ep 490 - David Kato Mini Episódio
Conheça os detalhes da vida e ativismo de David Kato, uma das vozes mais importantes na luta contra LGBTfobia em Uganda.
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- Direitos LGBTQIA+Vida e ativismo de David Kato · Criminalização da homossexualidade em Uganda · Influência do colonialismo europeu e igrejas evangélicas · Luta por direitos LGBT na África do Sul pós-Apartheid · Grupo Sexual Minorities Uganda (SMUG) · Discurso na ONU e reações negativas · Publicação no jornal Rolling Stone e ameaças · Assassinato de David Kato · Investigação policial e alegações de desinformação · Condenação do assassino e motivações alegadas · Funeral de David Kato e hostilidade póstuma · Legislação anti-homossexualidade de 2023 em Uganda
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Olá pessoal, bem-vindos a mais um episódio de Minas Crimes. Eu sou a Bruna e este é um mini episódio. O recado que eu tenho antes de começar é só um grande agradecimento para todo mundo que ajudou fazendo um Pix, virando nosso apoiador.
Gente, por mínimo que seja o valor, já ajudou muito, muito, muito. Então, eu fiquei muito emocionada, muito feliz com todas as mensagens que vocês mandaram também. Estou aqui para dizer que o nosso caixinha foi reposto com a contribuição de vocês. Então, a gente vai conseguir continuar com o podcast, pelo menos mais alguns meses.
A situação já está quase resolvida e a gente vai atualizando vocês, mas sério mesmo, vou agradecer demais para sempre, todo mundo que ajudou. E a gente vai deixar essa via aberta, então, que eu sei que tem muita gente que não tem condições ou às vezes não quer ter esse compromisso de ser um apoiador direto todo mês. Então, a gente vai deixar o Pix para quem quiser, de vez em quando, fazer alguma contribuição para o podcast. Gente, brigadão, brigadão de verdade.
E em relação a esse episódio de hoje, é só um aviso de gatilho para a violência contra pessoas LGBT. Então, bora para o caso de hoje.
O David Kato Kisuli, ele nasceu em 1964 em Nakawala, que é um vilarejo bem pequenininho em Uganda. Ele tinha um irmão gêmeo e sempre gostou muito de estudar. E ele acabou dedicando a vida dele à educação. Ele completou o ensino médio no King's College Budo e ele se graduou na Universidade Pública Kiambogo. O David passou a trabalhar como professor em diversas escolas e aí foi nessa época, já adulto.
que ele finalmente se deu conta da sua própria orientação sexual como um homem gay. Então, para dar um contexto para vocês, ser uma pessoa LGBT em Uganda não é sofrer apenas um preconceito diário. É também muito perigoso, tem risco da pessoa morrer por ser LGBT. Assim...
Aqui no Brasil também, né? Mas lá realmente é muito extrema. E quando o Ganda ainda estava sob o controle do Império Britânico, foram inseridas novas leis criminalizando os atos homossexuais. E LGBT no geral, eles falam homossexual, mas eles englobam tudo nisso, tá? Então, desde a independência do país em 62, essas leis permaneceram. E nas últimas décadas, elas vêm ganhando ainda mais força social pela influência das igrejas evangélicas, principalmente dos Estados Unidos.
É uma realidade que a gente vê em muitos países africanos que, se você pega a história dos povos que são de lá, eles tinham culturas com pessoas LGBT, muitas etnias e muitos povos lá realmente aceitavam algumas línguas, até tem termos específicos para pessoas LGBT, mas não como modo de...
de preconceito, enfim, apenas como modo de identificação. E foi o colonialismo europeu que trouxe essa culpa cristã, né, de proibir a homossexualidade e transexualidade, enfim. Então, isso...
A gente pode pegar o exemplo de inúmeros países da África que sofrem com isso, né? E atualmente continua essa influência, né? Até hoje. Então o David, ele se assumiu como sexual apenas por irmão dele. E então ele foi pra Joanesburgo, na África do Sul, pra continuar o seu trabalho como professor.
A África do Sul, nessa época, estava no período logo depois que acabou a Apartheid. Então, tinham grupos sociais organizados pelos direitos de minorias, aproveitando toda essa discussão envolvendo direitos humanos para acabar com as leis que criminalizavam a homossexualidade no país, que também acontecia, né? Então, ali nos anos 90, logo depois do fim da Apartheid, foi essa onda, né?
de luta por direitos humanos, que acabou impulsionando também o direito das pessoas LGBT. E, por conta disso, a África do Sul atualmente é o único país do continente africano onde pessoas LGBT têm seus direitos garantidos. Então, o David, enquanto ele morou lá, ele se aproximou desses grupos que lutavam pelos direitos LGBT.
E ele sonhava que algo semelhante conseguisse ser organizado em Uganda. E aí ele voltou para sua terra natal em 98, e com muita coragem ele decidiu se assumir publicamente em uma conferência para imprensa local. E, gente, ele teve que ter muita coragem, porque apenas esse ato de se assumir publicamente, ele foi preso por ter feito isso, e ele ficou uma semana sob a custódia da polícia. O irmão dele teve que pagar a fiança dele para ele ser solto.
Durante os anos seguintes, o David então se envolveu completamente com o movimento LGBT em Uganda, que permanecia secreto, que as pessoas tinham muito medo das retaliações e perseguições. Ele se tornou um dos membros fundadores do grupo SMUG, que significa o Sexual Minorities Uganda. Isso em março de 2004. É um grupo que luta pelo direito das pessoas LGBT no país.
E ele se tornou uma das vozes mais proeminentes pelos direitos LGBT em Uganda e ele participava em inúmeros congressos e conferências de direitos humanos pela causa. Segundo os documentos vazados no Wikileaks, em novembro de 2009, o David foi convidado para uma conferência nas Nações Unidas sobre direitos humanos, onde ele deu um discurso sobre o direito de pessoas LGBT e a atmosfera anti-LGBT que existe em Uganda.
E aí membros da Comissão de Direitos Humanos de Uganda, que estavam presentes, fizeram piadas e riram abertamente durante o discurso dele. Também tinham boatos de que o David Bharati, que era um deputado e o principal defensor do que viria a ser o projeto de lei anti-homossexualidade de Uganda, ele teria ordenado ao Inspetor-Geral da Polícia a prisão.
do David Cato, o que teria levado ele e outros membros da SMUG que estavam presentes a deixar a conferência imediatamente após o término do seu discurso. Esse deputado, então, fez um discurso inflamado contra a homossexualidade nessa conferência, resultando em aplausos estrondosos e em Martin Sempa, que era um pastor evangélico muito proeminente de Uganda, batendo o punho na mesa em sinal de concordância.
Por volta de 2010, o trabalho como ativista pelos direitos LGBT se tornou tão central na vida do David que ele parou de trabalhar como professor para se dedicar apenas à causa. Ele ganhou intercâmbio de um ano na Universidade de York, no Reino Unido, no Centro de Direitos Humanos Aplicados, que é um centro que oferece bolsas de estudo para ativistas que estejam vulneráveis e ameaçados como forma de protegê-los dos perigos que eles enfrentam em seus países de origem.
O David, então, ele já sofria ameaças constantes por conta do trabalho dele como ativista, apenas por ser uma pessoa LGBT assumida, né? Mas tudo piorou em outubro de 2010, com a edição do jornal local chamado Rolling Stone, onde o nome e a foto dele e o de mais outras 100 pessoas foi publicado em um artigo que defendia a execução de pessoas homossexuais de Uganda.
A Caixa Nabadizeira e o Pepe Julio Onziema, que também eram membros do SMUG, foram alguns dos ativistas citados junto com o David. E eles entraram com um processo contra o jornal e conseguiram ganhar essa ação em 2010, levando ao fechamento do jornal. Além dos nomes e das fotos, essa publicação também divulgava endereços da casa e do trabalho dessas pessoas e elas...
eram acusadas de serem homossexuais e o título da chamada era, dizendo apenas, infórquios. Essas ameaças contra ele, então, aumentaram ainda mais depois dessa vitória na justiça, porque as pessoas, no geral, ficaram revoltadíssimas porque um jornal teve que fechar por ter incitado a execução pública de pessoas por serem LGBT.
Então, em 26 de janeiro de 2011, depois de uma ligação onde ele conversou com o Pepe Onziema, o David foi atacado em sua casa por volta das 14 horas. Um homem usando um martelo acertou ele duas vezes na cabeça e depois fugiu a pé. O David chegou a receber socorro, mas ele não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital.
Logo depois do crime, diversas ONGs e ativistas chamaram atenção para que as investigações fossem imparciais e precisas, além da proteção para outros ativistas gays que estavam sofrendo ameaças de morte. Porque todo mundo sabia o que a polícia e o governo de Uganda iam fazer, iam tentar deturpar e tirar ali a motivação do crime, que era óbvio.
porque ele foi morto por ser um homem gay, mas eles iam dar um jeito de distorcer isso. Mas aí o James Nzaba Buturo, que é o ministro do Estado para a Ética e Integridade de Uganda, declarou publicamente que, abre aspas, os homossexuais podem esquecer os direitos humanos. Fecha aspas.
Então, todo mundo percebeu que dali não viria uma investigação coerente. As primeiras declarações da polícia sobre o caso já colocavam a culpa em um grupo de ladrões que estavam agindo na região e já tinham feito mais de 10 vítimas fatais nos últimos dois meses. Depois disso, eles prenderam o motorista do David como suspeito.
disseram estar atrás de mais um suspeito. Em 2 de fevereiro de 2011, a polícia prendeu o Sidney Zubuga Enoch, que não demorou muito pra confessar o assassinato. E aí um porta-voz da polícia descreveu o Sidney como um ladrão conhecido e jardineiro local, mas afirmou sobre o suposto motivo do crime que, na verdade, abre aspas, não foi um roubo e não foi porque o David era um ativista. Foi uma desavença pessoal, mas não posso dizer mais do que isso.
Fecha aspas. Para os jornais locais, os informantes da polícia afirmaram que o Sidney tinha cometido crime porque o David não tinha pago a ele por seus serviços sexuais. Eles diriam até que o David já tinha pago uma fiança dele, quando ele tinha sido preso por roubo, e que por isso eles se conheciam antes e o David pagava a ele para fazer programas.
Gente, não existe prova nenhuma disso e todas as fontes afirmam que realmente é uma campanha de desinformação do governo para não admitir que uma pessoa foi morta por ser LGBT e ativista pelo direito das pessoas LGBT. Então, essa alegação também foi dada para o Parlamento Europeu, pelo embaixador Dalganda, na Bélgica.
E 11 de novembro de 2011, o Sidney foi condenado a 30 anos de prisão com trabalho pesado. E até fiquei surpresa que ele foi condenado, mas na verdade é porque o motivo para o crime que foi alegado no julgamento foi como sendo roubo. Então a polícia disse uma coisa para a imprensa, disse outra coisa para a justiça e no fim a gente sabe qual que é a verdade.
não bastasse essa violência que acabou com a vida do David nem em morte ele teve paz porque o funeral dele aconteceu em 28 de janeiro de 2011 em Nakauala, ativistas, amigos e familiares estavam presentes usando camisetas com a foto dele e a frase a luta continua nas costas e as cores do arco-íris na manga nas mangas da camiseta
E aí o pastor que era responsável pela cerimônia era da igreja anglicana, e durante o seu discurso ele começou a atacar os gays e as lésbicas que estavam presentes no funeral do David. Então as pessoas presentes correram até o púlpito, tiraram o microfone da mão dele, e esse pastor precisou se retirar depois disso.
Parabéns para essas pessoas que tiveram essa atitude. É inaceitável ter acontecido uma coisa dessas. E, além disso, os moradores locais se recusaram a enterrar o David no seu local de sepultamento. E aí, quem teve que assumir essa tarefa foram os amigos, colegas de trabalho. No lugar do pastor que deixou o local após suas falas absurdas, o bispo excomungado da igreja de Uganda, o Christopher Senyonio, ele oficiou no enterro do David na presença de amigos e da imprensa.
ONGs e figuras importantes da política e da mídia lamentaram o assassinato do David e deram depoimento sobre o seu importante trabalho como ativista pelos direitos LGBT em Uganda, cobrando o governo do país a tomar providências para que a perseguição contra essa parcela da população acabasse. Muitas homenagens foram feitas ao David, incluindo prêmios, incluindo escolas recebendo o nome dele. Tem inclusive um documentário também chamado Calmi Cuxo, Cuxo com K.
que é uma palavra em Swahili que foi apropriada, né, que era para se referir a pessoas gays e acabou, as pessoas gays acabaram se apropriando dessa palavra para se referir a si mesmas e conta um pouquinho da história do David aí nesse documentário também. E, bom, atualmente os ativistas LGBT e...
as pessoas LGBT num geral correm ainda mais risco em Uganda porque em 2023 foi aprovado o ato anti-homossexualidade que chega a condenar pessoas à morte pelo que eles consideram atos homossexuais. Eles, inclusive, colocam como se fosse equivalente a ser homossexual se a pessoa comete atos de pedofilia.
Então, para eles é a mesma coisa. Se você abusa de uma criança, você é condenado como se você fosse homossexual. Como se fosse a mesma coisa. Então, tem muitos ativistas de Uganda que estão em asilo político em outros países e tentando lutar para que essa realidade mude. Então, está aí em 2023, gente. Três anos atrás, passaram essa lei.
Muito triste isso, porque é muito triste fazendo esse roteiro, porque acho que o trabalho do David era muito incrível, tanto que quando ele foi assassinado, você tem declarações de muita gente falando sobre o trabalho, a importância do trabalho que ele fazia.
por lá, mas é isso se você tiver qualquer sugestão de caso manda pra gente no e-mail milcrimes.com pra nos ajudar a manter o podcast no ar como vocês estão ajudando, vocês podem continuar com o Pix, que é o nosso e-mail, tem também os apoios lá no nosso site, mas quem quer apoiar, eu sugiro esperar um pouquinho que logo a gente vai lançar outro tipo de apoio, que vai trazer novidades também pra vocês
E fiquem ligadinhos que assim que tiver no ar, a gente avisa no Instagram e também por aqui, beleza? Então é isso, gente. Beijinhos da semana que vem. Tchau, tchau.