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À Espera

07 de maio de 202631min
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Para Sérgio Lopes, tetraplégico há 23 anos, uma simples viagem de autocarro em Lisboa pode transformar-se numa sucessão de barreiras. Autoria de Rita Fernandes.

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Participantes neste episódio4
P

Paula Campos Pinto

ConvidadoPresidente do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos
R

Rita Fernandes

Reporter
R

Rui Lopo

ConvidadoPresidente da Carris
S

Sérgio Lopes

ConvidadoTetraplégico
Assuntos6
  • Acessibilidade em LisboaObstáculos em passeios e paragens de autocarro · Problemas com rampas de autocarro · Falhas no cumprimento da Lei das Acessibilidades · Sérgio Lopes · Carris
  • Vida de Sérgio LopesAcidente que o tornou tetraplégico · Uso de cadeira de rodas elétrica · Adaptação da casa
  • Mercado de TrabalhoBarreiras no acesso ao emprego · Desemprego de longa duração · Taxa de pobreza em pessoas com deficiência · Nova lei do trabalho e cotas · Paula Campos Pinto
  • Renovação da Frota da CarrisAutocarros sem rampa de acesso · Processo de substituição de autocarros · Meta de neutralidade carbónica · Rui Lopo
  • Dia Europeu da Vida IndependenteDireito à autonomia · Acessibilidade · Acesso ao mercado de trabalho · Assistência pessoal
  • Serviço de Transporte a Pedido da CarrisInscrição para agendamento de deslocações · Transporte dedicado para pessoas com mobilidade reduzida · Aumento de viagens e utilizadores
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Bem-vindos ao Aundoc. Em Portugal, a inclusão ainda depende da ajuda dos outros e do tempo. E às esperas demasiado longas.

Esta semana, a repórter Rita Fernandes traz-nos o cotidiano de Sérgio Lopes, tetraplégico há 23 anos. Para ele, uma simples viagem de autocarro na capital pode transformar-se num percurso cheio de barreiras.

Um passeio demasiado alto, uma rampa que não funciona, um espaço que falta e um cálculo permanente de quanto tempo e esforço será preciso para fazer um percurso banal. E a espera não termina na paragem de autocarro. Para muitas pessoas com deficiência, essa espera continua à porta de um emprego, de uma oportunidade, de uma vida verdadeiramente independente.

À espera é a reportagem da Rita Fernandes, que vamos ouvir agora no Aundoc.

Sérgio aproxima-se da paragem de autocarro, mas o passeio é alto demais para a cadeira de rodas subir. Vou ficar agora ali no meio da estrada, que é para quando o motorista vier lá em cima, ele ver que eu estou aqui e para ele perceber que vai ter que deixar o afastamento para poder abrir a rampa. Porque este passeio é bastante alto? Este passeio é bastante alto, não dá para eu subir nem descer em lá nenhum.

Toca-me nos tornozelos, a mim. Sim, os passeios têm bem a vontade. Mais alta tens. Os passeios têm bem a vontade para ir uns 15 centímetros. E o que acontece, eu por acaso conheço este passeio, mas se vier algum passageiro que não conhece e quer sair aqui, porque esta é a paragem de acesso a um supermercado, a um centro comercial, a pessoa sairia em cima do passeio, o autocarro vai-se embora e a pessoa depois não consegue descer para ir para lá nenhum.

Eu, por acaso, sei que ia ser este passeio e até já faço isto de estar aqui no meio da estrada para fazer sinal ao autocarro. E, portanto, pressuponho que uma pessoa que esteja nessa situação irá, penso eu, ter de pedir ajuda a alguém para descer este passeio gigantesco? Sim, neste caso... Que tiver uma cadeira mais rudimentar.

No meu caso, que é uma cadeira elétrica que pesa muito, só para ter a abansão, só a minha cadeira pesa 200 quilos. Mas a pessoa em cima, para os 260, 260 não interessa, mas só a minha cadeira pesa 200 quilos. Estamos a falar de um passeio que tem 15 centímetros e que uma cadeira, por exemplo, destas pesada, ao descer, pode partir. Ou se vier alguém a ajudar, eu estou sujeito a...

A aleijar-me, não, pessoal, aleijar-se para me ajudar. Eu vou a ir ali mais para a frente. Vamos, vamos. Sérgio afasta-se ainda mais para o meio da estrada, porque há uma carrinha estacionada num lugar proibido e que tira ainda mais a visibilidade do motorista do autocarro, a quem Sérgio tem de fazer sinal para parar. Eu ainda vou ter que ir um pouco mais para a frente da estrada.

para que o motorista da Carrijo possa ver como deve ser, que é para ele fazer logo a manobra correta para ele poder entrar. Quando chega o autocarro que vamos apanhar, o 794, que nos leva dos Olivais ao terreiro do passo, o motorista identifica Sérgio, um passageiro com cadeira de rodas, e sabe que vai ter de acionar a rampa do autocarro.

Mas a viagem ainda não pode começar. A rampa fica presa ao recolher. Ele eventualmente vai ter que ir lá porque a rampa agora ficou presa. O motorista tenta recolher a rampa uma, duas, três vezes. E nem a ajuda de um passageiro resolve o problema. O motorista tem de sair do autocarro e recolher à mão esta rampa, que funciona com o mecanismo automático.

No fim da viagem, já no terreiro do passo, o problema repete-se. A rampa não recolhe e, mais uma vez, o motorista é obrigado a sair do autocarro.

O motorista explica que a distância e a altura do passeio afetam o mecanismo e a recolha da rampa. E de forma simpática, lamento. Obrigada.

Lisboa coloca obstáculos no caminho de Sérgio Lopes. Obstáculos que fazem com que uma aparentemente simples viagem de autocarro comece muito antes da entrada no veículo da Carris.

Quando se fala sobre acessibilidade, aparece sempre alguém a dizer que já foram feitas muitas mudanças. Para quem passa por isto todos os dias, não está nada mudado, não foi feito nada. Na vida de Sérgio Lopes foi há 23 anos que tudo mudou. Desde 2003, em uma casa pessoal.

de férias, estivemos a fazer algumas obras para reestruturar a casa e houve um teto que desabou e caiu em cima de mim, o que fez-me uma lesão do ar e a partir daí fiquei com, o termo correto é uma tetraparésima, tetraplégico mais conhecido e ficou assim, tenho de jogar na cadeira de rodas.

É a cadeira que serve para eu deslocar para todo lado, desde como levanto até como bem. A escolha, quer dizer, a atribuição da cadeira e a escolha da cadeira tem a ver com o conforto para podermos deslocar na maioria dos títulos, até por causa da nossa calçada e tudo mais. Eu, no meu caso, não sinto grande parte do meu corpo, não mexo as pernas e os meus braços, mexo a zona dos ombros ou dos cotovelos.

e tenho alguns movimentos nos pulsos das mãos. Utilizas também para manobrar a cadeira, tens um controle? A minha cadeira tem um joystick, que serve para não só fazer a cadeira andar, para trás, para os lados, serve também para as posições da cadeira. Neste caso, a cadeira faz várias posições para relaxamento e é com o mesmo joystick que se faz isso tudo.

Atualmente, eu moro em Lisboa, aqui no centro de Lisboa, perto da Bela Vista. Chegamos a estar numa paragem onde deixamos passar o primeiro autocarro, o segundo autocarro, o terceiro autocarro e quando estamos a andar por ela, o primeiro autocarro que nós tínhamos à espera está a chegar outra vez ao pé de nós. Ou seja, percebemos que toda a frota, naquele percurso, naquela carreira, não está a funcionar. E a Carris sabe disto, aliás.

Não faz sentido nenhum nós identificarmos que é um autocarro que tem a rampa variada e aquele autocarro continuar a trabalhar o dia todo sem haver uma substituição por um autocarro a funcionar.

Problemas destes nos transportes públicos deixam expostas as falhas no cumprimento da Lei das Acessibilidades. Essa vigilância é feita pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos. A análise da Presidente, Paula Campos Pinto, é direta. A lei não está a ser cumprida.

Obviamente que não, que está a ser infringida e, como digo, com consequências muito graves para a vida dessas pessoas que são atingidas por essa situação. Nós também percebemos que às vezes não é possível de um dia para o outro fazer essa substituição da frota, mas era preciso dar prioridade a isso. E aquilo que nós verificamos é que passam anos, passam décadas.

E a substituição vai sendo muito lenta e muito gradual. E isto ser realmente vivido e visto como uma prioridade. E é isso que se percebe que não é. Porquê? Isso é dramático. Eu acho que é porque a problemática das pessoas com deficiência ainda é vista neste país por muitas pessoas, inclusive aquelas que têm responsabilidades para fazer mudar as coisas.

como uma temática marginal. Afeta um pequeno número de pessoas. Isto diz respeito àquele pequeno grupo, àquele grupo que é um grupo pequeno. E isso é uma visão profundamente errada. Profundamente errada. Então, nas questões da acessibilidade, é profundamente errada. Porque nós, hoje em dia, devemos pensar as questões da acessibilidade também no contexto de uma sociedade que está a envelhecer a passos largos.

onde realmente a esperança de vida aumenta, mas não aumenta necessariamente essa esperança de vida com qualidade e, portanto, há pessoas e as incapacidades surgem com a idade. E há cada vez um número maior de pessoas que se encontram nessas situações e que podem beneficiar.

dessa acessibilidade. A juntar aos obstáculos no acesso aos transportes públicos, surgem também barreiras no acesso ao mercado de trabalho, explica a diretora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos. Estas duas dimensões da vida, a mobilidade e o emprego, acabam naturalmente por estar ligadas. Se as pessoas não têm condições para sair à rua, elas não saem, ficam fechadas em casa. E se ficam fechadas em casa...

A sociedade desconhece a sua existência e, portanto, acha que é uma minoria e que não vale a pena fazer nada ou que é um custo. O custo-benefício não compensa esse investimento. Portanto, nós temos que realmente romper com essa invisibilidade e, para isso, eu acho que, de facto, o conhecimento científico é muito importante porque ajuda a desocultar essa realidade.

e a mostrar, de facto, o seu significado e a sua expressão social na sua verdadeira dimensão. E é preciso que a comunicação social vá pegando nestes temas para também lhes dar visibilidade, para os debater no espaço público, para que as pessoas vão ganhando consciência da realidade que é a vida destas pessoas com deficiência, que é ainda, de facto, muito invisível, na maior parte dos casos.

Sérgio não ficou à espera e de um obstáculo acabou por fazer oportunidade. Aventurou-se como comediante e é com os textos que cria, que faz humor e ri ele próprio das barreiras que enfrenta na vida.

Mas quando foi o apagão havia quem tivesse internet. Eu tive internet durante algum tempo, havia alguns redes que tinham. Eu estava vendo as pessoas a queixarem-se. E eu reparei que muita gente a queixar-se, principalmente nos metros, a dizer, ah, isto é uma chetice, o alfador não está a funcionar. E eu pensava, é para que não é uma terça-feira normal. Se o gajo da cadeira de rodas é, pois, que é, tenho que vir amanhã.

No Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, o diagnóstico é direto. Está no relatório mais recente, explica a diretora Paula Campos Pinto. Há um dado que a preocupa dentro desta temática do acesso ao mercado de trabalho. Que é o desemprego de longa duração. Tem vindo a crescer.

Ou seja, nós temos cada vez mais pessoas com deficiência que estão há mais de 12 meses desempregadas. Mais de um ano. Mais de um ano. E depois há um outro dado que é extremamente preocupante. Olhando para o mesmo arco temporal em que estamos a olhar, quando eu lhe digo o padrão da taxa de emprego tem sido de crescimento, a taxa de risco de pobreza, a taxa de pobreza das pessoas com deficiência, mantém-se praticamente inalterada. Vai tendo oscilações.

Mas hoje, hoje, 2024, estávamos praticamente no mesmo ponto em que estávamos em 2015. E essa taxa chega a ser mais do dobro quando falamos de pessoas com deficiências mais severas. Portanto, estamos nos 32, 33% de taxa de pobreza, uma em cada três.

Pessoas com deficiência severa vivem abaixo do nível de pobreza. Portanto, isto é realmente um dado preocupante e faz-nos pensar o quê? Então, mas se a taxa de emprego cresce, porquê é que não cresce, não diminui a taxa de pobreza?

Duas explicações possíveis. Por um lado, se calhar as pessoas que estão a entrar no mercado de trabalho não são de facto todas as pessoas com deficiência, são aquelas que têm deficiências mais ligeiras. E, portanto, as tais pessoas com deficiência severa estão realmente muito excluídas.

Por outro lado, que tipo de empregos serão estes? Qual é a qualidade destes empregos e qual é o nível de recuperação? Claro, quais são os salários envolvidos? Provavelmente são salários tão baixos que não permitem sair da pobreza. Há uma vida à espera de um vínculo laboral e um salário que traga segurança, estabilidade e, no caso das pessoas com deficiências mais profundas, um contrato de trabalho que permita sair da pobreza.

A nova lei do trabalho chega com a promessa de alargar o acesso ao emprego para pessoas com deficiência. A lei das cotas passa a abranger pessoas com grau de incapacidade a partir dos 33%, quando, até agora, as cotas aplicavam-se a um grupo mais restrito, a pessoas com grau de incapacidade a partir dos 60%.

Há por isso, na teoria, mais pessoas com deficiência abrangidas pela nova lei das cotas. Mas a diretora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos mostra o outro lado. Deixa um alerta para o risco de estas mudanças na lei do trabalho excluírem ainda mais quem tem deficiências mais graves.

Quando nós olhamos para a distribuição no setor privado, nós percebemos que a maior parte das pessoas tem entre 60% e 80%. Não têm mais de 80%, nem têm menos. E sabemos também, através das organizações com quem trabalhamos, que muitas vezes as empresas que estão para admitir um trabalhador com deficiência e essas entidades que trabalham com pessoas com deficiência apoiam a impregabilidade.

encontram alguém com o perfil adequado e sugerem à empresa, mas de repente aquela pessoa só tem 50% de incapacidade e as empresas recusam. Não conseguem preencher a cota. Exato. E então o que é que a senhora ministra anunciou? Que ia baixar a cota para 30%. Isto pode parecer uma medida muito interessante e muito atrativa. Mas assim vão entrar mais pessoas. Não, não. Há um risco muito grande.

O que vai acontecer é que as empresas vão passar a contratar pessoas que tenham entre 33% e 40%. Com a menor taxa de incapacidade possível. Exatamente. E, portanto, vão deixar de fora as pessoas com mais incapacidades. Portanto, se as de 80% e mais já eram de minutas...

Vão desaparecer. A nova lei do trabalho abre também outra porta. As empresas passam a poder preencher a lei das cotas para contratar pessoas com deficiência através de trabalho temporário ou subcontratação de serviços, sem terem de contratar diretamente o trabalhador ou integrá-lo nos quadros da empresa.

Para Paula Campos Pinto, este é um tema que merece vigilância, acompanhada pela recolha de mais dados estatísticos. Ter dados, por exemplo, sobre os salários, não temos dados sobre os salários, das pessoas com deficiência seria importante perceber essa ligação, eventualmente entre progressão no emprego, por exemplo, também não temos dados sobre a progressão. Sabemos que as pessoas estão empregadas, mas aquilo que nos parece é que as pessoas entram e ficam estagnadas.

Portanto, são estes dados que são preocupantes e que vamos ter que continuar a acompanhar. A vontade é que uma pessoa tenha, que já não baixa todos os problemas que temos no seu dia-a-dia, ainda ter que pensar, ok, vou apanhar um autocarro, será que vou apanhar um motorista bom? Estamos a falar de autocarros, mas os pedissemos com boi, os pedissem em qualquer outro lado. Nós não temos, nós, quando digo nós, as pessoas com habilidade condicionada, as pessoas com deficiência, não temos que ouvir...

desabafos de alguém que está insatisfeito com o seu trabalho. Nós não podemos estar num sítio à espera que venha um autocarro, isto é um caso concreto, em que um motorista sai e diz, ao boca cheia ou diz de voz alta, estou eu aqui cheio de dores de costas e ainda tenho que estar a fazer isto. Portanto, isto não é geral, mas isto acontece com...

Vamos dizer pontualmente, sim, mas acontece. No caso concreto das temáticas da acessibilidade, a monitorização torna-se difícil de fazer de uma forma sistemática.

e rigorosa na medida em que nós não temos dados disponibilizados sobre essa realidade. Ou seja, não existe nenhuma estatística a nível nacional sobre o número de edifícios que estão ou não estão acessíveis. Vamos tendo alguns dados, por exemplo, no caso dos censos, os censos recolheram alguns dados sobre acessibilidade nas habitações.

Por vezes há um estudo esporádico feito sobre essa matéria por alguma entidade, mas não há uma produção regular de dados sobre isto. Portanto, o acompanhamento que vamos fazendo é através mais dos testemunhos, dos relatos que nos vão chegando. Devia, portanto, haver mais recolha de dados sobre esta população. Quem é que deveria fazer essa recolha?

O Instituto agora designado para os direitos das pessoas com deficiência, até recentemente o Instituto Nacional para a Reabilitação, tem como atribuição ser uma espécie de delegação do INE em tudo o que diz respeito à produção de estatísticas sobre as pessoas com deficiência. Portanto, se me pergunta que é a entidade que deveria compilar e sistematizar essa informação, em primeiro lugar seria essa entidade.

Embora isto pudesse ser feito, inclusivamente, em articulação ou em consórcio com entidades como o Observatório, que já estão no terreno, a fazer algum desse trabalho. Portanto, eu acho que há aqui realmente uma desresponsabilização de algumas entidades relativamente a esta matéria, que eu espero que seja corrigida quanto antes. Para garantir os minutos.

Atualmente há muitas pessoas em cadeira de rodas, aliás sempre houve, só que era uma coisa que estava fechada aos olhos da população, mas sempre houve casais que são pessoas em cadeira de rodas, irmãos, amigos que se deslocam em cadeira de rodas. Se os operadores continuarem a pôr o mínimo uma cadeira de rodas, o espaço para o acesso a uma cadeira de rodas, logo aí está a dificultar a vida a que duas pessoas com cadeira de rodas possam se deslocar juntas.

Eu às vezes ando com 3, 4 amigos em cada rodas. Eu não estou a dizer que o meu autocarro tem que ter espaço para tudo. Mas tem que se dar um passo maior do género para perceber que esse limite... Para dar aqui um exemplo mais prático, eu sempre conheço este autocarro no Oriente para ir para o Fogo e o Fogo.

Eu entrava neste autocarro e já não entrava mais ninguém em cadeira de vozes. Estamos a falar de uma carreira que tem quatro autocarros a circular. Se houver mais outra pessoa em cadeira de vozes, portanto, desde que eu entre no autocarro já não entra mais ninguém. Pois às vezes estamos na mesma paragem, a ver quem é que chegou primeiro para entrar.

A frota da Carris está a ser substituída. Há autocarros antigos que estão a sair de circulação para que na estrada possam circular mais autocarros equipados com rampas. Mas o processo leva anos, explica o presidente da Carris, Rui Lopo, e hoje, a circular em Lisboa, há mais de uma centena de autocarros da Carris sem rampa e, por isso, sem acesso para pessoas em cadeira de rodas.

São cerca de 140. Para trabalharmos em números redondos, são cerca de 140. É um tema de adaptação gradual e nós temos pouco menos de 20% da frota que precisa dessa recondição, de serem novos e com rampas e com acessibilidades. E é isso que estamos a trabalhar nos próximos anos, fazer essa renovação de viaturas para cumprirmos esse requisito indispensável.

É um processo em contínuo, não se consegue dizer em lado nenhum, não é só por causa da Carris, isto não é uma resposta redonda. É um processo em contínuo, a renovação da frota é um processo contínuo. Quando os autocarros atingem uma idade em que não estão adaptados à realidade, que no caso concreto, ou normativos legais, ou o contexto de opções políticas das empresas, os autocarros não cumprem esses contextos, têm que ser renovados. No caso da Carris...

Carres têm sofrido algumas renovações ao longo da história, autocarros a gás aqui a partir de 2018, 2019, com alguma intensidade, mais recentemente a acessão de alguns autocarros elétricos, também com alguma intensidade, e nós vamos continuar esse processo, tendo em vista também uma mudança significativa do paradigma energético e atendendo às questões das acessibilidades. Portanto, é um processo em contínuo.

Mas tem algum horizonte de chegada, alguma data? Sim, é o nosso objetivo. Custávamos muito, é claro que estas coisas estão muito dependentes de mecanismos de financiamento, capacidade de termos verbas que permitam acelerar mais ou menos estes processos, mas sempre acelerar, não é desacelerar. Custávamos muito que acontecesse até 2029, até para cumprirmos uma meta de neutralidade carbónica em 2030, que é um...

um desígnio da cidade de Lisboa e de mais um conjunto de cidades à escala europeia. Portanto, estamos a trabalhar para que aconteça até 2030. Quando terminar este processo de renovação, pode garantir, é assim que está previsto, pelo menos que todos os autocarros tenham, então, rampa de acesso? Indiscutivelmente, sim. Claro que sim. Todos estarão em condições de transportar de forma adequada pessoas com mobilidade reduzida.

Desde que comecei a usar os autocarros, comecei a frequentar os autocarros aqui em Lisboa, em 2016, 2017, sensivelmente. E eu sempre tive esse problema de apanhar um autocarro que tivesse a funcionar, ou seja, que as rampas elétricas tivessem a funcionar.

Em face da percentagem de autocarros que nós temos hoje na rua sem rampa, não justifica, e também considerando a frequência de autocarros que a Caris tem, que é bastante intensa no contexto da cidade de Lisboa, não justifica termos um procedimento de exceção para esperar menos tempo do que 10 minutos para que venha um próximo autocarro já com a rampa sem problemas. Não há um procedimento específico para dizer que é preciso um autocarro de substituição.

para garantir que aquele passageiro de mobilidade reduzido é transportado, porque à partida, em circunstâncias normais, 10 minutos depois vem um autocarro com rampa em condições.

Nós chegamos a estar numa paragem onde deixamos passar o primeiro autocarro, o segundo autocarro, o terceiro autocarro, e quando estamos a dar por ela, o primeiro autocarro que nós tínhamos à espera está a chegar outra vez ao pé de nós. Ou seja, percebemos que toda a frota naquele percurso, naquela carreira, não está a funcionar.

Do ponto de vista da manutenção, ela é sinalizada e assim que ao ver disponibilidade o carro é reparado ou a rampa é reparada. Isso é indiscutível. Não obstante, eu gostava de sublinhar um aspecto que me parece ser muito importante, porque eu estou na Carriza há relativamente pouco tempo e a Carriza tem um serviço espetacular de transporte a pedido para pessoas com mobilidade reduzida e que raramente se vê enfatizado. Nós temos um serviço que as pessoas podem inscrever.

desde que tenham uma incapacidade igual ou superior a 60%, e podem se inscrever para agendar uma deslocação. Portanto, as pessoas de cadeira de rodas, as pessoas com situações graves do ponto de vista da mobilidade condicionada, podem se inscrever e vai lá um carro de Carris.

fazer a viagem que aquelas pessoas se inscreveram, de forma dedicada, sublime, a pedido, sem custos acrescidos, portanto, com o passo navegante, a viagem está incluída, não custa nada, e, portanto, é espetacular, e nós temos quase 11 mil viagens em 2025. Dessas especiais? Dessas especiais, e, portanto, nós temos quase 500 pessoas inscritas neste tipo de serviço, e o aumento de 24 para 2025 é 30% do número de pessoas transportadas, é espetacular.

Com quanto tempo de antecedência podemos requisitar? Vou utilizar este... 24 horas, não me falha a memória. O que é certo é que são muitas as vezes em que a vida não é possível ser programada com esse tempo de antecedência. Doutor...

Por isso existem as duas realidades, não é? Aquela em que é possível programar com antecedência e a outra em que não, em que nós temos mais de 80% da frota com rampas acessíveis e, portanto, disponível para mobilidade reduzida. Nós estamos na nave 2 do complexo de Miraflores, onde se recebem viaturas, onde se fazem manutenções, onde se fazem todas as questões relacionadas também com o processo de manutenção que a Carrius tem dentro de casa.

E estes autocarros que já chegaram estão aqui à espera de quê?

Estes autocarros estão à espera de ser formalizada a sua possibilidade de entrada em funcionamento, ou seja, a equipa da Carris faz uma recepção provisória, depois vem ver um conjunto de aspectos que estão cumpridos ou não cumpridos do ponto de vista daquilo que foi a encomenda e depois estamos à espera dos papéis, usando uma linguagem comum e de tudo aquilo que são os aspectos legais e de autorização para que o carro possa circular. Estes ainda não circularam na rua.

fazem parte de um processo de renovação, lá está, não é deste, é do processo de renovação que é lá do censo, é um processo em contínuo, nós temos uma frota que precisa de ser renovada, não só por causa da questão da neutralidade carbónica, mas por causa da idade e por causa da adequação dos autocarros. As circunstâncias de operação, pessoas de uma comunidade de outros e de outras.

Como estes autocarros nem sempre estão a funcionar, eu acabei para optar em outra linha, fica para aí a um quilômetro da minha casa, porque lá sei que os autocarros são todos de rampa manual e assim tenho a garantia que possa apanhar. Para te poupar dois de cabeça. É mesmo, sim. Porque quando vim morar para esta zona de Lisboa, eu pensei, ótimo, estou aqui com uma paragem à porta de casa do autocarro que me serve aquilo que eu preciso, mas a verdade é que são mais as vezes que eu não consegui.

e por isso muitas vezes faço-me ao caminho com a cadeira porque ela dá para fazer isso a cadeira dá para isso então deslocam-me muitas vezes de cadeira eu prefiro saber que vou fazer um trajeto de uma hora na cadeira mas que é garantido fazer aquele trajeto

do que um trajeto que possivelmente iriam 20 minutos de transporte. E que se transformam em horas. Porque se eu depois perceber que afinal aqueles 20 minutos passou para 40 e que se calhar aqueles 40 minutos não vão ser sequer concretizados, aquela hora que eu ainda vou ter que fazer passou a ser 1h40. Assim eu tenho a garantia que é uma hora de viagem, de cadeira, mas prefiro. Mas isto só é possível, porque tenho uma cadeira que me dá essas condições.

É uma vida à espera do percurso mais curto, mais rápido, mais acessível, com menos barreiras. No dia 5 de maio de 2026, passaram 23 anos desde o acidente de Sérgio e, por isso, ele deixa uma mensagem nas redes sociais. Por esta altura, eu já estava nesta situação. Está tudo bem? Já cantei os parabéns à minha cervical?

Já lhe disse que ela se portar muito bem, um dia leva uma passadeira para dar uns passinhos.

Enquanto não se portar bem, fica assim. É também no dia 5 de maio que se assinala o Dia Europeu da Vida Independente, criado para reivindicar um direito simples na teoria, mas ainda com barreiras na prática. O direito de viver com autonomia, sem estar à espera de respostas, ajudas ou soluções que teimam em não chegar. Eu gosto muito deste dia porque...

Porque engloba tudo aquilo que são os direitos das pessoas com deficiência. Os direitos das pessoas com deficiência é isso. É tudo o que toca na parte da acessibilidade, no acesso ao mercado de trabalho, no acesso a estudar, à assistência pessoal. É tudo isto. Está tudo incluído neste dia. Todos os direitos das pessoas com deficiência estão incluídos neste dia. E é...

Um dos dias que eu gosto particularmente de mencionar e de tentar lutar por ele o mais que consigo.

Quem tem mobilidade condicionada passa mais tempo à espera para conseguir fazer as tarefas essenciais de um dia e em que a inclusão não se define pela existência de um acesso, mas pelo tempo e pelo esforço que é preciso fazer para viver em pleno a cidade.

Estivemos a escutar, à espera, da autoria da repórter Rita Fernandes, um retrato sobre os obstáculos que continuam a limitar a mobilidade e a autonomia das pessoas com deficiência em Portugal.

Pode voltar a ouvir esta e todas as reportagens do A1Doc na RTP Play, no Spotify e na Apple Podcasts. Voltamos na próxima semana. Aqui, A1Doc para ouvir. Há sempre uma história para contar.

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