EDUARDO KOBRA | RivoTalks #121
Eduardo Kobra é um dos muralistas mais famosos do mundo. Nascido na periferia de São Paulo, ele começou pintando muros nas ruas e, com o tempo, transformou sua arte em obras gigantes que hoje estão espalhadas por cidades de todos os continentes.
No episódio, Kobra relembra o começo difícil, quando nem sabia desenhar direito, fala sobre o processo de criar murais monumentais, a vida como artista autodidata e os desafios de transformar arte de rua em carreira internacional. A conversa passa por religião, momentos pessoais difíceis, escolhas que marcaram sua trajetória e o sonho de pintar um mural no MASP.
Uma história de talento, disciplina e superação que mostra como a arte pode transformar vidas. Solta o play!
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- Trajetória como artista autodidataInício sem formação formal · Desenvolvimento do talento próprio · Influência de familiares em ofícios artesanais · Comparação com artistas autodidatas · Evolução do estilo pessoal
- Morte da filha Catarina e depressãoMorte 12 horas após nascimento · Quase morte da esposa · Internação e transfusão de sangue · Depressão e fundo do poço · Criação do mural 'Mão de Deus' · Resgate emocional pela fé
- Desenvolvimento CulturalTécnica do quadriculado · Desenvolvimento de layouts · Estudo do espaço e arquitetura · Criação de múltiplos desenhos · Evolução durante execução · Pesquisa de contexto cultural
- Saúde MentalInsônia crônica · Despersonalização · Intolerância alimentar · Intoxicação por metais pesados · Uso de medicamentos psicotrópicos · Relação entre gut e cérebro · Tentativa de parar com drogas
- Recusa de trabalho com marca de bebidasConvite de marca internacional famosa · Problema com alcoolismo pessoal · Conflito ético · Aconselhamento de amigo artista · Cancelamento do projeto · Oferecimento de pagamento dobrado · Coerência com princípios
- Início na rua e aceitação familiarRejeição inicial da família · Chamado de vagabundo e preguiçoso · Falta de compreensão parental · Medo dos pais pela segurança · Aceitação posterior dos pais · Entrada do pai em galeria
- Comercialização e crítica de artesOfertas de marcas · Distinção entre artista e ativista · Críticas de pares sobre comercialização · Autonomia nas decisões · Recusa de trabalhos comerciais · Comparação com Romero Britto
- Reconhecimento internacionalMurais em 30 países · Mural em Nova York como marco · Influência de fotógrafa Martha Cooper · Pontos mais fotografados do mundo · Registros internacionais · Prêmio Guinness
- Identidade e AutoestimaRejeição ao termo 'artista' inicial · Origem como vagabundo e maloqueiro · Arte com propósito de mensagem · Causas sociais · Conscientização através de murais · Desconexão impossível entre vida e mensagem
- O Papel da Fé e EspiritualidadeBusca espiritual de longa data · Encontro com o Evangelho · Restauração pessoal · Fé como base de inspiração · Diferença entre evangelho e instituição religiosa · Reticências em revelar fé publicamente
- Relacionamentos FamiliaresAbundância de oportunidades globais · Conflito emocional ao recusar · Impacto das recusas no futuro · Determinação de continuar pintando · Portas que se abrem a partir de aceitar trabalhos · Consequências desconhecidas
- Instituto e legado em CampinasCriação de instituto próprio · Atelier aberto ao público · Concessão de espaço de 8 mil metros · Dois galpões reformados · Acesso democratizado à arte · Propósito social
- Decisão de deixar emprego formalTrabalho na Faria Lima · Estabilidade versus liberdade · Saída do sistema convencional · Falta de segurança financeira · Mudança de vida aos 19-20 anos · Morar sozinho sem grana
- Entretenimento e Diversão InfantilContrato de 10 anos · Mais de 30 desenhos apresentados · Dormir no parque · Primeira sustentação financeira · Oficinas de grafite · Conhecimento de esposa
- Projetos culturais comunitáriosTema de amputados · Time de futebol com jogadores amputados · Busca de autorização dos dois lados · Conflito israelo-palestino · Impossibilidade de execução · Impacto da ação armada
a mais um Rivotalks, esse nosso espaço maravilhoso de conversas que abre porta para as portas. Por que está tão difícil para mim? E é toda semana você está engasgando no portas. Pois é, né? Que abre as portas para que vocês conheçam o... O Rivo News, nosso resumo semanal de notícias, toda sexta-feira, meio-dia e trinta, nesse mesmo canal. Aquelas horinhas ali da sua sexta para chegar no fim de semana, super bem informado. Com apoio da Intermesa, Escola de Música e da produtora Camaleão. E hoje temos aqui conosco
que é um sinônimo de arte nesse país, o senhor Carlos Eduardo Fernandes, Léo, o Cobra, seja bem-vindo ao Rivotal. Legal, legal. Bom demais te receber. Prazer te ter aqui, Cobra. Cobra, você recebeu esse apelido porque os seus amigos olhavam para os seus desenhos na infância e aquela gíria, né? Tipo, você é cobra, você é fera. Naquela época, você já tinha a pretensão de... porque você começou Cobra,
Hoje você é uma jiboia de Itu, né? A Piton reticulada, não é? Literalmente de Itu. Olha, não, não, de forma alguma, mesmo porque eu não conhecia nada a respeito de arte. Era puramente intuitivo. Eu não vi outros artistas pintarem, nunca tinha entrado num museu, numa galeria,
absolutamente nada. Que duro, é talento mesmo. É um talento que veio mesmo. Era uma vocação, assim. Exatamente. Mas eu me identifiquei demais com isso. Então, eu ficava treinando nos cadernos, reproduzi vários tipos de desenho. Turma da Mônica. Fazia Turma da Mônica, vários super-heróis. Me arriscava, assim, tentar fazer um pouco de arquitetura.
copiar o rosto dos amigos, enfim. Eu estava o tempo inteiro desenhando, porque tinha duas coisas que me atraíam, a rua e o desenho. Então, eu sentava lá na última carteira e eu estava sempre olhando pela janela e pensando quando a aula vai acabar para que eu possa ir para a rua, andar de skate, carrinho de rolemã, tudo assim. A rua, eu sempre tive esse fascínio pelas ruas.
Sexta B, né? Lá no teu colégio, tomando advertência, porque tava escrevendo na parede, tava deixando cobra na parede, teve que limpar. E eu comecei na quinta, na verdade. Na quinta série, que eu já comecei a espalhar meu nome pela escola inteira, mas eu pintava tudo. Eu pintava desde o teto, as carteiras, as portas de banheiro, as salas. Tudo era telebranco.
a spray, né? Até pelo preço, não tinha esse acesso. Então fazia com caneta, aquelas canetas piloto, assim, e fazia isso. Até que um dia a diretoria descobriu, né? Eles estavam buscando quem era, reuniu todos os alunos no pátio, né? E aí me chamaram lá na frente e falaram, ó, descobrimos quem foi o cara que fazia tudo isso. Uma vibe meio Carlos Adão, assim. É, exatamente.
É até lá da região. Também. Pinta tudo, né? Engraçado, porque você estava falando que não tinha referência, não tinha ido ao museu, não tinha nada. Eu ouvi uma vez, e eu fiquei muito impressionado, é que desenho é muito prática. Claro que você precisa de ter uma vocação, né? Pra virar um grande artista. Mas que a gente condicionou a alfabetização como mais importante do que as habilidades
para desenhar. E que toda criança, se for incentivada, vira uma boa desenhista. Você acha isso? Eu tenho certeza que eu sou um deles, né? Que tinha, sim, essa habilidade, mas os meus desenhos eram péssimos. Quando eu falo aqui que desenhava, alguém pode ter imaginado aí que os desenhos eram bons. Mas, assim, eram muito ruins. Inclusive, tinha no meu grupo outros três ou quatro, não na escola, mas de amigos,
fora da escola, que também desenhavam. E quando nós nos encontrávamos, cada um apresentava o desenho que fazia, cada um tinha a sua pasta, então eu ficava avaliando o desenho do outro. Embora eu quisesse fazer aquilo, os meus desenhos eram bem ruins, e eu costumo até falar exatamente isso que você colocou agora, que é, sim, algo que vem de dentro pra fora, né? A gente tem vários exemplos de artistas autodidata, então, pra mim, assim,
acho que foi até bom ser autodidata, porque eu tive que desenvolver meu próprio equipamento, meu próprio material, o meu próprio estilo e tal, enfim. Que no começo foi super repudiado, mas depois valeu a pena. Dizem que canhotos têm mais habilidade artística nesse sentido também. Não sei se de fato é, mas alguma coisa relacionada à área do cérebro. O hemisfério esquerdo do cérebro é o da criatividade, não é? Ou é o contrário? Eu acho que é o contrário,
e você espelha com a mão contrária. Dá um X. Exatamente. Você fala que você não teve influência de arte e tal, mas seu pai é seu Santo Léo? Santo Léo. Seu Santo Léo. Isso, Santo Léo. Era tapeceiro. O mar é uma baita... Opa, o cafezinho chegou com brigadeirinho. Opa, maravilha. Deixa eu só ver aqui onde que eu coloco. Se quiser chegar a caixinha mais pra cá. Deixa eu ficar aqui de boa. Isso. Aí. Ele era tapeceiro, que é uma baita de uma arte, infelizmente.
os tapeceiros também estão em extinção. Eu sei que a tua família, no início, não curtiu muito essa vibe artística, teu pai inclusive te chamou de vagabundo, de seguir nessa vida, mas tem alguma relação aí? Vai ver que seu santo não teve a oportunidade só de desenvolver a sua arte, acabou virando um ofício e não a arte. O meu pai, sim, o pai dele chamava Salvador Léo, meu avô, e ele, Santo Léo,
Maravilhoso. Exatamente. Ele tapeceiro, reforma de imóveis estufados, assim. Mas o cuidado que ele tinha era algo fora do normal. Hoje eu vejo, hoje que eu tenho mais conhecimento, eu percebo isso. Ele tinha caixas que ele guardava, todas as taxinhas que ele tirava, porque aquelas taxinhas não tinha mais, né? Então ele guardava tudo aquilo, desamassava, fazia, carregava aqueles catálogos de tecido,
fazia as conexões das stripes no tecido, as cores, os sofás antigos. Ele tinha um cuidado extremo. Nossa, já penso nos seus recortes. Mas tem tudo a ver porque eu trabalhei com ele, inclusive. Cheguei a trabalhar, eu ficava ali na garagem da minha casa desmontando os sofás o tempo todo, eu desmontava tudo ali para ele. Ia buscar também os sofás na casa dos clientes. Porque meu pai só trabalhava em áreas nobres da cidade.
Só os clientes, porque quem reforma sofá, geralmente, então ele pegava aqueles sofás que valiam muito dinheiro e aí reformava tudo isso. Agora, logo depois desse momento de trabalhar com ele, eu já fui completamente para as ruas. E assim, eu entendo hoje, claro que isso gerou muitos problemas e tal. Eu pintava a minha casa inteira,
tipo de sistema ou padrão esperado. Como eu sou até hoje, sabe? Hoje eu vejo que eu não mudei muita coisa a respeito do menino que eu era em relação a, por exemplo, estar numa sala de aula, sentar. A questão não era a sala de aula. A questão é qualquer ambiente fechado. Acho que eu sou meio claustrofóbico em relação a isso. Eu quero sair, quero ir pra rua. Eu tenho essa coisa expansiva. Na minha casa eu quase não tenho móveis, por exemplo. Porque eu gosto de tudo aberto.
eu sou desse jeito. Trabalhar na Caixa Econômica foi difícil pra você, abrindo conta? Olha, eu poderia ter... Num cubículo, numa baia. Eu poderia até ter seguido, ter tido uma carreira ali, né? Que esse prédio onde eu trabalhei é na Faria Lima. Então eu já fui um... Como vocês falam? Faria Lima. Faria Lima, é. Eu já trabalhei ali. E assim, eu me dava bem até, sabe? Fazer meu trabalho direitinho. Eu tinha até um certo reconhecimento lá dentro e tal. Mas...
a verdade é que eu não via a hora de sair pra pintar. Eu queria pintar. E foi uma decisão muito difícil até sair dali. Você imagina você abandonar um trabalho certo por algo completamente duvidoso, que pra mim também, completamente obscuro, não tinha a mínima noção, porque já desde moleque, 19 anos, 20, eu já morava sozinho e não tinha grana, não tinha nada, até que tomei essa decisão. Falei, cara, quer saber?
pintar na rua, independente do que aconteça. Então, eu sou aquele menino, como você comentou, assim como todos nós, gosta de desenhar, mas eu levei isso aí a sério. Falei, vou fazer isso e tudo bem. E levou tão a sério que se tornou, hoje, muito seguro dizer, um dos maiores artistas do mundo, né? Contemporâneos de street art, vamos colocar dessa maneira. Você tem obras no planeta inteiro, sua arte é reconhecida, as pessoas, às vezes, elas não conhecem
conhecem o seu rosto, mas elas olham uma obra sua e elas sabem que é do cobra. Esse crescimento todo, ele gera muita visibilidade e, inevitavelmente, no mundo que a gente vive, muita comercialização também. Você teme, de alguma maneira, uma romero-britização da sua arte? Não estou falando de estilo, estou falando dessa questão de comercializar mesmo, sei lá, daqui a pouco uma vista alegre te chama,
pra fazer uma coleção de porcelana, sabe? Essa mercantilização da sua estética. Tá. Bom, já ali no começo, só pra fazer uma conexão, eu pintava de tudo, certo? E eu criei esse plano realmente. Como é que eu vou pagar minhas contas? Como é que eu vou sobreviver? O que eu vou fazer já, uma vez que eu já tinha abandonado o trabalho convencional ali e ido completamente pras ruas, né?
Fora a parte de que eu não tinha grana pra pagar o aluguel, a comida, nada, né? Eu ainda pegava dinheiro com a giota e tal. Então eu pensei exatamente nisso. Falei, cara, eu vou sair pela cidade, vou pintar vários murais pela cidade e vou botar lá o meu número de telefone. Aí alguém vai passar por aqui, vai ligar e realmente a minha estratégia funcionou. Então eu ia lá, pintava um carro antigo, alguém que gostava de carro antigo ligava,
pra eu pintar o carro antigo. Pintava lá, sei lá, seja lá o que for. E a pessoa se conectava com aquela imagem, um Batman. Se conectava, eu ia lá e pintava um quarto de criança. Mas eu pintava de tudo que aparecesse. Geladeira, qualquer coisa. Na rua é muito interessante isso, né? Então, o que que acontece? Eu me tornei muito seguro em relação a isso, porque já enquanto eu fazia isso, eu estava utilizando esse recurso pra criar o meu próprio estilo, a minha própria linguagem,
que realmente eu pudesse seguir. Até fui muito discriminado pelos meus pares. Até hoje, quem não conhece muito bem a minha trajetória, não entende. Então eu já passei por esse processo. Até me sentir seguro de dizer não. Há muitas e muitos convites que surgem. Mas eu não sou hipócrita, sabe? No sentido de que muita gente critica realmente quem faz isso. Mas muitas vezes só o artista sabe o que ele faz.
porque ele faz. Não é o meu objetivo e eu vejo muitos artistas criticarem, mas eles não têm a mesma chance, a mesma oportunidade que o Romero Brito tem. Porque é muito fácil você criticar até que uma Rolls Royce bate na sua porta, até que uma Coca-Cola, uma Disney, uma Ferrari, oportunidades que ele tem. Seja dito isso. Agora, os caminhos que ele tomou de decisões na carreira dele e na vida dele são diferentes daqueles que eu tomei.
Eu posso dizer isso com autonomia porque eu fui, sim, convidado para fazer inúmeras e dezenas e dezenas de marcas e produtos e tudo mais. Eu não vou te falar que eu não faça, mas talvez eu tenha feito 5% do que me convidaram, ou até menos, porque eu busco uma associação legítima dos valores que eu acredito, dos princípios, de toda a base que construiu o meu trabalho.
assim. Era mais o que pintar, tô fazendo. Eu vou meter tinta. Até porque foi fazendo isso que você conseguiu teu emprego no Playcenter, que foi o que começou a te dar, pintar no Playcenter, foi o que te deu esse caminho, né? Pintando um desses muros, lá com o meu fusquinha, ali próximo da Avenida Morumbi, que parou um cara lá, atravessou a rua, falou, cara, eu tenho uma agência e eu quero
Eu estou participando de uma licitação, né? Com três ou quatro... É concorrência, né? Concorrência, né? Isso, é. Citação é quando é? Público. De uma concorrência. E eu quero que você faça alguns desenhos. Eram três. Eu fiz mais de 30 desenhos. Fui aprovado ali no Play Center. E dormi no chão do brinquedo, porque foi a primeira grande oportunidade que eu tinha. Fiquei lá, porque eu morava muito distante. Então, fiquei lá, realmente, né?
O tempo todo e o desdobramento disso é que eu fui contratado pelos próximos 10 anos pra pintar todos os equipamentos do Playcenter. Aí que eu tive a primeira base financeira de sustentação ali. Aí dormiu lá, fez lá, conheceu sua esposa lá, começou a namorar lá. É, anos depois. É, anos depois, né? Anos depois eu pintava, mas eu também fazia uma oficina de grafite dentro do parque. Chegou uma hora que eu tinha bastante autonomia de criação lá. Que máximo.
E eu fiz essa oficina. Essa oficina era o quê? A gente fazia tatuagens temporárias, caricaturas, né? E ensinava os visitantes ali a pintar. E foi assim que na filinha ali estava a minha esposa. Mais de 10 anos depois, né? Você entrou em 94, foi 2004, 2007, por aí, né? E ela estava ali nessa fila, né? E encontrou um cara completamente doido que naquele momento...
Era o estado que eu tava. É muito interessante isso, né? Essa perspectiva de que, de fato, tem uma certa arrogância intelectual nessa crítica da comercialização. E eu nunca tinha parado pra pensar por essa perspectiva de que o objetivo das pessoas é diferente. Às vezes o Romero Brito, ele não se vê como um grande artista erudito que precisa encantar as elites intelectuais. Ele quer vender mesmo. Ele tá tudo bem. Ele tomou esse caminho e foi bem sucedido nesse caminho.
Não é menos nem mais artista por isso, né? Talvez, ou quase com total certeza, o artista brasileiro mais conhecido no exterior. Eu acho que sim. Mas as decisões que ele tomou, enfim. A gente tem tanto preconceito com esse negócio da arte, que um exemplo que eu sempre dou, Cobra, eu tenho um irmão autista de 36 anos de idade, que é não verbal, e que é artista, sempre desenhou muito bem. Mas foi só com 30 anos de idade que a gente resolveu vender os desenhos que ele fazia. Pensa.
Porque ele é não verbal, enfim, não pensa nisso. E quando você vê que a arte, de fato, ela pode virar um meio de viver, que bom, ela não precisa ser só meramente artística, mas eu acho que nessa onda de nãos que você teve, que você deu na sua vida, teve algum que foi mais dolorido? Porque a gente sabe que muito desse dinheiro você usa ou pra reprojetar as tuas obras, ou pra aplicar em projetos sociais. Teve alguma marca, aquela que te tocou,
falou, cara, queria, mas não. Aqui doeu. Olha, é difícil falar em uma, né? Mas também pra complementar, cada artista está em um momento de conhecimento, um momento da vida, um momento financeiro, um momento de busca, né? Tem vários caminhos ali, vários propósitos também. Tem gente que pensa que a arte é só falar de protestos e mensagens políticas e tal. Mas não, a arte de rua, ela segue um caminho muito parecido com a arte convencional dos museus.
e das galerias, os artistas de rua também fazem arte abstrata, também fazem de tudo, né? A mesma coisa, o mesmo movimento. Enfim, eu recebi não da família, não na escola, não nas ruas. Quando eu busquei os pares, esse momento me marcou bastante, assim. Porque quando eu comecei a conhecer o movimento de arte de rua, eu faço parte da segunda geração de arte de rua que vem conectada
aos grafiteiros de Nova York, dos trens e tal, né? Mas antes disso já existia um movimento. E eu busquei me conectar com eles. Eu falei, bom, já que a família não aceita, fui detido. Não tem como eu seguir caminho nenhum aqui. Eu vou buscar esses caras. E comecei a buscar. E tomei bica também do mesmo jeito. Também é uma galera bem mais velha, né? Os irmãos que impulsionam, né? Tomei bica do mesmo jeito. Então... Mas assim, o que parecia ser...
um bloqueio em tudo isso, com o passar dos anos eu fui entendendo o quão importante foi receber todos esses nãos, ter todas as dificuldades que eu passei. Por quê? Porque na projeção para o futuro do que eu teria que fazer, isso foi uma base importantíssima, sólida, do qual me deixou seguro para ir para o mundo inteiro e passar todas as dificuldades que eu passo. Porque tem pouco glamour nessas viagens. É um trampo mesmo.
A gente só vê a hora pronta, né? Andame, chuva, sol, trampo, entendeu? E como é que eu ia sustentar tudo isso, né? Sendo que eu não imaginava sequer sair ali do bairro do Campo Limpo, eu comecei a expandir o meu trabalho depois pra Vila Madalena, mas na verdade um pouquinho antes disso eu já pegava o ônibus de lá, passava por baixo da roleira porque não tinha grana, eu tinha que decidir comprar um spray ou pagar a passagem do ônibus, descia lá no centro de São Paulo,
no Jabaquara ou a qualquer lugar, voltava andando, pintando tudo que é lugar com o meu nome, né? Então, eu passei por esse momento também, assim. E os meus pais, hoje que eu sou pai, eu tenho plena convicção que o que eles queriam era me proteger. Claro. Porque eu não era um cara, não era fácil, entendeu? Imagina o meu pai... E o meio que você escolheu também não é, né? É isso, medo. Ele foi detido três vezes. Exato.
tava assim, uma advertência na escola e não me buscaram a delegacia. Sim. Meu, e assim, o meio que eu andava, embora eu estava muito decidido, eu nunca fui usuário de droga, eu falei isso algumas vezes, envolvido com crime, mas o mundo que eu estava envolvido era completamente, eu só queria pintar, espalhar a pintura por tudo que é lugar. Mas imagina meus pais vendo isso, eles ficaram com medo. Pânico. E eu também tinha uma questão, vou fazer independente,
Evidentemente, se eles gostarem ou não, e aí gerou um atrito, né? Mas eu tenho certeza que, no fundo, assim como eu entrei numa galeria pela primeira vez, já com mais de 30 anos, meu pai entrou pela primeira vez, meu pai estudou até a quinta série, ele entrou pra ver uma pequena amostra que eu tava fazendo, né? Ele também, imagina, que doideira que é essa? Vai pintar o quê? Não entendia nada daquilo, né? É normal. Difícil, lógico. É normal. Eu faria o mesmo pelo meu filho. É isso. A preocupação ia ser igual.
A gente tem um esquema aqui de membresia? Antes dessa, deixa só eu... Antes da gente puxar essa pergunta que é boa, porque eu acho que ela vai ter conexão com a... Pegando o gancho disso que você respondeu agora, de andar pela cidade e tal, com aquilo que a gente estava falando também, dessa... No objetivo de cada artista individualmente, né? Você começou no Campo Limpo, hoje está em 30%.
países. E de alguma maneira, quando você faz arte urbana, ainda mais agora, nessa era de redes sociais, a sua obra acaba se tornando também um lugar de selfies, né? É um lugar instagramável, assim. E, eventualmente, de menos reflexão. Isso te incomoda? Você pensa sobre isso? Cara, o que eu penso é que eu não faço acepção dos lugares onde eu vou pintar. Todos os lugares são importantes.
para mim. Por que eu estou falando isso? Porque eu faço o meu melhor, sabe? Com as restrições que eu tenho, com as limitações que eu tenho. Eu posso pintar numa comunidade da periferia, ou eu posso pintar em Nova York, ou posso pintar em Londres, onde quer que seja. O que acontece? As pessoas, às vezes, desconectam, não entendem muito bem a questão de ser autodidata. Ser autodidata não me tira da responsabilidade,
enorme que eu tenho hoje, de estar sempre pesquisando, estudando, buscando conhecimento. E cada um desses convites que surgem ao redor do mundo é uma imersão ali na história daquele local, que eu preciso entender coisas que eu nunca ouvi antes, entendeu? Então, a gente só entende... Eu fui ter conhecimento na prática mesmo. Então, assim, os murais que eu realizo pelo mundo, eles têm, além da base dos princípios que o meu trabalho serve,
das mensagens que eu procuro trazer nos murais, a conexão com o lugar onde esse mural está inserido. Então, muitos deles, inclusive o primeiro que eu pintei em Nova York, que foi do Beijo lá na Highline, ele ficou, logo que eu terminei, entre os 10 pontos mais fotografados de Nova York. Não dos 10 pontos, concorrendo com tudo lá. Eu jamais imaginei... Seu mural e o Empire State na lista. Eu jamais imaginei.
Que doideira, hein? Uma coisa assim. O cara que sempre sonhou com a arte de Nova York, né? É, exatamente. Que era a tua inspiração no início. Que é onde tudo começou. É isso. Não por ser Nova York ou ser Estados Unidos. Não, não. Mas o berço da parada. Mas porque eu comecei a pintar por influência dos artistas de lá. Claro. Através da fotógrafa Marta Cooper, que fez os livros Subways Precan, né? Lá no comecinho, década de 80. E depois eu tive o privilégio ainda de ser fotografado por ela. Que legal. Em alguns dos projetos que eu realizei.
Contou pra ela? Contei, total. Se não fosse ela, a arte de rua não teria se propagado pelo mundo da forma que foi. Então ela, como uma fotógrafa, até hoje, ela estava aqui recentemente em São Paulo, questão de dois meses, ela estava aqui. Ela continua, não sei quantos anos ela tem, mas tem mais de 80. Então ela continua viajando pelo mundo, registrando arte de rua, que foi por conta dela que tudo isso aconteceu. Tem muita coisa legal no mundo que a gente não tem a menor ideia. É isso.
Fico muito curiosa pra saber teu sentimento. Quando eu tava vendo a tua história e eu vi esse negócio que você pintou e virou um dos pontos mais fotografados a ponto de quererem tombar e a desgraça pintar em cima pra o prédio não ser tombado. Qual foi sua sensação? Porque isso dá um sentimento, é tipo, caraca, cheguei lá, bora, vamos continuar trabalhando. Qual é a sensação? Te dá uma emoção? Te deu uma emoção, Cobra? Como eu tô fazendo,
e eu sempre fui da operação, do trabalho, eu não tive outras bases de apoio, outras referências, outras indicações. Eu não cheguei a lugar algum, porque um dia alguém chegou e falou, cara, eu sou amigo de alguém dentro de uma empresa, vou te botar lá para pintar, eu conheço alguém em tal lugar. Então, todas as portas que se abriram, se abriram por conta do trabalho que eu fiz, da dedicação colocada ali. E essa dedicação é em todos os aspectos.
sempre foi, sabe? A ponta de comprometer a tua saúde. A ponta de comprometer a minha saúde, mas eu sou um cara imperativo. Eu não consigo ser diferente. Eu tenho problemas de insônia, eu tenho uma série de outros problemas de saúde, da intoxicação de metais pesados. Mas, assim, eu gostaria de sentar e relaxar e falar assim, cara, quer saber? Deixa eu aproveitar um pouco do que eu conquistei. Mas eu não consigo. Então, eu já pensei nisso.
Falei, meu, agora, depois de ter feito tantos murais pelo mundo, tantas coisas, como é que vai ser?
Deixa eu relaxar um pouco. Surge um convite e eu me vejo ali no mesmo empenho de novo, na mesma busca, fazendo dezenas de layouts, porque eu adoro criar. Criar é uma das coisas que mais me motivam. Principalmente o desconhecido, sabe? Surge uma coisa que eu nunca fiz, que eu não tenho nem ideia dos processos daquilo. E quando surge isso, eu falo, cara, vou fazer esse negócio. E aí eu começo ali a fazer essa busca. Essa semana mesmo,
Sinceramente, eu fiquei até 4, 5 da manhã vários dias, porque eu estou com um mural em Houston, no Texas, que tem 900 metros quadrados. E eu preciso criar algo, porque é no centro principal. E estou com outro em Newark também, que quando você pesquisa no Google o skyline de Newark, esse prédio é o principal. Então, eles me deram esse prédio ali, com o convite da prefeitura. Então, você imagina a sensação que eu tenho?
pânico, de responsabilidade. É tipo, eu tenho que trabalhar. Eu vou ter que... Não dá tempo da emoção vir. Não, da onde eu vou tirar isso? Isso que eu tô te falando, porque é uma tela em branco, sabe? Da onde eu vou tirar? O que eu vou poder fazer? Apesar de eu ter dezenas e dezenas e dezenas de layouts e dezenas que eu já criei no passado, mas, claro, a emoção vem depois que todo esse turbilhão de sensações, de ter que resolver o problema, passa. E eu tenho um negócio que é muito assim, por mais que eu não pinte,
por questões financeiras, porque não aprovam o orçamento, mas quando aprovam o layout, eu já estou satisfeito. Mesmo que eu não pinte. Já realiza. Eu falo assim, cara, eu consegui suprir esse desafio. Por exemplo, em New York, eu mandei uns 15 desenhos diferentes. Uau. Então, se um desses for aprovado, eu já sei que se eu não pintar, for uma questão de aprovação orçamentária, que é uma outra coisa. Mas isso tem a ver com a sua relação com a crítica?
Não tem. Não é ego? Não é. É uma coisa pessoal mesmo, sabe? Eu fico muito incomodado e talvez eu seja o maior crítico da minha própria obra. Ah, entendi. Você é obstinado em aprovar. Eu fico muito incomodado. Até me perguntam isso, né? Pô, mas você... Como que vai ser a evolução disso tudo? Eu tô sempre em busca disso. E não é pros outros, não é pra ninguém, é pra mim mesmo. Tem inúmeros murais que eu não tiro nem foto.
depois, que eu fico tão incomodado com o resultado, eu falo, meu, eu poderia ter feito melhor aqui, eu errei aqui, não combina com a luz, a arquitetura tá desequilibrada, então eu sou muito exigente completamente, mas eu não tenho a mesma exigência com o meu guarda-roupa, as roupas são jogadas no carro, você descer aqui no estacionamento, tá tudo bagunçado. São áreas da vida, né? Eu não sou, mas em relação a isso, eu sou completamente exigente, eu gosto das coisas milimetricamente pensadas, estudadas, até porque,
Eu trabalho em altura. Tem vários riscos envolvidos. Tem muitas coisas. Então, se errar, a gente morre. Morre, basicamente. Como o Aguinaldo. Esse mural de Houston, só para efeitos de comparação, pesquisei aqui agora, o teto da Capela Sistina tem 540 metros quadrados. Quase o dobro. E não é tão grande quanto o do Guinness, que você ganhou, né? É, o Guinness 1 tem 5 mil e pouco, outros 6 mil. É um negócio assim, são dois.
Mas você sabe que é interessante que depois do Guinness, só me chamam pra fazer Muro Gigante. Ficou esse negócio. Sabe que você dá conta? Me dá uma janelinha. Dá conta eu dou, mas conforme a idade vai chegar, você já vai dando uma amarelada. Você fala, mano, vai ser complicado. E é complicado mesmo. Tem várias circunstâncias. Você tem que estar bem em vários níveis pra encarar um prédio desse daí. Entendeu?
comprometi, eu vou ter que ir, faça chuva, faça sol, vou ser obrigado a fazer. Agora sim, temos o esquema de membresia, temos os rivos de ouro, o pessoal sabe quem vai ser o entrevistado, manda uma pergunta, e é de artista para artista, o Otávio Nunes te mandou uma pergunta aqui, deixa eu rodar para você ver. Opa, cobra, tudo certo? Sou o Otávio Freire, do interior de São Paulo, americana, sou ilustrador, faço quadrinhos aqui, alguns trabalhos meus, e também sou ilustrador de parede aqui,
Então, eu já fiz alguns trabalhos em escola, em igreja. E eu tenho uma dúvida que eu gostaria de perguntar para você. Eu gostaria de saber, no seu trabalho, quando você vai pintar a parede, você costuma fazer a arte totalmente finalizada antes e daí você vai na parede com um projetor, nesses murais grandes que você faz? Ou você costuma fazer um esboço, pegar referências e produzir a arte, deixar fluir,
mais o processo na parede mesmo. É uma dúvida que eu tenho sobre o seu trabalho e também uma dica que eu gostaria de receber para o meu trabalho próprio. Obrigado. Qual o nome dele? Otávio. Otávio. Legal. Pediu dica para a pessoa certa, né? Cara, eu sou meio das antigas, entendeu? E o que ocorre? Eu tenho um método de trabalho que eu faço aqui em São Paulo e em qualquer lugar do mundo, que é a técnica do quadriculado, tá bem?
não uso outras técnicas, porque o quadriculado, pro tipo de desenho que eu faço, ele me traz mais segurança. Eu chego lá, quadriculo o prédio, tenho o quadriculado no desenho e consigo seguir exatamente ali. Mas por que eu acho bom o quadriculado? Chegou um determinado ponto, eu posso requadricular ou quadricular menor algumas áreas, tipo olho, boca, alguma coisa assim mais detalhada e consigo evoluir a pintura.
Sempre é possível evoluir. É muito difícil você chegar e falar, eu finalizei esse mural. Você só para. Porque na característica que o meu trabalho tem de realismo, é sempre possível seguir evoluindo. Agora, para concluir, sobre ficar decidindo na hora, como eu falei, eu chego a fazer 10, 20, 30 desenhos diferentes. É poético, é bonito achar que você acordou de manhã, inspirado e tal, e vai lá pintar. Existe.
Mas o que existe é uma busca incessante pela evolução, para chegar no resultado e na qualidade necessária. Então, quando alguém me convida em qualquer parte do mundo ou qualquer parte do Brasil, eu peço as medidas, peço a foto do local. Com essa informação, eu passo a desenvolver os desenhos já sob medida. Não adianta você ter uma excelente ideia que só funciona num espaço horizontal e a parede é vertical.
janelas, tem várias portas. Tudo isso precisa ser estudado meticulosamente. E a arte também está nessa aplicação no espaço que está disponível. Isso aí é uma das partes mais importantes também. Pra funcionar, né? Como que essa arte se adequa àquele espaço. Isso é importantíssimo em todo o processo. Beleza? Quantas pessoas participam de um mega mural cobra? Eu tenho dois caras. Um deles é o Agnaldo.
o Aguinaldo e o Marcos, que estão comigo já. O Marcos era letrista. Ele fazia letras, mas o cara é doido total, porque ele fazia isso em laterais de prédio, logomarcas, caixa d'água, pendurado na cadeirinha. Então ele é um cara muito capacitado. E o Aguinaldo um dia foi de bicicleta lá na minha casa. Ah, eu gosto de desenhar, eu vi matéria sua,
em algumas revistas, gostaria de uma oportunidade. E ele está comigo até hoje. Então são parceiros assim, nota mil. Mas eu criei um projeto também que eu abro oportunidades quando eu estou em outras cidades. Por exemplo, lá em Houston. Para fazer essa interação. Lá em Houston, eu também estou abrindo essa oportunidade para interagir com artistas dali da região. E o Aguinaldo, sim,
Como falar mais uma vez? Ele, há anos atrás, talvez 10, 12 anos, caiu de um andame de 11 metros de altura. Nossa Senhora. Ele caiu de cara no chão. Foi de cara. Ele caiu de cara, mas ele caiu com as mãos. Então ele fraturou todos os ligamentos, a mão toda, rachou o céu da boca. Minha nossa. E está com 50 pinos no rosto. Mas está bem. Não, hoje sim. Está ótimo, está pintando. Não, hoje sim.
Mas ele ficou na UTI um tempão, assim. Foi um pânico... Renasceu, né? Foi um pânico geral, exatamente. Que doideira. E o cara continua no mesmo ímpeto comigo, nas paradas todas e tal. Sobe e desce. Já passou essa fase. Ô, Cobra, a minha mãe é uma exímia cozinheira. E ela gosta muito de cozinhar e tal. Só que ela tem também, na casa dela, ela tem uma cozinheira. E aí, já aconteceu várias vezes, assim, da gente estar num fim de semana, aí eu viro pra minha mãe e digo, nossa,
que vontade de comer aquele peixinho que a Lena faz. Aí ela diz assim, que Lena? É minha receita. Eu falei, sim mãe, você também faz o peixe, quando você faz é maravilhoso. Mas a Lena faz no cotidiano. Ela, não, não, não. É o meu peixe com banana, não é o peixe da Lena. Tô te perguntando isso porque certamente parte do seu trabalho é dividida com a sua equipe, né? Do trabalho mesmo, da coisa de estar fazendo. Você não executa ele sozinho.
Até onde você acha que isso diz respeito sobre a autoralidade? Porque pra minha mãe, ela pode nem ter tocado no peixe. Ela que passou a receita, o mérito é dela. Funciona assim, no meu ponto de vista. Eu jamais chegaria a lugar algum se eu não estivesse conectado com pessoas competentes, principalmente em áreas que eu desconheço.
hoje um escritório que cuida de vários assuntos burocráticos, complexos, contratos e exigências. Assim, quando eu recebo um e-mail, pra você ter uma ideia, tem trabalho que a gente vai realizar um ano depois. Antigamente, quando eu botava meu numerozinho lá no muro, o meu telefone chegou uma hora que ele tocava de 10 em 10 minutos. Por quê? Porque era um movimento novo. Eu sou um dos precursores disso.
Então as pessoas olhavam aquilo, excepcionalmente, porque eu não tinha muito essas máquinas de impressão e tal. Então as pessoas ficavam me ligando, querendo promover os produtos delas e me chamavam para pintar, fachada das oficinas mecânicas e tudo isso. Então eu desenvolvi uma técnica, desenvolvi um método de trabalho, construído ali nas ruas, sem nenhum incentivo e também nenhuma referência.
vida, a mensagem e o significado das minhas obras. Seja a respeito de racismo, de violência. Eu cheguei a ver duas pessoas mortas ali, sendo mortas ao meu lado. Questões de paz, de coexistência. Todos esses são assuntos pertinentes a valores que eu acredito que eu estou envolvido de alguma forma. E o meu trabalho foi todo alicerçado em cima disso. Agora, como eu citei aqui o Aguinaldo e o Marco, sim, eles estão comigo.
eles são imprescindíveis no processo da produção. Embora eles não saem e vão lá fazer o trabalho por mim. Não, eu estou em todos os trabalhos, faço toda a parte de acabamento também, de desenho, eu estou em todos os processos. Só que a parte da criação, ela é única e exclusivamente comigo. Mas, obviamente, que eu não conseguiria fazer... E outra, seria um horror,
viajar pra vários lugares, eu já fiz isso algumas vezes, sozinho, porque tem vários processos ali, né? Parece que não, mas comprar os materiais, ver se os materiais estão corretos, preparar o balancinho, cinto de segurança, quadricular, um cara não consegue quadricular sozinho. Alguém que usa um projetor consegue, porque o projetor tá ligado, o cara vai desenhar. Mas você não consegue quadricular, né? Então tem várias áreas,
Ali que são imprescindíveis. É engraçado isso, né? É que nem pra gente. O pessoal vê o programa no YouTube e acha que são duas pessoas sentando numa roda. Quantas pessoas estão na equipe escrevendo as perguntas? Não, eu tenho que pesquisar a vida da pessoa. Completamente. Pra fazer as perguntas. Ele tá ali lindo, né? Mas teve um puta processo. Você imagina que até hoje eu não falo inglês, tá? Mentira, cobra! Até hoje eu não falo inglês.
Eu tenho essa deficiência. Engraçado. Eu sabia que você não era da leitura, mas não falar inglês até hoje me surpreende. Falar língua da arte. O que acontece? São 58 murais nos Estados Unidos. 58. Então você imagina a quantidade de vezes que eu tive que ir pra lá. E ficar um tempo lá. Sem falar vários outros países na Europa, vários lugares. Porque quando a gente fala Itália, tudo bem, eu fui pra lá, mas tem oito murais na Itália, por exemplo. Inglaterra, já fiz uns três. Vários lugares do mundo.
A galeria que eu trabalho, ela está em oito, dez países. E ela sempre que faz eventos, eu tenho que ir para os eventos. Claro. Estou lá junto, faço live paints ali. Sempre ela bota um painel lá. Então você imagina a interação com as pessoas ali, o quão complexo se torna em vários níveis. Então por aí você vê o quão importante é o time. Mas eu tenho duas meninas no meu time que resolvem isso.
Mas não é o mundo perfeito. Sim. Acho que a maior decepção da minha vida é não falar inglês. Mas só que você... Eu falo a verdade, cara. A maior decepção. Eu sei que você é insônio em um dos seus problemas de saúde, que você já mencionou, é justamente ficar horas sem dormir. E você fala que você mergulha em filme, documentário, tal. YouTube, Duolingo. Por que não? Então, tem um motivo que é muito interessante. Eu já me matriculei e já comecei vários cursos de inglês.
Sabe qual é o problema? É a instabilidade mesmo que a minha saúde tem. E isso é muito, muito grave. Quando eu falo que eu não durmo, eu não durmo mesmo. Eu tenho uma insônia crônica. Além de problemas de intolerância alimentar que eu tenho... Hoje, eu estou com um problema de intolerância alimentar tão sério que eu não posso comer nada que tem glúten, nada que tem leite, ovos, açúcar, frango. Frango tem que ser corinho, por exemplo.
Porque... Qualquer coisa pode dar uma ultra sensibilidade. Não, mas não é. Eu passo mal mesmo, assim, sabe? É praticamente um monjaro sem um monjaro. Tem uma coisa que chama eixo intestino-cérebro. Então, se isso tá ruim, no meu caso sempre tá, eu me sinto bem quando eu corto todos esses alimentos. Então eu tenho essas dificuldades que permeiam tudo isso. Pobre Andressa. Só que Andressa, sim, Andressa,
junto há 20 anos. Mas por quê? Porque a Andressa me conheceu e eu tomava 12 comprimidos de tarja preta por dia. Ela me conheceu assim, por isso que eu falei, conheceu esse doido. Eu tomava 12 comprimidos, de verdade. Eu sofri um problema chamado despersonalização. Eu nunca fui viciado em nada, mas eu era viciado nos remédios. Eu ficava, eu tinha que estar segurando aqui, vendo que ele estava no meu bolso. Então, eu tentava parar, mas toda vez que eu era psiquiatra, ele trocava, toma esse, agora toma esse, toma esse.
Até que chegou um dia que ele falou, vou ter que... Ó, vou te dar esse cartão. E esse aqui é um amigo. E ele tem uma clínica lá. E você vai ter que ficar internado lá. Eu já falei com ele e tal. E vai ser isso, entendeu? Pra se desintoxicar. É. Mas aí, como eu falei, sou meio cabeçador. Rebelde. Não foi. Aí eu saí, rasguei esse cartão e falei, cara, eu não vou fazer isso, entendeu? Porque eu não quero mais esses remédios. O que eu quero é entender como é que eu paro de tomar esses remédios.
Porque eu não sabia mais quem eu era. Eu estava, assim, alucinado. Me trouxe transtornos absurdos. E foi aí que eu conheci um cara chamado Austragési Lucarrano, que fez aquele filme Bicho de Sete Cabeças. Eu fiquei amigo dele e ele tinha essa luta antimanicomial. O filme é uma pedrada. É muito doido. E quando eu assisti esse filme e conheci ele, ele começou a me explicar tudo sobre essas questões, os remédios.
Sim, sim. Aquela história dele. Ah, não sabia disso. E aí o que acontece? Eu comecei a parar com os remédios. Se eu tomava 12, eu cortava metade de um, ficava com 11,5. Mas eu fiquei anos e anos nesse processo. Caramba. A sua insônia tem a ver com isso, você acha? Ou já era antes mesmo desse episódio? A minha insônia, a conclusão que eu cheguei, é que ela tem a ver com a intolerância alimentar também.
e essa questão da inflamação que eu tenho. Esses dias mesmo eu tive que cancelar vários compromissos, inclusive pintei três obras lá para as Olimpíadas de inverno e tive que cancelar com passagem comprada, eu ia fazer interação com os artistas, eu tive que cancelar porque eu estava num processo mal, estava muito mal. E aí o que eu entendi? Como eu sou hiperalérgico, eu sou muito alérgico, eu estou num processo de alergia alimentar, intolerância, tudo isso.
isso, meu cérebro não desliga. E eu tenho prova disso porque quando eu tô bem, cortando todos os alimentos, beleza. Mas pra eu viver realmente bem, eu tenho que ficar dentro da minha casa comendo ali tudo certinho. Como eu viajo pra muitos lugares, eu não consigo ter uma constância na alimentação. E é um horror isso. Isso é um pesadelo. Não é Cristo que consiga decorar uma língua nova nessa porta. Por isso eu comecei essa história.
eu marco, faço três dias de aula, aí no quarto eu tô assim, aí eu cancelo, aí depois eu continuo, aí depois o pai chega uma hora que fala, eu tô cansado e... Deixa eu só seguir pra perguntar isso aqui, porque uma das coisas mais lindas que eu ouvi você falar é sobre a sua arte da mão de Deus resgatando a pessoa no fundo do poço, que você fez ali, teve episódio da Catarina, sua filha, que eu fui procurar o significado que é pureza, casta, então assim,
aquela criaturinha ali pura e casta marcou muito a vida de vocês naquele momento. E você faz essa obra de arte que toca outras pessoas. Eu imagino que fazer uma obra de 5 mil metros quadrados deva ser avassalador. Mas emocionalmente, essa obra de arte foi a mais difícil para você? O momento, sim. O momento foi muito delicado, porque o que ocorre?
esse movimento. A minha esposa estava internada para ganhar uma segunda filha, que seria a Catarina. E aí, o que ocorre? O bebê nasceu, mas 12 horas depois faleceu. Então, você imagina, a gente estava com o quarto pronto, naquela expectativa e tal, etc. Mas aconteceu isso. E ela quase morreu também. Ela perdeu litros de sangue ali e eu estava junto lá na hora.
tava lá segurando a mão pro bebê nascer. E aí eu comecei a ver os médicos em pânico, aquele mundo de sangue saindo, aí falei, Jesus, o que tá acontecendo, né? E logo depois, a bebê ainda foi lá pro, como é que fala? Pra incubadora. Incubadora, né? Até chorou, ela tava lá e tal. A minha esposa nem viu, nem chegou a ver o bebê, né? Porque ela quase morreu ali, ficou no UTI e o bebê lá na outra. E eu tendo que administrar tudo isso, né?
com esse turbilhão de questões que eu tenho. E foi muito delicado. Eu fiquei no fundo do poço. Eu não imaginei que seria tão pesado, mas foi bem difícil. Porque nós cremamos, eu fiz todo o processo. E depois, nessa expectativa do que ia acontecer com a minha esposa também, tive que enfrentar tudo isso. E aí, quando ela voltou para casa, nós tomamos essa decisão de mudar de casa, de sair dali. Foi aí que surgiu Itu na minha vida.
Porque até então eu morava atrás do Chapeu Dourado. Exato. Foi buscar mais tranquilidade. Mas eu seguia nesse processo de fundo do poço, de angústia, de desesperança, de depressão. E foi aí que eu resolvi pintar esse mural. E foi através da palavra de Deus que eu obtive realmente esse renovo, essa perspectiva. Então assim, as pessoas perguntam qual é a minha fonte de inspiração. Hoje a palavra de Deus é a fonte total da inspiração.
do meu trabalho, dos conceitos, dos princípios. E isso já vem antes da morte da Catarina, né? Então, isso foi importantíssimo nesse meu processo de depressão. Eu tinha uma depressão, assim, meu, de não querer viver mais. Então, eu não tinha onde buscar uma saída, tá? Na realidade, eu tive psiquiatras, tive psicólogos, mas no meu caso, não resolvia, tá? Talvez por eu ser muito rebelde, por eu viver
muito sem regra. Eu não sei exatamente, mas, na verdade, eu também pintei muitos anos sem usar máscara e tive esse problema de intoxicação. Tudo isso culminou em todos esses problemas. Então, eu saía todo dia lá de Tu, vinha para São Paulo, no Minhocão, pintar esse mural e aquela mão ali de Deus, a expressão que eu tinha ali, era justamente essa. Mas eu não estava bem ainda enquanto eu estava pintando, mas eu estava nesse processo de resgate mesmo. Então, aquela mão, eu pensei justamente nisso.
Deus me resgatando. E realmente foi através disso que eu posso estar aqui hoje com vocês. Você acha que pro tipo de arte que você produz, considerando seus pares, o fato de você ser religioso é uma questão? Foi, foi por muito tempo, tá? Foi por muito tempo. Porque eu sempre tive essa busca pela espiritualidade, na verdade, tá?
saía da igreja e tome-lhe cachaça. Então, eu levei... Não teve droga, mas teve álcool, né? Muito. Muito álcool, bebia bastante. Dei PT em dois carros por causa de álcool. Ai, ai, ai. Então, eu tava nessa busca. Como eu tava muito doente, com depressão e tudo isso, eu ia onde me falavam. Olha, tem uma pessoa lá no Maranhão, eu pegava o avião e ia lá. Eu tava em busca de cura e tava em busca de qualquer coisa nesse sentido. Foi aí que...
eu encontrei no evangelho o que eu precisava. Essa restauração. E aí o que acontece? Eu não falava isso pra ninguém. Eu realmente não falava. Eu ficava quieto, mas na verdade essa é uma busca que eu já estou há mais de 20 anos. Mas eu não falava. Por que eu não falava? Porque, cara, a galeria que eu trabalho, os donos são judeus. Eu trabalho com árabes. Eu trabalho com... No mundo todo.
Eu falei, quando eu falar isso, as pessoas vão me colocar dentro de um espaço, vão me rotular por uma série de questões. Mas aí, por que eu comecei a falar? Comecei a falar porque é o seguinte, foi onde eu obtive resgate, foi onde a minha vida verdadeiramente mudou, onde eu encontrei um caminho, uma direção que eu não tinha. E outra, quando eu ia conversar com um muçulmano, ele falava com tanta clareza e veracidade do Islã ali, que ele adora.
tava com um judeu, pô, da sexta-feira os caras já param de trabalhar, já vai fazer tudo ali e fala isso abertamente, outras religiões, por que que eu também não posso falar? Entendeu? Mas não se trata de uma denominação X, Y ou Z, não se trata. Mas se trata do evangelho, do qual as denominações costumam distorcer. Isso é um outro assunto, tá? Mas o que tá lá é muito puro, muito verdadeiro e muito realista e tem o potencial de transformar a vida se você realmente
renunciar a muitas outras coisas. É um caminho muito bacana. Não tem a ver com a igreja exoítica. Porque a igreja vai decepcionar muitas vezes. Mas o evangelho nunca decepciona. O livro é bacana, o que estraga o francurio de vez em quando. Tem questões. Infelizmente tem questões. Mas isso não muda a origem. Eu sei que você tem um sonho de pintar o maspo um dia. Ainda é um sonho? Você sabe,
que eu... Eu nunca fiz uma exposição de verdade. Sim. Nunca fiz. Fiz pequenas... Mostras. Pequenas células, assim. Quando a galeria me chama, é uma noite, um dia. Fiz coisas bem pequenas. E sempre passei ali, vi aquelas colunas vermelhas, né? E eu ainda penso em fazer uma intervenção ali. Nem que seja temporária. Claro, temporária. Faz, depois eles tiram. Mas seria bem legal. Assim como eu fiz lá na fachada da ONU, né? Pois é, porque temos fachada da ONU que virou ceia,
temos nos grandes eventos internacionais, como você falou das Olimpíadas de Inverno e tantos outros. Meu Deus do céu, numa grande pedreira de Carrara na Itália, você pintou a cara de Davi. É impressionante que até agora o Masp não tenha ouvido isso. Alô, é o sonho do homem. Fiquem ligados. Eu queria só confirmar se era mesmo. Vamos lá, faz parte ainda. E sobre cidades, Cobra, tem alguma que você
era muito fazer um mural e ainda não tenha tido a oportunidade. Bom, eu vou fazer o Itu. Mas esse aqui tinha que ter 6 mil metros quadrados, né? O Ditu, 60 mil metros. O Ditu tinha que ser o maior de todos. Mas realmente, tem a Praça do Orelhão lá em Tua, onde tem o semáforo gigante. Aí tem um prédinho ali do lado, né? E eu vou pintar esse prédinho nos próximos dias. Que legal. Ele vai de Houston aí. Olha o prédinho de Tua, eu adoro.
cara, e tu mudou minha vida. De verdade, assim. É incrível. Primeiro, não tem trânsito. Eu consigo almoçar na minha casa. Eu vou buscar meu filho na escola e levar muitas vezes. Como que eu conseguiria fazer isso aqui em São Paulo? Então existia uma ilusão muito grande. Eu tava morando ali atrás do Chapeu Dourado. Ah, mas é tudo tão perto. Perto vírgula. Você vai chegar em qualquer esquina ali, você leva meia hora. É óbvio. Quarenta minutos. Eu não conseguia fazer essas coisas que eu faço ali. E ali, foi ali que
consegui montar o meu ateliê dentro de um museu. E esse ateliê... Porque o meu trabalho sempre teve esse propósito de arte ao acesso de todos e tudo mais. Eu gosto disso. De pessoas simples poderem ter acesso, entenderem esse universo, participarem. E aí eu fiz o meu ateliê aberto ao público. Então ele é aberto sexta, sábado e domingo. É uma coisa que eu consegui ali na cidade. Tem um museu incrível lá, que chama Museu Fama. Bem bacana, bem bonito.
Uma área linda. E aí eu tenho um ateliê ali. Foi ali que eu consegui a concessão.
de um espaço, que é um espaço de 8 mil metros, que já tem dois galpões, a gente reformou esses dois galpões, e ali que eu tô fazendo um instituto, que inclusive, acho que daqui um ou dois meses o prédio já vai estar completamente reformado. Que máximo. Então eu não consegui essas coisas em São Paulo. Ah, e tá perto daqui também, né? É isso. Pra quando eu precisar vir, tu é aqui do lado. Quando eu fui pra lá, eu fui provisoriamente. Eu não sabia o que ia rolar. Mas aí eu passei a descobrir algumas coisas.
Minutinho, eu tô em Campinas, aeroporto ali, de boa. Viracopos. A passagem é mais barata do que de Congonhas. Comecei a perceber algumas coisas, né? Mas, acima de tudo, a qualidade de vida mesmo. É porque, assim, eu tô na pauleira o dia, o tempo inteiro. Quando eu vou pra casa, eu quero ter um ambiente tranquilo, sabe? Eu tenho quatro cachorros, né? Então, eu tô com eles ali. Eu precisava disso. Pé no chão, né? Volta. Fez parte da minha cura. Claro. E Pedrinho tá nessa mesma onda artística?
Seu filho? Bom, eu quero que ele seja feliz na decisão que ele tomar, né? O que ele quiser. É que eu já vi ele do teu lado lá brincando, né? Mas eu percebo que ele tem uma forte vocação artística. Eu não sei se é exatamente pintura. Sangue não é água, né? Mas ele tá sempre desenhando ali, ele gosta bastante. Por que que eu não envolvo mais ele? Porque a tinta é muito tóxica. Claro. Mesmo usando máscara, né? Então me preocupa um pouco.
tô num processo com ele, né? Vamos ver o que que vai dar. Ele entende o teu tamanho, Cobra? É... Ele já foi pra uns oito, nove países comigo, né? É legal que, assim, quando foi a minha primeira viagem internacional, né? Não sei. Foi, eu sabia. Sei lá que ano que foi isso, mas não tem tanto tempo assim, né? Agora ele, olha só as oportunidades que ele já tá tendo e essas portas se abriram através da minha própria arte. Claro. É, então...
A primeira viagem foi pra Lyon, né? Então foi... 2004. Eu anotei. Eu acho que foi 2004. Não faz tanto tempo, vai. Mais ou menos. Mas bem mais velho do que ele, né? Bem mais velho do que ele. É, exato. Cobra, outra coisa que eu tenho uma dúvida pra saber é... A gente falou sobre nãos, os nãos que você recebeu, mas eu quero saber dos nãos que você deu. Os nãos que você deu. Sim.
É o que você falou, quando chega com Rolls Royce, Coca, etc, etc, etc. Teve algum não que te doeu? Que você falou assim, cara, não tem a ver comigo. Manter a coerência. É isso. Eu acho que é a parte principal da nossa vida. Assim como eu estou falando aqui dos valores e tudo que permeia a minha história, eu também não posso me conectar àqueles que não estão dentro dos conceitos que eu acredito.
princípios de tudo que hoje me deu uma base sólida. Então, por exemplo, seria indelicado aqui citar a marca específica, mas teve uma marca de bebidas internacional, mundial, famosíssima, que ela botava sempre nos rótulos dela artistas importantíssimos, da história da arte mesmo. Ela tem essa garrafa premium e fazia campanhas mundiais com esses artistas. E eu tinha um sonho de fazer essa marca.
Falei, cara, um dia, se eu conseguisse essa marca, meu trabalho ia estar em todos os lugares. Como ela tem esse trabalho com arte também, vai ser top. Porém, eu tive problema, eu nunca fui alcoólatra, mas eu tive problemas de beber um pouquinho a mais da média. Então, tudo bem. Isso aí me prejudicava bastante. E o que acontece? Um belo dia a gente recebeu um e-mail lá de Londres e era... A marca.
porque eles tinham visto aquele mural do Boulevard Olímpico, das etnias, e eles me convidaram para fazer não só essa garrafa, que era a prêmio deles, mas toda a coleção e toda a campanha global. Só que eu já tinha parado de beber nesse momento, certo? E eu entrei num conflito ali, mas eu também estava naquele, mais ou menos, sabe? Estava assim. Aí eu negociei com eles, dei um preço para eles, falei, meu, custa tanto para fazer
campanha. Eu cobrei muito mais caro. Eu falei assim, quer saber? Como eu não tô muito seguro, vou cobrar muito mais caro e aí eles não vão querer mesmo e tudo bem e beleza. Eu fico tranquilo. Só que eles quiseram. Eu cobrei, sei lá, cinco vezes mais do que eu cobraria. E eles toparam. E beleza. Aí o que que acontece? Aí eu vim pra Vila Madalena e encontrei um amigo de longa data, né? E comentei com ele. A gente ficou conversando ali, não se via há um tempo e ele falou dos problemas que ele tava com o alcoolismo.
E ele... Aí como é que tu não vai acreditar em Deus? Ele havia sido internado sete vezes em clínicas de alcoolismo. Ele é um artista, inclusive. Não vou citar aqui porque foi internado sete vezes por causa disso. E aí na nossa conversa ele citou assim, cara, se você sente de fazer, faça. Mas um dia você vai passar numa calçada aí em algum lugar e você vai ver um cara lá caído no chão lá com a garrafa com seu rótulo na mão. Entendeu? Aí eu falei, putz, mano. Realmente é uma decisão seria.
que eu tenho que tomar aqui. E aí eu liguei pra eles e falei, olha, vocês me desculpem, mas a minha agenda, eu falei que faria, mas a minha agenda não vai permitir, porque eu tô com muita coisa, não vou poder entregar a qualidade que vocês merecem. Deu uma desculpa pros caras. Não deixa de ser que você não ia entregar a qualidade. Deu uma desculpa pros caras, mas a resposta surpreendeu. Eles ficaram revoltados, óbvio, né? E eles falaram assim, cara, nós já traçamos a campanha global inteira contigo e a gente vai
pagar o dobro do que você falou. Mas você não vai cancelar. Você acredita que... E você cancelou. E aí eu tive que manter o cancelamento. Mas isso é que é se manter fiel aos seus princípios. Não é? Porque nós estamos falando de dez vezes. Dez vezes mais do que ele cobraria. É isso que eu estou te falando, entendeu? Agora sim, com o Instituto que eu estou fazendo agora, com toda essa história, com os problemas que eu tive com o álcool, DPT em dois carros, seria uma coisa completamente incoerente eu realizar esse trabalho.
Você entende? Hoje eu entendo que eu fiz a coisa certa. Eu não me arrependo uma vírgula e foi um momento de decisão. A partir dessa decisão, muitas outras eu também me senti seguro pra tomar, sabe? E faz muito bem fazer isso. Mas me fez muito bem, assim, poder me manter íntegro ali nos objetivos da minha obra, né? Porque a minha obra, ela não é aleatória. Eu não vou lá e pinto alguma coisa só porque a mídia tá falando sobre isso,
ou aquilo vai me promover em algum aspecto. Não, são coisas que realmente eu acredito. No seu Instagram, sua biografia não é artista, é ativista da paz. É isso. Então é isso. Eu estou em busca disso, sabe por quê? Porque o que acontece é assim, primeiro que artista, lá quando eu comecei a pintar, eu era chamado, eu era de maloqueiro vagabundo. Então, não era uma palavra que eu aprendi a conviver. Isso veio depois, então eu não estou preso a isso, entendeu? E como eu te falei,
O difícil para mim é negar um trabalho. Isso é difícil. Até hoje é difícil, sabe? Por que é difícil? É difícil porque, assim, você imagina tantos anos trabalhando, hoje recebendo convites do mundo todo, literalmente. Para você ter uma ideia, até o muro da faixa de gás me chamaram para pintar. Caramba. Até esse muro. E eu estava negociando pouco antes
para continuar falando da questão da coerência. Pouco antes de ter aquela invasão. Do 7 de outubro. Foi o lado da Palestina. Mas o que acontece? Eles me convidaram. Ah, a gente quer que você pinte aqui o muro, tal, tal, tal, tal, perto de Belém. Uma coisa assim. Falei, tudo bem. Criei um projeto. E esse projeto era o quê? Era um projeto que falava sobre amputados. E assim, eu descobri que lá tem um
time de futebol só com jogadores amputados. E a partir disso eu criei esse projeto e eu dei o nome de Sonhos Amputados, que era o quê? Famílias, pessoas ali que tinham um sonho, não eram guerrilheiros nem nada, mas uma bomba cai na casa do cara, a menina tem o sonho de ser pianista, a mão amputada e por aí vai. Porém, eu falei uma coisa, olha, com esse projeto eu vou buscar também o outro lado do muro.
fazer se os dois lados autorizarem eu puder realizar esse trabalho. Por quê? Porque isso não é um problema só de um lado. Os inocentes estão ali sendo bombardeados de um lado e do outro. As famílias estão sofrendo. Então, foi isso que eu busquei. E nós estávamos ali com quase total aprovação pra realizar o trabalho. E aí veio o 7 de outubro? Aí veio o conflito e eu não pude realizar. Eu acho que na Cisjordânia, né? Você é perto de Belém? É do lado de cá.
Palestina se joga. Que doideira. É muito interessante, assim, tudo que acontece através da arte. Por isso que eu falei que pra mim é muito difícil negar, porque se eu falo, olha, quer saber, eu vou ficar sentado aqui assistindo minha TV de boa, não vou pra Houston, Texas, não. Mas o que vai acontecer depois que eu for? A partir dali. É uma Madonna que vê na High Line, te chama pra ir pro Malawi, você pega uma doença do capeta no Malawi, mas faz a tua obra.
Foi isso mesmo que aconteceu. Mas é isso. As coisas vão acontecendo de acordo com aquilo que eu vou fazendo. Entendeu? E vão acontecendo coisas cada vez melhores. Você nunca sabe qual é a porta que vai abrir, né? Eu nunca sei. Mas eu só sei que se eu não for, nada vai acontecer. Eu vou ficar estagnado ali. E eu acho que eu não nasci pra isso. Definitivamente não, né? Já me perguntaram. Há uns 10 anos atrás, eu tava lá em Miami pintando, né?
Aí chegou uma menina, uma amiga nossa lá, falou assim, cara, quando você vai se aposentar, hein, velho?
anos, décadas, eu falei pra ela, olha, enquanto eu tiver força pra subir uma escada, seja lá qual for, eu vou continuar pintando, entendeu? E é isso que me motiva. Tela é legal, eu tenho feito telas, trabalho com essa galeria, que é uma das principais do mundo, hoje eu produzo as telas na Itô, ela vem, retira, faz, bem bacana, mas meu coração ainda tá nos murais. Tem que falar pro mundo, né? Ô Cobra, qual é o Brasil que você tá tentando pintar?
e qual é o Brasil que você se recusa a pintar? Cara, acho que a gente tem que buscar transformar o mundo que nós pertencemos, que está ao nosso redor, está ao nosso alcance. Eu tenho o enorme privilégio de ocupar as ruas como eu trabalho, de ocupar os murais e de fazer isso pelo mundo todo. Então, autodidata, comunidade, origem mais simples,
simples e ter essa possibilidade e essa responsabilidade. Então, eu acho que foi um presente de Deus para mim, sim, de trazer essas mensagens através dos murais, até mesmo de conscientização sobre muitas questões, sobre muitos mitos. Nós falamos aqui sobre a mão de Deus. É interessante, sim, porque os pares não aceitam muito bem isso. Mas tudo bem, é a minha verdade. Fez bem para mim. Eu não estou pregando aqui,
para ninguém seguir isso. Eu só estou dizendo que foi bom para mim. E as causas que eu acredito eu vou continuar pintando. Não é uma questão de posição política nem nada. É uma questão de que eu sou totalmente contrário à agressão aos animais. Eu vou continuar pintando sobre isso. Questões de intolerância. Tantas guerras que a gente está vendo por intolerância religiosa. Tanta violência. O mundo seria mais fácil se nós simplesmente aceitar...
pudéssemos aceitar a posição do nosso próximo e respeitar aquilo. Ninguém é obrigado a nada. Claro, ninguém tem que nada. Ninguém é, exatamente. E o que eu quero continuar é isso. Evoluindo, aprendendo e transmitindo esse conhecimento que eu estou também aprendendo na prática. Tudo que eu aprendi foi na surra. Na marra. Na surra, entendeu? E aí eu estou transmitindo isso. E eu acho que é isso que eu quero fazer.
continuar pintando e pintando com propósito. Não só o que eu faço como pintura. O que eu faço como pintura são mensagens. O que eu falo é uma questão da minha vida que está conectada a essas mensagens. Não dá para deslocar uma coisa da outra. Agora, a materialização disso é o instituto que eu estou fazendo, que é o legado. Eu acho que de tudo isso, esse propósito. Porque, assim,
Independente da questão política, eu viajo o Brasil inteiro e a mesma situação de quando eu era menino, ela continua a mesma até hoje. Eu não consigo entender realmente, é muito difícil para eu entender todo esse sistema de poder, mas eu sei que as coisas não mudam. A saúde continua com dificuldade, educação com dificuldade, pessoas morando em palafitas, tantas coisas que estão aí no nosso Brasil. A gente não precisa ir lá para a África.
Não. Basta atravessar a rua. Na marginal. Isso. Na marginal está ali. É isso. E eu acho que é isso. Eu acho que a arte pode ser uma ferramenta de transformação. Legal demais. Quem quiser ver mais de Cobra, tem documentário desse homem, autorretrato do Cobra, para poder ver. E muito material, largo material, extenso. Cobra, agradecemos demais. Sabemos que não é simples tê-lo aqui, dado tudo que você mencionou. Então, obrigada, viu? A agenda tranquila. Obrigada.
Obrigadão. E vocês, meio dia e meia, Rivo News, pra ver um mundo mais colorido. Que dia? Sexta-feira. Sexta-feira. Não hoje, nem amanhã. Sexta-feira. Sexta-feira, é isso. Beijo.