EPISÓDIO 01: Onde está Lorenna?
EPISÓDIO 01: Onde está Lorenna?
Thaynnara estranha a falta de respostas da irmã ao telefone e procura as amigas de Lorenna em busca de notícias. Ninguém sabe dela desde a noite anterior, quando foi vista pela última vez entrando em um carro com dois homens desconhecidos. Começa então uma busca desesperada, marcada pela angústia, pela incerteza e por uma sucessão de obstáculos. Quase uma semana depois, um sapato preto de salto alto revelaria o paradeiro de Lorenna.
Lorenna Existe! é a primeira temporada do projeto Audiodossiê, uma série documental em 10 episódios que reconstitui a vida, morte e luta por justiça no caso Lorenna Fox.
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Melissa Chaves
Thaynnara
- Lamento e sofrimentoTatuagens de Lorenna · Instituto Médico Legal · Dor e desespero de Thaynnara
- A investigação e descoberta dos corposSapato preto de salto alto · Estado de decomposição · Pegadas Misteriosas na Neve
- Desaparecimento de AnaLorenna Fox · João Barradas · Luiz Eduardo Magalhães · Boletim de Ocorrência
- Causa e Circunstancias da MorteTraumatismo cranioencefálico · Instrumento pérfuro-contundente · Corpo carbonizado
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- Julgamento e Justiça HumanaCuidado com o cachorro de Lorenna · Ana de Cleves · Colaboracao Premiada
- Imprensa e Cobertura MidiáticaNotícias Regionais · TV Oeste · Rafael Lopes
- Teorias sobre o desaparecimentoBoletim de Ocorrência Eletrônico · Delegacia · Advogados de Daniel Vorcaro
Na noite de terça-feira, 30 de julho de 2024, após um longo dia de julgamento no Tribunal do Júri, o Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito, Doutor Agildo Galdino da Cunha Filho, retorna ao plenário do Fórum Desembargador Jataí Fonseca para fazer a leitura pública da sentença tão aguardada por todos Mas antes dos autos, dos laudos, das manchetes e da sentença, existe uma pessoa.
E é por ela e por todas as pessoas que ela representa que vamos contar essa história.
Lorena nasceu, viveu e morreu para esse mundo, mas não para sua irmã, seus sobrinhos ou para jurisprudência da Bahia e do Brasil.
Mais do que ouvir essa narrativa, propomos que reflita a partir dela. Questione-se e, se possível, movimente-se.
Bem-vindes ao canal do Instituto Existo.
Esta é a primeira temporada do projeto Áudio Dossier: Lorena Existe.
Esta série em podcast aborda um caso real que envolve violência, crime e situações de vulnerabilidade emocional, social e de gênero. Alguns trechos podem ser sensíveis para parte do público.
O nosso objetivo é narrar os fatos com respeito e responsabilidade, preservando a dignidade das pessoas envolvidas. Recomendamos cautela ao ouvir.
Os acontecimentos aqui narrados têm como base os documentos do processo judicial e matérias jornalísticas da época.
As opiniões expressas pelas pessoas entrevistadas são de sua exclusiva responsabilidade.
Caso alguma pessoa mencionada se sinta incomodada ou deseje um direito de resposta, entre em contato pelo email contato@institutoexisto.org.br.
Este é o primeiro episódio do Áudio Dossier Lorena Existe.
Existo.
Existo. Existo.
Existo.
Áudio Dossier, um projeto do Instituto Existo.
Episódio 1: Onde está Lorena? Você se lembra onde estava e o que estava fazendo no dia 23 de fevereiro de 2023? É bem provável que não. As pessoas tendem a fixar datas quando os dias são inusitados, Quando acontecem comemorações específicas ou situações que deixam algumas marcas, como traumas, por exemplo. Para alguns pode ter sido um dia bastante normal, somente preenchido pela rotina. Para outros pode ter sido um dia inesquecível, tamanha a felicidade.
Para algumas pessoas pode ter sido um dia muito difícil, de uma aflição muito grande, em que a data vai estar sempre vinculada ao medo, a preocupação e a tristeza. Tainara Sabá não se esquece daquele dia 23 de fevereiro de 2023. Para dizer a verdade, os dias que antecederam aquela data e também os que a sucederam. Fevereiro sempre será um mês difícil para ela, por um somatório de coisas que você saberá ao longo dessa narrativa.
A última vez que tinha falado com sua irmã fazia mais ou menos uns 10 dias. Conversas triviais de saudade e de planos de uma mudança para a Europa. A irmã estava arredia, isso é fato, reação natural para quem vivia tudo que ela estava vivendo, mas também havia ânimo e planos nas conversas das duas. Mas o mundo às vezes nos surpreende com notícias difíceis, como se catalogasse algumas datas com a expressão dia terrivelmente inesquecível.
Uma amiga minha entrou em contato comigo no Instagram. Ela me mandou mensagem e falou, mandou um print já com a foto do desaparecimento da Lorena para mim. Na hora eu entrei em choque, eu entrei em choque, eu fiquei assim em estado de choque porque é muita coisa para você assimilar. Aí eu comecei, ai meu Deus, me desesperar. Eu mandava mensagem, todos os números que eu tinha. Eu lembro que eu fiz até um Pix para ela com a frase, não sei se ainda é possível fazer isso, na altura era, escrevi uma mensagem, falei, minha irmã, pelo amor de Deus, minha irmã, se você tiver em algum lugar me fala, não tô dormindo, eu tô desesperada.
São desesperos como esse que tornam uma data inesquecível, infelizmente. Eram poucas as informações e muitas dúvidas sobre o que até então ela sabia. Será que as pessoas tinham mais conhecimento sobre o desaparecimento de Lorena e não queriam que ela soubesse? Será que as pessoas não tinham realmente mais informações porque pouco estavam se importando com o desaparecimento de sua irmã? Praticamente do outro lado do país, ela em Foz do Iguaçu, no Paraná, e a irmã desaparecida em Luiz Eduardo Magalhães, no Oeste baiano, ela não tinha muito o que fazer.
Tainara olhava insistentemente a imagem do panfleto que anunciava o desaparecimento da irmã Como se não perder aquela imagem fosse também não perder a irmã definitivamente. Na foto, uma selfie, Lorena aparece bem maquiada, os olhos delineados, a sombra vermelha, assim como os cabelos bem escovados e ondulados na ponta. O nariz fino, delicado, a boca bem marcada, a blusa preta, o decote em V profundo, os braços cobertos por um tecido transparente.
O texto ao lado, lido tantas vezes por Tainara, parecia não fazer sentido. A última vez que Lorena tinha sido vista, o horário, os telefones para contato. A palavra desaparece que se destacava no material provocava um frio na barriga de Tainara. Tainara procura em Lorena semelhanças, já que era a mais velha. Não encontra. Encontra o semblante da mãe, entende que esse elo é o que as vincula totalmente: o amor da mãe. Mas o sentimento precisa dar lugar à racionalidade. Tainara precisa agir, tomar providências, precisa encontrar a irmã.
Eu posso dizer, é a pior coisa do mundo você ter um ente seu desaparecido. Você sabe por quê? Porque você não come, você não dorme, a sua mente não desliga. Você pensa: será que é um cárcere privado? Será que tá sendo torturada? Será que tá comendo? Será que estão maltratando? Será que estão abusando? Será que morreu? Será que não morreu? Será que fugiu? Você passa tantas coisas na sua cabeça. Aí você se apega a uma esperança, uma esperança tão grande.
Todo mundo que tá ao seu redor, no fundo, meio que não tem esperança, mas você é a única pessoa que tem esperança, porque você não quer acreditar que o pior aconteceu. Quando eu descobri desaparecimento da minha irmã, eu fiquei desesperada. Eu já mandei gente ir para Luiz Eduardo, eu já entrei em contato com advogada para ir na delegacia, né, que até então eu não tive uma resposta positiva do delegado. Achei muito— ele pouco se importou quando eu falei com ele.
Ele falou, ah, isso é normal, as pessoas desaparecem mesmo, depois elas aparecem, estão em alguma fazenda. Eu falei, não, mas não é o caso da minha irmã.
O panfleto que chegou através de print no celular da irmã circula impresso nas mãos dos habitantes de Luís Eduardo Magalhães. Dali para chegar nas mãos da denominada imprensa local é um pulo. Ao saber do caso, um jornalista procurou uma ativista de direitos humanos para perguntar se ela tinha conhecimento do que havia acontecido. Surpresa com a notícia, Melissa Chaves imediatamente começou a acionar sua rede de contatos na imprensa.
Primeiro buscou jornalista de Luiz Eduardo, onde o caso de desaparecimento havia ocorrido, e em seguida ampliou o alerta para profissionais de todo o estado. Em pouco tempo, a história começou a ganhar repercussão estadual. Com atenção da mídia crescendo, novas perguntas surgiam e agora mais pessoas tentavam localizar Lorena. Matéria do dia 28 de fevereiro do portal Repórter Nordeste. Noticia o desaparecimento de Lorena.
Em 23 de fevereiro, ela foi vista entrando em um veículo na antiga rodoviária da cidade. A irmã informou que ela não costumava sair e passar dias sem dar notícias. Lorena está desaparecida há cerca de uma semana. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil, que analisa imagens de câmeras de segurança para identificar o veículo. Segundo o delegado Joaquim Rodrigues, que está responsável pelo caso, 3 colegas de Lorena já prestaram depoimento. O caso segue em investigação.
Essa matéria não trazia novidades, era quase uma reprodução de uma notícia veiculada no jornal Bahia Meio-Dia, da afiliada da TV Globo na região, a TV Oeste. A reportagem de aproximadamente 3 minutos fala do desaparecimento de Lorena já com 5 dias e apresenta um depoimento gravado de Tainara. A gente fala sobre ocorrências policiais em Luiz Eduardo Magalhães. Vamos fazer contato então com Rafael Lopes. O que que você conta pra gente?
Boa tarde.
Já faz quase uma semana, Carlos Augusto. Boa tarde pra você novamente, pra todos que nos assistem. A última vez que a Lorena foi vista, segundo a família e também Os amigos, foi na madrugada da última quinta-feira, por volta da 1 hora da madrugada, quando ela teria entrado em um carro com 2 homens que não foram identificados em Luiz Eduardo Magalhães. A família está bastante preocupada porque a Lorena não costuma ficar tanto tempo assim sem dar notícias. A irmã dela gravou um depoimento para gente, vamos assistir.
Gente, eu estou desesperada por notícias. Eu peço pelo amor de Deus, quem souber de qualquer informação sobre o paradeiro dela, sobre Essas pessoas que ela entrou no carro, que a gente ainda não conseguiu identificar, pelo amor de Deus, entre em contato. Peço encarecidamente para vocês. Minha irmã é tudo que eu tenho na minha vida e eu preciso encontrá-la. Obrigada.
Carlos, muito obrigado, Rafael Lopes, pelas informações, falando ao vivo com a gente.
Tomara, né, que a Lorena seja encontrada e que esteja tudo bem com ela.
Quando gravou esse depoimento, Tainara já tinha mais detalhes do desaparecimento da irmã. Sabia do horário da última vez que Lorena tinha sido vista, próximo a 1:10 da madrugada do dia 23 de fevereiro. Sabia que ela tinha entrado em um carro, até então identificado com a cor prata, com dois homens. Sabia que tinha sido em uma esquina próxima à antiga estação rodoviária de Luiz Eduardo Magalhães. Esses detalhes só acentuavam seu sofrimento. 7 dias depois e Lorena continuava desaparecida.
A diferença agora era que mais pessoas tinham informações sobre o seu desaparecimento. E depois das reportagens, principalmente a que tinha saído na Globo, o sumiço tinha se tornado algo mais sério e a polícia começa, enfim, a tratar o caso com alguma seriedade. Durante esse período, Tainara insistia para que os amigos próximos de Lorena fizessem pelo menos um boletim de ocorrência. Mas todos resistiam em tomar essa atitude. Além disso, ela ligava para delegacia, insistia para que o delegado tentasse localizar a sua irmã.
E eu falava, pelo amor de Deus, eu não tô dormindo! Eu me humilhei, implorei, doutor, me ajuda, me ajuda, procura minha irmã! Eu ficava desesperada, sem saber o que fazer. Ligava para um, ligava para outro, fui para emissora, eu mandei imprimir papéis para colar na cidade, ofereci recompensa, eu fiz tudo que estava no meu alcance para eu encontrar minha irmã. E eu falei, eu não vou descansar, eu não vou descansar, eu vou encontrar minha irmã.
Não sei como eu vou encontrar ela, mas eu vou encontrar. Eu vivi, ah, meu Deus, foi terrível.
Tanta insistência fez com que 3 pessoas próximas a Lorena fossem chamadas para depor, e um boletim de ocorrência sobre o seu desaparecimento foi formalizado do dia 27 de fevereiro.
Compareceu nesta unidade de polícia a pessoa de nome X, relatando que na data do dia 23 de fevereiro de 2023, por volta das 1 da manhã, a sua colega Lorena entrou em um veículo de placa não informada com 2 homens de identidade desconhecida e até o momento não retornou.
X relatou ainda no boletim de ocorrência detalhes do veículo e dos homens que foram vistos saindo com Lorena, ressaltando inclusive que uma transação financeira havia ocorrido antes de o trio sair de carro. E relatou mais, que aquela transação financeira tinha sido paga com cartão de débito, especificou a bandeira e o número do cartão, detalhou o valor e o nome da pessoa que havia recebido o pagamento via maquininha de cartão.
Ressaltou, por fim, que em 10 anos de convivência seria a primeira vez que essa situação ocorria. Aqui é bastante importante explicar que não irei mencionar o nome verdadeiro de algumas pessoas. Ao longo dos episódios você vai perceber o motivo de cada uma das omissões: se por proteção, por respeito à privacidade de quem não tem relação direta com os fatos, Ou, em alguns casos, por uma escolha editorial consciente. Há pessoas cujas identidades não serão reveladas porque estiveram associadas a fatos obscuros, violentos e, em determinados casos, criminosos, ou agiram de forma desleal ou negativa com Lorena.
Optamos por não dar visibilidade a esses nomes, mantendo o foco na história e nas consequências do que aconteceu. Essas pessoas especificamente não merecem ser mencionadas, mas o motivo da ocultação do nome nesses casos serão sempre informados. No caso de X, o seu nome não será revelado e os motivos serão esclarecidos mais adiante. Então vamos começar a construir a nossa linha do tempo. Temos o desaparecimento de uma pessoa, Lorena, no dia 23 de fevereiro de 2023.
E só 4 dias depois, no dia 27, um boletim de ocorrência é lavrado, após muita insistência de Tainara, tanto com os colegas de Sui Manh quanto com a polícia local, com acionamento de uma instituição ligada ao tema de direitos humanos e de veículos de imprensas locais e estaduais. O boletim de ocorrência eletrônico surgiu como uma ferramenta para facilitar o contato da população com a polícia, permitindo registrar determinados crimes sem sair de casa.
Mas quando o assunto é homicídio ou desaparecimento de pessoas, a lógica costuma ser diferente. Pela gravidade desses casos e pela necessidade imediata de preservação de provas, coleta de informações e atuação policial, a comunicação direta às autoridades continua sendo fundamental. Ainda assim, em muitos estados, as plataformas digitais passaram a funcionar como uma porta de entrada para formalizar relatos, complementar informações e acelerar os primeiros passos da investigação.
O registro de boletim de ocorrência de desaparecimento de pessoas pela internet não possui uma data única de início em todo o Brasil, porque cada estado é responsável pela própria delegacia virtual. A expansão desse serviço aconteceu de forma gradual, acompanhando a digitalização dos atendimentos policiais, mas ganhou força especialmente a partir de 2020, quando diversos órgãos públicos ampliaram serviços remotos. O que parece apenas um formulário preenchido na tela pode se transformar no primeiro documento oficial de uma busca, de uma investigação e, muitas vezes, da tentativa desesperada de encontrar alguém antes que seja tarde demais.
Então, eu não fiz um boletim eletrônico porque eu não tinha conhecimento sobre isso. Eu achei que esse boletim só poderia ser feito presencial, até que um amigo meu que estuda direito, ele falou, tá, eu vou fazer para você. Aí ele disse que fez online para mim também esse boletim. Não sei se chegou até as mãos do delegado. E não, o delegado não me sugeriu fazer nenhum boletim online. Como eu disse, né, o início, quando eu falei com ele a primeira vez, que teve que ir uma advogada para poder falar com ele, eu contratei advogada para poder ter algum tipo de informação na altura.
A primeira advogada que apareceu ali, que eu encontrei, eu já contratei para ela poder ir até a delegacia conversar com ele. Eu pedi para poder falar com ele por chamada, por ligação. E quando eu falei, relatei o desaparecimento da minha irmã, ele só falou para mim ter calma, que isso era normal, que as pessoas desapareciam mesmo, que poderia estar numa chácara, numa fazenda, que depois apareciam. Aí eu falei, mas não é o caso da minha irmã.
A minha irmã entrou no carro com dois homens desconhecidos. Então, o caso da minha irmã, minha irmã não saiu porque quis, é diferente. Então eu senti um descaso muito grande, né, no primeiro contato que eu tive com ele. Mas como foi o caso da Lorena, né, foi um caso ali negligenciado de início.
O boletim de ocorrência eletrônico feito pelo amigo de Tainara, conforme ela falou, não consta nos autos do processo. Enfim, 4 dias após o desaparecimento de Lorena, o boletim foi lavrado presencialmente na delegacia. Era de se esperar que a polícia iniciasse com afinco a investigação para localizar Lorena, seja viva ou morta. Mas não foi a polícia quem encontrou. Foi um funcionário contratado pela prefeitura que a localizou enquanto fazia a limpeza de um matagal às beiras da rodovia. O portal da Globo, o G1 Bahia, deu a notícia.
Corpo de mulher que estava desaparecida é encontrado em matagal no oeste da Bahia. Foi identificado pelas roupas. Lorena foi encontrada nesta quarta, 1º, em Luiz Eduardo Magalhães. Ninguém foi preso.
O portal Mural do Oeste também noticiou a localização de um corpo.
Na tarde desta quarta-feira, pouco depois das 15 horas, um operador de máquina roçadeira encontrou o corpo de Lorena, desaparecida há quase 8 dias, após entrar em um veículo não identificado na Avenida Enedino Alves da Paixão, próximo à antiga rodoviária de Luiz Eduardo Magalhães. O corpo estava dentro de uma área de capim no final da Avenida Tancredo Neves. Ao lado de um setor de condomínios no bairro Jardim Paraíso. Um sapato preto foi encontrado próximo ao corpo, que já estava em estado avançado de decomposição.
A família de Lorena chegou a oferecer recompensa a quem informasse seu paradeiro. A Polícia Civil segue ouvindo testemunhas, familiares, conhecidos de Lorena, e buscando imagens de câmeras de segurança para chegar na autoria e motivação do homicídio. As polícias civil e militar, além da Guarda Municipal, estão no local do crime para realizar a perícia.
Na delegacia, um novo boletim de ocorrência foi registrado.
Por volta das 3:30 da tarde, chegou ao conhecimento da Polícia Civil de Luiz Eduardo Magalhães a notícia da descoberta de um corpo sem os sinais vitais. Em estado de decomposição, encontrado às margens da Avenida Tancredo Neves, bairro Jardim Paraíso, neste município de Luiz Eduardo Magalhães, Bahia. Diante da notícia, a autoridade policial se deslocou até o local e constatou a veracidade da informação, verificando se tratar de um corpo com trajes femininos, em especial sapatilha de cor preta num dos pés.
Por oportuno, cumpre destacar que, ao que tudo indica, o corpo em questão trata-se da pessoa de nome Lorena, desaparecida desde a data de 23 de fevereiro de 2023, quinta-feira, por volta das 1 da manhã, quando foi vista na Avenida Enedino Alves da Paixão, bairro Santa Cruz, neste município, entrando em um veículo com 2 indivíduos do sexo masculino. Assim, esta autoridade policial entendeu por bem expedir requisições de exame pericial, local de crime e necroscópico, que seguem com o presente registro de ocorrência policial. É o registro.
O boletim de ocorrência não dá conta de todos os detalhes das condições em que se encontrava o corpo de Lorena. Nos autos do processo, no entanto, é possível ter acesso aos exames periciais e necroscópicos. O laudo de exame pericial realizado no mesmo dia, 1º de março, em que foi encontrado o corpo, afirma que tratava-se de um lote urbano apresentando mato alto, porém de fácil acesso.
Trata-se de indivíduo encontrado em decúbito dorsal com membros estendidos. Em virtude do estado de decomposição, não foi possível constatar lesões no corpo da vítima. Melhores esclarecimentos vide laudo cadavérico expedido por perito médico legista do Instituto Médico Legal de Barreiras, Bahia. Foi localizado próximo ao corpo da vítima um pé de um sapato preto, sendo que o outro pé a vítima estava utilizando. O mesmo foi coletado junto com o corpo da vítima.
Pra quem não sabe o que é decúbito dorsal, é a posição em que a pessoa fica deitada de costas, com a barriga voltada pra cima, a coluna reta e os braços e pernas estendidos. O laudo de exame de necropsia, por sua vez, realizado no dia 2 de março de 2023, tinha a intenção de responder às seguintes perguntas: Qual a causa da morte?
Qual o instrumento ou meio empregado na produção da lesão ou das lesões mortais? Houve emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou que tenha resultado perigo comum? Houve emprego de algum recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa da vítima?
A leitura desse documento revela que a causa da morte foi traumatismo cranioencefálico, visto que o exame explica a existência de fratura de osso septal à direita, o que na prática significa quebra em uma parte específica do crânio na região da nuca. O laudo explica ainda que o instrumento empregado foi pérfuro-contundente, ou seja, um instrumento que perfura o corpo ao mesmo tempo em que causa impacto. As duas últimas perguntas a que o documento se propunha responder ficaram prejudicadas, segundo o perito que o elaborou.
Assim, não foi possível determinar no laudo o emprego de fogo e se algo dificultou a defesa da vítima. No entanto, ainda que leigo, qualquer pessoa que tem acesso aos autos e, portanto, acesso ao laudo de exame de necropsia, verá que o corpo, apesar de estar em avançado estado de decomposição, estava também carbonizado. Não há menção disso nem no boletim de ocorrência que informa a achada do corpo de Lorena e nem no laudo de exame de necropsia.
O tempo se encarregaria de incluir essa informação nos autos do processo, mas é no mínimo curioso que essa informação não constasse nos documentos iniciais, tamanha evidência. Bastava olhar para o corpo. Seria excesso de zelo técnico ou negligência? Duas pessoas foram responsáveis pelo reconhecimento do corpo de Lorena. X, que até então era colega de Lorena, e Sérgio, o seu ex-cunhado e, portanto, ex-marido de Tainara. No local onde o corpo foi encontrado, à beira da rodovia, um sapato de salto preto tornou-se o primeiro elemento a conectar aquela cena ao nome de Lorena.
A confirmação, no entanto, veio com o exame pericial. As características registradas no laudo de necropsia foram determinantes para a identificação: tatuagem na região glútea direita, tatuagem na região escapular e tatuagem na face medial do punho direito. Esses sinais particulares, descritos de forma técnica, foram os que permitiram vincular com segurança o corpo e o nome de uma pessoa desaparecida. Foi a vaidade de Lorena que a definiu mais uma vez nesse naquele momento tão definitivo de sua vida.
Os sapatos tão detalhadamente escolhidos identificaram sua proprietária. Os desenhos tão detalhadamente escolhidos identificaram não só sua personalidade, mas também o seu destino final.
Aí eu lembro que quando aconteceu, né, que acharam o corpo dela, né, e uma pessoa da minha confiança foi lá, teve que ir no ML de Barreiras reconhecer essas coisas. Eu não passei por nada disso, porque se eu tivesse isso, ter de reconhecer corpo, ter visto ela do jeito que ela— eu não vi nem foto, me mandaram foto, eu não abri. E eu postei no meu Instagram pedindo, pelo amor de Deus, para ninguém me mandar foto. Eu não tenho força emocional para ver o estado que deixaram a minha irmã, eu não tenho.
Eu soube, tive que, infelizmente eu tive que saber de detalhes, né, alguns eu tive que saber, não tinha como eu não saber. E que isso Me devastou. A minha pessoa de confiança que tava aí, né, falou. E também uma amiga dela mandou foto: amiga, encontraram aí pelo sapato. Aí a amiga falou: amiga, é ela mesmo. Só que eu não acreditei na hora. Eu liguei para pessoa que tava aí e falei: por favor, vai lá na delegacia agora. Ele chegou, quem tava lá já tava lá, disse que foi lá no local e falou com toda certeza que era ela mesmo, que ela já tinha visto e era ela.
Só que eu não acreditei até então. Eu falei, eu falava: enquanto você não ver ir no ML, reconhecer o corpo, me dar certeza de que é ela. Eu não acredito que é ela. Nisso, as funerárias tudo já começaram a me ligar, me mandar mensagem, parecendo urubu em cima da carniça. E eu falava, me respeita, eu tô num estado de choque, me deixa em paz. Aí já começaram tudo me ligar, me incomodar. E para mim ainda não era ela, para mim não era.
Eu só tive certeza que era Quando a minha pessoa de confiança foi no ML reconhecer, falou e me ligou. Essa pessoa me ligou, chamada de vídeo, falou: Thay, infelizmente é ela. Aí pronto, aí foi aonde eu fiquei em cima de uma cama por dias, só remédio, remédio, remédio, remédio, remédio, remédio, remédio. Na hora que eu acordava, já me dopava de novo. Acordava, já me dopava. Diversas vezes eu pensei, eu tava num prédio Tava num prédio de 8 andares.
Diversas vezes eu pensei em pular desse prédio porque a minha dor tava tão grande que eu nem lembrava que eu tinha filhos, eu nem lembrava que eu era mãe, porque eu tava com tanta dor, tanta dor, que eu não desejo para ninguém essa dor. Desejo não para ninguém viver isso não, entendeu? Ninguém merece passar por isso. Porque eu vou te dizer uma coisa: perder alguém que amamos já é difícil. Agora você perder uma pessoa jovem, cheia de saúde, assassinado Gente, isso é mil vezes pior.
Mas a vida, embora nos ofereça remédio e nos mantenha uma cama por perto, nos cobra atitude. Tainara era a família direta que Lorena tinha. Era ela, portanto, que precisaria tomar as primeiras providências para que o corpo fosse dignamente enterrado e que as investigações avançassem.
Eu só, eu só ia ligando para algumas pessoas minhas confianças para fazer isso para mim, faz aquilo, resolve coisa de funerária, resolve coisa de enterro, resolve tudo, que eu já não tinha força não. Eu só ia falando, por favor, vão resolvendo para mim que eu não tô com força. Eu não queria nem existir naqueles dias.
Há nesse momento um questionamento se o processo de liberação do corpo, por se tratar de um assassinato tão violento, foi demorado.
Foi tudo muito rápido mesmo. Eles liberaram imediatamente, não ficou muito tempo ali com ela. Aí já teve a funerária, né, que foi recolher, foi levar para nossa cidade. Eu coloquei ela para ser enterrada junto com a minha mãe. Eu gostaria de ter cremado ela, mas como foi um caso de assassinato, não é proibido, né? Eu iria cremar para poder ter ela comigo assim por um tempo até eu desfazer das cinzas dela, mas nem isso eu pude fazer.
Não vi, não. Só sei que o último desejo que eu sei que seria dela de colocar ela com a nossa mãe. Coloquei ela do ladinho da minha mãe, na nossa cidade.
Resolvidas as questões burocráticas e procedimentais que antecedem o enterro de alguém, restava para a irmã o maior desafio a partir daquele momento: garantir que as investigações continuassem com qualidade e, principalmente, que o culpado ou os culpados fossem localizados e condenados.
O meu objetivo foi cuidar do filho dela, né, que é do cãozinho dela, do cachorrinho dela, que é um filho pet. Também é filho, as pessoas desmerecem muito, mas é um filho que inclusive hoje é o amor da minha vida, tá aqui comigo. Peço a Deus sempre por ele, para Deus dar muita saúde, para ele viver muitos anos, porque eu tendo ele aqui comigo é como se ela tivesse comigo. Então assim, meu objetivo foi esse: cuidar dele, trazer ele para cá, ter ele aqui comigo.
E na época os meus filhos ainda moravam no Brasil, porque eu ainda não morava oficialmente aqui. Eu ficava indo e voltando até eu me organizar financeiramente para poder trazer meus filhos. Então meu principal objetivo foi eu ficar bem aparentemente, né? Agora que eu preciso lutar. Passei muita coisa triste no Brasil, já fui muito injustiçada com a justiça. Então eu quero só sair, tirar meus filhos. E foi o que eu fiz, foi meu maior objetivo, tirar os meus filhos e o cachorrinho dela e trazer todos para viverem aqui comigo, que é o que acontece hoje. Nós vivemos todos aqui juntos, graças a Deus.
E para, digamos, atacar, Tainara precisava primeiro proteger os seus entes mais queridos. E partir para o ataque só foi possível com a ajuda de uma ativista que já tinha entrado em contato com a irmã de Lorena quando do desaparecimento.
Então, a Melissa apareceu para mim quando a Lorena ainda tava desaparecida. Ela soube, né, acho que ela foi acompanhando os blogs, coisas. Achei uma pessoa assim incrível, ajudou demais, sabe? Eu sou muito grata pela vida dela, pelo trabalho dela, pelo ser humano que ela é, né, que se mobiliza ali, me acolheu, né? Falou assim, tá, eu vou te ajudar, meu amor, não se preocupe, a gente vai encontrar sua irmã. Aí quando aconteceu tudo, ela falou, vamos lutar por justiça, o caso da Lorena não vai ficar impune, vai ter justiça.
Ela ficava sempre me acalmando, eu desesperada mandando mensagem, e ela tentava o máximo me acalmar. A Melissa fez o que muitos familiares fizeram, fez. Melissa fez o que ninguém ali teria feito ali de parente, fez, entendeu? Então assim, ela nem me conhece, até hoje eu não conheço ela pessoalmente, né? A gente, nosso contato é só por aqui. Então assim, ela também não chegou a conhecer Lorena pessoalmente, só que ela pegou tanto ali aquela dor que ela fosse sentar, é como se eu conhecesse ela, como se eu soubesse, né?
Foi tão intenso ali para ela da forma que aconteceu que ela ficou tão revoltada. Inclusive no júri ela esteve presente de tudo, ela acompanhou tudo. Porque imagina, eu sou a única pessoa, tipo assim, a pessoa que queria justiça era eu, a irmã.
Durante alguns dias, ativista Melissa Chaves manteve conversas constantes com Tainara acompanhando atentamente as notícias que surgiam sobre o andamento da investigação. Cada nova informação era analisada com cuidado, mas no fundo, pela experiência ou por intuição, Melissa já pressupunha qual caminho precisaria percorrer para que o responsável, os responsáveis, fossem incriminados. Aquela não seria a primeira vez que teria de enfrentar a mesma engrenagem.
As dificuldades das investigações a resistência institucional e os embates sociais. Mais uma vez, teria de insistir e pressionar e dar visibilidade ao caso, agora em nome da mulher a quem pertencia aquele sapato de salto alto preto. No próximo episódio, a pergunta que move essa história começa a ganhar resposta. Quem é a dona do sapato preto? Aos poucos, a investigação e as vozes que acompanham o caso revelam a identidade de uma mulher por trás daquele objeto encontrado na cena do crime.
Conheceremos sua história, sua trajetória e os caminhos que a trouxeram até ali. Porque antes de ser um indício em uma investigação, havia uma vida e um nome que precisa ser conhecido. Esse podcast é uma criação do Instituto Existo Sociedade em Movimento. A produção é uma parceria entre o Instituto Existo e o canal do podcast Palavra Narrada. A direção é de Nilanda Chaves. O roteiro foi desenvolvido por Leandro Negreiros e Melissa Chaves.
As entrevistas e a narração são de Leandro Negreiros. A edição e a mixagem foram realizadas Leandro Negreiros em Minas Gerais e por Melissa Chaves no Tocantins. A trilha sonora utiliza os áudios gratuitos do Pixabay e conteúdos criados com o apoio de inteligência artificial. As vozes adicionais são de Nilanda Chaves na leitura de matérias jornalísticas, do João Batista na leitura de documentos oficiais e de voz criada por inteligência artificial nas vinhetas ocasionais.
A revisão de texto foi realizada por Gustavo Negreiros. A consultoria jurídica é da Doutora Sueine Dourado. A identidade visual foi criada por Rairan Jacóbia. A distribuição é realizada pelo Instituto Existo e pelos podcasts Sobre Nós Dois, Palavra Narrada e Sala do Júri. Esse episódio utilizou trechos de reportagem da TV Oeste, afiliada da Globo na Bahia. Um agradecimento especial nesse primeiro episódio a Tainara Sabá. Até o próximo episódio.
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Existo. Existo. Áudio Dossier, um projeto do Instituto Existo.