Episódios de RivoNews

BEATRIZ BUENO | RivoTalks #120

10 de março de 20261h26min
0:00 / 1:26:23

Beatriz Bueno é pesquisadora, escritora e criadora do perfil Parditudes, onde discute identidade racial, mestiçagem e a experiência parda no Brasil. Seu nome ganhou grande repercussão nacional após uma polêmica envolvendo sua saída de um programa de mestrado na UFF, episódio que ela diz ter sido marcado por pressões acadêmicas e disputas ideológicas em torno de sua linha de pesquisa.

No episódio, Beatriz explica o conceito de parditude, fala sobre as diferentes formas de racismo no Brasil e defende que a experiência das pessoas pardas muitas vezes fica invisível no debate público. A conversa passa por identidade, pertencimento, movimentos antirracistas, conflitos dentro da academia e os ataques que ela recebeu após suas posições ganharem repercussão.

Um papo intenso, cheio de nuances e que entra em um dos debates mais sensíveis da sociedade brasileira hoje. Solta o play!

___

Apoie o Rivo! Pix: 54.538.001/0001-13

Assuntos15
  • Racismo EstruturalDefinição e conceito de parditude · Experiência contemporânea das pessoas pardas no Brasil · Invisibilidade do pardo no debate público · Diferença entre pardo, negro e branco · Mestiçagem como identidade · Comunidade parda como espaço de fala
  • Liberdade acadêmicaSaída do programa de mestrado · Pressões institucionais e ideológicas · Conflitos com coordenação e alunos · Corte de bolsa · Boicote acadêmico · Violação do protocolo · Metodologia científica vs ideologia
  • Movimentos SociaisExigência de academicismo · Rejeição de pardos pelo movimento · Demanda para 'desenegrarse' · Invalidação da experiência parda · Falta de espaço para crítica interna · Purismo racial
  • Saúde MentalHumilhação por parentes brancos · Desqualificação do corpo pardo · Comparação desfavorável com irmã negra · Racismo intrafamiliar · Ausência de reconhecimento e afeto · Dano psicológico do apagamento
  • LiteraturaEstrutura e conteúdo do livro · Poema de abertura sobre dor e identidade · Gradação das oito formas de mestiçagem · Exercícios de reflexão para leitores · Abordagem acadêmica e acessível · Narrativa de transformação pessoal
  • Cultura e SociedadePressão para alisar cabelo · Manipulação do corpo na infância · Rejeição de características negras · Embranquecimento como política histórica · Processo em duas gerações de rejeição · Transição capilar e identidade
  • Historia e CuriosidadesAvó branca portuguesa com avô negro funcionário · Morte prematura do avô aos 26 anos · Rejeição racial dentro da família branca · Pais interraciais enfrentando discriminação · Duas gerações de rejeição de pessoas negras · Irmã que faleceu por suicídio em 2023
  • Segurança OperacionalClima de penalidade constante · Policiamento de pensamento e crítica · Impasse no campo progressista · Falta de espaço para questionamento · Afastamento de pessoas do povo · Moralismo paralisante
  • Atuação de Lucia na políticaFuncionamento das bancas de identificação racial · Injustiças em processos de seleção · Critérios discriminatórios · Desqualificação de candidatos pardos · Necessidade de aprimoramento de políticas · Binarismo racial nas decisões
  • Gaslighting e traumaInvalidação de experiências de racismo · Desmitificação racial · Efeitos psicológicos da negação · Comparação com dinâmica de 'gaslighting' de gênero · Multiplicação do trauma · Importância de acolhimento e escuta
  • Ideologia e Papéis de GêneroPretos associados a lealdade e ingenuidade · Pardos associados a criminalidade e malandragem · Mulatas associadas a promiscuidade · Estudos históricos sobre discriminação · Livro 'Tão Longe, Tão Perto' de Verônica Toste · Diferentes formas de subjugação
  • Transição capilarTempo perdido alisando cabelo · Tempo perdido em dreadlocks e box braids · Busca de afirmação constante · Falta de espaço para existir em paz · Alívio ao aceitar-se como parda · Responsabilidade de compartilhar aprendizado
  • Era VargasPropaganda estatal sobre mestiçagem · Casa-Grande & Senzala como obra estruturante · Superficialidade da análise de Freyre · Desconexão entre teoria e realidade · Cultivo da ilusão de harmonia racial · Invisibilização de problemas estruturais
  • Universalização de Direitos vs ParticularismosTensão entre universal e particular · Disputa de sofrimento entre grupos · Necessidade de unidade na luta · Fragmentação causada pelo interseccionalismo · Recuperação da identidade brasileira mestisa · Direitos como questão coletiva
  • Cancelamento e Reação PúblicaCaso Camila Pitanga · Violência de comentários na internet · Ataques pessoais sobre aparência · Saída de bolha segura do Instagram · Necessidade de amadurecimento público · Viralização incontrolável
Transcrição166 segmentoswhisper-cpp/large-v3-turbo

Bem-vindos a mais um Rivo Talks. Hoje esse Rivo Talks está sendo só comigo. O Gabriel teve questões pessoais, não pôde estar presente, mas eu estou aqui garantindo esse acontecimento mais uma vez, mais uma gravação de Rivo Talks, esse espaço de conversa que abre portas para que vocês conheçam o Rivo News, nosso resumo semanal de notícias, onde a gente tenta trazer todas as atualizações que aconteceram numa semana sempre com nuance. Sempre com o quê? Com o cinza.

no meio. Aquilo que não é só preto nem branco. E é por isso que esse assunto tem tudo a ver com a senhora Beatriz Buena. Bem-vindo, que está aqui com a gente no Rivotalk hoje. Seja bem-vinda, Bia. Obrigada. Muito obrigada. Posso chamar de Bia? Com certeza, pode ser. Seja bem-vinda, viu? Estou muito feliz de estar aqui hoje. É uma honra para mim. Eu fui citada no Rivo pelo Gabriel, que infelizmente não pôde estar aqui. Mas estou muito feliz de estar aqui hoje.

A gente vai bater um papo muito legal. Assim que o Vila falou de você, falou sobre

o Brasil ser um país mestiço, imediatamente o Gabriel trouxe menção ao seu trabalho e foi antes de toda a polêmica recente envolvendo seu nome com a sua saída da UF. Eu quero muito que você fale disso, já já a gente entra nesse assunto, mas antes de mais nada, para quem não sabe quem é a Beatriz Bueno, o que você está fazendo de trabalho na sua vida, eu quero que você explique. Por favor, se você tivesse que ensinar,

Parditude para uma tia do churrasco, assim, em um minuto ou de forma bem simples. Qual seria a metáfora para explicar? Parditude é a experiência dos pardos no Brasil. Eu costumo fazer um paralelo com o termo negritude, que já é um termo que as pessoas têm conhecimento, sabem do que se trata. É experiências, as vivências, né? O que a gente passa nessa sociedade em um contexto também atualizado, em meio urbano. Porque a gente tem muito conteúdo acadêmico

fala sobre a miscigenação brasileira de uma forma geral, sobre os rumos da sociedade a partir da miscigenação, mas contar a história dos pardos, principalmente do ponto de vista dos próprios pardos, é algo que é escasso nos estudos. Então, de uma forma bem resumida, seria a experiência dos pardos no Brasil em um contexto contemporâneo. Então, essa seria a forma que eu resumiria. Aprendendo com o olhar para trás, mas olhando para os pardos

texto de hoje, de século XXI, de inserção no agora. É isso que você quer dizer, né? Sim, não só a questão de olhar para trás, mas a questão da mestiçagem no Brasil é passado, presente e futuro também, e também o futuro mundial, porque a gente tem a multiculturalidade como um tema global, que cresce cada vez mais com imigrações, com a internet, com toda essa fusão, e isso diz respeito também à questão da miscigenação. Então, eu falo que é um

debate atualizado sobre o mestiço, porque o mestiço já foi tratado de diversas formas na universidade, na cultura brasileira também. Então, é uma questão atualizada, principalmente a partir do ponto de vista dos próprios mestiços. E o Partitude também se propõe a ser uma comunidade, que aí é algo totalmente inédito. É uma comunidade mestiça para tratar de questões multirraciais, questões das famílias mestiças, como nós vivemos em famílias mestiças,

como é lidar com esses conflitos dentro da sua casa, né? Porque muito se fala, é uma questão que tem aparecido muito pra mim, racismo no futebol, num campo, com o time adversário, aquela coisa que tem um distanciamento, mas a questão do racismo dentro da sua casa, a partir do berço, desde o ventre, que nós pardos, desde o ventre, as pessoas já começam, ai, como é que vai nascer? O cabelo vai ser mais próximo do crespo, ou do liso, e o nariz, né? Então eu falo bastante disso no meu livro,

tem olhos na gente desde antes da gente nascer. E olhando pra sociedade brasileira de uma forma que era o racismo tradicional, eu falo entre aspas, é sempre querendo branquear esse pardo, né? Então, ah, não pode nascer com cabelo ruim, tem que nascer com cabelo bom, termos racistas, né? E contemporaneamente, com as ações dos movimentos, começou um movimento inverso, de que, ah, não pode branquear, tem proibições de relacionamentos interraciais, que é palmitagem, esse termo,

que foi inventado. E tudo isso mantém o corpo das pessoas mestiças sempre nesse radar. Você é muito claro, você é muito escuro. E há um lugar muito desconfortável e que quando eu comecei a estudar isso, que foi em 2013, bem na época que teve as manifestações, começou um momento político novo no Brasil, que tem suas problemáticas, enfim, vários desdobramentos, foi quando eu comecei a estudar isso. Eu não encontrava bibliografia que tratava dessa questão.

questão. E aí fui estudando, estudando, até eu perceber que, ok, se eu não encontrei, está na hora de criar. A gente vai passar por todos esses pontos, porque até você chegar nessa criação, também foram anos aí. Primeiro você se aproxima muito da cultura negra, você assume essa identidade negra e depois você começa a olhar que, sim, não é um ou outro. Existe uma outra característica muito forte. E daí vem a questão do pardo. Mas esse livro teu aqui,

Bia, o Parditude. Por que eu resolvi ler ele na íntegra antes da entrevista? Primeiro, por um respeito ao seu trabalho, mas em segundo lugar, porque se a gente for ver só o que você fazia desde sempre nas redes sociais, ou a gente for ler só textos seus nas redes sociais, se a gente for ver o que as pessoas falam de você, a gente pode ter uma visão muito limitada sua. Ou que a sociedade induz a gente,

pensar de forma muito limitada sobre isso. E eu falei, deixa eu ver o início desse livro para ver se talvez com a linguagem acadêmica e mais organizada eu entenda melhor o que ela quer dizer. E eu acho que você foi brilhante na explicação e na trajetória disso no seu livro. E você abre com um poema seu e que eu acho que uma parte do poema explica muito, que é o finalzinho dele, o que você quer dizer. Que você fala, pegou a visão nessa realidade onde não existe

Se inscreveu isso aqui quando? 2020. E aí, 2025, você passa por uma experiência de expulsão

universidade. A universidade explica que não, fazia parte das regras discentes, você como aluna não teria cumprido requisitos necessários, mas você afirma, você fez a sua exposição sobre esse assunto falando sobre o que você passou. Explica pra gente o que aconteceu dentro da UF e o que isso revela pra você atualmente sobre a universidade, sobre militância, sobre liberdade acadêmica, liberdade de pensamento. Então,

Até você falou do poema, quando eu escrevi o poema, já na UF, que eu me formei em Rio das Ostras, eu me formei num campus pequeno da UF, e lá eu já vivia uma situação de que as pessoas não aceitavam o que eu estava pesquisando. Então, esse poema, eu quis começar o livro com ele, eu conversei com a editora que estava me ajudando nessa organização, e ela queria pôr no final, e eu falei, não, a gente precisa pôr no começo, porque ele acaba com uma dor, você lê o final.

e eu quero acabar o livro de uma forma positiva, mostrando que não é a pior coisa do mundo ser uma pessoa parda, eu quero mostrar o que tem de potencial nisso, então vamos abrir. Mas nessa época, realmente, era um peso muito grande viver dentro da universidade pública, querendo propor uma discussão sobre as questões raciais, sempre de dentro. Eu demorei para perceber o quanto é desafiador ser colocada como oposição ao movimento negro, movimento negro ou parditudinal,

porque eu sempre me vi dentro disso, criando algo ali para contribuir, para complementar o que eu percebi através dos meus estudos e também da minha experiência e ouvindo experiências de outros pardos que estavam faltando, porque todas as lutas precisam melhorar mesmo, se desenvolver. Se aprimorar, desenvolver. Isso, aprimoramento. Então, quando eu fui sendo colocada dessa forma separada do movimento negro, isso já começou na graduação.

graduação, eu comecei a produzir conteúdo sobre isso em 2021 e eu terminei minha graduação em 2023, já tinham esses atritos, porém os atritos eram com estudantes e os professores apoiavam o direito que eu tinha de estudar. Tanto que o Identidade Cinzas, que é o primeiro trabalho que você faz a respeito, um professor te ajuda a entrar, que você comece a pesquisa com ele, né? Sim, um professor, eu propus o projeto e ele não concordava

com a questão de eu falar que o pardo é mestiço, ele defendia que o pardo é negro, mas ele entendia que eu tinha direito de pesquisar isso, porque eu estava dentro da universidade pública e para isso que a universidade pública serve, né? Então eu tinha esse apoio. Porém, quando eu entro no mestrado, começa uma reverberação nacional e a turma tem o mesmo comportamento da turma da graduação, que era algo que eu já imaginava que eu ia lidar.

Porém, com a reverberação nacional, começa a ter uma pressão na instituição de movimento,

O orientador da Beatriz Bueno tem que falar para ela que ela não pode fazer isso. Como um programa deixa uma pessoa estudar isso? E o que aconteceu foi que a pressão que antes era só de estudantes, que sempre teve na graduação, se tornou institucional. E aí a própria coordenação do programa começou a trabalhar em conjunto com esses alunos, dizendo que eu não poderia fazer aquilo.

viço, usam essa palavra, ao que foi feito anteriormente e começam a boicotar, tentar boicotar a minha presença no curso. Então eu comecei a sofrer diversos assédios, mas eu não imaginava que eu seria expulsa. Eu não imaginava que teria essa possibilidade. Eu não imaginava. Eu fui surpreendida na reunião que eu fui expulsa. E você tentou argumentar nessa reunião? Não. Nessa reunião eu fiquei muda, com o microfone desligado,

psicológico completamente abalado e sabia que não teria, porque antes deles me expulsarem, eles cortaram a minha bolsa, né? E com a bolsa eu fiz um recurso imenso, com a ajuda de advogada, argumentei e eles ignoraram, então eu sabia que iriam ignorar e podia ser até pior, porque tinham alunos que estavam ali na reunião aplaudindo, mandando coisa no chat, assim, uma coisa, uma exposição mesmo, muito fora do protocolo, sabe? Então eu fiquei quieta, fiquei só acompanhando e pegando as

informações para tomar as medidas cabíveis depois. Mas eu vejo que, dentro do programa que eu estudei, eu vejo que é uma tendência de muitos programas de humanidades, mas não é toda a universidade. Tem muitos programas que são muito sérios. Inclusive, a minha co-orientadora é do Departamento de Sociologia da UF, e ela mesmo falou que no Departamento de Sociologia, por mais que tenha muita militância, isso não aconteceria. Mas eu estava num programa interdisciplinar, que tem menos das disciplinas duras, que dão um direcionamento científico,

E a militância fica maior do que a ciência. Então, por mais que eu tinha um trabalho com uma metodologia muito robusta para fazer o meu mestrado científico de coleta de dados, ia coletar dados de como os institutos de pesquisa coletam a informação da população como pardo e preto, mas na hora de reportar, reportam negros. Enfim, a gente ia fazer uma coleta enorme de dados e depois uma análise com referências teóricas,

o dó a desenvolver, mas o método científico, ele está secundário. A ideologia precisa vir primeiro, né? Essas ideologias. E eu acredito que isso acaba prejudicando a própria militância, porque pra militância melhorar... Eu sou uma militante, né? Eu entrei nisso, eu fiz tudo isso, você lê o meu livro, você sabe. A partir desse lugar de eu sou uma ativista, eu quero lutar pelo certo. A ponto de ouvir crítica dentro de casa, dentro do carro, sua família olhando pra você, deixa de ser militante chata. Sim. Sim, e eu compreendo,

muito o lado de alguns militantes, da forma como vem o meu trabalho, porque quando eu comecei também a estudar isso, eu também era assim, reativa, mas conforme você vai amadurecendo dentro da luta, você percebe que precisa ter questionamento interno, precisa evoluir mesmo. E eu vejo o meu trabalho como uma evolução para um novo momento da luta antirracista que seja mais apropriado para o contexto brasileiro. Então, eu acredito que cria-se, com a minha

expulsão com tudo que aconteceu, cria-se essa oposição de, ah, é a ciência ou a militância, mas a ciência auxilia a militância, se brecar a ciência não tem como se desenvolver, né? É muito engraçado, eu fui impactada pelo seu conteúdo, não foi no Instagram, foi no TikTok, que eu acho que o TikTok tem um algoritmo que te encaminha para outras coisas a depender do seu interesse e o Instagram ele fica um pouco mais nichado, eu acho, então eu tive acesso no TikTok e ali eu comecei a ver, quando o Gabriel comenta, eu já conhecia

trabalho, já via muita postagem sua e eu achava muito corajoso da sua parte, porque uma coisa a gente ia falar de nuance sobre aspecto político, todo mundo fala temos que buscar uma terceira via agora, a terceira via terceira via, entre muitas aspas, mas você criar essa nova nomenclatura de raça num assunto que é tão delicado e você deixa isso muito claro no seu livro, o IBGE determina que existe

pretos, pardos, indígenas, amarelos, brancos. E aí, quando vai para a lei de igualdade racial, cria-se um único bloco. E nesse único bloco, você fala que os pardos ficam muito à deriva, porque não são negros o suficiente para uma parcela da militância e não são brancos o suficiente para quem é branco.

Eu entendo que veio de uma angústia, mas de onde veio a coragem de você peitar isso? Porque você teve que peitar uma realidade da sua família, da sua casa, da sua mãe, que não é parda. De onde veio a coragem? A coragem, principalmente de expor na internet, ela vem da vontade de ajudar pessoas que estavam passando por essa angústia. Você falou, né? Vem da angústia. Então, eu tive um momento, bem 2020, na época da poesia, eu já estava estudando o tema, eu estudo temas raciais

de forma independente, na universidade a partir de 2017, quando eu começo a minha graduação. E eu estudava, estudava, estudava, e eu tinha um pensamento que vem muito... Por tudo que eu sofro, dá para entender por que eu fui ter esse pensamento em 2020, de que era, quando eu for doutora, aí eu começo a falar sobre isso. Porque você vê o que as pessoas falam de mim publicamente. Mas, conforme eu ia acompanhando o sofrimento de outras pessoas, que era semelhante ao que eu tinha vivido,

amizades, pessoas próximas, me procuravam porque sabia que eu estudava esse tema e falavam, nossa, não sabe. Fulano de tal foi desqualificado numa banca de heteroidentificação, destruiu a vida da pessoa, era a vaga dos sonhos dela. E eu vendo esse sofrimento acontecendo e sentindo um incômodo, que eu sou uma pessoa bastante religiosa, né? E sentindo um incômodo, sentindo um empurrão quase intuitivo de essas pessoas precisam de você agora, elas não precisam de você só quando você for doutora. E o livro, essa é a proposta, né?

do livro, que fala um guia pra te tirar do limbo racial. Porque você fala que o movimento antirracista cobra muito academicismo de quem fala sobre pardo, ao mesmo tempo em que fala que é um absurdo negarem as raízes lendárias da África, dos indígenas, não sei o que, é um absurdo que o conhecimento que passa adiante, isso não seja levado em consideração, mas pra você falar de pardo você tem que ter pós-doc.

Exatamente assim. Eu achei muito importante colocar isso no livro porque é uma contradição. Então, ao mesmo tempo que valoriza-se a experiência pessoal, a própria Patricia Hill Collins, que é uma autora muito referência para falar sobre interseccionalidade, ela tem um texto em que ela fala que a experiência subjetiva das mulheres negras é importante. Então, ela chega na universidade para querer impor esse lugar de...

levando em consideração a experiência subjetiva dessas mulheres negras, falando você não tem diploma, você não tem isso, você não tem aquilo. Só que agora que essas pessoas conseguiram se estabelecer, elas não percebem que fazem exatamente a mesma coisa que foi feito com elas no passado comigo. Mas eu sempre falo no meu conteúdo que o meu objetivo principal com a exposição pública na internet é a questão de ajudar as pessoas pardas que passam por angústia. Tem gente que me procura,

duas, seis, eu já perdi a conta depressões fortíssimas, sabe? Deixam de ter vontade de viver, porque passam por situações em faculdade de serem perseguidos como fraudadores e não são fraudadores, né? Então, esse é o objetivo da exposição na internet. E aí, o trabalho de pesquisa da academia é pra poder impactar futuramente as políticas públicas, as questões mais coletivas. E o terceiro objetivo que eu gosto de falar é da gente reconhecer o Brasil como um país mestiço e recuperar uma unidade

que a gente foi perdendo nas lutas com a interseccionalidade levada a esse ponto duro e extremo em que a gente foi se fragmentando. E eu acredito que o potencial de reconhecer o país como um Brasil mestiço pode unificar a gente como um país com uma identidade que luta por universalização dos direitos. A gente tem um problema de falar hoje em dia sobre universalização porque tem um trunfo de militância, um sofre mais que o outro, isso tem dificultado.

a nossa luta, né? Você tem que fazer uma disputa de sofrimento o tempo inteiro, né? E é muito... Porque, assim, eu quero voltar um pouquinho na tua história, porque é muito chocante as histórias que você fala e que eu vi que eu convivi com muitas amigas claramente pardas e que eu nunca pensei que fossem pardas ou que tivessem uma... Por não terem pais, nenhum pai, nenhuma mãe, negros retintos, eu nunca

imagina, se você na sua infância tinha dificuldade, imagina eu. Então assim, de fato eu nunca pensei nisso e lendo o seu livro me caíram muitas fichas, mas o que você contou de parentes seus, porque seu pai é branco a ponto de ser chamado de alemãozinho quando era pequeno. E sua mãe, negra, retinta, né? Ou pelo menos, eu não sei como é que fala, perdão, mas assim, não chega a ser retinta, mas não é light skin, mais escura, enfim.

E ter parente seu que chegava para você e falava, quando for mexer, coçar o nariz, coça para baixo e apertando para que seu nariz fique fino. Você com sete anos de idade. O seu pai sem intenção nenhuma falava, vem neguinha, samba neguinha. E você sem entender o que aquilo significava ou representava. Essa mesma tia que falava do nariz ou parente, não sei o que era, chegar para você e falava,

sua irmã, na verdade, é que é a negra porque ela fede e você não. É de uma crueldade que a gente não consegue imaginar quando a gente vê alguém como você, parda. A gente acha que isso é muito o que a gente vê com o Vini Júnior nos campos. E só. Ao mesmo tempo, o pessoal do movimento antirracista fala assim, desculpa, você não pode falar isso. Você não sabe o que é ser preto retinto como eu. Você acha que a dor de quem é pardo, ela é igual

ou maior a dor de um negro retinto, Bia? Eu acho que é diferente. E essa é a questão que eu tento trazer, porque tem dores de pessoas mais escuras, igual você falou da minha mãe. A minha mãe aqui em São Paulo, cresceu aqui em São Paulo, ela sempre foi considerada negra, porque ela é o que eu chamo de uma mulata escura. E aqui em São Paulo, a experiência do mulato escuro, ela realmente é acolhida como negro. Então eu vejo que toda a teoria que é criada é para o mulato escuro. O mulato escuro não passa dificuldade na banca de heteroidentificação,

exemplo, ele é considerado esse negro, né? Então, a minha mãe viveu essa experiência e eu acompanhei, acompanhei o sofrimento da minha mãe de nunca ter tido um cabelo que cresce pra baixo, eu falo disso, né? E eu lembro, assim, eu, na infância, apesar de sofrer essas coisas que você tá trazendo, eu lembro de a minha mãe falar isso e eu também pensar que poderia ser pior se meu cabelo fosse igual ao da minha mãe. Então, tem essa consciência de que tem essa dificuldade. Por outro lado,

Essas experiências que você acabou de falar, dessas ofensas, de querer manipular o corpo para branquear o corpo. E o meu cabelo, mesmo não sendo igual ao da minha mãe, eu odiava o meu cabelo. Eu também não sabia cuidar, né, gente? Agora aprendi a cuidar. Agora não, já tem um tempinho, né? É verdade, já tem bastante tempo. Mas por um momento eu não sabia, né? E era muito desafiador perceber que tinha essa dor, mas se eu falo sobre ela,

Então, esse pouco período que eu passei me dizendo negra, eu comecei a perceber esse incômodo. Porque o que o movimento negro propõe é que os pardos têm que se dizer negros, têm que participar da luta antirracista, porque eles também sofrem. Porque viram nas estatísticas, nos números. Não foram nesses relatos, porque tem muito pouca coleta de relatos como esse que tem no meu livro. E eu quero fazer um trabalho empírico mais profundo, com mais pessoas, culturalmente, no meu doutorado.

coleta, de tudo que a gente escuta, de tudo que a gente vive. Mas, assim, quando a gente vai relatar, é desqualificado. E isso é uma coisa que uma pessoa preta não vive. Eu acredito que no passado, quando o Brasil não era reconhecido ainda como um país que luta contra o racismo, mesmo um preto, quando contava o racismo, era desqualificado em qualquer instância. Hoje em dia, tem pessoas que desqualificam, igual você falou do Vini Jr., tem gente que desqualifica, mas o Estado pelo menos reconhece.

E essas pessoas tiveram que lutar para ser reconhecido que elas sofriam racismo.

que o Brasil não era uma festa, um paraíso das raças. E você não se coloca contra isso, né? Isso que é um ponto importante. De maneira alguma. E também, o que eu percebo, que eles tiveram esse processo, hoje eles são reconhecidos. Agora, eu vejo que é a vez dos pardos. A gente precisa passar por esse processo de reconhecerem que nós, pardos, sofremos racismo também. Porque você trocar nomenclatura e colocar como negro, você não está resolvendo o problema.

O problema da sociedade brasileira é não reconhecer que o pardo sofre racismo, né?

fenótipo, eles podem até ver que a pele é de cor parda. Mas eles olham, ah, mas acho que você não sofre racismo. Então não. Porque vê traços finos, como eu sei que eu tenho, e não imagina a dimensão das coisas que eu relato no meu livro e que impactam muito a nossa vida, né? Eu costumo fazer uma pesquisa no Instagram, né? E aí, quem lê o seu livro e vai ver o seu Instagram, fala assim, gente, mas essa menina tinha algum problema?

Porque você sempre foi muito vaidosa, suas fotos são lindas, sempre cheio de elogios,

mesmo quando seu cabelo estava lá alisado, pintado de vermelho, sim, Bia meio emo, isso existiu, fantasiada de Amy Winehouse, as pessoas olham, aí a gente vê como é que rede social pode ser muito cruel, né? Ninguém consegue ver de verdade o que acontece, qual o sofrimento que existe, que pode existir ali debaixo, uma pessoa que está parecendo linda, bela, enfeitada, sorrindo e tal, mas a gente consegue ver muito,

o momento da virada, o momento que você passa pela transição capilar, que no livro você conta que foi incentivada ali por um namorado seu, né? Sim. Cara, valoriza, vai ficar lindo e tal. E depois, a partir de todas as movimentações políticas que aconteceram no país e que abriram as portas para outras causas, você começa a se associar ao movimento negro. Mas você fala uma coisa que é genial e eu acho que foram...

coisinhas que você fala ali que vão provocando cliques na nossa cabeça. O primeiro deles que eu quero tratar com você é você falava assim, teve um momento que eu entendi que o tempo que eu perdia alisando o cabelo no salão era o mesmo tempo depois que eu perdia fazendo dread nos box braids, eu acho. Porque primeiro eu tinha que me afirmar como uma coisa e depois eu tinha que me afirmar como outra. Você não teve espaço pra se encontrar em paz em algum momento e falar assim, não, deixa eu me assumir como eu quiser.

Quando cai essa ficha pra você, ou quando vocês decidem, entendem que vocês não são panteras negras e são leopardos, foi uma sensação de liberdade, de alívio, ou foi de responsabilidade, Bia? Foi os dois. Primeiro o alívio, né, e depois perceber que eu preciso compartilhar isso, e aí é a responsabilidade, né, porque... Mas de imediato ali, quando cai essa sua ficha, você fala assim, putz, eu tô perdendo tempo aqui também.

entende isso. Ah, um alívio. Um alívio muito grande. E esse alívio que me faz ter força, né? Pra poder levar isso que eu aprendi pra outras pessoas pardas pararem de querer simular algo que elas não são e que elas não serão totalmente aceitas lá ou cá, né? E é muito humilhante, assim, esses adereços que a gente vai colocando pra querer fazer parte e vai se sentindo incompleto, né? Nunca pertencente. Nunca pertencente. E tem

muito a ver com essa questão de lugares sociais que a gente frequenta, nessa época emo, por exemplo, que eu vivia ali, né, eu me esforçava muito pra fazer parte daqueles lugares, meios otakus, né, de cultura japonesa, e as pessoas, eu percebia o quanto eu nunca era bonita, isso, aquilo, porque são meios muito embranquecidos mesmo, e pra essas pessoas eu era escura, eu era, né, então tem um contraste muito grande, e aí depois eu chego no movimento negro, não, você é clara, mas eu nunca fui vista como uma pessoa clara,

a minha vida toda. Mais do que clara. Falaram pra você. Você é branca, né? Sim. Isso de falarem que eu sou branca, eu gosto de explicar que isso nunca aconteceu antes de eu falar que eu era negra. Como eu vejo isso? Eu vejo que, assim, se tem uma pessoa parda e ela tá no meio termo e você só dá duas opções, branca ou negra, quem é branco vai me jogar pro outro lado. E quem é negro vai me jogar pro outro lado. Enquanto eu não tava assumindo o negra e não tinha tirado essa opção do meio, ninguém nunca tinha falado que eu era branca. Principalmente aqui em São Paulo.

Paulo, que é onde eu cresci e que é uma cidade mais clara, né? Então, nunca... E quando falaram isso pra mim, foi um clique. Que eu falei, não, tem alguma coisa muito errada de acordo com tudo que eu vivi, se tem alguém que tá sugerindo que eu poderia ser branca. Até porque, por um momento da minha vida, eu tinha sofrido tanto racismo, que meu sonho era alguém me reconhecer dessa forma. Exato. E nunca tinham reconhecido. Muito pelo contrário.

Que foi o que aconteceu, infelizmente, com a sua irmã, que faleceu, que ela não tomava sol,

ela alisava o cabelo, para ela se manter nesse papel. Sim, e ela conseguia, né? É um exemplo que eu falo, né? A Mirma que se suicidou em 2023, e ela se suicidou quando eu estava terminando o meu TCC. Foi um momento muito desafiador, eu apresentei o TCC um mês depois do falecimento dela. Nossa! Foi muito dolorido, e hoje eu vejo pessoas na internet, enfim, acabando com o meu TCC, elas não imaginam como foi o que eu vivi,

pra colocar aquilo no mundo, né? Mas a questão da minha irmã era exatamente essa. Ela se forçava pra se branquear e ela não teve esse fluxo cultural que eu tive de querer fazer parte do movimento negro, do movimento hip hop, que eu comecei a gostar. Ela sempre gostou de coisas mais associadas a esse universo rock and roll, que é mais branco mesmo, né? Então ela ficou nisso. Ela nunca se interessou por movimento antirracista, nada.

Alisava o cabelo, tinha a pele mais clara que a minha, mas o cabelo dela era mais crespo que o meu. Se ela assumisse ele natural,

conhecida como uma pessoa parda, né? Ia ser como a Vanessa da Mata, sabe? Sim. Mas ela alisava o cabelo, usava aplique e ela conseguia se disfarçar num nível que quando nós andávamos juntas, eu sofria injúria racial e ela não. Mesmo eu também alisando o cabelo, né? Mas eu sofria injúria racial, apelidos e coisas e ela conseguia passar batido, né? Então são tantas questões da multirracialidade que precisam ser complexificadas, né?

Eu acho que quando você põe um bloco negro, essas coisas elas ficam numa sombra e você não dá conta.

da realidade brasileira. A gente precisa estudar, trazer essas experiências para complexificar a questão e não resumir. E outra coisa que me deu um clique foi quando você fala das bancas ali que definem se uma pessoa pode ou não entrar na universidade no sistema de cotas. Muito do que a gente discutia ou pessoas que não precisam passar por essas bancas discutiam é assim, não seria mais justo uma bancada

que levasse em conta questões sociais e não raciais. Só que os seus relatos no livro me deixaram claro que, mesmo dentro de núcleos mais pobres e carentes, os brancos tentam ser superiores. Então, existe uma questão que, por mais que você tente equalizar sobre o aspecto social e de justiça social, vai continuar retratando um determinado privilégio branco.

E eu nunca tinha pensado sobre isso até ler seu livro, porque você, dentro da sua família, era humilhada por pessoas brancas. Sim. Como é que você tenta explicar isso para as pessoas nas redes sociais, Bia? Porque isso fica muito evidente no seu livro. Só que nas redes sociais chega uma galera que já está muito enviesada. Como é que você explica isso? Você precisa mostrar foto? Você precisa comprovar histórias? Você precisa trazer provas?

Eu vejo que, hoje em dia, nas redes sociais e na própria militância, tem uma questão muito individualizada, né? De a experiência pessoal, de contar. Tanto que eu começo o Parditude pra eu poder falar sobre raça. Porque eu percebo que, se eu não começasse o Parditude, sempre iam me questionar individualmente. Mesmo com um vídeo que eu fiz recentemente. Eu tava defendendo o Vinicius Júnior. Eu não tava falando de pardos. Eu tava lutando contra o racismo defendendo o Vinicius Júnior. Mas iam vir e falar. Por que você tá falando disso?

você é clara, não sei o que. Então eu criei, esse é um dos objetivos, tem vários outros, mas eu criei algo que me dá um respaldo de que todas as pessoas devem falar contra o racismo, é importante falar isso, né? Óbvio. Mas de me colocar como sujeito que viveu as consequências desse problema que é o racismo, né? Então, o livro, eu consigo desenvolver isso melhor com começo, meio e fim. Nos vídeos, eu tenho trazido mais, principalmente com o livro falando, ó, no primeiro capítulo tem isso,

isso e tal, mas eu vejo que nas redes sociais as pessoas já vão enviesadas, me desqualificam muito, e quando eu trago o pessoal, elas desqualificam mais. Isso é só você, isso não tem relevância nenhuma, isso você acha que essa experiência subjetiva muda alguma coisa, então eu tento fazer um caminho de trazer outros exemplos, trazer celebridades, pra poder ilustrar isso e perceber que quem quer entender o problema mesmo, precisa pegar o livro e ler começo mesmo.

Porque sem esse começo, meio e fim, você pegando só pedaços, vídeos de internet, não dá pra entender a dimensão do problema. E vou dizer pra vocês, é uma leitura muito simples, muito gostosa de ler, muito fluida, ela vem trazendo exemplos, ela traz trechos de música, é muito tranquilo mesmo de ler, é muito fácil de entender também. Bia, qual crítica que você acha que foi feita, você que foi injusta, e qual te obrigou a melhorar o argumento?

Injusta. Eu acho que essa questão de me colocarem como uma pessoa que não sofreu racismo e quer atenção, quer... Sucesso. É, nossa, você está usando isso como uma oportunidade. Você vê o meu livro, você vê o tanto de coisas que eu passo, que eu passei por ser parda antes do Parditude, e quando eu escolho o Parditude, eu passo coisas ainda piores por ser parda. A forma como... Os comentários que eu tenho que ouvir sobre a minha aparência,

vida. Então, não tem oportunismo. Tem uma vontade genuína de contribuir para as pessoas pardas, principalmente, e para o Brasil como um todo, né? Na discussão. Eu acho muito injusto querer desqualificar as minhas motivações, né? E... Quando você teve que melhorar o argumento, você acha? Quando eu tive que melhorar o argumento foi quando eu fui cancelada na questão da Camila Pitanga, né? Que foi um cancelamento que aconteceu no ano passado, que eu me envolvi num tema pessoal dela e que, antes mesmo,

mesmo de viralizar, eu pedi desculpa pra ela e apaguei a postagem, mas foi quando me deu um estalo de que eu não era mais a blogueirinha que eu achava que eu era ali, que só falava com a minha bolha, e que as pessoas me conheciam, e que, oi, gente, tudo bem? E conversava em box, eu já não tava mais na minha bolha segura. É a prova de que o hate te ajuda a viralizar também, né? Também tem essa questão, né? As pessoas atacam, mas eu acho que no momento em que teve essa onda de hate, foi quando eu tive noção da proporção. E aí, não, eu preciso prestar atenção

a todo momento, porque eu fiz uma postagem desatenta e aí eu percebi, não posso estar desatenta. Foi uma história de duas horas, né? Que imediatamente se apagou. Sim, foram duas horas e as pessoas vão usar qualquer coisa, né? Pra potencializar o pior de mim. Então foi um choque ali que eu tive de não é mais uma bolha. O Brasil todo pode estar vendo o que eu tô falando. Então agora eu preciso amadurecer nesse sentido, né? Foi difícil. Existe alguma pergunta que você considera, assim, a mais difícil

que você pode fazer e que ninguém quer responder quando o assunto é pardo no Brasil? Eu vejo que quando o assunto é pardo no Brasil, as pessoas não querem responder nada. Não tem pergunta mais difícil, elas não querem responder nada. Elas não querem falar, elas querem que abafe e até eu fiz um vídeo falando, eu fiz recentemente ontem um vídeo falando sobre um argumento que a influenciadora Nicole Martins, ela fala que a experiência da mulher negra não é igual a da parda.

E ela fala disso, ela é uma mulher negra e ela não aceita que pessoas mais claras que ela se coloquem nesse lugar. E falaram que ela não deveria dizer isso porque está dando conteúdo para mim, porque as pessoas não querem falar, elas querem abafar. Mas acho que a questão que as pessoas mais tentam abafar é a questão das políticas públicas, das cotas. E que eu vejo que é um grande erro, porque a contradição está acontecendo, as bancas estão fazendo coisas muito injustas, as pessoas que estão lá não têm uma consciência mestiça

que é o que eu falo no meu livro, que eu finalizo o meu livro falando sobre consciência mestiça e querem tratar de uma forma binária algo que é múltiplo, multirracial. E as pessoas não percebem que isso é que prejudica a política. Elas acham que eu estou prejudicando porque eu estou expondo aquilo de atirar no mensageiro. Eu estou expondo, gente, isso aqui a gente tem um problema, a gente precisa aprimorar. Como vamos aprimorar?

Vamos aprimorar juntos? Essa é a proposta. E elas acham que eu quem estou atacando a política, eu quem estou...

gerando problema, eu só estou tentando trazer medidas, porque a gente precisa de aprimoramento para o que tem acontecido. Eu acho que é o tema que mais tentam abafar. A sua árvore genealógica inteira é marcada por morte precoce, por apagamento, por silenciamento, que vem do seu avô ali, quer dizer, vem da sua bisavó, que vem de Portugal, uma mulher branca, e ela chega,

forma uma família, depois você tem o seu avô, que é um homem negro, que é funcionário do seu avô, fazendeiro, e a sua avó encontra no seu avô a única forma dela se relacionar, por ser uma mulher com condições de saúde ali, e toda a história é marcada por muito sofrimento, Bia, assim, eu sei que não é uma realidade só sua, é uma realidade de muitos brasileiros,

majoritariamente pardo, mestiço, muitos tiveram uma história de genealogia e parecida com a sua. Em que momento você percebeu que contar toda essa história, que é o que você faz tão bem no seu livro, de começar lá do comecinho, também era um ato político de resistência. Você falou assim, não adianta só eu pegar aqui esse recorte e falar de parto. Eu preciso contar tudo e trazer dados e falar de leis e falar de leis lá de fora e falar de tudo mais.

Foi quando eu percebi que eu venho de duas gerações de rejeição às pessoas pretas. Então, são duas gerações seguidas em que a minha avó, como você falou... Ai, eu fico tão feliz que ele é o meu livro. Muito legal. A minha avó, ela tinha condições de saúde, não podia se casar como as mulheres na década de 50, ficava trancada em casa e acabou fugindo para o mato com o meu avô, que era funcionário da fazenda. Era uma situação de fazenda em auriflama.

O interior de São Paulo é oito horas daqui, no sentido oeste. Nossa, é longe. Sim. E a minha avó e o meu avô se amavam muito. A gente ouve pelos relatos. Eu acho muito importante trazer isso. Porque por mais que o meu avô sofreu muito racismo, assim como a minha mãe e as irmãs dela, o casal ali, eles estavam lutando juntos, né? Pra estar juntos. Mas era um sofrimento muito grande. E quando ele morreu, quando ele tinha 26 anos, minha mãe tinha só dois, a minha mãe e as irmãs dela sofrem muito racismo,

criadas pela família branca, né? E são sempre colocadas como diferente, né? Eram chamadas de filhas do macaco na rua, né? Então, essa é a primeira geração de rejeição e a segunda é quando a minha mãe escolhe também se casar com um homem branco e os meus pais também se amaram muito, né? E lutaram muito pra ficar juntos, mas a família do meu pai também não aceitava e nós também passávamos por essa exclusão, né? Então, eu via primos

recebia um tratamento bom da parte da família do meu pai, via como era diferente a união e a gente era excluído, e na minha cabeça era muito ambíguo e contraditório de entender, porque eles não aceitavam o meu pai ter se casado com a minha mãe, eu falo disso no livro também, até certo ponto eu achava que era uma violência isso só com a minha mãe, não entendia que era contra mim e minhas irmãs também, porque eu não era negra, eu tinha essa crença de que o negro não sofre racismo, de que o pardo não sofre racismo, isso é,

Isso é cultural. Então, eu não interpretava isso como um racismo que eu também estava sofrendo, até eu começar a ter essa dimensão de consciência mestiça e entender que isso fazia parte de uma história racista. E vendo essas duas situações de rejeição, que é, querendo ou não, na prática, o que falam do embranquecimento da sociedade brasileira é acontecendo. Porém, eu falo disso, eu nunca neguei isso, só falam que eu nego ou que eu promovo como se fosse algo lindo.

no seu livro, inclusive, que em 30 anos chegou quase a mesma quantidade de negros escravizados durante 300 anos. Então, para realmente promover esse embranquecimento, você confirma isso. E culturalmente também, porque essas pessoas viviam ali nesse coletivo rejeitando o familiar negro. Então, estavam ali potencializando de que eles seriam melhores, mais bonitos no dia a dia. Então, na minha pesquisa, eu só trago

de uma forma mais profunda mesmo, como isso está acontecendo e como isso afeta pessoas pardas, porque é tudo tratado de forma muito superficial. Você sentia sofrimento no seu pai? Você falou, eu pensava só no sofrimento da minha mãe, esquecia o sofrimento que nós, filhas, poderíamos estar sentindo. Você via sofrimento no seu pai também, nessa história toda? Sim, eu via que tinha momentos que ele ficava meio que... Porque o meu pai tem nove irmãos, uma família muito grande, que ele é muito apegado aos irmãos dele, eles têm uma história de um ajudar o outro muito assim.

E às vezes ele ficava no meio. A minha mãe e a família dele, né? Isso era muito difícil. E ele escolheu ficar com a minha mãe, né? Só que são tipos diferentes de sofrimento, como você já mencionou, né? São tipos diferentes de agressão ou de dor. Não dá pra equiparar essas dores, é isso? Eu acho que, assim, o meu pai, como ele é branco, né? E escolheu se relacionar com a minha mãe, escolheu ter filhos com a minha mãe e construir uma família com a minha mãe. Ele tem suas dificuldades, mas a dificuldade da minha mãe e nossa,

de ser tratada como o outro, é muito maior. Não tem como, é realmente um sofrimento muito maior. Mas agora, eu como filha mestiça e a minha mãe, o que ela viveu com a família do meu pai é totalmente diferente. É aí que eu falo que são dores diferentes. Entendi. E você perguntou sobre essa questão de por que eu escolho ir lá para trás, para trazer essa história e mostrar que o branqueamento realmente aconteceu

culturalmente, acontecendo na mente das pessoas, isso tá aí. E depois, mostrar o que uma pessoa parda contemporaneamente vive a partir disso. Porque o que muitos de nós vivemos, e é o que o livro mostra, é um pêndulo. Então você vive uma infância em que dentro da sua casa, se for uma casa que não tem perspectiva antirracista, como a da minha geração, é pra te branquear. Isso de afinar o nariz, alisar cabelo. E você tem que procurar esse ideal branco, né? E aí você chega nos movimentos, que eu cheguei na adolescência,

a momentos de libertação, ia te escurecer, né? E você fica nesse processo, eu tenho que fazer parte e o par de tudo vai trazer esse equilíbrio, eu não preciso ir pra lá nem pra lá, né? Então eu quis trazer essa linha do tempo de mostrar de onde veio tudo isso e fazer um cruzamento com a história do Brasil pra mostrar essa infância do branqueamento e depois essa adolescência do escurecimento pra uma fase mais madura de eu não preciso estar de um lado nem de outro, eu sou uma pessoa mestiça, né? Porque você conta um relato muito legal

é você é adolescente e o seu pai, numa situação ali no carro, ele vira e fala assim, mas agora você está me negando também? Por isso que eu perguntei do sofrimento do seu pai, porque assim, agora você só quer ser preta, então. Você vai me negar? Você vai negar o seu lado que eu te trouxe? Não é o mesmo tipo de sofrimento, óbvio, porque não é um sofrimento infligido diariamente. Mas me parece que tinha uma certa angústia dele também, tipo, oi, não esquece aqui de mim não, que é o que você tenta buscar no fim das contas.

Sim, é algo que os movimentos ignoram. O fato de que é profundamente desagradável os brancos abandonarem a sua paternidade ou maternidade dos seus filhos negros. Essa questão de querer colocar o pardo, o mestiço, como negro, eu falo no meu livro, começa nos Estados Unidos com leis de segregação. E hoje já tem estudos multirraciais que vão questionar por que os brancos não querem assumir seus filhos. Você teve um filho com uma pessoa negra, você não quer assumir?

Isso pode ser visto como uma questão racista. E o meu pai, quando eu adentrei a militância e comecei a afirmar isso, ele questionava. Porque tem muitos brancos de filhos pardos que me seguem e que eles não aceitam. Eu quero que eu ser um pai ou uma mãe do meu filho seja reconhecido. Isso é importante para mim. Isso faz parte de lutar contra o racismo. Então, isso é muito ignorado dentro da luta e é visto como positivo.

Você vê esses pais ou mães brancos que não... Tudo bem, meu filho não tem nada de mim. Tanto faz, né? Não colabora em nada para realmente criar um movimento antirracista no fim das contas. Mas você acredita que o movimento antirracista se ressente a partir do momento que o pardo poderia estar tomando um naco de espaço que o negro lutou tanto para ter? Você acha que passa por essa visão?

Assim como quando criam-se as cotas, os brancos falam assim, poxa, estão roubando o nosso espaço aqui. Os negros quando falam, opa, os partos estão querendo surgir como separados, vão roubar o nosso espaço. Você acha que tem isso? Um ressentimento de perda de espaço? Eu acho que tem. Eu acho que toda questão humana complexa vão ter pessoas bem intencionadas, com motivações que são legítimas e vão ter pessoas mal intencionadas com motivações de poder de ocupar certos espaços.

muitas pessoas que estão nessa disputa de poder, elas não estão com uma mentalidade de colaboração, de vamos nos unir realmente, cada um vai ter seu espaço de fala, elas estão numa mentalidade de competição, e veem o pardo como uma ameaça, veem o espaço da luta antirracista como algo limitado, é só um pedacinho, e a gente está ocupando aqui, o pedaço é muito pequeno, se você chegar falando vai atrapalhar, mas eu vejo que quando as pessoas estão com uma mente de colaborar, de universalização de direitos, e tem muitas pessoas,

negras que apoiam o meu trabalho, porque elas estão nesse lugar de consciência de não, a gente se une, você tem seu momento de falar, eu tenho o meu, é a diversidade. Você vai falar de ser mestiço, o indígena vai falar da questão indígena e a gente tá junto, os amarelos também tem questões raciais complexas, né? Então, eu acho que quando as pessoas estão com uma consciência mais tranquila e de colaboração, se manifesta esse espaço de que há espaço para todos, mas nem todos estão na colaboração, muitos estão

na competição e com medo de perder seus espaços. Até porque a questão do racismo, você traz esse conceito maravilhoso do Horaci Nogueira de racismo de marca, que eu nunca tinha ouvido falar com essa expressão, dessa forma, que é o racismo baseado basicamente naquilo que você vê na sua estampa. E você trata de elencar o que seriam os oito tipos de miscigenação que existem. O que deixa tudo ainda mais complexo,

que tem a gradação de tons ou de divisão de cada um nessa história que é o que você falou. Sua mãe seria uma mulata mais escura. Você é uma menina mulata e por aí vai. E não pode nem usar a expressão mulata. Você fala isso no seu poema porque seria uma ofensa. Eu quero saber aonde que o racismo de marca na prática, como é que ele se manifesta no corpo pardo, já que tem tantas gradações no meio do caminho. Onde que ele é aceito e onde que ele é rejeitado?

Essa questão do racismo de marca, o Horace Nogueira fez esse estudo nos anos 50. Nossa! E esse estudo, já aconteceu algo que acontece até hoje, de comparar Brasil e Estados Unidos. E ele fez isso. Ele foi nos Estados Unidos e viu a diferença de que lá, independente da sua marca, por vezes os negros, porque tem muitos mestiços incluídos negros lá, tinham documentos que mostravam que eles eram negros. E aí tem a divisão de bairros e tudo mais.

Tanto que você não pode nem usar o N-word. Sim. Não pode nem falar aqui em português,

um podcast em português que pode dar um baita de um problema. Sim, aqui a palavra negro foi ressignificada, eles tentam abranger o pardo, né? Então, são contextos diferentes, mas o Horacin Nogueira, quando ele olha para o Brasil, ele já vê que a forma como a pessoa é vista depende de questões de classe, questões da cor de quem está te analisando, e acho que o mais louco do que ele fala, que ele coloca, e é uma linha pequena do artigo dele, de que também tem as questões de afeto.

Então vamos supor que você gosta de mim e você sabe que eu quero ser vista como parda e você me reconhece. Depois de amanhã você não gosta mais de mim, essa menina é uma branca ou uma negra que não se aceita. Então ele fala disso, de como a questão multirracial pode ser manipulada pelas intenções que a pessoa tem naquele momento. Então, por exemplo, uma pessoa parda, quando ela sofre racismo de um branco, o racismo tradicional, novamente eu trago isso,

vai ser chamada de neguinha, como eu fui tantas vezes. A pessoa sabe que eu não sou neguinha, ela vê a diferença entre eu e uma pessoa negra. Mas é a parte de mim que ela vai usar pra me ofender, porque na concepção dela aquilo é algo ruim. Agora, uma pessoa preta que odeia o partitude, ela vai me chamar de branca e ela vai me jogar pro outro lado, porque na concepção dela ela sabe que me chamar de branca vai me ofender. Então as nossas partes, elas são usadas e manipuladas, e isso é o racismo contra o mestiço, de acordo com a ocasião. E você falou dessas nuances,

Só o fato de fazerem isso com a gente é um tipo de racismo não investigado antes dessa forma, principalmente de forma empírica, que é totalmente devastador para a vida da pessoa, principalmente psicologicamente. Essa gradação que eu faço das oito pessoas é muito mais para quem está lendo, principalmente as pessoas pardas, elas querem entender qual é o lugar dela. E eu observo que tem essas nuances. Porém, a gente está falando de humanidades, não de exatas.

A questão multirracial, ela não tem como ser totalmente objetiva. Por mais que eu fiz essa parte, eu não apoio mais divisões, mais categorias. Somos todos, esses paros são todos pessoas paros e estão nessa categoria do IBGE, né, de 45% da população. Mas, subjetivamente, os indivíduos, eles querem saber onde que eles estão, se reconhecer, conversar com seus iguais, né, e aí por isso que eu coloco, eu tento documentar as pessoas que chegam até mim, quais as questões que elas apresentam. Onde você estaria nesse, né,

nessa gradação pantone, por assim dizer, né? Onde você estaria aí? Onde você se encaixaria? Porque não é só uma questão de cor, como você fala, né? Eu coloquei no livro, eu acho que eu coloquei quando eu fiz a gradação, que eu tô na situação que é a total fronteira. É. Porque por uns eu sou chamada de preta e por outros eu sou chamada de branca. Então, esse é o pardo que vive todos os conflitos que eu coloquei no meu livro. Porém, vão ter outros pardos que são mais escuros, como vou dar um exemplo de fenótipo da Thaís Araújo.

mestiça, né? Às vezes, por vezes, comentam que ela tem a pele mais clara, né? Que ela é negra de pele clara, mas ela é aceita dentro do movimento negro. Ninguém chamaria ela de branca. A própria Marielle, né? Que foi assassinada, ela tem traços, mas ninguém chamaria ela de branca. Então, é uma questão de parditude, mas que é entre o pardo e o negro. Agora, as pessoas que vivem entre o branco e o pardo, que, ah, ou você é pardo ou você é branca, algumas experiências de racismo que eu relato, elas podem não ter vivido tão intensas, né? Porque

Depende muito do lugar que ela conviveu. Do lugar, do contraste e da própria ambiguidade que ela tem. Eu tenho a pele dessa cor. Se eu tivesse o cabelo ondulado, eu talvez ficasse nessa fronteira, branca-parda, igual a minha irmã que faleceu. Mas a minha é a fronteira total. De um lado a outro, e questões financeiras também influenciam muito, porque quando a gente está em bairros mais pobres, que a maioria das pessoas são pardas e negras, são bairros mais escuros.

em São Paulo, a gente é visto de uma forma. Quando vai pra lugares de elite, que a totalidade é branca, né? Aí a gente é visto como muito escuro. Então, isso por si só, por vezes as pessoas podem falar, mas se você é visto como mais claro em algum lugar, isso seria um privilégio. E eu não vejo dessa forma, porque se eu contei no meu livro que eu apanhei já por ser escura, essa ferida já tá, eu já tô nesse lugar, entendeu? Então, por vezes, se uma pessoa negra me vê como mais clara,

as pessoas até desqualificam. Você é clara, você não faz parte. Também usam isso para desqualificar. E não como o que chamam de privilégio branco, que a militância chama. O mais triste nessa história toda, para os pardos, pelo que me pareceu no seu livro, são as pessoas que começam a se olhar no espelho e ficar em dúvida. São as pessoas que começam a questionar. Será que eu estou buscando um privilégio de cota que não é meu? Será que eu estou indo na delegacia reclamar de uma coisa que eu não deveria reclamar?

Ou seja, são pessoas que realmente não conseguem identificar seus direitos ou o que é sofrer o racismo porque não se acham merecedoras disso. Eu acho que isso deve ser bastante sofrido, ou pelo menos me pareceu muito sofrido, ao ler os seus relatos. E aí eu te pergunto, nesse sentido, é mais importante para você, Bia, ser compreendido ou ser útil? Essa questão que você trouxe, eu escrevi um artigo antes de eu ser expulsa, né? Já tinha conseguido publicar um artigo.

sobre, junto com um colega meu, o Victor, desmentido racial. E o quanto o desmentido racial faz a gente duvidar a gente mesmo das nossas experiências. E o racismo é uma experiência traumática para uma pessoa. E tem vários estudos da psicologia que mostram que quando você nega o trauma que uma pessoa viveu, você multiplica tanto o gatilho que a pessoa tem, o sofrimento que a pessoa tem, e você deixa ela com mais vulnerabilidade de ter problemas, transtornos psicológicos, borderline.

introduzindo rapidamente, se você não está entendendo sobre o aspecto racial, você for uma mulher, muita gente fala do gaslighting, por exemplo, que é quando a mulher fala uma coisa e vem e fala assim, ah, para, não foi, você não sofreu um assédio. Não, para, você não sofreu. É exatamente essa mesma ideia de quando você nega aquilo que a pessoa sentiu, passou, vivenciou, você piora isso e deixa uma marca ainda mais profunda. Sim, porque aí a mulher, nesse caso, ou a pessoa parda, né,

Você deu um exemplo maravilhoso. Começa a duvidar se aquilo realmente aconteceu e começa a achar que é culpa dela, a própria percepção que ela teve, começa a duvidar a percepção que ela tem da realidade. E, pelo contrário, se você cria comunidades, acolhe, ouve, é o oposto. A pessoa se sente acolhida, ela se potencializa para lutar contra o racismo, por exemplo, e também para viver uma vida melhor, né? Então, eu sempre coloco isso como uma vida melhor. Agora, isso de ser compreendida ou ser útil, ser útil, com certeza,

Até um certo momento, a primeira vez que falaram que eu era branca, né? Eu conto esse relato, que eu tinha acho que uns 18 anos. Eu queria explicar que eu não era. Hoje em dia falam que eu sou branca, que eu sou negra, que eu sou... Inventam tanta coisa. Eu não ligo não, porque eu sei que a pessoa parda que olhar praquilo, ela vai entender perfeitamente o que eu tô querendo trazer. Vai ver que eu tô vivendo a mesma coisa que ela publicamente e não morri. Porque a gente é tão doloroso que a gente acha que a gente vai...

cumbi. Não morri, tô ali, tô falando e aí eu tô sendo útil, né, pra essas pessoas. Então, com certeza ser útil e é por isso que eu não paro, né? Se eu quiser ser compreendida, eu já tinha parado faz tempo. No livro você dá uma explicação quase que espiritual, né, de ser filha de Odoya com Xangô ali, ou receber a força desses dois orixás aí, o da justiça e o de poder atravessar isso tudo, mesmo que seja chorando, tem sempre aquela chama acesa que te faz

Ah, você ouviu muita coisa dolorida na sua infância, como eu já mencionei, Bia. E a pergunta que eu tenho pra você é o que você acha que uma criança deveria ouvir pra crescer com orgulho de ser parda e de se ver no espelho? Quais são as frases que uma criança parda deveria ouvir que você não ouviu? Eu acredito que você é linda do jeito que você é. Olha como é bonita a mistura sua, né? Você percebe, é hoje o que eu procuro ver no espelho, né?

Você tem uma partezinha que é da sua mãe, uma partezinha que é do seu pai, por isso você nasceu dessa forma única, né? Você já pensou em escrever um livro pra criança? Já, tem até um projeto sobre isso, que a gente tá pensando em fazer com a Planeta, né? Tem uma ilustradora que veio com a proposta pra trazer isso pras crianças, porque é muito confuso e tem confundido ainda mais as crianças, né? Quando eu tava na educação básica, ainda se explicava mulato, caboclo, né? Sim. Ainda falava isso.

não, eles falam que não existe, falam que o pardo é negro. A minha filha, o colégio busca trabalhar muito isso, essa questão de respeito e tal, e ela lê um livro da Lupita Nyong'o, pode ser? Eu acho que é o da Lupita, que ela fala da irmã que era sol e da irmã que era lua, não sei se você já viu o livro, é belíssimo, mas fala sobre essas gradações de cores e o quanto que a irmã que era noite...

Queria ser mais dia. E o quanto que a irmã que era dia. Olhava para ela e achava lindo. Ela ser noite. O livro de ilustração é lindo e tal. Mas a gente vê o quanto que a educação. Nesse sentido é fundamental. Porque a minha filha. Ela tem o cabelo muito, muito, muito lisinho. Fininho daqueles que ela assim. Ela pode dormir com ele todo assim. E o cabelo acorda reto. Ela viu foto sua ontem. Quando eu estava estudando. Ela falou. Esse era o cabelo dos meus sonhos.

Isso era impensável quando eu era criança. Eu tinha amigas com cabelo que nem o seu que puxavam e prendiam pra deixar ele o mais preso possível. E aí a gente vê o quanto que educação é fundamental nesse sentido. Quanto que você tentar mostrar a beleza de todas as formas é fundamental. Você não se ressente de você ver de forma tão triste pessoas querendo interromper essa tua luta? Eu passei por dois processos grandes de ressentimento.

primeiro momento da minha luta antirracista era aquele ressentimento com as pessoas brancas, com os brancos e com a branquitude. Eu era muito assim, né? Adolescente. Então, era muito difícil. Quando eu escolho parditude e começo a lutar pelos direitos das pessoas pardas e muitas pessoas pretas começam a me ofender muito, né? Eu tenho a espiritualidade pra me ajudar a compreender por que que essas pessoas, o que tá motivando elas a fazerem isso e sempre

espiritualidade que vai trabalhando em mim de entender que é um processo, que todo novo pensamento passa por um momento desafiador, né? E que eu acredito que no futuro logo os pardos vão ter esse seu espaço pra falar e faz parte desse processo de ponta de lança, né? Uma vez um seguidor meu falou isso num café e ficou na minha cabeça, né? Você tá abrindo, você é a ponta de lança. Aí eu fiquei toda honrada, né? Quando você fala que é logo, você acha que é quanto tempo, Bia, pra isso acontecer?

Eu acho que por muito tempo vai coexistir o ódio, porque eu recebo ódio, eu recebo coisas muito pesadas, né? Com pessoas me dando espaço, acredito que isso já está acontecendo. Até ano passado, o ódio era muito maior. O ódio era enorme e o apoio era muito restrito, né? Agora, está começando a coexistir até o ódio começar a diminuir e eu realmente estabelecer um espaço. Eu acredito que é impossível convencer todas as pessoas,

e também nem é a proposta, a minha proposta, convencer alguém, mas unir os afins, né? E eu acho que quando eu unir todos esses afins de todas as cores que concordam, né, que o Brasil é um país mestiço e tiver esse lugar, pode até ter o ódio, as pessoas, mas elas já não vão ter força. E sempre vai ter o ser humano, né? Sempre vai ter o chato, sempre vai ter o hate, não tem jeito. O que me pega muito é que, assim, você põe trechos do Mano Brown,

de Caetano Veloso, você põe exemplos, Clara Nunes, você deixa isso muito claro o tempo inteiro nas suas redes sociais para mostrar como é que várias pessoas já se manifestaram a respeito, já se mostraram como parte desse mundo pardo e essas pessoas não sofrem esse hate que você sofre. Você acha que a ideia de academicizar tudo e tornar a coisa realmente algo com nomenclatura

ou é só porque você não é famosa ou você não é pop? O que que provoca essa raiva maior? Que talvez o Mano Brown não receba ou o Caetano Veloso não receba? Eu acho que é porque eu escolhi isso como o que eu vou fazer da minha vida, né? O Caetano tem uma trajetória de falar de várias coisas, música, o tropicalismo mesmo, foi o momento que ele com certeza viveu muito ódio, né? Naquele momento histórico da arte, que ele participou muito. Aquela foi a militância dele, o ápice, né?

E quando ele se posiciona sobre o pardo, é pontualmente. Ele coloca, ele fez um álbum, né? Que tem a música pardo e tal. Sim. Então, é uma coisa pontual, mas quando eles pontuam, eles sofrem muito ódio, assim. Quando eles trazem essa questão à tona. Na época, hoje. Até hoje, se eles trazem essa questão, tanto que eles trazem muito pouco, né? Porque é realmente muito desafiador. E o Caetano falou no Roda Vivo uma vez. Ele também é amigo do Antônio Rizzério, que é um crítico, né?

arismo racial no Brasil. Então, é uma luta que eles pincelam. Agora é a minha luta principal, entendeu? Eu vou na rede social pra falar principalmente disso, né? E o Brown, quando ele me apoiou, falou de mim, nossa, destruíram ele. Ah, você devia estar cantando, você não devia estar falando de assuntos raciais, sendo que ele é um dos maiores nomes que lutou contra o racismo no Brasil, né? Mas eu também vejo que o Brown já está num momento estabelecido que, assim como o Caetano teve a luta dele na Tropicália muito intensa,

contra a ditadura também. O Brown, ali nos anos 90, para alavancar mesmo a cultura negra, a cultura da periferia, também foi o momento em que ele passou por muitas coisas muito difíceis. Agora ele já está num momento de conforto, mas quando ele toca nesse tema, sofre uma enxurrada de ódio. Porque ele fala coisas que você conta e que eu nunca tinha me atentado também, sobre, por exemplo, como é que o pardo é muito mais associado à violência da cidade, da violência direta,

do pivete, ele fala muitas vezes, o parceiro dele, eu esqueci o nome, o Blue, o Blue não sofre as mesmas coisas que eu sofro, porque também ninguém quer mexer com o Blue, porque ele claramente vai ter um problema e eu não, eu não vou ter esse problema. E ele deixa isso muito claro de forma muito óbvia, o quanto que o pardo, se às vezes ele chegar numa delegacia e falar que sofreu,

racismo, vão diminuir isso, né? Não vão levar em consideração. Não, você não é. Vai, para. Você não é o Vini Júnior pra sofrer esse preconceito. É bom ter essas vozes, mas só que não são projetos de vida, né? Como você mencionou. Sim. E aí sobra pra você. Eu acredito também que quando o tema sair desse tabu, em breve, eles vão falar mais, sabe? Vão se posicionar mais. E isso que o Brown falou, isso tá em livro documentado já, o livro da Verônica Toste,

O livro chama Tão Longe e Tão Perto e fala das discriminações diferentes de pardos e pretos com uma documentação histórica muito importante. E mostra lá que os estereótipos associados aos pretos são diferentes dos mulatos. O livro não fala de pardos de indígena, fala mais dos mulatos mesmo. E você vê os mulatos sendo muito mais associados à criminalidade, malandragem, que é a malandragem que é associada ao brasileiro. A vadiagem.

mulheres associadas à prostituição, associadas à promiscuidade, as mulheres mulatas mais do que as pretas. E os pretos, não é que a situação é melhor, é que é diferente o racismo. Os pretos, nesse estudo, mostra que são vistos num lugar de maior ingenuidade, como se eles fossem uns coitadinhos. E tem uma questão da honestidade associada aos pretos e da lealdade desde o período da escravidão. São vistos como honestos e leais e trabalhadores.

serviços, submissos e também incapacitados intelectualmente. Então também são estereótipos horrorosos no sentido de colocar o preto como se ele não tivesse nem a capacidade do malandro de enganar. De pensar. Sim. Então são formas diferentes de você subjulgar. É muito interessante porque é uma diferenciação muito nítida da diferença do sofrimento. Cada um ali e está na história, como você mostra tão bem no seu livro,

quando você fala de leis de vadiagem e tudo mais. O que que te mais dói hoje, Bia? O racismo explícito ou o progressismo que finge não ver? Ah, o progressismo que finge não ver. Tô muito frustrada com o progressismo. Ah, e agora os racistas vão vir de pau. Os antirracistas vão vir de pau. Ah, não tem... Já vem, né? Essa é a questão. Essa é a questão. Tô muito frustrada com a luta progressista brasileira, né? E acho que uma das minhas missões é realmente que a gente resolva o que tá acontecendo no campo progressista.

porque está insustentável. As próprias pessoas que fazem parte da luta não aguentam o clima. O clima de penalidade constante, de policiamento de pensamento, de policiamento da crítica. Críticas que serviriam, como eu falo, para melhorar a luta por justiça e por universalização de direitos, elas estão sendo barradas. Então, a gente está tendo muita dificuldade para falar de qualquer questão, não só as questões raciais, as questões de gênero, as questões de segurança pública. Então, eu vejo que a gente está, no campo progressista,

de crise, assim, de terremoto, mas que eu acredito que é pro melhor, assim, né? Que lá na frente a gente vai conseguir se entender melhor, avançar certas pautas e entender que esse punitivismo moral, ele não tá levando a gente a nada e tem também um afastamento da maioria, né? Das pessoas do povo que não gostam desse clima constante. Porque câncer desvaloriza, né? Desvaloriza diversas causas. Porque as pessoas começam a falar, ah, lá vem o...

chato falar. E aí ninguém presta mais atenção, porque vira uma coisa só do chato. É quase a reação que sua família teve no carro quando você falou, tipo, ah, lá vem a chata. Falar de militância. Exatamente. Não é? Porque eu tinha esse comportamento. Eu vejo que esse comportamento é uma fase que a gente vive quando a gente se dá conta do tanto de problema social que tem. A gente quer resolver todos. Mas aí a gente deixa isso pros adolescentes, né? Exato. Eu não ia falar tão direto, mas você foi perfeita. Exatamente isso.

você começa a amadurecer sua luta, você percebe que, não, preciso aprender a conversar, né? O outro não é sempre meu inimigo. É maturidade, né? Maturidade. Mas parece que o córtex pré-frontal se forma com 25, então a gente tem que dar um tempo para as pessoas. Pois é. Às vezes com 45 ainda não se formou. Mas onde é que você acha, Bia, que começa, ou onde você acha que as pessoas deveriam prestar atenção? De onde começa essa mentira sobre o povo brasileiro e o suposto orgulho que nós temos dos mexidos?

Onde que começa isso? Onde que as pessoas não prestam atenção nisso? É muito difícil, tá? Quando você não sofre isso na pele e eu acho que não fica tão explícito. Por isso que eu estou te fazendo essa pergunta. Onde que começa essa mentira? Desse suposto orgulho que, na verdade, está sempre travestido de humilhação. Eu acredito que não era Vargas, né? O Vargas foi um grande propagandista, fez umas propagandas em relação a esse Brasil mestiço.

que deixaram documentar, historicamente, como se o Brasil tivesse um momento em que o mestiço foi tão enaltecido assim, era uma tentativa que o Estado estava fazendo, né? E o Estado tenta fazer diversas coisas que, por vezes, não têm adesão. Então, o fato de ter uma mulher sambando no carnaval mulata e as pessoas achando aquilo bonito não significa que a vida da mulata é boa, né? Não significa que ela não passa as coisas que eu relato no meu livro, né? Então, eu vejo que a era Vargas, né?

que foi ao mesmo momento ali nos anos 30 que o Gilberto Freire publicou Casa Grande Sem Zala. Eles criam essa documentação, e que é uma documentação que, do ponto de vista sociológico, tem muitas lacunas, no sentido de que eles falam que o livro Casa Grande Sem Zala ditou o que seria a democracia racial no Brasil e ditou essa cultura, mas nenhum livro tem poder de ditar cultura para um país do tamanho do Brasil. Eu diria que nem que fosse pequeno... E ao longo de tanto tempo. Exatamente.

porque um livro não faz isso. A minha mãe não leu esse livro, não sabe nem que esse livro existe. O meu pai também. O meu bisavô, que cometeu tudo aquilo, também não sabe. Então, tem algumas lacunas e equívocos de você colocar uma obra como determinante de algo, ou músicas e cultura, e você não fazer o principal, que tem muito pouco, que é a pesquisa empírica de como está a experiência dessas pessoas, e ouvir os relatos para poder criar uma teoria com a realidade, e não só com o que o governo estava tentando fazer,

falando lá fora, falavam muito lá fora do Brasil mestiço, porque a gente tinha segregação acontecendo. Então, de uma forma bem superficial, se você olha, aqui tem segregação e aqui tem família mestiça, então família mestiça não tem problema nenhum. Mas não olha para o problema que tem dentro da família mestiça. Então é uma visão superficial, que não condiz com a realidade do Brasil. Um dos exemplos disso é você falar que a sua bisavó, existe todo o relato da dona Conceição Fernandes Gonçalves,

Nasceu na Ilha da Madeira. Em 1912. Dia 28 de agosto de 1920. Veio para o Brasil com sete anos. Já sobre a senhora Laura Alvina. E que eu achei muito curioso o nome dela ser Laura Alvina. Você só sabe que é a Laura Alvina. Mais nada. Não tem nenhum. Que é o que você fala da parte empírica. De um lado você tem toda a trajetória de uma mulher que saiu de Portugal.

você não sabe nada. E o seu avô morre com 26 anos, então fica mais difícil ainda de passar isso adiante. Bia, por mais que eu leia o livro, como eu te disse, tem coisas que eu não experimentei na vida e que eu seria incapaz de te perguntar. Então, qual é a pergunta sobre raça no Brasil que ninguém te faz, mas deveria fazer? Pergunta sobre raça que ninguém me faz, mas deveria fazer? Eu acho que tem uma questão de

universalizar, como resolver esse problema de raça, pra gente sair desse momento de diferenciações, de eu precisar levantar a mão pra falar que eu sofri tudo isso, e a gente realmente se unir como povo, sabe? Porque dentro da luta antirracista, desde que eu comecei, tem aquelas pessoas que banalizam tudo que aconteceu com os mestiços no Brasil e que segue acontecendo, e com os negros também, e com os indígenas, pra falar somos todos humanos.

Eu acho que falta se perguntar como que a gente chega nesse somos todos humanos. Não só desqualificar. As pessoas que falam somos todos humanos só não querem saber de racismo, não querem resolver o problema, sabe? Elas não querem resolver o problema, então elas falam esse bordão. Mas eu não acho que a gente tem que rejeitar totalmente esse fato. Eu acho que a gente precisa criar o caminho. É uma pergunta que a gente precisa criar esse caminho porque é uma ilusão mesmo, né?

A raça é um conceito que não existe biologicamente. Nós somos todos da raça humana. Só que como fazer isso ser real?

estar como iguais, a gente realmente superar esses desafios. Eu acho que a pergunta que a gente não faz, que a gente tinha que se fazer mais, e que no futuro eu quero trabalhar muito mais nisso do que tendo que implorar pras pessoas verem o quanto o pardo sofre, sabe? Porque esse é o momento que a minha luta tá vivendo. Mas no futuro eu quero que minha luta seja muito mais por unidade, sabe? Não seja sobre demonstração de sofrimento, né? E de angústia e de dor. É do tipo, estamos só inseridos na sociedade, dentro

de características aqui específicas. Estamos caminhando para o fim aqui, Bia, mas a gente tem a membresia aqui do Rivo News, que temos os nossos Rivos de Ouro, as pessoas que apoiam o canal e que sabem quem é o entrevistado, pode mandar uma pergunta para a gente. E a gente tem a pergunta aqui do João Damasceno para você. Espera aí, deixa eu só aumentar o... Boa tarde, me chamo João. Gostaria de fazer aqui uma pergunta.

Na sua opinião. Demais, demais. Essa pergunta é muito boa, é uma pergunta clássica. Eu acredito que com certeza fortalece. Eu falo disso também no final do meu livro, o quanto eu vejo que a proposta tem que ser uma luta antirracista plural, que inclua mestiços, indígenas,

indígenas e negros, né? E também as pessoas amarelas, que hoje fazem parte, pra lutar contra o racismo e a gente poder se unir, entendendo que somos diferentes, a gente não precisa ter a mesma identidade pra lutar contra o racismo, né? E eu vejo que sem isso a gente tá se enfraquecendo, porque tem uma união que é artificial, que homogeneiza a gente, e a gente perde essas diferenças, essas nuances, a gente entendendo e complexificando sempre tem a ganhar, você não tem a perder,

você está aprofundando. Quando você aprofunda, você pode fazer uma luta antirracista melhor. Então, é para fortalecer esse argumento de que é para separar, que é para segregar. São de pessoas que estão com medo desse aprofundamento, do que ele pode... Elas conseguiram um pouquinho de conquistas com esse agrupamento e o Paraditude quer aprofundar, quer complexificar, quer diversificar, não é? Sobre diversidade. E eu entendo que avançando a gente consegue conquistar mais. A gente precisa ficar preso aqui com medo de perder esse pouquinho.

Você dá aquele exemplo maravilhoso trazendo a lei do One Single Drop dos Estados Unidos, que não podia ter uma gota de sangue negro ou de índio nativo, indígena, dos Estados Unidos, que isso mancharia a branquitude plena. E que parece que quando se fala de pardo no Brasil hoje, parece que o movimento negro tenta criar essa mesma noção de vocês vão embranquecer a gente,

e não vai existir mais o negro como negro. Você sente que existe esse medo de se perder a raça negra pura? Eu vejo que isso é um medo da realidade. Se você olhar a realidade, no Brasil tem mais mulatos do que pessoas retintas. Essa é a realidade. Mas como você vai construir uma luta antirracista simulando algo? Medo de perder. Mas perder o quê? Se a realidade é que a maioria é mestiça. A gente precisa assumir o que é a realidade para poder, então,

lutar contra o racismo, entendendo o contexto que a gente está. Então eu vejo que tem, existe esse medo e as pessoas acham que... Que é a palmitagem que você falou lá no início também, né? Querendo preservar, né? Esse medo muitas vezes levado a um extremo leva a pensamentos puristas muito semelhantes de preservar a brancura. E aí os caminhos são muito estranhos daí em diante, não gosto nem de participar. Mas pensando em pessoas que estão preocupadas com uma luta contra o racismo,

por justiça, precisa ser baseada na verdade. E a verdade é, realmente, a maioria dos afrodescendentes brasileiros já são mestiços. Por vezes, nem mulatos, mas de indígena também, né? E você vai apagar a história? Não tem como apagar a história, é essa, né? O nosso Brasil foi formado dessa forma, né? É isso. E agora, sim, caminhando aqui pra minha última pergunta, Bia, o Parditude é mais sobre identidade? É mais sobre justiça? Ou mais sobre sobrevivência?

Talvez tenha começado como sobrevivência e daí virou sobre justiça ou não? Eu acho que sempre foi sobre justiça. Uma questão que colocam muito para mim é que é uma questão da esquerda que aparece muito dentro da própria esquerda de a luta de classes para melhores condições para os trabalhadores, de sobrevivência no sentido material da coisa. E eu vejo que o paro de tudo é uma luta que está mais no campo da identidade, que foi uma das palavras que você também escolheu para falar.

E quando a gente fala da sobrevivência da população brasileira, a gente tem brancos, pretos e indígenas, mestiços, pobres e que estão passando por situações de sobrevivência e precisam ser acolhidos nessa questão, né? Então o Parditude eu vejo que é justiça pra todos, porque se você entende quem é o pardo, você também continua entendendo quem é o negro, né? Você preserva o significado do que é ser negro. Então eu sempre falo isso, né? De que o Parditude também defende os negros e o lugar deles de falar sobre, né?

quem são, o que vivem, quais as diferenças que uma pessoa de pele mais clara não vai saber como é. Então, é justiça para todos. É posicionar as coisas como elas são na realidade. E aí eu vejo que uma luta por sobrevivência é uma luta contra a pobreza no Brasil. Porque a gente tem um país muito vulnerável, mas eu vejo que a vulnerabilidade tem todos os matizes. É um povo muito colorido que a gente precisa estar junto lutando pela sobrevivência. Bia, te agradeço enormemente.

a todos que leiam esse livro, de verdade, assim, querendo expandir a mente. Isso aqui, pra mim, tinha que ser livro de escola, de verdade. Ai, obrigada. De verdade, porque você fala coisas que... Os exercícios que você propõe ao fim de cada capítulo, especialmente para pessoas pardas, mas eu acho que qualquer um pode participar disso e fazer isso. E aí, conta a sua experiência. Reflete aqui. Você já viveu alguma coisa?

desse tipo. Então, parabéns. Que você tenha sucesso. Que você siga com coragem, porque você vai precisar ainda de muita, mas só que você já mostrou ser bastante resiliente. Então, bastante sucesso, viu? Muito obrigada. Fiquei muito feliz pelo convite. De verdade, adorei a conversa também. Recomendo a todos comprarem o livro para entenderem a história com começo, meio e fim. Entenderem realmente o que é a partitude pela autora e não por tudo que falam, que muitas vezes distorcem.

Você pensa em fazer algum adendo contando a sua exclusão da universidade, dando mais detalhes? Eu não sei quais vão ser os rumos, eu acho que eu vou esperar o desdobramento jurídico. Você quer voltar para a UF? Eu quero, quero voltar. Você acha que faz parte de uma marca? Eu quero voltar, eu não queria ir conversando com advogados, pessoas especializadas.

Eu sei que eu tenho todas as provas e evidências, né? Eu deixei fixado no meu Instagram pra quem quiser entender com profundidade, porque são muitas coisas e é muito complexo, então tá lá. Eu falei, vai fazer um processo, mas você não vai exigir o seu direito? Você precisa exigir o seu direito. E aí me deu um instalo, não, realmente, eu preciso exigir o meu direito. E eu quero o meu direito de voltar e ser matriculada como aluna, que eu passei no processo seletivo, sabe? Então essa vai ser a minha luta. E depois eu vou acompanhar o desdobramento,

e talvez escrever um livro só sobre o que aconteceu e sobre a questão da liberdade acadêmica, que é um... Não era a minha luta inicial. Mas agora vai virar também. Exato. Agora eu tenho duas frentes de trabalho. Então eu penso em escrever um livro... Duas? 727 frentes de trabalho, né? Mais ou menos. Que se desdobram. Exatamente. Então eu penso realmente em escrever sobre o que aconteceu e talvez convidar outras pessoas que passaram a mesma coisa também pra...

pra escrever. E vai andar lado a lado com a luta do Parditude, né? Porque eu preciso da liberdade acadêmica pra criar o Parditude. Eu não sabia que tudo isso ia acontecer. Mas é isso. Tem muito caminho, muitos anos pela frente. E sucesso também. E apoio quando precisar. Obrigada, viu? Muito obrigada. E eu esqueci de dizer aqui no início do episódio, todo esse episódio é feito com apoio da Escola de Música Intermesa e da produtora Camaleão. Tá dito aqui. E espero vocês aqui ainda,

Gabriel, Manu, todo mundo junto, fiquem tranquilos no nosso Rivone News, sexta-feira, meio dia e meia. A gente espera vocês. Beijo.

BEATRIZ BUENO | RivoTalks #120 | Castnews Index — Castnews Index