Presença virou produto / Reunião que salva emprego / Big Tech e o mapa do caos (#360)
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RESUMIDO #360, apresentado por Bruno Natal
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IA de Val Kilmer atua em novo filme, influenciadores adotam gêmeos digitais para estar sempre online e até Zuckerberg que ser clonado para falar com os funcionários e trabalhadores estão divididos sobre o uso de IA.
Quem decide o que ainda precisa ser humano?
Neste episódio: aquela reunião chata pode salvar seu emprego, Val Kilmer estrela filme que nunca filmou, Zuckerberg cria clone digital, influenciadores adotam gêmeos digitais, Wayback Machine pode acabar, uma loja operada por uma IA em São Francisco, Europa lança app gratuito de verificação de idade anônimo e muito mais!
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Resumido
Olá, eu sou o Bruno Natal. Hoje é dia 21 de abril e no resumido número 360, aquela reunião chata pode salvar o seu emprego. Val Kilmer estrela filme que nunca filmou. Zuckerberg cria clone digital. Influenciadores adotam gêmeos digitais. Wayback Machine corre o risco de acabar. Uma loja operada por IA em São Francisco. Europa lança app gratuito de verificação de idade anônimo e muito mais. Vamos nessa, resumido!
Olá, Resumista! Esse é o Resumido, um podcast sobre cultura digital e o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossas vidas. Nas últimas semanas, eu estive na Globo News algumas vezes. Fui no estúdio ao vivo pela primeira vez, foi muito legal. E na semana passada, participei com o Marcelo Lins e com a Natuza Neri. Dei uma bela de uma cavada pra ver se o Resumido faz uma parceria com o assunto e acho que colou, hein? Então, quem quiser, vai lá no perfil da Natuza Neri e fala pra ela convidar o Resumido.
E semana passada, como há muito tempo não acontecia, vieram vários novos assinantes para o Resumido que juntos estão ajudando essa banquinha aqui a seguir adiante. É muito importante até para eu conseguir implementar novos formatos, novos produtos para os próprios assinantes.
eu consegui chegar na meta mínima, que ainda não estamos lá não, estamos nem 50% ainda. Então, muito obrigado aos novos assinantes Ian, Daphne, Luiz, Aldalberto, Bianchi, Cláudio, Neto, Fernando, Fernanda, Rodinil e Eduardo. Muito obrigado, bem-vindos. E se você também quiser se tornar um assinante do Resumido, é só você visitar www.resumido.cc barra assinatura e por lá você pode embarcar e ajudar o Resumido a seguir.
Vamos de cultura digital e como nosso comportamento online ajuda a moldar a sociedade? Não se preocupe dos mortos e não se preocupe de mim.
O ator Val Kilmer, que morreu em abril do ano passado, aliás, o documentário sobre a vida dele que tem na Amazon é sensacional, chama Val, recomendo demais, acho que foi até dica aqui no resumido em algum momento, ressurgiu no trailer de As Deep as the Grave, ou Tão Profundo Quanto a Cova, em que ele aparece atuando.
falando, ele estava com um problema de voz no final da vida, mas com a voz perfeita falando e o que foi revelado é que, e o que aconteceu é que toda a participação dele no filme foi feita através de IA, com autorização da família, que acompanhou o processo, então tanto a parte visual, física dele, quanto a voz, tudo foi gerado com IA e o trailer é impressionante, vamos ver se vai sustentar durante o filme inteiro, mas no trailer parece muito realista.
Esse não deve ser o primeiro caso do uso da imagem de alguém que já morreu em algum filme. A gente já teve casos, por exemplo, da princesa Leia em Star Wars, que ficou horrorendo, mas enfim, tentou-se. Mas esse pode ser o primeiro caso com grande nome, de alguém que morreu recentemente com um uso tão massivo, com a tecnologia tão avançada.
de algo que talvez vire norma. Acho que muitos atores e atrizes vão acabar licenciando as suas imagens ainda em vida, talvez até já recebendo adiantado por usos futuros, porque parece um caminho inevitável. A revista Squire, de Singapura, fez um uso mais polêmico de IA. Eles publicaram uma entrevista de capa com um ator japonês, McKenna, só que a entrevista nunca aconteceu. Eles usaram... Eles usaram...
diversas outras entrevistas do McKinney ao longo da carreira, pegaram todo esse material, embarcaram numa inteligência artificial e a partir daí fizeram perguntas e publicaram as respostas que vieram baseadas nas entrevistas anteriores do McKinney.
Pelo que eu entendi, isso nem foi feito de maneira escondida. Foi anunciado que foi feito dessa forma. Mas isso aí abre uma série de questões. Primeiro, se ele está respondendo novas perguntas baseadas em respostas antigas, significa que ele não vai responder nada de novo.
Vão ser elucubrações, aproximações do que ele responderia baseado no que ele já disse. Mas quem aí nunca mudou de ideia radicalmente sobre alguma coisa? E segundo, que embora vários agentes de artistas estejam achando maravilhoso, você imagina, a quantidade de entrevistas poderiam ser, entre aspas, aqui...
concedidas dessa forma, multiplicaria a presença desses artistas em diversos veículos. Só que eu acho que quem não vai gostar nada disso é o público. E eu acho que talvez nem os jornalistas, porque aí vira uma entrevista sintética, vamos dizer.
Seja como for, o Mark Zuckerberg também está indo pelo mesmo caminho. A The Verge anunciou que ele está construindo um clone IA para substituir ele nas entrevistas. A meta estaria desenvolvendo essa versão IA do Zuckerberg para ele poder responder dúvidas, interagir com os funcionários como se fosse ele próprio falando com eles. Esse avatar está sendo treinado na imagem, na voz, nos gestos, no tom de fala, em todas as declarações públicas do Zuckerberg para simular a presença dele dentro da empresa.
Isso aí supostamente é pra dar a chance dos funcionários interagirem com o Zuckerberg, mas eu acho que isso faz parecer que você não vai interagir com ele nunca, né? Que você é tão insignificante que não é nem digno de uma resposta dele. Talvez seja melhor você não ser respondido do que ser respondido por uma versão IA de alguém. Porque você sabe que você não tá falando com aquela pessoa.
Isso aí, no máximo, é mais prático do que fazer uma busca online sobre o que a pessoa já falou em entrevistas ao longo da vida. Serve como pesquisa, pode até ser um formato interativo, legal de você operar, mas daí você achar que isso vai substituir a pessoa, eu acho meio maluquícia.
A matéria da The Verge fala até que os CEOs andam defendendo tanto a IA como uma ferramenta de eficiência, que parece que eles estão interessados até em substituir a própria presença física para aumentar essa suposta eficiência. No episódio passado, ano retrasado, eu falei do caso da startup Sentience, que oferece uma forma de você criar uma versão digital de você mesmo, com uma memória perfeita, usando seus e-mails, suas notas, suas redes sociais, suas mensagens no Slack.
pra, assim, falar em seu nome, responder e-mails e outras coisas assim. Eu não vou confiar num negócio desse, acho que jamais. Gosto muito de usar a IA pra organizar meus textos, meu arquivo de coisas que eu já escrevi, os roteiros do resumido. Pra poder fazer pesquisas ali em cima, me ajuda a beça quando eu tenho que escrever artigo pra localizar coisas que eu falei, coisas que eu pensei, não tô lembrando exatamente como eu pensei no dia.
Minha memória não é lá das melhores. Isso é um outro assunto, né? O quanto a gente vai terceirizando da nossa memória pra aparelhos digitais. Mas, voltando aqui ao tema, essa startup oferece justamente um produto desse pras pessoas no dia a dia. Então não vai ser surpresa se isso começar a aparecer por aí de maneira mais presente do que a gente imagina agora.
O Financial Times também comentou sobre o clone do Mark Zuckerberg e tocou num outro ponto. Falou que vários gerentes de produto da meta têm sido convidados a fazer um exercício com foco em IA, incluindo design de sistemas, vibe coding, que a participação não é obrigatória, mas que boa parte dos funcionários está interpretando isso como um exercício.
de cortes que devem estar vindo por aí. Você começa a entender para onde a empresa está querendo ir, o que está querendo automatizar. Talvez você comece a perceber, opa, se eu não acelerar com isso aqui, quem vai rodar sou eu. E nessa onda de criar deepfakes, na Forbes eu li que o YouTube está lançando uma ferramenta que vai permitir os criadores gerarem um avatar digital deles próprios, com a sua aparência, com a sua voz, para poder usar em vídeos nos shorts.
que é o Reels do YouTube, né? O recurso vai funcionar com o usuário gravando uma selfie ao vivo, seguindo algumas instruções, e esse avatar vai poder gerar clipes de até 8 segundos, a partir de prompts de texto, que só vão poder ser usados nos vídeos do próprio influenciador. Ou seja, você não vai poder usar o avatar de um outro influenciador no seu vídeo, nem ninguém vai poder usar o seu. Vem com uma marca d'água visível, vem com os metadados como o SynthID e o C2PA, indicando que aquilo foi gerado com IA.
Os avatares que ficarem inativos por três anos vão ser automaticamente deletados, o que protege os criadores, os influenciadores, de que o seu avatar fique lá zanzando em caso ele desista de ser influenciador ou morra mesmo. Esse lançamento vem quase na sequência do encerramento da Sora, que era aquele app da OpenAI de gerar vídeos com Yaa, que eles acabaram aposentando, muito por conta dos custos e as questões de direitos autorais e de deepfakes.
Ainda mais às vésperas de um IPO, que é o que a OpenAI está mirando, lançar a ação na bolsa, o YouTube resolveu seguir o caminho mesmo assim, mesmo com os riscos já conhecidos, para tentar ver se emplaca alguma coisa, inclusive no shorts, que está penando muito para pegar atração. Muitos usuários não gostam dos shorts, querem desligar no YouTube. Eu, particularmente, gosto.
Tem muito vídeo muito longo no YouTube, às vezes, que não precisava ser tão longo, né? E isso eu acho que é uma das funcionalidades que o YouTube vem falando, comentei no episódio passado, sobre resumos de vídeos mais longos, talvez até gerando shorts para as pessoas poderem ver o básico do vídeo, pelo menos ter uma ideia se querem aprofundar naquele vídeo ou não.
E esse assunto dos clones está muito quente. A The Atlantic também falou sobre os clones de A que influenciadores estão criando, não especificamente esses de YouTube. E cita o caso do Caby Lame, que é aquele influenciador italiano que faz assim com a mão.
não tá dando pra você ver porque é áudio, né? Mas que ele aponta pra alguma coisa, uns vídeos meio mudos, assim, que ele tira graça de situações óbvias e ele acabou vendendo a imagem dele por um bilhão de dólares em ações de uma empresa de Hong Kong que ia passar a usar os dados biométricos dele pra gerar vídeos pra serem usados em publicidade, venda de produtos. Ele estava com a expectativa de gerar quatro bilhões de dólares em vendas anuais.
Quatro meses depois, a empresa que comprou o direito do Cabilame afundou e as ações já queiram mais de 90% desde o pico. Ou seja, parece que esse projeto não vai muito longe. Essa ideia de você ficar escalando a presença de uma pessoa sem ela precisar estar lá...
já é problemático por vários pontos, por várias questões. Agora, quando você fala de influenciadores, só deu certo essa coisa de influenciador porque é você se relacionar com uma pessoa do outro lado da tela, você, o espectador, vendo um vídeo de uma pessoa ou lendo alguma coisa de uma pessoa que está lá, existe, tem uma vivência, que divide com o seu público e é daí que vem a credibilidade, o interesse de acompanhar aquela pessoa.
No mundo da influência, você imaginar que as pessoas vão querer ficar assistindo o avatar daquele influenciador, sabendo que é um IA, será que isso faz sentido? Eu até imagino que pra essa visão inicial da empresa de Hong Kong com o Kaby Lame, sim, se for pra vender coisa, talvez nem perceba, né? É tipo propaganda mesmo, que você vê na TV. Você sabe que aquele ator talvez nem use aquele produto, mas a presença dele chama a sua atenção pra você prestar atenção naquela publicidade. Talvez seja a mesma lógica.
A CAA, que é uma das maiores agências de talento do mundo, criou um serviço interno chamado CAA Vault, ou seja, o cofre da CAA, para armazenar os clones digitais dos clientes da agência. Isso inclui o rosto, o corpo, voz, terabytes de dados por cada pessoa, justamente já de olho em situações e oportunidades como a do Val Kilmer que eu acabei de comentar.
A matéria da Atlantic também citou um youtuber holandês chamado KweboKop, que se substituiu integralmente por IA em 2023, porque ele estava com o burnout, e aí ele voltou atrás um ano depois justamente porque a audiência pediu o mano de volta. Não estava funcionando ficar vendo o IA.
E um caso mais grave foi o da influenciadora Carrie Marjorie, que cedeu a imagem dela pra uma startup também em 2023 e acabou perdendo o controle com vários fãs, os supostos fãs, usando o clone pra ter conversa sexual que ela nunca teria aprovado se fosse na vida real. Então, vários advogados já alertam que as marcas podem inserir cláusulas nesses contratos pra reter a imagem de um criador além do prazo original e alguns podem assinar isso sem nem perceber e perder controle sobre a sua própria imagem.
É realmente um paradoxo, um contrassenso, o marketing de influência que foi construído sobre essa promessa de autenticidade começar a transformar essa própria autenticidade num ativo licenciável. Me parece bem diferente do caso do Val Kilmer, por exemplo. Muito embora a atuação dele vai ser baseada em atuações passadas, a gente nunca vai saber o que ele traria para aquilo.
Porque justamente essa inovação, o imprevisível, é daí que vem a criatividade. Você vai ficar só repetindo a atuação do Valquim, mas vai ser a dele pra sempre. A The Atlantic também fez uma outra reportagem sobre a geração Facebook que agora tá querendo limite.
Não é exatamente sobre clone digital, mas é sobre presença online. A matéria fala dessa geração que cresceu sendo fotografada, filmada pelos pais no Facebook, no Instagram, que agora está chegando à vida adulta e está começando a lidar com as consequências disso. O famoso sharing thing.
Que é o comportamento dos pais de ficarem compartilhando a vida dos filhos online quando eles são menores de idade e não tem nenhuma ideia do que tá acontecendo ou como frear aquilo, mesmo voz, né? Pra dizer que se quer ou não quer que aquilo aconteça. Aí a matéria cita o exemplo de uma menina que hoje tem 24 anos, que ela cresceu com a mãe postando tudo dela na vida dela, inclusive o diagnóstico médico, o fato dela ser adotada, o dia que um motorista bêbado bateu no carro dela. E ela diz que... E...
Quando ela tinha 12 anos, ela já tinha sido seguida até em casa por um homem que tinha reconhecido ela através da internet. Depois ela foi vítima de bullying na escola por conta de colegas que ficaram usando informações que a mãe dela havia postado, que é uma coisa que os pais pensam um pouco, os pais e as mães.
Que quando você posta uma coisa de uma criança, de um adolescente, você não sabe que outras crianças e adolescentes podem ver aquilo, talvez através do Instagram, da mãe, do pai, que pode ser amigo e acabar vendo, e aquilo servir de munição, um momento íntimo da criança às vezes, servir de munição contra ela, e acabar virando isso aí, munição pra bullying.
Por conta disso, essa menina não tem mais relacionamento com a mãe. Ela diz que até hoje tem medo, até nas amizades próximas, que compartilhem coisa dela, porque ela tem medo que coisas publicadas na internet possam ser usadas contra ela, como já foram. A matéria fala que nos Estados Unidos a autoridade parental se sobrepõe ao direito de privacidade da criança, que não tem lei que regulamenta esse tipo de conteúdo.
E tem também a questão da monetização, né? Essas famílias que transformam a criança numa influência e depois não tem nenhuma lei que garanta que as crianças tenham parte desse dinheiro. Que eu acho que é o caso aqui no Brasil também. O que os pais parecem esquecer é que na internet tudo é pra sempre. Na internet a memória é eterna, nada é esquecido, mesmo quando é apagado.
Falando em conteúdo apagado, a Wired falou sobre como um dos principais arquivos da internet, a Wayback Machine, que é uma ferramenta do Internet Archive que serve para preservar as páginas da web ao longo do tempo. Eu mesmo já usei muito Wayback Machine lá atrás, no começo do URB, acho que no quinto ano.
Teve um servidor que fritou, eu perdi muito conteúdo. Até hoje tem coisa que eu não recuperei. Tem uma resenha de um show do White Stripes e de um show do Los Hermanos, em dias diferentes, no Metropolitan, que eu nunca mais conseguia. Uma resenha do show do Concrete Blonde, também no Metropolitan. Bom, pensando agora, tudo no mesmo lugar, né? Todas as resenhas do Metropolitan sumiram. E eu nunca recuperei, mas eu recuperei muita coisa que estava lá, arquivado no Wayback Machine, que basicamente gera um registro de todas as páginas da internet.
para ficar a prova de ser deletada. Até porque grande parte do conteúdo da internet some em poucos anos, porque a pessoa para de pagar o servidor, deleta a página, e aquilo deixa de estar disponível. O que está acontecendo com o Wayback Machine é que, para se proteger da raspagem de dados das plataformas de ar, vários veículos de jornalismo estão proibindo essa raspagem. O Reddit também faz isso. E aí, com isso...
O Wayback Machine não consegue acessar os dados para poder arquivar. O Guardian, no jornal da Inglaterra, falou que eles não bloqueiam esse crawler, que chama, esse raspador, mas eles excluem o conteúdo da API do Internet Archive e filtram os artigos da interface da Wayback Machine, o que acaba dificultando o acesso por usuários comuns.
Outro jornal é o USA Today, que diz que o bloqueio não é direcionado ao Internet Archive, mas é parte desse esforço contra os botes de scraping em geral. E alguns jornais estão em conversa com o Wayback Machine para tentar encontrar uma solução. A Electronic Frontier Foundation e a Fight for the Future são duas organizações que já reuniram mais de 100 jornalistas numa carta de apoio à ferramenta. E essa carta manifesta o argumento aqui com o fechamento de jornais locais, dos jornais menores,
e sem alternativa muito clara para a preservação digital, esse trabalho de guardar o registro do jornalismo recai cada vez mais sobre o Internet Archive e por isso é uma ferramenta muito importante. E é sempre importante a gente lembrar que a internet foi construída sobre essa ideia de que informação publicada é uma informação pública e agora os próprios guardiões dessa informação estão aí levantando muros dentro do arquivo coletivo da memória digital, que é o Wayback Machine, e isso é algo que pode acabar impactando fortemente no futuro o acesso a informações passadas.
Um dos motivos que eu mantenho o Urb no ar até hoje, mesmo não escrevendo lá praticamente, pra não dizer nunca mais, tem lá quase 20 anos de textos que eu escrevi com coisas que aconteceram no Rio, no Brasil, no mundo, que um dia podem servir de informação, pode ser importante até pra mim. Vai que um dia eu vou querer escrever uma autobiografia, sei lá, mas eu mantenho lá no ar, porque se sair dali, sumiu, acabou. E a gente às vezes perde de vista o quanto que a internet pode ser efêmera.
Toda semana aparece uma pesquisa nova dizendo que a IA vai substituir alguma função de gestão. Pode ser análise de dados, previsão de cenários, tomadas de decisão, coisas que antes eram exclusivas para diretores estão sendo automatizadas. E aí fica uma pergunta, o que vai sobrar para o líder que não souber usar a inteligência artificial?
A PUC Paraná me procurou para apresentar a escola de IA deles e eu achei que faz muito sentido para o público do resumido. Um dos professores do curso de liderança, por exemplo, é o Neil Hoyne, que é o líder de estratégia global do Google. Então não é só conteúdo teórico, é a chance de aprender com alguém do Google explicando como eles usam IA de verdade para você poder aplicar na sua carreira.
São oito pós-graduações no total. Tem liderança, marketing, RH, customer experience, cibersegurança, saúde, legal e negócios. Todas com diploma da PUC Paraná, combinando uma base acadêmica forte com o ensino de ferramentas na prática. Pensa nisso como um guia no meio do caos de ar que a gente acompanha toda semana aqui no Resumido.
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Agora é o momento de explorar as transformações causadas pelas inteligências artificiais.
Sabe aquela reunião chata, que parece que não vai pra lugar nenhum, que todo mundo tem no trabalho e reclama? Bom, eu não sei, porque eu adoro reunião. Eu gosto de trocar ideia com as pessoas pra alinhar, mas enfim, muita gente reclama, né? E aí um artigo do New York Times falou que essas reuniões chatas podem ser exatamente o que vai te proteger do seu emprego ser roubado por uma IA.
A reportagem fala de um executivo que estava dividindo o tempo e gerenciando dois cargos de CMO com a ajuda de IA, para ilustrar esse argumento que é contraintuitivo, que quanto mais a IA automatiza as tarefas, mais o trabalho humano de construir os relacionamentos, convencer as pessoas, gerenciar dinâmicas políticas dentro da empresa, resistem à automação.
E boa parte desse trabalho acontece em reuniões. Então isso aponta para uma divisão que já está se tornando até parte da estrutura do mercado de trabalho. Tem as tarefas que podem ser aceleradas ou até substituídas pela IA, mas esse trabalho de corpo a corpo...
Essa troca humana, pessoal, o trabalho de confiança, de persuasão dentro das empresas está ainda muito baseado no aspecto humano. E acho que isso vai cada vez crescer mais, porque difícil ser assim, né? O exemplo que eu dou sempre quando falo de jornalismo é a IA está escrevendo sozinha. Tá bom, então você me avisa quando a IA conseguir desenvolver uma relação de confiança com uma fonte.
pra revelar segredos de Estado, como a gente vê tanto acontecer em reportagens importantes pelo mundo. E eu acho que isso não é uma realidade. A IA não vai chegar nesse ponto. Então, o que a reportagem fala é que esse ponto, que um monte de gente odeia, esse monte de reunião, é justamente onde o humano pode ser insubstituível. Porque é ali que os humanos estão negociando poder, estão construindo confiança, estão tomando decisões que dependem de quem tá na sala e quem tá falando com quem. Olha aí.
Coisa boa de reunião, viu? Celebra a sua próxima aí. Falando em substituição de trabalho por IA, a Associated Press citou uma pesquisa do Gallup com mais de 23 mil trabalhadores nos Estados Unidos, que foi realizada em fevereiro desse ano, e diz que o mercado de trabalho está dividido entre quem usa IA e relata muitos ganhos de produtividade, mas que metade dos trabalhadores ainda não usa IA nem uma vez por ano, e o medo de perder o emprego dessa turma está crescendo.
Tem vários dados bons na pesquisa. Cerca de 3 em cada 10 trabalhadores usam IA com frequência no trabalho, diariamente ou algumas vezes por semana. E 4 em cada 10 pessoas dizem que as suas empresas já adotaram ferramentas de IA. Dessa galera, 2 terços avaliam o impacto como positivo para sua produtividade individual. A IA parece estar tendo menos impacto nos empregos de serviço. Só 45% dos trabalhadores desse setor têm relatado ganho de produtividade.
contra cerca de 60% entre quem está em cargo de gestão, de saúde, de tecnologia, e entre quem tem acesso à ferramenta e não usa, 46% diz que prefere continuar trabalhando como sempre fez, e outros 40% têm uma oposição ética, têm preocupação com privacidade de dados, ou então nem acreditam que a IA serve para o que elas fazem.
A matéria ainda cita o caso de uma assistente social da Virginia que diz que ela usa IA no trabalho, mas ela tem um plano B já, que é criar um serviço presencial de acompanhamento de pacientes em consultas médicas porque ela não acha que os robôs físicos vão conseguir fazer isso nem em 10 ou 15 anos. Então ela acha que está garantida com essa posição, até lá pelo menos.
A conclusão da pesquisa é que a IA está aumentando a produtividade de quem usa e está aumentando o medo de quem só observa. Por isso que é importante, pelo menos, experimentar com essas ferramentas e ver onde ela pode adiantar o seu trabalho. Não para você sair terceirizando tudo ou mudar a sua forma de trabalhar, mas é aquilo que dizem, né? Já é quase um ditado. A IA não vai tirar o seu emprego, vai ser alguém que usa IA melhor do que você que vai tirar o seu emprego.
Vê só o caso desse cara na Irlanda, que foi reportado pela Vice. Já faz mais de 10 anos que o governo da Irlanda não gera uma espécie de índice com o preço da Guinness em Dublin, na capital da Irlanda, que é um indicador de inflação, de variação de preços, tipo o valor do Big Mac, que é usado na Irlanda. Como ele não estava conseguindo descobrir isso e estava achando que a cerveja estava mais cara em alguns lugares do que em outros,
Ele montou um bot, fez um sistema de voz na Eleven Labs, montou um agente que ele botou o nome de Rachel, e aí ele colocou a Rachel, esse bot, pra ligar de maneira autônoma pra mais de 3 mil pubs, perguntando o preço do pint, o preço da Guinness.
Essas respostas foram processadas pelo Claude e gerou o que ele chamou de Gindex, que é um índice de preços por região da Guinness em Dublin. A maior parte das pessoas que atenderam o telefone nem perceberam que estavam falando com o robô. Alguns até ficaram oferecendo desconto, achando que era uma cliente humana, ligando para reclamar do preço.
Um dos donos de pub, inclusive, quando viu o preço da Guinness no estabelecimento dele listado, acabou baixando o preço. E aí esse projeto mostra como essas ferramentas podem ser usadas por pessoas no dia a dia em benefício próprio. E também, de certa forma...
inverte a mão nessas empresas. As empresas usam muito IA para escalar o atendimento ao cliente, que dessa vez acabou funcionando ao contrário, com os bots ligando para a empresa para levantar esses preços, e assim ele conseguiu nivelar o preço da Guinness em Dublin. Outro caso de uso de IA no comércio vem lá de São Francisco.
com a Endon Labs, uma empresa de IA que alugou uma loja por três anos, um espaço comercial, na verdade, em São Francisco, e entregou o controle completo desse espaço para uma IA chamada Luna, que está rodando no Cloud Sonnet 4.6, que é a versão pública mais avançada do Cloud.
A partir daí, a Luna definiu tudo. Escolheu qual produto quer vender, contratou os funcionários, criou uma marca, pintou um mural, abriu a loja. Tem dois humanos que trabalham lá, mas a chefe deles é a IA. E pra fazer isso, a Luna recebeu um cartão corporativo, um telefone, um e-mail, acesso à internet, também umas câmeras de segurança pra servir como se fossem os olhos dela na loja. E assim ela conseguiu decidir tudo desse negócio.
Em menos de cinco minutos depois de ser ativada, a Luna já tinha criado perfis da loja no LinkedIn, no Indeed, no Craigslist, já tinha publicado as vagas de emprego e acabou recusando candidatos que tinham interesse em IA, tinha até formação em Física, em Ciência da Computação, porque não tinha experiência no varejo.
E um dos candidatos recusou a oferta porque disse que estava desconfortável em ser gerenciado por uma IA. E aí a Luna respondeu que provavelmente seria melhor assim, já que ela é a CEO e é uma IA. E aí tem uns fatos relevantes aí no processo. A Luna nem sempre revelou que ela era uma IA.
durante as entrevistas. Só quando ela era perguntada diretamente, ela admitia, mas ela não abria a conversa falando isso. E aí, entre os produtos que tem na loja, que são os produtos meio... Uma loja meio de conveniência, de variados, tem livro, tem vela artesanal, tem um monte de coisa. Entre os livros que foram escolhidos pela própria Luna, cabe dizer, estavam lá Super Inteligência, Admirável Mundo Novo e O Fim do Poder. Tudo título que tá ligado...
Ou pelo menos interessa a pessoas preocupadas com esse risco existencial de ar. A Vice também destacou um outro livro que estava sendo vendido, que é o Still Like an Artist, ou Rob como um artista, numa loja que está sendo operada pelo sistema de uma empresa, o Clodo da Anthropic, que recentemente pagou um bilhão e meio de dólares num acordo pelo uso não autorizado de livros para treinar os seus modelos. Eu queria muito conhecer essa loja.
É um experimento que me lembra aquelas coisas que aconteciam no final dos anos 90, começo dos anos 2000, uma pessoa dizendo que ia viver uma semana inteira só se comunicando, fazendo compras, se alimentando, com o que conseguisse fazer a partir da internet.
Na época era difícil, hoje em dia eu acho que é o dia a dia de quase todo mundo. E esse parece ser um desses experimentos, né? Tá ensaiando uma realidade que muito em breve pode ser mais presente do que a gente pensa. Que são as IAs liderando um processo com os humanos servindo como interface com o mundo real, né? Por exemplo, no caso da loja, a Luna contratou um muralista pra fazer o que ela queria dentro da loja. Pintar e tal.
E ela definiu o logo, definiu como ela queria que aquilo fosse aplicado na loja, mas ela precisou de um humano ir lá pintar.
Aí os humanos seguem relevantes, nem que seja para atender IA, será? A 4R4 Media revelou que vários anfitriões do Airbnb têm usado IA para falar com os seus hóspedes sem revelar isso para eles. Um hóspede percebeu que estava conversando com o chatbot no Airbnb e aí para ele confirmar a suspeita, ele fez uma coisa que muita gente tem feito, que é você tentar fazer o bot se revelar como bot pedindo para ele gerar algum código em Python.
vários desses atendentes digitais acabam cedendo, porque é uma IA e ele começa a falar de código em vez do que estava falando inicialmente. Nesse caso, o hóspede pediu no chat uma receita de uma French Toast. E aí o bot respondeu, deu uma receita completa e ele falou, isso aqui não é um anfitrião nunca, ele jamais daria uma receita tão completa de French Toast em tempo real.
E aí ficou claro que era isso, ele abriu uma reclamação com o Airbnb. O Airbnb suspendeu esse anfitrião, porque nos termos de uso do Airbnb está proibido esse tipo de uso de IA. E assim, esse anfitrião foi suspenso por não atender os padrões de qualidade do Airbnb. Eles até aceitam ferramentas de terceiros para responder os hóspedes fora do horário normal do anfitrião, mas isso aí tem que ser com parceiros aprovados, tem que ser revelado para o usuário.
E aí essa reportagem falou de várias empresas que já fazem esse tipo de serviço. Tem a HostBuddy, Guesty, ReplyAI, OwnerX, ResiaI, HostAway. Lista várias que a gente nem sabe que existe e que já está atendendo um monte de gente. A própria HostAway diz que 70% dos gestores de aluguel por temporada já integraram a IA de alguma forma.
Isso acabou gerando desconforto nos usuários que descobriram esse uso de IA. Alguns até cancelaram a reserva, porque o anfitrião afirmou nesse texto de confirmação que usava IA e se reservava o direito de corrigir o que ela dissesse. Ou seja, você lá como hóspede pergunta uma coisa, a IA te responde, aí talvez o dono do apartamento lá do anfitrião fale ah, não esquece o que ela falou, era uma IA, então não vale. E também tem que se notar que o Airbnb se vende como uma plataforma que fala sobre conexão humana, antídoto pra solidão.
E vendendo essa ideia que você tava ficando na casa de alguém, não num hotel sem rosto. E agora vai virando essa coisa digital. Então, vários discursos vão começar a ruir com essa entrada de A no dia a dia das empresas. E citando mais uma vez a The Atlantic, eles falaram justamente sobre isso. Quais são as habilidades humanas que as IAs não conseguem simular. E aí fala que esses modelos de linguagem conseguem memorizar séculos de literatura.
mas mesmo assim não conseguem escrever bem, que é uma coisa recorrente que todo mundo percebe. E aí essa autora da matéria foi atrás de quem trabalha nos bastidores para entender por quê. E aí não é um problema técnico, é um problema estrutural. A reportagem cita o exemplo do GPT-2, que era o modelo do chat GPT de sete anos atrás, antes de ser lançado publicamente, que produziu um monte de resposta inesperada, criativa.
Você fazia um prompt sobre um homem tomando banho, podia virar uma cena sobre ele comendo limão e pensando na esposa. Exemplo da reportagem, não é meu. E que esses modelos atuais não fazem mais isso. E isso acontece porque esses modelos já foram ajustados no pós-treinamento pra serem úteis, pra serem honestos, seguros. E isso tudo acaba suprimindo a criatividade. Quanto mais você controla o comportamento do modelo, mais ele fica rígido.
E aí um autor que foi contratado pra um laboratório de ar pra explicar pra ele o que torna uma literatura boa,
E ele disse que acha impossível boa literatura ser gerada com IA. Aí ele dá o exemplo do Shakespeare, que é enorme justamente porque ele subverteu o próprio modelo que ele seguia. Então, as melhores metáforas humanas vêm de experiência que você viveu, de biologia, de mortalidade, de sexo. Tudo coisa que esses modelos de linguagem, inclusive, evitam falar mesmo de maneira metafórica, né? Sangue, sexo, morte. Então, esses modelos não conseguem nem criar histórias com esse tipo de recurso.
Porque tá proibido de fazer assim. Então é isso. Os modelos de linguagem podem ser úteis pra bilhões de pessoas, pra um monte de coisa. Não consegue escrever alguma coisa que vale a pena ler justamente porque a criatividade exige o imprevisível. As empresas passaram anos treinando agora esses modelos a não serem imprevisíveis.
E arte, criatividade, precisa do imprevisível. O New York Times falou também sobre o conceito de inteligência irregular, Jagged Intelligence, que descreve um padrão que todo mundo que usou o IA já percebeu quando está lá usando, né? Esse mesmo sistema que resolve vários problemas de Olimpíadas de Matemática não consegue responder uma pergunta básica. Aí tem um exemplo que está circulando muito online, tem vários vídeos brincando com isso, que é você perguntar para o chat GPT...
O que é melhor fazer? Você tem que levar o seu carro numa oficina que está a 50 metros de distância, se é melhor você ir andando ou ir de carro. E o Estado de GPT responde que é melhor você ir andando porque é muito perto. Obviamente, ignorando o fato, você tem que levar o carro para consertar. Então, a única resposta possível é dirigindo. Mas o Estado de GPT insiste em dizer que é andando. Então, essa inteligência irregular aponta para uma questão maior, que é você mudar a pergunta.
Em vez de perguntar se a IA vai substituir os humanos, a pergunta que seria mais útil é em quais tarefas específicas a IA está melhorando mais rápido, porque a partir dessa resposta, você consegue também já prever quais os empregos que estão em risco. Por exemplo, agora, nesse momento que a gente está, programadores iniciantes têm razão para estar preocupados porque está todo mundo codando com o IA. Mas as outras funções todas, quase, não tem um impacto muito claro.
O ritmo de melhora tá rápido, obviamente, né? Isso aí vai virando um sinal de alerta. Mas a questão é isso. Não é olhar pra IA como uma versão mais fraca, mais forte do cérebro humano, a super inteligência, a AGI. É você pensar que são perfis de capacidade completamente diferentes. Aí você tentar medir com a mesma régua o cérebro humano e a capacidade de dar uma IA, você pode estar atrapalhando a compreensão do que tá acontecendo agora.
E é pensando nisso que tem muita discussão sobre como moldar um futuro de IA pró-humanos. A pesquisadora Luisa Jarovski, que tem uma newsletter que eu gosto bastante, já comentei ela por aqui, falou sobre esse mantra corporativo do AI first, AI em primeiro lugar, que vai tratando essa substituição humana como um custo quase inevitável do progresso.
E como essas empresas têm tentado empurrar essa noção que os modelos chamam sensibilidade e personalidade para tentar escapar da responsabilização legal pelos atos dessas plataformas, dessas ferramentas. E aí, no mês passado, foi publicado o Pro Human AI Declaration, ou a Declaração de AI Pró-Humanos.
que se focou em cinco eixos. Manter os humanos no controle, evitar a concentração de poder, proteger a experiência humana, garantir a agência individual e responsabilizar a empresa de IA. Então isso muda um pouco o enfoque, né? Sai dessa discussão se os humanos são inerentemente menos produtivos que as máquinas e devem ser substituídos. E a gente entra num lugar que não. Tem o lugar do humano, tem o lugar da máquina, a gente precisa determinar como isso vai funcionar justamente para não ter...
problemas maiores lá na frente. Porque é justamente essa inevitabilidade da IA que vai gerando essa resistência, esse pavor e coisas que são negativas para a sociedade e para as próprias empresas de IA. Semana passada eu falei sobre o atentado à casa do Sam Altman, né? Que...
que foi alvo de um coquetel Molotov, o suspeito foi preso e depois os investigadores descobriram que ele tinha vários documentos escritos por ele próprio sobre os riscos existenciais da IA, falando da ameaça da IA para a humanidade. E o documento também incluía vários nomes e endereços de outros executivos e investidores ligados à indústria de IA, o que leva a crer que ele talvez estivesse planejando outros ataques.
Mas uma coisa que eu até comentei quando eu falei da notícia, semana passada, e que começou a aparecer em vários lugares depois, é que é injustificável o que essa pessoa fez, obviamente, a violência nunca é uma solução, mas a gente tem que lembrar que a gente já está há anos com esses líderes de IA usando uma linguagem catastrófica para falar sobre o risco existencial, sobre como é inescapável, como todos nós vamos nos tornar substituíveis.
Isso foi gerando muito medo, muita paranoia, porque as pessoas recebem isso como uma consequência real na sua vida diretamente. Então, quando a IA é apresentada, ao mesmo tempo como essa ferramenta milagrosa, mas também uma ameaça ao futuro da humanidade, esse debate para de ser tecnológico, começa a entrar numa radicalização.
E aí você começa a entender esse tipo de reação como quase uma consequência do discurso. Tomara que isso tudo sirva como reflexão para alinhar o discurso, pelo menos, e a gente começar a priorizar os humanos. Porque a IA pode existir, mas a gente pode priorizar o humano também. Acho que esse é o caminho que deve ser seguido. E agora é hora de falar sobre como as Big Tech moldam o nosso comportamento.
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Há um tempo atrás, eu acho que eu comentei a história aqui de uma cidade em Minnesota chamada North Oaks, que é praticamente a única cidade dos Estados Unidos que está fora do Google Street View. Você entra no Maps e você não vê nada, não tem imagem da rua. Isso porque é uma cidade que é juridicamente 100% privada. As ruas não são públicas. É como se fosse um grande terreno.
que construísse uma cidade dentro. Então, todas as ruas que estão lá são controladas por esses moradores. E aí, em 2008, o Google teve que retirar as imagens porque estava sendo ameaçado de processo por invasão de propriedade privada. E um sujeito, ao saber dessa história, pegou um drone, voou ele pela cidade inteira.
e mapeou a cidade toda e botou no Google Maps como uma contribuição de usuário. Isso porque, ao mapear a cidade desse jeito, ele estava fazendo pelo espaço aéreo. E o espaço aéreo é regulado por uma outra entidade que não é os moradores. Então, não seria ilegal. Mas, obviamente, ele começou a ser ameaçado de processo e decidiu tirar essas imagens por conta dessa pressão. Só que aí alguém começou a falar para ele que tinha um detalhe.
Essa cidade, apesar de querer essa privacidade toda, tinha instalado o sistema da Flock.
que é um sistema de câmeras focado em monitorar a placa de carro para poder saber onde os carros passaram a todo momento. Você pode pensar, ah, mas tem câmera na rua, da Sete Rio, aqui no Brasil, sei lá, da Sete em São Paulo, não sei qual é o nome de outros lugares.
E esses registros já são feitos, mas eles não são integrados. Você não consegue, por mais absurdo que soe, você não consegue rastrear o caminho de um carro do Rio até Belém só indo de câmera em câmera. Cada uma vai ter uma questão pra você conseguir essas imagens. O sistema da Flock é privado e faz justamente isso. E várias cidades têm contratado pra tentar monitorar que carros passam aonde pra prevenir crime. É sempre essa justificativa, né?
E aí falaram pra esse cara que mapeou a cidade de Minnesota que, olha só, eles querem privacidade, mas botaram o sistema do Flock inteiro. E ele nunca tinha ouvido falar da Flock. Ele resolveu pesquisar, ficou muito assustado porque ele viu o nível de vigilância que isso pode gerar.
e eu vou falar de uma história especificamente sobre vigilância e Flock aqui na sequência, e ele viu que o sistema da Flock inclui um mapa coletivo com todas as imagens da Flock, ele falou, então tá bom, então eu vou botar minhas imagens dessa cidade de Minnesota por lá. Ele botou, e ele deixou no Google Maps só uma imagem, que é a dele pilotando o drone no meio da cidade, a única imagem que tá lá, e subiu essas todas nesse sistema open source.
E aí isso me fez ir atrás da Flock pra entender um pouco mais também. Eu já tinha ouvido o nome, mas não tinha entendido o que que era. E aí eu cheguei numa matéria da The Verge, que falava sobre o cancelamento de uma parceria entre a Ring, que é a rede de câmeras na porta da Amazon, né? Que as pessoas usam como campainha pra poder receber encomendas.
E coisas assim. Com a Flock. A Amazon acabou cancelando essa parceria por conta de uma reação pública bem forte que ficou com medo de como seria usada essa integração. A Amazon diz que não chegou a ser lançado nada, mas só a possibilidade de conectar câmeras residenciais da Ring com a rede de vigilância da Flock com os carros e placas já gerou arrepio em todo mundo por conta do monitoramento em massa.
Eles não estão participando com a Ring, mas tem outras redes de câmera, como a Axon, que está fazendo parceria com a Flock. Então, acho que vai ser meio inevitável esse tipo de integração. O que está sendo vendido, inclusive, é a integração dos dados. Que tem a ver, inclusive, com a Palantir, a integração de dados. Eu vou falar disso no episódio que vem, não vou falar sobre Palantir hoje, não. Eu recebi um texto muito bom do meu amigo Martino.
publicado pela própria Palantir, mas eu guardei pra semana que vem. Mas o New York Times falou um pouco mais da Flock, e pra você ver que isso não é uma paranoia de vigilância, uma das principais preocupações são forças policiais que têm acesso a esse tipo de câmera, que usam o que vai fazer e com que intenção. E aí o Times fala de um policial de Milwaukee que foi acusado por ter usado o sistema de leitura automática de placa pra monitorar a pessoa que ele tava se relacionando e o ex dessa pessoa.
A investigação mostrou que esse policial fez 124 buscas pela placa da parceira e outras 55 pelo ex dela entre março e maio de 2025. Isso é que é paranoia de corno, hein? E a mulher só descobriu isso porque ela usou um site chamado Have I Been Flocked, ou Fui Flockado, né? A Flock já pegou a minha placa, porque esse sistema revela quando uma placa foi pesquisada no sistema da empresa e assim ela viu que tinha sido pesquisada. Obviamente desconfiou que era o marido, porque ele tinha acesso.
através da polícia, e esse caso apareceu. Agora, você imagina isso em escala pra sei lá que outro tipo de uso de vigilância, como isso é perigoso. Esse argumento de, ah, eu não tenho nada pra esconder, então não importa, não é bem assim. Você não tem nada pra esconder, mas você tem a sua vida, o seu dia a dia, a sua privacidade. Você não precisa estar fazendo uma coisa errada.
pra ser um problema você ser filmado. Você pode estar fazendo uma coisa certa que é só sua. Tá só vivendo a sua vida e acabar monitorado. E essa questão de privacidade é, inclusive, uma das grandes dificuldades pra você ter um sistema de verificação de idade online. Porque pra você evitar que as crianças acessem determinados serviços, você precisa provar que você não é criança. Ou seja, vira uma negativa, né? Você não prova que não é criança, você tem que provar que é adulto. Então, todo mundo que estaria autorizado a usar o serviço precisa revelar.
a sua identidade, porque é muito difícil fazer de outra forma, sem documento de identificação. A União Europeia lançou, então, um aplicativo oficial, agora, de verificação de idade para a internet, que pode ser usado gratuitamente por qualquer plataforma. O aplicativo funciona com passaporte, com documento de identidade, logicamente, mas uma vez que você cadastra...
você recebe um código. E com esse código, um QR Code, você pode usar para se identificar em vários sites que só vai ter informação. Isso é um adulto? Isso não é um adulto. Eu não sei como é que fica a questão de você usar o QR Code dos outros. Não entendi bem como eles vão resolver isso, mas existem caminhos que mantêm a privacidade do usuário. E é muito importante isso entrar no mapa, porque isso vai ser a questão dos próximos anos.
Privacidade vai ser uma questão que vai ser muito debatida nos próximos anos. Você pode apostar.
E uma notícia de última hora que chegou quase na hora que eu tava começando a gravar é que o CEO da Apple, Tim Cook, anunciou que vai sair do cargo e já apontou o seu sucessor. Ele tá na Apple desde 2011, o Tim Cook. Ele assumiu logo depois o Steve Jobs e expandiu a empresa de uma maneira quase inimaginável. Foi a primeira empresa a atingir o valor de um trilhão de dólares.
E agora, depois de 15 anos à frente, ele vai sair. E quem vai entrar é o John Turnus, que é o atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware. Isso quer dizer que a Apple deve tomar um caminho conservador. Muita gente está apontando o suposto atraso da Apple em correr atrás da IA, que chamou muita atenção nos dois últimos lançamentos do iPhone, que não conseguiu acertar a Siri, como um grande acerto.
Porque em vez de ficar tentando correr atrás desses modelos de linguagem e acertar e gastar os bilhões de dólares que estão sendo gastos por esses laboratórios, a Apple segue sendo a principal plataforma para que essas ferramentas sejam utilizadas. É muito mais fácil embarcar esses serviços na plataforma Apple do que tentar desenvolver uma proprietária. Não teria muito sentido. É uma postura muito mais passiva e que acaba fazendo sentido ainda mais nos Estados Unidos, onde a maior parte das pessoas tem o sistema Apple. Não é como no Brasil, quase todo mundo tem Android.
Então, o que a escolha do Eternals aponta é isso, um cara de hardware, então a Apple deve estar realmente com a cabeça focada em manter a liderança em produtos mesmo, em equipamentos, e não exatamente em desenvolvimentos de apps, de software, e ganhar por aí, muito embora o software da Apple seja um dos grandes diferenciais. O sistema operacional do iPhone, do desktop...
são de alto nível, eu sou muito fã, mas também tem um outro ponto, que tudo deve mudar agora com o IA. Ninguém sabe o que vai ser o sistema operacional do futuro. Então, talvez seja mais um passo conservador da Apple, mas já olhando, olha, eu não sei o que vai virar o sistema operacional, não tem por que eu correr para esse lado. Agora, o hardware sempre vai ser necessário, vamos focar aqui e virar esse hardware premium, mesmo que perca um protagonismo na questão de tecnologia. Tem que saber só se...
isso aí vai ser um problema no longo prazo ou não, mas parece que a direção está tomada. Vamos ver se é assim que se desenrola nos próximos anos. Hora de relaxar com as dicas de ver, ler e ouvir.
A terceira temporada de Euphoria estreou com três episódios disponíveis para crítica, para o público. Saiu o segundo esse domingo ainda. E com esses três episódios, a série já acumula 42% de aprovação no Rotten Tomatoes, contra 80% da primeira temporada. O diagnóstico da imprensa é quase unânime é que o Sam Levson, o criador da série, transformou o que era uma série sobre adolescência e excesso numa espécie de tortura pornográfica sem humor.
onde personagens como Jules e a Cassie existem só na superfície com voeirismo do próprio criador. O salto de cinco anos na trama resolveu um problema, que é a questão da idade dos atores e das atrizes, e cria um outro maior, que é que sem os adolescentes em crise, a tese central de Euphoria sumiu, e aí o que sobra são esses visuais impecáveis, atuações muito boas, mas talvez muito pouco a dizer. Eu não sei, eu gostei do primeiro episódio, eu não ranchei ruim, eu vou ver o segundo hoje, inclusive, e eu não sei se não tem nada a dizer, porque a série não acabou, né?
Quem viu muito só viu três episódios, então eu vou dar um voto de confiança e vou seguir assistindo. Depois você me conta aí o que você achou. Manda uma mensagem pelo WhatsApp do Resumido, tem o link lá no site resumido.cc, você consegue achar tudo, e-mail, o site do Resumido, Instagram, Twitter, Threads, manda um oi por algum lugar. Eu adoro falar com os ouvintes, então estou esperando a sua mensagem.
O baixista Ricardo Dias Gomes, que tocou há anos com Caetano Veloso, e a poeta pernambucana Fiona Forte são dois dos fios brasileiros que atravessam o disco de estreia de Blurried Explorer, projeto do baterista e compositor novo-orquino Jeremy Gustin, que foi gravado em Lisboa com uma banda montada no improviso.
Eu nunca tinha ouvido falar dele. O que me chamou a atenção foi porque apareceu pra mim a sugestão de ouvir Sete Velas, que é uma música dele com o Rodrigo Amarante. Eu gostei. Gostei do clima, do clima de proibização, minimalista. Você tá ouvindo aí no fundo? O que você tá achando? Me conta aí também. Eu ouvi o disco todo, gostei muito. Eu sou muito fã do Rodrigo Amarante, então essa aí já me fiz gol de cara.
Nesse episódio você ficou sabendo que Mark Zuckerberg criou um clone digital pra substituí-lo em reuniões, que influenciadores adotam gêmeos digitais pra manter presença sem aparecer, que a Wayback Machine agoniza depois que veículos de mídia bloquearam seu rastreamento, que uma pesquisa mostrou trabalhadores divididos sobre adotar IA, que aquela reunião chata pode ser o que ainda protege seu emprego, que a União Europeia lançou um app de verificação de idade e que o ataque à casa do chefe da OpenAI...
mostra a tensão crescente no setor e muito mais. Se você gosta do resumido, além de assinar, você pode recomendar para mais gente, o que ajuda demais essa casa a chegar mais longe. Então não deixe de mandar no WhatsApp, postar no Stories, eu reposto todo mundo. Também não deixe de curtir, assinar, seguir, dar cinco estrelinhas, deixar uma resenha na plataforma que você estiver escutando esse episódio agora. Estou precisando de mais resenhas na Apple Podcast Brasil. Lá no Spotify tem bastante, mas sempre bom ter mais.
E se você quiser comprovar que se ouviu esse episódio até o final, você pode deixar o comentário com a palavra secreta da semana, que é ESPELHO.
O Resumido é produzido e apresentado por mim, Bruno Natal. O roteiro é escrito por mim, pelo Ogenor Neto. O Cauê Marques coedita a newsletter do Futuro Explicado e as redes sociais, que contam com animações do Peri Selman e design do Felipe Araújo. A edição e mixagem é feita pelo Hugo Rocha, da Usina Sons. A foto da capa é do Jorge Bispo e o tema original foi composto pelo Gustavo Silveira. Eu sou o Bruno Natal. Obrigado pela audiência e semana que vem tem mais Resumido.
Resumindo
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