EP 70 - Cérebro multitarefa: "sabor produtividade"
Olá notável ouvinte!
Você já tentou ser multitarefa e percebeu que não ficou com mais produtividade?
Já teve a sensação de “não dar conta”?
Quer saber como isso pode influenciar sua saúde mental?
Então clica no play e vem com a gente!
Vida Longa e Próspera! 🖖🏼
- Multitarefa e produtividadeCérebro multitarefa · Task switching · Custo cognitivo da alternância de tarefas · Fragmentação atencional · Sensação de ocupação vs. profundidade
- Impacto da multitarefa na saúde mentalEstresse e frustração · Regulação emocional · Sintomas ansiosos · Dificuldade de concentração · Fadiga cognitiva
- Uso consciente da tecnologiaTecnologia como ferramenta vs. sequestro cognitivo · Captura de atenção por sistemas digitais · Redução da fragmentação atencional · Intencionalidade no uso da tecnologia
- Multitarefa e memóriaProcessamento superficial da informação · Interferência na codificação de memória · Impacto na aprendizagem
- Atenção sustentada e presençaAtenção como habilidade treinável · Diferença entre descanso espontâneo e fragmentação compulsiva · Sensação de presença · Produtividade como estar presente
Tchau.
Podcast. Ação refrescante dos pensamentos. Olá, notável ouvinte, vida longa e próspera. Eu sou o Fernando Pessotto, psicólogo, doutor em psicologia, um pesquisador do comportamento humano e estamos começando o episódio número 70 do Cognamentos Podcast. Mais um da série Drops Cognamentos.
Essa série tem como proposta episódios mais curtos abordando temas sobre saúde mental e bem-estar, sempre tendo como base estudos científicos. A ideia aqui não é entregar respostas rápidas nem fórmulas prontas, é oferecer boas perguntas, boas explicações e principalmente menos culpa e mais compreensão sobre como as coisas realmente acontecem.
E antes da gente começar, um recado rápido, mas muito importante. Todos os estudos usados para construir esse episódio vão estar listados no post da publicação e também no site do Cognamentos. Assim, quem quiser conferir as fontes, ler os artigos completos ou só aguardar para depois, vai encontrar tudo organizadinho por lá.
Então se arruma aí no sofá, no carro, na academia, no busão, lavando aquela louça em qualquer lugar que esteja ouvindo e sinta-se em casa. E aproveita aí que você está nos ouvindo em sua plataforma preferida para dar aquela força nas redes sociais. O nosso perfil é o arroba cognamentos. Segue a gente por lá e aproveita para curtir o episódio também.
E como você sabe, todos os episódios são gratuitos, mas claro que temos custos como hospedagem, edição, divulgação. Então, se você está achando esse conteúdo relevante, só peço esta ajuda nas redes, pois cada vez mais que as pessoas curtem, avaliam, encaminham os episódios, os algoritmos entendem a relevância do conteúdo sugerindo para outras pessoas.
E claro, depois que você ouvir esse episódio, encaminhe para aquela pessoa que você sabe que vai gostar, ou que você sabe que precisa ouvir. Nos ajude a compartilhar informações importantes sobre saúde mental e bem-estar entre a sua rede. E agora vamos para o nosso tema de hoje.
Olha, eu tenho quase certeza que muitas vezes você já deve ter sentido culpa em não dar conta. Não dar conta das tarefas, do trabalho, do lazer, enfim, deste monte de coisas que você faz, ao mesmo tempo.
Imagino que você esteja ouvindo esse episódio enquanto responde mensagens, talvez enquanto esteja cozinhando, olhando uma notificação no celular, tentando lembrar se respondeu aquele e-mail importante, ao mesmo tempo pensando no que precisa fazer amanhã. Se for o caso, parabéns, você está vivendo exatamente o tema do episódio de hoje.
Porque hoje nós vamos falar sobre multitarefa, ou mais especificamente, a ideia de que o cérebro consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo sem pagar nenhum preço por isso. E aqui já vai nosso primeiro spoiler científico. Não, não consegue. E eu sei que isso pode soar meio frustrante, principalmente porque a vida moderna praticamente exige que a gente funcione com uma central de atendimento emocional com o Wi-Fi.
Só que é um Wi-Fi meio instável. A gente responde mensagens no meio de uma reunião, paga a conta no trajeto para o trabalho, assiste série olhando o celular, manda áudio enquanto lê outra conversa, abre 10 abas achando que isso significa produtividade. Em algum momento, muita gente começou a acreditar que isso era uma habilidade sofisticada, como se ser multitarefa fosse quase um super poder cognitivo. Nós acreditamos nisso por muito tempo.
Só que a literatura científica conta uma história um pouco diferente. O nosso cérebro não é exatamente multitarefa. Na maior parte do tempo, ele está alternando rapidamente o foco entre tarefas diferentes. E essa diferença parece pequena, mas muda a compreensão do fenômeno. Porque alternar atenção tem custo. Existe um fenômeno muito estudado na psicologia cognitiva chamado task switching, ou troca de tarefas.
E os estudos mostram que quando alternamos entre atividades diferentes, nosso desempenho tende a piorar. A resposta fica mais lenta, mais sujeita a erro e mais cansativa mentalmente. Ou seja, o cérebro não está fazendo duas tarefas complexas simultaneamente, ele está mudando de trilho o tempo inteiro. E cada troca de trilho cobra um pedágio.
Isso acontece porque a tensão é um recurso limitado. E claro, tudo que você divide não fica inteiro. Tem uma imagem que eu gosto bastante para explicar isso. Imagine que sua tensão funciona como uma lanterna. Você pode apontar a luz para diferentes lugares, mas a luz não ilumina tudo com a mesma intensidade ao mesmo tempo.
Mesmo quando você tende a chacoalhar a lanterna rapidamente para ampliar o raio de luz, não tem como. O foco ainda se limita a um local específico. Quando você tenta dividir a tensão entre muitas demandas, a tendência não é fazer tudo perfeitamente. A tendência é reduzir profundidade de processamento.
Em português, claro, você começa a funcionar mais no automático. E note que, em geral, quando você está fazendo mais de uma ação ou tarefa, uma delas tende a estar mais no modo automático. E isso ajuda a explicar uma sensação muito comum atualmente, aquela sensação de passar o dia inteiro ocupado e terminar o dia...
com a impressão de que não conseguiu realmente entrar em nada. Porque entrar profundamente em uma atividade exige continuidade atencional. E continuidade atencional virou artigo de luxo. Existe uma revisão clássica de neurociência cognitiva, mostrando que a atenção possui gargalos importantes no processamento da informação, especialmente quando tarefas competem entre si.
Isso significa que em muitos contextos o cérebro precisa escolher, mesmo quando parece que ele não escolheu. E aqui aparece uma confusão importante. As pessoas costumam dizer, mas eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo. E em alguma medida conseguem mesmo, todo mundo consegue. Você pode caminhar e conversar, você pode ouvir música enquanto lava a louça, ou ouvir o seu podcast preferido.
pode dirigir uma estrada conhecida enquanto pensa na vida. O ponto não é que o cérebro faz apenas uma coisa por vez, é claro que não. O ponto é que tarefas cognitivamente exigentes competem entre si. Quanto maior a complexidade mental, maior o custo da divisão de atenção.
Isso aparece em diferentes estudos. Pesquisas sobre interferência atencional mostram que tarefas concorrentes reduzem o desempenho, aumentam o tempo de resposta e elevam carga cognitiva. Agora, talvez uma das partes mais curiosas dessa discussão seja o fato de que a sensação subjetiva de produtividade nem sempre acompanha a produtividade real.
Tem dias em que você responde 40 mensagens, pula entre aplicativos, faz 3 reuniões, olha e-mail, resolve pequenas urgências o dia inteiro e termina com a impressão de que produziu muito.
Só que produzir movimento não é a mesma coisa que produzir profundidade. Existe um estudo bastante conhecido sobre pessoas que fazem muito mídia multitasking, ou seja, pessoas que vivem alternando entre múltiplas mídias e estímulos digitais.
Os resultados mostraram associações entre altos níveis de multitarefa midiática e pior desempenho em tarefas relacionadas a controle atencional e filtragem de distrações. Traduzindo isso de forma simples, quanto mais acostumado o cérebro fica com a fragmentação constante, mais difícil pode ser sustentar o foco. E isso é extremamente relevante porque a cultura atual recompensa justamente a fragmentação.
notificações, vídeos curtos, mensagens, atualizações, outra mensagem, outra aba, outro estímulo, arrasta para cima sem fim. O cérebro entra em um regime de microinterrupções constantes. A interrupção tem efeito psicológico real.
Um estudo clássico sobre interrupções no ambiente de trabalho mostra que pessoas interrompidas frequentemente tendem a trabalhar mais rápido depois da interrupção, mas também relatam mais estresse, mais frustração e mais pressão temporal.
E olha que interessante isso, a pessoa acelera, mas não necessariamente funciona melhor. Ela entra num modo mais reativo na verdade. E talvez você reconheça isso na prática, a sensação de estar sempre correndo atrás, a cabeça cansada.
A dificuldade em permanecer em silêncio sem pegar o celular. A impressão de que descansar ficou estranho. E até sentir culpa com isso. Porque existe um efeito psicológico importante na multitarefa constante. Ela muda nossa relação com o estímulo.
O cérebro se acostuma com uma novidade frequente. Isso não significa que o celular vicia no sentido simplista da palavra, mas significa que sistemas de recompensa e atenção podem ficar condicionados à busca constante de novidade, alternância e estimulação rápida.
É como se a mente começasse a estranhar qualquer coisa que exija permanência. Ler um texto longo, assistir algo sem olhar no celular, conversar sem interromper, ficar parado. Tudo isso começa a parecer cognitivamente lento. E talvez uma das frases mais simbólicas na nossa época seja Eu não consigo mais ver filme sem mexer no celular.
Porque essa frase não fala apenas sobre hábito, ela fala sobre tolerância reduzida à continuidade atencional. Agora aqui vale um cuidado importante, o problema não é a tecnologia, não estou falando isso, tecnologia não é nenhuma vilã moral, o problema é a relação desregulada com ela. Inclusive o nosso último episódio sobre o desenvolvimento emocional e o uso das telas abordou justamente isso, dá uma ouvidinha lá.
Porque o cérebro não evoluiu em um ambiente de hiperestimulação contínua. Hoje, você pode perceber em poucos minutos mais informação do que alguém recebia em dias inteiros algumas gerações atrás. E informação compete por atenção. E já temos evidência de associação entre multitarefa digital e sintomas relacionados a estresse e sobrecarga cognitiva. E isso conversa com algo muito importante clinicamente. Pessoas mentalmente exaustas sem perceber exatamente.
Por quê? Ou do quê? Porque multitarefa cansa, mesmo quando parece eficiente. Parece eficiente. Aliás, talvez um dos maiores problemas da multitarefa seja justamente esse. Ela frequentemente parece produtiva.
Ela dá sensação de movimento, sensação de urgência, sensação de ocupação, mas a tensão fragmentada aumenta erros. Pesquisas sobre alternância de tarefa mostram custos cognitivos consistentes quando pessoas precisam mudar rapidamente entre demandas diferentes.
E aqui aparece uma coisa curiosa, muita gente acredita que é boa em multitarefa. Pode ser que você mesmo pense isso, notável ouvinte. Só que estudos mostram que pessoas que percebem muito multitarefa nem sempre apresentam melhor desempenho cognitivo por causa disso. Em alguns casos acontece justamente o contrário. Ou seja, sentir que consegue fazer tudo ao mesmo tempo não significa necessariamente que o cérebro esteja funcionando melhor.
Às vezes significa apenas que ele se acostumou ao caos. Existe uma diferença enorme entre adaptação e eficiência. Ser humano consegue se adaptar a ambientes muito ruins, isso não significa que esses ambientes sejam bons.
Agora vamos falar de humor, porque multitarefa não afeta só a tensão, ela afeta também a experiência emocional. Quando a mente permanece constantemente interrompida, existe menos espaço para o processamento emocional contínuo. Você começa uma coisa, interrompe, começa outra, interrompe, responde algo, volta, esquece, retoma. O cérebro permanece em estado de vigilância parcial, e a vigilância parcial contínua costuma aumentar a sensação de tensão.
E algumas pesquisas apontam associação entre o uso intenso de mídia multitarefa e pior regulação emocional, além do aumento de sintomas ansiosos e dificuldades de concentração. Isso não significa que usar celular causa automaticamente ansiedade, não é isso que a gente está falando, mas sugere que o excesso de fragmentação atencional pode contribuir para um funcionamento mental mais disperso e reativo. A reatividade emocional aumenta o desgaste.
Porque uma mente constantemente interrompida tem menos oportunidade de desacelerar. Existe também uma relação importante entre multitarefa e memória. Quando alternamos a atenção frequentemente, o processamento tende a ficar mais superficial. Você já leu uma página inteira e percebeu que não lembrava nada dela? Ou ouviu alguém falando enquanto respondia uma mensagem e depois percebeu que não absorveu nada?
Isso acontece porque a memória depende da atenção. Sem atenção suficiente, o cérebro registra menos profundamente a informação. A multitarefa interfere em codificação de memória e, consequentemente, aprendizagem. Então existe uma ironia moderna bastante interessante aqui. A gente ganha tempo fazendo várias coisas simultaneamente.
E acaba tendo que gastar mais tempo depois porque precisou refazer alguma coisa. Reler, refazer, revisar, corrigir, perguntar novamente. A famosa economia que sai caro. E talvez uma das áreas onde isso fica mais evidente seja no trabalho intelectual. Existe uma fantasia contemporânea de produtividade máxima, como se uma pessoa eficiente fosse aquela que responde tudo imediatamente, acompanha tudo ao mesmo tempo e nunca fica offline.
Só que trabalhos que exigem criatividade, raciocínio complexo e tomada de decisão dependem muito de foco sustentado e, inclusive, pausas e momento de ósseo. A tensão profunda não combina muito bem com interrupção constante.
Aliás, alguns estudos sugerem que mesmo pequenas interrupções podem gerar tempo significativo de recuperação cognitiva até que a pessoa consiga retornar plenamente à tarefa que estava desempenhando. Ou seja, aquela olhadinha rápida na notificação nem sempre
é rápida para o seu cérebro. E aqui entra um detalhe importante, o cérebro gosta de fechamento, gosta de padrões. Quando você interrompe tarefas repetidamente, várias delas permanecem cognitivamente abertas. Mensagem não respondida, e-mail pendente, conversa interrompida, aba aberta,
isso pode gerar sensação contínua de pendência mental. Talvez por isso tanta gente relate dificuldade de descansar atualmente, porque o cérebro permanece parcialmente engajado em múltiplos rastros atencionais em tarefas abertas.
E aí aparece um fenômeno bastante moderno e atual, estar cansado sem ter parado para perceber o que te cansou, porque fadiga cognitiva nem sempre parece uma fadiga física. Às vezes ela aparece como irritabilidade, impaciência, dificuldade de concentração, necessidade constante de estímulo, procrastinação, exaustal mental ou aquela sensação estranha de que a cabeça trabalhou o dia inteiro, mas não conseguiu pousar em nenhum lugar.
Agora existe uma pergunta importante aqui. Se multitarefa tem tantos custos, por que continuamos fazendo isso? Primeiro, porque o ambiente favorece. Segundo, porque existe recompensa imediata. Alternar estímulos reduz monotonia, dá a sensação de movimento, cria pequenas recompensas rápidas. E terceiro, porque muitas vezes confundimos urgência com importância.
Responder rápido parece produtivo, mas nem sempre produz profundidade. E aqui talvez exista uma mudança cultural importante. Atenção virou recurso econômico. Plataformas disputam tempo. Aplicativos disputam foco. Notificações disputam prioridade.
É o seu cérebro participando de um leilão de estímulos praticamente o dia inteiro. Então, desenvolver atenção sustentada hoje deixou de ser apenas uma habilidade acadêmica, virou uma habilidade de saúde mental. E não estou falando de virar uma pessoa zen que mora lá numa cabana sem internet. Mais uma vez, a ideia não é demonizar a tecnologia. Nós estamos aqui batendo esse papo. Agora, por intermédio dela, a ideia é desenvolver um uso consciente da tecnologia.
Porque existe uma diferença enorme entre usar ferramentas digitais e viver cognitivamente sequestrado por elas. Aliás, talvez uma das perguntas muito úteis ultimamente seja, a minha atenção está sendo escolhida ou capturada?
Porque quando você percebe, às vezes passou 20 minutos pulando entre aplicativos sem sequer lembrar do que pegou o celular para fazer. E isso não acontece porque você é preguiçoso, acontece porque sistemas digitais modernos são extremamente eficientes em capturar a sua atenção.
Agora tem uma coisa interessante, quando pessoas começam a reduzir a fragmentação atencional, frequentemente relatam uma sensação estranha no começo, silêncio, tédio, lentidão, porque o cérebro desacostuma da continuidade, nosso cérebro adora um padrão. Só que depois de um tempo, muita gente percebe outra coisa, mais clareza, menos sensação de urgência constante, mais presença, mais capacidade de aprofundamento.
Porque se está estabelecendo um novo padrão. E isso conversa diretamente com o humor que eu falei anteriormente. Porque uma mente menos fragmentada tende a experimentar menos sobrecarga contínua. Não significa ausência de estresse, mas significa menos dispersão permanente.
Existem estudos sugerindo associação entre mindfulness, regulação emocional e redução de distração cognitiva em ambientes de autoestimulação. Embora não sejam estudos especificamente sobre multitarefa, eles apontam algo importante. A atenção treinável modifica a experiência subjetiva com as tarefas. Ou seja, foco não é apenas traço de personalidade, também é uma habilidade. E habilidade pode ser treinada.
Agora, antes que você pense, ah, então eu preciso viver focado o dia inteiro? Não, isso também seria exaustivo. O cérebro oscila naturalmente, distração faz parte da experiência humana. Descanso mental importa, devaneio importa.
O problema não é distrair, isso não é um problema em si. O problema é nunca conseguir sustentar a atenção quando necessário. Existe uma diferença importante entre descanso espontâneo da mente e fragmentação compulsiva. Porque uma mente descansando ainda consegue voltar. Uma mente hiperfragmentada às vezes nem percebe mais onde ela estava anteriormente.
E aqui talvez esteja um dos efeitos mais profundos da multitarefa excessiva. Ela pode reduzir a sensação de presença. Se está numa conversa, mas parcialmente em uma outra coisa. Está vendo um filme, mas metade da atenção está no celular. Está trabalhando, mas olhando a notificação. Está descansando, mas pensando lá no e-mail. O cérebro entra num estado de quase. Um estado permanente de quase. Quase presente, quase atento, quase descansando.
E viver em um estado de quase o tempo inteiro costuma cansar bastante. Talvez por isso tantas pessoas descrevem sensação de mente acelerada atualmente. Porque aceleração nem sempre vem apenas da quantidade de tarefas. Às vezes vem da quantidade de trocas que você faz. E aqui vale uma provocação importante. Talvez produtividade não seja fazer mais coisas ao mesmo tempo. Talvez produtividade seja conseguir realmente estar onde você está.
O que honestamente em 2026 já começa a parecer uma habilidade realmente avançada. Então na prática, o que a ciência sugere? Tão notável ouvinte, já pegue seu caderninho das drop dicas para anotar. Primeiro, atenção possui limites.
alternância constante entre tarefas tem custo cognitivo. Excesso de fragmentação pode impactar foco, memória, estresse e experiência emocional. Atenção sustentada pode ser cultivada. Isso não exige abandonar tecnologia, mas talvez exija recuperar alguma intencionalidade. Por exemplo,
Fazer uma coisa de cada vez em momentos importantes, reduzir interrupções desnecessárias, criar períodos sem notificação, perceber quando o cérebro está apenas reagindo a estímulos ou simplesmente anotar quantas vezes você pega o celular sem necessidade real. Aliás, esse exercício costuma ser quase um documentário psicológico, porque muita gente descobre que pega o celular não por necessidade real,
mas por micro desconforto. Dois segundos de espera, celular. Fila, celular. Elevador, celular. Qualquer micro espaço de silêncio virou oportunidade de estímulo. E talvez isso explique por que tantas pessoas sentem dificuldade crescente em ficar sozinhas com os próprios pensamentos. Porque a tensão continuamente ocupada reduz espaço de processamento interno.
E aqui existe uma ironia moderna muito bonita se é que a gente pode falar assim. A tecnologia foi criada para economizar tempo, mas em muitos momentos o que ela mais disputa é exatamente a nossa capacidade de perceber o tempo passando.
É o mesmo que dizer que a tecnologia foi criada para resolver problemas que antes dela não existiam. Mas vamos com calma aqui, né? Porque hoje tudo fica rápido, fragmentado, interrompido. E a mente acompanha esse ritmo. Então, talvez a pergunta não seja apenas eu consigo fazer várias coisas ao mesmo tempo. Talvez uma pergunta mais útil seja qual é o custo psicológico de tentar fazer tudo ao mesmo tempo, o tempo inteiro. Porque o cérebro é extraordinário.
Mas ele não foi desenhado para ter atenção infinita. Ele funciona melhor quando consegue selecionar, priorizar, permanecer. E talvez exista algo quase revolucionário hoje em dia em simplesmente conseguir prestar atenção. Prestar atenção numa conversa, num livro, num filme, numa tarefa, numa refeição, num pensamento.
sem precisar dividir a mente em 15 abas internas. No fim das contas, multitarefa não transforma necessariamente a gente em pessoas mais eficientes, às vezes transforma apenas em pessoas mais cansadas.
E talvez recuperar um pouco de continuidade atencional seja menos sobre produtividade e mais sobre a qualidade da experiência. Porque existe uma diferença enorme entre passar por um dia e realmente estar presente nesse dia. Se esse episódio fez você perceber quantas abas estão abertas à sua cabeça agora, talvez já tenha cumprido parte do trabalho.
E se enquanto você ouvir esse episódio, você abrir o celular três vezes sem necessidade, a ciência provavelmente teria algo a dizer sobre isso. Apenas não se culpe demais por não ter a eficiência que o mundo está te exigindo, mas tenha a eficiência que faz sentido para você e que é coerente com o seu dia a dia. Um forte abraço e a gente se encontra no próximo Drops Cognamés.
E aí