Episódios de Papo Íntimo

Ele transformou commodity em marca — com István Wessel

26 de abril de 20261h19min
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No episódio do Papo Íntimo, Sandra Chayo recebe István Wessel, um dos maiores especialistas em carnes do Brasil e fundador da Wessel, empresa que carrega cinco gerações de história açougueira: da Hungria ao coração de São Paulo.

Nascido em Budapeste, numa família judaica de açougueiros, István viveu na pele o peso do século XX: o pai sobrevivente do Holocausto, a fuga do regime comunista, a travessia clandestina da fronteira húngara aos dez anos de idade com uma avó de 72 anos e um irmão de quatro meses no colo. O destino era a Austrália, mas um gesto de solidariedade de um tio mudou tudo, e o Brasil entrou na história dessa família para sempre.

Chegando em Santos em 1957, sem documentos e sem falar uma palavra de português, os Wessel encontraram no país uma acolhida que István nunca esqueceu. Em menos de um ano, o pai já tinha seu próprio açougue. Em três anos, tinham tapete, televisão e um carro zero.

Ao longo do papo, István revela como transformou um negócio familiar em uma marca pioneira, inventando o carpaccio embalado no Brasil em 1980, introduzindo a maturação de carnes ainda nos anos 70 e relançando o hambúrguer artesanal numa época em que todo mundo ainda queria a carne bem passada. Ele fala sobre 25 anos de rádio, o Prêmio Jabuti, a arte de responder reclamações pessoalmente há décadas, e por que destruir o próprio negócio a cada cinco anos é o segredo da longevidade.

Uma conversa sobre reinvenção, tradição, resiliência e a força de quem construiu muito a partir de quase nada.

Assista ao episódio completo e inspire-se na trajetória de István Wessel.

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Apresentação: Sandra Chayo

Convidado: István Wessel

Roteiro: Kamila Garcia

Supervisão: Fernanda Nagliati

O Papo Íntimo é produzido pela Trinta Dezessete.

Participantes neste episódio2
S

Sandra Chayo

HostApresentadora
I

István Wessel

ConvidadoEspecialista em carnes
Assuntos4
  • História da família WesselFuga do regime comunista · Sobrevivência do Holocausto · Acolhimento no Brasil
  • Inovações na gastronomiaCarpaccio no Brasil · Maturação de carnes · Hambúrguer artesanal
  • Tecnologia de RádioPrograma de rádio de gastronomia · Interação com ouvintes
  • Princípios de negóciosDestruir o próprio negócio · Atendimento ao cliente
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Um ano depois da nossa chegada, chegamos em 8 de fevereiro, isso aconteceu dia 15 de março, quer dizer, um ano depois, ele já estava com o seu açougue na bexiga. Lentamente foi trazendo os colegas dele da Vilex, porque lá nós estávamos perto dos jardins, que era o grande bairro de São Paulo. Sim, a Rua Augusta era o auge da Rua Augusta.

E é assim que ele começou com açougue. Sempre pensando em qualidade, qualidade, qualidade que a gente faz até o dia de hoje. Desde que nós chegamos aqui, tem uma coisa do meu pai muito interessante. Ele comprou esse açougue em uma semana e nós vimos assumir na segunda-feira. E no domingo, nós fomos lá fazer uma limpeza geral, meu pai, minha mãe e eu e tal.

E meu pai me levou para dar uma volta no bairro do Bixiga, né? E num raio de um quilômetro, tinha uns dez açougues. E eu falei para o meu pai, mas você vai abrir um açougue onde tem dez açougues? Eu falei, claro, dez açougues quer dizer que tem muito consumidor de carne, né? E é só a gente fazer melhor que os outros, que não vão ter sucesso.

Olá, eu sou a Sandra Chaio e esse é o Papo Íntimo. Aqui na intimidade da minha casa eu recebo pessoas de sucesso para contar suas trajetórias e mostrar que é possível. E quem sabe assim trazer insights que possam ajudar a transformar a sua própria história. Antes de apresentar o meu convidado, eu queria te fazer um pedido. Se você gosta desse canal, se inscreve, porque isso ajuda essas conversas a ganharem cada vez mais projeção.

Ele é nascido na Hungria, em uma família de judeus açougueiros, desembarcou no Brasil em 1957 e é hoje um dos principais especialistas em carnes do país. Foi um dos inventores do conceito de boutique de carnes no Brasil, muito antes da palavra gourmet virar moda. Autor premiado, vencedor do Prêmio Jabuti e presença ativa no Instagram, onde compartilha receitas e conhecimento acumulado ao longo de décadas.

Ele segue ensinando, inovando e formando novas gerações de apaixonados por comer bem. Aqui no Papo Íntimo a conversa é sobre uma trajetória que mistura tradição, visão e reinvenção. Seja muito bem-vindo à minha casa, Istvan Besson!

Muito obrigado, Sandra. Vou te falar a verdade. Eu já estava esperando por esse convite. Falei, um dia vai convidar. Ah, e ele aconteceu. É uma honra ter você aqui na minha casa. Eu sou vegetariana. E eu sou viciada nos teus vídeos e no programa que você tinha na rádio. Eu escutava, eu me lembro que às vezes eu estava chegando num lugar, ouvindo o programa no rádio, e eu esperava acabar a receita.

antes de entrar no meu compromisso, porque eu precisava ver, é todo um storytelling, um jeito que você envolve ao contar uma receita que cativa, mesmo eu não comendo carne. Você sabe que esse comentário eu ouvi de muitas pessoas, e o negócio do rádio, uma coisa que realmente é fantástica, é que a voz é um RG da gente.

Então, já tive um táxi no Rio de Janeiro, quando eu falei, olha, queria ir na rua tal, ele falou, o senhor é o Istvam Vess, se fosse um nominho fácil, ainda vá lá, né? Mas não é um nome fácil. E muitas vezes em restaurante, estou com a minha família e tal, tem uma pessoa na mesa de trás, e o cara vem falar comigo, porque identificou a voz. E realmente, depois de gastronomia, quando eu me... Bom, meu primeiro livro...

de carne, foi em 1982. Eu comecei a trabalhar em jornalismo gastronômico em 1985, quando ninguém nem sabia o que era gastronomia, achavam que era uma especialidade médica. E aí, isso, e muito menos homem. Naquela época tinha culinária, culinária era uma coisa da revista L, da revista Cláudia, a revista L tinha umas fichinhas de receita.

E homem entrar na cozinha era uma coisa ainda muito pouco conhecida. Era uma raridade. Eram as cozinheiras, donas de casa que cozinhavam. Verdade, olha que interessante. E aí você criou esse programa no rádio, que é uma coisa muito improvável, porque geralmente uma receita, você quer ver os ingredientes, a mistura, o jeito de preparo. E você conseguiu criar uma identidade muito forte no rádio e com culinária.

Eu fui bater na porta, literalmente, da Rádio Eldorado, que era a grande rádio na época, nos anos 90 e tal. A M, não sei, o pessoal mais jovem não sabe nem o que é isso. Mas eu bati na porta. Alguém me falou quem era o diretor da rádio.

E eu bati na porta do João Lara Mesquita e falei, olha, eu tenho uma ideia, que a gente fizesse um boletimzinho de gastronomia num programa na hora do almoço e tal. Falei, mas como vai fazer sem mostrar e tal? Falei, vamos fazer uma meia dúzia, depois a gente vê se valeu ou não valeu, o risco é zero.

E isso durou 25 anos. 25 anos apenas. E aí de lá foi para a Band News. Fui para a Band News em 2005, eu fiquei lá 16 anos, até 21. Eu comecei a te escutar na Band News e realmente era um vício. É isso, não é só a receita, é a história por trás. Eu sempre...

roubei um pouco do tempo, porque eu tinha três minutos, eu sempre conseguia mais um minutinho, para ter um pouco de... Não vou, é ingrediente, modo de preparo, tchau, até logo. Não é isso, entendeu? Então, eu ouvia a notícia que vinha antes, eu tentava ligar alguma coisa, entendeu? Isso fazia a entrada ser uma coisa mais fluida, entendeu? Não era uma coisa que, de repente, cortou o noticiário e entrou o cara com receita, não é isso.

E isso aí foi ficando tão natural que o meu quadro realmente foi muito popular durante o tempo. Tanto é que eu fiquei lá 16 anos. 16 anos, uma vida e uma história bonita que você construiu. E eu quero começar esse nosso papo falando, então, da tua história. Você nasceu na Hungria, numa família de açougueiros, quarta geração, é isso?

Eu sou a quarta. Meus filhos que tocam a empresa hoje são a quinta geração. Quinta geração já. E como é que você vê a influência do teu ofício hoje com a história da tua família? E como foi nascer na Hungria e sair de lá?

Olha, é uma longa resposta, mas se eu for te falar da influência do ofício, a nossa vida é o nosso ofício. Nós nunca fizemos outra coisa, nós nunca pensamos em fazer outra coisa. Meus filhos nunca foram obrigados a nada.

E a coisa foi acontecendo naturalmente, tanto comigo, quando eu tinha 20 anos, como com meu filho, com 18 anos. E minha filha é um pouco mais tarde. Então, ela cuida do marketing, ele é o CEO da empresa, e eu fico pautando um pouco na vida dos dois aí. Já passou bastante mesmo.

Passei, né? O bastão eu já passei. Mas eu ainda tenho muito a contribuir com a empresa, eu acredito. Com certeza. No mínimo com minha cadernetinha de endereço, sabe? Sim, e com a receita... Então a nossa profissão sempre foi com meu pai...

A cozinha lá em casa foi uma coisa dos homens também. Meu pai, na Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro preso, foi para trabalhos forçados. Nos primeiros meses da guerra, em 1939, ele já foi para a cama de trabalhos forçados. E, quando juntaram todos aqueles prisioneiros, perguntaram quem é que sabe cozinhar.

Meu pai levantou a mão. Ele nunca tinha cozinhado. Levantou a mão porque meu pai era muito rápido de raciocínio. Ele falou, se eu tiver na cozinha, eu não vou passar fome e não vou passar frio. Porque essas tropas foram para a Rússia, onde morreu muita gente apenas de frio. Não foi por bala de revólver.

Só esclarecer uma coisa, ele era judeu? Ele era judeu. A sua família é judia? Família judia. Perseguidos no holocausto, então são sobreviventes do holocausto. São sobreviventes do holocausto. Meu pai, ele foi, levantou a mão, ele sabia fazer embutidos. Então ele tinha uma noção do que é fazer um tempero, que também é um grande tempero, não precisava ir lá no campo de trabalho esforçado. Mas enfim, ele tinha a noção. Mas ele levantou a mão e falou, não, aqui eu vou ter comida e vou estar perto do calor. Ele acertou na mosca.

Ele não passou fome e não passou frio. Até que esse campo de trabalhos forçados, com a Hungria se aliando aos alemães, ao nazismo, ele foi mandado para o campo de concentração. E no campo de concentração, aí não teve choro nem vera. Ele teve que passar por todo o período de campo, sobreviveu, ele foi libertado pelos americanos.

E tem uma coisa interessante da personalidade do meu pai. Quando o campo foi liberado, chegaram aqueles jovens americanos, foram dando chocolate para as pessoas. E cigarro, que era um item, né? Foram dando chocolate para as pessoas. E meu pai pegou aquele... Ele estava precisando de 48 quilos. Quando ele foi para o campo, pesava 84. Nossa, metade. Tinha 1,77m, 8m de altura.

Quantos anos ele tinha? 39, 23 anos. Ele foi para o campo com 23. Era um cara forte e tal, uma das razões por ele ter sobrevivido. Ele emagreceu de 84 para 48. Quando os americanos deram chocolate na mão dele, ele contou essa história muitas vezes, e ele, apesar de sobrevivente, ele não guardava mago, rancor, ele levou de uma maneira leve com o passar do tempo.

Ele pegou o chocolate, quebrou um pedacinho e comou um pedaço de chocolate. Imagina a fome que ele estava, magrelo, né? E dali a 15 minutos, quebrou um chocolate e comou. E a pouco tempo atrás, eu conversando com um húngaro também, sobrevivendo ao holocausto, falou que o meu pai contou a essa pessoa.

meu pai foi libertado, os americanos vieram com chocolate, ele morrendo de fome, comeu a barra inteira de chocolate, morreu de congestão no dia que foi libertado. Eu já vi muito essa história. Então, meu pai teve essa coisa, essa presença de espírito, sabe? Sim, sabedoria. E falou, não, não posso fazer isso. Olha.

Então, cuidar da saúde é uma coisa que também passou por toda a nossa história da família. Eu sou muito cuidadoso com saúde. Sabe, meu pai, ele falou não, não posso fazer isso. E o cara, esse pai, desse Francisco Montano, que eu conheci do meu, ele falou, meu pai foi lá comer chocolate e morreu lá mesmo. Vem ver se é possível. Infelizmente, eu já ouvi muito essa história. Não só com chocolate, mas com comida mesmo. Você tá...

anos sem comer e de repente você tem uma carga calórica. Não, você não está preparado para receber aquilo. Não está preparado, o organismo não está preparado. Olha só. Então ele sobreviveu a essa tragédia? Sobreviveu. Ele tinha uma... Bom, quando terminou a guerra, ele montou um açougue. É o que ele sabia fazer, né? No mercado municipal de Budapeste. Não sei se você já teve em Budapeste.

Mas se não teve, vale a pena visitar o mercado. Todo mercado é lindo. Esse mercado é realmente muito bonito. Ele tem uma banca de açougue lá. Os pais dele e irmão sobreviveram também? Os pais já tinham falecido antes da guerra e o irmão dele também sobreviveu. Aí ele tem uma banca de açougue no mercado, que lá na cidade dele, em Tata, eles tinham o açougue, tinha a parte de embutidos e frios, forneciam para o conde da cidade.

tinha carro com motorista para levar meu pai para o colégio. Não, era um negócio bacana lá. Ele começou a ganhar dinheiro, porque ele sabe, ele conhecia o negócio. Em 41, ele casou com minha mãe logo depois da guerra. Naquela época, os casamentos eram feitos assim no Vapit Vupit, porque...

Perdeu família daqui, perdeu família de lá, todo mundo queria ter uma casa, eles casaram em seis semanas, ficaram 60 anos casados. E a banca começou a evoluir, começou a ir bem e tal, até que chegou o comunismo. Quer dizer, o comunismo já estava lá, mas até que o comunismo se organizou, levou uns dois, três anos. Então, lá para 1948,

Minha mãe falou para o meu pai, o negócio está fechando o cerco da cortina de ferro, vamos embora daqui. Minha mãe, que era a bola propulsou, meu pai era conservador, minha mãe era mais atirada. E meu pai falou, você está louco, nós temos um filho de um ano, que era eu. E acabaram não saindo. E rapidamente a cortina de ferro fechou, tomaram o açougue do meu pai, ele virou o açougueiro de um açougue do governo e ficou naquela...

E quando chegou em 1956, teve a Revolução na Hungria, foi a primeira dos países, a Primavera de Praga foi 12 anos depois, primeiro dos países que quis se libertar do comunismo. E, naturalmente, foram derrotados, porque veio a Rússia, como o Brasil invadiu o Uruguai, sabe? Então, a proporção é parecida.

Quando teve a Revolução, em muito pouco tempo, a Revolução foi no final 23 de outubro de 1956. Nós fugimos dia 8 de dezembro, quer dizer, um mês e meio depois. Tem que ser ligeiro para tomar a decisão. E minha mãe falou, vamos embora daqui, que tem uma oportunidade, tem fronteira desguarnecida, vamos embora daqui. Aí meu pai falou, você está louca? Nós temos um filho de quatro meses, que era o meu irmão. Ela falou, desculpe, agora nós vamos.

Empacotaram, minha avó tinha 72, que equivale a 90 de hoje, não é, imagina? Na época verdade. 72 e foram embora. Montaram, meu pai organizou lá, teve um cara que vendia o transporte e a informação, que aí rapidamente se organiza esses negócios de fuga mediante pagamento. Porque é o Brasil.

É uma outra história dentro da história. Meu pai, chegamos na Áustria, em Viena, e meu pai falou que não ia ficar mais na Europa. Minha mãe falou que não ia ficar mais um país frio, porque minha mãe trabalhou de caixa numa mercearia do governo que não tinha porta. Ela ficava de costas, como tudo, o check-out é na porta. E lá na Hungria faz fácil de 8 a 15 negativos no inverno.

E ela pegou a pneumonia várias vezes, jovem, né? Minha mãe é de... Sim, mas recebendo aquele gelo nas costas. É, aquele gelo nas costas, não tem.

E aí minha mãe em Viena falou para o meu pai, e eu não quero mais país frio, porque a parte da nossa família foi para o Canadá. Eu falei, no Canadá eu não vou. Como nós não tínhamos dinheiro, não tínhamos documentos, não tínhamos passaporte, era muito fácil, em qualquer lugar do mundo, mas nós tínhamos a ajuda de uma entidade judaica. E também os Estados Unidos tinham um serviço chamado United States Escape Service, é um serviço de refugiados. A comunidade judaica ofereceu e eu quero mais.

para todos passagem para onde quisessem. Os americanos ofereceram hospedagem em Viena, vale-restaurante, vale-refeição, médicos.

a comunidade ainda ofereceu um ano de aluguel, primeiro ano meio por conta dessa entidade judaica, que hoje não é muito ativa, mas é... Qual que era? H-I-A-S. É Huber International Aid Service. E aí, bom, vamos para a Austrália, porque na Austrália nós temos um monte de parentes, minha mãe tinha muitos parentes na Austrália.

País quente, longe da Europa, está tudo certo. Aí eles foram para meu pai e meu tio, nós saímos juntos, fugimos juntos, foram para a embaixada australiana. Meu pai entrou primeiro, preparou todos os trâmites e tal, e terminou, falou, tudo bem, o senhor está admitido e tal, e o próximo da filha era o irmão dele. Falei, desculpe, nós só temos 500 vagas, o senhor é o número 500.

Falei, mas meu pai, meu irmão é o único parente que eu tenho, não sei o quê. E para o oficial da embaixada? Não tinha... Estava nem aí para isso. E o pai falou, então também não quero.

oferece o meu lugar para alguém. E saiu da fila e chegaram no meio da rua e enviando, onde é que nós vamos? Aí meu tio falou, minha mulher, que é minha esposa dele, falou, eu tenho uns parentes no Brasil. Ele falou, beleza, vamos para o Embaixado Brasileiro. Chegaram lá, não tinha cota, não tinha nada, todo mundo bem-vindo. E aí nós chegamos em Santos. Chegaram em Santos e o país acolhão.

Super. Sempre que eu tenho oportunidade para falar disso, eu nunca esqueço que o Brasil é o único lugar do mundo que eu conheço onde o estrangeiro é tratado como local. Qualquer outro lugar, da Argentina para os Estados Unidos, para a Europa, o estrangeiro é estrangeiro.

Um amigo meu morou, até morrer na Covid, 40 anos em Miami. Foi para lá muito bem de vida. Nunca fez um amigo americano. Só venezuelano, colombiano, brasileiro.

Brasileiro é muito acolhedor. Muito acolhedor. Acho que porque todos são descendentes de imigrantes. De algum. Acho que é isso. E aí foram acolhidos, chegou em Santos, veio para São Paulo. Você tinha 10 anos, é isso? 10. Como nós não tínhamos documento, porque refugiado não tem documento. Aliás, na Hungria, na época do comunismo, ninguém tinha passaporte. Passaporte era um patrimônio.

Por isso que até hoje, olha o meu passaporte húngaro, meu passaporte brasileiro, visto americano e tal, quando falta um ano para vencer, já começa a me mexer, porque não posso ficar sem passaporte. Aqui descemos do navio, mas não podia encontrar esses poucos parentes que minha tia tinha, porque nós éramos apátridas e não dava para sair. Então, nós embarcaram direto do navio para o trem, que era a Santos Jundiaí, que era um trem que tinha que subir e sair com cremaleira.

E eles passaram pela janela do trem, uma travessa de sanduíches, achavam que a gente estava com fome. E meu pai teve o primeiro encontro com a maneira brasileira de receber.

O sanduíche, ele olhou aquele pão francês de presunto e queijo, presunto e queijo sobrando para fora do pão, isso não, guria, não existe, corta um pedaço menor que o pão e você vai comer a pão. Ele falou, nossa, mas esse país é incrível, né? Os caras fazem um sanduíche de presunto e queijo com essa quantidade de ingrediente, né? E aí nós viemos para São Paulo de trem, fomos dormir a primeira noite na hospedeira do imigrante, que virou o Museu da Imigração hoje, né?

e lá no dia seguinte vieram jovens médicos para examinar, onde nós recebemos o nosso documento de estrangeiro, naquela época chama de modelo 19, era uma carteira de trabalho. E aí no dia seguinte nós pudemos ser tirados de lá pelos nossos parentes.

Eu tenho, até já fotografia, está em livro, a lista dos hóspedes da hospedaria do imigrante e toda a descrição, idade, religião, e para quem retirou e para onde ia. Então está lá, nós fomos nessa casa, esses parentes da minha tia, e aí no dia seguinte tem que procurar trabalho.

E aí, como é que foi abrir o primeiro açougue? Você tinha 10 anos, né? Eu tinha 10 anos. Meu pai tinha a sorte de ter profissão, porque todo mundo que era artesão, seja marcineiro, alfaiate, açougueiro, padeiro, ele tem uma profissão que pode exercer a partir do dia seguinte. Engenheiro já é um pouquinho mais difícil, advogado esquece, médico tem que revalidar diploma, não pode exercer nada e tal. Nem enfermeiro lhe pode ser.

E aí, meu pai trabalhou num açougue, alguém conhecia alguém, e aí deu outro açougue, foi para outro açougue e tal, até que alguém levou meu pai para a Vilexa. A Vilexa era a Santa Luzia daquela época. Santa Luzia era uma fração do que é hoje, na esquina da Augusto com Oscar Freire, e um meio quarteirão para baixo, na Rua Augusto, tinha a Vilexa. Era a grande loja de produtos bacanas, importados.

Meu pai foi trabalhar lá, ganhando sempre salário mínimo. Ele ganhava um presente no fim da semana, que era uma lata de goiabada, era assim, o grande... O auge. Foi um... E meu pai viu nesse açougue, atendendo uma clientela classe A de São Paulo,

Como é que é o relacionamento com o consumidor? Totalmente diferente da Europa. Primeiro, na Europa, ninguém compra um quilo de carne. Isso não existe. Se compra 300 gramas, 200, que é caro. E a maneira europeia, até hoje, a Europa não desperdiça nada. E meu pai viu lá o seguinte, que a pessoa pedia, sei lá, um quilo de alcatra, o açougueiro do lado dele, outro balconista, cortava, dava um quilo e trezentos.

E o consumidor falou, não, tudo bem, tudo bem, o que quer dizer isso? Porque lá, se você cortou a mais, tem que tirar, problema é seu, nem cogita a pergunta, você não pode ficar com um pouco a mais aí? Eu falei, poxa, mas essa é a clientela que eu gosto, entendeu? E aí ele se movimentou, ficou acho que uns...

Poucos meses lá, se movimentou e, de novo, uma cooperativa de crédito do Bom Retiro também fez um empréstimo para ele, para ele comprar o primeiro açougue. Então, um ano depois da nossa chegada, chegamos em 8 de fevereiro, isso aconteceu dia 15 de março, quer dizer, um ano depois, ele já estava com o seu açougue no bexiga. Legal.

lentamente foi trazendo os colegas dele da Vilex, porque lá estávamos perto dos Jardins, que era o grande bairro de São Paulo. A Rua Augusta era o auge da Rua Augusta. E é assim que ele começou com o açougue. Sempre pensando em qualidade, qualidade, qualidade, que a gente faz até o dia de hoje.

E aí, com 18, 19 anos, você começou a se interessar? É, não, a vida é desde que nós chegamos aqui. Tem uma coisa do meu pai muito interessante. Ele comprou esse açougue em uma semana e nós viemos assumir na segunda-feira. E no domingo, nós fomos lá fazer uma limpeza geral, meu pai, minha mãe e eu e tal.

E meu pai me levou para dar uma volta no bairro do Bixiga, né? E num raio de um quilômetro, tinha uns dez açougues. E eu falei para o meu pai, mas você vai abrir um açougue onde tem dez açougues? Ele falou, claro. Dez açougues quer dizer que tem muito consumidor de carne, né? E é só a gente fazer melhor que os outros, que não vão ter sucesso.

E ele teve um sucesso realmente muito, muito rápido. Para você ter uma ideia, nós chegamos em 1957 aqui, sem nada, com a mão na frente e o outro atrás, com o passivo de ter um filho de seis meses, um filho de dez anos, uma sogra de 72. Três anos depois, ele tinha um carro zero. Olha, que legal.

Mas, primeiro, antes de comprar carro, ele comprou geladeira para o açougue. Ele sabia de onde vinha isso. Investindo no próprio negócio. Mas, em três anos, ele já estava. Se você ver foto dessa época, até no meu livro, eu estou sentado no braço de uma poltrona com meu pai sentado.

Você vê pelo cenário que é uma casa organizada, tem tapete, tem planta, tem televisão, quer dizer, isso em três anos. O que não gria em três anos foi para baixo, no Brasil em três anos foi para cima. E você estudava onde? Eu primeiro, quando chegamos, foi alugada uma casa, que ficavam as duas famílias na casa, na 23 de maio, perto do Obelisco.

E até o Túnel Ayrton sem existir, a casa ficou lá, sei lá, 40 anos, pelo menos. E era uma avenida larga como é hoje, só que era um mato no meio e duas ruas de terra, uma de cada lado. O pessoal falava, isso aqui vai ser uma avenida dessa largura que vai do aeroporto de Congonhas até o Angabaú. A gente fala, impossível, né? Como, né?

E, por sorte, você sabe que, como diz o amigo meu, um pouco de sorte não faz mal para ninguém, né? Duas casas à nossa direita, tinha uma professora do primário, morava lá. E ela me levou pela mão para o grupo escolar Rodrigues Alves, na Paulista, em frente do Hospital Santa Catarina. Está lá hoje, é um prédio tombado e tal. E eu não falava nenhuma palavra em português. É, por isso que eu pergunto, em três anos teu pai construiu um açougue? Não, não, em um ano eu estava atendendo gente no açougue. Então.

E nem falava língua. Com aquilo que dava, com as palavras... Não tinha uma noção de português. Não, não tinha nada. Imagina, o húngaro era uma língua que... Muito difícil. O Chico Buarque até o diabo respeita. Então, eu aprendi indo para a escola, ouvindo e tal. E criança, 10 anos, você aprende muito rápido. E eu fui com ela para... Eu estava na Hungria no quarto ano, ela era professora de segundo ano. Ótimo, vamos voltar um pouquinho para trás. Não mudou nada a minha vida, obviamente.

E eu ia com ela para a escola e tinha aula de religião naquela época. Então eu e mais um saímos da classe, não éramos obrigados a assistir, a religião católica, né? Mas era uma escola boa naquela época, uma escola pública. A melhor escola de São Paulo era o Caetano de Campos, na Praça da República, que era uma escola pública. E aí...

Aprendi o português e depois, quando eu fui fazer o ginásio, eu estudei aqui no Colégio Rio Branco. E foi isso. Aqui, ele está falando, porque é aqui do lado. É, aqui do lado. Legal. E você teve alguma educação judaica em casa? Muito pouco. Eu aprendi mais fora de casa que em casa.

Quem segurava a educação judaica era a minha mãe e a mãe dela, a minha avó que vivia conosco. Meu pai, possivelmente, em função do que ele passou na guerra, ele jamais deixou de ser judeu, jamais deixou de contribuir, de fazer tudo o que ele tem que fazer. Entrando na sinagoga, ele não quis entrar mais.

Ele levava minha mãe na sinagoga, nas festas, e ia buscar a saída. Nós nunca questionamos isso, porque não tínhamos o direito de questionar. Não podemos julgar os traumas. E tem muitos casos.

E minha mãe que ia segurando, aí depois eu com... Aí eu fui ser nadador na hebraica e tal, e aí eu comecei a conviver com meus amigos da colônia e tal, e o que eu aprendi, eu fiquei, sei lá, é tona sípia.

400 anos, já fui voluntário 10 anos lá. Então, minha educação judaica acabou sendo muito mais por conta própria. Minha mãe e minha avó deram a base. Mas os princípios judaicos acho que sempre permeiam. Os princípios você não precisa nem falar, ele vem pelo sangue, não precisa explicar. Os princípios judaicos é uma coisa que já vem instalado de fábrica.

Me dá um exemplo de um princípio judaico que você aplica até hoje. Veja, teve o caso da minha filha, que é um caso bem icônico. Ela estava voltando da Baía de Ônibus há uns 30 anos atrás.

E numa das paradas do ônibus, não tinha celular, não tinha nada, ela pegou o orelhão lá e ligou. Pai, imagina, estou com dois casais de jovens de Israel aqui que acabaram o exército, estão fazendo um tour pela América Latina e tal. Primeira reação, eles vêm para São Paulo, vem, traz eles em casa. E esses dois casais de jovens durminam na minha casa há três dias ou quatro dias. E viram a família. Isso é uma coisa que não precisa explicar.

Não precisa explicar, viram a família há três dias, depois você nunca mais vai ver. Nunca mais eu soube desses caras.

porque eles têm esse algo em comum. A única coisa curiosa dessa visita é que minha mulher tinha ido, então isso foi depois de 1995, minha mulher tinha ido em 1995 passar três meses em Israel com minha filha menor para fazer um trabalho que ela precisava fazer com o professor que tinha lá. E, em um dos fins de semana, ela foi para Petra.

E foi de ônibus para Jordânia e foi para a Petra. E aí ela contou para esses dois casais que ela tinha ido para a Petra. Ela falou, deixa eu ver o teu passaporte. O carimbo era dessa menina. Olha! O carimbo. Gente, que mundo pequeno. Desculpe. Eles passaram por essa menina.

Que carimbou o passaporte, liberou o acesso e tal. Estou arrepiada. E veio para a nossa casa poucos anos depois. Gente, que história incrível. Então essas coisas são as coisas que não dá para explicar, só dá para sentir.

Só dá para sentir. Que bonita essa história. Nossa, muito tocante. Até perdi o fio da meada aqui. Muito boa. Mas aí, então, a gente estava falando da tua entrada no negócio da família. Teu pai te colocou para trabalhar, limpar o açougue. Eu comecei a aprender. Desde que não tenha como a gente não saber. E aí...

Aos 20 anos, comecei a trabalhar direto com meu pai, eu tinha feito colegial, não fiz faculdade, depois, ao longo da minha vida, fiz vários cursos por aí, desde a GV até em Nova Iorque, até em Cornell. Mas eu entrei no negócio e...

Um ano e pouco depois que eu entrei, apareceu uma parente daquela nossa tia que nos fez vir ao Brasil, que morava no Uruguai, e que mexia com o comércio internacional. Eram três irmãs que nasceram comerciantes. Eu vendia, comprava.

E ela falou que ela tinha casado com um holandês que envia o vôo, que comprava carne no Uruguai e que tinha um frigorífico em Roterdã, na Holanda. E perguntou se eu tenho vontade de ir lá conhecer. Ele gosta muito de ensinar jovens. Eu falei para já. Um mês e pouco depois que ela veio aqui no Brasil visitar a família, eu fui para a Holanda.

E na Holanda, fiquei na casa dele, foi um cara maravilhoso. Ele já tinha idade, ele tinha 52, eu tinha 22. Então já tinha idade, tinha 30 anos a mais que eu. Holandês que jantava em casa de gravata, ele afrouxava a gravata quando saía da mesa, ia na outra sala, tomava um vinho do Porto e fumava um charuto. Super formal.

E brasileiro, na época, você imagina, a gente jogava casca de banana pela janela do carro. Quem fumava jogava toco de cigarro para fora. Foi um choque grande. Mas é uma pessoa muito importante da minha vida. Ele me ensinou muita coisa, tanto da profissão como do comportamento. E eu trabalhei no frigorífico dele, aprendi um monte de coisa lá.

Um monte de coisa que a gente passou a... Meu pai sempre apostou em mim. Então eu vinha com uma ideia que parecia ser meio inexequível e tal. Falou, mas vamos fazer. Me identifico, viu? Meu pai era assim também. Sempre apostou. E você é assim com os teus filhos?

Sim, muito, muito. Olha, bater na madeira aqui, onde tiver madeira, por perto. Eu nunca tive uma discussão com meus filhos. Meu filho trabalha comigo há 32 anos, eu acho. Nunca, nunca, jamais. Às vezes eu começo uma frase e ele completa. Minha filha cuida do marketing, ela tem muito... Eu tenho uma personalidade que tem o lado...

de comunicação, óbvio, fiquei 25 anos no rádio, é porque tem esse lado, escrevi para tudo quanto é revista, jornal, escrevi nos primeiros cinco anos do Valor Econômico, tinha uma coluna mensal no Valor Econômico, no caderno EOE, sobre crônica, ligada à gastronomia, ou enfim, viagem, nos anos, não sei mais, tanto tempo, nos anos 80.

Nós criamos uma personagem que chama-se Susana Davis. Nós fizemos a biografia dela. Ela era uma mulher, que por acaso tinha a minha idade, mais ou menos, e que viajava e tinha experiências gastronômicas que ela contava a newsletter que a gente mandava para os consumidores. E quem escrevia essa personagem era eu. Então, essa parte de comunicação ficou muito com minha filha.

Então, as nossas embalagens são lindas e a mão dela está em tudo que é bonito na empresa. E meu filho, eu passei para ele, eu e meu pai, que meu pai conviveu com meu filho trabalhando cinco anos, ficamos três gerações juntos. Que privilégio. Privilégio. E o Daniel aprendeu muito com meu pai.

sobre essa rapidez que o comércio demanda. Não dá para ficar, vou estudar, não, tem que resolver agora. Então, consegui transmitir de uma certa maneira para os dois. Eu tenho uma terceira filha, Marina, que não trabalha conosco, mas consegui transmitir para esses dois de uma maneira até involuntária. Sandra, involuntária.

O exemplo, sempre falo para o meu filho, o exemplo é um negócio que você dá até dormindo. Verdade. Dormindo você dá exemplo. Acordando você faz exemplo. Verdade. Sabe? Então, eu acabei passando para eles dois um pouco do meu ser e a gente se dá mega bem.

Que legal. E a tua filha mais nova, tem outra profissão? Minha filha mais nova, ela não trabalha, ela teve lá umas complicações, a razão pela qual ela foi tratar lá em Israel. Mas ela vai bem, mas perdeu o timing de trabalhar, sabe? Perdeu o timing. Mas tudo bem, a vida é assim, né?

Olha só, gente, que história interessante, né? É muito interessante como imigrantes que chegam no Brasil e a contribuição que trazem, né? Com essa divergência cultural é sempre muito rica, né? Porque a gente traz histórias de situações de vida tão diferentes e acaba virando que o Brasil é uma salada de frutas, né?

E você sempre comunicando todas as histórias através do programa de rádio, através dos seus livros. Você teve um livro que foi premiado, não é? É, eu ganhei Jabuti com um livro que lancei em 98, já faz quase 30 anos. Foi o primeiro livro sobre carne, bonitão. É um coffee table book, é uma coisa para ficar na sala, entendeu?

E ganhei Jabuti com ele, para minha surpresa. Eu nunca fui escritor, nunca pretendi ser escritor, nunca vivi de vender livro, mas ganhei o Jabuti. E esse livro teve acho que uns oito, nove edições consecutivas. Foi muito legal. E eu fiz outros. No total, acho que já fiz uns oito livros, entre sozinho ou fazendo pedaços de livro dos outros.

Que legal. Bom, e a tua filha hoje que cuida dessa parte de comunicação e marketing, mas eu pelo menos enxergo que você tem uma contribuição cultural para difundir a gastronomia no Brasil muito importante, muito relevante.

para a cultura brasileira, mas também para o seu próprio negócio. Hoje a gente fala muito de C-level creator, no meu caso, eu tenho uma empresa e eu produzo conteúdo pela internet, mas você fez isso lá atrás, quando nem existia internet. E eu vejo que isso, hoje você tem um negócio com 300 funcionários, 400 toneladas de...

De carne. O negócio é grande, você briga com gigantes. Só com gigantes, não gosto de concorrer pequeno. É isso. E com um diferencial que é todo esse aporte cultural que você traz para a sua marca.

Olha, Sandra, não fui eu que inventei isso, mas nunca antes de repetir, os animais que se perpetuaram ao longo dos milênios não eram os mais fortes, eram os que melhor se adaptaram. E acho que nós, como empresários,

temos esses animais que se adaptam. Eu tenho algumas frases na empresa, que é o seguinte. Nós, a cada cinco anos, fechamos a empresa, mantém o CNPJ e a marca, e repensa tudo.

Destruir o seu próprio negócio. Porque se eu estivesse fazendo hoje, o que a gente fazia há 10 anos, não 30, não 40, há 10 nós tínhamos fechado já. Porque você concorrer com essa turma aí precisa ter conteúdo, não é? É isso mesmo. Se você cai numa zona de conforto, você não sobrevive. Você não passa dos primeiros três anos. Não existe. Então nós vamos completar 70 daqui a pouco. E eu tenho algumas coisas onde uso minha... Não.

meu veio de comunicação. Por exemplo, tem uma coisa lá na Vessel, nós trabalhamos com produto alimentício. O produto alimentício depende de nós, do nosso cliente, e o cliente do nosso cliente. No momento que eu vendo para um supermercado, eu coloquei uma frase nas embalagens há muito tempo, que diz assim, nosso único conservante é o frio. Até para comprometer o supermercado. Sim. Não temos conservante. Os outros têm uma lista de conservantes. Nós não temos.

Então, depende muito da conservação do varejo, depende muito da habilidade do cliente na casa dele preparar. E todo o saque da empresa, só eu que respondo. Não existe ninguém na empresa autorizado a responder saque. Olha que legal. E isso há décadas. E eu acabei desenvolvendo em função disso.

uma lógica para responder saque. O primeiro ensinamento de saque. Não importa o que você vai falar, fale rápido. Sabe, se alguém está reclamando, eu procuro responder no mesmo período, no máximo no mesmo dia. Jamais eu deixo um consumidor nosso dormir com a insatisfação, que de manhã ele acorda com a insatisfação mais inflada. É verdade. Eu desmonto isso.

E tem, faz parte do negócio. Eu também sou o saque da minha empresa, da minha marca, porque, como eu estou nas redes sociais, as pessoas têm algum problema à entrega, mesmo que o problema seja do correio, a pessoa vai reclamar para mim. Então, a gente tem que dar resposta rápido e não fazer pouco caso do nosso cliente. Não, não existe, porque no dia seguinte, não é uma semana, pois é a morte, mas no dia seguinte a pessoa fala, é?

Eu sou uma empresa grande, eu sou apenas uma consumidora. O negócio começa a tomar um vulto, que em vez de eu liquidar o assunto de um minuto, que no momento é o que eu demoro para resolver, vou ter que gastar uns cinco minutos conversando com a pessoa. Mas eu desmonto a reclamação com atitude. Nós temos lá na empresa um logo que nós copiamos da CIA que diz caráter e atitude.

Os nossos colaboradores, se não tiver caráter e atitude, tem que ser os dois. Não dá. Então, atitude, para mim, é o determinante para o sucesso.

E você que é empresário e está assistindo a gente, isso é muito legal que você faz, que você mesmo atende, porque não te traz insights para o seu próprio negócio? Nossa, mas em cada história... Ainda semana passada, uma cliente do Rio de Janeiro, e às vezes o cliente, na hora da reclamação, carrega um pouco na tinta. Mas eu faço de conta que não é comigo, entendeu?

e uma cliente do Rio de Janeiro, a gente distribui no Rio de Janeiro e também tem Econ no Rio de Janeiro. No caso, ela comprou no varejo no Rio de Janeiro, onde o frio é pior, por causa do calor que é pior, entendeu? E aí...

Eu falei, olha, o que aconteceu na sua casa? Mandou foto do Carpátio, que estava escuro, não sei o quê. Então, falei, olha, isso aí é perfeitamente normal quando perde frio. Não na sua casa, mas no ponto de venda. Então, vou fazer o seguinte, primeira coisa, joga fora. Não precisa mostrar nota fiscal. Você tem duas opções, ou te reembolso, ou te entrega um outro na sua casa. Óbvio, a pessoa prefere receber.

E normalmente eu aproveito esse momento de receber e mandar o produto que ela reclamou e mais dois produtos para ela conhecer. Transforma ela em fã. Viramos assim, best friends. Inclusive chegou isso aqui, adorei. Teve um cliente uma vez, ele mandou o endereço dele, era Rua Rio Grande 650. Rio Grande é na Vila Mariana essa rua.

E eu falei, cara, preciso contar uma história. Nós chegamos no Brasil, o primeiro emprego do meu pai foi na Rua Rio Grande 600, provavelmente lá da sua casa. Ele falou, pois é, é um prédio aqui, foi naquela época, era um frigorífico na rua. Enfim, daí para frente, o motivo da reclamação virou absolutamente irrelevante. E foi uma história verdadeira, não é que eu inventei alguma coisa.

Sim, aí a gente se conecta com as pessoas, não tem jeito. Além dessa inovação de você ser o comunicador da sua própria marca, do seu próprio negócio, você trouxe várias outras inovações para o setor. O próprio Carpaccio, que você estava falando agora, que mais? Eu trabalhei na Holanda e lá havia maturação de carne.

Nós estamos falando de 1969. Toda a carne era dura. A única carne macia era o filé amignon. Toda a carne. E o filé amignon é apenas 1% do boi. Então, é 99% de carne dura e 1% de carne macia. Aproveitamento, é. E lá na Holanda, eles faziam a maturação. A maturação é um método natural de amaciamento de carne. Não precisa fazer nada. A carne precisa estar...

muito fresca e precisa estar em um ambiente muito higiênico. Embala no vácuo, espera três semanas, ele vai amaciar com as enzimas da própria carne. Não é o vácuo que amacia, não é o zero grau da dema. E aí nós começamos a vender carne macia, quando todo mundo vendia carne dura. E durante cinco anos eu fiquei quieto, não contei nada para ninguém.

porque fiquei com medo de ser mal interpretado quando, naquela época, nos açougues tinha uma placa carne fresca diariamente. Eu não podia colocar carne velha todo dia. E nós ficamos... Até que um dia alguém... Fiz uma entrevista para um jornal, então acabei revelando isso. Tem uma história dentro dessa história que é o seguinte. Eu tinha um grande amigo, infelizmente falecido, já que era o Júlio Ribeiro. Foi um grande publicitário.

E ele, quando me conheceu, meu filho Daniel tinha acabado de nascer, eu conheci ele e resolvi fazer um curso de cinema quando meu filho nasceu, meu primeiro filho. E minha mulher torceu um pouco o nariz, é verdade. Mas eu falei, não, nossos filhos vão crescer, eu quero ter uma filmadora para registrar e tal. E meu colega de bancada no curso era o Júlio Ribeiro. E ficamos amigos, foi amor à primeira vista. Eles ficaram muito nossos amigos durante décadas. E viajamos juntos e tal.

E logo no começo da nossa amizade, isso foi em 1975, nós estamos há 18 anos no Brasil. Quer dizer, não é que nós estamos há 18 anos. Muito recente, é. E ele falou, cara, o que você vai deixar para os meus filhos de herança é uma marca. Não é um caminhão congelador e não sei o quê.

Eu te confesso, André, que eu não entendi muito bem o que ele queria dizer com isso, porque marca naquela época era geladeira, sabonete, automóvel, roupa. Isso era uma marca. Uma marca de carne. Não tinha, tinha filé mesmo, contra filé, alcalde, colchão.

Aí eu comecei a entender com ele o que ele quis dizer com isso. Ele falou, não, eu vou te apresentar um assessor de imprensa para você poder contar um pouco da sua história, não sei o que. Bom, eu tive assessor de imprensa durante 35 anos, todos os meses, não é por lançamento, não é por nada. E o assessor de imprensa...

muito tempo, uma assessora de imprensa, ela me instigava muito a criar coisa, porque ela consegue vender, entre aspas, para o veículo de imprensa, naquela época era jornal e revista, né?

quando tem alguma novidade. No primeiro mês, ela vende. Tem um cara de olhos azuis que corta a carne. Boba, carinho no segundo mês. Então, eu tenho um combinado com ela. O nome dela é Micaela. A Micaela, quando ela conseguia uma grande matéria, uma capa da Veja São Paulo, que nós fomos, uma matéria importante no Estadão, no Globo, no Rio.

Eu ia comemorar esse feito almoçando no Hotel Cadoro com ela. O Cadoro era o hotel mais bacana, a gastronomia mais refinada de São Paulo. Eu tinha os fazendas, mas o Cadoro era o grande lugar de gastronomia italiana repintada.

E eu vim no cardápio, eu sempre tive esse hábito até hoje, quando eu olho para o cardápio, tem alguma coisa que eu não conheço, eu já peço. Ah, essa eu não conheço, não. Eu não conheço, eu vou experimentar. Isso eu já comi até a buchada de bode. Não vou te dizer que eu gostei, mas eu experimentei. Tinha carpaccio.

Eu falei, como é que vocês fazem? A gente corta o filé mignon, bate e tempera com tempero. Ela falou, você tem que fazer esse produto para vender na loja. Eu falei, mas isso aí é complicado. A parte técnica é com você. Eu tenho certeza que isso é um produto importante para você.

porque Brasil, calor, coisa magra, proteína, naquela época não tinha muita proteína, mas hoje tem, nossas embalagens já trazem hoje o percentual de proteína. Aí eu falei, mas não sei como é que vou fazer, aí eu pensei, que carne que eu vou usar, como é que vou fazer, aí enrolei num plástico para ficar redondinho, pendurei no congelador, não podia encostar uma peça na outra, não manchar.

Para encurtar a história, fiz o Carpaccio. E mandei um bilhete para ela junto com o primeiro pacote, que eu nunca contei para a minha mulher, acho que ela vai ficar sabendo. Falei, Mica, nosso filho nasceu. E realmente, isso foi em 1980, faz 40 e tantos anos.

Meu pai falou, você está louco? Todo mundo estava comendo carne bem passada naquela época, você quer vender carne crua? Eu falei, é, mas qual é o risco? Essa é a minha pergunta quando a gente vai entrar em um projeto novo. Qual é o risco? Não, eu preciso montar uma fábrica de milhões de reais. É um risco grande. Não, eu preciso pegar a mesma máquina que eu tenho e usar de uma maneira diferente.

Então, vamos. Aí o pai falou, você tem razão, não tem risco nenhum. Bom, hoje... Virou um fenômeno. Virou um hit assim. Virou sinônimo de coisa cortada fininha. Então tem que acabar de abacaxi, de polvo, de linguado. Entendeu? Então, em 69, trouxe a maturação. Em 80, lancei o carpaccio. Tentei lançar o steak tartar. Três vezes foi um fracasso.

Porque eu queria aproveitar as pontas da carne para picar na faca e vender. Porque não tinha nenhum restaurante que servia steak tartar. Então a pessoa não sabia o que era. Eu lancei, fiz jantar para o jornalista, fiz tudo o que tinha que fazer. Não pegou. Não pegou. E aí, quando os bistrôs começaram todos a terem steak tartar no cardápio,

Aí eu lancei de novo e aí foi para frente. Mas demorou, viu? Mas o carpaccio, os tectartares, são vários exemplos. Comida também tem moda, né? Sim, muito. Agora estamos na moda do pistache, tudo é de pistache, né? É, por isso eu parei de consumir, inclusive, porque é muito pistache para mim, sabe? Tudo tem, receita de carne com pistache. Enquanto ficar no sorvete, tá bom, mas...

Mas tem muito de moda. Mas acho que você que lançou essa moda na comida, né? É, a gente foi, por exemplo, em 1995, eu sempre gostei de hambúrguer. Mas não do hambúrguer que se fazia. Eu ia no Joaquim, no New Dog, na rua Joaquim Frenton. Então, lá até hoje, lotado. Só aumentou dez vezes cada um, né?

E naquela época, se você pedia um hambúrguer e vinha rosado no meio, a pessoa devolvia. Ela está crua. Está mal passado. Hoje, se você serve um hambúrguer bem passado, ela fala, não, quero outro, não quero. Então, essa moda vai andando, né? Aí fui lançar o hambúrguer que eu vi. Eu ia em Nova York no gachão do PJ Clarks, que tinha um hambúrguer. É um bar maravilhoso, né? E tinha um hambúrguer que eu adorava.

Um dia eu falei com o garçom, eu escutava, posso entrar na cozinha, ver como é que ele faz esse negócio? E quando eu fui fazer, ele não fazia nada, ele moia a carne, moldava e fazia. Antigamente tinha uma coisa que se falava, precisa dar liga, não tem liga nenhuma. A proteína, a própria carne se liga na carne do lado por causa da proteína quando esquenta. Aí eu resolvi lançar o hambúrguer. Todo mundo fazia hambúrguer de 56 gramas misturado com soja, com diabo, a quatro.

E eu resolvi lançar um hambúrguer de fraldinha de 180 gramas. Que é o tal do hambúrguer artesanal, é isso? E também foi um fracasso. É mesmo? Eu acho que a resiliência faz parte do nosso negócio também. Só não erra quem não faz. Mas também quando você não faz, também não acerta.

E se você não inova, se você não sai da zona de conforto que a gente está falando, você não vai construir nada relevante. Aí eu precisava, não tinha conservante, levamos numa rede de importância para o mercado e tal.

E os caras adoraram, a embalagem estava linda, adoraram. Coloquei nas lojas e começou a estragar, porque não tinha frio, não tinha conservante. Eu falava para o gerente do Pão de Açúcar, eu falei, escuta, por que a nossa estraga e os outros não estragam?

Lê a embalagem, porque você tem 500 conservantes, isso aqui não tem nada. E o frio era uma coisa muito mais ou menos naquela época. Então nós tiramos do mercado. Mas nós tínhamos nessa época já corners, vessos nos supermercados. E minha mulher é que fazia a visita nas lojas, ver se estava tudo em ordem.

E um dia, em 2000, ela falou para mim, escuta, podíamos relançar aquele hambúrguer que deu errado em 1995, porque nós temos freezers nossos no supermercado, temos vendedor, que naquela época, quem comprava e não estava estragado, ele falava, mas não tem gosto de nada. Puderam, não tinha tempero. Todos anteriores não tinham tempero.

Então ela falou, nós temos vendedores que podem explicar, nós temos freezers bons, vamos relançar. E eu falei, vamos relançar. Isso foi em 2000, faz só 25 anos, não é tanto tempo assim. E hoje 80% do nosso negócio é hambúrguer, 75%.

Transformou o negócio. Minha mulher é que deu a cutucada. Então, realmente, transformou e mudou muito. Que demais. Sabe, eu estava pensando aqui, você tem uma empresa bem longeva, vai ser 70 anos, eu também tenho uma empresa de 60 anos, eu sou a segunda geração.

E eu vejo muitas similaridades. Você falou que teu amigo Júlio te explicou da importância de você construir marca. E eu enxergo exatamente isso. Se a roupa fosse uma fábrica de calcinha de sutiã, com certeza não ia estar aqui até hoje. Construir marca para você gerar valor.

trazer inovações para o mercado, se arriscar. Tem projetos que vão dar certo, tem outros que não vão. Outros não vão dar certo num momento, mas vão dar certo em outro. Às vezes a gente antecipa muito uma tendência e o mercado não está pronto para isso. Mas são vários fatores que fazem uma marca e um negócio longevo.

Acho que o principal é o que a gente estava conversando lá no início. São princípios, valores e também essa resiliência e essa vontade de fazer dar certo. Você enxerga assim também? É. Barriga no balcão. Trabalho duro. Um dia eu estava ouvindo entrevista de um do...

um dos três lá da Ambev, e falaram, escuta, mas como é que faz para gerir uma companhia do tamanho da Ambev? É igual a padaria. O dono fica no caixa. Então, barriga no balcão. Barriga no balcão, quer dizer, você sentir... Eu vim para cá hoje. Eu fui comer alguma coisa aqui no shopping de Higienópolis. Óbvio que eu passei no supermercado que tem lá embaixo para olhar os nossos produtos e os produtos que...

da concorrência. É impossível passar na frente do supermercado e passar batida. Eu viajo para qualquer lugar do mundo, eu entro em uma loja local para ver como é o que eu já rio. E muitas vezes, sempre fotografo o que eu vejo e tal, e muitas vezes a gente vê uma ideia de uma marca ou de um produto que não tem nada a ver com o nosso, mas uma ideia, essa ideia que eu gostei. E o cara vendia o quê? Vendia a salsinha desidratada, sei lá.

É da embalagem. Eu estive agora na Espanha, há um mês e pouco atrás, e é interessante que lá na Europa em geral, não se vende coisa congelada como aqui nos Estados Unidos. Carpaccio lá é vendido resfriado.

Com o shelf, nós temos um problema que é o shelf life, né? O tempo de prateleira, você não tem roupa, mas tem também porque muda a moda, o tempo de prateleira é perecido de outro jeito. O shelf life é perecido de outra maneira. E o pessoal faz carpaccio, hambúrguer, tudo resfriado.

O que é um problema, porque exige toda uma cadeia de frio e de uma cadeia logística que não pode perder um dia. Cada dia que perde é um pedacinho daquele shelf life que vai para o lixo. Eu estava aqui comentando que eu fiz uns cursos em Cornel, na escola de hotelaria, e uma frase na escola de hotelaria que tem dois produtos mais perecíveis que peixe. Assento de avião e quarto de hotel. Assento de avião que você não vendeu?

até duas horas dentro do embarque, vai para o lixo. Quarto de hotel que você não vendeu, não alugou até às 18 horas, vai para o lixo. Peixe, você ainda pode vender no dia seguinte. Verdade. Quarto de hotel não pode. Então, todo esse negócio da cadência, da lógica, da logística, da velocidade, é fundamental para esse negócio existir. É muito importante isso, não é?

quem é empreendedor vai se conectar com alguma coisa que a gente está falando. Eu também sempre pesco em outros setores. Eu trouxe algumas inovações para a Roupia, nossa entrada no varejo mesmo. A Roupia era uma fábrica da indústria, migar para o varejo. Entrei no sistema de franquias.

Mesmo de tendência de moda, eu trouxe cores para uma peça que fica escondida por baixo da roupa, que ninguém está vendo. Eu vi uma tendência acontecendo nos esmaltes das mulheres, nas unhas, que só usavam esmalte transparentinho, branquinho, as mais ousadas usavam vermelho, e aí, de repente, começou uma febre de esmalte azul, roxo, preto, amarelo e pink. Aí eu falava, poxa, mas por que a lingerie?

precisa ser bege, precisa ser neutra, vamos usar em cores. E aí trouxe informação de moda para uma peça que fica escondida e fez toda a diferença. Não só para a minha marca, mas para o setor. Quando a gente traz inovação, é isso. Podia ficar tudo encalhado, podia não ter dado certo. Num primeiro momento demorou para pegar, até a consumidora entender. Mas se a gente não faz, se a gente não se arrisca, se a gente não tem esse olhar para o mundo de comportamento humano...

E não tem medo de errar, não é, Sandra? Não pode ter medo de errar. Tem que ter coragem, é verdade. Você falou de uma coisa que vocês fazem, que é uma outra mentalidade diferente, que é ser franqueador. Muitas vezes eu vejo, nós temos muitos clientes que são franquias, e muitos clientes que eram franquias já fecharam.

Porque o cara acha que é porque ele tem uma hamburgueria muito consagrada que ele pode começar a vender franquia por aí. Agora, ser franqueador é uma outra profissão. Verdade. É servir. É um outro mindset. Você tem que se importar mais com o negócio do teu franqueado do teu próprio.

Porque se ele não estiver feliz, ele não vai ficar feliz. Então, eu vejo isso em cliente nosso, acabo dando uma certa consultoria aí. Quando alguém vem falar para mim, fala, cara, outro dia, ontem, fui almoçar em um lugar. Meu filho e eu, a gente foi lá na Rua Pinheiros, perto do escritório. O dono me apresentou um sujeito, falou, não, ele vai ser nosso franqueado. Eles até então não tinham franquia. Tinham dois restaurantes em Pinheiros, um em Trancoso e tal.

E ele falou, ah, eu falei, onde é que você vai abrir o teu restaurante? Ele falou, não, eu vou abrir na cobertura do Shopping Morumbi, tem uma área nova, eu falei, pô, legal, nós vamos abrir 20 restaurantes. Eu sentei para almoçar com o meu filho e falei, Dani, esse cara vai dar com os burros na água. A minha tese é a seguinte, abre um.

Faz dar certo. Aí vai devagarinho, abre o segundo. Porque na hora que você abre o segundo, muda toda a perspectiva. Abre o segundo. O cara falou, vou abrir 20. Eu falei, eu já ouvi essa história. Eu já ouvi essa história.

Já vimos. Todo mundo já viu. Uns anos atrás, tinha uma dupla de cantores chetaneiros que resolveu abrir açougue. Bacana, não sei o quê. E saiu na exame. Eu tinha esse exame até há pouco tempo guardado. Sempre cuidei muito de clipping por conta da assessoria de imprensa. Antigamente era recortado do jornal e revista. Eu guardei esse recorte. Hoje eu não sei onde é que está. Quer dizer que iam abrir 50 lojas e...

em pouco tempo, não sei o quê. Falei, meu filho, vamos esperar eles abrir duas, depois três. O negócio desapareceu já. E depois dupla sertaneja, ganham dinheiro a um cantando. Não começa... Não, imagina eu cantando. Não ia dar certo. Não, e é de uma realidade diferente. Imaginei para trás de um balcão ficar atendendo operação. Sandra, o ego é o nosso grande inimigo.

Eu sempre falo lá em casa, quando alguém começar a te elogiar, no momento de se acreditar nisso, você está frito. Verdade. Não acredita em elogio. Porque as pessoas ficam embebecidas com elogio. Verdade. Nós temos cliente que tem hamburgueria, se de repente foi abrir um hamburguerinho em Belém do Pará. Falei, cara, mas você está louco? Quem vai fiscalizar essa loja? Quem vai supervisionar? O produto é perecível? Ah, porque o cara não tem cara.

Pega um círculo pequeno em volta de São Paulo e comece a franquear aqui. E é um problema isso. Por quê? Porque alguém falou, poxa, você, nossa, Sandra, você além de ser uma mulher linda, inteligente, tem um negócio fantástico, eu quero ser seu franqueado, me dá o Nordeste. Calma, vamos... Eu sempre falo, vamos namorar, depois a gente casa, entendeu? É isso, eu sempre comparo franquia com casamento. Exatamente, dá para fazer uma analogia.

Perfeito. Tem a fase do namoro, que é importante pra gente se conhecer, pra ver se dá liga. Tem a fase do casamento, o contrato assinado, tem a lua de mel, tudo tá lindo, e depois tem o dia a dia.

E aqui nasce o primeiro filho e começa o casamento. Também. Quando tem o primeiro problema, que vão acontecer, sempre vão acontecer problemas, então é isso, a gente tem que ir devagar. A gente acredita muito nisso também. Hoje a gente podia estar muito maior do que a gente está, mas a gente gosta de crescer pensando no longo prazo, sustentavelmente. Eu acho que isso, essa...

Esse compromisso com ser comedido, com ser cauteloso, é um compromisso muito importante. Não quer dizer não ser ousado, mas antes de fazer alguma coisa... Analise o risco. O jogador de xadrez, outro dia teve um filme que foi lançado de uma jogadora húngara, foi um documentário, Rainha do Xadrez, fantástico. O jogador de xadrez joga 10 jogadas para frente na cabeça dele.

Ah, eu vi, com uma menina, né? É, uma menina. Nossa, é fantástico. Fantástica a história. E eu vi umas cenas lá que só eu vi, que foram as cenas da Hungria na época do comunismo, onde a mãe falou que... Mas por que os xadrez e tal? Porque é barato.

Você compra um tabuleiro, 24 peças, aliás, 32 peças, e você tem um, porque é barato. Aí, quando ela começou a não frequentar a escola, a polícia foi na casa dela, não sei se você lembra dessa cena. Foi a polícia e fizeram vasculhar na casa dele. Esse cara deve ser um subversivo, que não pôs as filhas na escola.

Então, aí eu vi umas cenas que só eu vi. Você se conectou assim, você viveu. Mas é isso, sabe? Você tem que enxergar jogadas para frente. Eu não consigo antever dez jogadas, mas, sei lá, duas, três, quatro, é bom você antever. Se acontecer isso, faz aquilo. Se ele fizer isso, faz aquilo. Então, começa... É isso aí.

Uma pergunta que é uma curiosidade minha. Você já chegou a fazer carne caché, né? Não. Nunca fez? Não. Nunca fiz carne caché. É muito nicho, né? É um nicho e é muito pequeno. Mas já fizemos carne halal. Ah, sim. Interessante. Hambúrguer, na verdade. Sim. Exportamos para o Oriente Médio e tal. Mas a carne caché mudou muito. Hoje tem uma qualidade muito melhor do que no passado. Tem um...

uma sinagoga que é o Rabá das Vilas, lá na Vila Nova Conceição. Eu frequentei há um tempo lá, que minha mãe morava na Vila Nova, e era muito conveniente da casa dela, deu as três quadras. Um dia o rabino falou para mim, se você não quer fazer um churrasco aqui num domingo, venha a comunidade e tal, eu falei, com prazer.

Falei, mas precisa ser caché. Falei, isso é óbvio. Ele falou, eu compro a carne. Falei, você não compra a carne, você vai comigo pagar a conta. Quem vai comprar a carne sou eu. Aí nós fomos comprar a carne, então, obviamente, escolhi as peças corretas e cortei do jeito certo. Porque carne tem isso também, né? Roupa é diferente, você não vai colocar nenhuma camisa, do contrário, botou a camisa por trás. Não, mas o jeito de cortar faz toda a diferença, sim. Aí...

Eu fiz a carne e tal, e as crianças dele eram pequenininhas, o menininho, o filho dele, que acho que fez, vai fazer barmíndio só por agora, né? Toquinho, ficou lado, lado, eu cortando e ele comendo, cortando e comendo. E ele falou para o pai dele, papai, essa carne é caché? Porque estava tão bom que não tem toquinho. Não acreditava que era caché. Mas hoje melhorou muito também, não só a carne no Brasil melhorou, com a carne caché também.

melhorou muito, veio muita coisa da Argentina, então tem outro, mas nós mesmos nunca... Nunca fizeram, é que é um nicho muito pequeno. Eu acho ele muito pequeno, e eu teria que ter uma parte da fábrica totalmente isolada. Dedicada para isso, é. E vocês exportam? Você falou que exportavam o hambúrguer halal, vocês exportam bastante? Não, exportam um pouco, o nosso grande mercado é o Brasil. Coloco no Brasil. É.

Gente, que legal. E você está super envolvido ainda, você passou o bastão então para os seus filhos, mas você vai três vezes por semana até a fábrica? Não, eu vou na fábrica duas vezes e três vezes no escritório em São Paulo. Eu trabalho todos os dias. Eu fiz um horário um pouco mais flexível. Eu vou trabalhar umas nove e meia e fico até umas seis da tarde. Isso é flexível. Isso ainda é trabalho duro. É, mas...

Eu vejo nossos principais colaboradores, gerente, diretor, na hora de uma estratégia, eles vêm conversar muito comigo. O que o senhor acha? E o que eu acho é o resultado de tudo que eu já ouvi na minha vida. Não é que eu acho porque eu caí de uma... Tudo que eu já ouvi falar. É a experiência.

Recentemente, a gente viu na imprensa uma grande rede de supermercado, era uma situação muito difícil. Aí veio o nosso diretor financeiro. O diretor financeiro tem a cabeça em finanças. Eu tenho a cabeça na empresa. Finanças é um departamento. Ele falou, o que é o horário da gente ir diminuindo os pedidos deles? Eu falei, de maneira nenhuma.

Mas e se vocês entrarem em RJ? Nós vamos perder um dinheirão. Mas como é que o senhor... Falei, cara, nós fornecemos ele há 30 anos. Quantos desses dinheirões que nós temos de exposição mensal, bimensal, que eles pagam em 60 dias, quantos desse dinheiro nós já ganhamos em 30 anos?

Muitos. Pois é, se eles tiverem um problema, nós vamos perder o último pedaço deles. Mas você não vai diminuir o volume, você não vai agredir tirando... Eu falei, não, acho que parar de fornecer... Você está maluco? Uma hora que eles se arrumarem, eles vão me colocar no final do final da fila. Entendeu? Falei, de jeito nenhum, continua. Não faz projeto novo. Não vamos fazer um projeto de carne, não sei o quê. Não, não faz projeto novo. Mas o que tem linha...

Continua fornecendo. E se eles quebrar, não vão quebrar, porque é muito grande para quebrar. Mas se eles entrarem em RJ, nós vamos perder o dinheiro. Nós já ganhamos 50 vezes esse dinheiro com eles em 30 anos. Então, assim é a vida. Acho que tem muito a ver com os princípios. Então, esse é um papel que eu tenho. De ouvir outras histórias. Amigo meu que já teve...

também entrou em grandes, no caso foi falência de uma rede de eletrodoméstico, e eles perderam naquela época, uns 15 anos atrás, uns 5 milhões de reais, que variam uns 15 de hoje. E ele me contou que ele chegou para a diretoria, uma empresa grande no ramo de eletroeletrônica, e falou, pessoal, o assunto está encerrado, vamos partir para vender o que nós paramos de vender aqui e acabou.

Aí um dia ele abre uma porta numa sala de reunião e entra, os caras estão falando do tal do cliente que deu o cano. Ele falou, gente, vocês não entenderam. Esse assunto está encerrado. Nós já ganhamos muito, muito, muito mais do que esse dinheiro que nós estamos perdendo agora. Então, foca...

no sucesso de outros negócios. Acabou. Então, essas experiências que você junta durante décadas, décadas, décadas, você acaba tendo um estoque dentro da sua cabeça que acaba encaixando em várias situações no dia a dia. Sim. Demais. É uma visão muito 360, né? Porque, é como você falou, o financeiro vai olhar só aquilo, né? Tem que olhar o todo. O que eu falo? Não vamos parar de medir. Você está louco? Vamos, então, diminuir o pedido? Eu falo, não.

Ele não sabe o que é um espaço num supermercado. Como foi difícil conquistar. A dureza de você começar com um espaço assim, hoje tem um espaço assim. Verdade. Isso aí não pode brincar. Mas isso financeiro não tem essa sensibilidade. Ele pensa no dinheiro que vai perder.

Que conversa inspiradora. Eu mesma tirei vários insights. Eu espero que quem esteja assistindo, a gente também tenha tirado esses insights maravilhosos, essas ideias, princípios de vida mesmo. E tem uma pergunta que eu faço no final para todos os meus convidados, que é para você contar quem é o Istvan na intimidade. Mas eu vou querer um plus, um plus a mais aqui nessa última pergunta. Eu quero uma receita. O que é a tua receita preferida? Em primeiro lugar, minha receita...

preferida. E minha carne, predilada, já mudaram umas 30 vezes nos últimos 30 anos, entendeu? Imagino. Mas, eu gosto muito de carnes com molho. Eu gosto de churrasco, obviamente, e tal, mas eu gosto de carnes com molho. Então, nesse fim de semana vai ter almoço na minha casa e tal, tá esse friozinho, chuvinha e tal. Falei, não, falei pra minha mulher, falei, Solinha, vamos fazer um brasato.

O brasato é um prato do Piemonte, o brasato albarolo, é um prato do Piemonte, que é uma carne, tem uma carne certa para isso e tal, e que hoje é conhecido como raquete, já teve muitos nomes aí. Ele primeiro entra numa panela.

com cebola, cenoura e salsão. Dá uma boa refogada, põe a cenoura, cenoura e salsão, bota uma garrafa de vinho, tempera, uma folha de louro, e pega uma panela que a tampa encaixe bem e que seja 100% metálico.

Essas panelas bonitas de ferro fundido e tal, né? Aí vai para o forno. E no forno ele vai cozinhar durante algumas horas em baixa temperatura. E quando sai, toda aquela gelatina que tem na carne, aquele colágeno todo, acaba se incorporando ao molho, que fica um molho mais espesso, muito gostoso.

E aí eu gosto de serviço com o que eu chamo de purê light. Purê light, assim, vai uma batata, um litro de creme de leite, mais dois tablates de manteiga. Isso é light. É o purê light. Uma batata e um monte de manteiga e creme de leite. E esse é um tipo de prato que eu gosto, principalmente quando dá uma esfriadinha na temperatura, que é o caso de agora.

Que legal, você estava contando, explicando a receita, e você vai gesticulando com as mãos. Me lembrou que você me falou do rádio, que você dando a receita no rádio, você estava vendo, você estava lá, e ninguém está vendo, mas você está lá, gesticulando com as mãos e cozinhando no ar. E abre o forno, pega a panela, pega um pano junto para não queimar a mão, e coloca no forno, mais ou menos faz parte do gestual todo.

Demais. E você na intimidade? Essa pessoa que gosta de cozinhar, o que você mais gosta de fazer quando você está em casa? Olha, eu sempre cultivei muito meus amigos. Então nós temos uma... Ah, tem um segredinho para te contar. Você está na idade perfeita para ouvir essa recomendação. Eu sempre cultivei muito meus amigos. Eu acho que são uma parte muito importante da nossa vida. Então eu tenho amigos em várias áreas, sei lá.

Amigos do mundo da arte, então que a gente vai para concertos, para shows, para não sei o quê. Amigos que degustam vinho. Amigos que degustam whisky single malt. Não aquela de Londres, tem uma... Aqui em São Paulo também se degusta single malt. E eu tenho um grupo de amigos baianos, que são da Bahia. Baianos born and raised em Salvador.

E o que eu descobri com esse grupo, que eu já sou amigo deles há uns bons anos, que é o seguinte, a hora que você chega nos seus 60 e poucos anos, 70, 60 e pouco, começa a procurar os amigos dos seus filhos. É muito importante ter amigos com 20 anos a menos. Essa turma da Bahia, todos estão entre 55 e 60. E eu estou quase nos 80.

E a gente vai para a Bahia, sei lá, quatro vezes por ano, fora o Réveillon. A gente aluga uma casa em Itaparica, todo mundo junto, é uma farra. Então você ter amigos mais jovens é uma recomendação que eu dou para qualquer pessoa.

Porque quando você encontra com pessoas de 80, 90% da conversa acaba falando de médico, doença, remédio, não sei o quê. As dores no joelho, outro dia eu dei uma desarrumada no meu joelho, eu corri 35 anos sem parar, sem interrupção. Mas para mim, atividade física é fundamental. Eu acordo de manhã, faço atividade física, não está solta a chuva, eu faço.

Eu faço hoje três atividades físicas. Dois dias de natação, dois de caminhada, dois de academia. Então, seis vezes por semana eu faço atividade física. Isso para mim é muito importante. Depois, atividade física sempre fez parte da minha vida. Acordo de manhã, eu corri 35 anos. Sou chuva, né? Bota o tênis e vai olhar depois como é que está o tempo. Hoje em dia você não corre mais, mas faz musculação, caminhada.

Natação, que foi o meu primeiro esporte quando eu cheguei no Brasil, e vai ser meu último também, porque é um esporte que não machuca, é bom, é uma coisa mais geral para o corpo inteiro, braços e pernas. Então tem a parte do esporte que eu sempre cultivei, cultuo.

Uma par de arte que também faz parte da minha vida. Ontem teve um concerto lindo de cultura artística, de jazz, e hoje às seis e 15 da manhã eu estava me personal lá em casa. Olha... Com paciência, não tem? Agora das 15 para as 16. Então, acho que essas coisas, cozinhar, se relacionar com os amigos...

Minha filha fala num microfone pro meu pai, que em duas horas não vai devolver. Então é falar e ouvir, entendeu? Falar, contar histórias. Eu cultuo bastante a vida de família, a gente viaja bastante, procura viajar, galera mesmo.

Você me falou tudo que nutre a gente. Comida, amigos, relacionamentos, cultura, artes, viagens, tudo nutre a gente. O problema é que engorda, né? Nem tudo, nem tudo. Muito bonito. Que episódio inspirador. Muito obrigada. Que gostoso, né? Eu adorei te conhecer pessoalmente, já te acompanhava há muitos anos, mas foi uma conversa muito gostosa, muito inspiradora.

E te agradeço muito pela generosidade de vir aqui dividir com a gente. Olha, obviamente, não precisa dizer, realmente eu como ouvinte dos seus podcasts, das suas pílulas diárias aí no Instagram, eu te confesso que eu já várias vezes falei, será que um dia ela vai me convidar? Ela convidou e me encorrendo, mas foi muito gostoso, foi um papo bom e eu sei que você...

faz isso de uma maneira muito natural, muito espontânea, que a gente teve uma conversa agora realmente muito boa. Muito gostosa. Espero que dê bons frutos. Com certeza dará. E quando é genuíno, autêntico, a gente não tem interesse nenhum. A gente só quer dividir histórias de sucesso com as pessoas. E as pessoas se conectam com isso e geram insights que transformam a vida das pessoas. Isso é o mais gratificante, quando a gente pode contribuir para alguém.

muito obrigada e se você gostou desse episódio não deixa de dar o seu like compartilha esse episódio com quem você acha que vai gostar tem até uma receita pra gente compartilhar com alguém que a gente gosta e se inscreve no canal porque esse canal fica mais relevante chega pra mais pessoas e até o próximo Papo Íntimo até

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