A internet piorou de propósito / O humano virou opcional / Crianças contra algoritmos (#357)
RESUMIDO #357, apresentado por Bruno Natal.
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A internet piorou de propósito. Ao mesmo tempo, a IA avança e transforma o trabalho, a criatividade e até nossa identidade em algo automatizado e substituível. A reação já começou, governos e tribunais já responsabilizam plataformas e seus algoritmos por seus danos.
Quem ainda está no controle?
No RESUMIDO #357: a piora da internet é questão de política pública, Napster vira fábrica de gororoba musical por IA, Pokémon Go ajudou a mapear cidades para robôs, gêmeos digitais prometem agir por você, trabalhadores treinam a IA que pode substituí-los, robôs entram na guerra, plataformas condenadas por vício e muito mais!
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Ouça e confira todos os links comentados no episódio: https://resumido.cc/podcasts/a-internet-piorou-de-proposito-o-humano-virou-opcional-criancas-contra-algoritmos
- Fofocas da InternetPolítica pública · Obsolescência programada · Merdalização
- Impacto da TecnologiaVício em plataformas · Responsabilização legal
- Inteligência ArtificialTreinamento de IA · Uberização do trabalho · Gêmeos digitais
- Protagonismo InfantilLei Felca · Proteção de dados
- Cultura DigitalManipulação de dados · Trends e algoritmos
Resumido
Olá, eu sou o Bruno Natal, hoje é dia 31 de março e no resumido número 357, a piora da internet é questão de política pública. Napster vira fábrica de gororoba musical por IA. Pokémon GO ajudou a mapear as cidades para os robôs. Gêmeos digitais prometem agir por você. Trabalhadores treinam a IA que pode substituí-los. Robôs entram na guerra, plataformas condenadas por vício e muito mais.
Vamos nessa, resumido.
Olá, Resumista! Esse é o Resumido, um podcast sobre cultura digital e o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossas vidas. Tô de volta de viagem. Algumas poucas pessoas repararam que os dois últimos episódios foram pré-gravados, uma coisa inédita no Resumido, eu nunca tinha conseguido fazer isso. É, de certa forma, libertador ver que agora eu consigo gravar um episódio com comentários não exatamente em cima das notícias da semana e ainda assim tá atual e faz sentido.
Isso é legal porque abre espaço para reflexão e também para organizar melhor o meu tempo um pouco. Eu gostei de fazer dessa forma. Queria saber o que você achou ouvindo. E eu fiz isso porque eu tinha uma viagem marcada. Eu fui correr a meia maratona de Nova York a convite da Strava junto com a minha mulher. Foi muito legal. Eu nunca tinha corrido no frio. Estavam menos um na hora da largada e não melhorou muito ao longo da prova.
E muita gente tinha me falado que correr no frio melhorava o desempenho. E eu acabei batendo o meu recorde na meia maratona. E parabéns pra mim. Não é que eu esteja muito preocupado com o tempo. Mas foi legal fazer. E muito bom dar uma volta. Tinha muito tempo que eu não viajava. Quase 10 anos. E eu vi várias coisas que eu tava com vontade. Entre elas, visitar o New York Times. Fui lá, conheci uma das produtoras. Ou a produtora principal do podcast Hard Fork.
Visitei a redação, impressionante ver a quantidade de gente numa redação. Acho que eu não via esse volume de jornalistas numa redação desde o início dos anos 2000, quando eu comecei a escrever para o Globo. Comentei isso com ela, inclusive. O jornal, como era de se esperar, alto nível, vários estúdios muito legais, gravação de podcast, de vídeos, como eu falei, a redação super cheia.
De certa forma, o animador vê que pelo menos uma empresa de jornalismo conseguiu se adaptar tão bem aos tempos digitais. Quem sabe a gente consegue fazer algo parecido aqui no Brasil. E também foi legal conhecer um pouco melhor como é a produção do Hard Fork e descobrir que muitas coisas que eles fazem por lá é muito parecido com o que eu faço por aqui.
E é legal validar os métodos, a forma de trabalho, entender que num lugar com tanta estrutura, não se trabalha tão diferente. Além disso, fui no IMAX, assisti Devorador de Estrelas. O cinema não é um lugar que eu vou muito hoje em dia e poder ver numa tela gigantesca daquela foi muito legal. Eu adorei o livro, achei o filme um pouco mais bobo do que eu esperava.
mais legal também. E fiquei viajando pelas ciclovias de Nova York, que é o meu grande sonho dourado pro Brasil, um trânsito mais civilizado. E você vê a maneira que conseguem organizar o trânsito por lá e organizar o sistema de ciclovias com uma prioridade grande pras bicicletas, uma faixa dedicada, protegida pelos carros estacionados, em que ninguém invade.
Uma cidade que não tem muita moto, porque as motos são obrigadas a seguir as mesmas regras de trânsito, então não tem tanta vantagem, você não pode ficar costurando no meio dos carros, e ainda é frio pra caramba, então você imagina, não tem tanta moto assim, e acaba o trânsito fluindo melhor. E uma das coisas que me fez pensar muito sobre inteligência artificial, nosso uso de tecnologia durante a viagem,
Foi a quantidade de vezes que eu usei o Google Maps. Eu não gosto de ficar pensando muito tempo, eu odeio ficar perdido e não sou muito bom me localizando em cidades que não são o Rio. E por isso eu usei muito o Google Maps pra me localizar. Só que Nova York é uma cidade muito específica, né? Você tem as avenidas cruzando verticalmente, numeradas, e as ruas cruzando horizontalmente, também numeradas, de maneira que fica um grande grid e não é lá muito difícil se localizar porque você vê um ponto X, um ponto Y e acaba encontrando
do lugar. E nessa eu percebi que algumas vezes eu tava buscando coisas que estavam muito perto e comecei a fazer um exercício de parar pra pensar. Não, peraí. Onde é essa ronda que eu tô? E pra onde que eu ando? E gastar esse tempinho a mais, né? Botar o cérebro pra trabalhar foi muito bom e eu acho que é uma coisa que a gente precisa ter muito cuidado com a chegada dessas ferramentas de inteligência artificial que começam a intermediar tudo que a gente faz no trabalho, até no lazer.
E isso me fez refletir um bocado sobre como eu mesmo venho usando essas ferramentas. Quero fazer outras viagens. Eu tenho uma viagem programada mentalmente apenas ainda para São Francisco, outra para a China, onde eu quero ir pesquisar tecnologia, vendo tecnologia no dia a dia. Coisas que a gente não vê por aqui, né? Como eu falei em Nova York, eu vi esse uso de ciclovia, que não deixa de ser uma tecnologia.
Mas também fiz um test drive do Rivian, que é o carro chamado por muitos como o iPhone dos carros elétricos. Inclusive, eles quase foram comprados pela Apple para ser o Apple Car num vídeo que eu vou postar no Instagram ainda essa semana. Mas a verdade é que em Nova York eu não vi tanta coisa de tecnologia no dia a dia. Acho que São Francisco vai ser uma viagem mais rica nesse sentido. E para fechar essa introdução mais longa que o normal, porque eu tinha essas histórias de viagem para compartilhar...
Fiquei muito feliz que nesse período vieram vários novos assinantes para o Resumido, o que faz essa casinha aqui poder continuar seguindo adiante. Então, muito obrigado, Ana Luíza, Edu, Igor, Marco e Simone, por terem se tornado assinantes pagos do Resumido. O Resumido só pode continuar por causa de vocês. E eu convido aqui você, ouvinte que ainda não é assinante do Resumido, a visitar resumido.cc barra assinatura.
fazer a sua, passar a receber o conteúdo exclusivo como a newsletter Linkerama, ter acesso a todos os links comentados em cada episódio e, eventualmente, quando eu conseguir chegar a pelo menos o mínimo de assinantes necessário, começar a produzir mais conteúdo extra. Até lá, é manter a casa funcionando e eu agradeço demais quem faz isso.
Outra coisa importante é que eu fiz uma compra fundamental nessa viagem, que é um microfone pra gravar os vídeos do Instagram. Então o pessoal que estranhava aí o áudio falava que tava meio ruim. Vai melhorar bastante, não deixei de conferir lá. Vamos de cultura digital e como o nosso comportamento online ajuda a moldar a sociedade.
Recebi uma foto de uma capivara deitada num buraco aqui perto do prédio da Pai. Nós já estamos arrumando, o serviço já foi feito, realizado. Uma das histórias mais legais que eu vi nessas últimas semanas foi o caso do sujeito em Itajubá, em Minas Gerais, que para conseguir que um buraco na rua em frente à casa dele fosse reformado, fez uma imagem com o Iá em que ele botou uma capivara dentro do buraco. Essa imagem viralizou.
E até o prefeito resolveu se manifestar, mandou a equipe lá pra consertar, e depois comentou, dá capivara no buraco. Não sei se o prefeito acreditou de fato, ou só tava se aproveitando do burburinho que gerou a imagem. Mas tá aí, o uso de ar sendo usado pro bem. Mas também fica um ponto de atenção de como é fácil manipular as imagens hoje em dia e como isso pode provocar ações reais. No caso, uma ação positiva. Menos um buraco numa rua. Vai faltar muitos outros, né?
Outra história muito boa foi a do marinheiro que revelou a posição do porta-aviões francês ao usar o Strava para registrar as corridas que ele vinha fazendo no navio. Como os dados de treino do Strava são compartilhados no app e tem lá a localização, quem acessou o perfil desse soldado não só viu.
a localização de onde o navio tava quando ele enviou aquele treino, como todo o trajeto do navio, porque ele fazia isso todo dia. A história é engraçada, mas também deixa esse alerta do quanto que a gente se expõe online, de quantos dados a gente revela, do quanto da gente que a gente conta pro mundo sem perceber. Nesse caso, inclusive, com repercussões bem sérias, né? A localização do porta-aviões enquanto o mundo tá em guerra, em várias frentes, é algo bem delicado, é uma informação muito sensível que deveria ter sido cuidada...
com mais carinho. Mas fica aqui uma lição pra todos nós de tomar cuidado com que tipo de informação, quando e como a gente vai compartilhando cada coisa. E outra história muito legal, e essa foi enviada por vários ouvintes, o que eu sempre adoro quando acontece, quando você ouve ou vê alguma coisa e lembra aqui do episódio, lembra do resumido. E nesse caso, eu mesmo não fiz associação direta quando eu vi a campanha da Chanel, mas é uma propaganda da Chanel com a Margot Robbie, com a Kylie Minogue.
replicando o clipe da Kylie dirigido pelo Michel Gondry. E você também talvez lembre que eu falei aqui, há nem tanto tempo atrás, que eu tava acreditando num ressurgimento do Michel Gondry por conta de um desejo aí cada vez maior no público por imagens analógicas, produções manuais, coisas reais, sem tanto IA. E o Michel Gondry, claro, o diretor francês, ficou muito conhecido exatamente por isso, né? Fazer vídeos com trucagens sem efeito digital, brincar muito com essa coisa de cenário.
E olha aí, tá rolando o revival do Michel Gondry muito antes do que eu pensava. Legal ver essa campanha da Chanel brincando com isso. Porque essa saudade que tá batendo em todo mundo dos tempos analógicos, ou pelo menos dos tempos digitais menos intensos, vamos dizer.
já virou motivo de campanha. Eu já comentei aqui sobre o conceito de enxitification, criado pelo Corey Doctorow, que eu traduzi como merdalização. Inclusive, fiz um episódio dedicado a esse tempo, em conjunto com Cris Dias, do Boa Noite Internet. É só você procurar aqui ou lá no feed do Boa Noite Internet pra encontrar esse episódio falando especificamente sobre isso. E a Noruega resolveu tratar isso agora como uma política pública.
Eles fizeram um vídeo de uma campanha que viralizou, recebi isso também no Instagram de vários ouvintes. E esse vídeo mostra o dia a dia de um homem que tem como trabalho pegar todas as coisas que estão perfeitamente boas e torná-las muito piores. E a piada funciona exatamente porque ela parece cada vez menos exagerada. O conceito de merdalização do Cory Doctorow...
perdão a palavra aí para quem estiver ouvindo com menores de idade por perto, diz que as empresas de tecnologia vão piorando a nossa experiência de propósito. Os produtos vão ficando cada vez piores. Tem a questão da obsolescência programada, que é quando os produtos param de funcionar de propósito.
a sua impressora, o seu celular. E como vários desses serviços online vão se tornando muito pior justamente pra tentar vender uma assinatura, pra vender alguma coisa a mais pra arrancar dinheiro de todos nós. E então esse vídeo que o governo da Noruega fez mostra um cara entrando numa sala de jantar e cerrando um dos pés da mesa pra ficar mais difícil de usar a mesa. Ou outras situações parecidas com essa, né? Coisas que ninguém aceitaria no mundo físico, mas que a gente acaba aceitando todo dia no mundo digital.
E aí ele começa a mostrar outros tipos de imagem, que são os sites, que são feitos para ficar cheio de pop-up, cheio de paywall, cheio de coisa para dificultar o nosso uso, os celulares ficando lentos, chatbots, substituindo o atendimento humano por uma coisa automatizada de qualidade pior. E essa iniciativa reuniu mais de 70 organizações, não só da Noruega.
de outros países da Europa, dos Estados Unidos, incluindo aí sindicatos, grupos de direito humano, pra agir contra essa deterioração como modelo de negócio. Então, estão pedindo leis que deem mais controle pros usuários, né? Coisa que a gente já vê falando há muito tempo, como o direito de reparar, né? O direito de consertar.
que se facilite você abrir esse equipamento, que você tenha acesso a peças sobressalentes, que você possa fazer por conta própria sem ser obrigado a levar na autorizada para não perder a garantia. E também maneiras de a gente migrar das plataformas de Big Tech levando os nossos dados. E o relatório que acompanha essa campanha tem mais de 80 páginas e argumenta que essa degradação das plataformas digitais não é uma coisa inevitável, não é um efeito colateral, é uma escolha mesmo econômica baseada na retenção, no monopólio.
e extrair o máximo de valor de cada usuário. O vídeo bombou no YouTube, mais de 9 mil comentários, 3 milhões de visualizações, e acabou gerando bastante mobilização em torno do assunto, que é tão importante. Muito embora 3 milhões de visualizações no mundo de 8 bilhões de pessoas, são 8 bilhões hoje em dia, né? Não parece lá muita coisa. E dá também uma certa medida de como a gente tá sempre numa bolha falando desses assuntos, ou de qualquer assunto, né?
E eu vi um outro tweet também, muito bom, relembrando a história dos captures, né? Que são aqueles códigos que a gente precisa preencher online pra provar que a gente é humano. Costumava ser desvendar uma palavra com os números, depois virou tentar selecionar todos os sinais de trânsito, todas as bicicletas, todos os carros.
para você provar que não é um robô e que é um humano. Hoje em dia, inclusive, basta você mexer o mouse de uma maneira específica que ele já entende que você não é um humano. Mas a verdade é que esse sistema ficou muito popular através do ReCapture, que era uma empresa que começou ajudando a digitalizar livro e acabou virando uma fábrica de treinamento de visão computacional.
Essa empresa foi comprada pelo Google depois e a verdade é que toda vez que você estava desvendando uma daquelas palavras, você estava, na verdade, ajudando o sistema a decifrar uma palavra que ele não conseguiu entender, não conseguiu identificar quando escaneou o livro. E o mesmo vale...
Pra faixa de pedestre, pra bicicleta, pro carro, pra placa. Você tá ajudando a construir os sistemas que o Google Maps usa, por exemplo, no Waymo, no carro autônomo. No auge dessa ferramenta eram 200 milhões de testes por dia. Eram mais de 500 mil horas diárias de trabalho gratuito.
dos humanos, ajudando os robôs a trabalhar melhor. Um trabalho não remunerado para uma big tech de maneira não transparente. Ninguém sabia que estava fazendo isso, né? Hoje, a Waymo, por exemplo, a empresa de carros autônomos, está avaliada em cerca de 45 bilhões de dólares e foi parcialmente construída com esses dados que foram fornecidos de graça por mim e por você quando você só queria fazer um login num site. E uma outra história que casa muito bem com essa, publicada no Gizmodo, foi.
foi da parceria entre a Niantic com uma empresa de entrega de comidas com robôs. Nos Estados Unidos já tem uns roboizinhos que vão andando pela rua com uma caixinha trancada pra levar a comida de um lado pro outro, ao invés de ser um entregador de moto, ou de bicicleta, ou a pé. Não vi nenhum desse em Nova York, aliás. Como disse, vi pouca coisa de tecnologia na rua que tenha me chamado tanta atenção.
além do fato de ter visto vários Cybertrucks que são mais frios ao vivo do que eu pensava. E a Niantic é a empresa que desenvolveu o Pokémon GO, o jogo que foi uma febre, né? Teve mais de 500 milhões de downloads nos primeiros dois meses, tinha mais de 100 milhões de usuários ativos ainda em 2024.
E ele talvez tenha sido o maior mutirão de mapeamento urbano que já foi feito sem ninguém perceber. Isso foi comentado na época, que estava sendo gerado muito dado, todo mundo tirando foto de tudo, identificando todos os lugares, caminhando pelas cidades para caçar Pokémon, que isso na verdade poderia ser usado para outros fins, e de fato foi. E milhões de pessoas que saiam de casa achando que estavam caçando um Pikachu estavam na verdade treinando essa infraestrutura que vai fazer essas entregas autônomas funcionarem.
melhor e melhor, porque são mais precisas graças aos humanos que ficaram ali mapeando tudo. Porque além das caminhadas, as pessoas tiravam foto, né, no modo de realidade aumentada, pra construir os mapas. E isso tudo tá sendo usado pra treinar esses robôs. Não por acaso, tem várias notícias que falam desses carrinhos robóticos fazendo entrega.
sofrendo resistência até sendo alvo de vandalismo, porque as pessoas estão criticando, não só eles por ocuparem as calçadas para estar ali atrapalhando os humanos a andarem, ao contrário de outros lugares do mundo ou aqui do Brasil, nos Estados Unidos, as calçadas são bem organizadas, as pessoas fazem questão de andar a pé, é tudo lisinho, é uma maravilha. Quem me deram uma calçada lisinha daquela? Esses robôs também filmam o trajeto e algumas empresas dessas já foram acusadas de compartilhar essas gravações com a polícia.
Ou seja, o robô tá andando ali pra fazer a entrega, tá, na verdade, continuando a mapear tudo e mapeando e monitorando o que as pessoas estão fazendo. Caso parecido com um daqueles aspiradores robóticos, que também tem uma câmera pra poder navegar pela casa. E, na verdade, gera também muitos dados sobre os donos das casas, sobre os usuários, no dia a dia, porque tá filmando e vendo tudo ali. É mais um exemplo desse tipo de trabalho invisível que a gente faz na internet sem perceber.
E eu vi no Instagram um post de uma mulher comentando sobre como, na verdade, esses trends que a gente vê online, no Instagram, no TikTok, em vários outros lugares, na verdade, eles pegam ou deixam de pegar online não exatamente porque muita gente está querendo participar ou porque foi uma boa ideia, e muito mais porque as próprias plataformas incentivam os comportamentos que eles precisam que os usuários desempenhem.
pra melhorar seus sistemas. Por exemplo, você deve ter visto esse trend agora com a música do Google Dolls, em que aparecem alguns atores de Hollywood normalmente, como eles eram nos anos 90. Aparece a pessoa hoje, depois nos anos 90, isso tá bombando, todos os artistas fazendo. E aí pessoas que não são famosas também passaram a fazer. E na verdade, ao fazer isso, tá todo mundo fornecendo imagens.
E fotografias, vídeos, mostrando o seu processo de envelhecimento e assim ajudando a treinar esses temas. Sabe-se lá pra quê que eles já estão em mente, mas a gente está lá alimentando e dando mais informação, achando que está brincando de trend. Mas o que eu achei legal do vídeo dessa pessoa é ela explicar isso, né? Porque não é só o uso ocasional, como se fosse uma coisa que acontece e eles aproveitam o momento. Não, é direcionado, porque afinal as plataformas podem determinar o que vai viralizar ou não, de acordo com os interesses deles próprios.
É meio óbvio, pensando depois que ela falou, mas eu achei uma boa observação. E dentro desse mundo aí, da gente estar treinando os robôs sem saber, a New York Magazine fez uma matéria falando justamente sobre como essa promessa da IA de libertar as pessoas do trabalho repetitivo, na verdade, está criando uma outra classe de trabalhadores também invisíveis que estão passando o dia inteiro ensinando a máquina.
a fazer exatamente o trabalho que um dia foi delas. Eu comentei aqui uma vez sobre o caso dos carpinteiros, né? Que estão trabalhando com câmeras na cabeça, porque assim já vai gerando dado pra quando tiver os robôs que conseguem atuar no mundo físico, não só no mundo digital, eles já possam ter um bom banco de dados de como, por exemplo, um carpinteiro funciona.
Só que agora tem mais gente fazendo isso. Roteirista, designer, advogado, professor. Todo mundo tá ganhando por fazer tarefas pra corrigir respostas, pra criar prompt, pra simular cenários que vão alimentando os modelos de A. E nessas plataformas esse trabalho aparece do nada, desaparece sem nenhum aviso e vai pagando cada vez menos. Então já tem um monte de programa, de software, que fica monitorando o mouse, a digitação, uma pausa pra ir no banheiro.
E aí uma das pessoas que são entrevistadas nessa reportagem, uma roteirista, ela falou que ela está recebendo um mapa e sendo mandada para cavar a própria cova. Porque é isso, ela está ensinando a IA a ser uma roteirista e depois ela vai perder o emprego para essa própria ferramenta.
E aí nessa, vai todo mundo sendo vítima da mesma lógica do Uber, da tal Uberização, em que você tem uma remuneração que é instável, você vai competindo em tempo real com outras pessoas para você poder treinar a sua própria substituição e você vai transformando até o trabalho intelectual num bico precário de plataforma.
Talvez com data de vencimento, que vai acabar uma hora que eles não vão querer mais esse dado, e você faz o quê? Uma dessas empresas, a Merkur, foi fundada em 2023 por três garotas de 19 anos, foi avaliada em algo próximo de 10 bilhões de dólares. A empresa já tem 30 mil profissionais ativos por semana concorrendo ali para desempenhar as tarefas para treinar os robôs.
E isso tem a ver com algumas coisas que já foram comentadas aqui no resumido, né? O colapso das carreiras da geração X, a obsolescência profissional, que eu falei no episódio 308. O fato que a IA intensifica o trabalho em vez de reduzir, que eu falei no episódio 352. E de como o work slope, que é como tá sendo chamado todo esse trabalho gerado com IA, que depois o humano tem que revisar, porque tá tudo uma porcaria.
vai gerando mais trabalho pros humanos mesmo. Eu falei disso no episódio 333. E essa minha precisão de dados sobre que assuntos eu falei em cada episódio vem de um uso que eu venho fazendo do Claude em que eu botei todos os roteiros do resumido e quando eu termino um novo roteiro eu posso filtrar e identificar assuntos relacionados que eu falei em outros episódios.
Eu achei bom esse uso, porque eu não tenho memória de elefante pra lembrar tudo que eu falei em todos os episódios, muito menos em que episódio especificamente. E dessa forma eu consigo fazer uns ganchos e até ajudar a relembrar histórias que eu já comentei aqui pra quem ouve todos os episódios. Basta, pra quem não ouve, pode ir lá visitar o episódio. Aliás, me diz o que você tá achando disso. Você gosta quando eu cito episódios anteriores que falaram sobre temas parecidos? O que você acha desse uso de ar? Pode ser legal você deixar nos comentários.
Vão me mandar um e-mail ou comentar nas redes sociais e a gente vai falando sobre isso. Mas voltando aqui ao assunto dos humanos e dos robôs trabalhando em conjunto, até que não vão trabalhar mais juntos e os robôs vão substituir os humanos, uma outra plataforma chamada Rent-a-Human, ou Alugue-um-humano, está tentando acelerar esse processo da seguinte forma.
Ela oferece praias digitais, um humano no mundo físico, disponível pra executar uma tarefa que esse robô não consiga executar porque tá online e porque não tem um corpo físico. Ela foi fundada por um engenheiro de cripto que trabalha da Argentina. Ele tem 26 anos.
E aí ele viu esse problema, essas IAs não conseguem agir no mundo físico, então vamos botar um humano pra trabalhar pra eles. E ele disse que logo no início foram 130 pessoas já se inscrevendo, depois mil, depois 145 mil, e que um mês ele já tem mais de 500 mil humanos listados.
como disponíveis para um agente de ar usá-los como ferramenta no mundo real. Aí tem de tudo, né? Tem um monte de brincadeira com o tema. Por exemplo, uma pessoa foi paga para ficar contando quantos pombos tinham no Washington Square Park por 30 dólares por hora.
segurando um aviso escrito. Uma IA me pagou pra segurar esse cartaz. É tudo muito distópico, né? Pensar que as pessoas estão tendo que se submeter a isso, porque muita gente tá sem muita opção mesmo. O desemprego, a falta de trabalho é uma coisa real. E muita gente faz uma associação com o TaskRabbit, que é um serviço dentro da Amazon em que você pode contratar pessoas pra fazer pequenas tarefas online, né? Traduzir um texto, montar um site. E aí que as pessoas, então os humanos, estão virando o TaskRabbit dessas IAs.
Lá em Nova York eu fui no New Museum, que é um museu muito legal, que estava fechado há um tempão, dei super sorte, abriu bem quando eu estava lá, com uma exposição chamada Novos Humanos, Memórias do Futuro. É uma exposição que ocupou o museu inteiro e aí explora como os desenvolvimentos tecnológicos inspiraram várias definições sobre o que é ser humano. E uma das exposições era um curto documentário dirigido pelo Rito Steriel, chamado Mechanical Curves.
Como eu falei, o serviço da Amazon chama Mechanical Turk, que faz referência à máquina de xadrez automática criada pelo inventor húngaro em 1770, que dizia-se um robô de jogar xadrez, mas, na verdade, tinha uma pessoa escondida lá dentro que tinha acesso ao jogo sem ninguém ver e conseguia fazer esse robô, entre aspas, jogar. Então, o nome do serviço da Amazon é inspirado nisso e o nome do filme Mechanical Kurds. O filme mostra esses curdos que trabalham no norte do Iraque.
prestando serviço pro Mechanical Turk da Amazon. E é por essa e por outras que, como o New York Times bem apontou, a imagem do Vale do Silício tá ficando cada vez mais dark na cultura popular. Aí essa reportagem do New York Times fala da série Silicon Valley, da HBO, que fez um super sucesso, tinha uma visão meio de carinho dessa época de startup. Inclusive, pra mim, traz várias memórias, porque a primeira temporada de Silicon Valley...
Lembra muito a ida do Queremos, a plataforma de shows que eu fui sócio, cofundador e sócio, lá em 2011, quando a gente foi para o mesmo evento que eles vão na primeira temporada, para o TechCrunch Battlefield. E era bem aquele clima mesmo e as coisas mudaram muito. Hoje em dia a gente vê um filme como Mountain Head também na HBO que mostra os bilionários em tecnologia que estão representando. O Elon Musk, o Jack Dorsey, o Mark Zuckerberg.
assistindo a um colapso global por causa da IA, da desinformação, mas pensando em como lucrar mais com aquilo tudo. Então essa promessa do Vale do Silício, de um futuro melhor, está sendo substituída por uma visão de uma fábrica de manipulação, onde tem muito poder concentrado, muita distopia, e esse nerd idealista acabou sendo de cena. O que a gente está vendo mais agora é um bando de bilionário apocalíptico.
que não tá nem aí pra nada e só pensando em como sugar o máximo possível da sociedade e eles lucrarem sozinhos. Prova disso, aqui vai o recap, episódio 301, eu falei sobre como o Vale do Silício tava abandonando as promessas éticas pra fechar os contratos militares. Isso ainda era uma discussão, agora virou uma realidade muito grande.
57 semanas depois, ou também dos bilionários que estão tentando usar IA e tecnologia para reescrever a história. Eu comentei isso no episódio 319. Seja como for, a gente precisa continuar se provando humano, via CAPTCHA, sem CAPTCHA, mas a gente vai precisar provar o nosso valor como humano se a gente quiser sobreviver a essa avalanche tecnológica que estão tentando nos impor.
Agora é hora de explorar as transformações causadas pelas inteligências artificiais. Of all things Americans are, we are makers. 3, 2, 1...
A Fast Company fez uma reportagem chamada Eu conheci o meu gêmeo digital e agora estou numa crise existencial que promete criar um gêmeo digital que é treinado nos seus e-mails, nas suas mensagens e tudo que você escreveu na internet, qualquer rastro que você tenha deixado online. E aí esse sistema vai imitando o seu jeito de escrever pra conseguir também prever as suas opiniões e até agir por você.
escrever no WhatsApp, escrever no Slack, escrever no Teams. Eu até vi um garoto falando que criou um desse pra ficar respondendo os pais no WhatsApp, que ele se sentia meio mal, mas que na verdade estava falando tão bem quanto ele que estava deixando os pais felizes. Imagina só uma coisa dessa, que deprê. E o que me chamou a atenção nisso...
Além de você tentar automatizar e terceirizar a sua própria pessoa, inclusive para se relacionar com seus pais, é que uma das vendas da Sentience é que isso criaria sua versão digital com uma memória perfeita. É mais ou menos como eu estou falando aqui, eu tenho usado o Clodo para me ajudar a lembrar dos episódios, o que eu falei em cada episódio para poder ajudar a costurar aqui o que eu estou falando no episódio atual.
ou o que eu comentei sobre o Google Maps, e você ir terceirizando a sua memória. Você vai deixando até de tentar lembrar, porque digitalmente vai ter alguma coisa que já registrou isso tudo. Então você não precisa lembrar. Mas eu acho curioso, porque quando se fala em inteligência artificial, que absorveu todo o conteúdo do mundo, na verdade, esses modelos de linguagem absorveram todo o conteúdo online. Mesmo que...
que tenha absorvido todos os livros impressos não absorveu todas as vivências. A gente não passou a viver nos últimos 30 anos quando tem internet, a gente não viveu só através dos livros que foram escritos. A vida, a vivência é muito maior que isso tudo. Então, quando você fala que vai criar um gêmeo digital baseado em tudo que você publicou online...
Isso vai variar muito de pessoa para pessoa, né? O quanto você publicou? O quanto que você publicou e escreveu é de fato como você pensa, o que você acha e acredita do mundo, versus o que você talvez tinha se sentido impelido a escrever? Eu falei no episódio 319 sobre os avatares que foram criados para conversar com mortos. É uma empresa chamada Storyfile que você geraria esse gêmeo digital de uma pessoa que já morreu para você continuar conversando com ela.
Ou então os companheiros virtuais, essas relações parassociais que as pessoas começam a se relacionar com esses robôs como se fosse alguém. Um uso, por exemplo, sugerido em retiros de idosos que não tem ninguém pra conversar, então pelo menos conversa com uma máquina dessa. Mas no caso aqui, é você terceirizar você baseado numa versão que nem é tão completa. E aí o risco é você virar essa versão, porque você vai começar a se basear no que tá ali, as pessoas vão te conhecer a partir desse gêmeo digital e nessa...
você vira essa manifestação. Isso não me parece uma boa ideia, não. Eu li, inclusive, numa newsletter que eu gosto muito, o cara fazendo um teste, não sei se ele estava sendo pago, não está escrito ali se era uma publicidade ou não, mas eu não vou nem chegar perto de uma coisa dessa. Mais uma vez, eu costumo recomendar não entrar nessas coisas. Eu não tenho nenhum agente de A montado, não dei acesso nem para o Clodo, nem para mais nada dessas ferramentas à minha máquina. Acho muito arriscado ainda, eu prefiro continuar pensando.
Mas de um jeito ou de outro, os robôs estão vindo na nossa direção. E a Time falou sobre a ascensão dos soldados robóticos. Deixou de ser uma ficção científica, né? O Exterminador do Futuro e outros filmes que a gente vê com soldados robóticos. E essa reportagem fala de uma empresa...
que já desenvolveu o primeiro robô humanoide, feito especificamente para a defesa, um modelo que pode carregar arma, pistola, espingada, rifle, já recebeu mais de 24 milhões de dólares de contrato do exército, das Forças Armadas, dos Estados Unidos, e isso abre várias questões, né?
Como eu comentei aqui algumas vezes, a guerra da Ucrânia tá virando um grande balão de teste, um campo de teste dessas tecnologias digitais, IA, robóticas, no campo de guerra. E mais uma vez, estão mandando pra lá, né? A Ucrânia hoje em dia já lança até 9 mil drones por dia. Alguns conseguem navegar, localizar alvo, atacar de forma quase autônoma quando o sinal é interrompido, por exemplo. Porque uma das premissas centrais hoje em dia é a questão da autonomia. E o que se diz é que a última decisão tem que vir de um humano.
Mas a verdade é que no frenesi de uma guerra, os exércitos podem tender a delegar essas decisões aos drones, aos robôs, às IAs, e deixar elas tomarem a decisão final. E o que acontece é que quando uma missão dessa der errado, por exemplo, matar um civil, quem vai ser responsabilizado?
um humano que tava por trás, mas se ele não tomou a decisão final, foi o programador que ajudou esse sistema automatizado a tomar a decisão, não tem nenhuma lei hoje em dia que consiga lidar com esses crimes de guerra algorítmicos, por assim dizer, né? E isso é um fio desencapado. Tem muito problema pra daí, mas a verdade que isso aí já chegou pra valer e a gente vai começar a vivenciar isso.
No episódio 332, eu falei sobre como a China está liderando já esses robôs industriais para essa automação física, os robôs que agem no mundo real. E já falei também aqui sobre esses robôs humanoides domésticos da NVIDIA, da Tesla. Falei isso lá no episódio 312, já tem bastante tempo.
sobre esses robôs que a gente vai ter em casa. E aí você pensa numa outra notícia que eu li no The Sun, sobre um robô humanoide que foi preso em Macau depois de assustar uma senhora de quase 70 anos que estava olhando o celular numa rua pequenininha, estreita. Ela se virou, deu de cara com essa máquina que estava atrás dela, um robô humanoide. Passou mal, acabou indo parar no hospital.
E o vídeo viralizou porque parece uma cena de comédia involuntária. Porque é uma mulher brigando, uma senhora brigando com o robô. E a polícia levando a máquina embora. E todo mundo tentando decidir se aquilo era uma ameaça, se era um acidente, se era uma bizarrice do futuro. E não é realidade que isso acontece. Será que você quer levar um robô desse pra sua casa? Pra lavar a louça? Será que vale a pena ter uma coisa dessa só pra carregar a sua máquina de lavar?
Ou é melhor de continuar fazendo algumas coisinhas que a gente precisa no dia a dia pra evitar esse tipo de acidente? Porque até aqui, os robôs que a gente vê principalmente online, né? Agindo no mundo digital, fazem bastante besteira. E olha só o que aconteceu com o Napster. O Napster que foi uma empresa que já representou a rebeldia contra a indústria da música, que revolucionou o compartilhamento de MP3, que mudou, né? Todo o entendimento de como a música deveria circular.
e ser remunerada com todos os problemas que isso trouxe, né? Começou com pirataria, terminou no Spotify, que não remunera os artistas tão muito melhor do que a pirataria remunerava. E agora o show sendo a fonte mais importante de receita dos artistas. O Napster agora virou uma grande fábrica de eslope de música. Só que a marca do Napster é tão forte que ela nunca morre. Toda hora tentam transformar em alguma outra coisa. Já tentou ser um streaming e agora o que virou é uma máquina de eslope.
O novo CEO anunciou que o futuro não é mais ouvir música, é fundir a sua identidade com artistas de IA em tempo real. E a proposta é você ficar cocriando música e podcast em conversas com chatbot. E aí a gente vê a plataforma que foi a maior ameaça ao sistema da indústria da música e virar exatamente o que o sistema mais gosta, que é uma máquina de contudo infinito, com treinamento que ninguém sabe direito o que aconteceu, com uma assinatura recorrente.
E aí é isso, nem você ouvir música é mais o suficiente. Agora você precisa customizar, optimizar.
Agora você precisa customizar, otimizar, participar. Tudo coisas que eu não acredito que vão ter vida longa. Eu não acho que as pessoas vão querer ter essa relação tão intensa e tão ativa com tudo. Agora, tudo que eu faço, eu tenho que criar, cocriar. E se eu quiser sentar e assistir alguma coisa, ouvir uma música, eu não sei.
Eu acho que vai dar uma cansada. E eu acho que um dos sinais que a gente tá vendo disso aí é o fim da Sora, né? O aplicativo de geração de vídeo automático, cunhá, sintético, da OpenAI, que saiu, foi muito badalada, o app vai criar coisas incríveis, as pessoas vão querer consumir isso. Eu achava já difícil que alguém fosse querer ficar vendo aqueles vídeos porcaria o tempo inteiro. A Disney se propôs a investir um bilhão pra licenciar, inclusive, o conteúdo da Disney na plataforma.
E o que a OpenAI descobriu poucos meses depois, depois de torrar uma fortuna, parece que custava 15 milhões de dólares por dia só em operação, pra poder processar esses vídeos todos, que ninguém quer ver isso. Ninguém quer ver esse monte de vídeo criado por IA e eles resolveram desligar a plataforma. Essa é a verdade do que aconteceu com o conteúdo gerado por IA, pelo menos até aqui. Mas um outro cara que fez um uso mais inteligente...
desse produção de música com IA na Carolina do Norte, acabou preso. Ele se declarou culpado depois que ele foi pego explorando uma versão ultra-eficiente da indústria do streaming. Ele não precisava nem de artista, nem de público. Ele criou uma IA pra gerar milhares de músicas falsas. Ele espalhou cerca de 660 mil streams falsos por dia entre várias plataformas e criou também uma audiência artificial pra ouvir isso tudo.
Esse esqueminha dele aí rendeu 8 milhões de dólares. Ou seja, música que ninguém escreveu, que não foi ouvida por ninguém, sangrou 8 milhões de dólares em direito autoral que foram pro bolso desse cara até ele ser pego e ser preso, porque, obviamente, a indústria musical não quer isso aí de jeito nenhum, mas você vê essa inversão radical da indústria musical, né? Não é só você criar música artificial, você também pode criar os ouvintes artificiais e o streaming vira uma economia sintética.
Será que isso é sustentável? Acho que não, né? Então é curioso você ver em muitos aspectos a própria indústria caindo nesse papo de otimização, de ferramentas de AI, querendo criar mais coisa com mais volume, achando que isso vai resolver muito problema, quando na verdade pode acabar arruindo tudo de vez. Mas a verdade é que esses CEOs de Big Tech não estão nem aí. O CEO da Palantir, o Alex Karp, falou esses dias em voz alta uma coisa que normalmente todo o Vale do Silício tenta disfarçar.
E ele falou que a IA vai reduzir o poder dos eleitores altamente educados, muitas vezes mulheres, que votam majoritariamente nos democratas, enquanto vai aumentar o poder de homens de classe trabalhadora com formação técnica. Então isso não é uma previsão do mercado de trabalho, é uma visão de mundo. Ele está tratando a tecnologia como uma ferramenta de redistribuição de poder político.
de poder social, ideológico. E isso aí vindo de uma empresa que trabalha diretamente com o Pentágono em vigilância e inteligência militar. Então, durante anos, a gente vê os CEOs falando em conectar pessoas, em melhorar o mundo. Inclusive, é uma piada na série Silicon Valley, né? Todo pitch de empresa de tech sempre fala que o objetivo é fazer um mundo melhor.
Agora ele tá falando abertamente que a IA vai fazer vários grupos perderem a influência e quais os grupos que vão ganhar, que logicamente são os que interessam mais essas empresas. O Sam Altman foi por um caminho bem parecido também e falou de um futuro em que a inteligência vai ser uma utilidade, como a eletricidade, como a água, um serviço. Ele falou que a inteligência no futuro vai ser vendida. Você vai usar um relógio que gira e no fim do mês chega a tua conta.
De quanto inteligência você usou. É por isso que eles querem que a gente terceirize tudo que a gente pensa, faz, fala, diz, produz, assiste, nesse formato de ar, pra depois poder vender de volta pra gente quando a gente perder essa capacidade, o empenho, o conhecimento de produzir isso por conta própria. E o mais irônico disso tudo
É que essa inteligência que ele vai querer vender de volta pra gente foi construída com texto, com imagens, com códigos, com ideias que foram produzidas por milhões e milhões de pessoas na internet. Eles pegaram essa inteligência coletiva da rede pra transformar num produto e agora vão querer cobrar pra você acessar algo que você ajudou a criar.
Parecido com a história do Pokémon que eu falei no início do episódio. Ou do Capture, né? Que a gente vai ajudando essas ferramentas a serem desenvolvidas pra depois receber tudo de volta vendido, embrulhadinho pra gente. Então o que eu posso te fazer é cuidado com o golpe que ele tá aí. Vamos ficar ligados. E agora é hora de falar sobre como as Big Tech moldam o nosso comportamento.
Antes da lei, quando ela caía num site de pornografia, bastava ela clicar, sou maior de 18 anos. Após a lei, é necessário que plataformas que tenham coisas para maiores de 18 anos seja obrigado a confirmar a idade. Uma das coisas que aconteceu enquanto eu viajava, e eu não comentei aqui, agora você sabe o porquê, é que o ECA Digital entrou em vigor para fazer uma coisa inédita, que é obrigar as plataformas, que são feitas para prender a atenção e coletar dados, a proteger justamente o público que é mais vulnerável a esse modelo, que são as crianças.
A lei está sendo chamada, inclusive, de Lei Felca, porque muito dessa movimentação veio a partir daquele vídeo que ele fez, que repercutiu demais, né? Então, essa nova lei agora vai proibir a autodeclaração de idade, ou seja, não vai bastar você clicar num botãozinho e falar que você tem mais de 18 anos.
Vai exigir uma verificação mais robusta pra você acessar sites de pornografia, de aposta, de álcool. E obriga agora as redes sociais a criar versões sem publicidade direcionada pra menores e determina também que os perfis de adolescentes abaixo de 16 anos sejam vinculados aos responsáveis. Eu acho difícil discordar disso tudo. A grande questão que fica é que você obriga todo mundo a se identificar, né? Por exemplo, você tem mais de 8 anos, quer entrar no site pornográfico, você não precisa...
Dizer nada disso, que você tem esse direito, você já é maior de idade, você vai ter que se identificar. Então não é sobre identificar a criança, mas sobre ter que identificar todas as outras pessoas pra provar que não são crianças. Então a gente tem uma questão de privacidade que não é pequena, não é trivial, mas dentro do que a gente tem hoje em dia, é o que tem pra hoje. Qual é a outra solução? Deixar uma ferramenta que qualquer criança pode acessar, qualquer barbaridade online, sabe-se lá com que consequência?
ser abordada por adultos em chat de jogos, games que vendem loot boxes e outras coisas que acabam explorando uma fragilidade das crianças. Então é isso, né? A internet não vai poder mais tratar adolescente, criança como um adulto em miniatura.
Uma coisa que eu falo sempre, né? Dispor ao mesmo feed, ao mesmo anúncio, aos mesmos mecanismos de vício. Eu acredito muito que a gente vai precisar, alguma hora, chegar num sistema operacional pra crianças, em que vai estar tudo isso vedado, e você vai, sim, ter que se identificar como adulto pra ter acesso ao sistema operacional de adulto. E o que você vai fazer lá dentro vai ser muito mais privado. Inclusive, através de tokens, de blockchain, você consegue fazer um monte de identificação que é sem você revelar a identidade da pessoa, né? Você ganha um token.
que determina que você tem uma determinada idade, educação, ensino, pra você acessar determinadas coisas online. Você pode fazer, criar um perfil inteiro que é anonimizado, que esse token te identifica nos lugares como usuário, pagante, enfim, seu perfil inteiro, sem revelar quem você é.
Como sempre, lei aqui no Brasil não falta. O que falta é cumprir e conseguir fazer as leis funcionarem e serem executadas. Então vamos ver como isso vai ser feito por aqui. Tomara que dê certo. Eu acho que é um passo importante. E um passo também muito importante foi dado nos Estados Unidos. Falei sobre isso aqui alguns episódios atrás. A meta e o YouTube estavam sendo processadas num caso que poderia ser emblemático e, de fato, se tornou emblemático.
Porque é o caso de uma pessoa contra as duas empresas, era também contra o Snapchat e o TikTok, que decidiram fazer um acordo, porque estava claro que eles iam perder. E a grande diferença desse caso é que a pessoa que está processando nessas empresas está acusando elas de desenvolverem produtos que são viciantes, com funcionalidades como o scroll infinito, autoplay, recomendação algorítmica, tudo que é desenhado para prender a atenção e acaba contribuindo para a ansiedade, para a depressão, no caso dela, foi o que ela argumentou. E esse caso é diferente porque até aqui,
Você falava muito do conteúdo que estava sendo compartilhado. E uma coisa que eu sempre bati, eu sempre bati nessa tecla, de que a gente precisa ir atrás do mecanismo. Porque senão você bate, principalmente nos Estados Unidos, na questão da liberdade de expressão. Esse caso conseguiu dar a volta nessa questão e foi diretamente na mecânica das plataformas. E como era esperado, tanto a Meta quanto o YouTube, que tiveram a arrogância de avançar com esse processo, achando que iam ganhar, foram condenados, vão ter que pagar a Meta.
4 milhões e 200 mil e o YouTube 1 milhão e 800 mil em danos compensatórios e punitivos pra essa jovem de 20 anos que não foi identificada, ela foi até identificada como KGM, porque ela era menor de idade, quando esse processo foi iniciado. E agora o que vem depois disso é que tem outros milhares de casos iguaizinhos, prontinhos pra ir pra corte, agora com uma jurisprudência fortíssima, provando que esse formato não funciona.
Isso sim pode ser um grande momento de virada. Isso sim pode forçar essas plataformas a reverem esse monte de coisa que precisa ser revista. Isso sim pode fazer essas plataformas reverem a forma que elas operam, até onde elas podem ir, porque agora vai ter consequência...
financeira. E parece que é só assim que entendem, né? E outro assunto em Big Tech que foi muito comentado foi a meta encerrando a criptografia de ponta a ponta no Instagram. Algo que vai ser mantido no WhatsApp. E por que isso foi feito? As pessoas deixaram de postar as coisas de maneira pública no Instagram, deixaram de usar os comentários pra conversar entre amigos e quase toda a interação migrou pras DMs, pras mensagens privadas, como todo mundo aqui deve saber. Eu, inclusive, só entro no Instagram pra ver meu inbox. Eu quase não vejo feed.
É raríssimo eu entrar ali pra ficar escrolando. Eu não tenho paciência pra aquilo mais. Graças a Deus. Mas também se entra, fica preso, né? Como a conversa tá toda lá, estava tudo criptografado, e quando tá criptografado, nem a própria meta consegue ver o conteúdo dessas mensagens, eles não conseguem saber o que tá sendo falado pelos seus usuários e assim vender anúncio. E vender oportunidades e gerar receita pra empresa.
O motivo que eles não vão fazer no WhatsApp, eles argumentaram, é o seguinte. No Instagram, você não tem só relações pessoais. No WhatsApp, você conhece todo mundo que você tá falando e por isso precisa-se de uma criptografia de ponta a ponta. No Instagram, de acordo com a meta, não.
Porque você tem conversas e você recebe conteúdos e consome coisas que não são privadas, não são das suas relações pessoais. Só que muita gente tem muita conversa privada ali dentro do inbox, então fique esperto com o que você publica ali, porque se você tem aquela ideia, né? Ah, o celular tá me ouvindo, agora vai ouvir mesmo. Vai estar ali lendo tudo que você escreveu e você vai tomar um monte de anúncio na cabeça. E se for só anúncio, tá ótimo, né? Mas a gente vai...
Mas é mais uma mudança na nossa privacidade que logo vai ser contestada por alguém e muito provavelmente as empresas vão perder e a roda gira a gente lutando, esperneando para tentar sobreviver esse amasso que a gente toma nessas empresas. Hora de relaxar com as dicas de ver, ler e ouvir.
Hoje o lugar mais perigoso do mundo não é uma avenida movimentada num lugar escuro, cheio de gente ruim. É o quarto. Tem uma série de documentários mapeando os mesmos fenômenos digitais a partir de ângulos diferentes. E vale a pena prestar atenção. O mais próximo de casa é o Anatomia do Post, que está disponível na Globoplay, produzido por aqui, que acompanha famílias brasileiras lidando com a dependência de internet, os efeitos dessa pressão por engajamento na saúde mental, nos adolescentes.
e é legal ver o esforço registrando a realidade brasileira, nos Estados Unidos, estreou no South by Southwest agora em março o Your Attention, Please, que conecta os designers das plataformas aos casos extremos de sofrimento e questiona se as leis de responsabilização das Big Techs ainda fazem sentido, que tem tudo a ver com esse caso da meta do YouTube que eu acabei de comentar no bloco de Big Tech.
E tem também o The AI Doc, que entrou em cartaz no dia 27 de março nos Estados Unidos, que tem uma raridade, que são vários CEOs da OpenAI, da Antropic, da Google DeepMind, respondendo perguntas sobre segurança, sobre os riscos de IA. É um documentário que está sendo bem badalado por conta das entrevistas que tem, mas eu já li resenhas dizendo que ele é um pouco superficial. Mas eu estou curioso para ver, justamente por conta dessas entrevistas, apesar de que esses CEOs falam qualquer coisa online hoje em dia, não é mais muito segredo.
E um outro filme é o Ghost in the Machine, que estreou no Sundance em janeiro, que traça um paralelo entre os fundamentos da inteligência artificial e algumas práticas históricas bem mais sombrias. Então tem aí quatro filmes sobre o mesmo tema, todos fazendo uma pergunta parecida, né? A gente tá entendendo a tecnologia, ela já nos entende melhor do que a gente entende a nós mesmos. Vamos pensar.
Se tem uma pessoa que tá doidinha pra voltar à ativa, é o Thomas Balgater, que é metade do Daft Punk. É o que parece a outra metade. O Gui Manuel, Homem de Cristo, não tá muito interessado, porque o Thomas Balgater já tá virando arroz de festa. Tá tocando em toda parte. Brincadeira, exagero, não chega tanto. Mas ele tocou ao vivo com o Fred Again.
um DJ da nova geração que vem se destacando muito, no Alexandra Palace, em Londres, como parte da série itinerante USB-002, em que o Fred again tá levando o mesmo conceito de festa pra diferentes cidades. E essa foi a segunda vez que o Balgater tocou como DJ em 17 anos. E o que chama a atenção foi o formato, né? Porque é um set super longo, solto, cara, tocando pra pista, não tem aquela estética hiperproduzida do Daft Punk, o espetáculo, que são as apresentações deles, ou que se transformaram.
E nessa, o Bangalter aparece mais como um DJ mesmo, diluído ali no coletivo. E o Fred again resolveu publicar o set na íntegra. Ele diz que não gosta de se ver tocando, ele nunca vê os sets, mesmo os que são filmados. Mas disse que esse, ele tá lá como um fã e ele queria compartilhar com todo mundo. Então é que beleza, tá tudo online. Quem não pôde ir na festa, aqui é todo mundo. Agora pode pelo menos ouvir e ver as imagens.
Nesse episódio, você ficou sabendo que a piora da internet é uma estratégia de negócio, que plataformas estão sendo transformadas em máquinas de conteúdo automatizado, que milhões de pessoas ajudaram a treinar IA sem saber, que a inteligência pode virar um serviço pago, que governos e tribunais começam a responsabilizar plataformas pelos danos que causam e muito mais.
Eu vou fazer um pedido que eu faço sempre, que além de assinar o resumido no resumido.cc barra assinatura, é pra você recomendar pra mais gente. Nada leva o resumido mais longe do que você recomendar pra alguém. Então se você puder fazer isso, além de curtir, assinar, seguir, dar cinco estrelinhas, deixar uma resenha na plataforma que você estiver escutando esse episódio agora, eu te agradeço demais. E se você quiser comprovar que você ouviu o episódio até aqui, até o final, é só você deixar o comentário com a palavra secreta da semana, que é trabalho.
O resumido é produzido e apresentado por mim, Bruno Natal. O roteiro é escrito por mim, pelo Agenor Neto. O Cauê Marques coedita a newsletter Futuro Explicado e as redes sociais que contam com animações do Peri Selman e designer do Felipe Araújo. A edição e mixagem é feita pelo Hugo Rocha, da Usina Sons. A foto da capa é do Jorge Bispo e o tema original foi composto pelo Gustavo Silveira. Eu sou o Bruno Natal. Obrigado pela audiência. Semana que vem tem mais Resumido.
One more time!
Insider
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