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SAVIO DI MAIO | RivoTalks #122

24 de março de 20261h53min
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Ele é cientista político, pesquisador e criador do projeto Despolarize-se, onde analisa o comportamento político brasileiro e tenta construir pontes em um cenário cada vez mais dividido.No episódio, Savio di Maio fala sobre polarização, identitarismo, luta de classes e por que acredita que o Brasil não pode ser reduzido a narrativas simples. A conversa passa por esquerda e direita, neoliberalismo, relação com os evangélicos, críticas ao próprio campo progressista e os conflitos que surgem quando alguém tenta dialogar com todos os lados.Um papo provocador, cheio de nuances e que desafia certezas dos dois extremos. Solta o play!___Apoie o Rivo! Pix: 54.538.001/0001-13

Assuntos15
  • Despolarização e construção de pontesProjeto Despolarize-se · Diálogo entre extremos · Humanização do outro · Nuances políticas brasileiras · Anti-tribalismo intelectual
  • IdentitarismoAscensão de pautas identitárias · Afastamento de luta de classes · Crítica ao identitarismo progressista · Desconexão com população conservadora · Hipocrisia de elites de esquerda
  • Evangélicos e PolíticaSurgimento da categoria evangélica em 1988 · Unidade política versus diversidade religiosa · Evangélicos em diferentes espectros políticos · Cultura gospel como fenômeno social · Rejeição ao bolsonarismo por evangélicos
  • Pluralismo ReligiosoExpansão de evangélicos de 6% para 30% · Identitarismo evangélico · Influência política evangélica · Teologia do domínio · Diversidade dentro do movimento evangélico
  • NeoliberalismoDimensão econômica do neoliberalismo · Esvazimento da ideia do coletivo · Culto ao indivíduo · Desregulamentação de direitos · Instituições de mediação coletiva destruídas
  • Identidade e Classe SocialIntersecção de opressões · Importância material sobre simbólica · Esquerda ignorando base trabalhadora conservadora · Trabalho rural e camponês branco · Questão de classe como primária
  • Trajetória pessoal de Savio di MaioInfância em comunidade evangélica rural · Experiência como gay em ambiente conservador · Mobilidade social via políticas de inclusão · Bolsa Família e acesso à educação · Prouni e chegada à universidade
  • Igualdade SocialQualidade diferente entre universidades · Prouni como porta de entrada · Diferença entre educação pública e privada · Mobilidade social e acesso · Falta de infraestrutura em regiões interioranas
  • Atuação de Lucia na políticaImportância do Bolsa Família · Luz elétrica como mudança estrutural · Educação como transformação · Acesso a universidades para pobres · Continuidade versus ruptura com políticas
  • Critica PoliticaMérito em diagnosticar vácuo da esquerda · Apropriação de ideias gramscianas · Uso de teorias conspiratórias · Hegemonia cultural conservadora · Transição de análise para militância
  • Preconceito reverso e lugar de falaDiscriminação contra homem branco de origem pobre · Conceito problemático de lugar de fala · Sequestro do conceito como arma · Impedimento de análise científica · Academia como espaço de exclusão
  • Consumismo e privilégio de classeHipocrisia da esquerda com privilégios · iPhone e discurso revolucionário · Mobilidade social sem reconhecimento · Ceticismo sobre revolução comunista · Reformismo versus radicalismo
  • Natureza humana e vontade de servirDesejo de ser servido como universal · Problema fundamental do comunismo · Limites da revolução · Ditador como metáfora · Ceticismo sobre perfeição coletiva
  • Religião na universidadeSecularismo não absoluto da academia · Preconceito contra evangélicos na universidade · Oposição ao ensino secular total · Debate entre cosmovisões · Hostilidade contra cristãos conservadores
  • Beatriz Rodrigues e censura acadêmicaSilenciamento de intelectuais críticos · Perseguição pública e eventos · Ausência de espaço para nuância · Teorização sobre questões raciais · Exagero das críticas identitárias
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Bem-vindos a mais um Rivo Talks, esse espaço maravilhoso de conversas que abre portas para que vocês conheçam o... O Rivo News, nosso resumo semanal de notícias, toda sexta-feira, meio dia e trinta, nesse mesmo canal. Aquelas três horinhas ali do dia para você ir para o fim de semana, muito bem informado, com muita leveza e responsabilidade. Sempre com apoio da Intermesa Escola de Música e da produtora Camaleão. E hoje temos aqui conosco uma pessoa que tenta fazer o que o Rivo News faz.

Na academia, né? Na academia, em temas polêmicos, tentar ver o quê? A despolarização do mundo. Estamos falando do senhor Sávio Silva de Oliveira. Sávio de Maio, seja bem-vindo ao Rivotalks. Eu que agradeço. Obrigado. Vamos ter uma boa conversa. Temos muito o que conversar. Muito. É uma figura muito sui generis, você sabe. Sui generis? Essa palavra eu nem conheço. É linguagem neutra? Sui generis. Sui generis.

Gêneres neutres, você sofreu muito bullying na infância e na adolescência por ser gay, cresceu no ambiente evangélico, lidou com o discurso de cura, deu uma fugida, foi tentar a música, da música foi pra teologia, saiu da igreja, virou acadêmico. Em que momento você percebeu que a sua vida toda ia ser pautada pelo conflito, sabe? Eu me senti agora, você está no arquivo, confidenciado. A ideia é meio essa.

Cara, eu não... Que minha vida seria pautada pelo conflito. Conflitos identitários ainda, se a gente for pensar, né? Cara, eu me senti agora num divão. Real. Eu nunca tinha parado pra pensar que minha vida era pautada pelo conflito, mas ela é. Eu acho que na adolescência, quando meus irmãos, meus primos se encaixavam tão bem naquela comunidade rural, naquela família evangélica, e eu queria me encaixar. E eu percebia que eu não me encaixava. E quanto mais eu tratava de me encaixar,

conflito aparecia, eu senti que ali a coisa ia ser problemática, mas quando eu mudo pra Belo Horizonte e entro na universidade com bolsa do ProUni na PUC de Minas Gerais e eu penso assim, agora eu encontrei um lugar onde eu vou poder nadar com os meus, também não veio aí então eu acho que a minha missão talvez seja essa construir pontes entre diferentes porque eu realmente estou sempre em todos os lugares, me identificando e criando

Ou tentando fazer as pessoas pensarem fora da caixinha, né? Eu acho que todo lugar que eu vou, eu levo um pouco do outro também. E quando eu volto, eu trago um pouco daquele. Eu acho que é meio que isso. Ô, Sávio, você tem até marca. Tem cicatriz na tua cabeça, né? Porque você apanhou de... Como é que era? Ele descia... Ele ia pra escola, que era longe. Quando você descia, a galera vinha com brita. Onde que eu disse isso? Onde que vocês viram isso?

vinha com brita pra dar na tua cabeça. O bullying... Eu costumo dizer assim, o bullying... As crianças e adolescentes têm uma capacidade enorme de serem maldosas, né? Por isso tem que ser supervisionadas por adultos. E o bullying escolar rural é muito pior do que o bullying urbano. Então, quando eu descia do ônibus escolar, tinha uns meninos que ficavam me esperando assim, com brita de construção e cortava na brita. Aí bateu aqui na minha cabeça. Aí cortou e o lugar não nasce cabelo mais, mas é bem pequenininho.

Que loucura, gente. E assim, eu imagino o quanto que a sua imagem também confunda. Porque a região de onde você veio, que é Córrego do Ita, ela tem presença forte alemã. É, Córrego do Itá. Córrego do Itá, perdão. É o interior de Barra de São Francisco. E tem um município de Santa Catarina que chama Itá também. Aí as pessoas pensam que eu sou de Santa Catarina, mas o município mesmo é Barra de São Francisco. Até porque tem ascendência alemã, se é alto, comprido, louro.

Eu imagino o quanto que as pessoas olham pra você e pensem assim, aí lá vem o rico playboy. Nossa, a vida toda. Você passa muito por isso, pelo pré-julgamento de gente que não te conhece ou quem te vê pela primeira vez nas redes sociais e fala assim, ah lá o playboyzinho. Aquilo que eles chamam de racismo reverso, né? Não estou reivindicando esse conceito, mas é no sentido de... Porque a gente tende a ver o branco, o loiro, como alguém das classes mais abastadas e tudo mais. Então, meio que buga a cabeça das pessoas.

Não é a existência de pessoas brancas que vêm de baixo, mas tomarem conhecimento que existe uma população camponesa enorme no Brasil que faz esse país, que ajuda a construir esse país, que é branca, que é de migração europeia também, que nunca teve escravos, que nunca foram massacrados pelo coronelismo desde que chegaram ao Brasil. Então, esse Brasil não é só o Brasil da negritude contra a branquitude. Existem muitas outras camadas.

para serem analisadas. É por isso que quando vem esses discursos muito identitários, o Brasil não se conecta, porque o Brasil real, o Brasil profundo, existem outras camadas aí. E quando falam isso para você, você responde? Ou já respondeu e cansou? Sei lá. Eu não respondo. O que eu vou falar? Falar assim, eu sofri sim. O branco sofredor, sabe? Tipo assim, tanto faz. Não, tá. Dependendo do que for, você responde, senão você deixa para lá. Nem tem mais tempo, sabe?

ficar olhando. E eu acho que também depois de um certo tempo, acho que as pessoas agora já me conhecem também, sabem que eu não falo desse lugar da zona sul, das grandes metrópoles brasileiras. Eu falo do interior, da roça e tipo, e é isso, gente. Mas você acha que esse preconceito, ele de alguma maneira, ele faz com que você tenha menos espaços dentro da academia pra falar sobre os temas especificamente sobre os quais

Porque você fala, claro, você fala muito de identitarismo, mas sempre num contraponto do que seria aquela esquerda raiz concentrada na desigualdade social, de renda, que fala de trabalho, em contraponto a essa nova esquerda que dominou um pouco o debate, que fala muito de identitarismo. Você acha que, academicamente, porque a Beatriz Bueno, que teve aqui também, que infelizmente não pude participar, mas que adoraria ter conversado com ela,

Ela sofreu censuras acadêmicas. Sofre. Sofre, vem sofrendo censuras acadêmicas por dizer o que pensa e ela ainda é parda. Você como branco que faz esse debate, você acha que você perde espaço por se posicionar dessa maneira? Eu não sei se eu perco espaço, eu não tenho essa dimensão assim, porque tem uma questão quando você faz a comparação com a Beatriz. A Beatriz produz academicamente nessa linha. A minha linha de pesquisa mesmo, de escrita, da minha dissertação, de tese,

sobre ativismo político-evangélico. Certo. As críticas identitárias pertencem mais ao campo do debate público. E eu acho que o espaço... Não existe esse espaço acadêmico para começar a fazer crítica identitária da forma que nós fazemos. Não existe esse espaço. Não existe uma mesa que vai discutir mestiçagem nos congressos acadêmicos. Não existe uma mesa que vai falar dos exageros dos movimentos de gênero, de mulheres...

não tem isso, é sempre, isso é a regra, é o que tem que ser louvado e reafirmado. Tá estabelecido. Esse espaço nem existe, então não tem como perdê-lo. Mas, assim, algo que irrita muitas pessoas é que, na hora de falar, é preciso pagar um certo pedágio identitário que eu não pago. Ou seja, eu sento na cadeira, é tipo o Fiuk no BBB. Eu, homem branco, cisgênero, que venho da sei lá onde. Reconheço a mim. Exatamente, sabe?

Eu não pago esse pedágio, eu já chego atirando e falando, olha, a coisa está assim, assim assado, o diagnóstico é esse, e a população não se conecta por isso. E não se preocupe com quem está... Bati no microfone. Não se preocupe com quem está transmitindo a mensagem, se preocupe com a mensagem que está sendo dita. Porque isso é muito reducionista, você focar em quem está dizendo e esquecer do que está sendo dito. É o famoso lugar de fala que foi sequestrado como um lugar de...

cálice. Então, isso é um problema enorme. Então, eu posso falar da formação do Brasil, como todos os pensadores do Brasil disseram nos anos 30, a partir dos anos 30, que eram homens pardos, pretos, brancos. Ninguém estava preocupado se o Caio Prado Jr. era branco, se o Florestan Fernandes era branco, era negro. Ninguém estava preocupado com isso. Agora está, sabe? Então, é muito importante que nós

Somos as perspectivas das pessoas pretas, das mulheres negras. E é muito importante também que todos entendam que eu também posso falar sobre o Brasil. Agora, fazendo uma análise do Brasil, entendeu? Tipo, eu não estou preocupado em falar do lugar da mulher negra, nem do judeu, nem do muçulmano, sabe? Então, tipo, se o acadêmico que escreve, que estuda sobre isso, tiver que pagar esse tipo de pedágio, tiver que colocar,

Em nome do lugar de fala, a gente, na verdade, parou de fazer ciência e está fazendo apenas uma militância identitária que não realmente produz mudança social. Isso é majoritário na academia? Essa corrente? Você acha que hoje a maioria das pessoas que estão produzindo ciência estão pagando pedágios? Sim, total. Não existe. Quando você é um homem branco, etc.

gênero e raça, sabe? Todo mundo que pesquisa gênero e raça ou é mulher, negro e gay também tem a sua passabilidade. Agora, você encontrar um homem branco, cis, pesquisando gênero e raça, nunca encontrei. Você, homem branco que pesquisa gênero e raça, apareça para que eu possa falar aqui, existe esse daqui. Mas assim, a gente é empurrado para outras áreas, sabe? Eu vejo, na ciência política, é muito engraçado, assim. Os homens brancos, classe média, eles estão muito focados,

Ai, gente, fiz uma crítica pesada. Mais um cancelamento. Mas os homens brancos... Eu vejo muito isso na USP. Os homens brancos, classe média alta da Zona Sul, eles pesquisam muito metodologias quantitativas. Eles vão para os Estados Unidos, para a Yale, para a Stanford. E estão fazendo aquela ciência política que dá dinheiro, que trabalha com grandes questões de dados. Os pobres negros periféricos que vão chegando na universidade vão pesquisar tema gênero e raça, não sei o quê, identitarismo.

Quando pensa que não, quem está ganhando dinheiro mesmo é quem está dominando as grandes ferramentas do mundo moderno. E quem está rendendo um discurso identitário ganha capital simbólico dentro da universidade, mas não necessariamente vai conseguir se colocar no mercado de trabalho depois. Então, as pessoas têm que ficar atentas, porque o bonde do capitalismo anda dessa forma. Às vezes, a identidade é o que você está vendendo, é o que você está comprando, mas não é o que vai sustentar as suas contas depois.

acadêmica é pantanosa, sabe? Tem camadas e camadas nisso aí. Tem muito Tolkien também, sabe? Tem muito programa de pós-graduação no Brasil que adora criar uma linha de pesquisa identitária e pega essa mulher negra periférica e coloca aqui a nossa Tolkien. Olha como o nosso programa louva essas questões, enquanto os homens brancos estão ganhando dinheiro, ganhando as melhores bolsas, indo para fora do Brasil. Então tem isso também que precisa ser observado. Eu acho muito curioso,

porque, obviamente, quem não te conhece ou não conhece a sua história, ou não sabe de onde você veio ou de onde você fala, vê uma postagem sua e imediatamente pode colocar a pecha de direitista, bolsonarista. Jamais pensa que Sávio é esse menino que veio de uma área rural, que capinou café com os pais, que correu atrás, que foi bolsista. Uma criação religiosa. É, veio da educação presbiteriana, depois foi para a igreja,

Lagoinha, gente. Foi cantar. Você e o Daniel Vorcar aqui. Mais essa ainda. A minha Lagoinha era mais periférica, lá do Camargos. Mesmo assim, lá do Camargos. Beirando contagem. Mas só que o ponto é que quem não te conhece pode colocar essa pecha. E quando te coloca essa pecha de direitista, toma um choque quando encontra qual é a tua realidade, de onde você veio,

e aí acha que você está querendo, como é que fala? Boicotar o sistema, entendeu? Ele está querendo ser o bug, ou ele está querendo causar, ou ele está querendo ser o diferentão. Em algum momento, você acabou de falar, você tomava coisa na cabeça, né? Você fala que teve essa virada aos 30 anos, ano passado, né? Tá, entendi meu lugar aqui. Mas em algum momento você teve a vontade de provocar, de fato, sabe?

Porque, assim, a gente... Existe um tom irônico na tua fala. Existe uma... Tem um deboche. Tem um deboche. E a gente quase não gosta. Cara, eu acho que a minha personalidade é assim. Tem isso também, sabe? Eu não consigo fazer o personagem acadêmico quadradinho. Até porque ele é chato. É, isso. Eu até queria ser, sabe? Eu sempre quis ser muita coisa, mas como diz a Débora Seco, né? A gente quer ser tanta coisa, Michel, que a gente consegue.

É, é. E o que eu tô conseguindo ser é isso, sabe? Grande filósofa. Grande filósofa.

ser assim, sabe? E no formato de vídeo quadradinho, que é o que mais repercute, né? Às vezes, pelo qual as pessoas passaram a me conhecer, eu até consigo ser mais assim. No dia a dia, é uma catástrofe, sabe? Eu sou bem loucão, assim. Eu falo, eu penso, eu falo, depois eu penso. Mas, qual era a pergunta mesmo? Outra ideia. Não, se você tinha o intuito de provocar. Teve uma hora que você falou assim, agora eu vou espizinhar. Mas,

Mas a provocação é uma questão de intelectual público, eu diria. O intelectual público, ele provoca mesmo. Se não provocar, ele tá ali pra quê? Pra servir pra... Ah, eu falo pela ONG e tal, eu falo pelo não sei o que e tal, eu não falo por ninguém, sabe? E tipo, eu queria, assim, dar um sacode mesmo, sabe? Nesse sistema. Eu vim acumulando uma série de decepções desde a graduação, que vocês estão falando aqui, por exemplo, quando eu cheguei na graduação, era na PUC de Minas Gerais.

PUC de Minas, todas as PUCs, mas a de Minas é conhecida por ser um lugar mais elitista e tudo mais. Então, quando eu chego lá, tinha acabado de chegar da roça, ganhei a bolsa do ProUni, primeiro de teologia, depois de geografia. Então, tipo, o movimento negro era muito forte, era um movimento negro meio marxista que tinha lá, que estava na moda naquele momento, não sei como é que está hoje. Então, quando eles bateram o olho em mim, ai, mais um, mais um princeso que vem lá da Savar se estudar para salvar o mundo.

Então, tipo assim, a resistência foi enorme, mas o que eu tinha na minha bolsa era um biscoito crime cracker pra passar o dia. Então, tipo assim, aquilo me deu uma raiva tão grande. Gente, não é possível que eles não entendem que as questões de classe transcendem também as questões raciais. A questão racial é um componente, a questão de gênero é outro componente, e a questão de classe é mais importante do que todas elas, sabe?

O identitarismo é quando justamente essas identidades transcendem aquilo que é coletivo.

Como esquerdista, né? Sim. Como alguém que olha pra luta de classes. É porque é meio antigo falar isso, né? Eu gosto de luta de classes, eu não gosto de pensar só no marxista. É marxista, né? Mas não no sentido de só... Porque luta de classes para superar o capitalismo. Tem luta de classes para reformar o capitalismo. Lutar por direitos. Tem todas as esquerdas possíveis, né? Não é só... Não é aquele clichêzão marxista, sonhador, que vai... Ai, nós vamos superar o capitalismo.

Pode ser que supere. Só se conta cair uma bomba atômica em todos os países, quem sabe supera, sabe? Mas, tipo, é nesse sentido, assim, que eu acho que surgiu essa indignação, sabe? De querer mostrar e evidenciar, gente, vocês estão desconectados das classes populares. Em que momento que isso acontece, sabe? Não só no Brasil, mas acho que, de certa maneira, globalmente, a esquerda, principalmente a ocidental, né?

Importa muito esses conceitos americanos todos de agenda woke e afins. Mas em que momento que a esquerda passa a fazer essa inversão, né? Porque, quer dizer, as pautas identitárias, elas não se tornaram importantes de um dia para o outro, mas elas não eram a principal pauta das esquerdas, vamos colocar assim. E de uns tempos para cá, a gente tem visto isso, né? Como você mesmo mencionou. Qual é o momento que rola essa inversão?

também não começa como uma esquerda identitária, né? Até porque quando começa o conceito é isso, a gente vivia num outro mundo. Olha, a história é muito grande, mas a grosso modo, depois da Segunda Guerra Mundial, começa ali a se estruturar uma nova economia e ela vai organizando, né? Porque aí começa a Guerra Fria e aí alguns países do Norte Global, eles tentam equilibrar, nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, como diz o...

sertaneja, que saco. Não sei, Zezé de Camargo. Não, é o do Dormir na Praça lá. Ah, é. Bruno e Marrone. Bruno e Marrone, que ele tem um vídeo maravilhoso falando, nem tanto alçado, nem tanto inferno, nem tanto capitalismo, nem tanto comunismo. É ótimo. Eu gosto que são grandes lojas. Boas referências. É ótimo. E aí foi meio que isso, né? Surge ali o estado do bem-estar social, keynesianismo e tudo mais. E aí começa a produzir muito progresso naquele norte global.

E surgem ali gerações que vão ganhando muito bem. E surgem também nos anos 70 as políticas de identidade. Começa com a questão das pessoas especiais, deficientes físicos. E aí os direitos civis americanos começam a criar políticas no sentido de, olha, as pessoas negras precisam de uma política específica porque passaram uma opressão específica. Então vão surgindo ali essas políticas que naquele momento foram muito louváveis.

e produziram muita coisa boa. Só que, quando vieram as crises do petróleo, gerações e gerações começaram a ganhar menos que seus pais e avós, e aí a desindustrialização começa a ocorrer, a indústria começa a migrar para a Ásia. Então, todos esses países, as pessoas vão sentindo que ganham menos que seus pais e vão ali criando uma resistência. A esquerda, nesse momento, ela começa a migrar,

a sua luta de classes, proletariado, para as pautas de identidade, porque as instituições de mediação coletiva, os sindicatos, os partidos, estava tudo enfraquecido, estava tudo meio nada a ver. Então, meio que as lutas identitárias começam a assumir um trunfo maior. E a resistência começa a ir, porque ao mesmo tempo em que a grande parte da esquerda se abriga nesse guarda-chuva identitário,

estava enfrentando situações de crise e coisa e tal. 2008 pra cá é uma nova onda disso, com a crise imobiliária que quebrou o mundo inteiro. E aí isso chega no Brasil a partir de 2011, e aí a nova matriz econômica da Dilma, e aí quebra também, e aí vem o MBL, vem os protestos de rua, aí cai a Dilma. Então assim, a convulsão social e as pautas identitárias naquele momento foram usadas como

como prova na boca dessa direita disruptiva que nasceu ali, de que olha lá o que a esquerda está falando. Enquanto vocês estão preocupados com questões urgentes, a esquerda está querendo lançar cartilhas para falarem de gênero na escola. Então, basicamente, você acha que a direita é que inflou o discurso identitário da esquerda ou não? O discurso identitário já existia e já produziu políticas públicas importantes, é importante deixar isso claro.

também exagerou. E também a família, a sociedade, ela caminha, ela se adapta aos novos tempos devagar. As políticas identitárias queriam passar com tudo por cima, sabe? E no Brasil tem múltiplas coisas acontecendo. Porque os evangélicos que eram, sei lá, 6% nos anos 90, agora já são quase 30%. São caricaturados pela esquerda o tempo inteiro, né?

são perseguidos, são vítimas desse assédio identitário, sabe? E criam seu próprio identitarismo, que é agora eles são donos da família, nós falamos pelo casamento, pela família tradicional, agora você é feminista? Vai casar? Ha, ha, ha! A Tabata Amaral vai casar na igreja? Ha, ha, ha! Como se fosse uma grande incoerência, ou seja, é um outro identitarismo. Então, a política identitária não é só de esquerda, ela é a racionalidade neoliberal, é a vitória da racionalidade neoliberal.

na política contemporânea. Tanto na esquerda quanto na direita. Tanto na direita quanto na esquerda. Mas especificamente na direita, como é que se dá o identitarismo? Pra além dessa questão que você já mencionou. Ele começa com o ultranacionalismo. Quem é o verdadeiro brasileiro? Ah, patriota. A minha bandeira jamais será vermelha. Então, a direita identitária, ela começa com a coisa do eu sou o verdadeiro brasileiro, é a bandeira, a bandeira é nossa. A esquerda não defende o Brasil,

Eles não são dignos nem de ser chamados brasileiros. Vai pra Cuba. Então, olha o identitarismo aí. Cara, nós somos todos brasileiros. Alguns se acham mais brasileiros do que outros. Eu recebi um comentário no vídeo hoje da rádio que o cara dizia que o petista não deveria ganhar salário. Isso me chamou tanta atenção. Porque nunca tinha ouvido nada parecido, mas é de uma autosidade. É identitarismo, é fundamentalismo, é tudo junto e misturado.

E aí a direita mais contemporânea faz o link com os evangélicos, com os cristãos mais conservadores.

e aí você pega, né, essa galera, e aí a questão da família, do casamento, da criação de filhos, então, tipo, tudo aquilo, ah, mas o feminismo, aí começa a caricaturar aquilo que te critica, ah, mas o feminismo, ele quer destruir a família, ah, mas o movimento LGBT, ele tá aí pra mexer com os nossos filhos, então, tipo, segura aí, gente, não é assim também. Eu acho lindo que você fala que você entendeu que a coisa precisava virar mais palpável

sai de Belo Horizonte no dado momento, volta pra casa dos seus pais, e aí você vê o discurso da sua família, com quem você sempre conviveu, e aí você olha pra eles e fala, cara, eles estão tão radicais quanto a galera que eu ouvia lá na Cidade Grande. E aí você tentava conversar, mas já estavam todos muito vacinados nesse sentido. E você falando sobre isso, eu achei muito curioso, e por mais surreal que seja, meus queridos, eu ouvi Sávio, este homem de esquerda,

dizer. Então, Olavo de Carvalho tinha razão ali no início. Mas aí ele deu uma dramatizada na coisa, deu uma exagerada na coisa. Em que momento Olavo tinha razão? O Sávio? O Olavo captou um sentimento de uma população enorme, desassistida, que estava entrando no mercado de trabalho, que estava fazendo faculdade,

mas que não se via representada naqueles discursos mais clássicos da esquerda. Da academia. E, ao mesmo tempo, não existia intelectuais que conseguiam capturar aquele sentimento. Aquela coisa bem Orkut, naquela época. Então, ele entra aí para dizer, olha, existe aqui uma outra bibliografia. Existe Hayek, existem outros pensadores que fazem uma crítica profunda do sistema,

mas não numa perspectiva marxista. Então você pode ser antissistema da mesma forma que os marxistas fazem, mas não precisa achar que vai superar o capitalismo. Na verdade, o problema é a sociedade, é o coletivo. Não existe coletivo, só existe o indivíduo. Então ele entra aí com uma filosofia de vida para essas pessoas que estavam desassistidas. Então a lacuna da esquerda era colocar o pé no freio e entender que as pessoas não iriam entrar na universidade,

e virar marxistas automaticamente. A esquerda mais acadêmica tinha o dever de não esconder certas bibliografias, certas correntes e dizer, na democracia isso pode acontecer. Mas depois, o Olavo despiroca, quando ele surta com o Antônio Gramsci, com a questão da hegemonia cultural. Então, ele acusava a esquerda de fazer alguma coisa. Na verdade, o que ele estava propondo para a direita é fazer o que ele falava que a esquerda estava fazendo. Só que numa outra linha.

tomar conta das... Entrar nas universidades, entrar na cultura, enfim, formar ali uma hegemonia cultural. O que a direita hoje faz? Quem faz isso é a direita hoje. Via mídia, ela alcança. Olha os influenciadores de direita, eles têm um alcance imenso. Qualquer vídeo besta falando qualquer coisa, milhões e milhões de visualizações, qualquer pessoa de esquerda não consegue fazer o mesmo, sabe? Então, tipo, isso pressiona a grande mídia, os jornalistas que têm já um perfil mais progressista,

por formação, grande parte deles, a meio que apresentarem na marra também que existem outras visões, porque a sociedade já virou, a hegemonia cultural já é uma racionalidade mais conservadora hoje. E isso é meio que mérito do olavismo, querendo ou não. Mas as teorias da conspiração, o Olavo terminou a vida dele muito conspiratório, com o Foro de São Paulo, com um monte de conversa, sabe? Muito agressivo também, sabe? Então, tipo, ele virou uma...

o que chamavam ele uma espécie de guru mesmo, sabe? Saiu da racionalidade de assumir que, olha, existem coisas boas e ruins em todos, existe como construir pontes, o Brasil não vai ser construído na marra, sendo esquerda, sendo de direita, sabe? Então, eu não gosto de militante, sabe? Quando a pessoa sai da análise, passa para a militância, aí vira uma coisa que você tem que olhar como desconfiança. Ainda que você possa extrair insights interessantes e válidos de qualquer corrente política,

Quando é um militante falando, você já desconfia, porque ele está tentando vender a visão de mundo dele. Deixa eu rodar essa pergunta aqui, que eu acho que casa muito com isso. A gente tem o esquema de membresia aqui, temos os nossos rivos de ouro, são as pessoas que ajudam a manter esse canal de pé. E a Letícia, diretamente da Finlândia, nossa riva de ouro maravilhosa. Nossa maravilhosa, desde o início, nossa granjeira. Pergunta para você. Boa noite, Cecília, Gabriel, Sávio, tudo jóia? Sávio, eu tenho uma pergunta.

Você critica bastante a superioridade intelectual da esquerda, a falta de humildade da esquerda. Você acha que se isso não mudar é o caminho para o escanteamento total da esquerda no Brasil? Um abraço, obrigada. É o que eu estou dizendo todo santo dia. Se não parar com a arrogância, se não colocar o pé no chão de novo, e não é ficar comendo pastel de feira na época da eleição. É entender que as pessoas são conservadoras, conservadoras não de direita, conservadoras.

As pessoas... Elas não querem a revolução. E elas querem, economicamente falando, mas tipo, nos costumes, elas querem a família, elas querem casar, elas querem comprar uma casa, elas querem viajar, elas não estão preocupadas em grandes mudanças, sabe? E nem por isso a mentalidade delas é necessariamente opressiva e odiosa, sabe? Então assim... Mas é tratado dessa maneira. É, exatamente. Então a esquerda não pode tratar as pessoas como retrógradas, ignoradas,

fascistóides, as pessoas são absolutamente normais, sabe? Quem tá oprimindo, na verdade, é esse discurso que quer colocar as pessoas numa nova caixa, né? O Ciro Gomes dizia depois da eleição de 18, não é possível que a gente vá tentar manter um debate levando em conta que 51% da população brasileira é fascista. Não é. Não é.

Entende o que é isso, né? Isso, vai muito além, os motivos todos eles vão muito além. Mas ao mesmo tempo, é curioso, você faz esse alerta, eu acho que ele faz todo sentido, mas a gente vê, pelo menos diante das pesquisas eleitorais e do congresso que a gente forma, congresso cada vez mais conservador, mas a intenção de voto do presidente Lula, por exemplo, ela tem um piso para baixar, né? Ele tem ali os seus 30%, que são absolutamente fiéis a ele.

mesmo diante desse tipo de postura. Você acha que isso se deve ao lulismo ou ao esquerdismo? O brasileiro, esses 30% de pessoas são lulistas? Eu não diria lulistas. Os lulistas são uma porcentagem menor, mas a base do Lula é conservadora. São pessoas que são de família absolutamente tradicional, extremamente católicas, evangélicas,

que estão ali focadas no seu dia a dia, mas que votam no Lula por uma questão de agradecimento, de gratidão pelas políticas públicas, acha que a direita não tem propostas reais ou que não compram um discurso neoliberal, embora nem consigam muitos definirem o que seria isso. Mas às vezes falam, nossa, mas qual é a proposta dele? Eu não consigo enxergar qual que é, sabe? Porque tipo assim, ah, mas o Lula é contra a família.

Essa pessoa não consegue ver isso, embora muitos consigam. A base bolsonarista vê o Lula como contra a família, destruidor de todos os lares. Mas, tipo, a base do Lula é conservadora. Então, por isso, quando ocorrem essas homenagens no carnaval, quando aquela escola de samba coloca os conservadores em conserva, é uma coisa inacreditável. É como se ninguém sabia daquilo dentro do PT pra falar, olha, pelo amor de Deus, corta isso aí.

A base do presidente Lula é conservadora. Essa familinha aí é quem vota no Lula.

Lula também, sabe? São 500 mil filiados ao partido que são evangélicos declaradamente. É muita gente. Falando em Lula e conservadores, um dos eixos centrais, eu acho, do seu pensamento é essa ideia de que a gente não está polarizado ideologicamente, até porque, como a Cecília falou isso agora, é muito complexo. E não estou aqui menosprezando as pessoas,

maioria das pessoas está interessada em viver, e não em pagar seus boletos, conseguir fazer eventualmente churrasco no fim de semana, então não tem essa preocupação ideológica. Mas a gente vive inevitavelmente num mundo, especificamente num país totalmente polarizado. Você não discorda do outro, você odeia o outro, você acha o outro desprezível, e as ideias dele são ainda piores do que aquela pessoa da maneira como ela é. Se o problema é o afeto,

a ideologia, como que a gente pode resolver essa questão sem ferir a identidade da pessoa que se identifica como aquela ideologia? Vou aproveitar só para complementar. Você pode questionar a ideia. Questionar a ideia não significa questionar a identidade, né? É. Eu diria que é primeiro a polarização afetiva. É quando você olha para o outro e não enxerga ali ideologia. Você enxerga ali uma pessoa que necessariamente quer

destruir a sua identidade ou a sua existência. É muito louco. Então, assim, e isso não ocorre na maior parte da população brasileira. As pesquisas indicam que existe hoje os lulistas, os bolsonaristas, que vivem mais essa coisa. E esses movimentos identitários, de gênero, de raça, também tem uma coisa mais arraiguida, de achar que o outro quer eliminá-lo da face da terra. Mas a grande parte da população brasileira é espectadora desses extremos.

sentido, eu acho que está ali para começar. Porque esses extremos que têm as suas militâncias, mas têm também as suas elites políticas, as suas lideranças que vivem disso, que só existem hoje por causa disso, eles têm que incentivar aquele ódio, aquela confusão, e ano eleitoral principalmente, para que aquelas pessoas que estão ali meio que no centro, digo no centro, não necessariamente o centro político, mas estão ali meio sem polarizar demais, não estão muito preocupadas, elas estão em disputa. Elas precisam, na hora de apertar, falar, não, aquele ali realmente é pior,

fez, olha o que ele fala. Tomaram um lado. Ele quer destruir a minha vida. Então, tipo assim, por isso que a gente vê tantos vídeos nas redes sociais absurdos, de um lado ou de outro, de esquerda ou de direita, fazendo uma narrativa da realidade, você fala gente, não é possível que a pessoa vai exagerar tanto. Não é pra mim. É pra aquele extrato da sociedade que tá nesse limbo, sabe? Mas que ao ser atingido por aquele conteúdo, vai passar a racionalizar melhor.

Vai polarizar afetivamente também. Vai votar, não pensando na proposta econômica,

na redistribuição de renda, mais ou menos Estado, vai votar porque acha que aquele grupo vai formular políticas públicas que, em última instância, vão atrapalhar a família dele, vão retirar direitos das suas identidades. Então, é muito nesse sentido. E é muito doido, né? Eu estava conversando outro dia com alguns amigos sobre o voto nulo como conceito.

tinha um amigo muito lulista, um amigo muito bolsonarista. E os dois argumentaram exatamente da mesma forma para me convencer de que o voto nulo, claro, na visão de um, privilegia o novo, o desconhecido, e na visão do outro, quem já está aí com a máquina pública. Mas eram exatamente os mesmos argumentos. Porque eu acho que essa polarização afetiva faz, inclusive, com que as pessoas pensem de forma muito parecida, embora em espectros ideológicos diferentes. Sim.

E é meio que isso mesmo. Eliminar o outro é uma condição necessária para a sua sobrevivência. E, às vezes, é uma sobrevivência moral, sabe? Cara, é muito louco isso. É uma coisa, assim, terrível. Mas e como a gente resolve, então, sem machucar? Não sei se sem machucar, porque eu acho que, às vezes, o trauma é importante para as pessoas aprenderem. Mas, sabe? Sem romper. Sem causar tantos danos, né?

Um pensaponte. Primeiro é diagnosticar o problema melhor. Essa linha de pesquisa de polarização afetiva, ela já é tradicional nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos é mais fácil diagnosticar essa polarização por causa do bipartidarismo. Então, tem várias formas de fazer pesquisa de polarização afetiva, mas uma que é muito interessante é você criar lá, por exemplo, um ranking de o quão você detesta tal liderança do partido republicano, do partido democrata. Aí tem uma outra que eu gosto muito, sou doido pra fazer no Brasil,

Institutos de pesquisa? E aí, tipo... É uma pesquisa mais qualia, mais quanti qualia, mas é você perguntar, por exemplo, olha, você é... Identificar qual é o partido, qual é a ideologia. No Brasil é mais difícil, você entende? Mas, por exemplo, no modelo americano, você é republicano? Como é que você se sentiria hoje se sua filha se casasse com alguém do Partido Democrata? E se você tivesse que dividir escritório trabalhando com alguém do Partido Republicano? Primeiro, diagnóstico.

O diagnóstico americano é mais preciso. O brasileiro, nós somos um país multipartidário. A gente fala de lulismo, bolsonarismo, porque a nossa política se personaliza, nosso sistema é totalmente fragmentário. A gente tem o Salvador da Pátria, né? Sim. Então, assim, é difícil diagnosticar a ideologia. O que é o lulismo? O André Singer vai dizer que é tanta coisa. O André Singer, inclusive, é meu professor, querido. Ele que ajuda a diagnosticar, dizendo que parte da base do Lula é conservadora, por exemplo,

para aquilo ali funcionar durante tanto tempo. Então, tipo, e o que é o bolsonarismo? O bolsonarismo é formado grande parte de populações muito pobres. Não é gente rica da Zona Sul. Claro, gente rica da Zona Sul, das elites, podem estar interessados no projeto do bolsonarista por uma questão de tirar encargos das suas empresas. A elite pode se interessar por causa disso. Mas os 60 milhões de votos que ele tirou não foi das elites, não. Foram das periferias.

das zonas rurais. Então, assim... Que é o pobre de direita. Que irrita tanto a academia, né? Sim. Eu até parei com esse termo pobre de direita do nosso querido Gessete Souza. E eu li todos os livros do Gessete Souza. Eu adoro o trabalho dele, inclusive. Mas, tipo assim, eu gosto de falar trabalhador de direita. Pra lembrar a esquerda que é um trabalhador. Sabe? Tipo assim, isso é fundamental. Quando a esquerda cair a ficha, falar não é o pobre de direita. Não vou fazer bullying com ele.

esse pobre. Ele é um trabalhador. Por que que ele não enxerga no meu projeto o projeto pra ele? Algo tá errado aí. Se a esquerda é voltada justamente para os trabalhadores. Então não é mais voltada, ué. Ué, e pra esse trabalhador não é. Então, tipo, quem é esse trabalhador de 2020 do século XXI, sabe? Você avalia que a esquerda foi cooptada por intelectuais, então? Tomando vinho no Leblon, na beira da praia. Gente rica, intelectual, que fala difícil e que tem que ser professoral? Sim, é isso mesmo.

chamo isso... Não tem o pobre de direita, tem o rico de esquerda, que é aquele que mora em Santa Cecília, aqui em São Paulo, sabe? Que ganha 20, 30, 40 mil por mês. E que faz um doutorado em ciência política na USP por hobby, pra entender, pra analisar a sociedade. Pra pesquisar a sociedade. Doutorado por hobby. E aí fala, meu Deus, o problema do Brasil é a mestiçagem. É o estupro colonial, é a teoria de branqueamento. Agora vocês pardos,

vão ter que passar a se identificar como negro para a luta antirracista. Aí o pardo fala, mas a minha mãe é branca. O que eu faço agora? Mãe, desculpa, você é branca, mas pela luta agora eu sou negra. E a mãe, assim, desculpa por atrapalhar, por gerar a sua vida e agora ser excluída da conta. Entendeu? Então, tipo, o rico de esquerda, ele só vê essas pautas mais simbólicas, que a gente chama de pós-materialistas. Porque as pautas materialistas que estão ali no dia a dia da pessoa, o transporte,

a saúde, a educação, a alimentação. Isso aquela pessoa já tem. Essa pessoa não precisa pensar nisso. Que loucura. Responde objetivamente aqui. Eu ouvi você falando, eu tenho pavor do neoliberalismo. O que é neoliberalismo? Explica para as pessoas. E por que você tem tanto pavor? Perfeito. Porque quando ele falou antes, eu fiquei pensando também. É tão difícil da gente encontrar pessoas que compreendam o conceito. Exatamente. Então, o que é e por que você tem tanto pavor?

Neoliberalismo é um conceito muito amplo e ele pode ser definido de diversas formas. Tem um pedaço dele, uma dimensão dele que é econômica, que é você pensar na economia. O que eram os liberais lá no início? Eles criticavam o Estado monárquico absolutista. Então tinha que ter menos Estado. O poder tinha que ser distribuído nas mãos de outras pessoas. Esse neoliberalismo é transpor essa lógica do Estado ser um problema, mas agora não tem Estado monárquico.

Então é preciso que o Estado corte gastos para que os recursos financeiros estejam disponíveis nas mãos das pessoas. Mas isso não é um liberal? Por que é um neoliberal? É um neoliberal porque o liberalismo clássico não queria destruir o Estado. O neoliberalismo quer reduzir, ele quer transformar o Estado em uma coisa acessória, em uma coisa estritamente burocrática.

Não é para construir as grandes coisas, tipo estrada. Pessoas não vão conseguir construir estradas. Então, o que eu entendia era, são as grandes questões de infraestrutura, segurança e bem-estar social, entre aspas, ficam na mão do Estado. Isso é esquerda, isso é Estado bem-estar social, esquerda nacionalista. O neoliberalismo não está preocupado com políticas públicas, porque ele acha que o recurso vai ser melhor

administrado na iniciativa privada. Inclusive serviços essenciais. Mas sabe, ninguém se diz neoliberal. É isso. Se ninguém se diz... Porque se tornou uma acusação moral também. Eu sou acusado de ser neoliberal. Vocês provavelmente também. Ah, daí para baixo. Mas a questão é ser... Isso aí é a dimensão econômica. Aí tem diversas... Alguém vai definir o neoliberalismo com um grau maior ou menor de intervenção. Ok. Mas neoliberalismo também é uma racionalidade

racionalidade política. Aí é Marilena Schaui. Aí é o Andy Brown. Marilena Schaui é... Neoliberal. Não, é politicamente neoliberal. Não, ela produz... Ah, sim. Eu odeio a classe média. Ela que chama o neoliberalismo de racionalidade política. Entendi. Aí é outra história. Aí é você formular as políticas públicas visando o... colocando o indivíduo no centro. Porque o neoliberalismo

neoliberalismo é o esvaziamento da ideia do coletivo e o culto à ideia do eu, do individual. Então, por exemplo, políticas que visam desburocratizar os direitos trabalhistas são tidas como neoliberais porque é sempre um discurso bonito no início, é para dar mais poder para o trabalhador, é para o trabalhador poder negociar o seu horário com o patrão. A uberização é um outro fenômeno dessa economia neoliberal em que o

vira um empreendedor de si mesmo e ele passa a atuar. Então, tem ali uns benefícios imediatos, principalmente quando você pensa nos problemas do Brasil, lidar com o patrão, certos encargos trabalhistas que podem ser ultrapassados, mas... Uma renda muito pequena. É, e muitos impostos e tudo mais. Então, esse trabalhador pode enxergar isso com benefícios, pode ter seus benefícios, mas também ele fica desprotegido,

sobre isso, mostrando que os uberizados, eles têm muito menos tempo com a família, porque eles trabalham, eles não têm horário, eles vão ganhando, ganhando. A vida é dura. É lógico que eu tô empreendedor mesmo. A vida é dura. Então ele trabalha ali 15 horas por dia, nem vê o filho. Meu filho foi, quando eu saí, tava dormindo, quando eu voltei já tava dormindo também. Então, tipo, isso cria outros problemas. Só que aí, a esquerda é muito crítica do neoliberalismo com razão, mas aí o que fazer com isso? Achar que esses uberizados querem um engessamento

via direitos trabalhistas, as pesquisas também estão mostrando que eles não querem. Parte deles não querem. Então, organizar... Primeiro que não tem instituição de mediação coletiva. Quem é a mediação coletiva? Não tem sindicato, não tem nada. É cada um por si. O neoliberalismo eliminou as instituições de mediação coletiva. Então, é uma racionalidade política que tem ali, que parte da economia, mas que adentra sobre todos os meios da vida. E você tem raiva porque justamente mina essa ideia de coletivo. Mina.

a coletividade, mina o projeto coletivo, que não é só de esquerda. Isso criou um problema para a direita mais nacionalista também. Porque não tem como se unir com nada, sabe? Quem é a instituição de mediação coletiva? O Nicolas Ferreira, a Erika Hilton, o Lula, o Bolsonaro. Os indivíduos viraram concentradores. Eles são a própria instituição. Existe partido, né? É, os partidos são... Sei lá, você aluga um partido porque eu sou o partido. Ou então coisas ainda mais absurdo.

tratas, o Brasil é o meu partido. Não tem, gente. Isso é tudo discurso na materialidade. Transformar aquele desejo de mudança coletiva precisa ter ali uma engrenagem institucional que não existe mais, sabe? Então é nesse sentido. Agora, voltar a isso, refundar isso é um desafio imenso. É possível? Bom, o Marx diria que é possível. Mas aí você tem que acabar com tudo.

Tem que zerar. Bomba atômica, zero jogo, zero game e volta. Eu realmente não tenho essa resposta. Eu sei que tem gente aí propondo caminhos. Eu ainda não cheguei nessa página. Mas nós estamos falando de uma revolução? Não. Poderíamos estar falando, mas a revolução é uma religião, né? Evolução é religião. Eu adoro a ideia da revolução. Vamos quebrar tudo aqui. Acabou tudo. E o dia seguinte? Quem começa de novo?

tão bom aqui a nossa revolução, você falar então, mas eu queria que fosse assim. Mas o Gabriel quer assim. Mas como vocês me colocaram como líder revolucionário nesse estado agora socialista, eu sou Robespierre e vou cortar a cabeça de vocês, porque vocês estão atrapalhando o projeto coletivo da revolução. E aí? Eu não quero arcar com isso. Por isso você fala que você é muito desconfiado do ser humano. Muito. Mas a gente depende do ser humano, né? Eu tô tentando escrever sobre um conceito que é filosoficamente polêmico, que é

natureza humana. O que é a natureza humana? Sobrevivência. Sobrevivência. Defender o meu. Eu tenho plena convicção, já falei muito disso com o Vidal. O melhor sistema de governo que pode existir é a ditadura na qual eu sou o ditador. E ele pensa a mesma coisa. Só que aí, com ele sendo o ditador. Isso é próximo do meu conceito de natureza humana. Eu imaginei. Por isso que eu trouxe esse exemplo. Pra mim, natureza humana está no desejo

ser servido. Esse é o problema. Apoio mil por cento. O problema do ser humano é querer ser servido. O problema do comunismo é o horizonte de e aí? Mas eu quero alguém pra limpar minha casa. E pra ter alguém pra limpar minha casa, eu preciso ter mais dinheiro pra poder pagar essa pessoa. Mas eu também quero viajar pra Dubai, o salário dela, os encargos estão muito altos. Será que eu consigo abaixar de alguma forma? Opa! Já não sou tão socialista mais.

Outra coisa que me incomoda no discurso dos comunistas... Por isso que te irrita tanto teus compadres de ideologia. Outra coisa que me incomoda muito no discurso comunista é o seguinte. Sabe, você tem um iPhone. Socialista de iPhone, aí o discurso já tá pronto. Não. Eu quero que todos tenham acesso. Eu luto para que todos tenham. Mas todos não têm. Quem tem é você. Não vai ter revolução. Você tá se blindando moralmente dos seus privilégios via discurso político. Só isso. Você vai morrer sem revolução. Então, tipo,

isso é um problema enorme, sabe? Porque a única forma de fazer o pobre ter mais acesso a isso é reforma no capitalismo. Reforma você não aceita, porque aí a gente não negocia com o neoliberal, o Lula que se vende para os grandes capitalistas. Esse é o discurso. Mas os seus privilégios, você que viaja para fora do Brasil com seus apetrechos de última geração, com suas bolsas de grife de 20 mil reais, não. Eu luto para que todos tenham. Isso é uma safadeza sem fim.

que precisa ser assumida pelas pessoas de esquerda. Dizer, olha, eu tenho mesmo, trabalhei e consegui comprar. Infelizmente, a maior parte das pessoas não consegue. Nós precisamos achar um jeito disso aqui dar certo. E não é via revolução. Para de se esconder atrás da revolução para blindar os seus privilégios. Seria os projetos, por exemplo, muito mal comparando, porque eu não estou comparando ter um celular com educação, mas são as políticas de inclusão. Então, se você cria políticas sociais

pessoas, ou como você fala, eu sou uma pessoa que cresceu e se desenvolveu pelo seu mérito, sem falar meritocracia, pelo seu mérito, pela sua busca no ensino público e pode crescer o PUC, o FMG, USP, por conta de políticas de inclusão. Sem elas não teria nem saído de casa. E é sobre isso a esquerda, era o fim das contas. Sim, sobre essa esquerda reformista, trabalhista, desenvolvista,

Exato, a que você defende. É, eu chamo de esquerda nacionalista nos termos do Christian Lynch. Mas essas políticas públicas são o que a esquerda melhor produziu no Brasil. E eu as defendo fortemente. E por mais que o Lula tenha descambado para a inclusão, pelo consumo, pela sobrevivência na estrutura do poder, o PT, etc. As políticas ficam. Eu acho que elas são a parte importante do governo do PT.

políticas públicas desde que eu nasci, sabe? Você não tinha luz? Luz em casa. Até o ano 2000. 2001 chegou o primeiro transformador. Aquela história que eu falo toda hora de Timon, né? Cara, eu nasci em 95. A primeira rede de transformador de energia foi em 2001 que chegou lá na casa dos meus pais. Espírito Santo, gente. Ele não tá falando de rincões, né? É, rincões do norte brasileiro. Espírito Santo. Pois é. Sudeste. Mas isso é impressionante. Minas, Espírito Santo.

interiorzão. Cara, até hoje, Espírito Santo não tem, mas Minas, eu sei que ainda, uns cantões aí do Vale de Equitão ainda faltam. Falta chegar o luz pra todos, sabe? Esse Brasil é muito desigual. E ele vai ser superado com políticas públicas. E aí, entrou energia elétrica, depois, minha família foi usuária do Bolsa Família durante a minha infância, adolescência, adolescência já não, mas na infância toda. Então, tipo assim, e o Bolsa Família, ele tinha uma, ainda tem essa regra, né, que as crianças precisam estar,

matriculadas na escola. No interior, gente, não é tão comum. O conselho tutelar, ninguém repara isso. Se o menino sair da escola, até descobrir que saiu, já passou anos. Tanto que o meu irmão, por exemplo, meu irmão mais velho, ele parou de estudar. Quando ele saiu da oitava série, agora é nono ano que fala, né? Saiu do nono ano, eu quero mais. E os meus pais não se importaram. Entendeu? É, eu vou trabalhar. Porque é um hábito, vou trabalhar.

Era assim, meus pais fizeram isso, meu irmão fez isso. Então, tipo assim, o Bolsa

meio que incentiva as famílias a manter os filhos na escola. Claro que aqui no centro de São Paulo isso não faz diferença, mas no interior isso significa terminar o ensino médio. Sabe? Isso é muito sério. Então, eu vou pra escola e era muito longe, era oito quilômetros pra andar. Então, tipo assim, era muito longe. Então, o incentivo pra você parar de estudar era muito forte. E aí, depois, quando eu tava na adolescência, que botaram o ônibus escolar a rodar, né?

Depois de muito tempo, que é questão de prefeitura, tem política nacional, política municipal,

tantos dramas, né? E aí, depois, quando eu vou pra Belo Horizonte, eu ganho ProUni 100% e vou estudar na PUC. E aí a política pública, esse é o problema, cara. As políticas, e aí a crítica que eu faço ao PT, porque isso caiu no colo dele. Não adianta dar o acesso, e aí? O resto? Não adianta dar o acesso, mas aí eu estou do lado dos comunistas na crítica quando ele se vende muito pro mercado. Por exemplo, o ProUni virou um negócio pra diversas

diversos grupos educacionais que não oferecem o ensino de qualidade. Então, são as famosas unisquinas. Se eu tivesse me formado por uma unisquina, eu não teria tido um... Cara, na geografia, eu me formei na geografia na PUC. A gente desenvolvia trabalhos de pesquisa desde o primeiro semestre, mini TCCs. Isso é uma característica da PUC Minas, né? A geografia da PUC Minas, que é uma das melhores geografias do Brasil. Com um professor doutor sentado com você semanalmente,

falando, mas e aí, você foi lá, você catou, como é que foi? Isso é uma educação fenomenal. Eu sou fruto dessa educação de qualidade que o ProUni me proporcionou. Mas o coleguinha que fez ProUni na Uni Esquina, que fez online, que não participou, que o orientador ele nunca nem viu face a face, como é que ele vai passar no mestrado na UFMG depois? Como é que ele vai passar no doutorado na USP depois? Sabe, a base da educação, a educação básica, a primeira graduação, ela precisa ser de qualidade.

cria o quê? Um monte de diplomados que não conseguem... Se inserir, né? É, não conseguem mobilidade social. Porque a classe média alta de São Paulo, do Rio, de BH, das grandes cidades do Brasil, de Brasília, Porto Alegre, o que acontece? Eu sempre vou estudar mesmo no Mackenzie, eu vou estudar na PUC, eu vou estudar mesmo. E aí, meu tio me deu emprego, a minha vida anda. Agora, eu que vim lá da roça, a minha vida não andaria pro lado nenhum. Eu não conhecia ninguém, então...

em Belo Horizonte, né? Nós, como vocês sabem. De pesquisa. Mas é isso, você teve a facilidade de ter alguma ajuda. Cara, se não tivesse... E aí? Minha família era muito pobre, então não tinha como pagar aluguel pra mim em Belo Horizonte. Eu tinha 19, 20 anos quando eu fui pro BH. Então, eu tinha um tio em Belo Horizonte, irmão do meu pai, que eu tenho muito carinho, muita gratidão por eles. E era engraçado que ele também tava fazendo uma mudança profissional na vida dele, que eles são de BH mesmo, mas ele tava indo morar no Espírito Santo. E aí as filhas dele,

que são mais ou menos da minha idade, ficaram. E aí eu fui morar com elas e fiquei ali muitos anos. Quase todos os anos que eu vim, seis anos, morei naquele apartamento. Depois, na pandemia, quando elas foram se abrigar, ficar mais no interior com os pais delas, que eles já estavam morando em outra cidade, eu fiquei em Belo Horizonte naquele apartamento. Então, assim, sem aquilo ali, eu não conseguiria. É isso. Cara, o pobre no Brasil, ele vai se agarrando. Aí a gente entra na questão da meritocracia.

um termo ruim. É mérito a palavra. O mérito é a oportunidade que eu recebi, meu amor, acabou. Eu aproveitei. Acabou. Eu vou estudar, eu vou, eu era o primeiro a chegar, era o último a sair, eu lia tudo, eu não queria nem saber, nunca me envolvi com militâncias que iam fazer perder o meu tempo, tipo o pessoal do DCE, sabe? Era gente rica! O DCE é gente rica! Não é gente pobre. Meu amor, pobre, ah, mas a reunião do DCE vai ser oito e meia da noite.

Ih, mas termina seis horas. O que eu vou fazer de seis horas até oito e meia da noite? Eu tenho que pegar o busão até o

chegar em Itaquera, quem é gente DC é gente rica. Movimento social da USP hoje é tudo filhinho de papai. Eu sinto vergonha quando eu vejo um pobre envolvido nisso, que eu olho e falo assim, ah, meu querido, esse povo não vai te dar nada. Vai atrapalhar, filho. Depois, quando terminar o rolê, como acontecer comigo, eles vão pro restaurante chique e você não vai poder nem pagar um prato de comida lá. Aí você vai perceber a luta de classes não é contra a sua própria família que eles estão te ensinando, que o problema é o conservadorismo exagerado da sua família.

O problema são os privilégios que estão sendo blindados em um discurso político que eles estão propagando. Então, para mim, a hipocrisia mor da universidade pública. Que o rico faz a universidade pública e o pobre tem que fazer a Unisquina via ProUni. Então, a reforma educacional desse país precisa começar a tesourar esses grupos educacionais que não estão oferecendo uma educação de qualidade. Porque não adianta o pobre ter um diploma.

Ah, eu tenho um diploma. E o dinheiro? E a renda? E a mobilidade social? Não está alcançando por quê?

Porque esse ensino é uma porcaria, porque não tem rede, você tá se formando numa coisa que nem tem mercado mais pra isso, o Estado precisa ser organizado. Não pode ser apenas uma questão de orgulho. Ah, eu sou o primeiro que fez a universidade da minha família como eu fiz, sabe? Tipo, que bom. E você precisa se converter em renda. Se não se converter, não tem discurso moral que supere quando a água tá batendo na bunda e o aluguel tá chegando e a dispensa tá esvaziando. Então, assim, eu sou muito...

esquerda nacionalista. O próprio Ciro Gomes, que vão me chamar de Ciro Gomes daqui a pouco. PND na veia. O sábio... Sábio. Sábio. Essa confusão acontece sério. Na Espanha seria. Sábio. Ainda falando de universidade, principalmente das públicas e de academia de modo geral, uma coisa que você aponta bastante nas suas redes é a sua hostilidade cultural da nossa elite acadêmica

intelectual para com os cristãos. Eu acho que ela existe de fato, mas você acha que ela é uma hostilidade real do ponto de vista da arrogância, do preconceito? Ou ela é mais um choque entre cosmovisões muito distintas e aí inviabiliza qualquer tipo de interação? Tem a cosmovisão também, mas os evangelhos também são bem chatos. Tem extensos pra ser admitido também. Eu tenho lugar de falar!

Em dois caminhos, né? Pelos presbiterianos e pelo... Super tradicional, histórico, calvino, blá, blá, blá, reforma, né? Reformado, depois hiper neopentecostal da Lagoinha. Mas na minha época a Lagoinha não era tão neopentecostal ainda não. Tava mais congregacional ainda. Agora que deu uma descambada pra essas coisas todas. Mas assim, essa confusão que acontece... São visões diferentes, mas o que me chateia é que tem tanta coisa em comum pra ser colocada, sabe?

É, porque a universidade não... Não sei o que você pensa sobre isso, mas eu não vejo a universidade como um ambiente que deva ser necessariamente 100% secular. Claro que não. As pessoas não são. É isso. Como é que eu vou me desvincular daquilo que eu sou? E o princípio da universidade é para ter um debate. É para todo mundo ir com as suas... É o universo da população. E grandes universidades do mundo nasceram com a reforma protestante. Bom, você fez pouco. Com calvinismo. Eu fiz pouco, né?

Rezava o pai, nossa, brincadeira. Meu pai, às vezes, PUC teve a outra religião. Eu tive. Homem é o fenômeno religioso na PUC-Rio. Mas eu adorava, né? Eu sempre gostei de dizer o fenômeno religioso, tanto que é isso que eu estudo, assim, academicamente. Mas eu acho que tem muitos preconceitos, sabe? Tipo, o pessoal acadêmico, eu tenho um... Eu que estudo ativismo político evangélico há alguns anos, quase todos os autores que eu leio e admiro demais e tudo mais, quando eu vou conversar com eles, esses pesquisadores mais novos,

estão debatendo os mesmos autores que eu. Eu digo Taylor Boas, Paul Preston, Ronaldo de Almeida, Ricardo Mariano. Bruno Marrone. O cânone do ativismo político evangélico no Brasil. Tipo, nós debatemos os mesmos autores. Mas eu lembro quando eu estava na UFMG, eu conversava com um colega, ele pesquisava um tema parecido com o meu, dois colegas. Falei, nossa, que legal. E aí, mas como é que é o seu trabalho? Então, eu tenho uma base de dados aqui, do LAPOP,

e de não sei quem. E aí eu vou rodar nessa nova metodologia maravilhosa aqui que tá super em alta, que vem de Harvard e não sei de onde. Aí eu pego aqui, jogo lá, aí eu criei essa seta aqui. Eu tenho horror a pesquisa quantitativa com seta. Eu tenho horror a gráfico, né? E aí tipo, aí vem de cá, vem de cá. Aí eu percebi que a minha variável dependente e a variável dependente... Mas tá fazendo matemático? E a minha pesquisa tá pronta. Eu falei assim, ah, legal, mas você chegou a visitar alguma igreja?

Não, eu nunca entrei dentro de uma igreja. É porque tem o boiceto e o boiceta. Entendeu? Esse é o boiceta. Eu falei assim, como é que você está falando de ativismo político evangélico se você nunca pisou na igreja? Está tudo bem, não precisa ir. É possível fazer uma pesquisa sem nunca entrar. Você não precisa interagir com o seu objeto. Eu não estou romantizando aqui uma visão etnográfica nem nada. Mas tipo assim, eu ficava encucado com isso porque você está falando de pessoas. Comportamento. É possível fazer uma pesquisa sobre a comunidade evangélica.

numa igreja, mas é impossível fazer uma boa pesquisa sobre uma comunidade evangélica. Falar de grupos sociais sem parte qualitativa é muito... Às vezes a parte qualitativa não precisa nem aparecer na sua tese, na sua dissertação, mas ela precisa aparecer numa conversa, numa sensibilidade. E aí entrou, nos últimos anos no Brasil, a gente adora teorias americanas para explicar o Brasil. É para falar de raça, para falar de gênero.

E quanto pior, melhor. E para falar de religião também. Nos Estados Unidos, dominou nos últimos anos uma coisa chamada teologia do domínio.

Que é a ideia de que os evangelhos estão se unindo politicamente, pensando estrategicamente sete, que eles chamam de sete montes, né? O sete é na comunicação, é na mídia, é não sei o quê. Então eles adentram como uma visão meio conspiratória. Ai, que bom que são os evangélicos. Vão parar de falar em lobby sionista. Vão me dar um tempo. Não vão, não vão. Não vão, esquece. Ah, mas não é a mesma coisa. Entendeu? Muitos acadêmicos no Brasil se seduziram. Isso é uma coisa que eu estou tentando.

O grande bate polêmico daqui a uns anos, quando eu publicar, vai ser esse. Porque eu acho que os evangélicos brasileiros não bebem tanto da teologia do domínio, não vivem tanto da teologia do domínio quanto essas pesquisas presumem. Até porque a gente tem mais problema no Brasil real. Olha o tamanho do nosso país. Totalmente. Gente, os evangélicos americanos são a classe média americana. É isso. Acorda. Sabe, pessoas que estão ali já condotados de toda uma estrutura. Os evangélicos brasileiros estão... Ai, o leite acabou, e agora? É isso.

Ah, eu vou dominar a polêmica. Gente, acorda. Ah, mas o Malafa... Aí, qual o problema? Outro problema das pesquisas. Você não consegue falar da população evangélica analisando elites políticas evangélicas. Claro que não! Não adianta você pensar o Malafaia, o André Valadão, a Aline Barros, os grandes, os famosos, e achar que a comunidade evangélica é aquilo ali. Ou então, querer falar... Só pensar o evangélico como uma categoria ampla. O evangélico é um ser. Gente, tem igrejas históricas, tem igrejas pentecostais,

neopentecostais. Tem pessoas que não detestam a política, que acham que a política é o símbolo da corrupção do ser humano, que tem que se afastar dela. Tem pessoas que já acham que tem que participar mais. Tem pastores que não aceitam política impúlpito. Já tem pastores que adoram política impúlpito. Pastores progressistas, inclusive. Tem de tudo dentro do movimento evangélico. Você tem vontade de resgatar cristãos para a esquerda verdadeira?

A esquerda que você acredita? Existe alguma igreja? A gente sabe que tem religiosos com essa linha.

Mas existe alguma igreja, alguma organização hoje, cristã, que pense à esquerda nos princípios de Cristo mesmo? Ah, como eu disse no começo, eu não falo nome de instituição nenhuma. Não, eu quero saber se tem. Existe alguma? Pode existir. Eu poderia até falar o nome de um movimento aí que eu achei interessante, que é um movimento interdenominacional de cristãos trabalhistas. Existem esses movimentos, até mais de esquerda,

como o deputado do PSOL, né? Pastor Henrique Vieira. Mas aí ele tá num campo bastante minoritário dentro do movimento evangélico, né? Que são esses evangélicos bem cosmopolitas. Sim. Mas tipo... Coitado, acho ele minoritário pra estar no PSOL e minoritário pra ser pastor. É, ele é minoritário lá do censo, assim. Sim. E a própria denominação da igreja, ele realiza casamentos entre homossexuais. Então é uma igreja bem progressista, né?

Que foge do escopo evangélico, né? Que a gente pensa. Então, assim, existem evangélicos

são muitos, né? E essas figuras como Malafaia, por exemplo, eles tentam unificar o movimento evangélico, porque o movimento evangélico, essa palavra evangélico, ela surge ali, ela ganha força na constituinte, na virada da ditadura militar, quando vai se formar a constituição, é que alguns evangélicos, lideranças, começam a temer, primeiro, que a hegemonia católica pudesse assediar os evangélicos de alguma forma ali na constituição, no refundamento,

da democracia, ou que as políticas, sei lá, hiper-progressistas, o direito ao aborto e tudo mais pudesse avançar na Constituição, aí os evangélicos se unem e naquele momento a mídia começa a falar, como é que nós vamos falar? Protestantes? Mas os pentecostais não tem nada de protestantes. Aí começa, evangélico, é uma categoria mais unificadora, política, nasce como meio categoria política. Naquele momento, principalmente os protestantes históricos, luteranos, presbiterianos, implicaram, falaram, peraí, eu não sou evangélico.

eu sou reformado, ou eu sou presbiteriano, eu sou luterano. Essa categoria aí está falando que nós somos o quê? Somos a mesma coisa que é universal? Eu não aceito. Então criou também uma cisão dentro do movimento evangélico. Só que depois quando veio grandes gravadoras e editoras, estou falando de MK Music, que lançou Cassiane, lançou Aline Barros, lançou os grandes ícones góspios que eu conheço todos, óbvio, já cantei todos. E a central góspio do Malafaia, são editoras que começaram a publicar livros, lançar CD, artistas, criar eventos, cruzadas pelo Brasil.

E aí agora não é mais só política, é cultura. Evangélica é uma massa cultural. E eu já cresci nesse ambiente. Eu comecei a formar a minha mente, nasci em 95, dos anos 2000 pra frente. Eu olhava pra Aline Barros, pra Bruna Carla, e eu não queria nem saber qual é a igreja dela. Ela é evangélica, então já é cultura. Mas eu sinto que a minha mãe, por exemplo, por ter nascido presbiteriana lá nos anos 60, ela não atravessa culturalmente assim. Ela já consegue falar assim, não, sou presbiteriana,

os fundamentos do que é ser cristã, na minha visão de mundo. Então eu percebo que as novas gerações é tudo worship, sabe? Eu nem sei de que igreja é a Gabriela Rocha, eu nem sei de que igreja ela é, mas eu conheço ela, eu admiro ela, ela é uma mulher de Deus, eu admiro muito, eu quero ser como ela. Nem sei que igreja ela é, quem é o pastor dela, não me interessa muito mais isso. Então, meio que diluiu um pouco as tretas. Então, o ser evangélico é uma clivagem política para a ciência política, mas também

é uma clivagem cultural para a sociologia. Então, a coisa é bem mais densa e multifacetada do que as vãs filosofias da teoria do domínio sugerem. Basicamente, diante disso, a gente vê um crescimento constante do número de evangélicos no país, por mais que a redução seja... E o bolsonarismo atrapalhou, também tem essa teoria. Atrapalhou o quê? No crescimento? No crescimento evangélico. Isso é muito interessante.

Você percebe que quando ia sair, a gente tinha a previsão que em 2010, aconteceu o início de 2010, os evangélicos chegaram a ser memória de 22% da população. As projeções mostraram, meu Deus, é o evangelistão, acabou. Acabou, é católico, acabou. É verdade, a projeção era 35%. E aí, tipo, chegou agora, deu uma segurada. 2018 pra cá, muitos evangélicos passaram a se identificar como desigrejados. Eu passei pela fase desigrejado e depois agora eu já sou,

Um cristão absolutamente tão protestante, um cristão relativista. Eu sou um cristão relativista. Então, religiosamente, eu sou cosmopolita, mas politicamente bem nacionalista. Mas, tipo, eu... Muitos estão... Desiludiram. Falaram, nossa, mas o Bolsonaro é tão agressivo. Essa gente fala... Não é todo mundo. Muita gente compra esse discurso agressivo. Mas muita gente também, a ficha falou assim, ai, quer saber? Eu não concordo com isso.

Eu não concordo com o Bolsonaro. Eu, gente, eu saí da... Quando a minha ficha caiu, evangélica e política, eu tava na graduação ainda, em 2019,

Bolsonaro ficava indo no púlpito da Lagoinha, eu cantava na Lagoinha. Eu era ministro de louvor na Lagoinha. Os olhos do pai, você é uma obra-prima. E aí o que aconteceu? Eu fiquei com vergonha. Porque eu sempre equilibrei muitos pratos. Quando eu chegava na faculdade, eu era conhecido como cantor evangélico, né? Na graduação. Eu era muito voltado pra igreja, muito voltado pra música naquele momento da minha vida. E eles falavam, você tá lá na Lagoinha, né? Nossa, Bolsonaro. Tipo assim,

Eu comecei a ficar com vergonha, porque eu falei assim, cara, naquele 2019, quando o Bolsonaro brigou com a Joyce, aquela confusão toda, quando desinui... E eu ficava assim, meu Deus, nem tinha chegado a pandemia ainda. Quando chegou a pandemia, fiquei com mais vergonha ainda. Eu falei, não, não é possível que eu vou ficar cantando na frente de uma igreja e ficar recebendo esses políticos que, ok, você pode, sendo evangélica, achar que o Bolsonaro tinha o melhor projeto político, mas os discursos deles são muito agressivos. Não casam com uma filosofia, né?

Os frutos do Espírito, queria até citar o versículo pra mostrar que eu sou crente mesmo, mas os frutos do Espírito, é Tiago, não sei, mas os frutos do Espírito que é a mansidão, o amor próprio, o domínio próprio, a amabilidade, aquilo que vai aparecer naquele que professa de Jesus e que vive o Espírito Santo, isso precisa aparecer na sua fala, no seu temperamento. Como é que eu vou achar que aquilo ali representa os evangelhos?

ele protege a família. O utilitarismo matou o Espírito Santo na igreja brasileira. É o utilitarismo político. Ele pegou os dons do Espírito e falou, não, mas isso aqui é qualquer coisa, gente. Agora, ele é sanguíneo, ele é fleumático, tá? Muito na moda do Evangelho falar isso. Ah, não, é o Malafaia, né? Não, é porque ele é sanguíneo, ele é fleumático. Não, é porque ele não tá cultivando os frutos do Espírito. Viu, Malafaia?

O discurso e o temperamento. É. Por assim dizer. Gente, você pode me falar a ideia que mais me irrita no mundo. Se eu sou um cristão, se eu tenho o Espírito Santo, eu vou falar assim. Ai, Deus me ajuda. Cecília, eu acho que você não tá certa. Eu acho que isso aí que você tá usando vai prejudicar... Agora... Mamadeira de piroca! Que isso, gente? Cadê o Espírito Santo? Aí é só política. Aí é só política. Aí o evangélico é só política. Não tem mais... Não tem a parte cultural. Mas a parte cultural também não é.

É o espírito, é mercado. Claro, né? Claro. Essas gravadoras e liberais ganharam horrores, até mesmo porque tem o discurso do mundo, né? Ouvir música do mundo. Eu passei por essa fase, né? Minha mãe me... Mãe, não tô te criticando, estamos em paz. Eu era muito emo. Minha mãe me convenceu um dia que eu tinha que jogar os meus CDs fora, os meus CDs do RBD fora, que era rebelde, né? Claro. E eu me convenci, eu quebrei o CD, falando, eu tô quebrando agora, toda rebeldeia.

quebrou. Não quebrou, deu tudo errado. Pelo contrário. Quando tentaram na minha infância expulsar o demônio, deu o homossexualismo e não saiu. Ele ficou. Não, ele entranhou, forçou mais ainda, gente. São tantos traumas que a gente passa no mundo evangélico, assim, sabe? O pessoal se passa muito. Isso é tudo falta de Deus. Aquilo que eles falam, aquilo que eles acusam é falta de Deus, é falta de... Gente, se você tá em comunhão com o sagrado, você não toma uma atitude

com o outro. Se você toma, ainda que seja na fala, você está em pecado. Malafaia, quando fala com agressividade ao falar de política, está em pecado. Mas você falou que o bolsonarismo travou o crescimento evangélico no Brasil. Eu adoro. Gente, com os evangélicos, eu gosto de bater nisso porque eles acham que eu vou render esse discurso. Total, não. Todo mundo tem que apanhar pra... A porrada democrática.

acredita muito nisso aqui no Viva News também. Mas o Bolsonaro, fazendo uma sequência lógica, se o bolsonarismo travou o crescimento evangélico, segurou o crescimento evangélico no Brasil... Isso é uma hipótese. Não só a minha, eu já vi outras pessoas dizendo isso. Eu não tenho dados pra isso, mas é mais uma hipótese assim, olha, a projeção era pra ser enorme. De 2018 pra cá, o negócio caiu. É, tem que ver se tem relação, né? Começou um outro fenômeno que eu também quero estudar. Estuda hipótese.

Que é o evangélico envergonhado. Agora eu tenho até vergonha de falar que eu sou evangélico, vão achar que eu sou igual fulano, sabe? Então tem isso também. Eu comecei como evangélico envergonhado, depois virei cristão relativista e agora sou nem sei o quê. Eu sou sábio demais. Agora eu sou sábio demais. Então tá, você não soube citar os versículos, tal, coisa. Eu sabia até pouco tempo. Mas a gente vai trazer pra você duas frases, dois nomes.

que dizer quem disse o quê, tá? Vamos ver. Temos duas pessoas nesse primeiro momento. Nancy Fraser, você já estudou muito, filósofa, e Lisa Simpson, dos Simpsons. Ah, sim, eu tô pensando, quem é Lisa Simpson? Não veio na minha mente de cara. Aconteceu comigo a mesma coisa. Aconteceu a mesma coisa. Quem disse o quê? A aliança entre o patriarcado e o capitalismo, que quer que sejamos obedientes, submissas e silenciais,

E a outra, deveríamos enfrentar as causas estruturais dos problemas sociais em vez de recorrer ao encarceramento e estabelecimentos prisionais superlotados. A primeira é a Lisa Simpson e a segunda é a Nancy Fraser. Errado. Não creio. É o contrário. Nancy Fraser disse, a aliança entre o patriarcado e o capitalismo... Caramba, isso tem muita cara do Simpson. Quer que sejamos obedientes, submissos e silenciosos. Chocado. E a segunda tem toda a vibe da Nancy Fraser. Não, é a Lisa Simpson.

Segundo, duas figuras, Avril Lavigne e Jesus. Olha, aí eu sou enciclopédia fortíssima de Avril Lavigne e de Jesus. Não posso errar, porque da Nancy, eu só li da redistribuição e reconhecimento. Tá. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. E o outro, sempre busquei maneiras de retribuir, pois creio que essa é uma responsabilidade que nos é confiada a todos. A primeira é de Jesus e a segunda é da Avril Lavigne.

Essa da Ávria eu nem conheço, mas a primeira é obviamente Jesus. Temos duas figuras agora. Clover, das três espinas demais. Adoro, você chorou atrás dos ícones da minha vida. E Pablo Vittar. Quem disse o quê? Depois de usar tamanho grande em tudo, decidi que ter um chapéu de tamanho grande não é problema nenhum. E é outra. A gente tem que lutar sim, todos os dias. Passar nosso blush e sair na rua. Cara, coisa do chapéu. Fala de novo, que frase esquisita. Tem um duplo sentido.

envolvido nisso? Fala de novo. Depois de usar tamanho grande em tudo, decidir que ter um chapéu de tamanho grande não é problema nenhum. E a outra? A gente tem que lutar sim, todos os dias. Passar nosso blush e sair na rua. Um é a Clover e o outro é a Pabllo Vittar. Não faço ideia. Vou me chutar que a primeira é a Clover e a segunda é a Pabllo. Acertou! Chapéu grande. É, porque a Clover tem um episódio de três espinhas de máscara que é sobre chapéus. Entendi.

Ela pode ter dito isso nesse episódio. Você tem a tatuagem da Clover? Tenho. Cadê? Você tem que me despirra. Tá ali. Ai, a irmã mais velha da Elisa Turnberry. Exatamente. Como é que era o nome dela? Debbie. Essa era rebelde mesmo. Eu vou encher esse braço de personagens disruptivos. Eu já recebi uma crítica dessas personagens. Sempre uma patricinha loira. Puta, as pessoas são chatas, né? Oi? As pessoas são chatas.

com você. Inclusive, aproveitando isso como gancho, Sávio, como a gente falou no início, eu acho que você tenta ocupar um espaço no debate público, dentro dos temas sobre os quais você fala, que a gente tenta também no jornalismo, que é um lugar de apresentar nuances para as pessoas, lembrá-las que não existe só um lado ou outro lado. Só bom, só ruim. Entre uma coisa e outra tem um monte de possibilidades

É um lugar meio anti-tribo, assim. Anti-militância. Anti-nicho. Mas, ao mesmo tempo, a gente, ao fazer isso, a gente acaba construindo um nicho. Sim. E você... Ai, eu me sinto muito nesse lugar. Porque você criou uma comunidade gigantesca online. E o Morro de Medes tem uma característica identitária também, sabe? Mas falando de coisas que irritam muito, eventualmente, os dois lados. Mas, mesmo assim, você estabeleceu aí o seu espaço.

A sua comunidade, a sua própria tribo que é anti-tribo. Como? Tem muito mais gente que pensa como a gente do que a gente pensa? É isso? Nossa! Cara, é complicado porque eu não tenho dados sobre a Gabriela Prioli. Cadê os dados, Monarca? Mas, tipo assim, eu não tenho... Eu não tenho dados porque eu tenho uma percepção muito limitada das minhas próprias... Isso! Porque, assim, toda vez que eu falo de uma assunto polêmico, eu posso ganhar mil seguidores

perco 5 mil. É sempre assim. Você mais ganha do que perde. Mais ganha do que perco. Porque, assim, teve um boom ali no ano passado que eu ganhei tantos e agora eles estão indo embora. Entendi. Porque, assim, eu percebo que tem vários nichos ainda. A galera não entende totalmente. Porque quando eu ganhei muita repercussão no início criticando os delírios identitários da esquerda, então veio muita gente de direita me seguindo achando que eu era o novo Nicolas Ferreira. Tá. Aí não foi. Não ocorreu.

Não era isso, sabe? E aí eu comecei a falar que a academia menospreza os evangélicos. Brotou o evangélico do chão pra me seguir achando que eu era agora um defensor de todas as pautas evangélicas modernas. Também não é isso. Aí eu comecei a falar que a esquerda é identitarista e esqueceu a luta de classes. Brotou o marxista do chão achando que eu era o grande encarnação do Lênin. E aí também não era isso. Aí eu comecei a criticar,

pautas específicas, como as pautas de gênero, do transativismo, aí surgiram muitas feministas, feministas radicais, que acharam que eu ia ser o advogado da matria. E eu também tenho críticas a fazer sobre uma certa dimensão identitária que o feminismo pode assumir a coisa do anti-homem. Então, eu sou o anti-tudo, gostei, anti-nicho, sabe? Então, assim, eu sou, eu costumo dizer assim, a despolarize-se, que é quase esses

que eu tento levar na minha vida, é uma mesa onde diferentes podem se sentar e podem sair dali mais convictos do que se sentaram, mas olhando pro outro com um olhar mais humanizado. E tirando a coisa de ele não quer me destruir. Ele não quer destruir minha família, ele não quer destruir, ele não quer calma. A coisa do ódio sai. É, e buscando construir pontes, projetos coletivos. Mas são 170 mil seguidores só no Instagram que você tem.

E isso não se converteu em grandes receitas financeiras ainda. Quanto a isso, eu não tenho a menor dúvida. A gente tá nessa mesma batalha, inclusive. As pessoas acham que o seguidor é sinônimo de riqueza. Gente, a viagem pra Dubai não veio ainda. Não, mas aí você tem que começar a fazer o quê? Se render o capitalismo, fazer publicidade no seu perfil. Exatamente. Que aí você começa a ganhar o cascarinho. Aí você mora ali. Já neguei um monte de coisa. Eu sou muito chato. Por quê? Ai, não gostei.

certas coisas esquisitas, sabe? Eu sou muito... Aí eu sou o filhinho da mamãe ainda. Eu tenho vergonha das pessoas acharem que eu estou fazendo por causa disso. E aí teve umas propostas, ela falou, ah, eu não vou fazer porque, tipo assim, era num momento tão decisivo, sabe? Que eu tava construindo, assim. E aí as pessoas falaram, olha lá, já está vendendo curso, olha lá, já está fazendo comercial pra marca é opressiva. Mas elas já te xingam horrores, meu filho.

Mas elas já te xingam, pelo menos fatura em cima disso. Mas eu tenho essa resistência.

Porque também, às vezes eu paro e falo, cara, eu quero lançar um livro. Mas aí você vê que ele é de esquerda, de verdade. Aí vem a essência. Mas eu vou usar. Quando eu ficar rico, eu falo assim, eu quero que todos tenham. Por isso eu acredito na revolução. Eu adorei quando ele falou, ah, eu comprei meu iPhone, mas é o de uma câmera só. Vocês viram isso, gente? Gente, porque era muito caro, pelo amor de Deus. É isso. Não pude ainda.

Mas eu quero um de 10 câmeras daqui a um dia, entendeu? Isso, todas aqui assim, em volta de tudo.

Eu não tenho problema com o capitalismo, assim, porque o pobre, pobre que veio de baixo, o sonho dele é consumir. Óbvio. É isso que essa esquerda rica não entende. A inclusão pelo consumo é negociar com o grande capitalista. Aí o comunista cai de pau em cima do Lula, cai de pau em cima do PT. Gente, o sonho do pobre é consumir, tá? O pobre não quer revolução, não. Ainda mais, fala pra mim, qualquer pessoa agora, cara, agora que eu, nossa, agora eu fiz mestrado, doutorado, agora eu quero conseguir,

uma fonte de renda boa. Agora eu vou conseguir. Agora vai ter revolução. Não. Não. Agora não. Você tá entendendo? A classe média é filha das políticas de inclusão. Essa classe média que está sendo nos últimos anos. Você vai jogar pra ela que agora vai ter revolução? Agora que eu vou poder aproveitar? Agora que eu tava curtindo a CBC? Aí a Marilena Chaui se estremece. A classe média que atrapalha a revolução. A classe média. É.

Diz a miserável. Por que no fim das contas o problema não é o consumir, né? É...

Eu acho que o problema não é o consumir, o problema não é o ter. O problema seria, é o que você falou, é o servir, é o explorar, é o subjugar, é o excluir. Mas se isso faz parte da natureza humana, a gente está fadado a um capitalismo eterno, então. Um capitalismo eterno... Considerando que na natureza humana vem esse nosso desejo de ser servido, que é mais do que servido, né? É, não, ser servido, é, é, ser servido.

o detentor de tudo, você não sistema menos... Mas o maior dono é servir, já dizia Jesus. Já diria Jesus. Mas que não fez teorias econômicas, nem sistemas de governo. Mas você pode vender o seu serviço, desde que seja de forma digna. E é preciso que haja uma lei que eu não possa explorar o seu serviço de todas as formas, de escravidão. É horrível, porque é extremamente filhinho de papai mimado, mas quando a pandemia nos trancou em casa,

Eu tive que lavar pela primeira vez na vida um banheiro, eu repensei toda a lógica de salário das funcionárias domésticas do Brasil, assim, na minha cabeça. Não é possível que elas ganhem tão pouco. Eu tive que lavar um banheiro. Coitado. É uma dor. Eu não sei como você conseguiu. Ah, uma coisa horrível. Mas sabe? É isso. Você tem que viver determinadas coisas. É isso mesmo. E conhecer as coisas, né? Eu fiz meu TCC sobre farinha de mandioca. Uma longa história.

Isso. Aí fui até o interior de Pará. O meu grupo e tal, fazendo isso aqui. Eu amo as pessoas que viajam pelo TCC. Você não entendeu? É outra história. SPM e tal. Aí tava com os meus colegas gravando. Eu tava me achando assim. Era documentário. Era um documentário. Jornalismo? Jornalismo. Achando que eu era o próprio, sei lá, documentarista que você gosta estranho. Ah não, isso aí foi bom. Mas enfim.

essas plantações, assim, e tava muito impressionado com os equipamentos e tal. Aí eu virei pra ele e falei, porra aí, muito legal, né? Você vai sair no vídeo e tal. Vai ser tipo cinema, assim. Aí ele virou pra mim e falou, o que é cinema? E aí também foi outra coisa que, pô, moleque de oito anos ali, ele não tinha tido contato sequer com a palavra, quer dizer, a gente vive num país que é muito grande, com um abismo entre nós, né? É difícil também.

e fui ter acesso à luz elétrica nos anos 2000, cara. A gente tá falando do sábio que tá aqui agora com a gente com o iPhone na mão. Eu venci no capitalismo. Que vai fazer 31 anos agora. Ou seja, da tua vida inteira são pouco mais de duas décadas só que você tem acesso à energia elétrica. E o Wi-Fi a partir de 2016. Quando você foi pra Belo Horizonte. É isso? Não tinha internet Wi-Fi. Nem pegava sinal de telefone direito lá ainda. É muito louco.

Mas enfim, você tem mais... Não, não, não. Era só essa reflexão mesmo sobre a partir do momento que o Sávio conceitua pra ele. Ninguém tá cagando regra aqui, tá? Vou falar assim, mas que literatura você está usando? Você sabe que na entrevista com o professor Marco Antônio Vila eu citei a Beatriz, porque ele tava falando sobre pardos e tal. Eu falei, puxa, tem uma menina que é sensacional, que tá conceituando

atitude na academia, não sei o que, ele super se interessou. O que eu recebi de mensagem de gente dizendo assim, procurei por artigos em revistas científicas, não encontrei uma linha dessa Beatriz. Agora ela tem um livro dela, e agora que ela tem um livro eles falam, mas o TCC dela é um livro. Agora o livro também, com a Beatriz é o seguinte, mas não tem mestrado, mas ao mesmo tempo celebram o fato dela ter sido expulsa do mestrado.

É o lugar de cálice. Você não tem, não pode ter. Porque você não é intelectual. E é muito impressionante porque, no fim, é só um CQD de tudo que ela fala, né? O CQD é como queríamos demonstrar. Exatamente. Tudo que ela denuncia nos estudos, nas questões dela, é o que ela vive direto. E vou dizer mais, o que eu disse na entrevista pra ela, e repito, assim, eu, na minha visão de pessoa, Fiuk, branca,

privilegiada. O livro da Beatriz, na minha visão, era um livro pra escola. Porque ela não fez um trabalho... A Beatriz é impressionante. Eu sou mais ousado. Eu falo assim, Caio Prado Júnior, Gilberto Freire, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro, Beatriz Bueno. Essa linha que eu faço. O trabalho dela,

É claro que ela tá maturando a obra dela, ainda vai lançar grandes trabalhos. Mas o que ela faz é falar desses 40 anos de história proibida, sabe? De 30 anos, que o Darcy Ribeiro foi o último, digamos. E trazendo dados, né? Sim. E trazendo dados, trazendo números. E numa dimensão racial, numa dimensão sociológica, numa dimensão psicológica. Uma coisa impressionante. Ela fala de tudo, né? E nessa linha de falar do que a gente não pode conversar. Porque a gente tá vivendo um ano de loucura geopolítica

Pensando no mundo. E eu, sempre que eu tenho oportunidade, eu gosto de lembrar que boa parte dos problemas migratórios que a gente tem ao redor do mundo se dão da maneira como eles se dão, porque o debate sobre migração foi interditado a partir do momento em que negar a entrada de alguém a um país te faz automaticamente um fascista, um párea, um demônio encarnado na Terra. E aí a gente vê muito do que a gente tem visto, principalmente na Europa.

Era só a gente conversar a respeito. Não estou dizendo que não é para deixar entrar. Eu acho que o que a Beatriz faz, o que você também faz quando você propõe o Despolarize, é mostrar assim, gente, a gente não quer criar mais um problema. A gente quer trazer uma solução. A parditude não significa que você quer criar o problema dos pardos. Não, você quer mostrar que existe uma coisa e que a gente pode só amenizar o discurso. A gente consegue caminhar,

Não é preto e branco, tem o pardo. Não é esquerda e a direita. Existe uma ponte. E que a luta antirracista não tem que se esconder atrás de uma falsa unificação de categorias, sabe? Tipo, a luta antirracista não é binária. Não é aquela lógica norte-americana. Várias lutas não são binárias, né? Não é assim, sabe? O Brasil é muito mais complexo, sabe? Muito complexo para a gente simplificar as questões.

foi interreditado nos últimos anos no Brasil. Uma coisa opressora, ridícula, é constrangedor. E a maior parte da população percebe e fala, ai, dá licença, ninguém participa. Aí quando chega alguém que não vem de lá, a Beatriz não vai pro povão e fala, o movimento negro não vale nada. Ela sai de dentro do movimento negro pra falar, olha, essa nuance aqui da mestiçagem, ela precisa ser rediscutida. Tem que estar em algum lugar. E ela fala isso desde os 20 anos, 20 e poucos anos, cara.

E ela foi oprimida de todas as formas. Aí tem o recorte de raça, o recorte de gênero. Porque eu não sofro... Assista a entrevista com ela. Eu não sofro as mesmas coisas que a Beatriz sofre. E tem o recorte de raça, o recorte de gênero aí também. Entendeu? Então, tipo assim... Você nunca é chamada de... De? Eu tava pensando no... Você é sempre extrema-direita, né? Eu sou sempre extrema-direita. Mesmo quando você diga coisas que não são tanto. Já comigo, eu...

As ofensas, elas vêm pra mim como, ah, você está deixando de ser esquerdista, finalmente. Ou então, o contrário. A Cecília, ela é sempre muito, ela é alvo de coisas muito mais virulentas do que eu. Mulheres são. Eu e Beatriz somos muito associados no nosso trabalho, mas pra mim é muito isso. Nossa, o esquerdista mais direitista da internet. Já a Beatriz é de fascista pra baixo. É isso. E assim, o ódio, os eventos presenciais que ela já participou em federais,

quando ela conseguia, era uma coisa absurda. Isso antes da grande mídia, quando veio a expulsão, aí a grande mídia publicou, as pessoas ficaram sabendo que é Beatriz Bueno. Justamente agora, quando ela finalmente conseguiu lançar o livro, deu tudo certo, no momento mais errado, deu tudo certo. Mas, tipo, antes, quando era só questão de nicho, que nem sai na grande mídia, ai, barraquinho de... Cara, quando ela foi pra Ufiba uma vez, cercaram ela na porta, ela teve que sair escoltada. É o que se fala sobre, por exemplo,

cristãos dentro da universidade. Assim, você não pode ser evangélico nem cristão. Se você for espírita, se você for de alguma religião... Candomblessista tá mais na moda, porque você tá resgatando a ancestralidade. Exatamente. Aí você pode ter religião. Você não pode ter essa religião. Judeu também não pode, é pior ainda. Judeu não pode num lugar nenhum do mundo. A gente não pode nada. Judeu também. Você é judeu? É, é... É, é...

Tá sendo difícil. Mas sim. Você é praticante e tudo? Sim, sim. Judeia, shabat e tudo.

A Manu que trabalha com a gente, a Manu falou, hoje é dia de catecismo do Gabriel. Obrigada. Porque a mãe dela é catequista, né? E o que eu acho curioso é o Gilberto Freire, que a direita bate tanto, a esquerda se afastou completamente, que é o falar, tentar se aproximar, falar a linguagem das pessoas, né? Que é o que não existe mais. Dito isso. E é na crônica também, gente. Gilberto Freire escreveu o livro dele em 1936. Opa, o mundo já mudou.

Você queria que ele falasse o quê? Olha, eu como... Gente, a gente tem que olhar pras obras como elas foram. Você fez um vídeo maravilhoso sobre isso, né? Ai, são tantos vídeos. Não, mas esse de ressignificar. É Monterlobato. É, enfim. Sim, gente, pelo amor de Deus. O mundo era outro. O século era outro. Eu não vou cancelar obras do passado. Eu descobri recentemente que a minha música com a Vitória, minha esposa, nossa primeira música, é extremamente machista. Minha namorada, do Vinícius de Moraes. Jura?

extremamente machista. O Chico Buarque foi cancelado agora também em várias músicas dele. Será? Mas o Chico é cancelável pra militância de esquerda. Mas ele paga pedágio, né? Ele tira do repertório. Eu não pagava. Desculpa, gente. A música virou um clássico. Quantos anos o Chico Buarque tem? 80? 80 e tantos. 80 e tanto? E ele tá pagando pedágio? Não, e sendo a lenda que é, né? E filho de quem é, sabe? Exatamente. Países do Brasil, cara. Exatamente. O cara que começou, pelo amor...

Weber pro Brasil, gente, desculpa. Ele trouxe Weber pro Brasil. Academicamente, sociologicamente, foi ele. E, pra além disso, homem vivido de Europa, gente, de classe média altíssima, que tinha empregada doméstica quando isso não existia. Mas vou te dizer uma coisa, essa classe artística mais velha, velha guarda aí, é mais sensível ao que nós estamos falando aqui do que essa moçada mais nova. Quem não sabe lidar, né? É, é. Eles são

idosos, eles sentem a mudança dos tempos, eles veem como as grupos sociais mudaram e eles ficam ali, sentindo desconforto. Artista, artista de verdade, né? O artista do passado que iria para as camadas sociais entender a vida. Hoje em dia, tudo é apartamento, você quer falar do que você acha que existe, né? É outra história. Mas esse artista da velha guarda, eu vejo que ele tem muito apurado. Você vê a aproximação do Caetano com os

evangélicos. Cara, que coisa linda. Ele não é evangélico, ele não professa fé evangélica. O louvor é bonito. Ele encontrou o ponto. O meu filho é evangélico. O meu filho é uma pessoa que eu amo e a vida dele é linda. E eu vejo que a vida dele melhorou via religião. Eu acho isso bonito. Por que tem que ser assim? Por que eu tenho que odiar? Por que tem que ser um problema? E aí, alguns evangélicos mais identitários, aí briga com o Caetano. O Caetano, ah lá. Sabe?

As pessoas não entendem que não pode construir ponte mais. É o crente money. É. Ele não pode também. Tô muito triste isso que tá acontecendo também. Então, todo mundo tem que relaxar, sabe? Você é otimista? Tomar um pouquinho. Um pouquinho de rivo. Mas você é otimista nesse sentido? Você acha que a gente tem chance de melhorar num curto, médio prazo ou vai piorar primeiro? Eu não sou otimista, mas eu sou sonhador, sabe? Eu sou um ser contraditório. Mas é difícil. É mais difícil ser sonhador que otimista.

Eu acredito em reformas pontuais, em épocas de maior estabilidade, mas eu acredito que o conflito social também, se ele cessar por completo, ele também produz uma classe dominante que vai ali se beneficiar também daquela estabilidade, sabe? Então, um pouco de conflito social é importante. Um pouco de luta de classes é gostoso para agitar a história. Você tem vontade de construir família?

Não falo os temas pessoais daquele... É estrela. Cara, eu tinha mais. Eu tinha muito mais. Eu lembro que eu tinha uma coisa na minha cabecinha, porque como eu venho de família do interior, da roça... Meu irmão casou com 19 anos. Minha irmã com 20 e poucos. Todos têm filhos. Minha irmã tá grávida, né? Então, tipo assim, a ideia da família é o fim em si mesmo. Eu nasci para constituir família. Isso é muito cristão, mas na roça isso é a regra absoluta. Sim.

Então, por muito tempo eu tive esse conflito assim, ai, eu sou gay, sou cristão, então eu vou ter que ser celibatário, não vou poder casar, não sei o quê. Quando eu fui me livrando desse sentimento de culpa e assumindo, eu falei, ai, agora eu quero ter família, eu quero ter filho até com 25 anos, tinha isso na minha cabeça. Os 25 anos chegaram, não veio aí. E aí, tipo, foi passando e, sei lá, eu perdi, eu tive tantos traumas na infância e na adolescência, quando eu fui tentar me relacionar romanticamente, foi tão conturbado,

foram tão conturbados os meus poucos relacionamentos, que isso meio que desmotivou. Eu falei, nossa, eu vou ter que fazer tanta terapia pra conseguir estar casado. Vai. Eu preciso... Qualquer pessoa normal já precisa, sabe? Normal, né? Qualquer pessoa que teve uma vida mais, digamos, estável. Mas, tipo, agora eu perdi esse romantismo. É lá pra frente. Agora eu fiz 30, vou fazer 31. É em maio. Então, é tipo... Sei lá. Você é jovem. Tem muito tempo.

Eu quero, mas também não é mais uma obsessão tão grande. Eu quero mais conseguir renunciar à solidão com a qual eu vivo a minha vida. Isso tem a ver com o meu passado de opressões constantes. E aí eu fui ficando cada vez sozinho. Eu tenho dificuldade enorme de confiar nas pessoas. Então eu preciso primeiro curar as minhas emoções pra conseguir resolver minha vida pessoal. Então minha vida pessoal é tipo Ariana Grande de 2018.

ouçando, ganhando um prêmio e falando, gente, esse é o maior ano da minha vida em termos profissionais, mas a minha vida pessoal, I don't know what the fuck I'm doing. Eu gosto das grandes citações, entendeu? Vai de tudo. A Ariana Grande, por favor. Nós vamos pra todos os lugares. Então tá, a gente começou falando sobre quem era você, o grande... A vida permeada por conflitos. Isso, e a gente encerra falando. Você saiu da igreja.

Saí, em 2020. Veja bem, você saiu da música, não que a música tenha saído de você.

Isso é a pior coisa da... Da academia. Da academia, que a academia me trouxe. Porque não foi só academia. Tem muitos acadêmicos que continuam sendo músicos. Mas a repercussão acadêmica, né? Isso me lembrou... Acabou com o meu... Acabou com... E saí de Belo Horizonte também. Belo Horizonte era a minha cama musical. Todos os músicos, todos os produtores, toda a galera de bar de... Tudo ficou em Belo Horizonte. Ainda não me conectei. Em São Paulo, eu já cheguei. Ai, fiz 30 anos.

Tô flopado, não tenho bolsa ainda, tô dando aula online, o meu aluguel é 800 reais, moro no meu kifo. Eu tive que resolver minha vida. Teve que virar gente grande, parar de sonhar. E aí, tipo, quando eu assustei, ninguém mais sabe o que sabe de Maia Cantor. E tem um disco lançado, você pode ouvir em todas as plataformas digitais. E o homem que ele faz isso não acontece. Ele não deixa de vender o lado dele, música. E não tá dando certo, porque... Mas assim, eu... Enfim, esse disco é muito sobre isso,

Inclusive, sobre esse ser que sai da roça, que quer entrar na cidade. Embora minha voz seja muito anasalada, porque eu não tinha feito a cirurgia de septo ainda. Eu tinha um septo desviado. Não era... Ele foi um trabalho com arquiteto pra consertar. Era visivelmente mais por dentro. Tinha uma coisa. Aí agora minha voz tá assim. Mas antes era muito afim, sabe? Entendi. Tinha carne esponjosa, tinha o desvio. Era uma coisa terrível.

Como é que você sabe que tinha carne esponjosa no nariz dele? Isso até me impressiona. Eu pesquiso. Essa não veio na caminhão de porta.

Ah, já vou separar a imagem do desvio de septo. Caramba, já. É do desvio. É bem assim, ó. Não vai me mostrar. Não, é do desvio de septo, calma. Cara, é noites e noites, hein? Claro, pra você conseguir pesquisar as pessoas. Cecília, desce. Como é que é isso? Mas você saiu da igreja, saiu da música, mas a música não saiu de você. Saiu da teologia lá na PUC. Roupeu com parte do movimento LGBT, né? Tensiona com a esquerda. Existe, Sávio, algum lugar

Existe algum lugar onde você se sente pertencente? Eu fiquei até emocionado. Existe a casa dos meus pais. Que é pra onde você volta sempre, né? Que não tem a ver com os meus tios, aquela família toda conturbada. Tem a ver com o que a gente construiu, sabe? O respeito que nós construímos. E é o lugar que... Não vou usar lenço, que fica muito clichê. Ah, usa sim! Põe seu lado artístico pra fora. Que lenção, né?

Saiu o jornal. Mas, tipo assim, as pessoas quebraram, quebraram vergonha. E desviaram o foco. Mas, tipo assim, esse lugar, sabe? Na casa dos meus pais, embora... E é um lugar de conflito também, sabe? Muitos conflitos. A gente briga demais também. Mas a minha mãe aprende... Meu pai é daqueles pais, assim, ah, tanto faz. É um embate maior com a minha mãe, aquela religiosa mais da igreja mesmo. Então, assim, eu aprendi a segurar certos assuntos. Ela aprendeu a segurar certos. Às vezes, quando tem um conflito a mais.

que eu estava viajando, o conflito já escalou a ponto de eu pegar as minhas bolsas e ir embora. Mas a gente aprendeu, sabe? Agora, depois de toda essa repercussão nas redes, e eu ter certeza que o meu lugar não é de ser acolhido nos movimentos sociais, é nos partidos, é de criticar mesmo, eu tive ainda mais certeza que o único lugar onde eu vou ser realmente aceito é lá. Embora, não por completo, eu acho que ninguém nunca vai nos aceitar e nos acolher por completo, sabe? E é meio que sobre isso, ainda estou aprendendo.

a viver, a desenvolver esse lado da minha vida. Tanto que foi lá que você começou a pensar tudo. Despolarizes, meu projeto de doutorado. Primeira vez que eu tentei doutorado, eu fiquei reprovado, né? Que era um projeto nada a ver. Aí eu consegui escrever um projeto sobre despolarização afetiva, sabe? Estando lá, sabe? Em contato com outros acadêmicos, que eu pegava muita dica com ele. Essa dica, gente, manda e-mail pra todo mundo, inclusive. Mandei pra vários professores. Tinha um professor da USP,

Como é que é o nome dele? A gente ainda não conhecia ele pessoalmente, mas ele me deu esse insight, queria tanto falar o nome dele, porque... Não vou falar o nome dele não, porque vai que depois lá na frente ele puxa meus tapetes, porque eu nunca falei. Mas ele me deu esse insight da despolarização, que eu fiquei, cara, eu fiquei assim, muito maravilhado, assim, acadêmico, assim, teoricamente, né? Falei, olha, é esse livro que você tem que ler, é isso que você tem que fazer.

E eu fui atrás e fui lá, querendo construir essas pontes. E eu fico triste, já que eu tô mais emocionado, que os movimentos sociais,

o movimento trans, o movimento negro, me veja como inimigo. Porque não é isso que eu quero fazer, sabe? O que eu acho, o que eu desejo e o que eu acho que pessoas trans merecem, por exemplo, que é o grande embate que acho que eu quero travar, é o maior amor do mundo, o maior cuidado do mundo. Os maiores acessos, o que se chama de privilégios, que na verdade são direitos universais, o direito ao emprego, o direito à dignidade, é o que essas pessoas merecem. E quando eu digo que

Mulheres sofrem opressões específicas e divulgam esses relatos, que muitas delas não se sentem à vontade em serem consideradas um tipo de mulher, porque as opressões da mulher são muito mais específicas do que apenas a identidade de gênero, tem a ver com o sexo que você nasce, que você vive, tudo que se desdobra a partir daquilo. Então eu tô mais querendo construir uma ponte e eu vejo tantas pessoas trans mandando mensagem pra mim.

Eu não vou ficar usando essas pessoas como Tolkien também pra falar, olha, essa trans me apoia. Não vou fazer isso, mas tipo, tantas pessoas trans falam,

exatamente isso, sabe? Calma. Não é tão uniforme assim. Ser reconhecida como mulher não é política pública. Política pública, pra mim, é um arroz com feijão, é um emprego. Isso não tá chegando. Porque isso é simbólico. As questões são questões que vão caminhar com o tempo. São questões que estão no olho do furacão, de um debate acadêmico, sabe? As questões mais urgentes. As mesmas pessoas, muitas vezes, que falam em nosso nome, não estão ali na linha de frente, sabe? Então, eu estou aprendendo

aprendendo a me comunicar, a lidar com essas pessoas, né? Agora fazendo... Cadê minha camiseta branca? Pedindo desculpa a todos os grupos que eu já briguei. Eu já ofendi. É meio que isso também, sabe? Eu queria construir pontes entre diferentes. Sem pagar pedágio. Sem pagar pedágio. É porque o pedágio é uma armadilha, na verdade, que engessa o debate. Claro. Maravilhoso. Perfeito. Acho que é isso, né? Tem papo pra crianças, mas aí o que vocês fazem?

hoje os Polaris, ajudem a fomentar o trabalho dele, acompanhem o Sávio nas redes. Parem de me pedir pra me filiar a partido político, ser candidato. Essa é uma última pergunta. Era pra gente encerrar com esse tom emocional, mas você trouxe o gancho, vai ser inevitável. É ano de eleição, vai. É o tom do conflito também, né? Terminar com estabilidade. Pra quê? Ano de eleição, imagino que você não vai se candidatar a nada esse ano, mas passa pela sua cabeça aí pra vida pública.

sentido de disputar um cargo? Eu gosto da ideia da política tradicional, mas eu acho que ela iria minar aquilo que eu posso construir fora da política, sabe? Se eu viro candidato, eu tenho que me filiar a um partido. Se eu me filiar a um partido, sendo de esquerda, sendo mais de centro, o que seria? Ai, e aquela liderança ali daquele partido? Eu não posso mais falar mal dele, ai que saco. Eu não posso falar o quanto esse partido tá fazendo isso e aquilo. Eu tenho que vestir

camisa. Então, assim, eu quero fomentar um outro clima, eu quero encontrar um outro lugar. Daqui uns anos, quem sabe isso poderia acontecer, sabe? E as pessoas insistem que eu vá pra política justamente pela minha ironia, pelo meu tom inflamado, às vezes, assim... É porque você junta gente, você atrai voto, ponto. É... Será que eu atrai voto? Alguém que começa a produzir conteúdo há pouquíssimo tempo, tá com 170 mil seguidores, isso é um sinal de que você atrai

voto. Isso atrai interesse. E a tentação é enorme, porque eu continuo pobre. E eu queria ganhar um salário de 40 mil reais e ter vários assessores e... 46. É, eu queria ganhar quase 50 mil reais. Só que, tipo assim, mas eu não tô me gabando falando que eu certamente seria eleito, porque eu também não tô falando isso, né? Eu não tenho essa certeza toda. Mas eu reluto. Eu tenho convites pra essa eleição e, pra você ter uma ideia, meu título não foi nem transferido ainda pra São Paulo.

grau de preocupação é esse, entendeu? Eu nem sei se daria tempo ainda pra... Tem uma questão, né? Nem tô preocupado, sabe? E... Sei lá. Eu gostaria de participar da política tradicional, de ser candidato um dia. Mas eu tenho muito medo de se colocar em xeque tudo que eu poderia fazer fora da política. Então organiza todos os sentimentos, igual pro relacionamento, pra família. Organiza os sentimentos, arruma o teu dinheirinho, vai organizando o pensamento que você ainda tem muito tempo. É. Mais 46 mil, hein?

Nada mal, né? Vai ter o iPhone de 10 câmeras. Ai, gente, vem aí. Mas, sabe, eu morro de medo de sucumbir a isso, sabe? Ai, que coisa horrorosa. A política tradicional é um problema. Não é clima. Eu tenho também um clima. Eu sou um cientista político. O grande objeto... Essa conversa não termina nunca, né? O grande objeto do cientista político são as instituições políticas. Não há clima para produzir grandes mudanças atualmente no Brasil.

Essa coisa bolsonarismo versus lulismo vai tomar conta dessas eleições e vai ser os próximos quatro anos

o outro. Em 2030, eu tenho esperança que a gente tenha uma janela de novas lideranças. É preciso lembrar que a Revolução de 30, quando Getúlio Vargas chegou ao Brasil, foi há 100 anos atrás. E de 100 em 100 anos tem um grande abalo sísmico na política brasileira de mudança que consegue superar um pouquinho daquela modernização conservadora que o estamento burocrático dá uma segurada às vezes. Então pode ser esse o momento. Então, eu sinto muito isso. Então tá. Sábado de mar de 2030, quem sabe.

Sábio. Chapa 2030. S.S. S.S. não dá, gente. S.S. Eu pensei Sábio Silva. Não, vai ser Sábio de Maio. Exatamente. Eu tentei usar Sábio Silva de Oliveira, a questão academicamente, mas o Sábio de Maio surgiu como ano artístico que ficou depois, acabou, né? Não tem mais como tirar. É a numerologia, boba, depois você vê. Obrigada, Sábio Silva. Obrigado, prazer. Sucesso. Siga construindo suas pontes sem pedágio. Vai dar certo. E você, se quiser refletir o mundo

de uma forma mais... Menos densa? Será que essa é a palavra? Pode ser. Vem com a gente no Riva News, sexta-feira. Meio dia e trinta nesse mesmo canal. A gente espera vocês. Tchau!