Correntes oceânicas - o motor do clima: Miguel Santos
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Eduarda Maio
Miguel Santos
- Correntes Oceânicas e ClimaCirculação Meridional de Revolvimento Atlântico (AMOC) · Importância da AMOC para a distribuição de calor · Impacto do aquecimento global no enfraquecimento da AMOC · Formação de águas profundas no Ártico · Influência da água doce no Ártico
- Monitorização Oceânica e ObservatóriosPrograma Argo de flutuadores autónomos · EMSO Portugal e observatórios submarinos · Importância das observações para modelos climáticos · Desafios de financiamento para infraestruturas de observação · Rede Fishing Vessel Ocean Observing Network
- Relatório Global do Estado do OceanoAvaliação das alterações físicas e químicas do oceano · Impacto no biodiversidade marinha · Problemas de poluição e lixo marinho · Governança dos oceanos · Pesca industrial vs. artesanal
- Áreas Marinhas Protegidas em PortugalMeta 30-30 de conservação · Montes submarinos da Madeira e Açores · Programa de monitorização e avaliação nos Açores · Zona Económica Exclusiva (ZEE)
- Corrente do MediterrâneoSaída de água salgada e quente do Estreito de Gibraltar · Influência na circulação termohalina
Bom dia, Miguel Santos. Bem-vindo ao Tic Tac. Miguel Santos é oceanógrafo, é investigador do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, presidente da EMSO Portugal. A EMSO é uma rede de observatórios submarinos e de coluna de água que monitorizam o oceano, é uma rede europeia, e é também presidente da Associação Portuguesa de Oceanografia. Obrigada, Miguel Santos, por estar no Tic Tac.
Prazer é todo meu. Nós estamos na década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que vai até 2030, e à boleia desta década têm surgido muitos estudos, novos estudos, à volta do Estado do Oceano.
Saiu, por exemplo, este ano o relatório global do Oceano das Nações Unidas, que eu penso que é talvez uma das avaliações globais mais completas do Oceano até hoje. Vamos falar dele mais adiante. Mas houve um estudo que eu li recentemente, sobre o qual li recentemente, que me levantou algumas dúvidas e preocupações e que tem a ver com a corrente do Atlântico Norte. Uma investigação liderada pelo Centro de Investigação Henri Abordeaux Sudoeste, em França,
que dizia que este sistema crítico da corrente do Atlântico, a chamada Circulação Meridional de Revolvimento Atlântico, ou AMOC, tem vindo a enfraquecer e havia grandes preocupações por parte dos investigadores sobre o possível colapso deste sistema e do que aquilo poderia representar para o planeta.
Talvez seja melhor começarmos do princípio, Miguel Santos, porque este tema é um tema de alguma forma técnico ou talvez mais difícil para nós, para o cidadão comum. O que é isto? A AMOC é o quê e porquê é tão importante monitorizá-la? Os investigadores monitorizarem o seu comportamento? Tenho muito prazer de estar aqui e vou tentar falar sem jargões científicos para toda a gente perceber.
Portanto, a AMOC, no fim, é uma parte do que se chama a circulação termolina global do planeta, portanto, dos oceanos. A circulação termolina, como diz, é uma circulação não provocada pelo vento, como as correntes de superfície, mas...
por diferenças de densidade, de temperatura e salinidade que fazem a densidade da água. Essa circulação estende-se ao longo de todo o planeta, chama-se, ele chama-se em inglês, convém belt circulation, em português provavelmente é corrente de transmissão ou de reviramento global.
Porquê que estas correntes são muito importantes? Estas correntes são muito importantes porque distribuem o calor ao longo do planeta. As correntes que circulam de sul para norte trazem a água quente das zonas tropicais e equatoriais e circulam até, no caso do Atlântico, temos a corrente do Golfo, portanto é uma corrente quente que circula ao longo das costas estes Estados Unidos e depois deflete para o continente europeu.
E estas correntes são muito importantes porquê? Porque distribuem o calor, portanto, ela vem trazer o calor das zonas que são mais aquecidas, que é as zonas ecotatoriais, para as zonas polares. Deixe-me só tirar uma dúvida. Se não houvesse esse aquecimento, digamos assim, natural que é feito por estas correntes, os oceanos seriam gelados em alguns pontos do planeta? Não, não, não. O que acontecia era que se nós virmos as mesmas latitudes na Europa, e, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Canadá,
Vamos dizer que Nova Iorque está mais ou menos à latitude de Aveiro. Ora, em Nova Iorque neva. Em Aveiro não neva. Portanto, o que estas correntes fazem é que, não só as correntes, mas grande parte, o efeito é moderar o clima na Europa. Portanto, o norte da Europa tem um clima muito mais moderado do que, por exemplo, o Canadá ou o norte dos Estados Unidos, que tem neve. Então, estas correntes marinhas, não é? Sim.
estão completamente associadas, intimamente ligadas com o clima. Exatamente. Por isso é que alterações nelas são muito importantes. E o que é que depois isto acontece? Essa corrente quente vem chegar aos polos e no Atlântico o Polo Norte é uma zona, portanto o Ártico, é uma zona de formação de águas profundas. O que é que isto quer dizer?
Essa corrente é quente, quando começa a chegar ao Ártico, começa a arrefecer, portanto, a água torna-se mais densa, ao mesmo tempo começa a congelar, portanto, os chais ficam na água, portanto, ela fica mais salgada.
E mais fria. Ora, uma água mais fria é mais densa, uma água mais salgada é mais densa. Portanto, tem tendência a afundar. Afunda. E, portanto, afunda. Por isso é que é tal revolta, o revolvimento. Portanto, elas vêm à superfície e depois afundam e começam a fluir para sul. Viram ao contrário, é?
Viram ao contrário, exatamente. Até se chama capotamento. Há muitos termos em português. Faz-me lembrar aquele movimento que nós fazemos na piscina quando chegamos ao fundo da piscina, batemos na parede e voltamos. Exatamente. No sentido contrário. No fim é isso mesmo. O nadador, quando dá aquela reviravolta, no fim é um pouco isso. Essas águas afundam, são mais frias e circulam depois até à Antártida.
entram na corrente circumpolar Antártica e depois circulam pelo Pacífico, voltam à superfície, aquecendo e tornam a vir depois para alimentar, portanto é a tal correia de transmissão para vir alimentar outra vez a zona da corrente do Golfo.
Tudo isto é muito importante porque isto define o clima. No fim, o clima está muito ligado a estas correntes oceânicas. No caso da Amoque, que é aqui essencialmente na zona do Atlântico, a zona norte do Atlântico, porque é só no Atlântico que se formam águas profundas. Por causa da salinidade, no Pacífico a salinidade é menor do que o Atlântico, portanto aqui formam-se essencialmente as águas profundas. Qualquer alteração, se houver...
maior aquecimento da corrente do Golfo. Há uma tendência à corrente juntar-se mais às costas dos Estados Unidos. Há uma tendência a que as águas fiquem menos densas e que não afundem. E depois há outros fatores. O problema é que isto é muito difícil de prever, porque há muitos fatores que interferem. Outro fator que interfere é a entrada de água doce na zona do Ártico.
Portanto, aumenta as temperaturas, há de gelo dos glaciares, há um grande input de água doce. Água doce é menos densa. Há mais água doce a entrar no oceano. Ora, está. E água menos densa que se acumula na zona do Ártico e, portanto, não afunda. Quando não se afunda, começa-se a enfraquecer essa recirculação termoalina.
E isto provoca que começa a abrandar e, portanto, começa a haver menos distribuição de calor e, portanto, o clima altera-se todo. Porque depois há as trocas entre o oceano e a atmosfera, todas essas trocas de calor, etc., que provocam a pluvisidade, etc., as chuvas, que normalmente se chama chuva. Não é uma coisa que existe lá no oceano, longe de nós. Estamos a falar de todo um sistema.
Frágil até certo ponto, porque sofre muitas influências, como estava a explicar, mas que pode ter um impacto gigante naquilo que é o clima no planeta, ou pelo menos em algumas zonas do planeta. Portanto, vamos dizer que em último caso, que eu não acredito, eu não acredito que esta AMOC vá parar.
Os modelos têm muita incerteza. O que está a acontecer é que ela está... Vai parar e o quê? Vai colapsar? Colapsar, exatamente. Que é uma das hipóteses que os cientistas trabalham. Se ela colapsasse, o que acontecia é que queríamos ter uma nova era glaciar aqui na Europa. O que acontece é, é um bocado contra a natura, o aquecimento global...
poderia levar a um arrefecimento tal que havia um novo glaciar, uma era glaciar aqui na zona da Europa. Porque não havia, de facto, essa distribuição de calor. E, portanto, parava. Sim, mas o Miguel Santos não acredita que isso venha a acontecer. Não, não, não acredito. Há muitos estudos que mostram que estes modelos são modelos que têm muita incerteza. Temos de ter cuidado. Uma das coisas que é muito importante e que eu me bato fortemente por isso é muito importante.
é a questão das observações. A gente tem muito poucas observações no oceano e, portanto, os modelos têm muito pouca informação para assimilar e para poder prever isto. Precisávamos de mais dados, digamos assim, para ter previsões que fossem mais fiáveis.
Sim, e portanto as observações são muito importantes, mas as pessoas têm, ou os nossos políticos, ou os nossos cidadores têm pouca sensibilidade para isto, porque o que acontece é assim, as observações, as infraestruturas de observação não são puramente científicas.
São infraestruturas vitais, críticas, para se perceber as alterações climáticas, o clima, a variabilidade natural, mesmo natural, mesmo que não sejam alterações climáticas. Eu vou-lhe dar um exemplo. Nós temos agora um programa global no mundo que se chama o Programa Argo.
O programa Argo é um programa baseado em flutuadores, que são uns flutuadores autónomos, que são lançados ao mar, têm uma série, medem uma série de parâmetros, e o que eles fazem é, estão no mar durante cinco anos, autónomos, a transmitir de dez em dez dias, têm ciclos de dez em dez dias, os dados. Portanto, o que eles fazem é, quando ele é lançado, a primeira fase vão até aos mil metros, depois derivam com as correntes dos mil metros durante nove, dez dias.
e depois afundam para os 2 mil metros e vêm à superfície fazendo um perfil dos sensores que eles existirem. Essencialmente é sensores de temperatura e salidade, mas agora começam a haver também biogeoquímicos, como oxigênio dissolvido, pH, etc. Esse programa, no fim, pretende que o oceano global seja completamente amostrado.
Sinoticamente, portanto, em tempo real, haja um conjunto de 4 mil flutuadores que cobrem o oceano todo e que, no fim, observam o oceano. Porquê é que isso é importante? Porque os dados, por exemplo, os dados dos modelos atmosféricos, dos modelos da previsão do tempo...
necessitam, como o oceano é muito importante para o clima, necessitam desses dados, que até agora não existiam. Por isso é que cada vez mais nós temos boas previsões do tempo, porque temos cada vez mais dados no oceano. É isso que faz o EMSU também? Estes observatórios submarinos? Sim, o EMSU faz outra coisa. O EMSU são observatórios do mar profundo, portanto é mais observação do mar profundo.
E da coluna de água. Mas o que o Emso tem como finalidade, ou como objetivo principal, é criar grandes séries temporais. Sim. Em Portugal temos um observatório só, não é?
Neste momento temos um, e temos um nos Açores, mas é gerido pelos franceses, pelo IFREMER. Mas em Portugal, neste momento, temos o do Cabo de São Vicente, que é a margem ibérica, que é mantido por nós, com a colaboração do CCMAR e do Sintal e do IDEL. Por que é que nós escolhemos o Cabo de São Vicente? Por vários motivos.
Existe ali uma estrutura que é muito importante também para esta circulação termolina, que é a corrente do Mediterrâneo. A saída no Estreito de Gibraltar sai água do Mediterrâneo, que é uma água mais quente e mais salgada, e que vai se espalhar pelo Oceano Atlântico todo. Ora, alterações também de temperatura e salinidade no Mediterrâneo, portanto, de temperatura e evaporação no Mediterrâneo,
que é uma das coisas que também se está a observar é que essa água está a começar a ser mais salgada, ao sair para o oceano, para o oceano Atlântico, vai também alterar esta circulação termolina. Portanto, vai também ter alguma influência na AMOC. Por isso é muito importante nós termos este ponto, porque é um ponto de...
Essa água mediterrânea passa aqui na nossa costa. Deixa-me só fechar, Miguel Santos, essa questão da Amok. Na história da Terra, a Amok já mudou de estado. Portanto, já houve aqui variações. Nunca houve colapso. Daquilo que nós temos conhecimento hoje, não é? Pois, isso.
Isso é outra questão, porque nós tivemos, de facto, glaciações em tempos geológicos. Os glaciares, o gelo chegou aqui e à nossa costa. Provavelmente, pensa-se que a meio do nosso país. Era gelado, portanto, essa circulação não se dava.
Portanto, é o que sabemos nesta altura sobre isso. Sim, sim. Mas estava-me a dizer que, de uma forma geral, os governos, o poder político, ainda não olha para estes instrumentos de observação do oceano, das correntes oceânicas, como infraestruturas críticas, que são. É, exatamente. É isso, não é?
É isso que eu lhe vou explicar. Eu perdi-me um bocadinho, entusiasmei. A culpa foi minha também. Porquê? Porque o que acontece é que estas infraestruturas não podem viver do que se chama o dinheiro de projetos, de curto prazo.
Portanto, o dinheiro de projetos são de dois ou três anos. E nós, num período de três anos, não conseguimos depois manter as infraestruturas. A gente pode comprar os equipamentos. Ao fim de três anos, quando o projeto acaba, faltam o dinheiro para continuar a manter. Porque o problema é manter estas infraestruturas com longa duração. E, portanto, são infraestruturas que precisam não apenas de dinheiro de manutenção, mas, essencialmente, recursos humanos.
Sem recursos humanos não se consegue fazer nada. É uma das coisas que as pessoas têm que aprender. É que acham que mesmo os equipamentos automáticos vão dispensar as pessoas. Não dispensam as pessoas. Nós temos um caso, por exemplo, temos estações meteorológicas automáticas. Antigamente tínhamos observadores.
Mas o que acontece é que a estação automática precisa de manutenção. Alguém precisa depois lá ir. Ora, na altura, quando havia observadores, se havia algum problema na estação meteorológica, ia lá o observador. Agora, temos uma série de registrações. Sim. Imagino que seja sempre também necessário verificar se os dados que estão a ser divulgados e registados estão corretos, não é? Claro.
Mas isso aí, como eles vêm para... São transmitidos para nós, é possível à distância fazer. Fazer essa monitorização. Mas manter estas infraestruturas, precisamos de financiamentos a pelo menos 10 anos. E com financiamentos plurianuais que a gente saiba que pode montar uma infraestrutura e que a pode manter durante vários anos. Porque isto custa muito dinheiro.
e depois não se podem transformar em infantes brancos. O nosso mar é enorme, não é? O mar português. O nosso mar é mais do que a terra, não é? É enorme. Exatamente. Nós somos 98% mar, 2% terra. Bom, essa imagem deixa-nos muito clara qual é a nossa realidade. Em relação ao nosso mar, nós estamos muito atrasados, Miguel Santos, em relação àquilo que é a monitorização que já se faz noutros países, nomeadamente a Europa, porque é sempre mais fácil compararmos com...
Quem faz parte do mesmo espaço geográfico? Nós temos sempre o problema de sermos um país pequenino e de poucos recursos. Não somos um país pobre em relação a outros países, não é? Mas não temos os recursos dos franceses, dos alemães, etc.
E a Europa não está muito motivada para financiar este tipo de observações. Portanto, querem que os países é que financiem. Ora, isto é muito interessante se os países tivessem todos o mesmo poder financeiro, não é? Logo aí percebe-se que há países na Europa, não só nós, que têm algumas dificuldades de manter este sistema. Essa é a primeira questão.
A segunda questão é que nós estamos a tentar, foi criado o ano passado no IPMA, foi criado um núcleo, que é o Núcleo de Observação e Monitorização do Oceano, em que eu sou também o coordenador desse núcleo, e a visão é de que nós... Observar custa muito, precisa de muitos recursos humanos, e nós temos que tentar ao máximo arranjar outras alternativas.
que sejam menos custosas e com menos recursos humanos. E, portanto, é com sistemas autónomos. Nós estamos envolvidos num programa muito interessante, que é um programa que também é complementar do programa Argo. Portanto, ambos estes programas pertencem ao Programa Global de Observação do Oceano.
E são, portanto, coordenados por essa instituição das Nações Unidas. E o que nós vimos foi que vários países, Portugal é um deles, vimos que havia uma grande necessidade da zona costeira. Aliás, porque até é a zona onde vivem mais pessoas e, portanto, em que os impactos são maiores e, portanto, é preciso ter dados para fazer previsões de vários parâmetros e de vários impactos que ocorrem na zona costeira.
decidimos pensar no seguinte, se existem, vamos dizer, no mundo, milhões de embarcações de pesca que já estão a operar diariamente, por que não utilizar essas plataformas como plataformas de observação? As próprias embarcações de pesca?
De pesca. E então o que é que a gente criou? Criou uma rede global que se chama o Fishing Vessel Ocean Observing Network. Portanto, observações oceânicas a partir de embarcações de pesca. O que é que nós fazemos? Colocamos sensores nos aparelhos de pesca.
Temos um sistema que é completamente automático, portanto o sensor é colocado, vamos dizer, numa rede de pesca, a primeira vez, e depois os pescadores se utilizarem sem peça-rede, não precisam fazer mais nada. Quando lançam a rede...
o sensor faz um perfil de temperatura. Quando a recuperam, faz outro perfil de temperatura. E depois temos uma unidade de conves, completamente automática, que tem painéis solares, e que, quando o sensor vem para o conves, automaticamente descarrega os dados para essa unidade de conves, que automaticamente envia para a Terra, ou por satélite, ou por GSM, portanto, por telemóvel.
Se nós conseguirmos estender isto pelas costas mundiais, neste momento esse programa tem os Estados Unidos, tem Portugal, tem Itália, tem a Suécia, tem Nova Zelândia, tem o Japão, tem a Austrália.
Se nós conseguirmos estender isto para o mundo inteiro, nós vamos ter dados sem emissões suplementares de CO2, porque as embarcações já estão a pescar, portanto, a gente não vai lá de propósito. Portanto, já é outro dos benefícios disto. E que, portanto, vamos ter um conjunto de dados, se conseguirmos pôr isto em milhões, portanto, se a gente conseguir levar aquilo para uns custos efetivos, aceitáveis, conseguimos ter milhões de embarcações.
Interessante e muito engenhosa, parece-me, não é? De tentar dar a volta ao assunto e tentar conseguir esta monitorização mais permanente e com maior volume de dados que a ciência oceanográfica precisa nesta altura também para poder perceber melhor em que ponto é que o oceano está.
Já que estamos a falar de Portugal, eu tinha alguma curiosidade de perceber também, se o Miguel Santos me conseguir explicar, o que é o programa de monitorização e avaliação da rede de áreas marinhas protegidas nos Açores. Os Açores penso que será um polo também aqui importante de trabalho ao nível dos oceanos e do nosso mar. Este programa está a funcionar? Não está? O que é que ele faz? O que é que me pode explicar sobre isto?
Primeiro, nós temos em Portugal, como um todo, temos um programa de áreas marinhas protegidas oceânicas, em que inclui também os Açores. Ah, ok. Faz parte, portanto, de um programa maior. É. Apesar dos governos regionais terem também os seus programas, há um programa nacional.
Porque há uma meta, que se chama a meta dos 30-30, é conservar 30% até 2030 dos territórios nacionais. E, portanto, para Portugal, os 30% são essencialmente das áreas oceânicas e, portanto, essencialmente zonas dos montes submarinos da Madeira, do Madeira Tor, mas também, claro, dos Açores.
E com a extensão da plataforma nós temos uma série de montes submarinos que são, vamos dizer, eu não gosto de falar com jargões ingleses, no fim são pontos de biodiversidade, que mantêm grande biodiversidade e, portanto, esse programa é o que tem intenção. A gente já o começou em 2024, é um programa que é financiado pelo Fundo Azul com o apoio da Secretaria do Estado das Pescas e do Mar.
e que o ano passado, e há dois anos, fomos para a zona da Madeira, e este ano vamos para a zona dos Açores. Os Açores, entretanto, também têm, dentro da sua ZEE, têm uma rede de áreas marinas... Zona económica exclusiva. Exclusiva da Madeira, dos Açores.
têm um programa de criar áreas marinhas protegidas nessa zona toda. E estão bastante adiantados nesse aspecto. O que nós fizemos foi, para não haver duplicação de meios, por exemplo, este ano, os Açores vão ter uma embarcação que, em princípio, estará a chegar brevemente. E, portanto, eles irão fazer a parte dentro da ZEE deles e nós iremos fazer a parte fora da extensão da plataforma.
Zonas que são lá mais para a Crista Média Atlântica, é mais para o Norte, uma zona que se chama Marna. E, portanto, são zonas que Portugal quer ser o país costeiro que gere essas áreas. São áreas que já estão propostas para áreas marinhas protegidas pelo OSPAR, mas que Portugal...
quer ser o país costeiro que gera essas áreas. E, portanto, é um grande programa e esperemos que seja um programa de continuidade no futuro em que vamos manter essas observações, porque o problema é que para fazer áreas marinhas protegidas a gente tem que conhecer. Claro, tem que saber o que é que vai proteger. Tem que saber o que é que vai proteger e como é que vai proteger. E, portanto, tem que haver uma estratégia, tem que haver conhecimento.
E pelo menos há uma estratégia nacional e agora há muito boas relações com os Açores. Temos estado em conversações para juntar todos estes meios que existem para podermos porque o nosso mar precisamos de todos.
Exatamente, tanto, tanto, tanto Trabalhinho pela frente, Miguel Santos E tanto que teria para me contar Em poucas penadas Quase que chegámos ao final da nossa conversa Mas eu queria ainda passar Pelo relatório global sobre o estado do oceano Que é o terceiro relatório Que foi lançado internacionalmente Este ano, das Nações Unidas
Por aquilo que eu percebi, é a avaliação mais completa que foi feita até hoje, global, do oceano. As alterações físicas e químicas também, a biodiversidade, a poluição, o clima e até a forma como o mar, o oceano, é governado.
Este relatório, o que é que traz de novo? O que é que ele coloca em cima da mesa, nomeadamente para quem trabalha nestas áreas e usa como instrumento para criar mais conhecimento? É importante este relatório global? O que é que ele traz de novo?
O que estes relatórios trazem são sempre, com os dados existentes, com a melhor informação científica existente, é tentar fazer uma avaliação do estado do oceano. O que se prevê é que o oceano está muito mal tratado, não é? Portanto, há um aquecimento global, isso interfere com muitos fatores, interfere com a biodiversidade, há espécies que vão provavelmente ter problemas ou vão migrar para o norte, outras provavelmente desaparecer, extinguirem-se.
E depois é a questão de como é que se governam os oceanos. Porque o problema dos oceanos é que há uma grande parte que é internacional. Tem que haver um mecanismo que permita que não se vá para essas zonas destruir completamente o oceano. Temos problemas de poluição, como se percebe, os giros oceânicos estão a começar a ser ilhas de lixo marinho.
Isso coloca montes de problemas, espécies como as aves e as tartarugas, etc., que confundem, por exemplo, as tartarugas confundem os sacos de plástico com o principal alimento delas, que é as espécies gelinosas, em que o que a gente conhece mais é as alferrecas, que dão às vezes à praia, etc.
As medusas, esse é um dos principais alimentos das tartrugas. Elas, quando vêem um saco de paz, se confundem e, claro, morrem asfixiadas, etc. Portanto, outro problema é sobre pesca, essencialmente pesca industrial. Não é o nosso caso. No nosso caso, a gente somos essencialmente uma pesca artesanal.
Mas depois há aqueles grandes navios industriais que muitas vezes pescam mais do que necessitam. A gente provavelmente não precisa de tanto pescar, só que o problema é que também há uma sobrecapitalização. Quando há muitos recursos há um grande investimento, quando começam a cair os recursos, esse investimento continua lá e tem que ser.
Mantido, não é? Sim. E pronto, todas estas questões têm que ser muito bem vistas. E depois temos que ajudar também os países com menos capacidades. Por exemplo, nas observações, a parte do sul, o sul, o que se chama o sul global, são países que têm dificuldades em fazer observações, em manter-se estas infraestruturas.
De alguma maneira, tem que haver uma capacidade, construir uma capacidade nesses países para que eles mantenham também estes sistemas todos, porque senão não temos uma observação global do oceano, não é? Temos uma observação parcial do oceano. Exato. Tem que haver aqui uma espécie de solidariedade, não é? Claro. O senhor é oceanógrafo e eu gostava de perceber...
Qual é a grande questão, nesta altura, dos oceanógrafos? Qual é a pergunta que colocam e a mais difícil de responder, talvez? O que é que vos inquieta?
A oceanografia tem muitas questões, como é lógico, mas talvez a pergunta mais, pelo menos no meu caso, será como é que nós vamos conseguir observar o oceano todo, globalmente, e como é que nós podemos caminhar para prever as alterações ou a variabilidade que esse oceano vai ter e as consequências que vão ter no impacto no clima e na vida das pessoas, como é lógico.
Miguel Santos, foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada por ter vindo ao Tic Tac. Muito obrigado, Léo.