteceu. Uma pessoa foi morta eventualmente, uma pessoa foi estuprada eventualmente. Pode até ser que não seja aquela pessoa, mas muito provavelmente o fato aconteceu. A morte aconteceu, o estupro aconteceu.
É doloroso, de alguma forma, o processo penal é ruim para o acusado, principalmente para o acusado que é inocente, porque há inúmeros casos em que a pessoa é equivocadamente acusada de um crime que não cometeu.
E sempre é para a vítima, ou para a família da vítima. Mas eu estava conversando até em sala de aula hoje, apesar do direito penal ser esse munducão, porque você se depara com esse tipo de criminalidade, e é o tipo de criminalidade que eu gosto de atuar.
Eu gosto de atuar nesses processos que envolvem homicídio, porque vai para o júri. É os únicos crimes que vão para o júri. Quando a pessoa é acusada de corrupção, colarinho branco, esse tipo de crime, vai diretamente para o juiz, que eu atuo muito também. Mas o que eu gosto de fazer é atuar nesse processo, porque...
É meio que aquela coisa do ex-esportista, que acha que naquele julgamento é meio que uma competição, tá entendendo? Que você tem que ser melhor, você tem que apresentar as provas de uma maneira mais contundente e tudo mais. E o outro lado também tá apresentando. Eu acho que é por causa disso, né? Mas eu tava falando nessa aula de aula hoje que, apesar de tudo, a causa que mais me deixou baqueado foi a causa de família.
Fizei atuar no processo de família porque a advogada estava viajando. E quando eu peguei o processo, era o seguinte, o pai inventou que a mãe, sua ex-esposa, estava sequestrando o filho para ir morar distante.
E ele inventou essa história, colocou numa petição e conseguiu eliminar. Quando a mãe estava embarcando com o filho no aeroporto Pinto Martins, veio a polícia e apreendeu o menor. Caramba! Tirou. Só que era tudo uma grande mentira.
Eles eram separados, estava na época do Natal, era a época dele ficar, dela ficar com o filho, ela ficaria, parece, até o dia 27, e do dia 27 até o ano novo ficaria com a criança. Só que parece que ele não estava bem resolvido com a separação, quis criar essa situação. Tanto é que eu juntei no processo, para pedir a revogação dessa liminar, os e-mails que eles trocaram, ó, viagem no dia tal, tudo bem, não sei o quê, tal, tal, tal, tal.
E quando eu entrei com o pedido de revogação, de reconsideração, o juiz negou. Cara, como é que você fala para uma mãe?
que ela não vai poder ver o filho. E que ela está sequestrando o filho. Porque a acusação de sequência já existiu. E dois dias depois a gente vai tentar fazer com que alguém entenda que não era na área daquilo, que ela podia ver o filho. Não, o juiz negou. Outro pedido de reconsideração, o juiz negou. Agravo negado. Ela só foi conseguir ver o filho quase 20 dias depois.
Cara, se era duro você não ganhar a causa, não ganhar, eliminar, imagine você contar para a cliente isso. Sim.
Cara, isso é pesado demais. Eu juro por Deus. Eu já saí de julgamentos em que meus clientes foram injustamente condenados, na minha ótica, naturalmente, né? E é sempre muito pesado, mas nunca senti uma dor tão grande quanto foi ter que avisar três vezes para essa senhora, para essa mulher, que ela não podia ir ver o filho. Então, para mim, o direito de família é bem mais punk em determinadas situações do que até o direito penal, sinceramente.
Mudando o eixo para um eixo mais leve, então, agora. Voltando de novo para o teu professorado. Como é que foi? Você começou há 32 anos atrás e tornou-se professor há 22 anos atrás. Como foi que o professor Armando mudou o advogado Armando?
Se mudou? Não, mudou, mudou, mudou, mudou, mudou, mudou, mudou muito. Porque, na verdade, as experiências que você vive em sala de aula te formam uma pessoa diferente.
Ainda que eu não fosse advogado, ainda que eu fosse só professor, eu teria mudado muito nesses 22 anos. O contato com os alunos, perceber as demandas dos alunos, os problemas por que eles passam. Tu está aqui há quantos anos? Cinco.
Tá cinco anos, né? Tu já passou por um monte de coisa. Com os alunos. Problema com os alunos, aluno que tem. E isso vai te transformando, porque você vai tendo a oportunidade de se deparar com vários exemplos de problemas. E isso vai te ajudando, de alguma forma, a melhorar como pessoa. Pelo menos eu acho que aconteceu comigo. Então, todo tipo de...
de situação, eu já passei com os meus alunos, né? E isso me faz olhar para o mundo de maneira diferente. Então tem esse primeiro aspecto. E o segundo é o aspecto técnico mesmo, né? Porque quando você é professor, você...
se preocupa muito mais com as questões formais, técnicas e tudo mais e tal, que eu não me ligava tanto quando eu era simplesmente advogado. Eu fazia as coisas, mas percebia que depois que eu comecei a ensinar, eu estava fazendo alguma coisa errada.
Então tem essa questão técnica que quando você começa a ensinar, você começa a aprender, que é justamente o nosso lema aqui na Unifor. Nunca funcionou tanto comigo do que esse lema ensinando e aprendendo, porque eu aprendi muito com o que eu estava ensinando. E agora para as nossas duas perguntas finais, Armando. A primeira é, o teu livro é maravilhoso, e como foi que você desenvolveu a escrita e como foi o processo de concepção do livro?
Cara, eu fico até com vergonha de dizer quando... Uma mini biografia, eu boto, né? Advogado criminalista, professor universitário e escritor. Se eu escrevi um livro, eu sou escritor, né? Cara, mas...
É difícil pra caramba escrever, tá entendendo? E ainda mais escrever crônica, porque como advogado a gente tá meio que vinculado a uma linguagem técnica, formal e tudo mais e tal, né? E você conseguir se desgarrar disso pra escrever de uma maneira que seja... Porque eu não quero escrever só pra quem é do direito, eu quero escrever...
pra todo mundo, né? Eu quero que todas as pessoas leiam um aluno do segundo grau e tudo mais e tal, né? E eu lembro quando eu fiz a primeira crônica, que inclusive é a terceira na ordem do livro, eu fui ler um dia desse, como é que eu escrevia desse jeito?
Pelo amor de Deus, parecia que eu estava numa tribuna me referindo, falando com um juiz excelentíssimo. Pelo amor de Deus, cara, o trabalho que eu dei para tentar colocar aquilo ali em forma de escrita de crônica e tudo mais, foi um trabalho desgraçado, né? E eu sempre pensei, e por que eu resolvi escrever esse livro? Porque tem alguns casos que a gente passa na vida que são marcantes, né?
E eu sempre contava em sala de aula. Eu sempre notava que os alunos ficavam, cara, eu tenho que transformar isso aí em algo mais concreto. Acho que não pode ficar somente em sala de aula, não. Aí, por causa disso, eu resolvi fazer. Só que escrever um livro, cara, o cara tem que ser muito foda, viu?
Porque eu não consigo, eu acho que eu não consigo, porque uma história de 100 páginas, começo, meio e fim, o cara tem que ser muito preparado, tá entendendo? Aí eu resolvi escrever em crônicas de 30 páginas e tudo mais, não é muito problemático porque eu não preciso ter inspiração, porque a história já existe, né? Porque um cara que parte do zero na história, cara...
Esse cara é invocado demais, né? É, com certeza. O cara que inventa uma história. Por mais que haja inspiração e tudo mais, eu acho esse cara muito fantástico, né? Não, a minha história já existe. O problema aí é você, como é que você vai contar isso daí e tudo mais em 30, 30 e poucas páginas, né? E eu lembro agora, rapaz, eu fui ler recentemente a primeira versão da primeira crônica. Rapaz, que coisa... Parecia um projeto de Rui Barbosa escrevendo.
Agora não, tento escrever de maneira mais... Ah, outra coisa, o escritor me ajudou a ser advogado também, porque antigamente eu não me preocupava com formalidade da escrita jurídica. E a gente é formal naturalmente, porque os nossos exemplos são de formalidade. Aí eu percebi que eu posso escrever de maneira correta, mas com menos rebuscamento, menos prolexidade, embora com uma certa formalidade.
E agora a nossa última pergunta, Armando, qual o conselho que você daria para o jovem estudos de direito, o jovem advogado, que pretende, assim como você, fazer essa interseção entre a teoria jurídica sólida, que você carrega, a técnica, e essa prática penal, advocatícia, responsável que você faz. Qual seria o conselho que você deixa? Cara, na verdade...
Eu acho que eu sou um exemplo disso, sabe? Porque eu não era, como eu te disse no começo, eu não era o cara mais estudioso, tá entendendo? Pelo contrário, né? Só estudava no dia de prova, já fiquei em recuperação, já reprovei o ano e tudo mais. Eu acho até, como eu terminei o segundo grau em Brasília, e eu vim fazer faculdade aqui em Fortaleza, na Unifor, eu acho que se a galera...
que eram meus amigos na época de colégio, chegaram assim, disseram assim, rapaz, o que o Armando faz? Ele é advogado e professor universitário. Acho que muita gente vai cair para trás, mas não acredito não. Aquele vagabundo. Eu pensava que ele até era preso.
Ou preso ou jogando, né? Sinceramente, não era uma coisa que... Eu não era definitivamente a pessoa que... Não era irresponsável, não era vagabundo, não era... Mas não era a pessoa que... Ah, mas esse cara vai ser advogado. Esse cara... Ninguém acha que no máximo ia pensar que eu seria realmente para o ramo da dedicação física. Mas, cara, é dedicação. Primeiro de tudo é você encontrar a coisa que você goste.
E eu gostei. E eu vejo muito essas ligas que tem aqui na Unifor. Eu acho que elas são fundamentais porque os alunos estão aderindo às ligas. Estão se encantando com um determinado ramo do direito. E ali eles estão tendo a oportunidade de se desenvolverem. Está entendendo? E não tem saída, cara. É dedicação. Né?
Tem que ser dedicado, tem que ser responsável, tem que saber que você precisa ler, você precisa estudar, você precisa levar a sério, tá entendendo? Eu lembro que daqui a uns três meses eu vou ter um julgamento, um júri, e que o processo tem 5 mil páginas.
Se bem que 5 mil páginas você diminui para umas 800 de coisa que realmente importa. Mas 800 páginas é muita coisa. Cara, o Armando, do segundo ano do Colégio Marista de Brasília, nunca na vida ia imaginar que ele sequer fosse pegar em tanto papel.
Mas eu pensei, cara, a responsabilidade te leva a isso, mas antes da responsabilidade tem a dedicação que te levou a ter a obrigação de ter responsabilidade, né? Porque a partir do momento que você é contratado para defender um cliente, você precisa levar a sério, né? E hoje em dia nem me dói isso, nem me dói, é tranquilo, né? O processo pode ter 10 mil páginas, 20 mil páginas, o que for que a gente tem que fazer e faz. Então essa coisa de dedicação, responsabilidade é fundamental para você se tornar, eu acho, um bom profissional.
E aí
Bom, pessoal, chegamos ao fim do quarto episódio dessa nossa terceira temporada do Sapiense, onde a gente pôde conhecer um pouco mais sobre essa trajetória extraordinária do nosso querido professor Armando Costa. Queria não só agradecer ao Armando pela generosidade, pela gentileza de compartilhar a história com a gente, mas também agradecer a vocês que nos acompanharam nesse episódio e pedir para vocês ficarem ligados para o nosso último episódio dessa temporada e agradecer a todos pela presença, todos e todas pela audiência também. Eu sou o Bruno Lessa e esse foi o Sapiense.
É isso.