Episódios de Livros e Listas

Títulos bonitos / Livros e Listas #89

06 de maio de 20261h29min
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Neste episódio, João Lúcio e Luana Werb listam três obras que possuem títulos bonitos.

Livros citados no episódio:

  • Todas as coisas ferozes, de Cherie Dimaline, com tradução de Bruna Miranda (Melhoramentos)
  • Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de Lobo Antunes (Alfaguara)
  • Agosto azul, de Deborah Levy, com tradução de Adriana Lisboa (Autêntica)

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  • Títulos de livros favoritosAmor de Novo · A Porta da Viagem Sem Retorno · Cinzas do Norte · Relato de um Certo Oriente · Amargo · Vermelho Amargo · 100 Anos de Solidão · De Amor e de Outros Demônios · Ninguém Escreve ao Coronel · Crônica de uma Morte Anunciada · O Amor nos Tempos do Cólera · Futuro Ancestral · Os Resíduos do Dia · Os Vestígios do Dia · Os Anos · As Horas · O Avesso da Pele · A Palavra que Resta · Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos · Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus · O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Roterdã · Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los · Nunca Houve Tanto Fim Como Agora · Epigramas Recheados de Cicuta · Bombons Recheados de Cicuta · Moça Quase Viva Enrodilhada Numa Moeira Quase Morta · Passos Perderam Possibilidades Peregrinas · Abril Despedaçado · Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra ao Mar · Os Cus de Judas · Conhecimento do Inferno · Tratado das Paixões da Alma · A Ordem Natural das Coisas · Manual dos Inquisitores · O Esplendor de Portugal · Exortação aos Crocodilos · Não Entrem Depressa Nessa Noite Escura · Boa Tarde às Coisas Aqui Embaixo · Eu Hei de Amar uma Pedra · Ontem Não Estive em Babilônia · Meu Nome é Legião · O Arquipélago da Insônia · Comissão das Lágrimas · Não é Meia-Noite Quem Quer · Bom Dia Tristeza · Agosto Azul · Todas as Coisas Ferozes · Silêncio · Nadando de Volta para Casa
  • Análise de 'Todas as Coisas Ferozes'Cherie Dimaline · Povo Métis · Especulação imobiliária em terras indígenas · Religiões neopentecostais no território indígena · Rogarou · Lobisomem · Sr. Heiser · Ajean
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Oi, meu nome é Luana. Oi, eu sou o João. E esses são os nossos cinco títulos favoritos da literatura. Sobre o qual não falaremos hoje, porque já falamos antes ou porque ainda nem lemos. Parecem motivos justos. Eu nem cheguei nessa segunda...

parte, João. Eu peguei a nossa lista de livros já indicados no podcast e tinha tanta coisa boa, né? Aí eu fui olhando eu acho que eu parei no episódio 20 e já catei meus 5 aqui. Eu coloquei, deixa eu ver, eu coloquei dois que eu ainda não li mas que são favoritos da vida, então eu fiquei incomodado de não citá-los aqui, principalmente o meu favorito de todos.

Começa então, João. Seu quinto lugar. Vocês estão preparados? Querem se sentar? Eu coloquei um que eu poderia ter trazido aqui. Esse eu já li. Era uma das minhas escolhas possíveis, mas deixei para outro momento. Que é um livro da Doris Lessing, que se chama Amor de Novo. Muito bom. Eu gosto muito desse título. Título é difícil, né? Eu queria só abrir um parênteses aqui. Quando eu fui fazer minha lista, eu não sei a opinião de Luana a respeito de títulos.

Mas eu acho que eu cheguei a uma conclusão de que os títulos normalmente não são títulos bonitos, eles são títulos funcionais.

Você concorda comigo? Grande parte dos livros tem títulos que, assim, dentro da narrativa funcionam, mas isolados eles não são, assim, aquela coisa, nossa, que verso bonito, que frase linda. Mas esse da Dóris eu gosto muito, porque ele dá uma ambiguidadezinha, né? Ele brinca, assim, quando você lê a história, você vai entender o que é esse de novo, mas você pode ler até no tom de Ai, Amor de Novo. Lá vamos nós.

Então joga muito pro leitor, assim. Pode ser amor de novo. Pode ser amor de novo. Então eu gosto da ambiguidade do título. Só pra contextualizar, no livro é uma personagem mais velha. E ela se apaixona de novo.

Então já é uma senhora ali se apaixonando. Então tem essa ideia de quando ela achou que já não ia se apaixonar mais, ela encontra de novo mais até do que um amor na vida. Então acho bem bonito. E é uma história de amor tão bonita e tocante quanto do livro As Avós? Eu acho que é no mesmo estilo, viu? Porque é menos... É menos... Escandaloso. Chocante, eu acho. É menos escandaloso.

É menos escandaloso, mas tem suas coisinhas. A Doris Lessing põe suas garrinhas de fora. Que velha safada! Bom, em quinto lugar, eu coloquei A Porta da Viagem Sem Retorno. Bonito o título. Bonito, né? Do David Job, já mencionado aqui neste podcast. Fala sobre um europeu antropólogo, se eu não me engano, ou era um botânico.

que viaja para o Senegal naquela fase ali do cientificismo do século XIX, das descobertas, das pesquisas, e ele volta muito diferente.

que cita aqui, porque a gente tem mencionado isso nos últimos podcasts, nos últimos episódios, né, João? A mente que se expande a uma nova ideia não retorna ao seu tamanho original. Acho que esse título dá uma ideia disso. A porta da viagem sem retorno. A partir daqui não se volta ao que se era antes.

Muito bonito, achei bonito. Nossa, que linda! Você gostou? Os meus são mais sóbrios, assim. Eu gosto de coisinhas. Em quarto lugar, eu trouxe um livro que eu ainda não tive a oportunidade de comentar nesse podcast, que é o Cinzas do Norte. Você gosta do Milton Raton, João?

Olha que surpresa, chocada. Sim. E eu gosto, tem dois títulos do Milton Raton que eu gosto muito. Cinzas do Norte, que eu acho belíssimo. Essa ideia de cinzas ali. É um título melancólico, sabe? Eu acho que o título já exprime tudo o que ele quer passar no livro. Essa ideia de ao mesmo tempo que...

Vai ser uma história muito concentrada em aspectos do norte do Brasil. Tem quase essa distância, né? Ser um Brasil que não é tão conhecido para os próprios brasileiros. E essa ideia do cinza, né? Da ruína, daquilo que já foi ou que poderia ter sido e que não foi, eu gosto muito. Mas eu coloquei o Milton porque eu gosto muito do outro título dele também. Que é o Relato de um Certo Oriente. Acho lindo, lindo, lindo o título também. E...

Tem dois marcadores de distância nesse título. Relato de um certo oriente. Parece que é uma dupla distância. Algo que está vagamente chegando para a gente aqui. E tem a brincadeira ali no livro com um relato em cima de um relato. Evocando as mil e uma noites. Eu acho lindíssimo esses dois títulos do Milton Ratum.

O relato é o meu título favorito. Acho lindo mesmo. Ele tem até uma sonoridade bonita, né? Relato de um certo oriente, assim. Tônica, tônica, tônica. Depois, acho lindíssimo, gente. É uma obra pronta. A gente conversou no último episódio que a gente gosta ou de títulos longos. Com essas ideias abstratas. Ou de títulos muito curtos, né? Palavras isoladas. Trouxe um título que é uma palavra isolada que é o Amargo. Ah, bonito. Da Ale Magalhães.

Gosto bastante, livro de poesia, também já mencionado aqui, da nossa amiga Alema Galhães, um livro que se compara a um chá de boldo, de um amargo e necessário, um livro dedicado para todo mundo que sobreviveu ao Brasil dos últimos anos, livro escrito com raiva, uma categoria... Que a gente gosta bastante. Muito apreciada por este podcast, exatamente. E me lembrou do...

Bartolomeu Campos de Queiroz, que eu adoro também, que é o Vermelho Amargo. Gosto demais também, do livro e do título. Vermelho Amargo é excepcional, né? Também gosto muito. Livraço.

Em terceiro lugar, fui de clássico, Luana. 100 Anos de Solidão. Ai, que título lindo, gente. Lindo, lindo, lindo. Acho esse título. Gabriel Garcia Marques, categoria de autor que sabia dar título. Os títulos dele são belíssimos. Inclusive, teve um ouvinte nosso que comentou, que sugeriu o outro livro dele, que é o De Amor e de Outros Demônios, que também é um belo de um título. Eu acho lindíssimo. Ninguém Escreve ao Coronel. Ele tem uns títulos maravilhosos, gente.

Crônica de uma morte anunciada. Lindo também. Estou aqui olhando, colando o amor nos tempos do cólera. Ele sabia. Este sabia. Tem um autor que gabarita. Sabia dar título. E sabia construir primeiros parágrafos. É o Gabriel Garcia Marques. Sabia muito bem o que ele estava fazendo ali.

sabe de quem eles me chamam? De Queen! Em terceiro, eu coloquei Futuro Ancestral. Ah, lindo. Do Ailton Krenak, não ficção aqui. Eu gosto do título, gosto da sonoridade, gosto da ideia também. Essa ideia de que a gente precisa repensar o nosso conceito de futuro baseado no que pensavam os nossos ancestrais, as populações indígenas, o que eles pensavam sobre o futuro. Olha que ideia forte. Adoro esse título. Acho muito bonito.

Até a desconstrução temporal, cronológica, que a gente usa muito na cultura ocidental, de passado, presente e futuro, essa ideia de que, na verdade, o tempo é cíclico, ele não é uma linha reta, o passado e o presente e o futuro se encontram de alguma forma. Belíssimo, boa lembrança, muito bonito mesmo. Muito bonito, né?

Em segundo, coloquei um em sua homenagem, Luana. Porque eu sei que é um autor que você gosta muito. Eu li pouco ele. Preciso ler mais. Mas eu acho lindíssimo. Os Resíduos do Dia, do Kazuhi Shiguro. Nossa, eu gosto de títulos melancólicos. Acho que eu cheguei nessa conclusão. E eu gosto das duas traduções do título. Porque tem duas versões. Tem uma que é Os Resíduos do Dia. E o outro é Os Vestígios do Dia. Eu acho que eu prefiro Resíduos.

Porque vestígio me lembra mais uma coisa policial, uma coisa de pista, de alguma coisa que você vai reconstruir. Resíduo, eu acho que evoca mais essa ideia de que já acabou, de ruína, de algo que já foi. E gosto muito dessa ideia do que ficou do dia. Não é algo grandioso, é do cotidiano. Todos os dias são pequenas ruínas na nossa história. Ah, eu acho belíssimo esse título.

E se o dia está acabando, vem a noite, né? Essa ideia da melancolia também. Do pôr do sol. Eu gosto muito dos dois também, resquícios, eu concordo com você. Mas o vestígios também funciona muito dentro da narrativa. Porque é esse mordomo repensando o passado, tentando entender o que aconteceu. Então essa ideia de investigação também casa.

Eu gosto muito de títulos com marcações temporais, assim, só para fazer outras menções. Eu gosto muito dos Anos, da Nirnu, acho que funciona bem isolado, sabe, assim, os Anos. E gosto de um livro que a gente vai comentar, por isso que eu não coloquei ele aqui, porque ele é o nosso último livro do Clube de Leitura, que é o As Horas.

do Michael Cunningham, que é lindíssimo também, a explicação do título As Horas era originalmente um dos títulos que a Virginia Woolf pensou pro Mrs. Dalloway. Faz todo sentido, né? É. Ah, eu acho lindo. Lindo, lindo, lindo. Mas volto a comentar sobre ele, porque é favorito da vida. Pode escutar quando eu prometo, eu cumpro! Em segundo lugar, eu coloquei O Avesso da Pele.

Lindíssimo também. Acho muito bonito, do Jefferson Tenório, que é a história de um rapaz cujo pai, que era professor, é assassinado por questões raciais, então uma história cujos personagens são atravessados pelo racismo o tempo inteiro, então eu acho um título muito forte, O Avesso da Pele. Eu lembrei do livro do Stênio também, A Palavra que Resta. Lindo. Acho muito bonito esse título. Preciso ler?

Em primeiro lugar, gente, meu título favorito da história da humanidade é de um autor brasileiro, e eu ainda não li, que é do Evandro Afonso Ferreira. Ele escreveu o seguinte livro, Os piores dias de minha vida foram todos.

Ah, eu amo esse título, gente. Eu amo. Eu tenho até medo de ler o livro e de não gostar tanto, igual eu gosto do título. Eu já li esse livro. Eu acho que você vai gostar. Tô só pesquisando aqui, porque ele... Agora eu tenho um microfone entre eu e o teclado. Eu estou aqui... Ai, vocês vão ouvir essa sonoplastia.

Sem contar que eu tô com dificuldade de teclar. Ó, gente, estou de microfone novo, olha que chique. Eu acho esse título tão sarcástico, gente. Os piores dias da minha vida foram todos. Mas eu queria achar os títulos que ele dá. Ó, tem...

Minha mãe se matou sem dizer adeus. O mendigo que sabia de cor os adagios de Erasmo de Roterdã. Os piores dias de minha vida foram todos. Não tive nenhum prazer em conhecê-los. Também é um ótimo título.

Eu vi, só um parênteses, a última vez que eu fui em São Paulo, num sebo, eu não vou lembrar o autor ou a autora do livro, mas era um livro de poesia que era assim, estive em São Paulo e não lembrei de ninguém. Continuando os livros do Evandro, Nunca houve tanto fim como agora, epigramas recheados de cicuta, esse é maravilhoso também.

Moça quase viva enrodilhada numa moeira quase morta. Passos perderam possibilidades peregrinas. Tem uns que eu gosto mais. Eu gosto mais quando ele vai pra esse humor meio sarcástico aqui. Espero encontrar isso no livro. Meu medo é ler o livro e o livro ser super sério. Não é. E aí eu perder... Ai, que bom.

Pode, tranquilo. E esse da Cicuta, eu tenho um, eu acho que talvez tenha sido uma reedição, mas eu tenho o primeiro livro dele, eu até ia mencionar para dizer que sempre foi uma preocupação do Evandro, é bombons recheados de Cicuta. Olha! Como que é o outro que você falou de Cicuta? Epigramas recheados de Cicuta, ele tem bombons recheados de Cicuta e depois epigramas.

que tem informação! Gosto muito também. E aí, João, em primeiro lugar, eu já falei, né? Em outro episódio, mas eu achei que eu precisava manter a coerência e trazer aqui o título, que é o meu favorito, que é o Abril Despedaçado, do Esmeralda Cadarrê. Lindo título também. Que eu acho belíssimo, gosto de tudo, gosto da ideia, né? Eu até expliquei isso em algum episódio aí pra trás.

que é um personagem que vai morrer em abril, ele está jurado de morte. Então, por isso a ideia do abril despedaçado, né? Ele não vai viver abril até o final, esse abril que vai ser cingido ao meio. Mas eu gosto da sonoridade, a ideia de despedaçar, é uma palavra forte, né? Forte, forte. Categoria de desonra, né? Que é outro livro que a gente sempre menciona aqui, com talvez os títulos dos que eu mais gosto, viu? E, curiosamente, não falamos sobre ele.

Não colocamos aqui, mas gosto dessas palavras fortes assim também. Não sei que outra palavra eu posso usar porque isso é uma obra de arte. Por que estamos falando de títulos, Luana? Porque vamos fazer esse episódio aqui absolutamente original. Ninguém nunca fez isso na internet brasileira. Falar sobre livros.

cujos títulos são nossos favoritos, nossos prediletos. Eu nem colocaria favoritos, eu colocaria bonitos. Eu não sei se eu... O que eu escolhi mesmo, acho que dos que a gente comentou aqui no começo, eu prefiro outros, mas é o que tem para hoje. Porque existe essa regra aqui ditatorial, né, João, de que a gente não pode repetir livros.

Então, não posso falar aqui de Abril Despedaçado, mas trouxemos outros aqui para vocês, livros ainda não mencionados no Livros e Listas, mas que tem títulos bonitos também. É um critério, assim, né, João? Absolutamente objetivo. E aleatório. Ah, isso não faz o menor sentido. Não vou entrar nessa seara, mas tem títulos. Só queria julgar essa provocação aqui do mal. Tem títulos que muita gente ama.

Eu não amo, Luana. Por exemplo? Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Eu acho brega, gente. Eu gosto do título, mas não gosto do livro. Então, fiquem aí com essa informação. Eu acho lindos lábios uma combinação horrorosa.

Acho que não é um elogio que ninguém faz. Ai, que lábios lindos, sabe? Ninguém associa lábios à beleza. Acha ele meio pomposo demais. Não gosto do livro também. Então, assim, pode ser isso também. Concordo com você, talvez. Mas eu vejo sempre que saem as listas assim, quando você joga na internet, ele tá. E eu não acho bonito, não. Eu acho que você tem lindos lábios, João.

Com essa barba machadiana, você conseguiu reparar nos meus lindos lábios? Tô chocada que ninguém nunca falou isso pra você. Os homens desse país realmente são uma decepção. Lindos lábios, eu acho pesado. Acho meio forçado. Eu acho um título desperdiçado. Realmente não gosto. Quem sabe um dia a gente tem coragem e faz esse episódio de livros que as pessoas gostam e a gente não gosta.

mimimi de personagem hétero. É, podia ser um tema também. Esse, pra mim, é...

Ai, que sofrência ler este personagem. Mas tudo bem, não é sobre ele. Bom, vamos ao que interessa. Quem começa, João? Você, porque aí a gente, como nós já falamos da Clarice, e talvez eu tenha me exaltado, a Clarice vai ficar como uma sugestão minha, A Hora da Estrela. Luana fará duas sugestões hoje, eu mais uma. E aí a gente encerra com o livro em comum.

A gente sempre complicando, né? Mas muito bem lembrado, João. Então, A Hora da Estrela foi a primeira parte desse episódio, que vai ser dividida em três partes. Então, hoje traremos mais três livros e aí semana que vem nosso livro em comum.

A Hora da Estrela, belíssimo título também. Belíssimo título. Clarice sempre arrasando. Dos 13 que ela tinha. É, ela escolheu o melhor, realmente. Ela ainda faz meio que pra gastar, né? Veja, eu poderia ter dado qualquer um desses 13, seriam maravilhosos, mas eu escolhi um. Ostentando títulos, Clarice. Ostentando títulos. Mas é isso. Eu vou falar então pra vocês, gente, já começando aqui, com um título que eu adoro, que é Todas as Coisas Ferozes.

Esse título é muito bom. Da Cherie de Malini. Eu não sei como pronuncia. Peço desculpas. Minha pronúncia aqui é sempre maravilhosa. Ela é uma escritora do Canadá, João. Olha! E esse livro foi publicado em 2019. Aqui no Brasil saiu pela editora Melhoramentos, com tradução da Bruna Miranda.

E o que a gente tem nesse livro? Estou muito empolgada de falar sobre ele para vocês, gente. Peço a todos calma, porque é um livro polêmico, é um livro não recomendado para pessoas sensíveis, é um livro talvez um pouco escandaloso, mas já já falo mais sobre isso. A sinopse é a seguinte. A gente tem uma mulher chamada Joanne, e ela está há 11 meses procurando pelo marido desaparecido, o Victor.

Eles, numa determinada noite, tiveram uma briga, uma briga mais enérgica. Basicamente, a Joanne, ela herdou um terreno, uma terra do seu pai. E o Victor, que é marido dela, quer vender essa terra. Ele quer, na verdade, ir embora daquele lugar, ele quer abandonar a região, começar a vida.

em outro lugar, e a Joanne não quer. Ela é muito apegada ali à casa dela, à terra dela, à memória do pai dela, ela tem uma lembrança muito positiva do pai, então ela não quer vender aquele terreno de jeito nenhum. Os dois discutem.

E aí o Victor, em algum momento, decide sair de casa, mas no sentido de preciso ficar sozinho. Eu vou sair para dar uma volta, para espairecer, eles moram numa floresta, então ele diz que vai ver ali algumas armadilhas que ele deixou ao redor da propriedade, mas na verdade ele só quer dar uma volta mesmo, esfriar a cabeça. E aí ele sai e nunca mais é visto.

E a Joanne fica desesperada. Ela procura o marido em todos os lugares, durante todo o tempo. As pessoas ao redor dela começam a perder as esperanças de que ela vai encontrar o marido. Tem muita gente que inclusive fala pra ela que ela precisa começar a pensar na ideia de que talvez ele tenha abandonado ela.

porque nada foi encontrado, nenhum vestígio, mas ela não se dá por vencida, ela continua procurando e ela, em alguns momentos, ela fica muito, muito triste, muito desesperada, ela não sabe o que aconteceu com o marido, eu nem imagino qual deva ser a sensação, e ela acaba bebendo muito.

Ela própria vai dizer isso, que ela bebe demais, em muitos momentos ela abusa ali da cerveja, e aí numa determinada manhã ela acorda, ela tá com uma ressaca desgraçada, tá com o corpo todo dolorido, e aí ela decide ir até um supermercado. Ela quer comprar alguma coisa nesse mercado pra aliviar a dor de cabeça dela, então ela dirige até esse mercado.

para o carro ali no estacionamento, só que quando ela chega nesse estacionamento, tem uma tenda montada, um palco ali, um palanque provisório montado, que pertence a um grupo religioso, então eles montaram aquela estrutura ali para fazer uma pregação naquela região, e ela não entende muito o motivo, mas ela se sente atraída por aquela tenda, ela se aproxima, e aí quando ela se aproxima, ela escuta a voz do marido.

E aí ela fica transtornada, ela sai correndo, ela chama o nome dele, Victor, abraça ele. Só que ele tem uma reação muito estranha, porque ele não reconhece a Joanne. E pior do que isso, ele fala para ela que ele não se chama Victor, ele se chama Eugênio. E ele é um pregador. Ele está ali naquela companhia há muitos anos e a grande missão dele é espalhar a palavra de Jesus.

E aí, gente, antes de continuar falando de alguns elementos da história, eu preciso dar para vocês uma informação muito relevante aqui, até para a gente ter como chave de leitura, que é a seguinte, gente, a Cheride Malini, que é a escritora do Todas as Coisas Ferozes, ela é uma mulher indígena.

Ela é uma mulher indígena do povo Métis, que é uma população originária do Canadá. Eles estão em várias regiões ali do país, mas a região da Cherie é a Bacia de Ontário. Então, ela é de uma população indígena e os personagens dela também são indígenas. Grande parte dos personagens desse livro, inclusive o casal de protagonistas, que é a Joanne e o Victor.

E aí a gente vai descobrir que a Joanne, ela não é apenas uma mulher de 37 anos que está lidando com o desaparecimento do marido, e que descobre ali o Victor que não reconhece, mas ela é uma mulher que, nas suas próprias palavras, talvez beba demais. Ela é um indivíduo que precisa lidar com questões muito importantes do povo Métis naquele momento. Duas principais, que são centrais aqui para a narrativa. A primeira...

a especulação imobiliária em terras indígenas,

Então, tem empresas ali que estão muito interessadas em comprar essas terras dos indígenas para construir condomínios, para construir casas de alto padrão. Eles vivem, a população Métis, em uma região muito bonita, de lagos, uma região de tundra. Então, eles querem essas terras. E a segunda questão central aqui é justamente a crescente influência das religiões neopentecostais no território indígena.

E é por isso que eu disse que talvez seja um livro um pouco sensível, um pouco doloroso de ler. Porque a religião aqui, gente, é utilizada como ferramenta para os interesses da população branca. Então a palavra de Deus, de Jesus, é muito conveniente aqui para os brancos.

E a gente vai ter muitos momentos que, pelo menos para mim, foram bastante perturbadores. Por exemplo, os sermões do Victor, que agora é o Gene, que é esse pregador. Ele vai contar, por exemplo, que a situação dos indígenas naquele momento, em todo mundo, ela é muito delicada. Eles passam por um momento bastante difícil. E por que eles estão passando por tantas dificuldades? Por conta de decisões erradas dos seus ancestrais.

que há séculos negaram a palavra de Deus.

Os brancos vieram com a palavra de Deus, com uma oferta de modernidade para participar deste mundo novo, e esses ancestrais recusaram. Então, que tudo que aconteceu de ruim a partir daí é responsabilidade dessa decisão, dessa negativa primordial. É muito doloroso de ler isso. E a gente vai ter acesso, inclusive, ao líder dessa comunidade religiosa, que é o Sr. Heiser. Ele é um europeu.

E a gente vai ter acesso aos pensamentos dele e ele vai deixar de forma muito clara, ele vai falar, ele vai pensar de forma muito explícita que ele está ali de fato para representar os interesses daquelas empreiteiras, daquelas construtoras. A religião é uma ferramenta de assimilação dos indígenas.

Uma forma dos indígenas abandonarem a sua própria cultura e estarem mais predispostos a aceitar determinados preceitos. Então, assim, eu não consigo imaginar, eu sei que eu estou gaguejando aqui, mas eu só consigo pensar se um livro desses fosse publicado no Brasil. Um escândalo que ia ser isso. Então, assim, é um livro escrito com raiva, gente.

falando em livros escritos com raiva, mas lembrando isso, que a Cherie de Malini é de uma população originária. E aí a gente vai ter o Sr. Heiser pensando como é conveniente que as pessoas estejam rezando, que os indígenas estejam rezando, porque quanto mais as pessoas rezarem, menos elas se revoltam.

É melhor elas rezarem do que elas irem para as ruas e protestarem, e tentarem garantir os seus direitos, e mobilizarem as massas. Então a gente vai ter uma imagem bastante negativa aqui de religião. Mas voltando para a história, a Joanne vai ter que entender, essa vai ser a grande questão do livro, o que raios que o Victor está fazendo lá.

Por que o Victor agora pertence àquela igreja, é um pregador, e por que ele parece não ter mais nenhuma lembrança do passado dele ou dela própria? E aí a gente vai ter um segundo elemento aqui do livro, que é bem interessante, que é uma figura folclórica do povo Métis, que é trabalhada pela autora, que é a figura do Rogarou. Eu ainda não conhecia o Sr. Heiser, que é esse líder dessa comunidade religiosa, ele é um Rogarou.

E o que é um rogarô? É uma criatura monstruosa que tem o corpo de um ser humano, de um homem, e a cabeça ou de cachorro ou de lobo. Depende de quem estiver contando essa história, existem diferentes versões. Tem muitas similaridades com a figura de um lobisomem.

E aí pesquisando sobre o rogarol, eu vi que tem uma certa discussão, até acadêmica, sobre a origem dessa narrativa, dessa história folclórica do rogarol. Tem quem diga que é justamente uma assimilação, uma absorção dessa ideia do lobisomem que vai ser retrabalhada pelos indígenas.

Então, que isso veio da Europa, veio com os europeus, com os colonizadores, principalmente com os franceses, e tem gente que diz que não, que esse relato já existia, que ele é muito mais antigo que isso, mas que ele tem essas similaridades, uma coincidência aqui com a história do lobisomem. Mas eu trouxe isso porque eu achei interessante, eu não sei se todo mundo sabe, mas a figura do lobisomem também tem diferentes versões.

A gente sabe como é que você se transforma num lobisomem pelos ditos populares aqui, pela cultura popular. Quando você é atacado por um lobisomem, aí a gente tem várias formas aqui. Toma aminocidil. Também. Acontece.

Mas tem uma outra versão que diz que uma pessoa se torna lobisomem quando ela não segue certos ritos da igreja católica. Vocês sabiam disso? Uma pessoa que não segue a quaresma por sete anos seguintes, não respeita a quaresma, se torna um lobisomem.

Então eu achei curioso, porque o lobisomem funciona aqui para manter o catolicismo, para preservar a cultura católica, e aí eu achei curioso que na história aqui da Dimaline, seja isso também, de certa forma, o líder cristão aqui, seja ele próprio, um lobisomem, um rogarou aqui, conforme.

a cultura local. Mas para o povo Métis, você se torna um rogarou quando você é atacado por um rogarou, então isso se mantém. Mas tem uma questão aqui que eu achei bem interessante, que é, para você ser atacado, você precisa estar vulnerável, você precisa estar suscetível. E como que você está vulnerável? Quando você passa por um estresse psíquico provocado por você trair o seu povo.

Olha que forte isso, eu achei isso tão forte. Porque quando você está em comunidade, você está protegido. Se você se afasta do seu povo, você está sozinho, portanto vulnerável. E é por isso que o Victor, a gente vai descobrir ao longo da narrativa, ele vai ser atacado pelo Sr. Heisser, que é um rogarou. Porque ele, de certa forma, está traindo o seu povo. Quando ele decide, quando ele tem esse desejo de vender a propriedade da esposa, a terra que ele vai...

herdou do seu pai, ele está querendo se afastar daquela população, daquela comunidade, ele está querendo ir embora, então ele está de certa forma traindo o seu povo, por isso que ele vai chamar a atenção do Rogarô, porque é isso que acontece, esse líder religioso vai atacar o Victor, e aí quando o Rogarô ataca, ele transforma o corpo do indivíduo num invólucro vazio.

Então a alma vai para um limbo, vai ser aprisionada num espaço e o corpo fica vazio. E aí esse corpo vai ser preenchido pelo rogarô. Por isso que ele se torna um pregador, um membro daquela comunidade religiosa.

Porque para o Sr. Heiser é muito conveniente ele ter uma figura, um homem indígena, pregando. Porque agora não é mais alguém de fora falando sobre a palavra de Deus, é um de dentro. É uma pessoa interna ali falando dos benefícios da palavra do Senhor.

Sem contar que o Victor é um homem muito bonito, ele é muito carismático, então ele é o pregador perfeito, por isso que o Sr. Heiser ataca ele e leva ele para essa comunidade religiosa. E aí a Joanne vai ter que, de alguma forma, lutar pelo marido dela, vai ter que salvar esse homem. Ela nem sabe se isso é possível, mas toda a trama vai ser a partir dessa ideia, dela conseguir enfrentar o Hogaro e trazer o seu marido de volta.

E aí, gente, ela vai ter a ajuda, e eu acho isso bonito também, dos anciões da população Métis. Principalmente a Ajean, que é a minha personagem favorita do livro. Ela é uma senhora, ela já tem mais idade, e ela sabe como enfrentar um rogaru, porque ela tem a sabedoria popular.

Então, por exemplo, ela sabe que determinados ossos de pessoas importantes, eles são preciosos. Então, ela vai pegar um osso da avó, da protagonista, da Joanne, vai triturar esse osso, vai transformar ele num sal, e esse sal tem poderes mágicos, tem poderes protetivos. Então, por exemplo, se você jogar esse sal ao redor da casa, nenhum espírito maligno pode entrar nessa casa.

Então é uma forma de você se proteger do rogarô. Ela é uma figura incrível, tem um outro momento que ela fala que as doenças têm cheiro. Ela conhece a doença pelo cheiro. Então eu não lembro agora, eu não separei aqui para anotar, mas é assim, tuberculose tem cheiro de hortelã.

Essa bronquite tem cheiro de alguma de salsa, então ela reconhece as doenças pelo cheiro. É uma personagem maravilhosa. E além disso, João, ela tem um senso de humor, isso me chama tanto a atenção. Tem um momento do livro que eu acho impagável, que ela precisa, justamente para pegar esse osso, ela precisa percorrer, passar por um território sagrado para a população Métis.

território sagrado indígena. Não é exatamente isso, mas eu vou colocar nesses termos. Ela precisa passar por um cemitério indígena. E esse cemitério está tomado de construções dos brancos. Está cheio de empreendimentos, de casas, e ela fica com muita raiva disso.

E aí ela pensa assim, ela pensa, meu Deus, tomara que os filmes estadunidenses estejam certos. Tomara que construir coisas em territórios indígenas transforme os filhos dos habitantes brancos em possuídos, aprisionem eles em televisões, tomara que isso aconteça mesmo. Deus queira.

Eu acho isso tão maravilhoso. Ela é uma personagem ótima, assim. Tem uma outra forma que ela usa para manter o rogarô afastado, que eu acho maravilhosa também, que eu acho que tem um senso de... E parece que é real, assim. Eu fui pesquisar e isso realmente existe na cultura popular. Os rogarôs, eles não são muito inteligentes. E eles só sabem contar até 12.

Então, se você deixar 13 objetos na frente da sua casa, ele vai achar curioso, ele vai ficar interessado, ele vai começar a contar. Só que quando ele chegar no 13º, ele não vai ter o número, ele não vai ter o conhecimento. Então, ele vai começar de novo. E aí, ele vai ficar preso nesse looping.

E aí eu acho muito bom, porque nessa história os vogarôs são os homens brancos, né? Então pra mim não deixa de ser uma ironizada, assim, olha, esse povo que se acha tão inteligente, eles não sabem nem contar até 13. Não sabem de nada.

Não sabem de nada. Ela é maravilhosa. E isso me chama muita atenção no livro, porque eu acho que ela trabalha com gêneros muito diferentes. O livro tem humor. Acabei de contar aqui passagens para vocês que são muito engraçadas. Tem terror.

Porque não é exatamente um terror no sentido gráfico, mas tem algumas passagens do Hogarou que eu acho bem pesadas. Essa ideia do seu corpo ficar vazio, dele ser preenchido por uma outra alma, eu acho bastante assustadora, de você não ter mais controle sobre o seu corpo. Ele é torturado também pelo Hogarou, então tem alguns momentos mais pesados mesmo, de terror, e ao mesmo tempo fala de um tema...

tão importante, a preservação das terras indígenas, diferente do Brasil, me parece que no Canadá a propriedade pode ser passada, ela pode ser vendida, então isso é uma questão muito discutida, aqui no Brasil não, as terras indígenas pertencem à União.

A ideia é preservar aqui de forma mais completa e absoluta o modo de vida mesmo dos indígenas, sem influência, sem qualquer tipo de influência externa. Mas me parece que lá isso pode ser negociado, tem algumas questões aqui, até questões que a gente já viu nos Estados Unidos, das leis não se aplicarem exatamente nos territórios indígenas.

Eles abrem cassinos, eles abrem certos estabelecimentos que não poderiam funcionar em outros lugares. Enfim, são questões que eu acho muito interessantes aqui de estarem no livro. E ao mesmo tempo é um livro muito fácil de ler. Ele é um livro com muitos acontecimentos, com muita ação. Então é um virapáginas, é um romance de muita aventura mesmo, de muitos acontecimentos. Muito gostoso de ler, gente.

Então, assim, fica muito a recomendação. Eu gosto muito do título, Todas as Coisas Ferozes. Mas gosto muito dessa ideia também da ficção adulta escrita por um indígena. Não é tão fácil da gente encontrar. A gente já mencionou isso em outras ocasiões. A gente lê muito pouco.

literatura de autoria indígena, o que chega para a gente geralmente é não ficção, talvez alguma coisa de poesia, no Brasil especificamente a gente tem literatura infantil também de autoria indígena, temos um certo mercado, ainda pouco, não é só a gente que não lê autoria indígena, o mercado não publica.

Autoria indígena como deveria também. Mas aqui está uma excelente opção, gente. Todas as coisas ferozes, da Cherie de Malini, autora do Canadá, mas que é indígena, pertence à população Métis, e que aqui no Brasil saiu pela Melhoramentos. Gostei muito desse livro, de verdade. Mas se você é religioso, respira fundo, assim, porque é bastante complicado.

Me lembrou um livro de outra canadense, que é Alice Munro. Não sei se você conhece, Luana, essa escritora. E ela tem três contos. Agora, pior que eu não vou lembrar em qual livro os contos estão. Mas são os contos que deram origem ao filme Julieta, do Almodóvar. Ele gravou esses três contos, que são três contos que acompanham a vida da mesma personagem. E no último conto, que tem um belíssimo título, inclusive, se chama Silêncio.

Você acompanha essa mãe cuja filha desaparece e a filha desaparece para seguir uma seita religiosa no Canadá. E aí é o incômodo da mãe com essa falta de notícia, com o silêncio da filha. E ela não sabe o que fazer, ela tenta encontrar a filha, a filha também sumiu. Aí ela tem notícias muito esparsas de que a filha agora está dentro de uma...

No caso, é tratado como uma seita religiosa mesmo, tá? Porque aí eu acho que não é uma religião específica, né? Mas é um contasso também muito angustiante.

E no mesmo contexto, né? Só não tem, obviamente, a questão indígena, né? Mas, aparentemente, é uma questão no Canadá e no mundo, né? Eu gostei muito, gente. É ferino, é assim, tem passagens... O que a gente sempre fala, né? Do rancor, da raiva movendo a escrita. Eu acho que tem seu peso, tem seu poder.

E ao mesmo tempo é uma literatura muito acessível. Eu achei que ela equilibra coisas muito diferentes, muito distintas. Não parece que vai dar certo. E para mim super funciona. Ainda tem a questão do mistério mesmo, de como ela vai resolver essa situação. Então é uma baita recomendação. E acho que ele é pouco falado. Todas as coisas ferozes. Acho que vale conhecer.

Muito que bem. Eu vou continuar com o rancor, Luana. Você quer levar uma sacola cheia de ódio quando você morrer no caixão? Eu trouxe um dos livros mais rancorosos que eu já li na minha vida. E eu trouxe para homenagear um autor que nos deixou recentemente, que eu adoro, era dos meus favoritos. Sei que a Luana também ama, a gente já comentou sobre ele, que é o Antônio Lobantunes, autor português.

imenso, gente, imenso, imenso, imenso este homem, vou já falamos dele aqui, no primeiro episódio, que era autores que mereciam o Nobel, não, mentira no segundo, de calhar maços, mas ele merecia o Nobel também, eu falei dele com o Ontem Não Te Vi em Babilônia ele só tem títulos maravilhosos hoje eu vou falar do Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra ao Mar

Olha que título maravilhoso. Ele é um mestre em dar títulos absolutamente descontextualizados, que você passa na estante e fala, meu Deus, do que será este livro? Vou só ler alguns aqui para vocês na bibliografia imensa dele. Ele tem um maravilhoso que é Os Cus de Judas. Olha que pouca vergonha. Sim, isso mesmo. Vou repetir. Os Cus de Judas. Eu não gosto muito de palavrão.

Eu acho vulgar. Lembrando que cu em Portugal não é exatamente o cu, né? É bunda. É a bunda como um todo, né? Porque eles não têm a palavra bunda. Eu acho que uma nação que não tem uma palavra pra bunda realmente não merece nosso respeito. E essa... Tem um peso no Brasil diferente, porque em Portugal os cursos de Judas é o nosso ditado onde Judas perdeu as botas. Você fala assim, ah, é tão longe, é lá onde Judas perdeu as botas. Eles falam lá nos cursos de Judas.

Eu só queria comentar antes de você falar do livro, que a primeira vez que eu vi essa expressão, a primeira vez que eu fui pesquisar para saber que raios os portugueses falavam tanto cus, foi num livro, agora eu já não lembro mais de quem que era, não sei se era da Inês Pedrosa, mas que tinha uma personagem que dava um chute no cu do namorado, eu falei, nossa! Eu fiquei horrorizada e um pouco também instigada com essa mira.

Quem diria que os brasileiros seriam mais moralistas do que os portugueses? Olha só, por essa vocês não esperavam. Eu fiquei chocada, fiquei chocada. Mas olha os outros títulos desse homem, gente. Conhecimento do Inferno. Olha que título maravilhoso. Tratado das Paixões da Alma. A Ordem Natural das Coisas.

Manual dos Inquisitores, O Esplendor de Portugal, Exortação aos Crocodilos, Esse que eu amo ainda não li, tô doido pra ler, Não entre estão depressa nessa noite escura. Olha que lindo!

maravilhoso. Boa tarde às coisas aqui embaixo. Inferno é uma imagem constante aqui. Tem o clássico dele, que é um calhamação. Eu hei de amar uma pedra. Ontem não estive em Babilônia. Meu nome é Legião, que é uma fala do demônio na Bíblia, porque o coletivo de demônios é Legião, de anjos também. O arquipélago da insônia.

Comissão das Lágrimas. Não é meia-noite quem quer. O meu favorito é não é meia-noite quem quer. É lindo esse, né? Esse eu acho lindo. Eu gosto muito do Boa Tarde, as coisas aqui embaixo também.

Me lembra um pouco aquele, que é outro que a gente podia ter colocado no top 5, que é Bom Dia Tristeza. Eu amo esse título também. Não é maravilhoso? Bom Dia Tristeza. Mas eu trouxe o Uke Cavalos, são aqueles que fazem sombra ao mar, que concordo com você, dos que eu li aqui, talvez não seja o título mais bonito do próprio Antônio Lobo Antunes, mas é o meu livro favorito dos que eu li do Antônio Lobo Antunes. Gente, poucas vezes eu li um livro assim, ele pinga rancor.

este livro aqui, se você torcer. É um clássico da literatura mundial. O que nós temos aqui? Vou fazer uma explicação um pouco breve, porque a gente já comentou isso, sei que a Luana é uma grande admiradora do Lubantunes também, acho que ela vai concordar comigo.

Eu acho que quanto menos a gente sabe da história no Lobo Antunes, melhor funciona, porque ele trabalha muito com essa ideia de deixar o leitor confuso mesmo. É um tipo de obra que quando você começa a ler, as coisas demoram a fazer sentido, tem muito fluxo de consciência aqui, para quem tem traumas com fluxo de consciência, é um calhamacito aqui, deve ter umas 300 e poucas.

Não, é menos. 330. Todo influxo de consciência, ele trabalha com o tipo de escrita que vão ser oito narradores neste pequeno livro aqui, tá bom? E qual que é o clássico aqui do enredo que a gente vai ter? Vou pontuar algumas coisas, mas vou tentar deixar outras aqui em aberto.

para você ter esse movimento da surpresa também. É um grande quebra-cabeça que você vai ter juntando as pecinhas. É um livro dividido em partes, cada parte dividida em um capítulo, e inicialmente cada capítulo é narrado por um desses oito narradores, que você não vai saber quem é até que você chega ali no meio do capítulo e as coisas comecem a fazer sentido. Mas basicamente nós temos este enredo tradicional da literatura mundial, que é uma família tradicional.

se desmantelando, Luana. Nós temos aqui o pai, a mãe, cinco filhos e uma empregada. São os oito narradores principais aqui deste romance. E é aquela... Lembra um pouco esse clima de crônica da Casa Assassinada, do Luz Cardoso. É uma família tradicional portuguesa, tem esse peso histórico aqui. Eles habitam uma região de Portugal.

que é uma região às margens do Rio Tejo, então assim, tem esse peso histórico, é uma construção de uma família que vive durante muito tempo numa fazenda dessa família, numa área rural, na verdade, e...

Por uma série de questões, tudo isso vai vindo abaixo. A gente vai acompanhar os filhos já mais velhos, só que o Lobo Antônio trabalha muito com memória. Lobo Antônio era psiquiatra, né? Eu acho que isso faz toda a diferença na literatura dele. Poucos autores, na minha opinião, trabalham tão bem questão de trauma e de memória.

na ficção, a partir de histórias inventadas ou de elementos históricos retrabalhados, porque, por exemplo, no Escudo de Judas, ele vai trabalhar muito com a guerra de Angola. Ele parte de uma experiência histórica para reconfigurar ela ficcionalmente. E aqui a gente tem, eu acho que é um clima, não é exagero da minha parte pensar nisso, é uma alegoria para...

própria nação portuguesa, que é algo muito constante em autores contemporâneos de Portugal, retrabalhar esse passado que já foi glorioso, o império português, e que sobrou pouca coisa, digamos assim, disso. Esse peso de um país que já foi uma grande potência internacional e que ocupou várias terras, e hoje em dia está longe de ser uma potência econômica, está longe de ser o centro cultural do mundo, e aqui ele vai...

trabalhar essa família como uma alegoria para a própria nação que está ali perdendo esse passado tão ilustre que já teve. E aí o clássico dos clássicos, família tradicional, com muitas regras, com muito moralismo, e quando você vai conhecendo os meandros aqui, os passados, as histórias individuais, você vai vendo...

tudo de absurdo que tem, que foi varrido para debaixo do tapete, as violências, as censuras, as construções, a troco do que essa imagem familiar foi criada. E aí o que eu gosto do Lobo Antunes é porque ele vai misturar vários tempos nessa narrativa, inclusive dos oito narradores, dois já morreram.

A gente vai ter acesso a dois narradores póstumos aqui, que é o pai, que já é falecido, e uma das filhas. Eu até fiz uma colinha aqui, deixa eu pegar para não me perder, porque eu anotei os nomes dos filhos. E aí vou tentar fazer um pequeno panorama aqui.

dessas narrativas, só para explicar um pouquinho como que essa família foi se desmembrando. Mas no tempo inicial, entre aspas, da narrativa, a gente tem a mãe no leito de morte. Então a mãe está morrendo e aí os quatro filhos vivos e a filha morta começam a relembrar a infância, a adolescência, como é que eles chegaram na vida adulta.

Entre os filhos, nós temos a Beatriz. A Beatriz é uma mulher frustrada porque ela vem de dois casamentos muito infelizes, dois casamentos que deram errado. Ela tem uma questão com a culpa muito forte, porque ela vai se atribuir, e os outros membros da família vão atribuir a ela a culpa da família ter se desmantelado, porque ela vai engravidar na adolescência, Luana.

ela vai ter uma filha durante um relacionamento, um namoro que ela tem na adolescência, acho que ela tem 16 anos, ela engravida tem a cena que ela perde a virgindade num carro, isso volta na narrativa dela várias vezes, porque para ela é a partir dali que tudo vai desandar, essa relação sexual vai fazer com que ela dê a luz a uma filha.

E, obviamente, essa família tradicional vai lidar muito mal com o fato de ter uma filha que engravida na adolescência, ela vai ser obrigada a casar com esse namoradinho e aí o relacionamento não vai dar certo, os outros irmãos vão culpá-la por ela ter manchado o nome da família, ela vai se culpar, depois ela casa de novo e não dá certo também, aí vai ter o peso de um segundo divórcio na vida dela. Então, assim...

O Loban Twins, eu gosto muito, porque ele trabalha aqui com arquétipos, sabe? Ele pega tudo o que pode parecer um clichê, mas, infelizmente, as famílias que têm esse apelo à tradição costumam trabalhar dessa forma com essas questões sociais, né? Costumam lidar dessa forma. Tem um outro personagem maravilhoso, que é o Francisco. Francisco é...

o pior dos irmãos, muito entre aspas aqui, porque ele é extremamente cínico, ele é extremamente ganancioso, ele só pensa no dinheiro. Então, ao longo de toda a narrativa, quando ele narra, ele fala assim, eu estou doido para minha mãe morrer, minha mãe podia morrer logo, não aguento mais minha mãe aqui viva, porque eu só quero pegar o dinheiro, vou passar a perna em todos os meus irmãos, vou ficar com a casa só para mim. Então, essa figura do capitalista ganancioso, e ele vai dizer algo quando você vai entendendo as narrativas aqui dele.

Ele flerta um pouquinho com aquela ideia de eu estou me vingando. O que eu estou fazendo, eu posso fazer. Porque meu pai e minha mãe me deram uma educação que está longe de ser marcada pelo amor, pelo carinho, pela compreensão. Então, o que eu aprendi foi que é cada um por si e eu que não vou sair dessa na pior. Então, o que eu puder fazer para tirar o mínimo possível dessa vida, eu vou fazer. Meus irmãos odeiam todos. Uma já morreu, tomara que os outros morram logo. Então, essa...

Essa narrativa do ódio, do rancor, assim, a todo momento, da vingança, né? Que, já falamos sobre isso, rende muito na literatura, assim. Quando você tem acesso aos próprios personagens amargurados e revelando os rancores. Por que ele não gosta dos irmãos? Por que ele não gosta da mãe? Por que ele não gosta do pai?

ele sabe que ele está supostamente fazendo algo digno de crítica, mas ele não se percebe alvo dessa crítica, ele vai validar essa postura. Eu sei que pode parecer meio chocante, eu estou falando que estou doido para minha mãe morrer logo, para eu pegar o dinheiro dela, mas se eu contar a minha história, vocês vão concordar comigo. Então tem essa coisa da vingança ali o tempo todo.

Tem a Ana, que é uma personagem tristíssima, muito trágica aqui. Ela vai passar por uma experiência muito traumática na infância, ela vai ser abusada sexualmente, só que é muito sutil a construção do Lobo Antônio.

sabe, tem uma cena que volta na memória dela, e eu pelo menos li como um abuso sexual de um conhecido, do pai dela, na verdade do avô, meio que um padrinho ali, um apadrinhado pelo avô, e aí você tem uma cena muito estranha.

E a partir disso ela vai ter uma série de traumas também. E no momento da narrativa, nesse momento temporal inicial, digamos assim, a Ana é viciada em heroína. Ela é completamente viciada em heroína. Então ela também já é uma personagem que está se deteriorando. A narrativa vai ser muito cruel. Como vai descrever, ela fala que ela já está muito magra.

que ela já está perdendo os dentes, que ela está com os dentes todos podres, que ela tem a pele amarelada. Então, assim, é um livro quase barroco, sabe? Ele carrega muito nas descrições físicas e psíquicas desses personagens, porque os cinco irmãos estão completamente abandonados à própria sorte aqui.

E cada um vai para um caminho muito questionável, digamos assim, do ponto de vista. Tem a Rita, que é a irmã falecida. A Rita já faleceu quando ela narra. Ela faleceu muito jovem de uma doença fulminante. Então ela vai narrar também essa experiência, tanto do pós-morte, digamos assim, mas não é um livro que esbarra em questões metafísicas, tá? É mais essa voz que já se foi.

contando como foi a infância dela. Então, assim, tem um apelo aqui à realidade, né? Ela contando como é que a família lidou com a doença dela, como que os outros irmãos foram marcados por esse luto, porque ela morre ali no começo da adolescência. E tem o João, Luana. Que o João... Sabe o que o João é, Luana?

O que está faltando numa família de cinco filhos? Que você já tem uma viciada em drogas, uma divorciada, uma falecida. Tudo que é a família tradicional tem horror. O que é, João? Homossexual. Obviamente vai ser o João. E aí também uma história muito triste, muito pesada. O João começa...

a narrativa dele, ele começa contando que ele não é assumido, né, por conta dessa pressão familiar, e ele anda pelas madrugadas frequentando os parques e as praças procurando garotos de programa. Então é essa construção de um personagem que tem problemas com a própria sexualidade, que oprime a própria sexualidade em virtude, claro, da pressão familiar e da pressão social.

Aí a gente vai conhecendo algumas questões ali do João, também passou por violências de todos os tipos na escola e na família, por conta da homofobia que ele vai sofrer, tem também uma cena de bullying ali, muito, muito forte na escola em que ele estudava, quando ele tenta demonstrar esse afeto por um colega, e aí os outros colegas vão perceber e vão violentá-lo, assim, é um livro pesado, tá gente? Muito, muito pesado, as imagens são muito...

fortes, mas ele também não vai lidar bem com essa sexualidade, gosto da construção que o Lobo Antunes faz, porque são cinco irmãos atormentados pelos próprios fantasmas e pelos fantasmas dos outros, os fantasmas literais aqui da irmã e do pai que já faleceram e da mãe que está em vias de falecer

Mas, por exemplo, só para fazer a marcação aqui do que é problemático na construção do João, é dito que ele frequenta esses parques, que ele se envolve com garotos de programa, mas ele tem uma clara preferência, Luana, por garotos de programas jovens, muito, muito jovens.

com menos de 18 anos. Então, assim, eu gosto da construção. Poderia soar muito errado, tá? Porque a gente já leu livros assim e viu filmes assim, que a sexualidade vai ser trabalhada como, olha, mas ele virou um criminoso porque ele é homossexual. Não é o que acontece aqui. Aqui é mostrado, na verdade, eu acho a construção muito complexa que o Lobo Antunes faz.

de que grande parte desses comportamentos condenáveis que os filhos vão tendo são frutos dessa família que foi muito censuradora, que foi pouco acolhedora, né? E como que isso vai virando problema?

problemas ali de comportamento nos filhos, mas sem também cair num lado muito didático, muito pedagógico, sabe? Eu acho que o Lobo Antônio se constrói personagens com muitas camadas, assim, ao mesmo tempo que você sente pena de algum personagem, você vai falar, mas isso aqui também não justifica o que você tá fazendo. Então, ele mostra essa dualidade intrínseca aos seres humanos de uma forma muito interessante pra mim. Ele não...

cai nessa questão que a gente já comentou e já reclamou de outros livros, desse naturalismo, desse determinismo. Ele está fazendo isso porque na infância ele passou por isso. Ele mostra que tem relações com trauma, mas grande parte desses problemas vão ser frutos também de escolhas problemáticas desses filhos. Não é necessariamente que eles estão fazendo o que fazem porque eles vieram dessa família, mas é mostrar que vindo dessa família...

além dos traumas, eles assimilaram comportamentos condenáveis e eles repassam isso para frente de alguma forma, sabe? Eu gosto muito do narrativo do Lubantunes, ele consegue mostrar o impacto histórico e familiar, mas ele consegue mostrar as escolhas individuais, assim, ele não resume tudo a estão fazendo isso porque veio dessa família.

Ele mostra que a situação é bem mais ampla, que houve possibilidade de escolhas para todos esses filhos e eles optaram por reproduzirem os comportamentos da família e continuam optando, sabe? Então, não sei se me fiz claro aqui, mas eu gosto muito de quão complexo é. Fora que, além disso, parece relativamente tranquilo, né?

Mas quem nunca leu Lobo Antunes é um choque, principalmente se você pegar esses livros aqui mais do meio da carreira, porque no começo o Lobo Antunes ainda era mais organizado. Mas na prática, gente, quando você vai ler, deixa eu ver se eu consigo pegar aqui um trechinho, a sintaxe do Lobo Antunes...

Não está dando, né? Agora deu. É completamente quebrada. Ele usa pouco ponto final, ele quase não usa pontuação aqui no livro. As frases e os parágrafos são cortes, parece que ele está trabalhando o tempo todo com fragmento, tanto é que ele começa vários parágrafos com letra minúscula. As falas dos narradores são todas entrecortadas por diálogos e às vezes você não sabe exatamente quem está falando aquilo. Muitas vezes é o próprio personagem falando...

com ele mesmo. Acho que é um dos autores que mais radicaliza a ideia de fluxo de consciência, porque o fluxo de consciência é você acompanhar ali a mentalidade, os pensamentos do personagem que acontecem muitas vezes fora de ordem. Só que o Lubantunes vai embaralhar isso ainda mais com...

outros personagens falando dentro da mente desse narrador e com misturas temporais. Então, às vezes, o personagem está narrando algo de um determinado passado, aí vem outra lembrança de quando ele era adulto, aí isso é intercalado com uma lembrança de quando ele era criança. Então, é um autor que vai te deixar muito perdido. E a experiência é essa mesma, é você ir lendo...

e aos poucos a narrativa ir se construindo e consolidando, ir sedimentando essas passagens. Às vezes você vai ler uma passagem que você não entendeu absolutamente nada, quando você chega lá na página 200, outro personagem vai contar, e você vai falar, ah, então aquela passagem é relativa a esse irmão e o outro estava lembrando. Então é uma narrativa muito, muito complexa.

mas muito poética. Eu acho o Lobo Antônio, assim, um dos grandes. Faleceu mês passado, mês retrasado, eu acho, março de 2026. Acho uma perda irreparável, assim, na literatura mundial. Acho que é um autor...

já comentamos isso também, ele cria as metáforas e as imagens mais bonitas que eu já li na literatura. Nos cursos de Judas mesmo, o começo do livro é belíssimo. Ele faz uma longa descrição da luz entrando no quarto e ele vai comparando com os animais de um zoológico próximo. É assim...

Muito fora da curva a escrita do Lubantunes, mas é um autor dificílimo, é um autor que vai trabalhar com esses recursos, assim, à última potência. Vou só começar a ler aqui o começo do livro, só para vocês terem uma ideia. E ele cria...

Nesse livro especificamente, mas ele usa isso em outros livros também. Refrões. Então tem várias frases iguais que voltam na narrativa o tempo todo e aí ele é meio que uma chave de leitura. Cada personagem vai ter uma fala ou mais de uma fala que marcou a vida deles, que eles ouviram de alguém e meio que serve ali de chave de leitura para aquele personagem. Uma das falas que ele vai usar bastante nesse livro...

como essa casa deve ser triste às três horas da tarde. Eu acho isso tão bonito também. Vários personagens que entram na casa falam que a casa está meio escura, que ela já está meio abandonada, e que falam, nossa, essa casa deve ser muito triste às três horas da tarde. E eu acho que é uma metáfora perfeita aqui para essa família que já acabou há muito tempo, né?

que teve um passado familiar e não tem mais. O livro começa assim. Toda a vida, antes da doença e durante a doença, a minha mãe contou-nos e contou-nos. Oi são isso. Que em pequena a minha avó acompanhava a minha bisavó de visita às senhoras que moravam em andares antigos na parte antiga de Lisboa. Salas e corredores numa penumbra perpétua onde as pratas e as loixas a seguiam e a minha avó com 10 ou 11 anos a pensar.

como essa casa deve ser triste às três horas da tarde porque era nas salas nos corredores e nos esconços também com pantufas e vassouras que chovia no inverno não lá fora e não chuva tampouco uma surpresa nas coisas a condoer-se da gente a minha bisavó e as senhoras moviam a boca sem palavras e no entanto falavam visto que um brilho de saliva um dente um sorriso diante do dente quando uma fotografia até então invisível surgia no escuro

ou um espelho nodoado pelos mistérios do tempo duplicava os retratos num ângulo diferente, que assustava, porque não eram eles, sendo eles. Criaturas parecidas com os difuntos, nos sonhos, dirigindo-se aos vivos do alto de colarinhos de celuloides, de pintas, compreendiam-se, sou eu.

Mas a quem pertence o que segredava sou eu. E quem somos nós? E aí ele continua. Então é muito poético. Tem esses cortes de fala. Então assim, somos nós. Quem sou eu? Somos nós. Ele usa várias repetições ao longo do livro. Principalmente nesses diálogos curtos. E aí no começo...

você não entende exatamente quem está falando. E fora que ele usa outros recursos que eu acho muito maravilhosos. No meio do livro, os personagens citam o próprio Lobo Antunes, o Antônio Lobo Antunes, então ele trabalha também com uma metaficção de que os personagens se sabem personagens.

Lembra um pouco o Pirandello, aqui, os seis personagens à procura de um autor. Então, num determinado momento, a Rita, que é a personagem que já faleceu, ela vai falar da própria doença. E aí, não vou lembrar agora literalmente, mas ela fala assim, eu não sei se eu devo falar dessa forma, mas o Antônio Lobantunes diz que sim, que eu devo usar essas palavras.

para referir, que eu tenho que ser clara. E aí eu não queria falar exatamente dessa forma, mas o Lobo Antunes me obriga a falar dessa forma. Então ele faz essa brincadeira metaficcional, que eu acho que funciona às vezes. Fora que você vai ter imagens de rancor aqui. O Antônio Lobo Antunes constrói personagens rancorosos como ninguém. Tem uma passagem que me marca muito.

vou aqui de memória, tá, gente? Pode não ser... Eu acho que é nesse livro, tá? Mas se não for, peço desculpas, hein? Outro do Lobo Antunes. Mas eu tenho quase certeza que é nesse, sim. Que essa mãe que já tá... Agora eu não lembro se é com a mãe ou com o pai também. Minha memória tá igual dos personagens do Lobo Antunes. Mas tem um personagem doente, no leito da morte, por isso que eu tenho a sensação de que é nesse livro. E um dos filhos lembra de um episódio na infância que ele quis adotar um cachorro.

E o pai ou a mãe foi contra e largou o cachorro fora. Trancou a porta de casa para o cachorro não entrar. E o filho, criança, tenta dormir a noite toda ouvindo o cachorro chorando na janela a madrugada inteira. Porque ele nunca superou essa experiência. Aí quando está no leito da morte, Luana, este filho chega para essa pessoa e o pai está ali sofrendo.

agonizando, e aí o filho sussurra no ouvido dele, por mim que você chore a madrugada inteira, eu não vou abrir a porta. Não é uma imagem maravilhosa de rancor e de ódio? Pra um pai morrendo ainda, né? Nossa, eu acho muito forte assim. Por mim, você que chore a noite inteira, eu não vou abrir a porta.

E anos depois, 30, 40 anos depois, eu acho que ele trabalha com essas imagens muito bem trabalhadas. E para encerrar, eu acho que o Lobo Antônio trabalha muito bem essa imagem da repetição, da volta, porque acho que até pela experiência de psiquiatra dele, é como se a gente não superasse determinadas passagens da nossa vida.

pelo menos neste livro aqui, a construção é a gente acha que a gente foi adiante e a gente não foi. Tem passagens, tem imagens, tem falas que ficam voltando na nossa vida o tempo todo. E a gente precisava lidar com isso, porque senão elas vão continuar definindo a nossa vida, como se a experiência humana fosse definida em momentos as coisas.

muito específicos e principalmente com como que você lida com esses momentos. Se você não lidou bem com esses momentos, se você não teve um trabalho, acho que até de análise aqui para você superar, sei lá, não sei se superar a palavra certa, mas você encarar esses momentos da sua vida, eles ficam voltando, consciente e inconscientemente.

todas as ações da sua vida. Se você não resolveu aquilo, aquilo vai te assombrar o resto da vida. Eu gosto dessa imagem dos fantasmas que ele cria aqui também. É uma família assombrada pelos fantasmas literais dos que já se foram, mas pelos próprios fantasmas, pelas escolhas que não deveriam ser feitas, pela falta de coragem em tomar determinadas posições e como que isso fica assombrando, fica ali... É...

Fugiu a palavra que a psicanálise usa, mas fica ali recalcado, né? Isso fica voltando ali o tempo todo, de alguma forma, se você não encara esses fantasmas. Nossa, gente, é um livro pesadíssimo, mas é esse peso...

do rancor, do ódio, da vinga. Perdão é uma palavra que não aparece aqui. Tem uma narradora maravilhosa também, que é a Mercília. A Mercília é a empregada, meio que a governanta da casa. Então, ela que sabe os segredos ali de todos eles, porque ela que tem que varrer, literalmente, metaforicamente, para debaixo do tapete, muitas coisas que acontecem. Livraço, livraço. Se você quer ler coisas assim...

doidas, você fala assim, eu quero ler um livro doido, que vai me deixar fora do prumo, que eu vou ter dificuldade para entender, pegue um Lobo Antunes, sugiro que cavalos são aqueles que fazem sombrar o mar, para você ter essa experiência in natura. Mas os livros do começo, o Lobo Antunes era mais...

empático com o leitor. Os Cujujudas, eu acho que Memórias de Elefante, acho que são livros mais fáceis, entre aspas, de você acompanhar. Aqui é radicalização da escrita mesmo, assim, não tem ponto, não tem estrutura, aí você começa, não tem estrutura, assim, tô sendo irônico, claro que tem, é o que mais tem aqui, é a estrutura. Mas tô dizendo assim,

uma construção linguística muito, muito fora da casinha e muito fora da tradição. Então, assim, letra minúscula no começo de frase, repetição, frase cortada, às vezes no meio da frase ele quebra, então fala assim, encontrei com Luana e a Luana de... enquanto Marília me encontrou, e ele vai pra outro assunto. Então, assim...

Para quem gosta de livros polifônicos, com vários narradores, com trabalhos com memória, acho que quem trabalha com mentes humanas deve ser uma experiência muito interessante, ler o Lobo Antônio. Os personagens têm medos aqui e o Lobo Antônio repete também algumas construções em outros livros. Tem uma imagem aqui que já apareceu em outros livros dele que eu li, que ele fala que tem personagens que têm medo de fechar os olhos e das coisas mudarem de lugar.

dos objetos se vingarem do ser humano. Então, esse medo do escuro, do desconhecido, né? De perder o controle. Então, será que os objetos continuam sendo eles mesmos quando eu não estou aqui? O que a cadeira e a mesa tramam contra mim? Então, é quase uma paranoia mesmo, assim, né? De que essa ameaça está presente em todos os lugares, até nos mínimos objetos.

Todo mundo quer se vingar de alguém de alguma forma, inclusive o ambiente, inclusive a natureza, inclusive os móveis. Eu acho muito forte. E aí, agora sim, para encerrar, uma das leituras, gosto do título também.

Porque uma das filhas era uma casa que tinha muito dinheiro, né? E eles eram tão ricos, Luana, que os cavalos viviam soltos. E ela vê, quando ela tá na infância, os cavalos andando numa região ali, litorânea. E aí ela fica com essa memória dos cavalos andando à margem da água.

E ela acha muito bonito aquilo, os cavalos quase entrando na água, mas ali no limite da margem. E agora não tem cavalo, não tem sombra, não tem mar, não tem rio, não tem mais nada nessa casa. Os cavalos já se foram há muito tempo. Eu acho bem bonito. É uma imagem de memória de uma das personagens aqui.

E a ideia do cavalo, da velocidade, passou, não volta mais. Acho muito bonito, gente. Livraço, autoraço, mais um que morreu sem o Nobel, merecidamente polêmico, um autor conhecido por ser muito ranzinza, por ser muito mal-humorado, mas assim, autor favorito da vida, gente.

Quem é ranzinza tá certo, né, João? Tá certo. Tá entendendo o mundo. Eu gosto muito também do provável motivo do Lobo Antunes não ter recebido o Nobel de Literatura, que é porque o Sarabago já ganhou.

Tem a briga, né? Que eram dois autores que trocavam farpas. Ainda tem isso. João, inclusive, já me revelou que deixa os dois autores juntos na estante, que é pra eles fazerem as pazes. De um do lado do outro. E na mesma prateleira está Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa. Que aqui ninguém vai brigar. Tem que fazer as pazes. Ninguém se mate! Ninguém se mate! O Lobo Antunes e o Saramago aparentemente trocavam farpas, assim, em público.

Vou só contar uma aqui para os nossos ouvintes. Quando o Loban Tunes demorou a ser publicado no Brasil, quando ele começou a publicar, ele falou que ele ficou muito feliz, porque eu acho que o avô dele era maranhense, era brasileiro, e que ele estava muito feliz com essa publicação, finalmente os leitores brasileiros poderiam ler a obra dele, e que ele estava um pouco surpreso, porque a gente sempre preferiu o outro.

Achei sutil. E de fato tem uma preferência, né? No mercado nacional. Errado, errado, ele não tava. Tadinho. Tem outra fala que ficou famosa, acho que quando ele foi na Flip, ele já veio na Flip, né?

Eu ia falar quando ele era vivo, mas parece meio óbvio, né? Ele foi amigo, entre aspas, ele teve, não sei se amigo, mas ele conheceu muito o Jorge Amado, né? Porque o Jorge Amado era muito bem entrosado. Ele conta da feijoada que o Jorge Amado fazia e tal. Acho que ele solta assim, Jorge Amado era ótimo, melhor pessoa que escritor.

Eu sabia que tu ia gostar. Adoro a tua sinceridade. Mas é isso. Gosto muito dos cursos de Judas. Eu acho que a gente ainda não falou dele, né, João? Precisamos falar. Para mim, melhor relato sobre a guerra da história da literatura. Eu acho um baita livro. Vamos falar em breve. E um autor, se você gosta de autor que trabalha com memória e com trauma, eu acho que é um autorzaço. Principalmente trauma.

Não li tantos, né? Mas os que eu li é o que melhor retrata esse passado português, assim. Portugal atualmente lidando com esse passado glorioso que ele teve. Nossa, ele vai assim, ele fia o dedo na ferida de um jeito que você fala, meu Deus, deve ter problema em Portugal. Não sei como as pessoas lidam com o Antônio Lobantunes, mas eu acredito que ele tenha seus desafetos também. Se o Saramago tinha... Imagine o Lobantunes. É.

Vou continuar na Europa. Hoje a gente está muito colonizado aqui, João. Vou para a Europa, vou falar... Na verdade, não sei se vou para a Europa, vou até comentar sobre isso. Vou falar da Débora Levy. Quem conheceu a história dela, gente, escreva nos comentários, porque, na verdade, ela nasceu na África do Sul.

mas ela já mora há muitos anos na Inglaterra, eu não tenho muita certeza da biografia dessa autora, como que ela se identifica. É muito comum ver ela citada como uma autora inglesa, mas se vocês tiverem essa informação, comentem aqui, neste momento eu não tenho. Mas eu vou falar de um livro dela chamado Agosto Azul, já que eu não posso falar de Abril Despedaçado, eu trouxe o Agosto Azul.

que eu acho muito bonito também. É um livro recente da Débora, é de 2023, e aqui no Brasil saiu pela autêntica com tradução da Adriana Lisboa. Outra...

Autoraça também, né? E eu gosto muito dessa ideia, o azul aqui, no português eu acho que a gente tem um pouco isso, mas no inglês principalmente, o blue, é quase um estado de espírito, né? A ideia do azul como uma melancolia, então é um gosto de melancolia, de pensamentos, de sentimentos mais introspectivos. Em português é o contrário, né?

Em português, azul era uma expressão positiva. Acho que a gente usa pouco hoje em dia, mas você falava assim, ai, tá tudo azul, né? Tem a música, tudo azul, Adão e Eva no Paraíso, significava que tava tudo bem, né? Tava tudo feliz. Curioso, né? Mas é que é no sentido da melancolia e tem uma outra questão também, porque a personagem tem cabelos azuis, então tem esse duplo significado aqui.

A personagem em questão se chama Elsa, Elsa Anderson, e ela é uma mulher de cerca de 34 anos de idade e ela é musicista. Ela é uma pianista muito famosa, muito bem sucedida, uma virtuose do piano. As pessoas pagam fortunas para assistir os seus concertos e aí um dia ela está num concerto muito importante em Viena e ela tem um surto no palco.

Ela trava, ela não consegue finalizar de forma apropriada o concerto e a partir dali ela se recusa a continuar a turnê. Então ela interrompe, ela sai da vida pública, ela é realmente muito famosa, a ponto de ter matérias no jornal, ser capa de revista, mas ela se afasta e aí para sobreviver, porque ela tem grana, mas não tanta, ela ainda precisa trabalhar, ela começa a dar aulas particulares. Entendo bem.

Quem nunca, né, João? Nossa. Porque como ela é muito famosa, os pais ricos pagam muito bem. Aí eu já não entendo tão bem.

Para que ela passe algumas horas ali com os filhos, né? Ensinando ali, dando alguma lição. Inclusive, João, isso também talvez você não entenda tão bem. Ela viaja pelo mundo. Ah, não entendo. Porque é um pai da Grécia que paga para ela ir até lá para passar quatro horas dando uma lição de piano para o filho. Imagina. Eu não consigo nem compreender. Para mim é o número 13. É como se eu só contasse até o 12. Você fala assim, viagem internacional, eu nem sei o que é. Para dar uma aula.

Não entendo do que se trata. E assim, eu não tô nem questionando a verossimilhança, porque eu acho que gente rica, gente rica. Mas eu só ficava pensando, gente, não dá pra fazer um Google Meet?

Não dá para ser online, mas não, ela vai pessoalmente, e a gente conhece principalmente dois alunos dela, a gente vai entender a relação dela como professora, mas basicamente essa é a história que a gente acompanha, a história da Elsa que tem uma crise, ela tem ali uma crise existencial.

E aí durante a leitura a gente vai descobrindo que ela tem uma história bem complicada, porque assim, começa que ela nunca conheceu os pais biológicos, ela vai ser adotada por uma família bastante amorosa, que dá para ela um piano. E ela começa muito novinha a tocar piano, só que ela é excepcional.

Muito rápido eles descobrem que ela é excepcional, ela tem ouvido absoluto, ela consegue, muito menininha ainda, tocar peças dificílimas. Então os professores dela, da cidadezinha, ela mora na Inglaterra, no interior da Inglaterra. Os professores começam a comentar essa história, ela vai escalonando, em algum momento isso chega aos ouvidos de um homem chamado Arthur.

que é um grande compositor inglês. Ele fica curioso, ele está ali na região, ele decide visitar a casa dessa família, escuta a menina tocar, a Elsa naquele momento tem seis anos de idade apenas, e ele fica deslumbrado por ela, tanto que ele faz uma proposta, depois de um certo tempo, ele faz uma proposta para essa família de adotar essa criança.

Então, ela que já era adotada, ela vai passar por um segundo processo de adoção. E a família dela topa, porque eles pensam que ele pode dar algo muito importante para ela. Ela é uma menina que tem uma capacidade excepcional, então ele pode proporcionar esse ensino para ela. Com ele, ela vai chegar muito longe. Eles pensam que ele é um pai à altura para ela.

aquela menina obviamente merece mais, né? Então ela vai ser adotada pelo Arthur, e aí a gente tem uma relação muito complicada, porque o Arthur é a figura paterna dela, de certa forma, essa referência de afeto, mas ele também é o professor.

Então ela nunca resolve muito bem quem que ele é, que lugar que ele ocupa na história dela. E é tão agressivo isso que ele inclusive muda o nome dela, ela não se chama Elsa, ela se chama Ana. E aí ele muda o nome dela no processo de adoção. Então é bem complexo a relação dela com esse pai, que não é exatamente um pai, com esse professor. E quando a história começa, além de tudo, ela precisa lidar com o fato de que o Arthur está morrendo. E aí

ele tem uma doença terminal, ele tem um tumor, então ela já não consegue muito definir como que é a relação dele, ainda precisa fazer isso muito rápido, porque ela sabe que em breve ele não vai mais estar por ali. Então ela precisa também lidar com essa perda iminente.

E aí a gente tem essa grande crise existencial dessa personagem, porque ela não consegue entender a própria narrativa, não consegue entender a própria história, que lugar que ela ocupa no mundo. E nessas viagens, eu comentei que pagam dinheiro para ela viajar e dar aulas particulares, um belo dia ela está na Grécia, no mercado de pulgas, e ela vê uma mulher.

É uma mulher bonita, interessante, tem mais ou menos a mesma idade que ela, está usando um chapéu que ela acha engraçado. E ela não consegue explicar porquê, mas ela olha para aquela mulher e ela pensa que aquela mulher é um duplo dela.

E ela sabe que esse pensamento não faz muito sentido, mas vira uma espécie de pensamento obsessivo, de que elas tiveram a identidade trocada, de que, na verdade, aquela mulher está vivendo uma vida que deveria ser dela. E aí ela continua, essas mulheres se separam, elas não se conhecem, essa mulher está comprando uns cavalinhos de corda, depois ela não vê mais essa mulher.

mas ela acha que vê, então ela viaja para outras cidades, ela pensa que vê a mulher passando, se torna realmente um pensamento muito obsessivo para ela, que na verdade é um reflexo dessa ideia, de que a vida da gente é uma sequência de possibilidades que não se concretizam, que não se realizam. Quem que a gente seria se a gente não fosse quem a gente é? Então ela fica pensando muito nisso e ela mergulha mesmo nessa ideia de que, na verdade...

ela nunca foi ela mesma, ela sempre foi uma projeção de outras pessoas. E o que ela vai questionar, que eu acho uma ideia bastante assustadora de pensar, é como a gente tem muito pouco controle sobre a nossa vida.

Então, o quanto da vida dela é fruto de escolhas dela ou da escolhas de pessoas que foram relevantes na trajetória dela? Por exemplo, se a mãe biológica não tivesse abandonado ela, se a família adotiva não tivesse adotado ela, ou não tivesse passado a guarda por Arthur, ou se o Arthur decidisse não adotar ela. Então, são muitas decisões que são muito importantes, que vão definir a identidade dela e sobre as quais ela não teve nenhum controle.

Então, o quanto dessa nossa ideia de controle, ela é muito falsa. A gente está sendo definido o tempo inteiro por decisões que não partiram de nós mesmos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Volta o verso do bandeira de novo. E por isso a ideia do duplo, né? Ela olha para aquela mulher e pensa que ela poderia ser aquela mulher. Então, existiriam outras vidas possíveis para ela.

E assim, apesar da ideia em si não ser tão original, eu fui procurar resenhas, agora eu estou com essa mania que a gente tem de procurar as resenhas negativas, e aí eu vi uma que era maravilhosa, que é Crise existencial de gente rica, não aguento mais, é um pouco crise existencial de gente rica.

Mas além dessa ideia também me tocar, essa ideia das infinitas possibilidades que a gente teria, além da nossa própria existência, gente, eu gosto muito da escrita da Débora Levy. Aquilo que a gente fala, não importa tanto o tema, se a escrita for boa, ela pega, gente. Então eu vou dar dois exemplos para vocês aqui que eu gosto muito. O narrador quer nos falar que essa personagem, ela tem muita dificuldade de pensar sobre si mesmo.

Ela não consegue analisar a própria vida, né? E como que ele vai falar isso? O narrador vai nos dizer que ela tem dificuldade de garfar a própria vida e olhar esse garfo diante dos olhos com bastante atenção.

é uma imagem muito boa, eu acho muito boa. E aí tem um outro momento que ela vai estar com uma pessoa ali, um cara que ela conhece, que é um cara legal, e o narrador quer nos dizer que ela tem muita dificuldade de se abrir, de falar da sua própria vida para outras pessoas, ela é muito introspectiva, né?

E aí a forma como ele vai dizer isso é contar que ela é uma personagem muito fragmentada. A vida dela foi estraçalhada, repetidas vezes. E que contar uma história exige que a gente recolha todos esses pedaços de nós mesmos e transforme numa narrativa. Olha que bonito isso. E que isso exige muito esforço. E que ela ainda não encontrou uma pessoa que vale esse gasto de energia.

Então esse esforço que ela teria de recolher todos esses pedacinhos e transformar aquilo numa história coerente, ela não vai ter com aquela pessoa, com aquele cara que ela tá. Não porque ele tem algum problema, mas porque ele não é a pessoa. A pessoa tem que valer muito.

para a gente ter esse gasto de energia. Eu acho muito bonita essa imagem. Então, o tempo todo, ela está tratando de temas que a gente já leu antes, mas para mim a escrita dela é muito vibrante. Eu realmente gosto muito da escrita da Débora Levy.

que é uma escrita que eu já conhecia. Eu havia lido um livro dela no passado, chamado Nadando de Volta para Casa, que também é crise existencial de pessoas ricas, é uma família que encontra uma visitante no jardim um dia e ela está usando a piscina e eles vão se relacionar.

Ela vai retrabalhar ideias de que essa mulher talvez não seja uma mulher comum, ela pode ser uma sereia, uma figura meio mitológica, mas na verdade é o elemento estranho que impacta a vida, o dia a dia daquela família, e que faz com que essa família haja de formas diferentes. Aqui a gente tem isso também, é uma personagem que até então foi perfeita, ela seguiu aquela trajetória que definiram para ela e que por alguma razão tem um surto.

e a partir daí ela já não sabe mais como se posicionar no mundo. Ela já tem dificuldades de entender o que ela vai fazer a seguir, né? O que a gente não faz quando a gente não está cumprindo as expectativas alheias?

Então eu gosto muito, gente. Gostei bastante desse livro. Gosto muito da Débora Levy. Acho uma autora bem interessante. É uma autora contemporânea. Tem várias obras legais. E fica a recomendação aqui pra vocês. Do Agosto Azul, Débora Levy, autora inglesa, que talvez seja sul-africana. Me contem aqui.

mas que eu com certeza vou trazer mais. É uma leitura rápida, mas um livro que me impactou bastante e que o tempo todo vai dialogar. Você falou antes sobre a ideia de refrão, ideias que se repetem. Aqui também ela vai trabalhar isso, mas ecoando até uma ideia de música.

A música que também trabalha com refrões, né? O mesmo tema que vai sendo trabalhado de diferentes maneiras. Então, gosto muito. Tem muitas referências à arte, à música, à cinema também. Então, um livro muito gostoso, gente. Fica a recomendação da Débora Levi para vocês. Estou doida para ler a Débora. Ainda não li. E ela fez um sucesso recentemente, né? Ela tem vários livros assim.

de publicação recente no Brasil, está no meu radar. Débora Levy uma vez veio para a Flip, João, para o Brasil. E acho que eu já contei essa história no podcast, mas ela era muito simpática e ela queria conversar comigo. E meu inglês é limitadíssimo.

Então, ela falava, falava, falava, e eu falava... Eu entendi o que ela falava, mas eu tinha dificuldade de responder, né? E aí, teve uma parte que ela ficou muito tempo falando da cor do meu esmalte. Que ela adorava azul no esmalte. Ó, o azul aqui, gente. Um prenúncio do livro. E aí, eu não sabia como responder. E a fila grande, sabe? As pessoas olhando torto. E ela falando, menina, sua unha azul é maravilhosa. E eu falando, thank you, thank you. Yes. Yes. Yes.

Mas é uma simpatia, assim. Todo mundo gostou muito da vinda dela para o Brasil. Muito bom, muito bom. É isso, então? É isso. Encerramos por hoje? Encerramos, inclusive, porque hoje tem clube de leitura, né, João? Agora. Daqui 8 minutos. 10 minutos. Dei até uma adiantada aqui para a gente ir para o clube. Hoje vamos falar de distância de resgate. Como é o nome da autora, João? Samanta Schweblin.

Eu jogando o João da Fugueira. É a Argentina. É a Argentina. Eu diria Shweblin. Shweblin. Com certeza não será assim. Parece aquela bebida, né? É que ninguém fala direito, né? Shweb, shwap, shwap. Temos um clube de leitura. Sempre bom recordar, né, João? É uma das nossas recompensas do Apoia-se. apoia.se barra livros e listas pode. Tá sempre no comentário, aqui na descrição do episódio também, da nossa bio.

do Instagram, uma das nossas recompensas. Mês que vem, no dia 7, 7 de junho, vamos ler as horas. Livraço, livro da vida. Gente, vou ficar transtornado.

Esse livro é um acontecimento na história da literatura. E o filme é tão bom quanto, gente. Porque o clube, a gente escolhe livros que viraram filmes. Então, a gente assiste ao filme também pra gente comparar. Esse é daqueles, assim, o livro é um arraso, o filme é outro arraso. Nunca superei, gente.

É um livro que dialoga muito com Mrs. Dalloway. E aí, só pra contextualizar, vou soltar essa e a gente encerra. Eu li Mrs. Dalloway, depois eu li As Horas e eu assisti ao filme. Aí eu divorcei. Meu Deus!

É isso, é o que eu tenho pra contar. Eu não tava preparada pra essa informação. É verdade, gente, não estou mentindo. Foi na sequência ali, ó, falei, chega, chega. Então, cuidado, se você for fazer esse percurso, cuidado com as consequências. Eu não entendi. Se você quer terminar o seu casamento, participe do nosso clube. Eu não vou dar explicações. Cada um lide com essa informação.

que tem informação. E é isso, né, João? Já temos os livros do próximo semestre, em breve vamos divulgar, mas sempre uma oportunidade de convidar vocês. Os encontros são online e a gente tem essa oportunidade de conversar também, né, trocar ideias. Então, participem que vai ser muito legal. É isso, gente. Comentem, compartilhem, comentem quais os outros livros faltaram nessa lista imensa que a gente deu uma roubada aqui de títulos bonitos. E qual a palavra do episódio, Luana?

Vixe, esqueci da palavra, João. Qual que era a palavra lá da figura mitológica?

Rogarou, mas podia ser lobisomem. Poderia ser lobisomem, então. Eu preferia rogarou para ser... Para dificultar a vida dos nossos ouvintes. Para dificultar, escrevam rogarou. Do jeito que a sua vida, o seu corpo, disser que é a forma correta de se escrever. Como seu coração mandar, se vocês chegaram até aqui, gente. E é isso, né, João? Nos vemos daqui cinco minutos do Clube de Leitura, João. Beijo, beijo, gente. Até.

Até mais, gente.

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