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O poder das escolhas: Filipe Grilo

11 de maio de 202631min
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Eduarda Maio conversa com o economista Filipe Grilo, da Porto Business School, sobre como as escolhas que os cidadãos fazem no dia-a-dia são sempre uma questão de economia.

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Assuntos6
  • Literacia Econômica e Financeira em PortugalRelação errada com a matemática · Comportamento reativo vs. proativo · Falta de planeamento financeiro · Dependência do Estado
  • Decisões econômicas precipitadasTempo como recurso escasso · Custo de oportunidade · Racionalidade e emoções · Felicidade
  • Crise Econômica no IrãImpacto da realidade mutável · Fuga de cérebros · Confiança no sistema econômico
  • Estrutura do Livro 'É Tudo Uma Questão de Economia'O Eu (decisão pessoal e relação com outros) · O Nós (sociedade e sistema capitalista) · A Nação (conceitos macroeconômicos) · O Futuro (alterações climáticas e IA)
  • Papel do STF na economiaDecisões de consumo · Influência no mercado · Manipulação por empresas
  • Alterações Climáticas e Sistema CapitalistaFalhas do mercado · Custo da poluição · Atmosfera como recurso gratuito · Valorização de bens ambientais
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Bom dia, Filipe Grilo. Bem-vindo ao Tic Tac. Filipe Grilo é investigador e coordenador da Porto Business School, é professor de Economia e Finanças, especialista em crises financeiras e acaba de lançar o livro É Tudo Uma Questão de Economia, publicado pela Ideias de Ler da Porto Editora. Bem-vindo, Filipe. Começa por nos contar neste livro, ou por explicar a quem vai lê-lo, que o tema da economia não é difícil.

Como assim? Não é difícil. Nós estamos quase sempre abaixo da média nos rankings do OCDE, em termos de literacia financeira. Temos dificuldade em compreender o que é esta inflação, ou em calcular juros, ou em fazer investimentos. Não conseguimos calcular o risco. Como é que a economia não é difícil?

Não tem de ser. Eu diria que o grande problema português é que a economia não é ensinada nos níveis mais básicos do ensino. Isso acabou até por trazer-me para mim uma surpresa, porque eu fui para a economia por coincidência, porque gostava muito da matemática e da geografia e não gostava nada de ciências. Então fui empurrado para a economia e apaixonei-me. E isto é uma sensação que eu gostava que muita gente também experimentasse.

Porque quando falamos de economia parece que falamos sempre das más coisas, porque eu quando, aliás, quando sou chamado para a televisão para falar de economia é sempre quando as coisas estão bastante negativas e a economia é muito mais que isso, é uma ciência que estuda a relação das pessoas.

de perceber que há certas frases que nós dizemos no dia-a-dia que têm um significado adicional e isso permite depois as pessoas relacionarem-se até melhor, perceberem melhor quem está do outro lado, perceberem também como podem se relacionar mais facilmente com outro tipo de pessoas. E isto é a economia. Portanto, a economia está em todo lado.

Ela é bastante complexa, mas também não tem que ser complexa. Nós podemos desconstruí-la, e esta é a missão do livro, é desconstruir de forma simples, com uma mensagem muito ligeira, perceber que a economia começa em nós, e depois alarga-se para o resto do mundo, e depois permite-nos perceber também o nosso posicionamento no mundo, que é uma mensagem também muito bonita.

Isso leva-me a uma outra sensação que eu tive naquilo que já consegui ler deste livro, é que ele às vezes parece mais um livro de filosofia do que de economia, propriamente. A economia vem da filosofia. Aliás, o pai da economia era um filósofo, era o Adam Smith. Portanto, antes de existir a economia, existia a filosofia. E, portanto, sim, a economia vem muito de...

Como pensar o mundo Como pensar a nossa posição E eu gosto particularmente desta posição Eu venho das matemáticas E apaixonei-me por esta forma de pensar E portanto, sim, é uma filosofia Porque ensina-nos também a pensar Ensina-nos a perceber a posição do mundo E mais do que isso também ensina-nos A ler os sinais do mundo

E é por isso que também é importante para as pessoas Porque ajuda-nos a perceber melhor As notícias E há muitas experiências pessoais que eu tenho Na aprendizagem da economia Que eu gostava que as pessoas também começassem A ter essa experiência Uma delas foi

Parece que o mundo mandava sinais, mas o meu cérebro, como não percebia, ignorava todos estes sinais, ignorava muitas das notícias. E quando eu comecei a aprender o que é a economia, quando comecei a compreender as relações, as notícias parecem que agora fazem sentido e aparecem mais vezes. É como se nós estivéssemos a pensar comprar um carro vermelho e de repente começássemos a olhar, só há carros vermelhos.

É isto que vai acontecer às pessoas que leem este livro Porque vão perceber bem O que é que é isto da inflação O que é que o conflito no Irão pode ter impacto na minha vida Como é que as empresas estão a reagir Por que é que os preços a subir Não é as empresas que estão a aproveitar de momento Até as empresas neste momento estão a ter dificuldades Como é que nós conciliamos isto tudo E como é que isto depois se reflete nas nossas decisões diárias E portanto é isto que eu quero passar

O livro é simples na forma como ele está contado às pessoas, digamos assim, ele está dividido em quatro partes, já vamos falar um bocadinho delas e da forma como estruturou este livro, esta forma de fazer chegar a economia e a importância da economia às pessoas e à vida delas, e é muito coloquial, ou seja, o Filipe praticamente é como se estivesse na rádio ou na televisão a falar com as pessoas, porque a gente lê o livro e o Filipe está permanentemente a falar connosco.

E eu falava aqui de filosofia porque logo nos primeiros conceitos que nos introduz sobre economia, que eu imagino que sejam essenciais para nós depois percebermos tudo o resto, nos fala também da morte, nos fala também da felicidade. É uma forma só de cativar o leitor para uma área ou uma disciplina que em princípio faz alguma comissão para quem não percebe dela, ou é mais do que isso?

Há realmente ligação aqui com estas questões filosóficas e estes conceitos que atravessam a nossa vida, como é o conceito da felicidade e como é o conceito também da morte? São essenciais. Não são assórios, não são truques. São essenciais. A morte é essencial para a economia. A morte é a finitude dos nossos recursos enquanto pessoas. E a morte traz-nos... Agora isto foi muito grave, não é? Mas a morte traz-nos...

uma sensação de que o tempo não é ilimitado. E este é o recurso mais escasso, aliás, é um spoiler do livro, este é o recurso mais escasso que as pessoas enfrentam. O tempo. O tempo. É o tempo que influencia sempre as nossas decisões, os nossos caminhos. Deveria.

Deveria influenciar. E às vezes nós tomamos uma má decisão. Eu faço aí um exemplo muito claro, agora que estamos a falar dos preços combustíveis, em que há muita gente que desperdiça o seu fim de semana a poupar um ou dois euros no combustível, porque fica horas nas filas. E eu diria que esta é uma má decisão económica, porque está a desperdiçar o seu tempo, em que poderia estar a aplicar o seu tempo em algo que trouxesse mais prazer.

E aqui relaciona-nos também com a felicidade, que é a economia ensina-nos a tomar boas decisões, a comparar o que são os benefícios com os custos.

E se nós tomarmos decisões melhores, do nosso ponto de vista, porque isto também é algo que eu falo logo no início, é que a forma como nós encaramos os benefícios e a forma como nós encaramos os custos é uma forma pessoal. De cada decisão que tomamos. De cada decisão que nós tomamos. Mesmo que não tenha a ver com dinheiro.

mesmo que não tenha a ver com dinheiro, com o tempo, por exemplo. A forma como nós aplicamos o tempo na amizade, e isso é um dos exercícios que eu gosto de trazer logo no início nos meus alunos, é avaliar a amizade, porque é que nós temos melhores amigos e porque é que há outras pessoas que nós, infelizmente, ao longo da vida, vamos deixando cair. Porque o tempo que nós aplicamos nesta decisão de ser amigo...

Também traz-nos vantagens Os benefícios que o amigo traz Mas também traz-nos custos Porque o tempo que eu estou a dedicar àquele amigo Eu não estou a dedicar a outras coisas E nós temos que fazer estes cálculos Porque percebemos que o nosso tempo Que é um recurso escasso Tem que ser muito bem aplicado E eu não estou a falar de dinheiro

Sim, ou seja, a economia em tudo, neste sentido amplo, porque os princípios da economia podem ajudar-nos a tomar decisões em que nós consigamos de uma forma mais concreta, mais racional, perceber qual é o custo e qual é o benefício de cada uma dessas decisões.

O que é muito interessante. E nessa questão racional, deixa-me só acrescentar também uma questão. Porque muita gente pensa que racional significa não ter emoções. Não de todo. Racional significa apenas ser coerente com a decisão. E portanto, nós podemos introduzir emoções na nossa decisão. E é aí que eu depois digo que a economia é a ciência da felicidade. Porque nós ao introduzimos as emoções...

nós também podemos trazer aqui benefícios adicionais à nossa decisão e, portanto, quando nós tomamos as decisões e este benefício é superior ao custo, quer dizer que nós estamos a ter mais bem-estar. Ou seja, a nossa decisão traz-nos felicidade. Portanto, boas decisões ao longo do tempo significa que nós estamos mais perto da felicidade. E isso também é economia. Exatamente.

Sem fazer o tal spoiler, ou seja, sem contarmos aqui o livro todo às pessoas, como estava a dizer há pouco, mas gostava ainda que me explicasse um bocadinho como é que ele está organizado este livro. Ele começa por ser dirigido a cada um dos leitores, portanto à nossa vida económica, digamos assim, ou à forma como nós lidamos.

com os conceitos económicos no nosso dia-a-dia. Esta é a primeira parte. E depois tem mais três partes. Eu gostava depois de parar um bocadinho mais na última parte, porque achei muito, muito interessante, porque nos desafia para assuntos que estão na ordem do dia, como é o caso da inteligência artificial e também das alterações climáticas. Mas há uma segunda e uma terceira partes que são o quê neste livro? O livro tem uma consequência de nós...

Aliás, eu para o nós para o mundo. Isto é, a primeira parte é sobre o eu. Eu enquanto pessoa, eu enquanto trabalhador. E temos estes dois capítulos. Portanto, aplicar os princípios económicos à decisão pessoal na relação com as outras pessoas e na relação com a empresa. Que isto também é bastante importante. E depois passamos para o nós.

Portanto, no nosso trabalho, na empresa é no nosso trabalho. No nosso trabalho, exatamente. E depois passamos para o nós, isto é, eu estou inserido numa sociedade que também toma as suas decisões e nós vamos ter que perceber um pouco como é que a sociedade reage a estes estímulos. Porque é que, por exemplo, nós...

portugueses, estamos a sofrer com uma guerra que acontece no outro lado do mundo. Como é que a sociedade foi montada para provocar estes efeitos? Isto é o sistema capitalista. Eu provoco precisamente o leitor a pensar nesta questão porque às vezes pensamos que o capitalismo são só as empresas a dominar as pessoas e quando eu digo que isto não é assim esta a ideia.

E depois do nós, passamos para a nação. Ou seja, a terceira parte vai ser uma abordagem muito mais ampla, olhar para conceitos que nós vemos nas notícias, que são os conceitos macroeconómicos, o produto interno bruto, a taxa de juros, a inflação, para percebermos então como é que a nação reage, para depois perceber como é que nós reagimos, para depois percebermos como é que eu reajo a estas alterações da realidade.

E no final, porque eu tinha um receio do livro ficar datado pela conclusão Então decidi abrir-me e fazer um exercício muito mais especulativo Para o que é que poderá ser o futuro E nessa última parte falo sobre as alterações climáticas E sobre a inteligência artificial

são questões muito dinâmicas, que estão sempre em evolução, percebo, portanto, esse risco de poder ficar datado, mas de qualquer maneira, no final da conversa, vamos voltar lá, porque eu gostava muito de falar consigo sobre estes dois conceitos e a forma como os interpreta também à luz da economia. Vamos falar do cidadão comum, da relação que ele tem com a economia. Já percebemos que, de uma forma geral, somos um bocadinho avessos estes conceitos, não sei se são os palavrões que são difíceis, inflação, estagfação, taxas de juros.

Tudo isto pode ser muito complicado para o cidadão comum, mas de que forma é que isso traz depois um fechamento no nosso comportamento, ao nível financeiro, ou seja, isto são conceitos dos quais a gente não quer ouvir falar, tenta evitar o mais possível, a não ser que ele chegue à nossa carteira e de repente tenhamos o BCE a subirmos as taxas de juros do crédito à habitação e aí temos mesmo que tentar perceber o que é que está a acontecer, porque vamos ter que ter uma reação. O nosso comportamento é avesso de uma forma geral à economia, porquê?

A minha hipótese é que há uma relação muito forte, erradamente, e eu provo isso no meu livro, que há uma relação muito forte entre a economia e a matemática. E a matemática é mal vista nas nossas gerações mais jovens e colocar temas económicos cada vez mais relacionados com a matemática, eu para mim parece-me que é a abordagem errada.

E é por isso que eu neste livro não toco sequer num ponto matemático, não há qualquer matemática, porque é mais importante do que isso. Lá está, eu diria que a economia pode ser muito mais próxima a uma área filosófica do que a uma área de ciência exata matemática. E é por isso que os portugueses não têm uma boa relação, precisamente porque há a questão da matemática aqui a travar esta relação. E depois...

A relação que os portugueses têm com a economia é quando as coisas correm mal. Este é o problema. Ou seja, as pessoas tentam conhecer mais a economia quando estão aflitas. E, portanto, isto cria aqui uma relação muito conflituosa com a economia. E quando as coisas correm bem, as pessoas até nem pensam. Mas quando as coisas correm bem, nós, na verdade, temos uma...

Um comportamento e um relacionamento com a economia, com as coisas da economia, que é muito pragmática da nossa vivência do dia-a-dia, não é? É o salário e perceber se ele chega até ao final do mês, é perceber os juros que temos para pagar se tivermos que pagar, é percebermos quais são os impostos que vamos pagar no final do ano. Este é o nosso relacionamento. Precisamos de mais no dia-a-dia do que isto. Isto é muito reativo. O que eu quero sugerir é uma reação proativa.

Ou seja, na questão da taxa de juros, muitos portugueses pensavam, na altura de 2023, que era natural as taxas de juros manterem-se perto do 0%. E acharam estranho porque é que as taxas de juros estavam a ir em direção aos 4%. E eu, enquanto economista, mostro... Também é verdade que os bancos induziram muito disso, não é? Com o tipo de crédito, sobretudo, que foram vendidos, de taxa variável, etc. Sim, mas...

O consumidor nunca foi muito alertado para essas questões. É verdade, mas foi induzido porque não havia conhecimento. E o que eu quero mostrar aqui, e há um gráfico que eu mostro aí da evolução das taxas de juros ao longo tempo, desde 1960 até agora, em Portugal, em que eu mostro que as taxas de juros perto de zero foram uma anormalidade histórica. Ou seja, foi uma exceção ao que nós vivemos nos últimos 50 anos. Só percebemos isso muitos anos depois.

O que está a querer dizer o Filipe é que deve ser o próprio consumidor, deve ser o próprio cidadão, não ficar à espera que alguém lhe explique como é que as coisas funcionam, mas inteirar-se devidamente dos passos que vai tomar. Tomar a decisão nas suas mãos. Exatamente, porque quando nós temos o conhecimento do nosso lado, nós podemos tomar melhores decisões. Aliás, na altura de 2023, aliás um pouco antes, até 2022, quando começa a inflação, se os portugueses tivessem este livro.

que na altura não estava disponível, mas tivessem este livro à sua disposição, percebiam rapidamente que havia um risco muito sério de que as taxas de juros iam começar a subir. E se nós tivermos este conhecimento, o que é que nós vamos fazer? Vamos diretamente ao banco e dizer, meus amigos, eu quero fixar a taxa de juros porque eu não quero estar sujeito a uma subida de taxa de juros. E esta decisão...

muda a vida de muitas pessoas. Porque estar a pagar uma prestação de 300 euros ou estar a pagar uma prestação de 700 euros, que foi o caso que aconteceu em 2023, muda muito a vida da pessoa. Sim, eu acho que vamos aprendendo à custa de muito sofrimento neste caso. Mas nós também temos outros problemas, como cidadãos, como consumidores, acho eu. Nós não planeamos, ou planeamos a muito curto prazo. Ou seja, nós não planeamos...

Não planeamos a nossa vida financeira. Perceber onde é que queremos estar daqui a 10 anos? Com as nossas poupanças ou com os nossos investimentos? E isso não acontece porque também é pela mesma falta de conhecimento que nós não fazemos esse planeamento? Ou é uma coisa portuguesa, digamos assim, não planeado?

Eu diria que há duas camadas aqui, uma é a literacia económica, outra é a literacia financeira. A que eu proponho aqui para já contar é a falta da literacia económica, ou seja, perceber à volta o mundo que está a acontecer, porque o mundo depois vai afetar as nossas decisões. E depois há outra camada de literacia financeira que é...

As pessoas não percebem que instrumentos é que têm à sua disposição, o que é que eles podem fazer com esses instrumentos. E começa-se a dar muito mais atenção à literacia financeira, e ainda bem, ou seja, explicar que instrumentos é que estão disponíveis às pessoas, mas depois falha a outra literacia económica, que é como é que o mundo mudando, eu tenho que tomar decisões diferentes quanto à minha decisão financeira. E é isso que eu quero aqui contar no livro que eu trago aqui.

Tomar as mesmas decisões quando a realidade vai mudando significa que nós vamos tomar mais decisões. Sim. Há uma outra coisa que eu acho que se liga um pouco com isso que se sente pelo menos no consumidor português, no cidadão português que é um bocadinho esta coisa de que quando isto correr mal o Estado de alguma forma vai estar lá para nós. Ou seja...

Está na saúde, está na educação, está nas pensões, está nos apoios sociais. O cidadão espera sempre algum nível de proteção do Estado, se algo correr mal, em crise, já me falou aqui de algumas. Será que isso também não desincentiva, até certo ponto, o cidadão de tomar nas suas mãos esta capacidade de ter a sua vida económica e financeira mais segura e mais confortável?

Eu diria que sim, isso explica-se bem, ou seja, saber que há ali mal nofada, em último caso, que é o Estado que nos pode meter a mão por baixo, acaba por limitar também essa proatividade, mas eu diria que esse é um segundo efeito, ou seja, eu diria que o primeiro efeito é a falta de conhecimento por parte dos cidadãos e depois, obviamente, que vem o Estado depois ajudar. O problema desta abordagem, e isso nós estamos a ver cada vez mais, aliás, esta guerra mostra isso.

o Estado não tem a capacidade neste momento de ajudar a todos e portanto significa que alguns vão cair e portanto para evitar que caiamos por falta de apoio do Estado nós temos que tomar essa decisão mais proactiva. E depois o que nós vemos mais à frente, que essa é uma parte preocupante, não é um tema que toque no livro, quem sabe no futuro, que é as alterações demográficas que vão provocar um peso, um encargo adicional ao Estado que vai também implicar que o Estado não vai conseguir ir a todas.

Os problemas é que os cidadãos estejam preparados para tomar conta de si melhor do que tomam hoje, quando isso acontecer. E isso com certeza começa por termos mais noções económicas logo desde que entramos para a escola. Eu penso que isso é óbvio, nem precisamos passar muito por aí. Nós temos a ideia de que a economia é uma coisa que acontece ao nível dos bancos, ao nível do Estado, ao nível de vários organismos que existem no país, mas nos quais o cidadão não tem um papel.

Qual é o papel do cidadão na economia do país? O papel do cidadão é tomar decisões. É tão simples quanto isso. O que acontece é que o mercado, aliás, que nós chamamos o mercado em economia, que é o sistema, que é a sociedade que foi montada, ela reage a várias questões, a várias condições, como, por exemplo, esta guerra no Irão. E o mercado, ao criar as diferentes condições, vamos imaginar, agora os preços estão a subir. O que é que o cidadão faz? Vai ter que mudar a sua decisão.

E, portanto, é pela decisão do consumidor que muito do mercado também acontece. Por exemplo, se o consumidor deixa de consumir, as empresas não vão poder subir preços.

Tira-se o poder às empresas de criar inflação, por exemplo. É nesta decisão que a pessoa, o consumidor, também tem um poder. E portanto, estando mais qualificadas, tendo esta informação, e mais do que isso, às vezes nós tomamos decisões que são induzidas pelas empresas, porque não temos consciência do que elas estão a fazer.

O Filipe Vila fala de vários exemplos desses, não é? Nós também devemos ler a forma como somos muitas vezes manipulados ou pelo menos levados a consumir determinadas coisas e como há mecanismos que nos levam a isso. Sim, os supermercados são um grande exemplo disso, em que há ali, por exemplo, eu gosto muito de falar da questão das feiras, dos vinhos, dos queijos e dos enchidos.

em que os supermercados aproveitam o facto dos vinhos terem que ser escoados e, portanto, os produtores de vinhos estão a baixar o preço para escoar o vinho antigo e as supermercados aproveitam já que o preço do vinho vai baixar, fazem uma pequena promoção do queijo e do enchido porque calha muito bem com o vinho. E, portanto, isto induz o consumo às pessoas e, portanto, as pessoas têm que ter noção de se, de facto, é uma boa decisão aquela compra naquela altura.

Até que ponto estão a ser induzidas a consumir sem ser uma decisão sua, não é? Exatamente. Portanto, já me explicou que os cidadãos têm capacidade para influenciar o funcionamento da economia. E há pouco, quase no início da conversa, falávamos aqui das emoções. Elas devem influenciar as decisões económicas, as nossas decisões económicas não devem. Como é que dozíamos aqui o lado racional daquilo que nós queremos tomar como decisões e o lado emocional?

Eu diria que ambas são conciliáveis Aliás, eu acredito mesmo que as emoções Fazem parte do processo racional Se eu tomo uma decisão Porque aquilo me vai fazer sentir bem E esta decisão, por exemplo Escrever um livro

Esta decisão de escrever o livro, eu dediquei tempo para escrever o livro. O que é que eu vou retirar deste livro? Provavelmente uma sensação de altruísmo, de generosidade. Isto são emoções. Mais do que uma decisão racional, porque, sejamos claros, não vou fazer muito dinheiro com o livro. Portanto, não é uma questão de fazer dinheiro, é uma questão emocional. Portanto, esta foi uma decisão racional que eu tomei, na altura, quando me propuseram fazer o livro. Mas há aqui muitos estímulos ao leitor também.

Talvez o desejo de que quem leia este livro dê o passo seguinte e vá saber um pouco mais sobre como gerir a sua vida. Precisamente, mas isso é uma emoção que eu retiro para mim. É o que eu digo também no livro.

mesmo o altruísmo pode ser um ato de egoísmo ou seja, eu retiro um prazer de estar a ajudar as pessoas de ter este impacto na sociedade e portanto isto é algo que é muito emocional mas também dentro da decisão de racional que é um benefício que eu retiro isto é algo que me toca e portanto tomo essa decisão portanto eu diria que os consumidores e os portugueses em si mais do que

Evitarem qualquer emoção é não, é tragam a emoção para um mindset racional, ou seja, para uma decisão racional, este é o meu benefício, ter consciência quais são as emoções que estão por detrás desta decisão, porque isso permite comparar os tais benefícios com os tais custos.

Nós vivemos uma crise difícil e dura em 2008, 2011. Estamos a atravessar agora outra. De que forma é que estas crises económicas, que às vezes parece que são cada vez mais seguidas, não sei se são ou não, não sou especialista sobre o assunto, mas de que forma é que isso mina também a confiança dos cidadãos, a relação que me explicavam no início desta conversa, que deve ser saudável, o mais saudável possível, entre os cidadãos e a economia em que estão inseridos?

Nós nos últimos seis anos tivemos Covid, tivemos a guerra da Ucrânia, inflação, taxas de juros, depois vêm as tarifas do Trump e agora temos outro conflito. Este período é claramente conturbado. E isto significa que a realidade muda. E, portanto, as pessoas têm que perceber o que é que está a mudar nesta realidade. Porque a realidade antes do Covid era diferente desta realidade.

E o que é que eu quero chamar a atenção aqui é que se a realidade é diferente, as decisões obrigatoriamente têm que ser diferentes. Eu tenho que estar mais atento ao que se passa externamente para perceber como é que isto vai mudar a minha vida. E, portanto, se nós tivermos estas ferramentas, esta é a relação positiva que eu posso ter com a economia. É perceber, é ler os sinais, perceber o que é que está a mudar a realidade e, portanto, mudar essa decisão.

Mas as economias também conseguem sobreviver sem a confiança dos cidadãos, que não tiverem a confiança dos cidadãos?

Não. O mercado depende dos cidadãos enquanto não só consumidores, mas também como trabalhadores. Se nós não tivermos confiança que o nosso trabalho nos vai dar uma vida sustentável, o que é que vai acontecer? Muito provavelmente as pessoas vão sair desta economia e vão para outra, tal como os nossos jovens. E, portanto, nós temos jovens que não estão a acreditar.

no nosso sistema económico português percebem que lá fora há outras oportunidades para serem mais felizes não era só para ganhar mais dinheiro, é para terem uma melhor qualidade de vida. E portanto, a partir do momento em que esses jovens não acreditam no nosso sistema económico o que é que eles simplesmente fazem? E este é um problema para a nossa sociedade nós temos é que devolver às gerações mais jovens

Também a ideia, a crença que esta sociedade portuguesa tem lugar para eles, tem lugar para eles terem uma boa oportunidade de terem uma melhor qualidade de vida e serem felizes. E, portanto, a partir daí constrói-se esta confiança.

Vamos para o final do livro. Eu tinha prometido aqui que queríamos falar um bocadinho dele, em que o Filipe Grillo faz alguma análise sobre duas questões que são muito importantes na nossa vida e muito desafiantes. Uma delas tem a ver com as alterações climáticas, a outra com a inteligência artificial. Eu gostei muito de ler a forma como nos conta a maneira como o sistema capitalista em que nós vivemos e nós sabemos, acho que nem que seja de uma forma empírica, todos nós temos uma noção.

do que é o sistema capitalista. E o Filipe Grillo chama-nos a atenção para talvez uma das causas pelas quais as alterações climáticas não têm tido sucesso no combate que nós devemos fazer às alterações climáticas. E diga isso com o sistema capitalista. É um insucesso do sistema capitalista. Porquê?

Em parte, em parte. Eu digo no livro que eu adoro o sistema de mercado, portanto o capitalismo, mas não sou um fanático, eu reconheço que há falhas. O mercado tem algumas falhas e essas estão muito bem identificadas na economia e eu também explico que falhas são essas. E uma delas é o caso das alterações climáticas provocadas por uma falta de noção de que as empresas não são culpadas pelas alterações climáticas. Isto é, quando uma empresa polui...

O custo da poluição não é da empresa. O custo da poluição é de todos. E infelizmente quando é de todos, não é de ninguém. E portanto o grande problema é que o mercado não reconhece este custo porque não está ninguém a reconhecer este custo, nomeadamente a empresa que polui. Portanto uma das soluções que os economistas propõem é precisamente tornar este custo da poluição

imputada a quem o provoca, neste caso, a empresa, por exemplo, através de impostos de poluição. A União Europeia faz isso ao nível da taxa de carbono.

Mas também diz, por exemplo, que o sistema capitalista tratou a atmosfera como um recurso gratuito. Exatamente. E ele não é. E ele não é. Talvez até mais, ilimitado também. Exatamente. Coisa que também não é. E, portanto, há aqui uma forma de ver do sistema capitalista que não conseguiu alcançar aquilo que estava pela frente, em termos de alterações climáticas. Ou não conseguiu, pelo menos, encontrar soluções. Sim.

Obviamente, neste caso em que o bem é de todos, este é um problema do sistema de mercado Porque o sistema de mercado precisa da propriedade, ou seja, eu preciso de ter, eu preciso de ter a responsabilidade E se não há uma responsabilidade, depois esse problema fica de fora e não é tratado E é abusado, neste caso, é abusado para o mercado porque produz-se demasiada poluição

precisamente porque não há uma responsabilidade inerente a alguém. A partir daí, a solução tem que ser, ou uma das soluções tem que ser, criar esta propriedade. Quem é que detém a propriedade da atmosfera? Quem é que tem a responsabilidade de tratar a atmosfera para depois resolvermos este problema? Na verdade, ver todas estas questões ligadas às alterações climáticas como bens económicos e dar-lhes um valor.

Por exemplo, na questão da floresta O problema da floresta É que nós sabemos que a floresta Contribui para a reciclagem do ar Portanto, para a produção de oxigênio Para a absorção de CO2 Isto é uma função vital para nós, humanos Mas nós não pagamos Por esta função Não atribuímos um valor

não estamos a atribuir o valor. E, portanto, uma das soluções poderá ser, e será no futuro, acredito eu, essa atribuição de valor desta função essencial para a nossa vida, porque a partir do momento em que temos um valor, quem produz este valor vai ter um incentivo a produzir ainda mais. Ou seja, estamos a dar lucro a quem tem floresta que está a captar o carbono e, a partir daí, geramos uma atividade económica que depois ajuda a tratar a atmosfera.

Inteligência artificial, que impacto é que ela vai ter na economia? Está a ter já na economia, até na forma como se trabalha, se estuda a economia e se fazem previsões e se projetam as coisas no futuro e que impacto tem também ou vai ter, está a ter no mercado de trabalho porque é uma área que o Filipe Grilo fala neste livro, muito dirigido sobretudo aos jovens, àqueles que estão ainda digamos assim innocence

que têm um horizonte no mercado de trabalho grande e que estão a tempo de perceber como é que a atividade que têm ou aquela que vão escolher no futuro, as que vão escolher no futuro, podem ser tomadas já de acordo com aquilo que vai ser o futuro moldado pela inteligência artificial, não é? Essa é a questão. Eles têm mais tempo para decidir, mas também têm muito mais probabilidade de serem impactados.

Seriamente no mercado de trabalho Porque uma parte da geração que está no mercado de trabalho Muito dificilmente irá ser impactada Diretamente Porque a adoção da inteligência artificial Como forma de substituição das pessoas Obviamente vai depender de trabalho para trabalho Mas também vai ainda demorar algum tempo Pelo menos na economia portuguesa

E isso significa que há uma parte da geração das pessoas que neste momento estão preocupadas, mas que à partida sairão mais ou menos imunos desta transformação. E, portanto, esses à partida estão relativamente seguros. Agora os mais jovens que estão a entrar, estamos a falar de pessoas que vão ter...

Já não são 40 anos, porque a esperança média da vida vai aumentar, mas provavelmente 50 anos ou 60 anos de trabalho à sua frente, o que significa que estão muito expostos a transformações sérias que a inteligência artificial vai criar na economia. E, portanto, é muito importante eles pensarem não só quais são as necessidades de trabalho hoje, mas também as necessidades de trabalho futura e, mais do que isso,

Quão fácil será a substituição da inteligência artificial no seu trabalho? E o que eu vejo é uma visão um pouco assustadora, porque os jovens estão cada vez mais interessados em algo rápido, em algo mais fácil, em algo mais imediato, mas esse imediato provavelmente será muito mais facilmente substituído. Ou seja, carreiras mais técnicas, mais profissionalizantes.

serão muito mais facilmente substituíveis do que tarefas que exigem uma relação de pensamentos algo profundo ao nível do pensamento abstrato. Essas deverão ser muito mais difíceis de substituir e os jovens estão cada vez com menos paciência para ir para essas áreas. Portanto, trabalhos, na verdade, que acrescentem àquilo que a inteligência artificial nos vai dar.

Exatamente. Acrescentem mais do que isso que nos permitem relacionar com a inteligência artificial, que não nos permitem substituir, que permitem tirar parte do fardo deste trabalho, mas que há uma componente muito pessoal, muito única, que a inteligência artificial não nos vai substituir. Portanto, se nós conseguimos encontrar esses trabalhos em que nos permite conciliar estas duas facetas, nós até poderemos vir a ganhar muito com a inteligência artificial.

Eu dou um mero exemplo, que é o que é ser professor no âmbito da inteligência artificial.

Eu não acredito que a inteligência artificial me vá fazer os materiais, me vá contar a história, porque vai perder muito daquilo que eu sou enquanto professor e vai-me pôr igualzinho aos outros professores. E, portanto, eu tenho características únicas na forma como me comunico, na forma como encontro os exemplos, na forma como vejo que a inteligência artificial não vai conseguir porque, mais uma vez...

O caso único não é provável na inteligência artificial. A inteligência artificial vai procurar o que é mais frequente. E a excelência não está na frequência, está na exceção. Dá-nos a média de tudo daquilo que encontra, não é? Na verdade. E, portanto, nesse ponto de vista, põe-nos todos iguais, é verdade. Exatamente. Não tinha pensado ainda dessa forma. Filipe Crilo, foi um gosto de conversar consigo. Muito obrigado. Obrigada por ter vindo.

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